Ainda assim, não era a caça que perdia o rei. Namorado sempre e

mulherengo, «amador de mulheres o achegador a ellas,» diz F. Lopes,

tinha um feitio terno, _amavioso_. A carnalidade arrastava-o aos maiores

excessos, e é provavel que tivesse vicios ingenuos. Sua irman solteira,

a infanta D. Beatriz, fôra cinco vezes offerecida, outras tantas

recusada, a diversos principes, nas varias combinações politicas que a

sua fertil imaginação creava, e que a sua indolencia invencivel punha

logo de parte. A côrte d'essa irman era um viveiro de donas, onde o rei

permanentemente satisfazia os seus gostos mulherengos. Foi n'essa côrte

que viu e se perdeu de amores por Leonor Telles. Parece, comtudo, que

antes d'isso não amava; porque é proprio dos temperamentos, como era o

do rei, não ter paixões. A sua delicia era o gozar indolente dos

carinhos e meiguices das mulheres, não era amar. Não é provavel, pois,

«a suspeita deshonesta que alguns tinham da virgindade da infanta ser

por elle minguada.» Bastavam ao rei «os jogos e fallas tão a meude

misturadas com beijos e abraços e outros desenfados de similhante

preço.» Só aos fortes corações é dado amar e enlouquecer. D. Fernando

não tinha essa virilidade de caracter. Distincto, perspicaz, engenhoso

de espirito, bom, affavel de genio, faltavam-lhe o valor que faz os

homens, e a vontade que faz os reis. Era uma indolencia formada de

espirito e sensualidade; uma creatura romantica e sympathica; uma

mulher, fraca e intelligente, sentada no throno. Leonor Telles

conquistou-o, porque tinha o genio de um Homem; e o segredo d'essa

alliança tenaz não está n'uma paixão do rei, está na inversão das

pessoas e dos sexos. Ella fez-se rei; elle tornou-se a amante, passiva,

indolente, sensual.

* * * * *

O tempo de D. Fernando foi uma serie de guerras com o visinho reino de

Castella. As muitas desgraças d'essas emprezas loucas tiveram de bom o

affirmar de um modo terminante a independencia formal e positiva da

nação, como sáe da batalha de Aljubarrota. Á maneira de certas

enfermidades agudas, quando atacam o homem de temperamento indeciso e

constituição debil, na edade em que attinge a virilidade, e determinam

uma revolução organica, fixando e consolidando a saude--assim as guerras

castelhanas de D. Fernando. são, para Portugal, uma crise. O seu destino

vacillante, os seus orgãos esboçados apenas, soffrem a prova de uma

commoção violenta. Acordam outra vez as tentações antigas, já

anachronicas, da conquista da Galliza; o reino é mais de uma vez

invadido; a miseria, a ruina, as devastações e a penuria affligem, como

uma febre ardente, o corpo da nação. Falta decerto um rei que a dirija,

um homem forte que a represente e guie; mas isso mesmo concorre para

caracterisar a crise, demonstrando que a vitalidade collectiva existia

já, e não provinha apenas da imposição forte de um braço guerreiro. Em

dois seculos Portugal tornara-se de um amalgama de populações ruraes,

cuja unidade estava apenas no genio dos seus barões, em um organismo,

cuja consciencia de uma vida collectiva era real e definida. Tal é, a

nosso vêr, o merecimento d'essa revolução nacional, cujo supposto chefe,

o Mestre de Aviz, é mais o instrumento do que o heroe.

Não precipitemos, porém, a narrativa.

D. Fernando julgára convir-lhe apoiar a usurpação do throno de Castella

por Henrique de Trastamara, quando o poder do rei D. Pedro ainda chegava

para bater o rival em Najera. Depois que o usurpador, voltando de França

com o auxilio de Duguesclin, consegue desthronar o rei perdido, D.

