o fundo das barras e para que parte endereçavam os canais, e entrada
dos rios até então nunqua lavrados cubertos de bravo mato; e asi
mesmo que para alcansar a verdade das rotas, fluxos do mar, voltas e
remansos de rios, surgidouros de portos, abriguo de enseadas,
deferença das agulhas, altura das cidades, e fazer tavoas de cada
lugar e rio em que se contem a mostra da terra, baxos, restingas,
rotas, e como se devem de entrar, perdi muita parte da saude e
disposição natural.
DOM JOHAM DE CASTRO, _Primeiro roteiro da costa da India._
* * * * *
I
O Infante D. Henrique
Desde o miado do XII seculo que se propagára na Europa a noticia da
existencia de um imperio christão no extremo Oriente. O nuncio da Egreja
da Armenia falára ao papa (Eugenio III) em um principe, chamado João,
cujos dominios estavam situados para além da Armenia e da Persia, e que
reunia ao Imperio o sacerdocio: era um papa do extremo Oriente, e fizera
numerosas conquistas, o Preste-Joham.[58] Esta lenda, espalhada na
Europa, excitava tanto mais a pia curiosidade dos christãos, quanto
essas distantes regiões se pintavam como paraizos carregados de ouro e
encantos.
Durante a Edade-média, vogavam tambem extravagantes lendas ácerca do
Atlantico.[59] As tradições obliteradas pela ignorancia davam caracteres
phantasticos ás antigas viagens dos carthaginezes ao longo das costas
d'Africa, e ás ilhas do mar atlantico.[60] Esse infinito de aguas, onde
mergulhavam todas as costas conhecidas, povoava-se de monstros e sombras
extravagantes; era o Mar Tenebroso! Os homens do norte, que nas suas
barcas tinham descido desde os mares gelados do pólo a piratear nas
costas da França, foram caindo para o sul; e já no XV seculo tinham
chegado ás Canarias, já commerciavam ao longo da costa africana, para
cima do cabo Bojador, onde tambem, por terra, chegavam os berberes de
Marrocos.[61]
As tradições dos geographos antigos, idealisadas pela imaginação bretan,
tinham dado logar á formação de lendas maravilhosas. O mar tenebroso era
um oceano de luz, semeado de ilhas verdes onde havia cidades com
muralhas de ouro resplendente: ao cabo das longas e perigosas viagens
estava o paraizo terreal. Para os geographos arabes, menos fecundos em
phantasias, o mar tenebroso era uma vasta e infinita campina, a acabar
n'um cahos de nevoeiros e vapores aquosos; e, «ainda que os mareantes,
diz Ibn-Khaldún, conheçam os rumos dos ventos, não havendo, para além,
paiz algum habitado, perder-se-hão irremediavelmente, porque o limite do
oceano não é outro, senão o proprio oceano».
Além d'estas tentações maritimas, havia a ambição do Oriente e do seu
commercio, accendida em toda a Europa pelas Cruzadas; e mais
particularmente na Hespanha, pelo contacto intimo em que a occupação
arabe a puzera com os monopolisadores d'esse commercio, durante a
Edade-média. Hormuz[62] era o emporio mercantil de todos os mercadas do
oceano indico. D'ahi as carregações se dirigiam para a Europa e para a
Asia do norte, seguindo derrotas diversas. As da Asia iam em cáfilas,
caminho da Armenia, por Trebizonda, engolphar-se na Tartaria; as da
Europa, ou vinham por mar a Suês, e d'ahi em caravanas, pelo Cairo, a
Alexandria, ou seguiam por terra o valle do Euphrates a Bagdad, passando
em Damasco, no seu caminho de Beirut, sobre o Mediterraneo.
