Como a rainha sabia a ruim opinião que havia a seu respeito, «fingia-se

mui desconsolada e chorava em grandes prantos. Em uma camara escura,

coberta de dó, com lagrimas e soluços--que ás mulheres não faltam quando

lhes servem--se lamentava, com as visitas, do seu desamparo,

queixando-se do governo que o rei déra ao reino, agora pobre e infeliz.»

(Fernão Lopes) Na sua dôr, na boa vontade que tem de servir a nação

(para que ella a não expulse do throno) está por tudo. Com effeito, a

morte do marido punha-a á mercê da vontade do povo. «Era em tudo

obedecida, assim dos povos como dos grandes; mas bem via que essa

obediencia nada tinha de pessoal, porque ninguem a amava, nem a

respeitava. De um momento para outro podia perder tudo. Os de Lisboa

queriam que se constituisse um conselho de governo composto de dois

homens-bons de cada comarca: annuiu a essa tutela. Quando fôra a

acclamação da rainha D. Beatriz, mulher do castelhano, observára os

tumultos geraes e os votos desencontrados das cidades. Em Lisboa, a

acclamação provocára rixas e conflictos; muita gente era pelo infante D.

João ou pelo infante D. Diniz, que andavam por Castella; outros

gritavam: _Arreal, arreal, cujo for o reino, leval-o-há!_ Em Santarem o

infante D. João foi positivamente acclamado. Elvas, para não se decidir,

no meio de tanta confusão, gritou: _Arreal, arreal, por Portugal!_

Esse era effectivamente o grito da nação: por Portugal! Ninguem se

recommendava bastante, no animo do povo, para merecer uma corôa

disponivel, para se sentar n'um throno vago. O que Portugal não queria,

era que n'esse throno viesse sentar-se o castelhano. A rainha não o

queria tampouco; e era toda esforços para ganhar a si o povo, para

herdar de facto o reino. Organisada a regencia, pensou desde logo na

guerra; porque o rei de Castella já se preparava para vir occupar

Portugal. Nomeou os fronteiros do reino, e deu ao Mestre de Aviz a zona

de entre Tejo e Guadiana.

Havia porém dois homens que, no fundo, protestavam: Nunalvares e Alvaro

Paes. O primeiro é a mais nobre, a mais bella figura que a Edade-média

portugueza nos deixou. O typo cristallisado nos romances, o typo do

cavalheirismo e da pureza, tinha encarnado na pessoa do futuro

condestavel. «Usava muito de ouvir e lêr livros de historias, e

especialmente usava mais lêr a historia de Galaaz, em que se continha a

somma da tavola redonda.» Tinha a nobreza ideal do cavalleiro, e a

castidade de um mystico. Era uma açucena na alma, e um leão na bravura e

na generosidade. Resistira por muito tempo ao pae que o queria casar,

porque não curava de mulheres, nem isso lhe alegrava o coração. Por tudo

isto, a infamia da rainha abraçada ao amante, e as lagrimas fingidas

pelo marido, córavam-lhe as faces de pejo e enchiam-no de indignação.

Nunca a obra indispensavel de salvar Portugal podia levar-se a cabo com

tal mulher: Deus não consente aos impuros os grandes actos, «Um dia,

passeando só no paço, a cuidar no que havia de ser do reino»,

occorreu-lhe a idéa de que só a morte do Andeiro podia pôr termo ás

desgraças publicas.

O cavalleiro tinha então 24 annos; e esse rapaz, typo ingenuo e puro de

virtude, é a imagem de uma nação, tambem joven, e ainda crente n'um

futuro proximo. Á indignação da candidez forte junta-se a sabedoria fria

e o calculo experiente de Alvaro Paes, padrasto do futuro grão-doctor.

Tudo se conspirava para matar o Andeiro, para perder a rainha.--Era

verdadeiramente o juizo de Deus, cuja sentença, logo que fosse publica,

seria acclamada pela nação inteira. Isto assegurava ao mestre de Aviz

Alvaro Paes em Lisboa. Falava por sua bocca a cidade que Leonor Telles

tanto odiava, e que tamanhos medos tinha da rainha. Pensaria já o author

do plano do dia 6 de dezembro (1383) na fundação de uma nova dynastia?

Queria acaso matar apenas o valido para aterrorisar a rainha; e

entregal-a, assim, manietada, ao poder de uma oligarchia urbana, em que

Lisboa se arrogasse o papel de defensora do reino, tendo á frente de um

conselho de governo, com a regente vilipendiada e coacta, o Mestre,

homem simples, por instrumento e chefe? Era um plano atrevido, mas mais

de uma vez posto em pratica por diversas cidades opulentas da Hespanha.

