... quantas vezes estive mettido de baxo das bravas ondas por saber

o fundo das barras e para que parte endereçavam os canais, e entrada

dos rios até então nunqua lavrados cubertos de bravo mato; e asi

mesmo que para alcansar a verdade das rotas, fluxos do mar, voltas e

remansos de rios, surgidouros de portos, abriguo de enseadas,

deferença das agulhas, altura das cidades, e fazer tavoas de cada

lugar e rio em que se contem a mostra da terra, baxos, restingas,

rotas, e como se devem de entrar, perdi muita parte da saude e

disposição natural.

DOM JOHAM DE CASTRO, _Primeiro roteiro da costa da India._

* * * * *

I

O Infante D. Henrique

Desde o miado do XII seculo que se propagára na Europa a noticia da

existencia de um imperio christão no extremo Oriente. O nuncio da Egreja

da Armenia falára ao papa (Eugenio III) em um principe, chamado João,

cujos dominios estavam situados para além da Armenia e da Persia, e que

reunia ao Imperio o sacerdocio: era um papa do extremo Oriente, e fizera

numerosas conquistas, o Preste-Joham.[58] Esta lenda, espalhada na

Europa, excitava tanto mais a pia curiosidade dos christãos, quanto

essas distantes regiões se pintavam como paraizos carregados de ouro e

encantos.

Durante a Edade-média, vogavam tambem extravagantes lendas ácerca do

Atlantico.[59] As tradições obliteradas pela ignorancia davam caracteres

phantasticos ás antigas viagens dos carthaginezes ao longo das costas

d'Africa, e ás ilhas do mar atlantico.[60] Esse infinito de aguas, onde

mergulhavam todas as costas conhecidas, povoava-se de monstros e sombras

extravagantes; era o Mar Tenebroso! Os homens do norte, que nas suas

barcas tinham descido desde os mares gelados do pólo a piratear nas

costas da França, foram caindo para o sul; e já no XV seculo tinham

chegado ás Canarias, já commerciavam ao longo da costa africana, para

cima do cabo Bojador, onde tambem, por terra, chegavam os berberes de

Marrocos.[61]

As tradições dos geographos antigos, idealisadas pela imaginação bretan,

tinham dado logar á formação de lendas maravilhosas. O mar tenebroso era

um oceano de luz, semeado de ilhas verdes onde havia cidades com

muralhas de ouro resplendente: ao cabo das longas e perigosas viagens

estava o paraizo terreal. Para os geographos arabes, menos fecundos em

phantasias, o mar tenebroso era uma vasta e infinita campina, a acabar

n'um cahos de nevoeiros e vapores aquosos; e, «ainda que os mareantes,

diz Ibn-Khaldún, conheçam os rumos dos ventos, não havendo, para além,

paiz algum habitado, perder-se-hão irremediavelmente, porque o limite do

oceano não é outro, senão o proprio oceano».

Além d'estas tentações maritimas, havia a ambição do Oriente e do seu

commercio, accendida em toda a Europa pelas Cruzadas; e mais

particularmente na Hespanha, pelo contacto intimo em que a occupação

arabe a puzera com os monopolisadores d'esse commercio, durante a

Edade-média. Hormuz[62] era o emporio mercantil de todos os mercadas do

oceano indico. D'ahi as carregações se dirigiam para a Europa e para a

Asia do norte, seguindo derrotas diversas. As da Asia iam em cáfilas,

caminho da Armenia, por Trebizonda, engolphar-se na Tartaria; as da

Europa, ou vinham por mar a Suês, e d'ahi em caravanas, pelo Cairo, a

Alexandria, ou seguiam por terra o valle do Euphrates a Bagdad, passando

em Damasco, no seu caminho de Beirut, sobre o Mediterraneo.

