Fóra da camara, onde o rei agonisava (1211), o herdeiro, Affonso II,

vulgar e obeso, avarento e incapaz de perceber a situação cruel do pae,

ruminava porém, com o chanceller Gonçalo Mendes, discipulo de Julião, o

plano da desforra. Começou por confirmar tudo o que o fallecido doára ao

clero, porque primeiro tinha que liquidar contas com os irmãos e com o

seu partido. Sancho I deixára-lhes metade do reino. Affonso queria-o

inteiro para si: e era muito bastante para vêr que não podia bater-se ao

mesmo tempo com todos os adversarios. Faltava no caracter do filho a

nobreza do caracter do pae. Nas côrtes de 1211 confirma ainda a isenção

dos cargos publicos, mas prohibe ao mesmo tempo ao clero a compra de

bens de raiz. O de Braga protesta, e Affonso II manda-lhe arrazar os

campos, destruir as granjas e confiscar as rendas. Estava outra vez

declarada a guerra entre a monarchia e o clero. O rei morre,

impenitente, apesar das ameaças das bullas de Honorio III.

O segundo Sancho tinha muito do caracter do primeiro: era sinceramente

devoto, e na Edade-média a sinceridade implicava certeza de derrota. É

verdade que já a este tempo o terror das excommunhões diminuira: tão

excessivo uso o clero dellas tinha feito. Os interdictos e a denegação

de sepultura em sagrado eram acompanhamento constante de todas as

pretenções ecclesiasticas. Se, porém, a força das armas canonicas

minguára, não tinha diminuido o poderio positivo do clero, que era a

classe mais opulenta do reino. O que os bispos exigiam de Sancho era

demasiado; e como lhes foi negado, depozeram o bom e valente rei (1245).

Em França, o usurpador subscreveu a tudo; sentado no throno, o terceiro

Affonso, soube defender-se como se defendera o segundo. Trazia de fóra a

muita experiencia, a manha, e a pertinacia consummadas, que aprendera

nas côrtes mais polidas da Europa central.

Evidentemente o clero baixa n'esta longa e interessante batalha. O

fundamento juridico das suas pretenções vae gradualmente fugindo, á

medida que as tradições romanistas e o espirito secular inspiram as

acções dos monarchas, primando sobre as maximas do direito canonico.

Esta substituição traduz o aclaramento gradual que se dá nas

consciencias, á maneira que as superstições infantis d'essas primeiras e

obscuras alvoradas, se vão abrindo no dia claro do renascimento da

cultura intellectual.

D. Diniz (1279-325) já não é analphabeto, e mede bem o valor da

sciencia: prova-o a fundação das Escholas. Por outro lado, vê que a

principal causa da força do clero está no ultramontanismo, palavra então

desconhecida ainda para exprimir a influencia e authoridade soberanas

dos papas sobre as Egrejas nacionaes. Libertar-se d'essa perigosa

intervenção era o meio de diminuir a gravidade dos conflictos. Acaso a

tradição dos concilios da Hespanha visigothica influiu para a creação

das assembléas de prelados, cujas _concordatas_, registrando os fóros da

Egreja, a subtrahiam á influencia estrangeira, por tornarem nacional o

clero e internas as suas questões. O rei, que assim fomentava a educação

e nacionalisava a Egreja, cimentando por outro lado o desenvolvimento

economico do paiz, tinha uma intuição dos caracteres modernos das

nações. Portugal caminhava de facto, rapidamente, na estrada da sua

independencia, isto é, da sua constituição organica. O povo costumou-se

a dizer: «El-rei D. Diniz fez tudo o que quiz.»

Pedro, o justiceiro, com a sua typica individualidade conclue de um modo

terminante e brusco a velha questão da influencia de Roma, quando

estabelece o _placito regito_: «Nenhumas bullas, nem lettras pontificias

serão publicadas em Portugal sem consentimento meu.»

Procedia summariamente: e a sua politica, toda pessoal, acclamada com

enthusiasmo por um povo que o adorava, era a voz indomavel da nação que

falava por sua bocca. A sua loucura era a synthese do pensamento

collectivo. Quando o bispo do Porto reagiu, o rei foi lá em pessoa, diz

a chronica, fechou-se com elle n'uma sala, despiu o gibão para ficar

mais á vontade: trazia por baixo uma saia de escarlata. O bispo,

transido de susto, esperava, sem ousar pedir soccorro. D. Pedro

chegou-se e, placidamente, tirou-lhe a capa; desenrolou o latego, e

correu-o a açoites, dizendo-lhe a rir, gaguejando: vae! anda! toma!