Fernando julga conveniente alliar-se ao do Aragão e ao mouro de Granada,

contra o Trastamara victorioso. Formára o chimerico plano de bater o

vencedor com o partido vencido que o invocava; esperando sentar-se no

bello throno de Castella, de que promettia um retalho ao aragonez, outro

ao granadino. A empreza não destoava dos antecedentes historicos; porque

o regime politico da Hespanha, retalhada em varias monarchias, era um

systema de conquistas successivas de reinos. Era, porém, chimerica por

dous motivos, um ignorado então, outro evidente: a incapacidade do rei,

e o destino que marcava á Hespanha a solução unitária. Se Portugal pôde

escapar aos preceitos d'esse fado, deveu-o ao movimento que, por lhe dar

Lisboa, fazia d'elle uma nação cosmopolita, commercial e maritima, e não

propriamente hespanhola: outra Hollanda, no corpo de outra

Allemanha[52].

A politica de D. Fernando era, pois, historicamente insensata, falta que

seria absurdo irrogar ao rei; mas era tambem pessoalmente absurda,

porque os seus planos eram chimeras, tão breve nascidas como

abandonadas. Haveria no espirito do rei o pensamento, mais ou menos

definido, de se substituir ao castelhano na obra da unificação politica

dos Estados peninsulares? Nada authorisa a suppol-o; e até porque tal

pensamento não estava ainda cabalmente definido para os monarchas de

Castella.

O facto é que D. Fernando declarou a guerra e abriu a campanha,

invadindo a Galliza (1369); «mas sua ida foi de tal guisa que mais sua

honra fora não ir alla dessa vegada.» Muitos barões gallegos correram a

recebel-o, a acclamal-o. Tradições de outras eras? Ambições, ainda

vivas, de uma independencia, que mais de uma vez tinham considerado

solidaria com a soberania de Portugal? É provavel; mas é tambem certo

que a rapina era o motivo immediato da adhesão, porque «muytos vinham-se

a ele e pediam-lhe os bees dos que se iam para D. Henrique, o que era

dado ledamente.» O inimigo, de Castella, fazia outro tanto. O conde

Andeiro foi o mais caloroso dos partidarios gallegos de D. Fernando.

Saíu ao encontro do rei, alvoroçado, a gritar: «Hu vem aqui meu senhor

Elrey D. Fernando?» E o rei, esporeando o cavallo, radioso e feliz por

uma tão facil conquista, vendo-se já sentado no throno de Castella,

avançou, respondendo: «Eu som! eu som!» A invasão tornava-se um passeio

até á Corunha; mas pouco adivinhavam ambos, o conde e o rei, quanto

haviam de pagar caro os prazeres desses dias breves.

O castelhano corre sobre a Galliza, e D. Fernando foge a esconder-se em

Coimbra. A resaca assoladora vem até Braga e Guimarães, atravez de todo

o Minho. A provincia inteira gritava por soccorro: Aqui d'el-rei, contra

o castelhano!--O rei, indeciso, indolente, esperava a realisação da sua

chimera:--não é mister batalhar; Castella inteira vem entregar-se, como

se entregára, de braços abertos, a Galliza!--Passeava-se, entretanto,

com o exercito, entre Santarem e Lisboa. Ia, vinha, avançava e

retrocedia, tão tonto que já o povo da capital ria d'esses passeios:

_exvollo vae, exvollo vem!_[53]

Afinal em Coimbra--cidade funesta aos dois Fernandos[54]--decidiu-se a

acudir ao Minho, quando o rei de Castella, depois de assolar tudo, tinha

já partido para além da fronteira. Pela raia, porém, o batalhar

continuava, e tambem na costa andaluza o bloqueio maritimo: já Portugal

tinha armadas. Mas a guerra dilatava-se; e Castella, decididamente, não

o chamava para seu rei. Começou a _assentar-se del a covardice_,

abandonou os alliados; e aborrecido e desilludido por esta vez, assignou

as pazes de Alcoutim.

A sua chimera só, porém, o deixou quieto por tres annos.