Tinha, porém, no começo do XV seculo, a empreza encetada com tamanho

vigor e tino pelo infante D. Henrique, o pensamento determinado de

chegar por mar--como veiu a chegar-se--ao imperio do Preste-Joham das

Indias? Parece-nos que não. Devassar o mar tenebroso em demanda das

ilhas de que havia uma noticia mais ou menos vaga; reconhecer e ir

occupando gradualmente a costa occidental da Africa--parecem ter sido

emprezas ainda não ligadas n'esse tempo com a da viagem aos reinos do

Preste-Joham. Esta viagem, comtudo, não occupava menos o espirito do

principe, que pensava leval-a a cabo por um caminho differente: por

terra. A conquista de Ceuta prende-se directa e principalmente a este

pensamento. Architectos arabes da Hespanha tinham ido pelo interior da

Africa até Timboktu, cujos palacios rivalizavam com os de Cordova ou de

Granada. Ceuta era a chave maritima do imperio de Marrocos; e,

porventura, atravez da Africa se poderia chegar ao dourado Oriente. Em

todo o caso a terra offerecia um campo de exploração mais definido do

que esse mar incognito, infinito, cheio de trevas.

No ambicioso espirito do infante, cabiam as duas emprezas: conquistar o

imperio marroquino, ou pelo menos o seu litoral, para garantir o

monopolio do commercio do Sudão;[63] e ao mesmo tempo conquistar ás

trevas as ilhas d'esse mar desconhecido, seguindo tambem o longo das

costas occidentaes para as visitar e explorar. Tenaz e até duro de

caracter, D. Henrique sacrifica tudo aos progressos da sua empreza: nem

o dobram as lagrimas do irmão infeliz sacrificado em Tanger, nem as

supplicas do outro irmão, o nobre D. Pedro, talvez por sua culpa morto

em Alfarrobeira. Ás conquistas da Africa immola os dois principes; ás

navegações os seus ocios, as rendas da Ordem de Christo, e as vidas

obscuras dos muitos que morreram ao longo das costas, ou na vasta

amplidão dos mares terriveis. Dominado por um grande pensamento, é

deshumano, como quasi todos os grandes-homens; mas, no limitado numero

dos nossos nomes celebres, o de D. Henrique está ao lado do primeiro

Affonso e de João II. Um fundou o reino, outro fundou o imperio ephemero

do Oriente: entre ambos, D. Henrique foi o heroe pertinaz e duro, a cuja

força Portugal deveu a honra de preceder as nações da Europa na obra do

reconhecimento e vassallagem de todo o globo.

* * * * *

A candida nobreza de Nunalvares, a sabedoria do grão-doctor João das

Regras, a explosão da força nacional, tinham feito de D. João I quasi um

heroe: os seus illustres filhos fazem d'elle o mais feliz dos paes.