Não podia conceber leis, a cuja sombra os criminosos ficassem impunes; e

por isso dava-se-lhe pouco de enforcar os padres.--E as regalias da

Egreja?--«Vam-no enforcando, respondia com bom humor e pausa, porque não

podia falar depressa. Vam-no enforcando: por esse caminho lá vae para

Jesus Christo, seu vigario, que no outro-mundo o julgará!»

E ficava-se a rir, vendo o tonsurado espernear na forca.

Tudo mudára. Os tempos eram diversos; as excommunhões, papeis

rabiscados; as regalias da Egreja, uma tradição apenas. O rei parado,

com os olhos na forca, ria!

«E diziam as gentes que taes dez annos nunca ouve em Portugal como estes

que reinara el-rei dom Pedro.(Fernão Lopes.)

* * * * *

A fidalguia não tem uma historia tão grave como a do clero. As condições

peculiares da constituição do reino portuguez augmentavam ainda os

embaraços que em toda a Hespanha houve para a formação acabada de um

feudalismo.[48] Todos os conflictos da nobreza com a Corôa

proveem, não de uma questão de ambição politica, não de um pensamento

definido de emancipação revolucionaria, como a do clero; mas da avareza,

da cubiça, da brutalidade pessoal dos homens, nos quaes é mistér incluir

tambem os reis.

A não serem, por outro lado, as revoltas do Porto, e as guerras entre

Bragança e outros concelhos transmontanos, por causa do senhorio de

Lamas, nada se encontra em Portugal que dê idéa de uma descentralisação

de dominio politico, similhante á que lavra para além das nossas

fronteiras[49].

Poucos são os conflictos entre o rei e os barões que não tenham por

origem a _pilhagem_ dos realengos. Distante, e por isso mais fraca a

acção da Corôa, o fidalgo do logar não receava chamar seu e apossar-se

violentamente do terreno visinho, pertencente ao rei. Além d'isto, os

nobres forjavam titulos, inventavam doações, para _honrarem_ territorios

sujeitos á acção das justiças reaes. D'estas causas provinham confusões

inextricaveis, que a força apenas decidia. Quando o mordomo do rei, ou o

seu aguazil, appareciam a cobrar um tributo ou reclamar um preso, o

fidalgo usurpador, ou, do terreno, ou do privilegio apenas, saía com os

seus homens: «Ca por aqui é _honra_!» E enforcava-os. Enforcava-os, ou

matava-os mais barbaramente ainda. Um porteiro, que ia fazer uma

penhora, teve as mãos cortadas, e foi depois assassinado. Outro, atado á

cauda de um cavallo, foi de rastos, levado a galope em volta de toda a

_honra_. Um foi _pendurado pelos braços_. Outra vez o fidalgo _prendidit

eos per gargantas_: os processos eram tão barbaros como o latim.

Entretanto, embora destituidas de um alcance ou significação

politico-feudal, não faltam nas primeiras epochas portuguezas revoltas e

desordens oriundas das necessidades bulhentas da fidalguia. Batalhar era

o unico meio de passar o tempo, ganhando fama e dinheiro ou terras. Mais

pacifico o reino occidental da Peninsula, «em aquell tempo os fidallgos

portuguezes hiam a Castella muitas vezes por se provarem pellos corpos

quando em Portugall mesteres nom avia.» Mesteres eram desordens, como a

que assolou o paiz no tempo de Sancho II e levou á deposição do rei. Eis

aqui um episodio do livro das _Linhagens_: «E este Raymão Viegas de

Portocarrero, sendo vassallo d'elrey D. Sancho de Portugal, veio uma

noute a Coimbra com a companha de Martim Gil Soverosa, onde el-rey jazia

dormindo na sua cama; e roubaram-lhe a rainha D. Mecia sua mulher de

apar d'elle e levaram-na para Ourem. O rei lançou-se apoz d'elles e só

os pôde alcançar em Ourem que era então muy forte. Disse-lhes que

abrissem as portas, pois era elrey D. Sancho, e levava seu preponto

vestido de seus signaes e seu escudo e seu pendão ante si, e deram-lhe

muy grandes sétadas e muy grandes pedradas no seu escudo e no seu pendão

e assim se houve ende (d'alli) a tornar.» Mesteres eram estas guerras

civis frequentes; mesteres, porém, menos nobres, eram as vinganças

crueis exercidas sobre o povo inerme, como a de um tal Martim Esteves,

que matou os doze melhores homens de Alter-do-Chão «por deshonra que lhe

ahi fizeram.»

