vulgar e obeso, avarento e incapaz de perceber a situação cruel do pae,
ruminava porém, com o chanceller Gonçalo Mendes, discipulo de Julião, o
plano da desforra. Começou por confirmar tudo o que o fallecido doára ao
clero, porque primeiro tinha que liquidar contas com os irmãos e com o
seu partido. Sancho I deixára-lhes metade do reino. Affonso queria-o
inteiro para si: e era muito bastante para vêr que não podia bater-se ao
mesmo tempo com todos os adversarios. Faltava no caracter do filho a
nobreza do caracter do pae. Nas côrtes de 1211 confirma ainda a isenção
dos cargos publicos, mas prohibe ao mesmo tempo ao clero a compra de
bens de raiz. O de Braga protesta, e Affonso II manda-lhe arrazar os
campos, destruir as granjas e confiscar as rendas. Estava outra vez
declarada a guerra entre a monarchia e o clero. O rei morre,
impenitente, apesar das ameaças das bullas de Honorio III.
O segundo Sancho tinha muito do caracter do primeiro: era sinceramente
devoto, e na Edade-média a sinceridade implicava certeza de derrota. É
verdade que já a este tempo o terror das excommunhões diminuira: tão
excessivo uso o clero dellas tinha feito. Os interdictos e a denegação
de sepultura em sagrado eram acompanhamento constante de todas as
pretenções ecclesiasticas. Se, porém, a força das armas canonicas
minguára, não tinha diminuido o poderio positivo do clero, que era a
classe mais opulenta do reino. O que os bispos exigiam de Sancho era
demasiado; e como lhes foi negado, depozeram o bom e valente rei (1245).
Em França, o usurpador subscreveu a tudo; sentado no throno, o terceiro
Affonso, soube defender-se como se defendera o segundo. Trazia de fóra a
muita experiencia, a manha, e a pertinacia consummadas, que aprendera
nas côrtes mais polidas da Europa central.
Evidentemente o clero baixa n'esta longa e interessante batalha. O
fundamento juridico das suas pretenções vae gradualmente fugindo, á
medida que as tradições romanistas e o espirito secular inspiram as
acções dos monarchas, primando sobre as maximas do direito canonico.
Esta substituição traduz o aclaramento gradual que se dá nas
consciencias, á maneira que as superstições infantis d'essas primeiras e
obscuras alvoradas, se vão abrindo no dia claro do renascimento da
cultura intellectual.
D. Diniz (1279-325) já não é analphabeto, e mede bem o valor da
sciencia: prova-o a fundação das Escholas. Por outro lado, vê que a
principal causa da força do clero está no ultramontanismo, palavra então
desconhecida ainda para exprimir a influencia e authoridade soberanas
dos papas sobre as Egrejas nacionaes. Libertar-se d'essa perigosa
intervenção era o meio de diminuir a gravidade dos conflictos. Acaso a
tradição dos concilios da Hespanha visigothica influiu para a creação
das assembléas de prelados, cujas _concordatas_, registrando os fóros da
Egreja, a subtrahiam á influencia estrangeira, por tornarem nacional o
clero e internas as suas questões. O rei, que assim fomentava a educação
e nacionalisava a Egreja, cimentando por outro lado o desenvolvimento
economico do paiz, tinha uma intuição dos caracteres modernos das
nações. Portugal caminhava de facto, rapidamente, na estrada da sua
independencia, isto é, da sua constituição organica. O povo costumou-se
a dizer: «El-rei D. Diniz fez tudo o que quiz.»
Pedro, o justiceiro, com a sua typica individualidade conclue de um modo
terminante e brusco a velha questão da influencia de Roma, quando
estabelece o _placito regito_: «Nenhumas bullas, nem lettras pontificias
serão publicadas em Portugal sem consentimento meu.»
Procedia summariamente: e a sua politica, toda pessoal, acclamada com
enthusiasmo por um povo que o adorava, era a voz indomavel da nação que
falava por sua bocca. A sua loucura era a synthese do pensamento
collectivo. Quando o bispo do Porto reagiu, o rei foi lá em pessoa, diz
a chronica, fechou-se com elle n'uma sala, despiu o gibão para ficar
mais á vontade: trazia por baixo uma saia de escarlata. O bispo,
transido de susto, esperava, sem ousar pedir soccorro. D. Pedro
chegou-se e, placidamente, tirou-lhe a capa; desenrolou o latego, e
correu-o a açoites, dizendo-lhe a rir, gaguejando: vae! anda! toma!