Ditoso homem mediocre a quem tudo favorece, deu-lhe a sorte uma esposa

virtuosa e nobre na princeza, cuja lição e cujo exemplo põem a semente

das suas grandes acções no coração dos infantes--D. Pedro, acaso o typo

mais digno de toda a historia nacional; D. Fernando, cujos meritos

desapparecem perante o do martyrio que o santificou; D. Duarte, o rei

sabio e feliz: D. Henrique, finalmente, em cujo cerebro ferviam os

destinos futuros de Portugal. É uma pleiade de homens celebres,

presidindo a uma nação constituida e robusta. Com taes elementos

consegue-se tudo no mundo. Bons guerreiros, á antiga, os infantes não se

parecem, comtudo, já com os antigos personagens. A côrte apresenta uma

phisionomia diversa: dir-se-hia uma Academia. D. Duarte occupa-se em

cousas sábias, escreve o seu _Leal conselheiro_. D. Pedro, cujas

dilatadas viagens chegaram a formar lenda, traz comsigo vasta lição,

muitos livros, cartas, conhecimentos; a litteratura e a geographia

occupam-no por egual, e tambem escreve: dedica ao irmão primogenito o

seu tratado da _Virtuosa benfeitoria_. Á noute, nos serões, lêem-se,

_pouco, passo, e bem apontado_, como D. Duarte manda na sua obra, as

historias seductoras de Galaaz, de Merlim, de Tristão. Não é uma côrte

da Edade-média, é já uma côrte da Renascença, cheia de idéas novas e de

uma cultura eminente. A educação transforma a politica, e as theorias

monarchicas da Italia são applaudidas e adoptadas. Bole-se na

legislação, limitam-se os privilegios aristocraticos e burguezes,

adianta-se a obra da unidade organica do corpo nacional. Os principes,

valentes e sabios, são estadistas, no moderno sentido da palavra; e o

rei, que na mocidade obedecera aos impulsos de Nunalvares, ás lições de

João das Regras, obedece agora aos incitamentos dos filhos, que lhe

mostram, com os livros e os mappas, a conveniencia de ir tomar

Ceuta--primeiro acto de uma longa e ambiciosa historia que desenrolavam

perante os ouvidos soffregos do antigo Mestre de Aviz. A rainha,

orgulhosa nos filhos, approva tanto, que, já moribunda, ainda obriga o

marido a partir. D. João I, passivo agora e sempre, obedece; e, do

principio ao fim da sua fecunda existencia, parece fadado a ornar-se com

os louros por outrem ganhos, a ceifar a seara que outro semeou. Tinha

porém a habilidade propria dos homens de juizo--a de pesar, vêr, e

julgar com rectidão.

* * * * *

Os planos de D. Henrique mereciam a plena approvação do rei, que lhe

dava ampla liberdade para proseguir; e até o incitaria, se o infante

carecesse de estimulo. Já no proprio anno de Ceuta. D. Henrique fizera

uma primeira tentativa, enviando uma frota a sondar e reconhecer a costa

da Africa.

Terminada a empreza de Ceuta, poz decididamente mãos á obra, e

estabeleceu-se em Sagres. Era uma lingua de rocha cravada nas ondas e

acoitada pelas ventanias do noroeste. Estava-se alli como a bordo; e a

academia do infante parecia uma náu, em que vogavam os destinos ainda

ignotos da nação. Os antigos tinham chamado _sacrum_, sagrado, a esse

promontorio, e o nome de agora tambem traduzia, no pensamento e na

linguagem, a passada denominação. Sagres ia ser no XV seculo, como fôra

nos velhos tempos, o pedestal de um templo. Acreditavam os antigos

celtas, do Guadiana espalhados até á costa,[64] que no templo circular

do promontorio sacro, se reuniam ás noutes os deuses, em mysteriosas

conversas com esse mar cheio de enganos e tentações, aberto ao capricho

dos homens para os tragar. Agora, os modernos herdeiros dos druidas

erguiam em Sagres um novo templo, onde tambem ás noutes, não deuses, mas

homens, se entretinham em falas com os ignotos mares, com as regiões

desconhecidas. O espirito era o mesmo, a religião era outra:--era a da

Renascença--a sciencia, a tentação irresistivel que arrastava os homens

para a natureza; que os fazia extenuarem-se a desflorar a virgindade dos

mares, a interrogar a mudez das noutes, na sua ancia de saber, de

dominar, de conhecer o mundo inteiro e os seus segredos: «quantas vezes

estive mettido debaixo das bravas ondas, por saber o fundo das barras e

para que parte endereçavam os canaes!»

Em Sagres reunira o infante todos os recursos de que então dispunham a

cosmographia e a arte de navegar. D. Pedro trouxera-lhe das suas viagens

o manuscripto das peregrinações de Marco Paolo. Esses livros, os mappas

de Valseca, as narrativas e roteiros dos pilotos, as rudes cartas

maritimas, faziam vergar as mesas, a que o infante, tendo ao lado o seu

cosmographo, Jayme de Mayorca, então celebre, rodeado de discipulos,

passava os dias a discorrer, as noutes a interrogar, silenciosamente, os

enygmas propostos nos textos e desenhos. Como Raymundo Lullio, entre as

drogas e retortas do seu laboratório se extenuava a buscar o principio

da vida, os corpos simples ou elementares da materia para obter o

segredo da existencia physica e organica: assim o infante procurava

desvendar os segredos das ilhas e dos continentes, dos golphos e

enseadas, velados pelo manto azul-negro do Mar Tenebroso.

