A loucura de D. Pedro I vale, portanto, a nosso vêr, tanto como o

bandidismo de Affonso Henriques. Os dois reis são os dois typos--da

guerra e da justiça. Assim como a primeira era selvagem e feroz, assim a

segunda é irregular, cheia de caprichos e arbitraria. Mas se Affonso

Henriques foi o chefe do bando, D. Pedro I é decerto o _pae_ da familia

portugueza.

O seu furor justiceiro não é mais louco, do que o furor guerreiro do

primeiro rei. Tentámos esboçar a phisionomia d'essa epocha primitiva:

buscaremos agora, indo beber á fonte limpa das chronicas mais proximas,

accentuar as feições do segundo periodo. Na guerra não havia regra, nem

planos: era uma correria solta. Na justiça não ha processos, nem

garantias: é o dominio livre do capricho. Mas se, n'um caso, a bravura

engrandecia e a victoria exaltava os actos do bandido, no outro, a

rectidão dava força, e a protecção paternal coroava as decisões do

_kadi_. O rei é o grande Juiz da familia portugueza: a sua vontade é

lei, as suas sentenças são oraculos[45].

A justiça de Pedro I caracterisa-se, pois, para nós, com o merecimento

de um typo, da mesma fórma que a guerra de Affonso Henriques. São tambem

os dois individuos symbolicos, por isso mesmo que são como que doidos.

As phisionomias dos outros reis esbatem-se mais no fundo do quadro,

confundem-se de um modo mais ou menos completo na massa dos sentimentos

do povo; e os seus actos acompanham o desenvolvimento das forças e

instinctos collectivos, sem os dominarem de uma fórma superior e typica.

O leitor perspicaz não esquece que estas apreciações excluem a do

merecimento individual das pessoas. Sancho I tem uma bella vida

tristemente rematada n'um torpor de fraqueza. Affonso II tem uma

phisionomia commum e antipathica, sem nobreza, mas forte e penetrante.

Sancho II possue muito do seu predecessor em nome. Affonso III

destaca-se pela educação franceza, que lhe ensinara a dissimulação, a

perfidia, de mãos dadas com o bom-senso governativo. Diniz é um aváro;

Affonso IV é um homem de juizo, no dizer de Herculano. Todos reunidos,

porém, n'um grupo, formam um corpo de phisionomias indecisas ou communs:

são mais ou menos guerreiros, são pessoalmente melhores ou peiores, o

que á historia importa pouco; são bons ou maus administradores da

republica, seu patrimonio, cuja riqueza fomentam, acompanhando o

desenvolvimento natural da sociedade.

No principio e no fim d'esta serie estão, porém, os dois individuos

typos, os dois loucos--um, phrenetico, brandindo o punhal mortifero;

outro, carrancudo e fero, empunhando o latego do algoz e a vara de juiz,

ou risonho e folgasão, dançando e cantando nas ruas no meio da sua

familia, como um pae.

Pedro I tinha a paixão da justiça; era n'elle uma mania, como em seu avô

o fôra a guerra. Não prescindia de julgar todos os delictos. Os

criminosos vinham á côrte, desde os remotos confins do reino. Quando

algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da

meza, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os

algozes; indicava os expedientes e processos para obter a confissão dos

réos. Nunca abandonava o açoute: enrolado á cinta em viagem, tomava

d'elle, e por suas mãos castigava o facinora que no caminho lhe traziam.

Os adulteros mereciam-lhe um odio especial: jámais lhes perdoava. D.

Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, _luitador e trovador de

grandes ligeirices_, a quem embora amasse _mais que se deve aqui dizer_,

o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse.--O rapaz

engrossou e morreu depois da _sua natural door_. Certa mulher era infiel

ao marido, que nem por isso se offendia: offendeu-se o rei, e mandando-a

queimar, respondeu ao esposo desolado que lhe devia alviçaras pelo ter

vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que antes da boda

forçara a mulher. Roussou? morra. Enforcou-o, entre os choros e

supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne

perseguia com furor as alcouvetas; e as feiticeiras não lhe mereciam

menos cuidados.

Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda

mais terrivel a expressão da sua phisionomia. A fala não lhe deixava

traduzir bem as cóleras; e rubro, grosso, agitando o latego, n'um

delirio, mettia espanto. Os gagos, porém, teem isto de particular: tanto

o defeito accrescenta ao horror na furia, como põe nas horas mansas o

quer que é de bonhomia quasi ironica. Era assim D. Pedro. Caçador tenaz,

descansava do officio de juiz nas corridas do monte, seguido pelos moços

com os nebris e falcões, e pelas matilhas de caens. Então o seu rosto

aplacava-se, e era benigno, bemfazejo, liberal, folgasão. _Foi grande

criador de fidalgos._ Glotão, passava horas esquecidas á meza, onde a

vianda era em grande abastança.

Punir os maus, enfrear os fortes, «querendo fazer graça e mercê ao nosso

poboo» era o seu constante desvelo paternal. Nas côrtes que reuniu em

Elvas (maio de 1361) vê-se pelas respostas aos capitulos dos povos como

o seu governo era protector. Queixavam-se os conselhos de que as casas

dos mestres das ordens, dos bispos e priores, dentro das villas, caíam

em ruinas; e o rei decide de um modo simples: _filhem_ as nossas

justiças aos proprietarios o que for necessario para as obras. Filhem

mais, para as pôr em grangeio, as herdades e vinhas ermas. Os

ricos-homens veem ao concelho e pousam em casa de mulheres honestas,

perdendo-lhes a reputação; pousam nas adegas e nos celleiros de trigo, e

fazem d'elles cavallariças, allega o povo--e o rei ameaça o fidalgo que

assim fizer. O clero, isento como estava dos serviços militares da hoste

ou do appellido, recusa-se a acudir na hora de um perigo imminente? Que

os clerigos acudam com os leigos, diz o rei, quando haja fogo ou inimigos.

Mas o «nosso poboo» ás vezes exige de mais, como uma creança que se

sente adorada. Modere-se: o rei é um pae, mas o pae é um juiz, sempre

benigno e amoravel porém. Quando recusa, não se vê arrogancia, apenas

uma reserva prudente: «mostrem e declarem aquello em que lhis vam contra

seus foros, graças e mercees que ham e que, nos lhas faremos guardar.»

Exigir que as meretrizes e barregans andem estremadas pelo trajo, é

querer muito n'essa Edade-média prostituta e adultera, faminta e

leprosa, que vive de carnalidades, violencias e feiticerias: «Tragam

suas vestiduras como as poderem aver, porque perderiam muito em os

pannos que teem feitos e nos adubos que em elles tragem.» Mas quando o

povo se queixa do que soffre com os serviços militares, obrigado o

villão a ter cavallo e armas desde que possue uma certa _quantia_ de

bens, o rei attende e ordena que não sejam quantiados a nenhum os pannos

de seu vestir e de sua mulher até dois pares, nem as roupas de suas camas.

Sobre a cabeça do povo humilde pesam duas ameaças constantes: o nobre

com a sua violencia, o judeu com a sua manha. O fidalgo e o onzeneiro

são a desgraça da gente, a perdição das filhas e a ruina das searas.

Quem nos protegerá senão o rei? Se o judeu onzenar, responde este, «nós

o mandaremos matar e lhe tomar quanto houver.» Mas ninguem se atreva com

elle, a não ser a justiça, que anda sobranceira a todos, a tudo. De uma

vez D. Pedro mandou matar dois escudeiros por terem roubado a um judeu;

e se tambem cortou a cabeça a outro, dos bons, de Entre-Douro-e-Minho,

por ter partido os arcos de uma cuba de vinho a um pobre lavrador, foi

elle o proprio que mandou degolar o sobrinho do alcaide de Lisboa por

depennar as barbas a um porteiro.

A justiça havia de ser tremenda quando os costumes eram barbaros,

corruptos e ingenuos ao mesmo tempo; quando o incesto, o adulterio, o

assassinato, o estupro, o roubo, e essa offensa extravagante da

merdinbuca (_stercum in ore_), tão frequente nos foraes, acompanham as

linhagens das familias e enchem as paginas das cartas dos

concelhos.[46] O juiz não será um algoz, mas é mistér que

seja um tyranno; e o symbolo da justiça não está na balança com o seu

fiel sensivel, mas antes na espada e no latego, na furia e no amor, no

capricho benevolente e na sanha vingadora de um rei temido como foi D.

Pedro.

