Em Val-de-Vez Affonso VII assignára os preliminares de uma paz que os

acontecimentos dos annos posteriores não tinham consentido se traduzisse

n'um tratado definitivo; e agora não era já licito ao leonez exigir, nem

ao portuguez acceitar as duras condições de uma perfeita vassallagem.

O papado exercia então na Europa uma especie de suzerania espiritual

sobre os principes christãos; porque no meio d'esses guerreiros, bravios

e timidos como selvagens, o sacerdote tinha verdadeiramente o poder de

condemnar em nome de Deus.[38] Uma excommunhão valia muitas

vezes mais do que um exercito. Assim, o cardeal Guido, legado do papa, é

quem em 1143 dicta em Zamora, onde Affonso Henriques foi vêr-se com o

imperador (d'esse titulo usava Affonso VII) as condições do tratado de

paz. O portuguez desiste ahi das suas pretenções ás fronteiras cedidas

por D. Urraca, e Affonso VII por seu turno reconhece a independencia do

novo reino e o titulo do seu soberano. Esta soberania e independencia

não eram, porém, absolutas. Na jerarchia feudal havia graus diversos de

suzerania e vassallagem correspondente; e os tratados de Zamora

alteravam a natureza, mas não quebravam de todo os laços que prendiam

Portugal ao corpo da grande monarchia peninsular. Affonso Henriques

ficava sendo um rei, mas o seu reino nem por isso deixava de fazer parte

do imperio da Hespanha; nem elle proprio, por tal fórma, deixava de

ficar n'uma situação subalterna perante o imperador. Era uma vassallagem

politica, substituindo a pura vassallagem pessoal do regime anterior. O

direito feodal não se obliterára, porém, ainda ao ponto de prescindir de

uma obrigação pessoal; e por isso o soberano portuguez continuava a ser

vassallo do visinho, não como soberano, mas como senhor de Astorga, para

esse effeito doada a Affonso Henriques.[39]

Estas subtilezas propriamente byzantinas, inspiradas pela politica

ecclesiastica que imprimia o seu cunho ao feodalismo, formavam um

systema de enganos reciprocos, de mentiras mais ou menos sinceras, com

que se revestiam os actos brutaes da força, e os actos perfidos da astucia.

Affonso Henriques, _regendi imperii jam bene sciolus_, mestre acabado na

arte de enganar e na arte de combater, tinha já formado o seu plano, e

por isso subscrevia sem reserva a todas as exigencias do tratado. A

independencia e a soberania que elle lhe dava eram apenas pessoaes e

vitalicias, e nas idéas aristocraticas a hereditariedade era inseparavel

do dominio. O seu reino era pois um falso reino, desde que, não havendo

no direito politico dos godos outra base para a successão, além da

electiva, ou Portugal seria por sua morte absorvido no imperio

hespanhol, em via de cristalisação, ou o filho de Affonso Henriques

teria de recomeçar a debater com as armas a questão vital da

independencia. Os termos do tratado decerto o não illudiam,

garantindo-lhe apenas pessoalmente a independencia e a soberania; e se

da parte do leonez houvera o intento perfido de o enganar, elle

preparava uma licção ao mestre, e tão eloquente como fôra cruel a licção

que dera ao sarraceno.

Entre os dous litigantes o italiano perspicaz foi provavelmente o

conselheiro de ambos. Guido, como o insecto artificioso e cheio de

habilidades, teceu a trama. Ao leonez mostraria o modo de illudir o

adversario: conceder-lhe tudo, deixando esse tenue cordão umbilical de

Astorga, para no momento opportuno fazer reverter os territorios

portuguezes ao corpo da monarchia soberana. Voltando-se depois, com um

sorriso, diria baixo ao portuguez, que o tratado não valia nada de

principio a fim, se elle quizesse seguir-lhe os conselhos. Todas as

habilidades do imperador provariam inuteis: tinha um meio

seguro!--Affonso Henriques devia ouvir com attenção tenaz as

confidencias do cardeal. Havia um direito superior ao direito feodal:

era o canonico. Havia um soberano, rei dos reis: o papa. Porque não

seria Affonso Henriques vassallo do papa? Collocasse os seus reinos sob

a suzerania papal, e nenhum imperador das Hespanhas ousaria tocar-lhes.