Mesteres ainda, são os desaggravos do thalamo tão a miude violado. Houve

um Dom Rodrigo Gonsalves casado com Dona Ignez Sanchez; ella, estando no

Castello de Lanhoso, fez maldade com um frade de Boiro, e o marido,

certo d'isto, chegou ahi, cercou as portas do castello, e queimou-a a

ella e ao frade e homens e mulheres e bestas e caens e gatos e gallinhas

e todas as cousas vivas, e queimou a camara e pannos de vestir e cama, e

não deixou cousa movel.

Nos mesteres amorosos tambem essa gente barbara se «provava pellos

corpos» mas sem necessidade de ir a Castella. Quando em tão pouco se

tinha a vida alheia, como se teria em muito a honra? De Affonso

Henriques, o rei «muito bravo e esquivo em mancebo», conta a historia

que foi um dia hospedar-se em Unhão, a casa de um homem-bom que havia

nome Gonçalo de Sousa, e emquanto elle ia adubando o comer, foi elrey

vêr-lhe a mulher que tinha por nome Dona Sancha Alvares e

começou-lh'a... E Dom Gonçalo de Sousa entrou pela porta e viu assim ser

e pesou-lhe d'ahi muito e disse-lhe: Senhor, levantae-vos, ca adubado o

tendes. E o rei foi sentar-se, e comeu e partiu; e o marido pegou da

esposa, montou-a n'um jumento com a cara para a cauda, e mandou-a assim

á côrte entregar ao rei.

Estes escrupulos do fidalgo não eram, porém, geraes, e fazem-lhe honra.

A promiscuidade repugnante, o incesto, o sacrilegio são casos communs.

Um fez um filho em Tereja Mendes, abbadessa de Lorvão e levou-o para a

côrte, onde D. Diniz lhe deu muito bem e muita mercê. Outro «ouve um

filho, Ruy, que foi privado d'elrey D. Diniz e ouvidor de sua caza.» Os

reis, os nobres teem barregans publicas e legiões de bastardos. Quando

D. Maria Paes, amazia de Sancho I, vinha do enterro do rei em Coimbra,

encontrou em Avelans Gomes Lourenço, que lhe saíu ao caminho e a

_filhou_ por força, roussando-a. Elvira Annes roussou-a Ruy Gomes de

Briteiros. E D. Fernão Mendes, o bravo, «foi o que matou sua madre na

pelle da ussa e pose-lhe os caens, porque lhe baralhara com a barregan.»

A bestialidade nem respeita o sangue, nem um incesto impede o casamento

das nobres damas. «Dona Thereza Gil foi de mau preço e ouve filhos de

seu primo co-irmão»; Dom Pedro Garcia _jouve_ com sua irman e «fez em

ella semel.» Dona Mor Garcia não foi casada, mas roussou a seu irmão

Pedro e «fez em ella Martim Tavaya.» Outrotanto succedeu a uma Maria

Mendes, que depois casou com Lourenço Soares de Valladares. É longa a

lista das torpezas das _Linhagens_ da fidalguia. Taes são os poeticos

amores da Edade-média, cujo brio é perfidia, cuja bravura é crueldade,

cuja nobreza é astucia. A carne, o sangue e o ouro, a orgia bestial, a

carniceria e o roubo são os elementos d'essas historias, em que a rudeza

barbara apparece manchada de podridões asquerosas.

O roubo e o assassinato compõem essa epopêa aristocratica, cujos amores

são _roussos_, estupros, adulterios, cujo espirito é a avareza e a

perfidia.[50] _Filhar_ as terras do rei, é a primeira das

emprezas da _cavallaria_ em Portugal. E o rei não vale mais do que os

cavalleiros. Quantas vezes, com effeito, não seria usurpadora a sua

intervenção? quantas vezes a ira brutal do fidalgo não teria um

fundamento justo? Affonso II leva metade do seu reinado a espoliar da

herança os irmãos, e todo elle a _inquirir_ o fundamento legal da posse

dos dominios aristocraticos: faz-se idéa da regularidade do segundo

processo, depois de observada a primeira façanha. A confusão é tão

grande, que D. Diniz (1309) decide abolir todas as _honras_ posteriores

a 1290.