Tinha, porém, no começo do XV seculo, a empreza encetada com tamanho
vigor e tino pelo infante D. Henrique, o pensamento determinado de
chegar por mar--como veiu a chegar-se--ao imperio do Preste-Joham das
Indias? Parece-nos que não. Devassar o mar tenebroso em demanda das
ilhas de que havia uma noticia mais ou menos vaga; reconhecer e ir
occupando gradualmente a costa occidental da Africa--parecem ter sido
emprezas ainda não ligadas n'esse tempo com a da viagem aos reinos do
Preste-Joham. Esta viagem, comtudo, não occupava menos o espirito do
principe, que pensava leval-a a cabo por um caminho differente: por
terra. A conquista de Ceuta prende-se directa e principalmente a este
pensamento. Architectos arabes da Hespanha tinham ido pelo interior da
Africa até Timboktu, cujos palacios rivalizavam com os de Cordova ou de
Granada. Ceuta era a chave maritima do imperio de Marrocos; e,
porventura, atravez da Africa se poderia chegar ao dourado Oriente. Em
todo o caso a terra offerecia um campo de exploração mais definido do
que esse mar incognito, infinito, cheio de trevas.
No ambicioso espirito do infante, cabiam as duas emprezas: conquistar o
imperio marroquino, ou pelo menos o seu litoral, para garantir o
monopolio do commercio do Sudão;[63] e ao mesmo tempo conquistar ás
trevas as ilhas d'esse mar desconhecido, seguindo tambem o longo das
costas occidentaes para as visitar e explorar. Tenaz e até duro de
caracter, D. Henrique sacrifica tudo aos progressos da sua empreza: nem
o dobram as lagrimas do irmão infeliz sacrificado em Tanger, nem as
supplicas do outro irmão, o nobre D. Pedro, talvez por sua culpa morto
em Alfarrobeira. Ás conquistas da Africa immola os dois principes; ás
navegações os seus ocios, as rendas da Ordem de Christo, e as vidas
obscuras dos muitos que morreram ao longo das costas, ou na vasta
amplidão dos mares terriveis. Dominado por um grande pensamento, é
deshumano, como quasi todos os grandes-homens; mas, no limitado numero
dos nossos nomes celebres, o de D. Henrique está ao lado do primeiro
Affonso e de João II. Um fundou o reino, outro fundou o imperio ephemero
do Oriente: entre ambos, D. Henrique foi o heroe pertinaz e duro, a cuja
força Portugal deveu a honra de preceder as nações da Europa na obra do
reconhecimento e vassallagem de todo o globo.
* * * * *
A candida nobreza de Nunalvares, a sabedoria do grão-doctor João das
Regras, a explosão da força nacional, tinham feito de D. João I quasi um
heroe: os seus illustres filhos fazem d'elle o mais feliz dos paes.
Ditoso homem mediocre a quem tudo favorece, deu-lhe a sorte uma esposa
virtuosa e nobre na princeza, cuja lição e cujo exemplo põem a semente
das suas grandes acções no coração dos infantes--D. Pedro, acaso o typo
mais digno de toda a historia nacional; D. Fernando, cujos meritos
desapparecem perante o do martyrio que o santificou; D. Duarte, o rei
sabio e feliz: D. Henrique, finalmente, em cujo cerebro ferviam os
destinos futuros de Portugal. É uma pleiade de homens celebres,
presidindo a uma nação constituida e robusta. Com taes elementos
consegue-se tudo no mundo. Bons guerreiros, á antiga, os infantes não se
parecem, comtudo, já com os antigos personagens. A côrte apresenta uma
phisionomia diversa: dir-se-hia uma Academia. D. Duarte occupa-se em
cousas sábias, escreve o seu _Leal conselheiro_. D. Pedro, cujas
dilatadas viagens chegaram a formar lenda, traz comsigo vasta lição,
muitos livros, cartas, conhecimentos; a litteratura e a geographia
occupam-no por egual, e tambem escreve: dedica ao irmão primogenito o
seu tratado da _Virtuosa benfeitoria_. Á noute, nos serões, lêem-se,
_pouco, passo, e bem apontado_, como D. Duarte manda na sua obra, as
historias seductoras de Galaaz, de Merlim, de Tristão. Não é uma côrte
da Edade-média, é já uma côrte da Renascença, cheia de idéas novas e de
uma cultura eminente. A educação transforma a politica, e as theorias
monarchicas da Italia são applaudidas e adoptadas. Bole-se na
legislação, limitam-se os privilegios aristocraticos e burguezes,
adianta-se a obra da unidade organica do corpo nacional. Os principes,
valentes e sabios, são estadistas, no moderno sentido da palavra; e o
rei, que na mocidade obedecera aos impulsos de Nunalvares, ás lições de
João das Regras, obedece agora aos incitamentos dos filhos, que lhe
mostram, com os livros e os mappas, a conveniencia de ir tomar
Ceuta--primeiro acto de uma longa e ambiciosa historia que desenrolavam
perante os ouvidos soffregos do antigo Mestre de Aviz. A rainha,
orgulhosa nos filhos, approva tanto, que, já moribunda, ainda obriga o
marido a partir. D. João I, passivo agora e sempre, obedece; e, do
principio ao fim da sua fecunda existencia, parece fadado a ornar-se com
os louros por outrem ganhos, a ceifar a seara que outro semeou. Tinha
porém a habilidade propria dos homens de juizo--a de pesar, vêr, e
julgar com rectidão.