Não contava, porém, Alvaro Paes, nem com a arte que os annos

desenvolveram no Mestre; nem com o generoso e nobre caracter de

Nunalvares; nem com a força invencivel dos futuros textos e doutrinas do

grão-doctor João das Regras.

Combinado o programma do dia 6, Alvaro Paes abraçou e beijou o Mestre.

N'esse dia foi este ao paço despedir-se da rainha: partia para a sua

fronteira do Alemtejo. Momentos depois voltou acompanhado por alguns

fidalgos dos seus. A rainha, surprehendida, interrogou-o.--A fronteira

era muito _grossa_, levava pouca gente, os arrolamentos estavam errados,

queria examinal-os...

Leonor Telles estava então na sua camara, sentada no meio das suas

damas, costurando, sobre o estrado. De joelhos, aos pés da rainha, o

Andeiro, de corpo bem disposto, _lustroso_, viril (40 annos), vestindo,

apesar do luto, um gibão de setim cramesi e um tabardo de panno preto,

sem o burel branco do estylo, falava manso com ella. Era um quadro de

familia, e tudo parecia sereno, menos o tom e o aspecto do Mestre e dos

seus, de pé, carrancudos e indecisos, como quem tem na mente um crime.

A rainha, inquieta, mas simulando indifferença e sangue frio, chamou o

escrivão da puridade e mandou abrir o livro dos vassallos da comarca:

Escolhesse o Mestre os que quizesse. O escrivão de pé, com o livro

aberto, ia lendo, indifferentemente _item_, _Dom_... etc, mas o Mestre

não lhe prestava grande attenção. Uns perante outros, os personagens da

tragedia adivinhavam-se, mas não se confessavam. Só, porventura, o

escrivão, no seu tabardo negro, com a voz monotona, era sincero. Andeiro

levantou-se, saíu a outra sala, a avisar os seus sequazes: o que o

Mestre vendo, receiou perder-se, ou que o ensejo lhe fugisse. Levou-o

comsigo para fóra. A rainha, no meio das suas damas, sobre o estrado,

costurava. O momento agudo da crise chegára: era mistér consummar o

acto. O Mestre empurra então o conde para o vão de uma janella. Elle ia

a fallar... «sendo, porém, mais tempo de o matar, do que de o ouvir»,

deu-lhe uma cutilada na cabeça, a valer. Desarmado, o infeliz não podia

defender-se; e assim que inclinou a cabeça rachada pelo meio, a gente do

Mestre acabou-o alli ás estocadas. Foi uma façanha arteiramente

combinada, barbara e cobardemente executada. Nunalvares, quando a mesma

solução lhe occorrera, pensou decerto n'um plano diverso.

Consummado o assassinato, poz-se em scena a comedia do contra-regras,

Alvaro Paes. Foi mandado um pagem a gritar pelas ruas que acudissem ao

Mestre, que o matavam no paço. Entretanto, dentro d'elle, era grande o

alvoroço. Uns fugiam pelas janellas, outros pelos telhados: todos

corriam como doidos, cheios de susto, e se acotovellavam nos corredores

e entre as portas. A rainha levantando-se, ao ouvir que lhe tinham

matado o amante, rugiu de colera, como a fera a quem roubam os filhos:

era a sua cruel fraqueza! Viu tambem a sua vida em perigo, e por ventura

n'este momento desejou a morte[55]. Animosa, mandou perguntar ao Mestre,

que n'um eirado do palacio, á vontade, descançava das commoções

violentas, se tambem a queria matar. Elle voltou, respeitosamente, que

não. Era um homem simples, costumado a vêr em Leonor Telles a mulher do

rei: e por isso, além de ser muito novo (26 annos), não se atrevia a

tanto. Era fogoso, brutal, e de instinctos pesados: um instrumento capaz

de executar os planos manhosos do Alvaro Paes, prompto para tudo, porque

não distinguia bem a linha que separa a nobreza da villania--como, de

resto, succedia a quasi todos os homens d'armas da Edade-média. Foram a

revolução, os companheiros e depois a mulher, quem fez d'elle na edade

madura um sabio rei.

