Al-Kassr, ou Alcacer-do-Sal, era, para além de Lisboa, o centro

estrategico da linha de defeza do Alem-Tejo, que guardava Chelb ou

Silves. Logo depois de rendida Palmella, Affonso Henriques, confiando

demasiado nas proprias forças, investira, só e ao modo antigo, o

castello de Alcacer, mas fôra cruelmente vencido (1151). Annos depois,

vale-se do auxilio de uma frota ingleza, sem conseguir render a desejada

praça (1157), que afinal cáe perante o ataque combinado das forças

portuguezas e alliadas da Cruzada de 1158. Evora e Beja cedem tambem por

essa occasião; e dir-se-hia que Silves, desguarnecida da sua linha de

fortalezas fronteiras, ia cair rapidamente nas mãos do afortunado principe.

Não era, porém, assim. Essas successivas conquistas das praças do

Alemtejo não tinham a importancia decisiva que tivera a de Lisboa.

Levantadas como pontas de rocha isoladas, no meio dos vastos campos

desolados, as praças do Alemtejo offereciam aos guerreiros abundantes

prezas; e por isto os Cruzados de tão boa vontade paravam aqui, a

preludiar na Hespanha o programma feito para a Syria. Saqueadas,

incendiadas, porém, ou arrazadas, o seu valor para o reino era por certo

lado pequeno ou nullo. O rei não dispunha de forças bastantes para

guarnecer tão numerosos castellos e tão dilatadas fronteiras. Já para

conseguir manter a linha do Tejo, tivera de doar ás ordens

monastico-militares estrangeiras (Hospital, Templo, Santiago) as praças

rayanas de Thomar, de Palmella, de Leiria. Os territorios despovoados e

nús não vinham augmentar-lhe o numero de soldados, nem a riqueza. Para

que isso succedesse era mister que a paz e o tempo fomentassem o

desenvolvimento natural das forças economicas. Assim, desde que as

armadas dos Cruzados, abarrotadas de prezas, largavam a bahia do Tejo,

Affonso Henriques, tornando a achar-se a sós com os seus recursos

militares, era forçado a abandonar as conquistas avançadas do Alemtejo.

Annos havia, tomára e deixára Beja: e agora (1158), das praças

conquistadas, apenas guarnecia e conservava Alcacer.

Estas campanhas do Alemtejo estão perante Silves como, antes, as da

Estremadura perante Lisboa: emquanto o sarraceno pisar o Algarve, serão

precarias todas as conquistas n'este largo trato de terreno devastado

que não poderá nutrir-se e prosperar, emquanto não estiver ao abrigo das

invasões. Porque não foi Affonso Henriques cair directamente sobre

Silves, aproveitando-se de alguma esquadra de Cruzados, em vez de

consumir as suas forças na empreza esteril das correrias, conquistas e

saques das praças do Alemtejo? Porque evidentemente lhe faltava a larga

vista das aguias dominadoras, tendo só o que é commum a todas as aves de

rapina: o ataque fulminante, e a garra cheia de força e tenacidade.

Depois de saquearem Alcacer, os Cruzados tinham partido; e a noticia dos

successivos desastres dos ultimos onze annos decidira os almuhades[42]

a tratar seriamente de pôr cobro aos progressos de Affonso

Henriques. Invadem o Alemtejo; e junto de Alcacer, seis mil portuguezes

mortos, o exercito desbaratado, decidem a perda de todo o Alemtejo

(1161) pondo em perigo Lisboa. Os sarracenos chegaram a tomar Palmella e

Almada, mas julgaram prudente abandonar esses pontos destacados na

peninsula de entre o Tejo e Sado. Desde que outras emprezas obrigaram a

retirar o exercito almuhade depois de fortificar Alcacer, já Affonso

Henriques, e os seus discipulos em aventuras podiam á vontade recomeçar

as correrias e assaltos. Effectivamente, em 1162, um troço de burguezes

toma Beja por surpreza; e em 1166 um bando de salteadores, com Giraldo á

frente, de escada ao hombro, punhal nos dentes, entra uma noute em

Evora, que saqueia e atulha de cadaveres. Eram portugueses? eram

sarracenos? eram de uns e d'outros; eram uma das muitas companhias de

bandidos que batalhavam por conta propria, sem noção de patria a que

pertencessem, nem de religião que seguissem. Tinham por culto apenas a

ladroagem, e adoravam o deus do estupro, do saque, da matança. Eram de

todas as nações; e falavam uma algaravia, mosarabe nos christãos,

_most_'latina nos musulmanos--uma lingua franca.