* * * * *
Os planos de D. Henrique mereciam a plena approvação do rei, que lhe
dava ampla liberdade para proseguir; e até o incitaria, se o infante
carecesse de estimulo. Já no proprio anno de Ceuta. D. Henrique fizera
uma primeira tentativa, enviando uma frota a sondar e reconhecer a costa
da Africa.
Terminada a empreza de Ceuta, poz decididamente mãos á obra, e
estabeleceu-se em Sagres. Era uma lingua de rocha cravada nas ondas e
acoitada pelas ventanias do noroeste. Estava-se alli como a bordo; e a
academia do infante parecia uma náu, em que vogavam os destinos ainda
ignotos da nação. Os antigos tinham chamado _sacrum_, sagrado, a esse
promontorio, e o nome de agora tambem traduzia, no pensamento e na
linguagem, a passada denominação. Sagres ia ser no XV seculo, como fôra
nos velhos tempos, o pedestal de um templo. Acreditavam os antigos
celtas, do Guadiana espalhados até á costa,[64] que no templo circular
do promontorio sacro, se reuniam ás noutes os deuses, em mysteriosas
conversas com esse mar cheio de enganos e tentações, aberto ao capricho
dos homens para os tragar. Agora, os modernos herdeiros dos druidas
erguiam em Sagres um novo templo, onde tambem ás noutes, não deuses, mas
homens, se entretinham em falas com os ignotos mares, com as regiões
desconhecidas. O espirito era o mesmo, a religião era outra:--era a da
Renascença--a sciencia, a tentação irresistivel que arrastava os homens
para a natureza; que os fazia extenuarem-se a desflorar a virgindade dos
mares, a interrogar a mudez das noutes, na sua ancia de saber, de
dominar, de conhecer o mundo inteiro e os seus segredos: «quantas vezes
estive mettido debaixo das bravas ondas, por saber o fundo das barras e
para que parte endereçavam os canaes!»
Em Sagres reunira o infante todos os recursos de que então dispunham a
cosmographia e a arte de navegar. D. Pedro trouxera-lhe das suas viagens
o manuscripto das peregrinações de Marco Paolo. Esses livros, os mappas
de Valseca, as narrativas e roteiros dos pilotos, as rudes cartas
maritimas, faziam vergar as mesas, a que o infante, tendo ao lado o seu
cosmographo, Jayme de Mayorca, então celebre, rodeado de discipulos,
passava os dias a discorrer, as noutes a interrogar, silenciosamente, os
enygmas propostos nos textos e desenhos. Como Raymundo Lullio, entre as
drogas e retortas do seu laboratório se extenuava a buscar o principio
da vida, os corpos simples ou elementares da materia para obter o
segredo da existencia physica e organica: assim o infante procurava
desvendar os segredos das ilhas e dos continentes, dos golphos e
enseadas, velados pelo manto azul-negro do Mar Tenebroso.
Essa paixão naturalista da Renascença nos seus primeiros tempos, essa
tenaz curiosidade scientifica, differia essencialmente do mysticismo
religioso da Edade-média, eivado de phantasias kabbalisticas, e da
ingenuidade das mythogenias primitivas. O homem já preferia a sciencia á
imaginação: rejeitava as fabulas, e confiava tudo aos processos e aos
meios positivos. «Ora manifesto é, diz, um seculo depois, Pedro Nunes,
que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram
indo a acertar; mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos
de instrumentos e regras de astrologia e geographia, que são as cousas
de que os cosmographos hão de andar apercebidos. Levavam cartas mui
particularmente rumadas, e não já as que os antigos usavam, que não
tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha.» A
bussola, o astrolabio e o quadrante já guiavam as expedições maritimas
enviadas annualmente de Sagres pelo infante, a sondar o Oceano, ou a
descer a costa para o sul. Porto-Santo, a Madeira e os Açores foram por
esta fórma arrancadas ás trevas do mar.[65] Mas, apesar das
successivas investidas, não se conseguira ainda dobrar o cabo Bojador,
limite extremo até onde a costa era conhecida: havia doze annos que os
navios iam e voltavam sem resultado. Era uma barreira natural, junta a
um muro de terrores phantasticos.