Assim como a sua justiça era, pois, destituida de magestade, assim o

eram as suas folganças. Dir-se-hia um rustico feito rei; e acaso por

isso o povo o amava tanto. Não tinha distincções, nem delicadezas, no

sentimento, nem no trato. Em tudo era brutal. Se confundia em si o juiz

e o algoz, as suas festas eram _kermesses_ extravagantes e plebeias. Os

instinctos aristocraticos e as fórmas da cortezia nobre, os torneios, as

lanças, não tinham n'elle um amador. Era um democrata, um _tyranno_ á

moda antiga, em cujo espirito encarnara toda a brutalidade popular: por

isso mesmo era adorado! Os seus castigos terriveis, passando de bocca em

bocca, faziam-lhe um pedestal de força; e as suas continuas folganças

populares cimentavam essa força com o amor intimo que nos merece quem

tem comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se rei na pessoa de D.

Pedro.

Quando voltava em bateis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta saía a

recebel-o com danças e trebelhos. Desembarcava, e ia á frente da turba,

dançando ao som das _longas_ (trombetas) como um rei David. Estas folias

apaixonavam-no quasi tanto, como o seu cargo de juiz. Por ellas chegava

a fazer loucuras. Certas noites, no paço, a insomnia perseguia-o:

levantava-se, chamava os trombeteiros, mandava accender tochas; e eil-o

pelas ruas, dançando e atroando tudo com os berros das longas. As

gentes, que dormiam, saíam com espanto ás janellas, a vêr o que era. Era

o rei. Ainda bem! ainda bem! que prazer vel-o assim tão

ledo!--Vestiam-se todos á pressa, desciam ainda tontos de somno; e as

ruas, um momento antes silenciosas e negras, brilhavam com as luzes, e

tinham o clamor da multidão em vivas e o movimento das danças universaes.

Era uma loucura? Seria. A Edade-média é uma vertigem. O povo, afflicto

pelas miserias do mundo e pelos terrores do céo, vivia n'um sonho feito

de dôres positivas e de medos transcendentes: rodopiava n'um _sabbath_.

Deus abençoe o rei que nos defende por sua mão! que vem comnosco bailar

ás noites por essas ruas lugubres! que persegue os incantadores e

feiticeiras! É o nosso justo juiz, o nosso bom pae, o nosso amigo e

irmão: adoremol-o!

Não eram só justiça e festas que o rei lhes dava: era pão. Sabio

administrador, juntava grandes thesouros; e esta noticia augmentava, ao

medo e ao amor, o respeito por um rei tão bom. A brutalidade e o egoismo

dos costumes medievaes traduzia-se a miude n'um flagello terrivel--a

fome, de que o pobre povo soffria sempre mais ou menos. A fome e as

guerras geravam pestes. A primeira metade do seculo XIV fôra uma cadeia

de desgraças. «No anno do Senhor, de 1830, diz o livro de Ceiça, foi a

pestilencia grande e morreram então em dois mezes cento e cincoenta

religiosos. Os lazaros eram tantos e tão antigos que D. Diniz

deixara-lhes em testamento duas mil libras. Em 1333 houve fome, e os

mortos já não cabiam nos adros das egrejas, enterrados aos seis em cada

cova. No dia de S. Bartholomeu do anno de 1346, tremera a terra a ponto

de os sinos tocarem nas torres, pavorosamente, um dobre de finados,

annunciando o acabar do mundo. Depois veiu a peste de 48; e em 55, dois

annos antes da morte de Affonso IV, foi a secca, havendo outra fome

medonha. Da gafaria para a cova, ameaçado por todos, na terra e no céo,

o povo infeliz e faminto congregava-se em volta do throno protector,

adorando o rei justiceiro e providente, inimigo das pestes, das guerras,

das fomes, e sentia-se rico dos thesouros guardados nas torres do

castello. Além d'isso, D. Pedro fartava-o. As suas folias não eram só

danças e musicas. Quando Affonso Tello foi armado cavalleiro houve uma

kermesse monumental. Durante a vigilia d'armas, cinco mil tochas

illuminavam as ruas, desde S. Domingos até ao paço; e o rei, entre as

alas de lumes, radioso e bom, na sua gaguez, dançou com o povo a noite

inteira. Ao outro dia o Rocio estava coalhado de tendas e montanhas de

pão e grandes tinas cheias de vinho. Nas fogueiras, em espetos

collossaes, assavam-se vaccas inteiras. Havia de comer para toda Lisboa.