D. Pedro tinha morrido em Montiel, assassinado ás mãos de Trastamara

(1369); a filha mais velha do defunto era casada com o duque João de

Lencastre, da casa de Inglaterra: d'ahi vinham as pretenções d'este á

corôa castelhana e o bravo duello que a Inglaterra e a França debateram

na Hespanha por muitos annos. A influencia franceza era dominante em

Castella; e para logo, nas successivas e ulteriores convulsões, a

alliança ingleza venceu em Portugal. D. Fernando, ou movido pelo desejo

de desforra, ou pensando ainda nas suas velhas ambições, e esperando

ludibriar o alliado, assigna em Braga (1372) o tratado de alliança com o

inglez, contra o castelhano. Henrique de Trastamara, em cuja côrte

andavam diversos fidalgos portuguezes, como os gallegos da invasão

anterior andavam com D. Fernando, manda Pacheco (o terceiro assassino de

D. Ignez de Castro) vêr se effectivamente o rei se dispunha á guerra.

Era tão voluvel o seu caracter, que o castellão não acreditava ainda.

Voltou Pacheco: sem duvida o rei estava disposto a entrar em campanha.

Então D. Henrique, com bondade, lhe pede que abandone essa chimera, e

insta pela paz. Elle, excitado pelas _hespanholadas_ de Affonso Tello,

suppõe que a fraqueza era o motivo da insistencia. Inuteis as

observações, o rei de Castella prefere invadir a ser invadido; e

rapidamente entra pela Beira (1372), cáe sobre Lisboa, cujo cêrco uma

esquadra, ao mesmo tempo partida de Sevilha, encerra por mar (1373).

Que fazia D. Fernando? Do alto dos muros de Santarem, onde se fechára,

via passar o exercito inimigo, sem ousar mover-se. Dois motivos lh'o

impediam. Esperava a toda a hora o soccorro do inglez; e se o fructo

d'essa guerra lhe era destinado a elle, bom seria que em pessoa o

disputasse. Deixar, porém, invadir assim o reino, pôr cêrco á capital,

abandonar o povo, abandonar Lisboa, era vergonhoso, decerto. Mas se

n'esses dias Leonor Telles, enferma, estava de cama, com as dôres do

parto? Como havia de o pobre rei acudir aos dois deveres? A quem

obedecer primeiro: ao tyranno politico, a corôa, ou ao domestico, a

rainha? Como todos os fracos, decidiu-se pelo mais proximo; tapou os

ouvidos aos clamores da nação, para attender só aos ais da enferma. Não

era por paixão que o fazia, era por indolencia: sempre esperava que

Lisboa afinal havia de resistir, e saberia defender-se!

Com effeito, não se enganava. A cidade valia muito mais do que o rei.

Quando viu approximar-se o castelhano, chegou a ser temeraria; porque

pretendeu defender com barricadas os arrabaldes, fóra dos muros. Lisboa

tinha a homogeneidade na resistencia; e em vão D. Diniz (o infante que

por condemnar o casamento de Leonor Telles fugira para Castella), em vão

Pacheco e os mais portuguezes de D. Henrique buscavam convencer os

lisbonenses da vantagem da rendição. Não estamos agora no norte, meio

gallego, onde a idéa de nacionalidade vogava indecisa nos dois lados do

Minho: estamos no coração do paiz, e n'uma terra sem tradições leonezas,

que não foi _separada_, que nunca obedeceu a outro rei mais do que ao

portuguez, a quem deve o que é. Inuteis as tentativas de D. Diniz, de

Pacheco, e dos mais, o exercito approximou-se. Viu-se então a temeridade

de defender os arrabaldes; e á pressa, recolheram-se todos para dentro

dos muros. O enxame acudia ás portas, correndo curvado com o peso das

trouxas, das arcas, onde salvára o que tinha mais precioso. Vinham as

familias em grupos, as mães, carpindo, arrastando os cordões de

creanças, espantadas de tudo aquillo. Já os castelhanos entravam pelos

casaes e quintas dos arredores: o lume ardia ainda na lareira, a porta

estava aberta, os quartos vasios. Arrazaram e queimaram tudo, desde as

hervas até aos telhados.