Não podia conceber leis, a cuja sombra os criminosos ficassem impunes; e
por isso dava-se-lhe pouco de enforcar os padres.--E as regalias da
Egreja?--«Vam-no enforcando, respondia com bom humor e pausa, porque não
podia falar depressa. Vam-no enforcando: por esse caminho lá vae para
Jesus Christo, seu vigario, que no outro-mundo o julgará!»
E ficava-se a rir, vendo o tonsurado espernear na forca.
Tudo mudára. Os tempos eram diversos; as excommunhões, papeis
rabiscados; as regalias da Egreja, uma tradição apenas. O rei parado,
com os olhos na forca, ria!
«E diziam as gentes que taes dez annos nunca ouve em Portugal como estes
que reinara el-rei dom Pedro.(Fernão Lopes.)
* * * * *
A fidalguia não tem uma historia tão grave como a do clero. As condições
peculiares da constituição do reino portuguez augmentavam ainda os
embaraços que em toda a Hespanha houve para a formação acabada de um
feudalismo.[48] Todos os conflictos da nobreza com a Corôa
proveem, não de uma questão de ambição politica, não de um pensamento
definido de emancipação revolucionaria, como a do clero; mas da avareza,
da cubiça, da brutalidade pessoal dos homens, nos quaes é mistér incluir
tambem os reis.
A não serem, por outro lado, as revoltas do Porto, e as guerras entre
Bragança e outros concelhos transmontanos, por causa do senhorio de
Lamas, nada se encontra em Portugal que dê idéa de uma descentralisação
de dominio politico, similhante á que lavra para além das nossas
fronteiras[49].
Poucos são os conflictos entre o rei e os barões que não tenham por
origem a _pilhagem_ dos realengos. Distante, e por isso mais fraca a
acção da Corôa, o fidalgo do logar não receava chamar seu e apossar-se
violentamente do terreno visinho, pertencente ao rei. Além d'isto, os
nobres forjavam titulos, inventavam doações, para _honrarem_ territorios
sujeitos á acção das justiças reaes. D'estas causas provinham confusões
inextricaveis, que a força apenas decidia. Quando o mordomo do rei, ou o
seu aguazil, appareciam a cobrar um tributo ou reclamar um preso, o
fidalgo usurpador, ou, do terreno, ou do privilegio apenas, saía com os
seus homens: «Ca por aqui é _honra_!» E enforcava-os. Enforcava-os, ou
matava-os mais barbaramente ainda. Um porteiro, que ia fazer uma
penhora, teve as mãos cortadas, e foi depois assassinado. Outro, atado á
cauda de um cavallo, foi de rastos, levado a galope em volta de toda a
_honra_. Um foi _pendurado pelos braços_. Outra vez o fidalgo _prendidit
eos per gargantas_: os processos eram tão barbaros como o latim.
Entretanto, embora destituidas de um alcance ou significação
politico-feudal, não faltam nas primeiras epochas portuguezas revoltas e
desordens oriundas das necessidades bulhentas da fidalguia. Batalhar era
o unico meio de passar o tempo, ganhando fama e dinheiro ou terras. Mais
pacifico o reino occidental da Peninsula, «em aquell tempo os fidallgos
portuguezes hiam a Castella muitas vezes por se provarem pellos corpos
quando em Portugall mesteres nom avia.» Mesteres eram desordens, como a
que assolou o paiz no tempo de Sancho II e levou á deposição do rei. Eis
aqui um episodio do livro das _Linhagens_: «E este Raymão Viegas de
Portocarrero, sendo vassallo d'elrey D. Sancho de Portugal, veio uma
noute a Coimbra com a companha de Martim Gil Soverosa, onde el-rey jazia
dormindo na sua cama; e roubaram-lhe a rainha D. Mecia sua mulher de
apar d'elle e levaram-na para Ourem. O rei lançou-se apoz d'elles e só
os pôde alcançar em Ourem que era então muy forte. Disse-lhes que
abrissem as portas, pois era elrey D. Sancho, e levava seu preponto
vestido de seus signaes e seu escudo e seu pendão ante si, e deram-lhe
muy grandes sétadas e muy grandes pedradas no seu escudo e no seu pendão
e assim se houve ende (d'alli) a tornar.» Mesteres eram estas guerras
civis frequentes; mesteres, porém, menos nobres, eram as vinganças
crueis exercidas sobre o povo inerme, como a de um tal Martim Esteves,
que matou os doze melhores homens de Alter-do-Chão «por deshonra que lhe
ahi fizeram.»