Só assim a sua corôa ficaria segura na cabeça, d'elle e de seus

descendentes. A suzerania do papa era de resto infinitamente menos

incommoda. Reduzia-se a uma pequena somma de dinheiro. Um nada! Quatro

onças de ouro por anno, nem mereciam a pena contar-se deante da

independencia de facto. Se o rei acceitasse, elle proprio em pessoa

redigiria a carta, elle que redigira o tratado; elle proprio seria

portador da missiva ao papa. Se viera a Hespanha fazer a paz, iria de

Hespanha com o coração contente, por ter conquistado mais um vassallo

para a Egreja.--E mais um censo annual para o thesouro romano,

accrescentaria mentalmente!

Affonso Henriques desde logo acceitou. Pouco lhe importava o censo,

porque não tinha sequer a certeza de ser fiel ao pagamento. O cardeal

illudia-se, se suppunha que o rei tremia das excommunhões: um rei que

não havia de hesitar em rasgar as bullas pontificias, e pôr e depôr

bispos, como bem lhe approuvesse!

O cardeal partiu levando a carta do rei; e emquanto este ia formando a

tenção de supprimir o pagamento do censo, logo que lhe conviesse

fazel-o, o cardeal foi pela viagem ruminando o modo de colher as onças

de ouro, sem se inimisar com o leonez. Só annos depois Affonso VII veio

a saber como o visinho e já quasi émulo illudira as disposições do

tratado de Zamora. Insistindo com o papa para que recusasse a

vassallagem, não o consegue; mas tampouco Affonso Henriques consegue

aquillo por que pagára o preço de quatro onças de ouro annuaes; pois nas

piedosas cartas que lhe escreve, como suzerano a vassallo, o papa

cuidadosamente evita chamar-lhe _rei_, e _reino_ a Portugal.

Em vão Affonso Henriques insta e exige. Por fim, já nos derradeiros

annos do seu reinado, e á custa de um presente de mil morabitinos e do

augmento do censo annual, Alexandre III decide-se, e sancciona-lhe o

titulo, garantindo-lhe a hereditariedade, sob condição de preito e

confirmação outorgada aos seus successores.

* * * * *

Portugal, que já a esse tempo tinha uma razão de ser territorial

independente da Galliza, achava agora um fundamento juridico de

independencia de Leão. A suzerania do papa collocava o novo reino ao

abrigo das pretenções da monarchia leoneza; e se Affonso Henriques não

saía da condição subalterna de vassallo, porque apenas mudára de

protector ou suzerano, o facto é que na mudança ganhava uma liberdade

real, esperando o que de facto veiu a conseguir: que a vassallagem se

tornasse nominal apenas.

Ainda no tempo do primeiro rei portuguez de novo se ateia a guerra com

Leão; mas basta um exame superficial dos monumentos historicos para vêr

que o caracter e as condições d'essa nova campanha são já totalmente

outros. Não é um vassallo rebelde pugnando pela independencia: é o

choque de duas monarchias que reciprocamente se reconhecem como taes. A

serie de guerras entre os diversos estados da Peninsula--caminho por

onde ella chegou a determinar as condições definitivas das suas

constituições politicas--tem na campanha de 1160 um episodio. Affonso

Henriques, já rei de facto e de direito, já senhor da linha estrategica

de Santarem, e possuindo além d'isso, como vedetas avançadas para o sul,

varias praças do Alemtejo, dispunha de forças sufficientes para pesar

com a sua espada no debate das questões politicas dos Estados

peninsulares. Desde que se decidisse a fazel-o, é natural que a velha

ambição das fronteiras dilatadas de norte e nordeste fosse a causa

efficiente dos seus actos.

Fernando II de Leão casára com uma filha do rei portuguez, mas nem ao

genro nem á filha Affonso Henriques cedia os seus ambiciosos propositos.

Raras vezes a politica tomou em consideração os vinculos de familia. O

rei de Leão usurpára a corôa de Castella, e contava que a esposa lhe

trouxesse a alliança do portuguez; porventura teria havido

intelligencias positivas entre os dois monarchas. Quando com uma livre

audacia se rompiam as pazes mais solemnes, que admira que se mentisse a

convenios ou ajustes privados? Affonso Henriques era, como se sabe,

mestre na arte de reinar. O facto é que, logo um anno depois do

casamento da infanta, aproveita o momento em que o rei Fernando se

achava a braços com a insurreição dos castelhanos, para mandar seu filho

e herdeiro, Sancho, á batalha de Arganal, onde foi batido (1165).