Essa paixão naturalista da Renascença nos seus primeiros tempos, essa

tenaz curiosidade scientifica, differia essencialmente do mysticismo

religioso da Edade-média, eivado de phantasias kabbalisticas, e da

ingenuidade das mythogenias primitivas. O homem já preferia a sciencia á

imaginação: rejeitava as fabulas, e confiava tudo aos processos e aos

meios positivos. «Ora manifesto é, diz, um seculo depois, Pedro Nunes,

que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram

indo a acertar; mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos

de instrumentos e regras de astrologia e geographia, que são as cousas

de que os cosmographos hão de andar apercebidos. Levavam cartas mui

particularmente rumadas, e não já as que os antigos usavam, que não

tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha.» A

bussola, o astrolabio e o quadrante já guiavam as expedições maritimas

enviadas annualmente de Sagres pelo infante, a sondar o Oceano, ou a

descer a costa para o sul. Porto-Santo, a Madeira e os Açores foram por

esta fórma arrancadas ás trevas do mar.[65] Mas, apesar das

successivas investidas, não se conseguira ainda dobrar o cabo Bojador,

limite extremo até onde a costa era conhecida: havia doze annos que os

navios iam e voltavam sem resultado. Era uma barreira natural, junta a

um muro de terrores phantasticos.

Gil Eannes parte, afinal, em 1434, e volta com a desejada nova. O mundo

não acabava alli, sabia-se já; mas seria possivel ir além d'esse

_finis-terrae_ da Africa? Gil Eannes voltou para responder

affirmativamente. Dissiparam-se, portanto, os sustos; e os navios foram

seguindo, costa abaixo, por Cabo-Verde, a Guiné, onde, cheios de

satisfação, os mareantes aprisionam os primeiros negros--os azenegues do

Senegal.[66]

Era um antegosto das horrorosas façanhas a que as tentações do mar os

haviam de conduzir; mas as perdas de gente e dinheiro, já sensiveis, o

dilatado das viagens, sem consequencias fecundas, esfriavam nos animos o

enthusiasmo do principio. Não acabava, jámais, a costa da Africa! e o

Preste-Joham e os encantos do Oriente traduziam-se apenas pela

_malagueta_ da Guiné.[67]

O infante morreu em 1460, e com a sua morte parou o movimento das

navegações. A empreza, primeiro esboçada, parecia colossal de mais para

as forças da nação: não podiam ellas vencer de todo, nem o Mar, nem

Marrocos; e o que se tinha conseguido, perante os resultados praticos,

desanimava, e fazia sentir cansaço.

* * * * *

Antes de nos alongarmos na historia d'essa empreza, cabe-nos o dever de

registrar brevemente a da formação das forças navaes portuguezas,

indispensaveis para o emprehendimento das viagens de descoberta e das

expedições militares á costa da Berberia.

Póde dizer-se que, até ao fim do XII seculo, não ha marinha na Hespanha

occidental. As luctas da reconquista, então feridas, eram-no por terra

exclusivamente; e a impericia maritima dos christãos, junta aos

relativos progressos dos arabes concorriam para tornar difficil a

conservação das praças litoraes conquistadas. Os primeiros dispunham

apenas de pequenas lanchas costeiras; emquanto os segundos tinham navios

regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa

occidental, refrescando nos seus portos, abastecendo-os de munições e

gente quando estavam cercados, e desembarcando a miude, com o fim de

talar os campos dos christãos e captivar os tardivagos ou indefesos. Já,

porém, no XI seculo o bispo de Compostella tinha mandado vir de Genova

pilotos, sob cuja inspecção construiu duas galés que foram ás costas do

Algarb sarraceno pagar em moeda egual antigas e grossas dividas. Os

genovezes foram os nossos mestres na arte de navegar.

Mas desde o meiado do XII seculo o exame das armadas de Cruzados, com

cujo auxilio Lisboa e depois Alcacer foram tomadas, tinha vindo

accrescentar os conhecimentos: demonstrando ao mesmo tempo que, sem o

imperio no mar, jámais poderia levar-se a cabo a conquista do sul do

reino. Á empreza de Silves, no tempo de Sancho I, vão já navios

portuguezes; e o que escrevemos sobre o caracter mais regular e

systematico da politica e das campanhas d'esse reinado leva-nos a crêr

que d'ahi deve datar-se a fundação da marinha militar portugueza. Com

effeito, essa marinha existe nos reinados de Sancho II e de Affonso III,

como o provam as expedições maritimas que terminaram pela conquista

definitiva do Algarve, e as façanhas do lendario Fuas Roupinho. Havia

então já um corpo de tropas especiaes de embarque.