É tambem no seu tempo que um outro acto de grande alcance vem diminuir o

poder da nobreza, de um modo analogo ao que succedera ao clero. Assim

como, fóra da nação, o clero tinha em Roma o seu chefe supremo; assim

tambem as Ordens militares, estabelecidas em Portugal, tinham fóra do

reino os seus mestrados. Nacionalisar as Ordens militares (1310)

equivalia ao que se conseguira com as assembléas do clero. O _Templo_,

poderosa machina destruida por Clemente V, legava os seus bens ao

_Hospital_, mas os tres reis de Castella, Aragão e Portugal, _como todos

tres fuessemos uno a catar nuestro drecho_, conseguem nacionalisar os

bens dos templarios. É com elles que D. Diniz funda a ordem portugueza

de Christo.

* * * * *

Os monges militares[51] tinham representado um papel

importante no movimento da reconstituição economica dos territorios

portuguezes. Desde os primeiros tempos que ás Ordens jerosalemitanas

fôra confiada a guarda de numerosas povoações. O Templo, o Hospital e o

Sepulcro fruiam de abundantes doações; e Affonso Henriques concedera á

primeira a terça parte de todas as conquistas ao sul do Tejo. Á inopia

de forças para levar a cabo as grandes emprezas de Lisboa, Alcacer e

Silves, pontos decisivos da conquista do sul do reino, remediavam os

Cruzados; mas as esquadras partiam com o saque, e sósinhos os

portuguezes não podiam conservar o adquirido. N'este motivo se fundára a

concessão permanente de terras ás Ordens militares. Como vimos, Sancho

II estendeu as fronteiras do reino pelo alto-Alemtejo; e sem recursos

para conservar as conquistas, chamou para o reino os cavalleiros de

Santiago e Calatrava, cujo mestrado era castelhano.

Tal era o unico meio de guarnecer os castellos dispersos pelas vastas

campinas assoladas do sul do reino. A instabilidade do dominio e a

escassez da população--ainda hoje sentimos as consequencias d'essas

prolongadas guerras--não permittiam que a cultura se estendesse; e á

falta de productos da terra, christãos e sarracenos tinham de

soccorrer-se ao systema de correrias e algaras permanentes. Como em

nossos tempos na Servia, o lavrador trabalhava armado, na limitada área

aproveitada em torno dos lugares fortificados. Além da occupação

constante de _alancear mouros_, havia os grandes fossados annuaes, no

tempo em que as searas estavam maduras; e isto fazia precaria e

transitoria a agricultura. Todas estas causas reunidas produziam em

resultado a devastação universal, já consummada na edade de que nos

occupamos. Nos foraes dos primeiros seculos da monarchia, o alfoz dos

concelhos é demarcado por uma certa penedia no alto da serra, pelo

carvalho insulado, pela _velha_ estrada mourisca, por certa pedra de côr

diversa; jámais por casas, villares ou granjas.

O norte do reino, abrigado das invasões, defendido pelas linhas

estrategicas do Tejo e do Mondego, não era, desde seculos, theatro da

guerra santa. As depredações, menos geraes e menos frequentes, provinham

ahi apenas das rixas dos senhores e das guerras civis. Affonso II mandou

arrasar as propriedades do arcebispo de Braga. As guerras entre os

filhos de Sancho I, as commoções que acompanharam a queda de Sancho II,

a rebellião armada de Affonso (depois IV) contra seu pae, a do viuvo de

Ignez de Castro, entre outras, trouxeram decerto ruinas e desastres, mas

não para comparar com as assolações do sul, nem sequer com os males dos

primeiros tempos, quando a ambição de conquistar a Galliza fazia do

Minho o theatro das luctas quasi constantes com Leão.