Affonso Henriques não podia socegar vendo essas façanhas. Eil-o outra

vez a cavallo, Alemtejo em fóra, a correr charnecas e arremetter

cidades: Moura, Serpa, Alconchel, e, internando-se pela Estremadura

hespanhola, Caceres o Tordjala, ou Trujillo (1166). Essa era a sua

paixão, o seu furor. Que importa, se, apenas voltava costas, logo se

erguia de novo a bandeira musulmana nas muralhas que escalára á traição?

Elle tambem voltaria, no verão seguinte, a repetir a sua façanha. E

assim, por falta do genio militar do conquistador, as scenas

repetiam-se, os castellos passavam successivamente de mão em mão, e

portuguezes e sarracenos apenas podiam chamar seu ao terreno que

actualmente pisavam. Se as forças proprias do portuguez lhe não

consentiam outra cousa: se, sem o auxilio dos Cruzados, não podia

abalançar-se á empreza de Silves, melhor fôra sacrificar a paixão ao

interesse proprio, consolidando o dominio, do que pôr em perigo o

Portugal cistagano, por consumir de um modo esteril as forças militares

do novo reino nas correrias transtaganas. O rudo capitão não tinha porém

intelligencia para tanto: a correria arrastava-o, a presa seduzia-o, e a

guerra governava-o a elle, em vez de ser elle quem governava a guerra.

Sem plano fixo, á toa, á aventura, internára-se até Trujillo e queria

tomar Badajoz, invadindo territorios que, apesar de sarracenos, eram

vassallos do visinho monarcha de Leão. A sua loucura teve a sorte de

todas as loucuras; e já o vimos coxeando e duplamente ferido, no joelho

e nos brios, caminhar a esconder a sua vergonha em Santarem (1169).

O desastre de Badajoz devia ter soado por todo o Al-gharb, onde as

correrias e façanhas do bando de Affonso Henriques espalhavam a angustia

e o terror; e o musulmano, inimigo por patria e religião, não devia ao

bulhento principe a generosidade magnanima do genro leonez. Um novo e

poderoso exercito transpõe o Tejo, e vem cercar o ferido em Santarem

(1171). Acode-lhe Fernando II que, como verdadeiro rei, sabia calar os

resentimentos pessoaes, deante de um perigo commum para todos os

principes christãos da Peninsula. Duas vezes salvo pelo genro que o

vencera; humilhado, abatido, ferido e velho, Affonso Henriques já não é

o irrequieto soldado de outros tempos. Santarem que ganhára por esforço

proprio, escalando os muros, era o seu tumulo. Ahi n'um leito gemia

dores de muitas especies: todo o Alemtejo estava perdido; e agora (1184)

Jussuf, o grande émir de Marrocos, vinha em pessoa, dirigindo o

exercito, cercal-o outra vez. Acudiria o genro outra vez a salval-o?

Cinco annos havia que o exercito musulmano passeiava triumphante pelos

seus reinos. Não pudera entrar em Abrantes, mas tinha destruido Coruche,

que era para a defeza de Lisboa e da linha do Tejo, como fôra Leiria

para Coimbra e para a linha do Mondego. Evora apenas resistiria ás

invasões, que tinham levado Alcacer e Serpa, Beja, Moura, Jerumenha e

todo o Alemtejo (1179-82). Como o javali, encerrado no covil e perdido,

o guerreiro contava as horas, e antecipadamente sentia o penetrar das

lanças nas suas carnes abatidas pela edade, e o quebrar dos seus ossos

tão rijos ainda, mas mal governados pelos tendões flacidos. Chorava;

talvez se arrependesse dos seus erros. Feliz porém mais uma vez, os

acasos imprevistos concorriam para o salvar. Á magnanimidade do genro

devera o não ter ido acabar n'alguma masmorra escondida nas montanhas

das Asturias; e a esta circumstancia, verdadeiramente excepcional, de um

principe generoso, devera tambem o salvar-se do primeiro cerco. Em vez

de Fernando, que não acudiu agora, veiu em seu auxilio a sorte que matou

o émir de Marrocos, e espalhou uma peste no meio do exercito almuhade.