O povo exultava, n'esses ágapes da monarchia.

A velha tragedia dos seus amores e da sua rebellião augmentava-lhe ainda

as sympathias. O tyranno apparecia, justiceiro e bondoso, sobre o fundo

de um azul de amores infelizes que encantavam a alma popular. Ignez de

Castro, a sombra de um anjo, coroava-o de além do tumulo. Mas esta

piedosa recordação era, na alma do rei, um espinho que o mordia sem

cessar. O seu genio cruel pedia vinganças. Entendeu-se com o visinho de

Castella, e pôde haver ás mãos dois dos assassinos. O povo não approvou

o escambo; e o rei muito perdeu de sua fama, diz o chronista. O castigo

dos assassinos foi duro: D. Pedro estava fóra de si, as palavras

atropellavam-se-lhe na garganta, e não podendo satisfazel-o as muitas

injurias, deshonestas e feias, vingou-se a chicotear os infelizes na

cara. A sua colera attingia a ironia soez. Queria cebola e vinagre, para

comer o Coelho em molho-de-villão. Por fim mandou que lhes arrancassem,

vivos, os corações, a um pelo peito, a outro pelas costas. Gozou-lhes a

morte, e acabou vingado.

Pedro I é a viva imagem da Edade-média, politica e domestica. Todos os

vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis

e as amisades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo onde acaso

alguma lepra dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam

o caracter d'esse rei que é verdadeiramente um symbolo. Por isso o povo,

vendo-se n'elle retratado, o adorou.

* * * * *

A politica da independencia puzera no seio da familia portugueza um

membro, cujas arrogancias e pretenções ameaçavam desnortear o fiel da

justiça social. O clero aspirava a usurpar a authoridade á monarchia.

Além da força que as tradições juridicas lhe davam; além da authoridade

espiritual e do espectro das bullas de excommunhão, pavor das almas

ingenuamente crentes; além do poderio fundado n'uma riqueza excessiva e

na machina absorvente da mão-morta, poço onde caíam as heranças e

legados dos rudes batalhadores arrependidos; além de todas as causas

geraes, o clero invocava em Portugal um argumento particular: o rei era

vassallo, o papa suzerano. Por tal preço obtivera Affonso Henriques um

simulacro de sancção juridica para a sua rebellião.

A situação do clero catholico no seio da primitiva sociedade

portugueza--e das coevas em geral--resulta de um tal concurso de

elementos heterogeneos, que nenhuma das faces do systema dos costumes

retrata, melhor do que esta, a confusão cahotica d'esse novo mundo que

se formava sobre as ruinas e destroços do antigo. Politicamente, o facto

de um poder, superior por ter um fundamento transcendente, estranho ao

poder civil, é a primeira causa de conflictos.[47] Perante

a Egreja, todos são egualmente subditos, desde o rei até ao infimo dos

_viliores_. A base religiosa d'esse poder consolida-se com a força que

dá a riqueza. Os barões, crendo de facto na verdade da revelação, e

n'uma outra vida onde hão de ser julgados, teem uma religião feita de

medo; e como no fundo são barbaros, vivem na terra á lei da força,

remindo com esmolas e legados, á hora da morte, os longos rosarios de

crimes. Julgando-se proximos a apparecer perante o supremo juiz,

reconhecendo á hora da morte a inutilidade da força e da perfidia

perante quem tudo póde e tudo vê, compram o perdão com o fructo das

rapinas e dos crimes; e assim formam o alicerce de um poder real,

verdadeiro e mundano. Salvos os mortos, os que ficam teem de entender-se

com o clero herdeiro; teem de debater por todos os meios a influencia e

o poder, para outra vez, á hora da morte, repetirem os actos causadores

das luctas que lhes encheram a vida. Por tal fórma se encerra um circulo

vicioso que a politica não póde romper, porque a religião o não

consente. Desde que as raças germanicas, avassallando o imperio antigo,

não tinham podido desenvolver a sua independencia religiosa e acceitaram

o christianismo, força era que assim fosse, emquanto os dogmas christãos

governassem as consciencias.