Mesteres ainda, são os desaggravos do thalamo tão a miude violado. Houve
um Dom Rodrigo Gonsalves casado com Dona Ignez Sanchez; ella, estando no
Castello de Lanhoso, fez maldade com um frade de Boiro, e o marido,
certo d'isto, chegou ahi, cercou as portas do castello, e queimou-a a
ella e ao frade e homens e mulheres e bestas e caens e gatos e gallinhas
e todas as cousas vivas, e queimou a camara e pannos de vestir e cama, e
não deixou cousa movel.
Nos mesteres amorosos tambem essa gente barbara se «provava pellos
corpos» mas sem necessidade de ir a Castella. Quando em tão pouco se
tinha a vida alheia, como se teria em muito a honra? De Affonso
Henriques, o rei «muito bravo e esquivo em mancebo», conta a historia
que foi um dia hospedar-se em Unhão, a casa de um homem-bom que havia
nome Gonçalo de Sousa, e emquanto elle ia adubando o comer, foi elrey
vêr-lhe a mulher que tinha por nome Dona Sancha Alvares e
começou-lh'a... E Dom Gonçalo de Sousa entrou pela porta e viu assim ser
e pesou-lhe d'ahi muito e disse-lhe: Senhor, levantae-vos, ca adubado o
tendes. E o rei foi sentar-se, e comeu e partiu; e o marido pegou da
esposa, montou-a n'um jumento com a cara para a cauda, e mandou-a assim
á côrte entregar ao rei.
Estes escrupulos do fidalgo não eram, porém, geraes, e fazem-lhe honra.
A promiscuidade repugnante, o incesto, o sacrilegio são casos communs.
Um fez um filho em Tereja Mendes, abbadessa de Lorvão e levou-o para a
côrte, onde D. Diniz lhe deu muito bem e muita mercê. Outro «ouve um
filho, Ruy, que foi privado d'elrey D. Diniz e ouvidor de sua caza.» Os
reis, os nobres teem barregans publicas e legiões de bastardos. Quando
D. Maria Paes, amazia de Sancho I, vinha do enterro do rei em Coimbra,
encontrou em Avelans Gomes Lourenço, que lhe saíu ao caminho e a
_filhou_ por força, roussando-a. Elvira Annes roussou-a Ruy Gomes de
Briteiros. E D. Fernão Mendes, o bravo, «foi o que matou sua madre na
pelle da ussa e pose-lhe os caens, porque lhe baralhara com a barregan.»
A bestialidade nem respeita o sangue, nem um incesto impede o casamento
das nobres damas. «Dona Thereza Gil foi de mau preço e ouve filhos de
seu primo co-irmão»; Dom Pedro Garcia _jouve_ com sua irman e «fez em
ella semel.» Dona Mor Garcia não foi casada, mas roussou a seu irmão
Pedro e «fez em ella Martim Tavaya.» Outrotanto succedeu a uma Maria
Mendes, que depois casou com Lourenço Soares de Valladares. É longa a
lista das torpezas das _Linhagens_ da fidalguia. Taes são os poeticos
amores da Edade-média, cujo brio é perfidia, cuja bravura é crueldade,
cuja nobreza é astucia. A carne, o sangue e o ouro, a orgia bestial, a
carniceria e o roubo são os elementos d'essas historias, em que a rudeza
barbara apparece manchada de podridões asquerosas.
O roubo e o assassinato compõem essa epopêa aristocratica, cujos amores
são _roussos_, estupros, adulterios, cujo espirito é a avareza e a
perfidia.[50] _Filhar_ as terras do rei, é a primeira das
emprezas da _cavallaria_ em Portugal. E o rei não vale mais do que os
cavalleiros. Quantas vezes, com effeito, não seria usurpadora a sua
intervenção? quantas vezes a ira brutal do fidalgo não teria um
fundamento justo? Affonso II leva metade do seu reinado a espoliar da
herança os irmãos, e todo elle a _inquirir_ o fundamento legal da posse
dos dominios aristocraticos: faz-se idéa da regularidade do segundo
processo, depois de observada a primeira façanha. A confusão é tão
grande, que D. Diniz (1309) decide abolir todas as _honras_ posteriores
a 1290.