Invadindo em pessoa a Galliza, o rei apossára-se facilmente de Tuy e do

districto de Toronho até ao Lerez, seguindo d'ahi para leste (1166).

Essa nova occupação portugueza da Galliza dura até ao desastre de

Badajoz (1169).

Correndo então ao sul, Affonso Henriques decide-se a consolidar as suas

possessões do Alemtejo, conquistando Badajoz aos sarracenos. Este acto,

porém, era simultaneamente um episodio da guerra com Leão, porque o wali

de Badajoz se collocára sob a suzerania de Fernando II, e porque a praça

ficava para fóra dos limites de leste, marcados em Zamora ás futuras

conquistas do rei de Portugal sobre os musulmanos.

A cidade caiu sobre o ataque do portuguez. Colhidos por surpreza, os

defensores encerraram-se na alcaçova, resistindo. Poz-se o cerco, mas

entretanto o rei de Leão, avisado, correu a defender o que era seu; e

Affonso Henriques foi colhido entre dois inimigos. De sitiante viu-se

cercado.

Afinal o temerario capitão caía em poder do adversario, afinal o caçador

colhia-o fóra do refoio. Debate-se, estrebuxa e, ainda vencido, lucta

desesperado; mas está pesado, velho e gasto. Faltam-lhe as forças para

arremetter como d'antes, com a cabeça baixa e as presas activas, contra

a matilha dos lebreus. Tropeça e cáe. É colhido. Cumpria-se o anathema:

Deus castigava o filho que prendera sua mãe! Prisioneiro, curva-se

submisso, recolhendo a colera e os dentes açulados, perante o seu nobre

vencedor. Tal nome convem de facto a Fernando II, cuja magnanimidade

perdoou as perfidias e ataques do visinho e sogro. «Restitua o que

roubou, guarde o que é seu, e vá em paz!» Cabisbaixo, com o joelho

ferido, a coxear, Affonso Henriques parte d'alli a Santarem, concluir o

que lhe resta de vida. Não tem coleras, nem fundas magoas pela afronta

que soffreu: só lamenta a virente Galliza, perdida para todo o sempre.

Como o avarento, em cuja alma a paixão exclusiva absorveu todos os

sentimentos e paixões humanas, assim na alma de Affonso Henriques a

monomania da conquista, doença vulgar nos principes da Edade-média,

atrophiára o desenvolvimento de tudo o mais. Mas, se entre os consocios

de uma patria irman, se entre os herdeiros de uma historia commum, ha o

amor por essa patria e a veneração pelos antepassados, nenhum merece na

alma dos portuguezes respeito maior, do que o primeiro de todos aquelles

a cujo braço esforçado se deve a obra da constituição politica da nação.

N'este sentido as manias chegam a ser sublimes. Um salteador é, não

raro, um verdadeiro heroe; a perfidia é uma virtude, a crueldade é um

titulo de gloria, porque o espirito collectivo substitue o criterio

moral e abstracto pelo criterio historico, o qual tem como base a

consagração dos factos consummados.

A separação de Portugal foi um facto consummado, graças ao valente

mediocre, tenaz, brutal e perfido caracter de Affonso Henriques.

[32] V. _Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.), liv. III, 1.

[33] Resumimos á politica o campo das nossas observações, por

termos deixado na _Hist. da civil. iberica_ desenhados

os traços geraes dos movimentos propriamente sociaes. V.

Livro III; pass.

[34] V. _Hist. da repub. romana_, I, pp. 309-48.

[35] _V. Hist. da civil. iberica_ (3.ª ed.) pp. 113 e segg.

[36] V. _Instit. primitiv._, p. 215.

[37] V. _Instit. primitivas_, p. 165.

[38] _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._, XXXII-III.

[39] V. _Quadro das instit. primit._, pp. 267-75.