Que eram esses navios, porém? O leitor de certo viu alguma vez, de

tarde, ao cair do sol, o recolher dos barcos, voltando do mar, nas

praias de Ovar ou da Povoa-de-Varzim. Viu a construcção e os typos

d'esses navios primitivos, e as pittorescas physionomias dos seus

tripulantes: eis ahi uma esquadra do XIII seculo.[68] Vel-a-ha, real e

verdadeiramente, se, com a imaginação, substituir por armas os

utensilios da pesca. E quando os barcos, encalhados na areia humida,

descarregaram--hoje o peixe, então as presas, os mantimentos e a

gente--homens e mulheres, fincadas as mãos sobre os joelhos, curvados,

com o dorso contra o costado do barco, em linha ao longo d'elle,

impellem-no, manobrando ao som de um canto rythmico, para o fazer rolar

sobre toros até ficar em secco, distante dos perigos das ondas. Essa

scena repetia-se para pôr a enxuto, e para pôr a nado as embarcações; e

Sancho II realisou um progresso, ainda hoje desconhecido nas nossas

praias de pescadores: mandou construir _debadoyras_ (cabrestantes) para

encalhar, tirados por cabos, os navios. No tempo de Affonso III já o

poder maritimo portuguez é de tal ordem, que os nossos navios vão em

soccorro a Castella, e o papa nos convida a acompanhar as gentes do

norte á Cruzada.

O reinado de D. Diniz marca uma segunda éra na historia da marinha

nacional. Reciprocamente indispensaveis a marinha mercante e a militar,

os cuidados do rei administrador dirigem-se principalmente a fomentar a

primeira, cuja importancia o tratado de commercio, feito em 1308 com a

Inglaterra, accusa. Além d'isto o rei applica-se a melhorar o porto de

Paredes, na costa ao norte do cabo da Roca, defendendo-o contra as

dunas, que, apesar de tudo, o invadem e destroem. Com este mesmo

pensamento mandaria semear o pinhal de Leiria. Tambem no seu tempo, por

morte do conde do mar, Nuno Cogominho, em cuja familia esse cargo

andára, vem tomar o almirantado da armada portugueza o genovez Pezzagna.

Nacionalizada, a familia dos Peçanhas tem por largos tempos o condado do

mar, ou almirantado, como já, á moda arabe, se dizia então.

Os progressos realisados no XIV seculo preparam os recursos poderosos,

com que, no seguinte, o infante D. Henrique póde levar de frente as duas

emprezas a que votára a sua existencia. D. Fernando, o _amavioso_ e

infeliz rei, merece n'esta historia uma menção condigna. Apesar das

chimeras da sua politica tornarem em derrotas as suas emprezas, a

sabedoria e o alcance economico da sua legislação dão-lhe o direito de

preeminencia na historia da formação do poder naval dos portuguezes. Já

então a alfandega de Lisboa rendia, por anno, de 35 a 40 mil

dobras:[69] o que demonstra o progresso commercial do reino,

e comprova a opinião expressa no livro anterior, da deslocação do centro

de gravidade nacional do norte para o sul, e da nova phisionomia

adquirida depois do antigo caso da separação do condado portuguez do

corpo da monarchia leoneza.

O rei que pretendia, com justiça, impedir aos proprietarios a detenção

improductiva das terras, obrigando-os a lavral-as, ou a dal-as a quem

por elles o fizesse, era o mesmo que, n'um corpo de leis, protegia e

fomentava o commercio maritimo de Lisboa, já então uma cidade

cosmopolita. Os genovezes, os lombardos, os aragonezes, os mayorquinos,

milanezes, corsos, biscainhos, gentes de tão variadas partes--de toda a

Hespanha e das costas circum-mediterraneas--fixavam-se em Lisboa a

commerciar. Pelo Tejo saíam cada anno para cima de doze mil tonneis de

vinho, sem contar o dos navios da segunda carregação, em março. Os

navios eram já maiores e tinham coberta. O chronista chama á capital

«grande cidade de muitas e desvairadas gentes». Era uma Veneza que se

formava para succeder á antiga; e, como nas cidades republicanas da

Italia, tambem o commercio era privilegio dos mercadores, prohibido aos

nobres e clerigos, sendo vedado aos estrangeiros negociar fóra do

porto-franco de Lisboa.