Gil Eannes parte, afinal, em 1434, e volta com a desejada nova. O mundo
não acabava alli, sabia-se já; mas seria possivel ir além d'esse
_finis-terrae_ da Africa? Gil Eannes voltou para responder
affirmativamente. Dissiparam-se, portanto, os sustos; e os navios foram
seguindo, costa abaixo, por Cabo-Verde, a Guiné, onde, cheios de
satisfação, os mareantes aprisionam os primeiros negros--os azenegues do
Senegal.[66]
Era um antegosto das horrorosas façanhas a que as tentações do mar os
haviam de conduzir; mas as perdas de gente e dinheiro, já sensiveis, o
dilatado das viagens, sem consequencias fecundas, esfriavam nos animos o
enthusiasmo do principio. Não acabava, jámais, a costa da Africa! e o
Preste-Joham e os encantos do Oriente traduziam-se apenas pela
_malagueta_ da Guiné.[67]
O infante morreu em 1460, e com a sua morte parou o movimento das
navegações. A empreza, primeiro esboçada, parecia colossal de mais para
as forças da nação: não podiam ellas vencer de todo, nem o Mar, nem
Marrocos; e o que se tinha conseguido, perante os resultados praticos,
desanimava, e fazia sentir cansaço.
* * * * *
Antes de nos alongarmos na historia d'essa empreza, cabe-nos o dever de
registrar brevemente a da formação das forças navaes portuguezas,
indispensaveis para o emprehendimento das viagens de descoberta e das
expedições militares á costa da Berberia.
Póde dizer-se que, até ao fim do XII seculo, não ha marinha na Hespanha
occidental. As luctas da reconquista, então feridas, eram-no por terra
exclusivamente; e a impericia maritima dos christãos, junta aos
relativos progressos dos arabes concorriam para tornar difficil a
conservação das praças litoraes conquistadas. Os primeiros dispunham
apenas de pequenas lanchas costeiras; emquanto os segundos tinham navios
regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa
occidental, refrescando nos seus portos, abastecendo-os de munições e
gente quando estavam cercados, e desembarcando a miude, com o fim de
talar os campos dos christãos e captivar os tardivagos ou indefesos. Já,
porém, no XI seculo o bispo de Compostella tinha mandado vir de Genova
pilotos, sob cuja inspecção construiu duas galés que foram ás costas do
Algarb sarraceno pagar em moeda egual antigas e grossas dividas. Os
genovezes foram os nossos mestres na arte de navegar.
Mas desde o meiado do XII seculo o exame das armadas de Cruzados, com
cujo auxilio Lisboa e depois Alcacer foram tomadas, tinha vindo
accrescentar os conhecimentos: demonstrando ao mesmo tempo que, sem o
imperio no mar, jámais poderia levar-se a cabo a conquista do sul do
reino. Á empreza de Silves, no tempo de Sancho I, vão já navios
portuguezes; e o que escrevemos sobre o caracter mais regular e
systematico da politica e das campanhas d'esse reinado leva-nos a crêr
que d'ahi deve datar-se a fundação da marinha militar portugueza. Com
effeito, essa marinha existe nos reinados de Sancho II e de Affonso III,
como o provam as expedições maritimas que terminaram pela conquista
definitiva do Algarve, e as façanhas do lendario Fuas Roupinho. Havia
então já um corpo de tropas especiaes de embarque.