* * * * *

II

A conquista do Al-Gharb

Nas suas emprezas contra Leão, Affonso Henriques, batido sempre como

guerreiro, conseguira desforrar-se dos desbaratos com a astucia. Das

duas faces que apresenta a historia da fundação da monarchia, vimos a

primeira: resta-nos vêr a segunda. Assistimos aos actos do politico;

vamos assistir agora ás fecundas emprezas do conquistador.

O principe trazia para a guerra as manhas da côrte, sem prejudicar a

firmeza necessaria, a bravura, o sangue-frio e a audacia. Com este

conjuncto de elementos dava um caracter original á guerra (_novo genere

pugnandi_). Ia de noute, ás escondidas (_furtim_), como um chefe de

bandidos em assalto a algum villar, fortificado, no pendor de uma serra

distante (_quasi per latrocinium_). Assim investiu e tomou Santarem.

«Assim conquistou a maior parte dos castellos das provincias de Belatha

e Al-Kassr, este inimigo de Deus!» diz o chronista arabe. O ponto de

ataque era de antemão escolhido. Por uma noute escura e tempestuosa

punha-se a caminho com um troço de homens resolutos: dir-se-hia uma

quadrilha de salteadores. Galgavam rapidamente as distancias, e chegados

ao destino, apeiavam-se, approximando-se caladamente dos muros. Affonso

Henriques encostado á escada, era o primeiro a subir com o punhal preso

entre os dentes. Parava, escutava, com o olhar agudo, a respiração

suspensa: afinal pousava ancioso o pé entre as ameias, e apertando o

punhal nas mãos, cozia-se com os muros. Na sombra não o distinguiam.

Caía como um falcão sobre a sentinella, e apunhalava-a antes que ella

podesse tugir um grito. Entretanto os companheiros iam subindo. O bando

reunia-se na esplanada, armado e resoluto, o ao grito de «Santiago!»

caía sobre a guarnição adormecida e trucidava-a. «Tal foi o modo por que

este inimigo de Deus tomou a maior parte dos castellos das provincias de

Belatha e Al-Kassr!»

Havia porém ainda outra maneira de guerrear, cuja invenção não pertence

a Affonso Henriques: era o systema de álgaras, fossados ou correrias,

atravez dos extensos territorios fronteiros. De um lado e de outro,

n'uma zona mais ou menos larga, conforme o ordenavam a constituição

geographica e a estrategia, desdobravam-se as charnecas periodicamente

assoladas. Aqui e além, apertadas em cintos de muralhas, ficavam as

povoações, em cuja volta, como oasis, appareciam malhas de terrenos

agricultados. Confiar ao nervo e á velocidade dos cavallos o transpôr as

passagens perigosas d'esses desertos onde as sortidas dos castellos

podiam cortar a retirada, e cair impetuosamente sobre as searas,

incendiando-as, sobre os rebanhos, roubando-os, sobre os tardivagos,

matando-os; talando os campos, cortando as arvores, incendiando as

casas, e voltando rapidamente com as prezas feitas: tal era o processo

egualmente seguido por christãos e sarracenos; reduzido já a um systema

de invasões annuaes na epocha das colheitas, e contado como principal

recurso financeiro da rude economia do tempo.

Se a tomada de Santarem (1147) é um typo da primeira especie, a batalha

de Ourique, ou Orik (1139), é o typo da segunda. A fortuna accendia a

audacia de Affonso Henriques, que levou o fossado por entre as fortes

posições de Santarem e Alcacer, deixando Palmella, Cintra e Lisboa na

retaguarda; atravessando o Tejo, para ir talar os campos de Chelb ou

Silves, emporio sarraceno da Hespanha lusitana. Poucas vezes, porém, um

fossado era apenas uma correria e um saque. As guarnições dos castellos

passavam signal, combinavam sortidas; e o episodio de uma batalha

acompanhava quasi sempre a obra de depredação. A batalha de Ourique,

qualquer que tivesse sido a importancia numerica dos combatentes, deu a

Affonso Henriques uma victoria que o encheu de animo para entrar em

campanhas mais regulares e fecundas.