As guerras castelhanas do tempo de D. Fernando teem um novo theatro,

porque o antigo condado portucalense descera já á condição de provincia

portuguesa. O coração do reino está em Lisboa, a terra querida d'elrey

Diniz, _ca hy nascera, hy fora criado y bautizado, e hy fora rey_. Nem o

norte do Mondego, rico e populoso, nem o sul do Sado, demasiado bravio e

inhospito, chamam a attenção administrativa dos governos. Toda ella se

applica para o centro do reino, a renovar e agricultar, e para o

desenvolvimento da navegação e do commercio pelo magnifico porto onde

todos os navios, em viagem dos mares do norte para o Mediterraneo,

vinham refrescar, desde que Lisboa era christan. D. Diniz lavrou o

primeiro tratado mercantil com a Inglaterra (1308). Os armadores da

Normandia, da Flandres e da Inglaterra, já no fim do XIII seculo

demandavam o Tejo, para mercadejar; e os cuidados dos reis não se

limitavam apenas a favorecer esse commercio, porque as plantações de

vastos pinhaes nas costas teem como motivo proporcionar madeiras ás

construcções navaes, e ao mesmo tempo defender as terras da invasão das

dunas, no litoral de entre o Tejo e Mondego.

O ultimo d'esta serie de phenomenos que demonstram a formação crescente

de um organismo nacional, é o apparecimento de Lisboa, a cidade querida,

como um centro de actividade maritima e commercial. Definitivamente

separado de Leão, obliteradas as ambições da absorpção da Galliza,

geographicamente completo até ao mar do Algarve, rota a dependencia

feudal de Roma, nacionalisado o clero e as Ordens militares, fortalecido

o poder dos reis, iniciada a organisação da justiça, da administração,

do ensino--o corpo da nação portugueza, até ahi acephalo, achava em

Lisboa a capital. A cidade do Tejo dava mais do que um centro de vida

organica, dava um destino definido--o maritimo--a uma nação que na terra

da Hespanha não tinha individualidade, nem por uma indole homogenea e

particular dos habitantes, nem por uma conformação especial e autónoma

do territorio.

Corintho ou Veneza do occidente, Lisboa _grande cidade de muytas e

desvairadas gentes_ era mais do que a capital do reino: era a razão de

ser da sua independencia.

[43] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) liv. III, 4.

[44] V. _Instit. primit._, pp. 233 e segg.

[45] V. _Instit. primitivas_, pp. 137-47.

[46] V. para os usos judiciaes, etc., na Edade-média portuguesa,

o _Quadro das Instit. primit._, pp. 17-18, 154, 163-4, 170-1,

175-8 e 181-205; e _Regime das Riquezas_, pp. 172-4.

[47] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 158 e segg.

[48] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 127-32 e 143-9.

[49] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 135-43

[50] V. _Instit. primit._, pp. 98 e 157.

[51] V. _Instit. primit._, p. 263.

* * * * *

IV

A crise

Quando Portugal se encaminhava, por fim, no sentido de uma rapida e

definitiva constituição, quiz o acaso que o throno coubesse por herança

a um principe de fracas, mas sympathicas qualidades.

Do justo e duro Pedro nasce o brando

(Vede da natureza o desconcerto!)

Remisso e sem cuidado algum Fernando.

O filho de Pedro I era uma infeliz creatura, mal equilibrada nas suas

qualidades e defeitos. Não era, decerto, aquelle homem de que a nação

carecia para consolidar de um modo seguro a sua independencia; e n'um

sentido póde dizer-se que as condições em que se achou foram a causa dos

males de que muito soffreu. Faltava-lhe a firmeza necessaria para

realisar os planos concebidos por uma intelligencia perspicaz. Era

inventivo, mas era chimerico. Media o alcance dos actos e pensamentos,

mas não sabia pesar o valor dos meios. O corpo de leis que promulgou

para fomentar a navegação e o commercio, honrarão eternamente a sua

intelligencia e a fina percepção com que via no desenvolvimento maritimo

o futuro da patria. A obra consideravel das fortificações da capital

(1377) concorre tambem a mostrar que reconhecia a verdade--cruamente por

elle aprendida--de que Portugal era já, e seria sempre Lisboa.