É tambem no seu tempo que um outro acto de grande alcance vem diminuir o
poder da nobreza, de um modo analogo ao que succedera ao clero. Assim
como, fóra da nação, o clero tinha em Roma o seu chefe supremo; assim
tambem as Ordens militares, estabelecidas em Portugal, tinham fóra do
reino os seus mestrados. Nacionalisar as Ordens militares (1310)
equivalia ao que se conseguira com as assembléas do clero. O _Templo_,
poderosa machina destruida por Clemente V, legava os seus bens ao
_Hospital_, mas os tres reis de Castella, Aragão e Portugal, _como todos
tres fuessemos uno a catar nuestro drecho_, conseguem nacionalisar os
bens dos templarios. É com elles que D. Diniz funda a ordem portugueza
de Christo.
* * * * *
Os monges militares[51] tinham representado um papel
importante no movimento da reconstituição economica dos territorios
portuguezes. Desde os primeiros tempos que ás Ordens jerosalemitanas
fôra confiada a guarda de numerosas povoações. O Templo, o Hospital e o
Sepulcro fruiam de abundantes doações; e Affonso Henriques concedera á
primeira a terça parte de todas as conquistas ao sul do Tejo. Á inopia
de forças para levar a cabo as grandes emprezas de Lisboa, Alcacer e
Silves, pontos decisivos da conquista do sul do reino, remediavam os
Cruzados; mas as esquadras partiam com o saque, e sósinhos os
portuguezes não podiam conservar o adquirido. N'este motivo se fundára a
concessão permanente de terras ás Ordens militares. Como vimos, Sancho
II estendeu as fronteiras do reino pelo alto-Alemtejo; e sem recursos
para conservar as conquistas, chamou para o reino os cavalleiros de
Santiago e Calatrava, cujo mestrado era castelhano.
Tal era o unico meio de guarnecer os castellos dispersos pelas vastas
campinas assoladas do sul do reino. A instabilidade do dominio e a
escassez da população--ainda hoje sentimos as consequencias d'essas
prolongadas guerras--não permittiam que a cultura se estendesse; e á
falta de productos da terra, christãos e sarracenos tinham de
soccorrer-se ao systema de correrias e algaras permanentes. Como em
nossos tempos na Servia, o lavrador trabalhava armado, na limitada área
aproveitada em torno dos lugares fortificados. Além da occupação
constante de _alancear mouros_, havia os grandes fossados annuaes, no
tempo em que as searas estavam maduras; e isto fazia precaria e
transitoria a agricultura. Todas estas causas reunidas produziam em
resultado a devastação universal, já consummada na edade de que nos
occupamos. Nos foraes dos primeiros seculos da monarchia, o alfoz dos
concelhos é demarcado por uma certa penedia no alto da serra, pelo
carvalho insulado, pela _velha_ estrada mourisca, por certa pedra de côr
diversa; jámais por casas, villares ou granjas.
O norte do reino, abrigado das invasões, defendido pelas linhas
estrategicas do Tejo e do Mondego, não era, desde seculos, theatro da
guerra santa. As depredações, menos geraes e menos frequentes, provinham
ahi apenas das rixas dos senhores e das guerras civis. Affonso II mandou
arrasar as propriedades do arcebispo de Braga. As guerras entre os
filhos de Sancho I, as commoções que acompanharam a queda de Sancho II,
a rebellião armada de Affonso (depois IV) contra seu pae, a do viuvo de
Ignez de Castro, entre outras, trouxeram decerto ruinas e desastres, mas
não para comparar com as assolações do sul, nem sequer com os males dos
primeiros tempos, quando a ambição de conquistar a Galliza fazia do
Minho o theatro das luctas quasi constantes com Leão.