Os primeiros nove annos do governo do principe tinham sido absorvidos

pelas questões leonezas, quando em 1137 uma invasão sarracena veiu

destruir Leiria, que elle erguera para defender Coimbra das subitas

investidas dos inimigos. Ourique desforrou-o do desastre, que o rei por

outro lado remediava reconstruindo o castello, então fronteiro do

extremo sul dos seus Estados. Mas logo o musulmano responde, voltando

como uma onda que, alastrando o territorio christão, vae rolando até aos

altos de Trancoso, deixando pela segunda vez derrubadas as muralhas de

Leiria. Affonso Henriques consegue dominar a invasão, que retrocede ao

abrigo da linha do Tejo; e retribue logo a visita com uma tentativa

frustrada sobre Lisboa. Depois, alliado ao wali de Mertola contra o de

Santarem, vae assolar os districtos de Merida e Beja. Nos intervallos

d'estas correrias, o rei ferira as batalhas do tratado de Zamora, e

ganhára a victoria que lhe preparou o cardeal Guido.

O periodo de dez annos que está entre 1137 e 1147 offerece n'estas

guerras o aspecto de um movimento que oscilla, como um pendulo suspenso

de um ponto que é Lisboa: invasões sarracenas para o norte, portuguesas

para o sul do Tejo, instabilidade de resultado de ambas. O eixo d'este

movimento era evidentemente Lisboa e o systema das suas linhas de

defeza--Cintra-Almada-Palmella-Santarem. A conquista da linha do Tejo

tornava-se a condição indeclinavel, não já do alargamento, mas até da

conservação da monarchia de Affonso Henriques.

Demasiado, porém, sabia elle que os recursos militares de que dispunha,

se chegavam para os fossados annuaes, se bastavam para conquistar _quasi

per latrocinium_ os castellos isolados, eram demasiado escassos para

tentar empreza tão vasta como a da conquista do systema de fortalezas

que formavam o nucleo defensivo do centro do que foi depois o reino

portuguez. Na tentativa frustrada que fizera sobre Lisboa em 1140 fôra

ajudado por uma esquadra de Cruzados. As suas esperanças estribavam-se

n'um auxilio d'essa ordem: até porque, sem forças navaes para entrar no

Tejo--ainda então não havia marinha militar--seria absurdo tentar a

empreza.

Entretanto, sete annos iam passados depois d'essa primeira apparição dos

Cruzados, sem que outros viessem proporcionar-lhe occasião para realisar

os seus designios. Impaciente, orgulhoso ainda com o resultado da

correria de Beja (1145), seguro do lado de Leão pelas pazes de Zamora,

forte pela confirmação do seu titulo, confiado na protecção papal--o

sangue pula-lhe nas veias, e decide tomar Santarem, (1147) _á sua moda_,

isto é, por surpreza. Pela calada da noute appareceu á raiz das muralhas

da villa. Pozeram-se escadas. Subiu um furtivamente e abafou uma _vela_

(sentinella); depois subiu outro, depois terceiro, «e depois que todos

tres foram em cima do muro, a vela que estava em cima do caramancham,

quando sentiu Mem Moniz que se ia alongando, disse-lhe: «Manahu!» e elle

respondeu-lhe em aravia e fel-o descer, e logo que foi em baixo

cortou-lhe a cabeça e deitou-o aos de fóra. E então elles poseram outra

escada e subiram por ambas o mais toste que poderam, e foram tantos que

se apoderaram do muro e britaram as portas por onde entraram elrey e os

que com elle foram. E d'esta guisa foi furtada a villa de Santarem aos

mouros.» O resultado correspondeu pois ao plano, e quem sabe se a

temeridade teria arrastado o rei a proseguir do mesmo modo contra

Lisboa? Não foi, porém, necessario. Esse anno vieram os Cruzados[40] por

quem suspirava, e com elles metteu hombros á empreza.

A guerra toma desde então um caracter regular de cercos e campanhas. Os

meios correspondem aos propositos, e estes á idéa da nação que começava

a definir-se.

* * * * *

A tomada de Lisboa lavra a acta do nascimento da nação portugueza, até

ahi envolvida nos limbos da geração. O cerco affigura-se-nos como o

concilio internacional, uma especie de congresso guerreiro, em que a

Europa baptisa o recem-vindo á luz da historia. Creado pelos actos

geradores da vontade de um homem, abrigado pela égide da Egreja,

Portugal tem a existencia confirmada pela sancção dos exercitos cruzados

da Europa. O caracter cosmopolita da sua vida futura, da sua ulterior

phisionomia politica, parece ter-lhe sido desde logo imposto, como um

baptismo, quando, em frente d'essa piscina do Tejo, onde fundeiam

duzentas naus coroadas pelos pavilhões de tantas nações da Europa, se

estende o cordão do exercito de flamengos, lotharingios, allemães e

inglezes.