Levantou-se o cerco, Affonso Henriques pôde respirar ainda livre os

ultimos annos da sua já acabada vida.

* * * * *

O pensamento que elle não soubera ou não pudera realisar, coube ao filho

e herdeiro pôr em pratica. O modo serio de conquistar o Alemtejo era ir

com os Cruzados, por mar, investir Silves. Logo que Sancho I herdou o

reino, e desde que appareceu no Tejo a primeira armada, decidiu-se levar

a cabo a empreza. Já então havia uma frota portugueza; e se á

constituição geographica do corpo da nação faltava a metade meridional,

o coração, Lisboa, pulsava já independente e vivo; os navios da primeira

expedição do Algarve são d'isso a prova. Abria-se agora uma segunda

epocha; e, ou filha do genio do monarcha, ou proveniente da expansão

natural das forças nacionaes, ou resultado das duas causas combinadas, o

facto é que, entrados n'uma segunda edade, respiramos um ar diverso,

observamos um typo differente e uma nova phisionomia da nação.

Consolidam-se as conquistas, povoam-se e fortificam-se as villas, começa

a esboçar-se a administração, abandona-se a guerra de escada e punhal.

Ha um pensamento na politica e uma idéa nas campanhas. Sancho I é já um

rei: Affonso Henriques fôra como um bandido, á imitação de Pelayo.

O districto de Chenchir ou Al-faghar--assim os arabes denominavam o

nosso moderno Algarve,--era o que é hoje ainda: um jardim estendido

sobre a costa, e apoiado contra um muro de serras que o defendem dos

ventos do norte. A guerra não conseguira mirral-o, como succedeu á costa

da Berberia, fronteira. Retalho da Africa, scindido pelo mar do Calpe,

no Algarve tinham os arabes achado um pedaço da sua patria. O clima, a

flóra, não eram bem europeus; e quem, nos fins do XII seculo, visitasse

Silves, ou Chelb, dir-se-hia transportado a uma cidade oriental. D'entre

as varias raças que tinham vindo á Peninsula, foram os arabes do Yemen

que principalmente a povoaram. Chelb ao sul, Hayrun (Faro) mais ao

norte, eram as duas cidades principaes do Al-faghar; mas a primeira

excedia em muito a segunda. Contava cerca de trinta mil habitantes, era

opulenta em thesouros e formosa em construcções. Davam-lhe a primazia

entre as cidades da Hespanha arabe. Vestida de palacios coroados pelos

terraços de marmore, cortada de ruas com bazares recheiados de

preciosidades orientaes, cercada de pomares viçosos e jardins, Chelb era

a perola de Chenchir, onde os prodigos da Mauritania vinham gosar com as

mulheres formosas, de puro sangue arabe, os seus ocios luxuosos. Era ao

mesmo tempo uma praça temivelmente fortificada.

Quando pela primeira vez as armadas combinadas, dos portuguezes e dos

Cruzados, appareceram na costa de Al-faghar, Chelb intimidou os

guerreiros frisios e dinamarquezes, a ponto de lhes dominar a avidez com

que namoravam uma preza de tamanho quilate. Não se atreveram a atacar,

limitando-se a tomar Albur (Alvôr), e retirando com um saque abundante.

Para os Cruzados, homens louros do norte que, sob a ingenuidade azul dos

olhos, escondem uma crueldade fria e pratica e um desvairado appetite

dos gosos vedados aos climas setentrionaes, a empreza de Chelb tinha o

valor da riqueza a roubar, das bellas mulheres, d'esse Oriente

mysterioso e seductor, a gozar sobre os leitos de sedas da India ou nos

fôfos tapetes da Persia. Eram voluptuosidades que antegostavam;

calculando ao mesmo tempo os thesouros de pedrarias, os marfins, os

estofos preciosos, a myrrha, o incenso, os metaes reluzentes, com que

voltariam ás suas agrestes serras, ás suas costas algidas, deslumbrar as

noutes veladas á luz baça da candeia, de azeite de phoca. Positivos e

praticos ao mesmo tempo, mediam bem o impossivel da aventura, e por isso

preferiram á temeridade de atacar Chelb, a modestia de saquear Albur.

Bastava-lhes o que levavam.

Não succedia outro tanto a Sancho I. A conquista do Al-faghar tinha para

elle um alcance maior. E os portuguezes mais familiarisados com as

seducções dos costumes arabes, menos sensiveis ás tentações da carne,

mais abertos aos arrebatamentos da paixão, como todos os homens do sul,

tinham um proposito mais firme e intenções diversas.