No rei assentára outra vez a covardice: e, como o inglez não acudia,

acceitou a paz, e foi de Santarem a Vallada assignal-a (1373). «Quanto

eu _haarricado_ venho!» dizia a rir, na volta. Effectivamente não queria

mal algum a D. Henrique; e, se a empreza falhára, o melhor era fazer

cara alegre, e acabar por uma vez com o muito que, do cêrco, padecia

Lisboa. Além d'isso, agradára-lhe o trato do inimigo: agradára-lhe

tanto, que lhe concedeu a irman, D. Beatriz, para casar com o irmão do

castelhano, Sancho. Triste destino o d'esta princeza, que era, nas mãos

do rei, como os joguetes que as creanças dão, tiram, voltam a dar, ao

sabor do seu capricho infantil!

Este mesmo modo de que usava com a irman, estava reservado á filha: a

outra Beatriz nascida em Santarem durante a invasão precedente. Henrique

de Trastamara tinha morrido; e o herdeiro, João I, na idéa de reunir as

duas corôas de Castella e Portugal, pedira a D. Fernando (que não tinha

outro filho) a mão da pequena D. Beatriz; ao que este annuira,

celebrando-se tratados, porque para casamento era cedo ainda: a pequena

teria oito annos, se tanto.

Mas o rei, diz o chronista, trazia sempre sua fala com os inglezes, o

mais encobertamente que podia. Que falas eram essas? Era a alliança de

Lencaster, na qual D. Fernando via talvez ainda luzir a possibilidade de

realisar a sua chimera. O conde Andeiro, que na primeira guerra abrira a

Galliza ao portuguez, fôra desterrado para Inglaterra, na occasião de

Alcoutim, por exigencia do castelhano. Era Andeiro o confidente do rei,

e o seu agente para com Lencaster. Veiu de Inglaterra, escondido, a

Extremoz, onde o rei, ao tempo, assistia: trazia novos tratos e

combinações, com a promessa de uma esquadra. O rei acceitou com

facilidade, e afiançou ao duque inglez a mão da filha promettida ao de

Castella.

D'esta vez decidiu-se a proceder com energia. O castelhano, porém, já

conhecedor de tudo, mandára começar as escaramuças pelas fronteiras de

entre Tejo e Guadiana, theatro das façanhas de Nunalvares (o futuro

condestavel, que agora começa a sua epopêa) em quanto dispunha o grosso

das forças para a campanha de Lisboa. A energia do portuguez consistiu

em enviar a esquadra a Sevilha destruir a inimiga. Com effeito, em

quanto mandasse no Tejo, Lisboa não podia ser efficazmente cercada. Mas

a _sandia presumpção_ de Affonso Tello perdeu a esquadra em Saltes

(1381). A armada castelhana, victoriosa, entrou no Tejo, trazendo a

bordo o infante D. João, irmão do rei, filho de D. Pedro o crú, que se

homisiára de cá por ter assassinado a mulher, Maria Telles, irman de

Leonor. Tambem lhe tinham acenado com a mão da pequena D. Beatriz, e a

ambição perdera-o! D. João repete as palavras de D. Diniz na campanha

precedente; mas é recebido a tiro, o infeliz. As surriadas de trons e

virotões exprimiram a eloquencia independente de Lisboa; e o infante,

humilhado, levou para Castella o desmentido formal a todas as sedições

que annunciára e promettera.

Chegou, afinal, por mar o Lencaster com os seus, trazendo novo alimento

á guerra, já accesa por todo o Alemtejo. Castella declarára-se pelo papa

de Avinhão, Clemente VII: os inglezes e o rei D. Fernando pronunciam-se

pelo papa de Roma. Urbano VI. A religião vinha azedar ainda mais os

odios dos combatentes. E os inglezes do duque, mercenarios o barbaros do

Norte duro, lançaram-se a este pedaço do Meio-dia, como lebreus famintos

a um regabofe. Estas gentes dos inglezes, refere o chronista, não vinham

como a defender a terra, mas para a destruir e buscar todo o mal,

matando, roubando e forçando mulheres. Nem se limitavam a tão pouco. De

uma guerra que lhes era indifferente, nas causas e motivos, entre povos

inimigos que não distinguiam, inimigos eram para elles todos, e cevar-se

o seu constante proposito. Guerreavam por conta propria, para saquearem.