Na rua, Alvaro Paes vinha a cavallo (por excepção rara, que era velho já

e pesado) á frente da procissão de energumenos, bradando por desvairadas

maneiras. A plebe, investindo com o palacio, quebrava os cancellos de

ferro, trazia escadas para o assalto e montes de lenha para queimar

tudo. Era uma algazarra incrivel de improperios e nomes deshonestos,

dirigidos á rainha. Já de dentro havia medo de que o fogo pegasse, e que

o fim da tragedia fosse um incendio justiceiro. Extenuavam-se a gritar

que o Mestre estava vivo, Andeiro morto; mas ninguem tinha ouvidos no

meio do clamor da turba. Por fim, o Mestre de Aviz appareceu a uma

janella e foi victoriado: «Vinde para nós, gritavam-lhe, e dáe ao démo

esses paços!» Alli mesmo, ao pé do palacio, ficava a Sé; Era necessario

solemnisar a festa com os repiques dos sinos, conforme a plebe o

ordenava; mas os padres, recolhidos no alto da torre, não sabiam o que

queriam d'elles: e por esse crime foram precipitados á rua o bispo e

mais dois: e os cadaveres, arrastados ao Rocio, ahi ficaram para pasto

dos caens.

Tambem o Mestre já sentia fome, depois de tamanho dia. Foi com Alvaro

Paes comer socegadamente. O homem cumprira o que tinha promettido: e, á

mesa, na satisfação da victoria, instruiu o rapaz sobre o que lhe

restava fazer: pedir perdão á rainha, depois de jantar. Quem sabe?

dir-lhe-hia elle, mastigando, mais tarde... casar com ella... E o

mestre, bastardo, pobre, ambicioso e simples, via abrirem-se-lhe

horisontes seductores.

Com effeito, depois de jantar, o Mestre de Aviz foi ao paço e, de

joelhos, pediu perdão á rainha. Tamanha simplez encheu-a a ella de

espanto. Estava calada, não sabia que responder: e como o pobre

insistia, ella, afinal com desdem, voltou-lhe: Falemos de outras

cousas... O Mestre saía desorientado e corrido, atraz d'elle as suas

guardas, quando a rainha, seguindo-os, deu de chofre com o cadaver do

conde empoçado em sangue e coberto com um tapete velho. Não pôde mais

conter-se; e o seu animo, perdido, rebentou em duras queixa: «Enterrae-o

ao menos, já que o mataste tão deshonradamente!» Elles não curaram

d'isso, nem se doeram do adverbio da rainha, e foram para suas pousadas.

Era tempo perdido.

Ao outro dia a rainha partiu para Alemquer--suffocada em odios contra

Lisboa: queria vel-a arrazada e queimada de mau fogo, queria uma

tonelada de linguas das suas mulheres. Queria uma vingança, uma desforra

que désse brado ao mundo. Que lhe importavam, á sua alma desvairada, a

nação e a independencia? No egoismo absoluto de uma paixão, esquecia

tudo; e por isso mudou de rumo á sua politica, e convidou o rei de

Castella a vir tomar posse de Portugal. Perdia-se irremediavelmente.

Entretanto a maxima parte da nobreza acompanhava-a, e a fidalguia era

então o exercito. Uns não queriam pactuar com a revolta da plebe de

Lisboa, nem curvar a cerviz ao imperio de Alvaro Paes. Outros eram fieis

á legitimidade da regencia. O resto dos que não acompanhavam a rainha e

grande parte das classes médias eram pelo infante D. João, preso em

Toledo. O plano de Alvaro Paes e o partido do mestre de Aviz caiam

tanto, que, desanimado, o ultimo decide-se a abandonar a empreza e a

fugir para Inglaterra--como fez depois o seu successor na historia, o

Prior do Crato. Poderam, porém, contel-o. Para que? Para o decidirem a

uma segunda vergonha. Eram incapazes de nenhuma grande audacia, de

nenhum plano temerario; e só um d'esses poderia dar a victoria. Não

sentiam o palpitar violento de uma nação forte que aspirava á vida. Os

seus meios eram mesquinhos, soezes e crueis. Conquistaram o castello em

Lisboa, levando á frente de si as mulheres e os filhos dos que o

defendiam pelo infante D. João. Angariavam sequazes, comprando-os a

dinheiro, segundo a regra de Alvaro Paes: _dae o que não é vosso,

promettei o que não tendes, e perdoae a quem vos errou._ A rapina e a

impunidade eram o alicerce da força do partido, já ridiculamente

alcunhado do _Mexias de Lisboa_. O segundo plano proposto, para evitar a

fuga do _Mexias_, era a antiga idéa commum e soez de Alvaro Paes:

casal-o com Leonor Telles. O Mestre accedeu; e propoz o caso á rainha,

que respondeu com uma gargalhada. Podia-se acaso descer mais? Não podia.