Logo depois da primeira tentativa frustrada no proposito essencial,

appareceu no Tejo uma segunda e mais poderosa armada de guerreiros do

norte. Decidiu-se então a conquista de Silves. Sancho e as tropas

portuguezas iriam por terra, atravez do Alemtejo, investir a cidade pelo

norte, cortando os soccorros de Alcacer e das demais praças

transtaganas: emquanto as armadas combinadas iriam por mar e, subindo a

ria de Silves, poriam o cerco pelo sul, apoiando-se nos navios.

Silves, collocada n'uma eminencia e defendida por fortes muralhas, em

cujo recinto, no coração da cidade, se erguia a almedina ou alkassba,

estava ligada a uma torre albarran por uma couraça. A torre defendia uma

vasta cisterna que dava agua á cidade: conquistal-a seria, portanto, o

preludio do cerco. Desembarcados, os Cruzados começaram por assolar os

arrabaldes, destruindo quintas e casaes, trucidando os tardivagos,

incendiando e roubando, segundo a regra invariavelmente seguida n'estas

emprezas. Quando em torno dos muros não havia mais do que destroços,

ruinas e cinzas, atacaram a torre albarran. Foi em 21 de julho de 1189,

esta primeira tentativa frustrada. Em 29 chegou por terra el-rei Sancho,

cerrou-se o cerco, e prepararam-se os meios do ataque decisivo. Os

sitiados, no desespero, açulavam o furor e a cubiça dos inimigos com

insultos e crueldades. Nas ameias da torre albarran penduravam pelos pés

os prisioneiros christãos; e alli, em frente do exercito, como exemplo e

ameaça, matavam-nos ás lançadas. Era ardente o furor, incansavel o

trabalho. Estavam preparadas e promptas as machinas de guerra: começaram

os assaltos. Os allemães tinham montado um vae-vem coberto, cujas pontas

de ferro trabalhavam impunemente na derrocada dos muros: era a _origa_

dos gregos, a _testudo_ de Vitruvio, o _ericius_ das guerras dos

romanos, em portuguez _ouriço_--uma catapulta couraçada contra as massas

de estopa a arder em azeite que sobre ella os defensores vasavam. Muitas

torres, numerosos trons batiam os muros e levantavam os sitiadores á

altura das ameias. A albarran caíu por fim, entulhou-se a cisterna. As

fontes dos pateos ajardinados de Chelb deixaram de correr, e a sede veiu

auxiliar as machinas e as armas dos christãos. Os musulmanos,

fortificados na almedina, resistiam, comtudo.

O cerco entrava desde esse momento n'uma phase nova. Os assaltos

repetiam-se, infructiferos, e a alkassba parecia intomavel.

Soccorreram-se ás artes dos mineiros de Italia; mas os arabes eram

egualmente mestres na engenharia. As galerias subterraneas cruzavam-se,

encontravam-se, rompiam-se. Fatigados de pelejar em vão, á luz de um sol

abrazador, transferiram os combates para o coração da terra. Os

gastadores eram soldados, e rijas batalhas eccoaram n'essas galerias. A

lenha accumulada ardia presa do fogo; e á luz das chammas, buscavam-se,

um a um, os inimigos, ferozes como tigres, punhal ou alfange em punho, e

estrangulavam-se, despedaçavam-se, como feras. O crepitar do fogo

acompanhava as imprecações roucas, e nos olhos havia mais chammas do que

nos montes de troncos e ramos incendiados. O sangue corria dando á lama

das galerias subterraneas a côr do barro com que em tempos mais felizes

os arabes ladrilhavam os seus eirados alegres e os seus pateos ajardinados.

A furia dos combates era excitada pelos calores da sêde. Os sitiados

ardiam em febres. Viam-se nús estendidos sobre as lages das ruas, sobre

os ladrilhos das casas, para refrescar a pelle. Comiam o barro do chão.

Estorciam-se, desesperados, e morriam pelas esquinas. As ruas deixavam

apodrecer os cadaveres, e as mães engeitavam os filhos, quebrando-lhes

os craneos tenros contra as umbreiras das portas.