O rei D. Fernando assistia ao pleno desenvolvimento de uma potencia

commercial e maritima: e o que fez em favor do seu progresso demonstra a

lucidez do seu espirito. O rei em pessoa era armador e negociante de

certos generos exclusivos. Creou _bolsas_ de seguros maritimos, mutuos,

em Lisboa e no Porto, com o producto de uma taxa especial lançada sobre

o commercio, instituindo o cadastro ou estatistica naval. Reduziu a

metade os direitos de importação dos generos trazidos por navios

nacionaes, estabelecendo assim um direito differencial de bandeira, a

cuja sombra se multiplicou o numero dos navios mercantes portugueses.

Deu, aos que desejassem construil-os, a faculdade de cortar madeiras nas

mattas reaes. Isentou de direitos os materiaes de construcção naval, e

os navios construidos fóra, por conta de nacionaes: e o mesmo concedeu á

exportação dos generos do primeiro carregamento de navios novos. Por

sobre esta protecção efficaz e energica, emprestava ainda aos armadores

capitaes para commerciarem, ficando interessado com elles no dizimo dos

lucros, que se liquidavam duas vezes ao anno.

N'outro logar dissemos que o governo de D. Fernando fôra um cesarísmo, e

com effeito o foi de todos os modos: na sábia protecção dada ao fomento

material da nação, na violencia das medidas de salvação publica, na

desordem dos costumes da côrte, e no caracter bondoso e ingenuamente

devasso do rei. Este Cesar do fim da Edade-média preparava o caminho á

nação, cuja vida brilhante de dois seculos, afastada da estrada

ordinaria da agricultura e da industria, ia ser a vida de uma Roma

imperial, de uma Carthago, de uma Veneza: metropole acanhada de um

imperio colossal, subordinada nos seus destinos ao merecimento

individual dos governantes autocratas, mais do que á força espontanea de

um espirito nacional, ao machinismo activo de um systema de instituições

e classes, organicamente construido e funccionando normalmente. De todos

os fundadores do Portugal maritimo D. Fernando é o maior; e se as

queixas formuladas, ao decair do XVI seculo, contra os que afastaram os

portuguezes do arado para o leme, do campo para o mar, teem razão

absoluta--a sabedoria de D. Fernando foi como o peior dos erros. Camões

fulminava, pela bocca do velho do Restello, os que arrastavam Portugal

para o mar; como Plutarcho tambem condemnou Themistocles por ter lançado

os athenienses no caminho das emprezas maritimas.

Mas esses lamentos do espirito utilitario, se teem um cunho de verdade

positiva, teem tambem um escasso merecimento historico. Não tivesse a

Grecia sido colonisadora e maritima, e a sua voz educadora jámais se

teria ouvido no mundo. Outrotanto diremos de nós. Não tivessemos

alargado pelo mar um nome sem razão de ser na Europa, e, jungidos á

Galliza virente e á Castella farta, teriamos tido menos fome e menos

dôres, menos miserias decerto, mas nenhuma honra, tambem, na historia. O

proprio nome de Portugal não teria existido, senão como lembrança

erudita de um certo condado, que, nas mãos de principes astutos e

atrevidos, conseguira viver alguns seculos separado do corpo da nação

hespanhola.

Traduzirá isto apenas uma vaga e sentimental banalidade? Não, decerto.

Infeliz de quem não viveu; e viver, para os homens e para as nações,

differe de absorver, digerir e segregar, porque é mais do que satisfazer

as necessidades organicas. Além d'isto, o destino, fatalidade,

providencia, determinação, ou como se queira dizer--traduzido com as

successivas palavras, antigas, actuaes ou futuras, um mysterio

eterno--elege ou condemna--escolham tambem os sectarios entre as duas

expressões--os homens e as nações a uma determinada obra. Nós fomos

elegidos ou condemnados a conquistar para o mundo esse Mar Tenebroso que

o enchia de vagas ambições ou de funebres terrores.

Era este o momento opportuno de dizermos todo o nosso pensamento ácerca

da empreza nacional, do seu destino, da sua missão, ou como aprouver

melhor chamar-lhe. A viagem das Indias, que vamos contar--descrevendo

previamente a derrota, por Ceuta e Tanger, e, no reino, pela

consolidação do poder cesarêo dos reis--necessitava ser julgada: agora

que, ainda no molhe os tripulantes, sobre a amarra os navios, se não

desferrou o panno, nem se deram as salvas da partida.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 11 / 21 段