Quem faz, porém, os Messias é o povo. Valham pouco, valham nada, pouco

importa. São um lábaro, onde a turba escreve um moto. Vão, mas não

guiam. Portugal com effeito gerava uma revolução messianica; pedia em

altos brados que o salvassem; tinha a consciencia de que podia e havia

de ser salvo. Esta força latente e invencivel, era, porém, ignota para a

simplez do Mestre e para o lerdo instincto de Alvaro Paes. Andavam ambos

como cégos em torno de um pharol, sem o verem. Eram ambos como certos

animaes das trevas, a quem a desnecessidade priva de olhos.

Para vêr e para sentir a gravidade do momento, para conceber a audacia

da revolução, era mistér, ou a ingenua candura dos fortes, ou a refinada

sabedoria dos mestres. O de Aviz teve a fortuna de encontrar dois homens

que o fizeram rei, e tornaram o seu titulo ridiculo de _Mexias_, no

titulo verdadeiro e forte de Defensor-do-reino, positivo messias da

nação (1384).

Termina o reinado de Alvaro Paes, desde que o futuro condestavel e o

grão-doctor tomam conta, um da guerra, outro da politica. Temerarias,

audazes, quasi loucas ambas, exprimem ambas a suprema sabedoria; porque

traduzem o até ahi indefinido querer do povo, e empregam os meios unicos

de salvação. Nunalvares faz de toda a fronteira o theatro de incessantes

campanhas, pouco ou nada attende ás ordens do Defensor-do-reino, por

vezes desobedece formalmente. Á medida que o Mestre via o resultado das

armas do nobre capitão, ia reconhecendo a propria inferioridade; e a

simplez natural do seu genio tinha de bom o abrir-lhe os olhos á

verdade. Nos actos alheios, aprendia a pesar os seus, ganhando com isso

a attitude de um moderador prudente. Era sábia a arte com que ponderava

os conflictos inevitaveis de Nunalvares com João das Regras: do

cavalleiro idealista e heroico, e do habil, consummado politico: do

representante ingenuo de douradas phantasias, com o frio calculador das

cousas positivas; do ultimo homem da Edade-média, com o primeiro do novo

Portugal monarchico. Entre ambos, o Mestre de Aviz era um pendulo

regulador das duas forças em opposição.

A politica ia buscar outra vez as allianças inglezas, acordando a antiga

ambição castelhana da casa de Lencaster; e a guerra, ora terrivel em

batalhas, ora fidalga em reptos e duellos, ia acordar por todo o paiz a

revolução. Os grandes, os alcaides das terras, eram por Castella ou pelo

infante D. João; mas o povo era pelo Messias: cria e esperava o milagre.

Formavam-se _uniões_ espontaneas; e as levas de populares conquistavam

para o Mestre os castellos e villas fortificados aos senhores e aos

alcaides dos concelhos.

Uma grande parte do reino obedecia ao governo de Lisboa; mas a rainha, o

rei de Castella e o exercito invasor, na sua marcha sobre a capital,

occupavam Coimbra. Leonor Telles acabou ahi. Arrependida de ter chamado

o castelhano que a desprezava; reconhecendo que erradamente, por uma

precipitação, forjára por suas proprias mãos as cadeias do seu

captiveiro, vendo agora quanto se illudira, e que erro fôra o seu em não

avaliar a justa vitalidade do paiz, tentou ainda urdir uma trama para se

libertar, perdendo o genro e a filha. Os seus planos falharam; e anojada

e cheia de desespero, seguiu a ordem do genro, que de Coimbra a mandou

enterrar no mosteiro de Tordesillas. Como acabaria a sua vida? Quem

sabe? talvez arrependida, santamente amortalhada no burel monastico?

acaso roída de desespero, impenitente?

O exercito castelhano desceu sobre Lisboa, e este segundo cêrco da

capital (1384) foi mais cruel ainda do que o primeiro, no tempo de D.

Fernando. Veiu a fome perseguir os heroicos lisbonenses, que andavam já

doentes das cousas que comiam. Por fóra a peste alastrava, porém, de

cadaveres os arrayaes castelhanos; e quando, um dia, a rainha de

Castella, pretendente de Portugal, adoeceu tambem, os inimigos

levantaram o cêrco. O povo encontrava n'isto motivos para crer n'uma

protecção do céu.