Nos sitiantes a furia era outra. Durava já um mez o cerco, o não fôra

para tão demorada campanha que os Cruzados tinham vindo. A alkassba não

caía! os perros musulmanos não se rendiam! Entretanto elles, Cruzados,

iam morrendo de feridas, de insolações; e o despojo promettido não

chegava. Não podiam perder assim o seu tempo. Isto diziam uns; outros

não queriam abandonar o trabalho gasto, e despedir-se de uma presa meio

conquistada. Sancho I, desanimado, pensou em retirar. Então rebentaram

as iras; porque a segunda opinião vencera no animo dos Cruzados. Quasi

chegaram ás mãos, os portuguezes e os homens louros do norte. Finalmente

a alkassba rendeu-se nos primeiros dias de setembro; mas isso deu logar

a novas rixas. O rei queria uma cidade, e não um despojo. Os Cruzados

queriam o contrario. Sancho offereceu pagar-lhes o valor da presa; os

Cruzados recusaram. Havia uma cousa que o rei não podia pagar com ouro:

era o delirio do saque, a orgia das matanças e dos estupros. Esses

ferozes caçadores de mouros queriam retoiçar-se pelo interior das

alcovas mysteriosas, e enterrar os braços nas arcas dos thesouros,

ensopar em sangue as almofadas macias sobre que iam abraçar as morenas

filhas do Yemen.

Cevados, partiram logo. Sancho pedia-lhes que acabassem a empreza,

tomando Hayrun. Recusaram; não queriam arriscar os lucros, e estavam

turgidos de goso. Só ambicionavam tornar á patria, para contar os seus

feitos, e depôr aos pés das louras e ingenuas donzellas do norte, de

suas noivas e de suas filhas, os collares, os brincos, as manilhas de

ouro arrendado, que tinham roubado nos leitos, com a honra e a vida, ás

filhas de Mafoma.

Sancho I, não podendo seduzil-os, nem convencel-os, desistiu da empreza;

e deixando Silves guarnecida, e occupado o oeste do Algarve, retirou

para o norte. Afim de consolidar a conquista, tomou Beja. Mas, emquanto

o velho Faro se conservava em poder do sarraceno, não devia o rei

portuguez considerar seu o Al-faghar.

* * * * *

Effectivamente durou pouco o primeiro dominio portuguez no extremo sul

do reino. Quando o filho de Jussuf, Jacub, chegou a soccorrer Chelb, já

a cidade estava perdida; e elle não soube ou não pôde retomal-a.

Vingou-se irrompendo pelo reino; e, galgando o Tejo, assolou a

Estremadura toda, pondo cerco a Thomar. Tampouco soube ou pôde vencer, e

retirou-se; mas para voltar no anno seguinte. Então Silves caíu de novo

em poder do sarraceno (1191) que, victorioso, tomou Beja, e na sua

_gaswat_ fulminante, veiu ameaçar Lisboa, desde os muros de Almada,

conquistada.

Portugal recuava outra vez aos limites do Tejo; porém Silves, embora

perdida, indicava o futuro inevitavel d'este longo e mortifero duello. O

rei occupava-se em consolidar os seus Estados, povoando, e organisando a

administração. Na impossibilidade de levar a cabo a conquista do

Al-faghar, enfraquecido militarmente o reino pelas correrias,

desilludido sobre a efficacia do auxilio dos Cruzados, abandonou com

razão o systema das álgaras e surprezas, com que, sem conseguir

manter-se um dominio estavel, se extenuavam as forças vivas da nação. O

seu governo sabio preparou as decisivas emprezas posteriores.

A primeira d'essas foi a tomada de Alcacer em 1217. No tempo de Affonso

II já os portuguezes se tinham achado na batalha das Navas de Tolosa

(1212), em que os principes christãos da Peninsula, tomando uma cruel

desforra do desastre de Alarcos, deram o ultimo golpe no dominio

sarraceno. Affonso II não tinha amor pela guerra. O lado organisador e

administrativo do governo de seu pae imprimira-lhe paixões pacificas.

Instigava-o ainda mais a sua avareza natural, e a condição dura em que a

fraqueza dos ultimos annos de Sancho I o collocara, por ter doado o

reino inteiro, thesouros e castellos, aos nobres e ao clero. Affonso II

não quiz tomar parte da empreza de Alcacer, porque andava occupado a

reivindicar para si o reino.