Tomam aos portuguezes Monsarás, o Redondo e Evora; e as populações, por

fim desesperadas, acodem-se ao processo classicamente peninsular das

surprezas e assassinatos. «As gentes começaram a matar muitos d'elles

escusamente», a ponto de que mais de um terço ficou enterrado pelos

campos e aldeias do Alemtejo. Na extraordinaria confusão em que a

indolencia e as chimeras do rei punham o paiz, já cada um combatia por

si proprio, com o proposito unico da defeza nacional.

Se os inglezes deixaram em volta do Tejo alguma cousa a roubar, ou algum

campo a queimar, os castelhanos da esquadra, desembarcando, quando o

exercito anglo-luso tinha subido para Evora a encontrar o inimigo,

acabaram a obra destruidora n'uma razzia monumental, a que não escapou

eira nem beira, nem arvore, nem cousa viva. Em volta das muralhas de

Lisboa ficou tudo um deserto morno e secco.

Pela terceira vez assentou no rei a covardice; e sem combater, voltando

as costas ao inglez logrado, assignou as pazes de Badajoz com o

castelhano (1381). De novo a pequena infanta D. Beatriz torna a ser

promettida a outro noivo: Fernando, de Castella, que não vem ainda,

comtudo, a ser seu marido; porque, ao voltar para casa, o rei João,

enviuvando, teima no antigo plano da fusão dos reinos. O casamento da

filha com o valetudinario monarcha visinho, é o ultimo e o mais

insensato dos actos de D. Fernando. Extinguia-se com elle a dynastia; e

por herança legava, do leito da morte, a independencia em perigo ao povo

que, apesar de tão dorido, ainda e sempre lhe queria.

* * * * *

Fôra no viveiro feminino da côrte da irman que o rei Fernando vira

Leonor Telles. Era a terceira Leonor que escolhia para companheira, e

foi, desastradamente, a unica que veiu a ter. A primeira, de Aragão,

recusou-lh'a o perspicaz pae, por vêr quanto era defeituoso e fraco o

caracter do promettido genro. A segunda, de Castella, repudiou-a, desde

que viu e se namorou da terceira.

Maria Telles, irman de Leonor, era aia da infanta D. Beatriz. Leonor,

casada, vivia no seu solar da Beira. Estava em Lisboa, de passagem, a

visitar a irman, quando o rei a viu. Como começaram esses amores? Os

antecedentes do rei e o caracter da futura rainha deixam vêr bem que não

deveu ter havido uma d'estas paixões fulminantes, communs nos homens

d'armas, mas de que D. Fernando era incapaz, e Leonor Telles tambem.

A fria ambição calculadora era commum ás duas irmãs. A aia da infanta,

por quem o infeliz e louco D. João se namorára com paixão, preparára-lhe

cuidadosamente uma entrevista, á noute, no seu quarto. Quando o infante

chega, soffrego de amor, vê um altar e um padre diante do leito.

Casemo-nos primeiro, amaremos depois. O infante, coacto pela paixão,

casou-se para amar; mas a aia pagou mais tarde, com a vida, o erro de

brincar com um leão, como so fôra um rafeiro.

Leonor Telles tinha em si o saber sufficiente para ensinar: não carecia

das lições da irman. Percebeu que o rei, nas suas ligeirices, a preferia

á propria infanta; mas o papel de amante não lhe convinha: queria o de

rainha. Foi-se deixando ficar, e acirrava com tentações a inclinação do

monarcha sensual e passivo. «Era louçan, aposta, e de bom corpo». D.