Por mais de um anno se prolongaram ainda as guerras pelas provincias

afastadas; mas Lisboa, Coimbra e todo o centro do paiz era, já em 1385,

pelo Mestre. Os ultimos actos da revolução iam consummar-se: as côrtes

de Coimbra e a batalha de Aljubarrota.

Em Coimbra o grão-doctor é o general e o chefe. Essa batalha de

discursos era diversa, mas não menos brava de pelejar; porque uma grande

parte da nobreza, decidida a defender o reino do castelhano, não o

estava a acclamar rei o Mestre de Aviz. Legitimista, considerava-se

ligada ao infante D. João; e a união dos fidalgos, completa para a

defeza, não existia, agora que se tratava de consolidar, com uma nova

dynastia, a independencia e a constituição definitiva do reino.

O rei de Castella era schismatico e excommungado por apoiar Clemente VII

contra Urbano VI; e além d'isso os maus costumes de Leonor Telles não

deixavam ter certeza sobre a legitimidade de D. Beatriz.--Todos apoiavam

João das Regras, porque ninguem queria o castelhano.--D. João,

continuava o doutor (e aqui principiavam os murmurios) é bastardo,

porque el-rei D. Pedro jámais se casou com D. Ignez de Castro.--Um

momento houve em que Nunalvares esteve a ponto de brigar com o

_roncador_ Martim Vasques, o chefe dos _leaes_; e as côrtes por um triz

se tornavam n'uma batalha. Interveiu o Mestre de Aviz, apasiguando o

exaltado capitão, melhor no campo do que no conselho.

Ahi reinava o _grão-doctor_. Além de illegitimos, continuava sem se

perturbar, os filhos de D. Ignez de Castro tinham tomado armas contra a

patria; e este argumento, proprio a impressionar os leaes, pesou, mas

não os decidiu. Então o doutor lançou mão das reservas e venceu.

Apresentou as bullas, nas quaes o papa recusára acceder aos pedidos do

rei D. Pedro para a legitimação dos filhos. Podia haver prova mais

solemne? Ousaria ainda alguem conservar duvidas? E apoz isto desenrolava

todas as consequencias: a divisão das forças do reino perante o

castelhano, inimigo commum; a impossibilidade de acclamar rei um

principe preso em Castella, etc. O ataque era irresistivel; e tudo

cedeu, declarando-se vago o throno, e elegendo-se para o occupar o

Mestre de Aviz, D. João I.

Que melhor prova podia dar-se da vitalidade da nação e da sua

independencia já acabada, do que estas côrtes de 1385, em que ella

exalta uma dynastia, sem base na tradição nem na herança, unicamente

enraizada no querer absoluto, commum dos portuguezes? É só n'este

momento que bem de facto se póde dizer terminada a historia da

independencia; porque a dynastia de Borgonha trazia comsigo o peccado

original da doação primitiva, segundo o direito feodal: o reino era um

senhorio, sublevado, como por tantas vezes e por tão longos tempos o

tinham sido, na propria Hespanha, a Galliza e a Biscaya.[56] Agora as

cousas mudavam; e mudavam, porque a nação, alargando-se para o sul,

recebendo novas gentes em seu seio, fomentando a actividade commercial e

maritima em Lisboa, ao mesmo tempo que se constituia interna ou

organicamente, era já um ser diverso do antigo, e um ser dotado de vida

independente e propria. A crise, que temos vindo historiando--com um

vagar desculpavel pela sua significação excepcional--parece ter, para a

vida nacional portugueza, a importancia que a natureza dá ás crises que

determinam a passagem de uns para outros dos seus typos organicos.[57]

Não bastava porém uma acclamação, era necessario um baptismo, á nova

monarchia. Aljubarrota respondeu com as armas á eloquencia das côrtes;

e, victorioso no conselho e no campo, o throno de D. João I ficou

inabalavel. Segundo o parecer dos inglezes, seus alliados e mestres na

nova tactica militar com que vieram a esmagar em Azincourt a cavallaria

franceza, o Mestre d'Aviz entrincheira o seu pequeno exercito.

Nortberry, Hartcelle e d'Artherry, capitães, traçaram a _carriagem_.

Cortaram-se ramos de arvores com os quaes se levantou uma estacada para

paralysar as cargas da cavallaria; ao meio d'essa estacada um carreiro

estreito, internamente bordado por archeiros e bésteiros de pé, estava

aberto, como uma tentação e um laço ao ardor fidalgo dos inimigos.