N'este sentido é perfeitamente legitima a influencia do clero; e não o é

menos por virtude da authoridade que lhe dá o saber, com effeito já

pervertido, mas ainda preponderante sobre reis e principes analphabetos.

Legitima a sua influencia, historicamente legitima a sua força, o clero,

porém, recebia por seu turno a acção reflexa do meio ambiente em que

vivia. Era tão aváro, tão feroz, tão barbaro, tão vicioso, como os

seculares; e a sua cultura accrescentava ainda, aos defeitos da

brutalidade, os da civilisação. As perversidades requintadas, as

perfidias subtís tinham n'elle os melhores mestres; e por sua via

entravam no corpo de uma sociedade barbara. Os sacerdotes eram os

educadores politicos dos principes, quando não eram os seus declarados

adversarios. Ensinavam as manhas, a quem apenas sabia commetter os actos

brutaes. Aos vicios do instincto sabiam juntar as perversidades da

intelligencia.

Se os principes da Egreja influiam de tal modo, a plebe ecclesiastica

acompanhava as massas no rodopio lugubre e sanguinario da dança infernal

da Edade-média. Os homens da Egreja commettiam todos os crimes.

Sacerdotes, habitando os templos e os mosteiros, os seus erros eram

outros tantos sacrilegios, pela qualidade dos delinquentes e pela

condição do lugar. Roubavam, feriam, matavam, mentiam. Os casados

andavam bigamos; os solteiros, publicamente amancebados. Davam o braço

ás prostitutas, viviam com ellas, e desfloravam donzellas. Engeitavam os

filhos, repudiavam as esposas. Além de criminosos, eram indignos.

Faziam-se carniceiros em praça publica, matando e degollando as rezes,

vendendo carnes. Eram jograes, tafues, bufões. Escondiam a corôa,

deixavam crescer o cabello, e abandonavam o trajo ecclesiastico, para

mais á solta poderem abandonar-se aos seus desvarios.

E, obrando taes crimes, desvirtuando por tal modo os legitimos

privilegios do sacerdocio e da illustração, não deixavam de reclamar o

fôro de uma justiça especial. D'ahi resultava que o rei podia enforcar

um réo, por ser secular, e o cumplice ecclesiastico ficava impune.

Testemunhas seculares não valiam contra elles, e ecclesiasticas não

appareciam, porque o vedava a solidariedade da classe. O desvario era

tamanho, que havia quem chegasse a ordenar-se, unicamente para commetter

crimes impunemente.

Juntem-se estes costumes aos costumes bravios da epocha; junte-se mais a

serie de conflictos politicos e economicos, levantados pela condição

particular da Egreja; addicione-se a situação especial de vassallo em

que Affonso Henriques collocára o throno portuguez--e desde logo se

comprehenderão os motivos dos longos e pittorescos conflictos da

primeira época da historia nacional.

A erudição lançou para o campo das lendas os episodios tradicionaes do

tempo de Affonso Henriques; mas a historia não póde desprezar esses

traços pittorescos com que o povo retrata, infiel mas typicamente, as

tendencias e os costumes. Sabe-se a historia do bispo negro de S. Cruz

de Coimbra; e os monumentos remotos contam o que Affonso Henriques, se

não fez, poderia ter feito ao legado que veiu de Roma excommungal-o por

se ter levantado contra a mãe, pela ter mettido a ferros e não a querer

soltar--segundo resa a chronica. Era homem «muy bravo de grande coraçom»

o principe a quem a rebeldia do clero irritava. Foi esperar o legado ao

Vimieiro, chegou-se a elle, travou-lhe do cabeção, sacou da espada e

quizera cortar-lhe a cabeça. Os cavalleiros do rei acudiram: «Dirão em

Roma que sois herege!» O cardeal tremia de medo, o rei de colera, mas

baixou a espada e voltou: «Pois quero que Portugal não seja excommungado

em todos os meus dias e que não leveis d'aqui ouro, nem prata, nem

bestas, senão tres!» E proseguia exigindo uma carta de Roma garantindo a

posse «d'isto (Portugal) ca eu o ganhei com esta minha espada.» O

sobrinho do cardeal ficaria em refens: teria a cabeça cortada se a carta

não viesse em quatro mezes. O cardeal, diz-se, prometteu, annuindo a

tudo; e o leitor sabe, pelo modo como lhe contámos os pactos de Zamora,

qual é a verdade que esta scena pittoresca exprime. O rei que «em sua

mancebia foi muito bravo e esquivo,» prosegue a lenda, feitas as pazes,

disse ao cardeal: «Agora vede como sou herege!» E despindo-se,

mostrou-lhe as feridas de todo o corpo, contando-lhe as batalhas em que

as tinha havido. Resolvida a contenda, satisfeita a cubiça, aplacada a

colera, apparecia depois do guerreiro violento o homem timido e crente,

com a visão do inferno e o terror da excommunhão.