Fernando costumou-se ás denguices da sereia: nos fracos, o costume gera

necessidades imperiosas, a que tudo sacrificam. Com o tempo, a idéa de

que Leonor era casada, naturalmente a insistencia com que ella, séria e

affectando decóro, falaria na necessidade de voltar para casa, para o

marido, fizeram sentir ao rei a impossibilidade de quebrar o habito dos

seus amores innocentes e molles. A indolencia é muito mais teimosa nas

suas exigencias do que a força; um habito sensual tem maior tenacidade

do que uma paixão. Leonor Telles devia saber isto perfeitamente. O

momento decisivo approximava-se: não podia continuar por mais tempo em

Lisboa, o marido chamava-a, as más linguas podiam falar...

O rei lembrou-se então de que para alguma cousa lhe podia servir sel-o:

desmancharia esse casamento, porque uma dama tão senhoril e casta não

podia ser sua amante. D. Fernando não tinha, o ingenuo, nem ponta de

cynismo. Falou seriamente, em particular, á irman. Mulheril como era,

este caso tinha maior gravidade do que uma guerra com Castella, pelo

repudio da princeza que lhe estava promettida nos tratados de Alcoutim.

«Melhor fizera elrey, dizia o povo, tel-a por tempo e depois casar com

outra mulher.» Bons conselhos! para quem vivia todo na atmosphera

feminina e molle da côrte de D. Beatriz, onde Maria Telles reinava. Como

se Maria, Leonor, não fossem excellentes senhoras, recatadas, mas

seductoras na sua terna dignidade!

Maria poz por condição o casamento; Leonor Telles concordou em que muito

queria ao rei, mas ainda mais ao seu nome. Combinaram tudo em segredo, e

foram, ás escondidas, ao norte, casar-se (1371) a Leça do Bailio, junto

ao Porto. Tinham, com effeito, medo de Lisboa. Quando regressaram á

côrte e os rumores se confirmaram, as opiniões moveram-se na capital. O

commum das gentes accusava o rei com odios apaixonados; mas não faltavam

os experientes a observar placidamente, «que não era maravilha; já a

outros acontecera cousa semelhante; todo o homem namorado tinha uma

especie de sandice; o amor era como dôr que doe e não doe ao mesmo

tempo». Muita gente se ria do marido infeliz que sensatamente fugira

para Castella, e para prevenir os motejos mandára pôr no barrete dois

cornos de ouro em fórma de plumas; muitos notavam a facilidade com que o

papa fazia e desfazia casamentos; e esta cumplicidade da religião e do

amor não augmentava em nada o respeito pela Egreja. Em summa, desde que

o riso entrava na questão, o odio do povo não era muito; e Lisboa

esperava para ver o resultado d'essa comedia, e tomar o pulso ao

caracter da rainha. Ninguem sabia ainda de quantas manhas elle era formado.

Mas nem em todos a longanimidade era tão grande; e uma parte da plebe

decidiu-se a pedir contas, a reclamar garantias, e até a protestar.

Esses adivinhavam a perversidade da rainha. No rei assentou a covardice,

e Leonor Telles não podia ainda contar com partido proprio. Fugiram,

pois, ás escondidas, para Santarem: e o povo, burlado, ficou em vão

esperando o rei no atrio de S. Domingos, para onde o comicio fôra

aprazado. Pelo caminho, na fuga, o rei carinhoso observava: «Olha

aquelles villões traidores, como se juntavam: prendiam-me certamente, se

lá vou.» E não podia esconder o susto, conchegando-se ao collo da

rainha, no seio d'uma inclinação protectora. Leonor Telles sorria,

calada. Era rainha, mas apupada: o plano da vingança acordava-lhe no

animo, e tambem o desdem por esse pobre rei, perdido e fraco.