As guerras castelhanas do tempo de D. Fernando teem um novo theatro,
porque o antigo condado portucalense descera já á condição de provincia
portuguesa. O coração do reino está em Lisboa, a terra querida d'elrey
Diniz, _ca hy nascera, hy fora criado y bautizado, e hy fora rey_. Nem o
norte do Mondego, rico e populoso, nem o sul do Sado, demasiado bravio e
inhospito, chamam a attenção administrativa dos governos. Toda ella se
applica para o centro do reino, a renovar e agricultar, e para o
desenvolvimento da navegação e do commercio pelo magnifico porto onde
todos os navios, em viagem dos mares do norte para o Mediterraneo,
vinham refrescar, desde que Lisboa era christan. D. Diniz lavrou o
primeiro tratado mercantil com a Inglaterra (1308). Os armadores da
Normandia, da Flandres e da Inglaterra, já no fim do XIII seculo
demandavam o Tejo, para mercadejar; e os cuidados dos reis não se
limitavam apenas a favorecer esse commercio, porque as plantações de
vastos pinhaes nas costas teem como motivo proporcionar madeiras ás
construcções navaes, e ao mesmo tempo defender as terras da invasão das
dunas, no litoral de entre o Tejo e Mondego.
O ultimo d'esta serie de phenomenos que demonstram a formação crescente
de um organismo nacional, é o apparecimento de Lisboa, a cidade querida,
como um centro de actividade maritima e commercial. Definitivamente
separado de Leão, obliteradas as ambições da absorpção da Galliza,
geographicamente completo até ao mar do Algarve, rota a dependencia
feudal de Roma, nacionalisado o clero e as Ordens militares, fortalecido
o poder dos reis, iniciada a organisação da justiça, da administração,
do ensino--o corpo da nação portugueza, até ahi acephalo, achava em
Lisboa a capital. A cidade do Tejo dava mais do que um centro de vida
organica, dava um destino definido--o maritimo--a uma nação que na terra
da Hespanha não tinha individualidade, nem por uma indole homogenea e
particular dos habitantes, nem por uma conformação especial e autónoma
do territorio.
Corintho ou Veneza do occidente, Lisboa _grande cidade de muytas e
desvairadas gentes_ era mais do que a capital do reino: era a razão de
ser da sua independencia.
[43] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) liv. III, 4.
[44] V. _Instit. primit._, pp. 233 e segg.
[45] V. _Instit. primitivas_, pp. 137-47.
[46] V. para os usos judiciaes, etc., na Edade-média portuguesa,
o _Quadro das Instit. primit._, pp. 17-18, 154, 163-4, 170-1,
175-8 e 181-205; e _Regime das Riquezas_, pp. 172-4.
[47] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 158 e segg.
[48] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 127-32 e 143-9.
[49] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 135-43
[50] V. _Instit. primit._, pp. 98 e 157.
[51] V. _Instit. primit._, p. 263.
* * * * *
IV
A crise
Quando Portugal se encaminhava, por fim, no sentido de uma rapida e
definitiva constituição, quiz o acaso que o throno coubesse por herança
a um principe de fracas, mas sympathicas qualidades.
Do justo e duro Pedro nasce o brando
(Vede da natureza o desconcerto!)
Remisso e sem cuidado algum Fernando.
O filho de Pedro I era uma infeliz creatura, mal equilibrada nas suas
qualidades e defeitos. Não era, decerto, aquelle homem de que a nação
carecia para consolidar de um modo seguro a sua independencia; e n'um
sentido póde dizer-se que as condições em que se achou foram a causa dos
males de que muito soffreu. Faltava-lhe a firmeza necessaria para
realisar os planos concebidos por uma intelligencia perspicaz. Era
inventivo, mas era chimerico. Media o alcance dos actos e pensamentos,
mas não sabia pesar o valor dos meios. O corpo de leis que promulgou
para fomentar a navegação e o commercio, honrarão eternamente a sua
intelligencia e a fina percepção com que via no desenvolvimento maritimo
o futuro da patria. A obra consideravel das fortificações da capital
(1377) concorre tambem a mostrar que reconhecia a verdade--cruamente por
elle aprendida--de que Portugal era já, e seria sempre Lisboa.