A desproporção do numero era grande entre os combatentes. O castelhano

trazia comsigo vinte mil homens de cavallo, nos quaes entravam dois mil

francezes, gascões e bearnezes: com a peonagem, o seu exercito ia a mais

metade. Em volta de D. João I não havia mais de duas mil lanças,

oitocentos bésteiros, e quatro mil peões: alguns elevam a dez mil o

total. Evidentemente, só a força da arte podia vencer a desproporção do

numero. Pelo meio dia appareceu o exercito inimigo, victoriosamente

composto na galhardia das armas reluzentes com o sol, dos pendões e

bandeiras blazonadas, das mesnadas dos ricos homens da Hespanha e da

França meridional, montados nos seus cavallos de guerra. Os portuguezes,

calados, humildes e obscuros, por detraz das suas trincheiras, esperavam

o choque d'essa brilhante móle. Havia em muitos valentia e enthusiasmo,

mas não faltava o temor, menos ainda a decisão firme de morrer vencidos,

na desesperança de rebater um ataque tão poderoso. O condestavel e os

cavalleiros excitavam o ardor bellico; os bispos, confessando,

absolvendo, dando a commungar, distribuiam a paz ás consciencias,

preparavam para a morte, accendendo a coragem com os odios religiosos.

Havia exaltação, votos singulares, ditos agudos, mas sobradas duvidas

sobre o resultado do dia. Os padres resavam no seu latim: _Verbum caro

factum est_, e os soldados traduziam d'esta fórma o evangelho: muito

caro feito é este: Havia até medo n'essas levas de gente bisonha do

campo, soldados saídos de uma população rural; mas uns trinta peões que

fugiram, apavorados, foram trucidados pelos castelhanos: o que nos

prestou o serviço de evitar as deserções, consolidando o proposito da

defeza.

O exercito inimigo não se tinha decidido ainda sobre o modo de operar.

Uns optavam pela prudencia: vinham de longe, cansados da viagem, não

tinham comido ainda: esperassem, e os portuguezes, como javardos no seu

covil, seriam forçados a saír por lhes faltar o mantimento. Outros

achavam uma vergonha, para tão fidalgos cavalleiros, o parar deante

d'uma estacada mal defendida por um punhado de soldados bisonhos. Apesar

do rei vir em andas, doente com sezões, venceu a ultima opinião, e

atacaram galhardamente. «Em esto os ginetes dos inimigos provavam a

miude d'entrar na carriagem dos portuguezes, mas tudo achavam apercebido

de guisa que lhes non podiam empecer. De fórma que os castellãos tiveram

de apear e combater com armas curtas.» (F. Lopes).

Realisava-se a previsão, e a batalha acabou por um destroço completo da

cavallaria orgulhosa. O rei de Castella fugiu nas suas andas. Toda a

bagagem do seu exercito caiu em poder dos vencedores. Eram carretas e

azemolas sem numero e dezenas de milhar de cabeças de gado.

Como para a Europa central foi depois Azincourt, assim Aljubarrota foi

na Hespanha: o ultimo dia da cavallaria feodal, e o primeiro ensaio

d'esses combates de pé, com que dois seculos mais tarde a infanteria

castelhana de Carlos V havia de conquistar a Europa.

A Edade-média portugueza acaba no dia de Aljubarrota, com a primeira

epoca da nação, com o periodo da sua formação trabalhosa e lenta. Novos

horizontes, vastas ambições, pensamentos ainda inconscientes de um largo

futuro, amadurecem encobertos, no seio da nação, formada, acclamada,

baptizada em sangue. Chama-a de longe um dubio tentador--o Mar!

[52] V. _As raças humanas_, I, pp. XXXI-III.

[53] Curiosa coincidencia a repetição d'esta scena em 1834 na

guerra civil: (_Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.), II, pp. 371).

D. Pedro vae

D. Pedro vem,

Mas não entra

Em Santarem!

O estribilho do tempo de D. Fernando acabava--_de Lisboa

a Santarem_.

[54] V. _Portugal contemporaneo_ (2.ª ed.), II, pp. 291.

[55] V. _Instit. primit._, p. 157.

[56] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) a pp. 118-21 os

quadros dos estados peninsulares.

[57] V. _Elem. de Anthropologia_ (3.ª ed.), pp. 13-20.

* * * * *

LIVRO TERCEIRO

A CONQUISTA DO MAR TENEBROSO

(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)

Historia de Portugal: Tomo I · 第 10 / 21 段