Que eram esses navios, porém? O leitor de certo viu alguma vez, de
tarde, ao cair do sol, o recolher dos barcos, voltando do mar, nas
praias de Ovar ou da Povoa-de-Varzim. Viu a construcção e os typos
d'esses navios primitivos, e as pittorescas physionomias dos seus
tripulantes: eis ahi uma esquadra do XIII seculo.[68] Vel-a-ha, real e
verdadeiramente, se, com a imaginação, substituir por armas os
utensilios da pesca. E quando os barcos, encalhados na areia humida,
descarregaram--hoje o peixe, então as presas, os mantimentos e a
gente--homens e mulheres, fincadas as mãos sobre os joelhos, curvados,
com o dorso contra o costado do barco, em linha ao longo d'elle,
impellem-no, manobrando ao som de um canto rythmico, para o fazer rolar
sobre toros até ficar em secco, distante dos perigos das ondas. Essa
scena repetia-se para pôr a enxuto, e para pôr a nado as embarcações; e
Sancho II realisou um progresso, ainda hoje desconhecido nas nossas
praias de pescadores: mandou construir _debadoyras_ (cabrestantes) para
encalhar, tirados por cabos, os navios. No tempo de Affonso III já o
poder maritimo portuguez é de tal ordem, que os nossos navios vão em
soccorro a Castella, e o papa nos convida a acompanhar as gentes do
norte á Cruzada.
O reinado de D. Diniz marca uma segunda éra na historia da marinha
nacional. Reciprocamente indispensaveis a marinha mercante e a militar,
os cuidados do rei administrador dirigem-se principalmente a fomentar a
primeira, cuja importancia o tratado de commercio, feito em 1308 com a
Inglaterra, accusa. Além d'isto o rei applica-se a melhorar o porto de
Paredes, na costa ao norte do cabo da Roca, defendendo-o contra as
dunas, que, apesar de tudo, o invadem e destroem. Com este mesmo
pensamento mandaria semear o pinhal de Leiria. Tambem no seu tempo, por
morte do conde do mar, Nuno Cogominho, em cuja familia esse cargo
andára, vem tomar o almirantado da armada portugueza o genovez Pezzagna.
Nacionalizada, a familia dos Peçanhas tem por largos tempos o condado do
mar, ou almirantado, como já, á moda arabe, se dizia então.
Os progressos realisados no XIV seculo preparam os recursos poderosos,
com que, no seguinte, o infante D. Henrique póde levar de frente as duas
emprezas a que votára a sua existencia. D. Fernando, o _amavioso_ e
infeliz rei, merece n'esta historia uma menção condigna. Apesar das
chimeras da sua politica tornarem em derrotas as suas emprezas, a
sabedoria e o alcance economico da sua legislação dão-lhe o direito de
preeminencia na historia da formação do poder naval dos portuguezes. Já
então a alfandega de Lisboa rendia, por anno, de 35 a 40 mil
dobras:[69] o que demonstra o progresso commercial do reino,
e comprova a opinião expressa no livro anterior, da deslocação do centro
de gravidade nacional do norte para o sul, e da nova phisionomia
adquirida depois do antigo caso da separação do condado portuguez do
corpo da monarchia leoneza.
O rei que pretendia, com justiça, impedir aos proprietarios a detenção
improductiva das terras, obrigando-os a lavral-as, ou a dal-as a quem
por elles o fizesse, era o mesmo que, n'um corpo de leis, protegia e
fomentava o commercio maritimo de Lisboa, já então uma cidade
cosmopolita. Os genovezes, os lombardos, os aragonezes, os mayorquinos,
milanezes, corsos, biscainhos, gentes de tão variadas partes--de toda a
Hespanha e das costas circum-mediterraneas--fixavam-se em Lisboa a
commerciar. Pelo Tejo saíam cada anno para cima de doze mil tonneis de
vinho, sem contar o dos navios da segunda carregação, em março. Os
navios eram já maiores e tinham coberta. O chronista chama á capital
«grande cidade de muitas e desvairadas gentes». Era uma Veneza que se
formava para succeder á antiga; e, como nas cidades republicanas da
Italia, tambem o commercio era privilegio dos mercadores, prohibido aos
nobres e clerigos, sendo vedado aos estrangeiros negociar fóra do
porto-franco de Lisboa.