Por isso os prelados de Braga, Coimbra e Porto eram como tres reis no

reino, cujos limites já para um unico provavam escassos. Se as guerras

da separação, primeiro, depois a conquista do sul do reino e a

deslocação do seu centro para Lisboa, marcam os momentos geographicos

decisivos da historia da independencia, a resolução dos conflictos

ecclesiasticos e a consolidação do poder monarchico marcam, decerto, o

movimento tambem decisivo d'essa historia, sob o aspecto mais intimo e

organico da justiça social.

Dos tres reis mitrados, o do Porto foi o que mais trabalhos deu aos

monarchas portuguezes. O reinado de D. Sancho I, tão brilhantemente

iniciado pela conquista de Silves, e com tanta sabedoria dirigido para a

consolidação do centro assolado do paiz, é dos mais notaveis na historia

dos conflictos com o clero. O rei era tão irascivel como credulo:

acompanhava-o sempre uma feiticeira, diariamente consultada. Não tinha o

furor bellico do pae, nem a energia justiceira do neto: parece ter sido

um homem commum, mas serio.

Na primeira decada do XIII seculo governava o bispado do Porto Martinho

Rodrigues, homem atrevido, ambicioso, cheio de força e vicios. A

authoridade da corôa limitava-se por esses tempos ao velho Porto, hoje o

suburbio de Gaya, e o bispo imperava na cidade. Exacções e tyrannias,

communs a todos os senhorios feudaes, levaram os burguezes do Porto a

rebellar-se contra o bispo, invocando o auxilio que o rei lhes não

refusou. Acclamado pelo povo, Sancho I entra na cidade; arrombam-se as

portas das egrejas, a turba invade e assola os templos, conspurca os

altares; e o bispo fica cinco mezes preso no palacio episcopal, até que

finge submetter-se ás exigencias, com o proposito, que realisa, de ir a

Roma pedir desforra ao papa. Entretanto o de Coimbra encerrava os

templos e negava os serviços religiosos aos fieis: era esse um dos meios

ordinarios de combate. Sancho I vae a Coimbra, faz de bispo, obriga os

padres, á força, a celebrarem os officios divinos, mandando arrancar os

olhos aos recalcitrantes.

Voltou a final (1210) Martinho Rodrigues, de Roma, com bullas de

Innocencio III. O nuncio ou legado do papa devia em pessoa lel-as ao

rei; porque o chanceller Julião, valendo-se da ignorancia do soberano,

usava alterar o que lia. Sancho I ouviu com humildade a monitoria papal.

Estava doente, já fatigado da vida, e na perspectiva da proximidade da

viagem para o outro-mundo, memorava tudo o que tinha feito, os desacatos

e sacrilegios. Os remorsos enchiam de terror o seu animo duro, obtuso e

bravio. Curvou-se e penitenciou-se. Este era sempre o momento infallivel

da victoria da Egreja: a superstição entregava-lhe, manietados e

submissos, os seus terriveis inimigos, na hora da morte imminente.

Sancho I pedia aos monges de Alcobaça que rezassem por sua alma esses

lugubres psalmos, que pareciam aos infelizes como um ecco das terriveis

symphonias da eternidade. Reclinado no leito da morte, o rei, apavorado,

via a face medonha do supremo Juiz; e sentia-se já precipitado nos

abysmos ardentes, no seio das chammas crepitantes, roído, macerado pelos

monstros diabolicos, a gritar em dôres infernaes.

Desistiu de tudo; abandonou á sua miseranda sorte os burguezes fieis,

deu rendas, legados, terras, senhorios. Deu mais até do que possuia!

Conseguiria por tal preço obter o perdão? Os padres diziam-lhe que sim,

e abençoavam-no promettendo-lhe a salvação.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 7 / 21 段