Este primeiro acto da nova rainha foi decerto o seu primeiro erro. Desde

logo, até os mais indulgentes viram que não havia remedio; e o partido

dos seus inimigos cresceu em numero e ganhou forças e atrevimento. Ella

prejudicára os seus planos por um acto precipitado; e todos os esforços

que empenhava em ganhar sympathias eram vãos. «Era mui grada e liberal a

quaesquer que lhe pediam, mas quanto fazia tudo damnava; e a sua

caridade e as suas manhas não podiam encobrir os seus deshonestos feitos.»

Com effeito, a rainha nem melhorava a fraqueza do rei, nem o afastava

das suas loucuras e emprezas perdidas; e por sobre isto era

reconhecidamente má. Accusavam-na de ter preparado o assassinato da

irman pelo infante seu marido; e era publico que, no meio da agitação da

terceira guerra castelhana, tentára matar o Mestre de Aviz, forjando

para tanto um falso alvará. O povo já a descrevia como uma féra

sangrenta; e o povo sabia quantos odios comprimidos ella guardava contra

essa Lisboa miseravel que a insultava e a apupava. Toda a gente se

sentia offendida, humilhada, com a humilhação do pobre rei. Contava-se

como era com elle ousada e faladora; e como el-rei, submisso e

indolente, curvava a cabeça e se calava. Era uma desgraça que entrára no

palacio. Depois, além de cruel, sanguinaria, e descomposta no modo, era

de uma deshonestidade publica. Todos sabiam que nas barbas do marido

tinha o amante no paço. E o pobre rei não desconfiava, na sua cegueira.

Quando o Andeiro viera de Inglaterra, escondido, com os tratos de

Lencaster, el-rei recolheu-o na torre do seu paço de Extremoz. A sala da

sesta era o quarto do conde; e o rei ia-se, e a rainha vinha passar

horas esquecidas a sós com o amante. O rei, como homem de são coração,

não via o que escandalisava a todos. Pouco se lhe dava d'isso a ella,

chegando a fazer gala dos seus desvarios. O adulterio e a crueldade, o

prazer e o sangue, alliavam-se bem n'esse genio perverso, mas

intelligente e altivo, tão desdenhoso como impudico. Queria firmar sobre

o odio uma força que não pudera conquistar pelo amor. Repellida,

accusada, escarnecida por um povo, para quem talvez quiz ser boa,

decidiu impôr-se-lhe pelo desabrido do odio e pelo desplante do

comportamento. Vingava-se á maneira antiga, como uma Cleópatra.

No outomno de 1383 falleceu D. Fernando; e logo que a tampa caiu sobre o

caixão do defunto, rebentou a revolução.

* * * * *

A revolução de 1383-5 tem um caracter de um Juizo-de-Deus. A dynastia

mentira ao papel justiceiro: morra por ello! Por uma serie de

extravagancias domesticas e politicas, D. Fernando levára a uma crise a

obra lenta e demorada da independencia nacional, iniciada com uma espada

por Affonso Henriques, assegurada com um açoite por Pedro o crú. É

verdade que não deixára de fomentar a consistencia material interna do

corpo da nação; mas de que valia isso, pois que a deixava outra vez a

braços com o problema vital da successão, o problema da independencia?

Logo que o rei morreu, os differentes actores da tragedia começaram a

tomar os seus logares na scena.

O castelhano immediatamente encarcera em Toledo o infante D. João, o

mais perigoso dos seus émulos por direito de herança, mas perdido

perante o povo pela nodoa do ataque de Lisboa, na esquadra inimiga.

A rainha viuva, julgando o momento opportuno para conquistar sympathias,

representa uma scena de prantos. Abandonára por um instante a sua

politica de vingança, agora que tudo podia perder, se a não escudassem o

respeito, ou o amor dos seus. Ella não queria entregar o reino a

Castella: queria que a filha fosse acclamada rainha, e ella, como

regente, rei de facto. Talvez pensasse em casar-se com o Andeiro, a quem

parece amava do coração: seria esse o castigo fatal dos seus crimes, por

ser a causa da sua perdição?

Historia de Portugal: Tomo I · 第 9 / 21 段