Accusam-no modernos sabios de ter defraudado a moeda: mas que outro
remedio havia então contra a penuria do thesouro? que outros exemplos
davam os demais principes? que outro exemplo damos nós ainda hoje,
quando, para não cercear o peso ou diminuir o toque do ouro, cunhamos
papel?--Accusam-no porque _hordenou almotaçaria em todallas cousas_
(1375): e que outro remedio havia, na curta sciencia do tempo, contra os
monopolios e agiotagens, mais funestos na paz do que as batalhas dos
tempos de guerra? Tarifar os generos e os salarios foi medida applaudida
quasi até nossos dias; obrigar os detentores á venda dos cereaes,
determinar a partilha dos grãos, foram actos de salvação publica
repetidos ainda depois de D. Fernando, e sempre que uma crise obriga a
suspender as garantias, ou justiça civil. Mas o rei que cerceava as
moedas e ordenava a almotaçaria em todas as cousas, era o que fundava a
marinha mercante nacional: era o que, olhando para o mar, não se
esquecia da terra, obrigando os proprietarios dos maninhos alemtejanos a
cultival-os, ou a aforal-os. A administração de D. Fernando é um
cesarismo. O desenvolvimento politico e economico da nação chegava a um
momento de crise organica traduzida por uma crise militar e dynastica. A
população e a riqueza tinham crescido de um modo notavel desde que,
havia mais de um seculo, terminára a reconquista do territorio aos
musulmanos. O censo que annos depois se fez (1417) dá ao reino 4:800
besteiros de conto, ao Porto 8:500 habitantes, e a Lisboa 63:750.
Pullulavam enxames de aldeias e casaes pelos campos agricultados, e
muitas villas que depois definharam eram ainda importantes: Sines,
Cezimbra e Mertola. Algumas cidades eram muito maiores do que são hoje:
Evora e Beja, Santarem, Thomar, Leiria. D. Fernando herdou o reino
robusto e forte.
Mas o pobre rei, tão bom e tão sagaz, tinha porém um fraco, que
estragava tudo: era doido por mulheres. Singular na edade-média, a
pessoa de D. Fernando parece estar no fim de uma epocha historica, como
um indicio e um typo mal esboçado de futuros personagens. Superior na
intelligencia, acaso por isso mesmo era desmandado no modo de proceder.
Talvez lhe conviesse o nome de sceptico, especie moral que o
desenvolvimento da inteligencia, sem o desenvolvimento parallelo da
vontade, ou do caracter, faz tão commum em nossos dias. Para Cesar, D.
Fernando era, porém, bondoso de mais: tinha um fundo de sinceridade que
o perdia, porque á indifferença não reunia o cynismo. Era, no fundo, um
pobre homem de talento. Este genero de individuos é sempre sympathico; e
por isso o povo, embora chegasse a mofar, nunca o odiou. As suas
fraquezas, prazeres e amores sempre foram criticados com benevolencia. O
povo sabia que no fundo o caracter do rei não era perverso. Não o podia
respeitar nem temer, mas sorria-se amigavelmente das suas
extravagancias. Era o filho prodigo da nação.
Ás suas qualidades e vicios sympathicos reunia o ser formoso, agil,
cavalleiro como os bons, caridoso, affavel, «gran criador de fidalgos e
muito companheiro com elles, cavalgante, torneador, grande justador e
lançador atavolado»--o jogo era uma das basofias do fidalgo
medieval--dadivoso para com todos, e grande agasalhador de estrangeiros.
A toda a gente queria bem, mas de um modo familiar e singelo, que não
infundia respeito. Os reis de fóra, sabendo-o tão singularmente bom e
simples, riam-se d'elle.
Era um infeliz, no sentido que a expressão tem popularmente em
castelhano. Dava tudo pela caça: uma paixão desenfreada. Só falcoeiros
de besta contava quarenta e cinco, e não estava satisfeito: queria
povoar com elles uma rua inteira em Santarem. Quando mandava por aves,
nunca lhe trouxessem para menos de cincoenta, entre açores e falcões,
gerifaltes e negris, todas _primas_. Tinha um regimento de mouros para
apresarem as garças e outras aves, que iam buscar a caça nas lagôas. Não
perdoava sequer os innocentes pombos. Eram ás legiões as matilhas de
cães para coelhos, rapozas e lebres. Correr lebres ou atirar aos pombos
era o seu _grande sabor e desenfadamento_. O do seu avô Henriques fôra
correr mouros e atirar ás ameias dos castellos: os tempos, os
temperamentos, eram já inteiramente diversos.