Accusam-no modernos sabios de ter defraudado a moeda: mas que outro

remedio havia então contra a penuria do thesouro? que outros exemplos

davam os demais principes? que outro exemplo damos nós ainda hoje,

quando, para não cercear o peso ou diminuir o toque do ouro, cunhamos

papel?--Accusam-no porque _hordenou almotaçaria em todallas cousas_

(1375): e que outro remedio havia, na curta sciencia do tempo, contra os

monopolios e agiotagens, mais funestos na paz do que as batalhas dos

tempos de guerra? Tarifar os generos e os salarios foi medida applaudida

quasi até nossos dias; obrigar os detentores á venda dos cereaes,

determinar a partilha dos grãos, foram actos de salvação publica

repetidos ainda depois de D. Fernando, e sempre que uma crise obriga a

suspender as garantias, ou justiça civil. Mas o rei que cerceava as

moedas e ordenava a almotaçaria em todas as cousas, era o que fundava a

marinha mercante nacional: era o que, olhando para o mar, não se

esquecia da terra, obrigando os proprietarios dos maninhos alemtejanos a

cultival-os, ou a aforal-os. A administração de D. Fernando é um

cesarismo. O desenvolvimento politico e economico da nação chegava a um

momento de crise organica traduzida por uma crise militar e dynastica. A

população e a riqueza tinham crescido de um modo notavel desde que,

havia mais de um seculo, terminára a reconquista do territorio aos

musulmanos. O censo que annos depois se fez (1417) dá ao reino 4:800

besteiros de conto, ao Porto 8:500 habitantes, e a Lisboa 63:750.

Pullulavam enxames de aldeias e casaes pelos campos agricultados, e

muitas villas que depois definharam eram ainda importantes: Sines,

Cezimbra e Mertola. Algumas cidades eram muito maiores do que são hoje:

Evora e Beja, Santarem, Thomar, Leiria. D. Fernando herdou o reino

robusto e forte.

Mas o pobre rei, tão bom e tão sagaz, tinha porém um fraco, que

estragava tudo: era doido por mulheres. Singular na edade-média, a

pessoa de D. Fernando parece estar no fim de uma epocha historica, como

um indicio e um typo mal esboçado de futuros personagens. Superior na

intelligencia, acaso por isso mesmo era desmandado no modo de proceder.

Talvez lhe conviesse o nome de sceptico, especie moral que o

desenvolvimento da inteligencia, sem o desenvolvimento parallelo da

vontade, ou do caracter, faz tão commum em nossos dias. Para Cesar, D.

Fernando era, porém, bondoso de mais: tinha um fundo de sinceridade que

o perdia, porque á indifferença não reunia o cynismo. Era, no fundo, um

pobre homem de talento. Este genero de individuos é sempre sympathico; e

por isso o povo, embora chegasse a mofar, nunca o odiou. As suas

fraquezas, prazeres e amores sempre foram criticados com benevolencia. O

povo sabia que no fundo o caracter do rei não era perverso. Não o podia

respeitar nem temer, mas sorria-se amigavelmente das suas

extravagancias. Era o filho prodigo da nação.

Ás suas qualidades e vicios sympathicos reunia o ser formoso, agil,

cavalleiro como os bons, caridoso, affavel, «gran criador de fidalgos e

muito companheiro com elles, cavalgante, torneador, grande justador e

lançador atavolado»--o jogo era uma das basofias do fidalgo

medieval--dadivoso para com todos, e grande agasalhador de estrangeiros.

A toda a gente queria bem, mas de um modo familiar e singelo, que não

infundia respeito. Os reis de fóra, sabendo-o tão singularmente bom e

simples, riam-se d'elle.

Era um infeliz, no sentido que a expressão tem popularmente em

castelhano. Dava tudo pela caça: uma paixão desenfreada. Só falcoeiros

de besta contava quarenta e cinco, e não estava satisfeito: queria

povoar com elles uma rua inteira em Santarem. Quando mandava por aves,

nunca lhe trouxessem para menos de cincoenta, entre açores e falcões,

gerifaltes e negris, todas _primas_. Tinha um regimento de mouros para

apresarem as garças e outras aves, que iam buscar a caça nas lagôas. Não

perdoava sequer os innocentes pombos. Eram ás legiões as matilhas de

cães para coelhos, rapozas e lebres. Correr lebres ou atirar aos pombos

era o seu _grande sabor e desenfadamento_. O do seu avô Henriques fôra

correr mouros e atirar ás ameias dos castellos: os tempos, os

temperamentos, eram já inteiramente diversos.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 8 / 21 段