O rei D. Fernando assistia ao pleno desenvolvimento de uma potencia
commercial e maritima: e o que fez em favor do seu progresso demonstra a
lucidez do seu espirito. O rei em pessoa era armador e negociante de
certos generos exclusivos. Creou _bolsas_ de seguros maritimos, mutuos,
em Lisboa e no Porto, com o producto de uma taxa especial lançada sobre
o commercio, instituindo o cadastro ou estatistica naval. Reduziu a
metade os direitos de importação dos generos trazidos por navios
nacionaes, estabelecendo assim um direito differencial de bandeira, a
cuja sombra se multiplicou o numero dos navios mercantes portugueses.
Deu, aos que desejassem construil-os, a faculdade de cortar madeiras nas
mattas reaes. Isentou de direitos os materiaes de construcção naval, e
os navios construidos fóra, por conta de nacionaes: e o mesmo concedeu á
exportação dos generos do primeiro carregamento de navios novos. Por
sobre esta protecção efficaz e energica, emprestava ainda aos armadores
capitaes para commerciarem, ficando interessado com elles no dizimo dos
lucros, que se liquidavam duas vezes ao anno.
N'outro logar dissemos que o governo de D. Fernando fôra um cesarísmo, e
com effeito o foi de todos os modos: na sábia protecção dada ao fomento
material da nação, na violencia das medidas de salvação publica, na
desordem dos costumes da côrte, e no caracter bondoso e ingenuamente
devasso do rei. Este Cesar do fim da Edade-média preparava o caminho á
nação, cuja vida brilhante de dois seculos, afastada da estrada
ordinaria da agricultura e da industria, ia ser a vida de uma Roma
imperial, de uma Carthago, de uma Veneza: metropole acanhada de um
imperio colossal, subordinada nos seus destinos ao merecimento
individual dos governantes autocratas, mais do que á força espontanea de
um espirito nacional, ao machinismo activo de um systema de instituições
e classes, organicamente construido e funccionando normalmente. De todos
os fundadores do Portugal maritimo D. Fernando é o maior; e se as
queixas formuladas, ao decair do XVI seculo, contra os que afastaram os
portuguezes do arado para o leme, do campo para o mar, teem razão
absoluta--a sabedoria de D. Fernando foi como o peior dos erros. Camões
fulminava, pela bocca do velho do Restello, os que arrastavam Portugal
para o mar; como Plutarcho tambem condemnou Themistocles por ter lançado
os athenienses no caminho das emprezas maritimas.
Mas esses lamentos do espirito utilitario, se teem um cunho de verdade
positiva, teem tambem um escasso merecimento historico. Não tivesse a
Grecia sido colonisadora e maritima, e a sua voz educadora jámais se
teria ouvido no mundo. Outrotanto diremos de nós. Não tivessemos
alargado pelo mar um nome sem razão de ser na Europa, e, jungidos á
Galliza virente e á Castella farta, teriamos tido menos fome e menos
dôres, menos miserias decerto, mas nenhuma honra, tambem, na historia. O
proprio nome de Portugal não teria existido, senão como lembrança
erudita de um certo condado, que, nas mãos de principes astutos e
atrevidos, conseguira viver alguns seculos separado do corpo da nação
hespanhola.
Traduzirá isto apenas uma vaga e sentimental banalidade? Não, decerto.
Infeliz de quem não viveu; e viver, para os homens e para as nações,
differe de absorver, digerir e segregar, porque é mais do que satisfazer
as necessidades organicas. Além d'isto, o destino, fatalidade,
providencia, determinação, ou como se queira dizer--traduzido com as
successivas palavras, antigas, actuaes ou futuras, um mysterio
eterno--elege ou condemna--escolham tambem os sectarios entre as duas
expressões--os homens e as nações a uma determinada obra. Nós fomos
elegidos ou condemnados a conquistar para o mundo esse Mar Tenebroso que
o enchia de vagas ambições ou de funebres terrores.
Era este o momento opportuno de dizermos todo o nosso pensamento ácerca
da empreza nacional, do seu destino, da sua missão, ou como aprouver
melhor chamar-lhe. A viagem das Indias, que vamos contar--descrevendo
previamente a derrota, por Ceuta e Tanger, e, no reino, pela
consolidação do poder cesarêo dos reis--necessitava ser julgada: agora
que, ainda no molhe os tripulantes, sobre a amarra os navios, se não
desferrou o panno, nem se deram as salvas da partida.