Kassr-al-Fetah, Castello-da-porta ou da entrada, se dizia essa chave do

Alemtejo; e sem a posse de um tal ponto estrategico, eram vans as

tentativas de consolidação do dominio portuguez ao sul do Tejo. Castello

sobre todos nocivo, chamam-lhe as memorias coevas, (_Castrum super omnia

castra nocivum_, GUSUINI CARMEN) porque d'ahi iam annualmente para

Marrocos cem prisioneiros christãos, arrebatados aos territorios

fronteiros até Lisboa, nas álgaras de todos os annos.

Com o auxilio de uma forte esquadra de Cruzados, Alcacer ficou

definitivamente em poder dos christãos no meiado de 1217. Nove annos

depois, Sancho II, em quem renascia o espirito guerreiro dos avós,

recomeçou a conquista do Algarve, caminhando ao longo da fronteira de

leste, valle do Guadiana abaixo, e tomando successivamente Elvas, Serpa,

Moura, Mertola, Ayamonte, Tavira e Cacella, que os arabes denominavam

Hisn-Kastala (1226). As deploraveis pendencias que lhe roubaram a corôa

não deixaram a Sancho II consummar a conquista do Algarve, que no meiado

do XIII seculo cáe por fim (1249), obscuramente, em poder do usurpador

da corôa fraterna, Affonso III.

Consolidada a separação, constituido geographicamente o paiz, resta-nos

agora observar os movimentos internos da nação; para vêrmos como dentro

d'ella se affirma a independencia, só plena e cabalmente definida,

porém, na crise que poz termo á dynastia de Borgonha.

[40] V. nas _Taboas de chronologia_, a das Cruzadas, a p. 219.

[41] V. na _Hist. da repub. romana_, I, pp. 251-5, a descripção

das machinas de guerra dos antigos, que eram as da Edade-média.

[42] _Taboas de chronologia_, pp. 43 e 271.

* * * * *

III

A monarchia e a justiça

«D. Diniz foi um aváro. Affonso IV um homem de juizo, Pedro I um doido

com intervallos lucidos de justiça e economia.» Assim A. Herculano

caracterisa os tres monarchas, a quem já fôra concedido reinar sobre

Portugal integralmente constituido, dentro dos limites das suas

fronteiras actuaes. Mas que eram então um rei e um reino?

Errada idéa formará d'essas epochas aquelle que não puder desprender-se

das impressões resultantes de periodos mais proximos de nós. Foi só

desde o XV seculo que o desenvolvimento das nações peninsulares

permittiu aos reis começarem a ter consciencia do caracter

juridico-social do seu cargo[43]. Até ao XIV seculo, os

Estados peninsulares, ou--limitando-nos agora ao campo exclusivo das

nossas observações--Portugal, não merece propriamente o nome de nação,

se a este vocabulo dermos o valor moderno. As comparações illustram

superiormente a historia: e em nossos dias temos exemplos de similhança

quasi absoluta. Esses principados slavos, onde a occupação da Turquia

jámais deixou de encontrar resistencias, são como foram a Hespanha. O

Montenegro reproduz as tradições das Asturias, ninho dos bandidos de

Pelayo; a Servia ou a Herzegovina, em cujas campinas, avassalladas pelo

turco, as quadrilhas dos indomitos montanheses veem periodicamente fazer

as suas razzias, são como foi Portugal. A historia repete-se ainda na

independencia final, ganha pela irradiação do fóco de resistencia

invencivel.

Regiões fadadas a tal existencia não podem ser propriamente nações: não

attingiram esse momento de existencia collectiva, não sairam dos

periodos preparatorios da organisação. O processo tem, n'este caso, dois

graus caracteristicos. Primeiro apparece o bando, depois a familia. O

rei é o chefe dos bandidos, antes de ser o protector, o pae, dos seus

subditos. Se a guerra é antes um systema de rapinas do que uma successão

de campanhas, a justiça é tambem mais a expressão arbitraria de um

instincto, do que a applicação regular de um principio. A sociedade que

se desenvolve de um modo espontaneo, á lei da natureza, vae

successivamente definindo as idéas collectivas, á maneira que progride

na serie das fórmas evolutivas do seu organismo[44].

A substituição do principio da justiça--no qual incluimos as relações

entre individuos, e entre classes e instituições--principio militar,

marca o momento da primeira transformação que é a passagem do organismo

do bando para a fórma social primitiva: a familia nacional, cujo pae ou

patriarcha é o rei.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 6 / 21 段