As columnas dos cavalleiros cruzados combatem ao lado das mesnadas dos

barões portuguezes, estendendo-se em meia lua, a investir o morro de

Lisboa; e com as pontas apoiadas contra o rio, formam metade do cinto

que a armada, fundeada no Tejo, encerra. Com os frankos e inglezes,

colossaes de estatura, rubros de sangue, herculeos de musculos, vêem

italianos sagazes, mestres consummados na arte das minas ou sapas. Sobre

os navios e do lado da terra a arte acorre em auxilio da força. Os

inglezes montavam as suas manganellas ou catapultas, os frankos as suas

torres; e Affonso Henriques pasmava d'esses maravilhosos instrumentos

deante dos quaes a escada e o punhal do salteador nocturno pareciam

miseraveis. Acaso a comparação offendia a sua opinião, bem fundada, de

atrevido; acaso achava mais rapido e simples confiar o resultado aos

seus expedientes favoritos de condôr: o facto é que decidiu começar por

um assalto. Foi no dia 3 de agosto que pela primeira vez rebombou a

trovoada dos golpes do moganons, o stridente sibilar das settas

despedidas do alto das torres, e das pedras soltas das fundas,[41]

o clamor apocalyptico dos combatentes, erguendo um côro de

imprecações ferozes, proferidas nas mais desvairadas linguas. Á tormenta

dos sons respondiam os relampagos do pez, do azeite, da estopa

incendiada, que os muros de Lisboa vomitavam sobre os assaltantes,

ajudando o sol que, illuminando a scena, congestionava as cabeças dos

filhos da algida Germania, da Britannia ou da Frankonia. Ás ondas de

lume, ao lume do sol, veio juntar-se um novo clarão de chammas e de

grossas voltas de fumo negro que subia cravejado de scentelhas a

perder-se no ar: as torres ardiam! O assalto era repellido; a tentativa

falhára.

Começou o cerco. Em poucos dias a voracidade feroz dos homens louros do

norte destruiu quanto havia em torno de Lisboa: hortas e pomares,

villas, cazaes e granjas. Dentro da cidade escasseiavam os mantimentos,

e bandos de soldados fugiam com fome: do alto dos muros, os que ficavam

perseguiam-nos com surriadas de pedras. Os gastadores minavam, atulhando

a sapa com lenha cortada nos arredores: no dia decisivo, o fogo,

consumindo esses transitorios esteios, roubaria a base ás muralhas. Os

italianos construiam uma grande torre, que ficou terminada em meiado de

outubro, quando a resistencia de Lisboa tocava o extremo. Queimaram-se

os robles da sapa, assestaram-se os tiros, prepararam-se as columnas de

soldados, e deu-se o assalto, logo que se ouviu o estrondo de um panno

inteiro das muralhas que se derrocava do lado do oriente.

Lisboa capitulou. Os Cruzados cevaram o amor do ouro, da prata, e das

mulheres formosas, (_auri et argenti et pulcherrimarum fæminarum

volupias_) que os levava á Syria; e Affonso Henriques tomou posse da

cidade. As fortalezas satellites de Lisboa não podiam resistir: Cintra,

Palmella, e Almada Cairam em curto espaço nas mãos dos vencedores.

A base geographico-maritima de Portugal estava ganha para não mais se

perder; e se o rei fôra o author do facto da separação, era o rei quem

todos os dias ia adiantando a obra de uma independencia positiva e

formal. Lisboa não valia menos, para tal fim, do que a protecção de Roma.

* * * * *

Esses dias de Zamora e de Lisboa (1143 e 47) marcaram o apogeu do

reinado do primeiro monarcha portuguez. Batido em Badajoz pelo genro

leonez (1169), foi-o tambem nas suas novas conquistas, pelo sarraceno

(1161-71). Affonso Henriques não era já o mesmo homem: a edade

quebrára-lhe o vigor de outros annos; e o perdão de Badajoz e as armadas

dos Cruzados deviam ter quebrado tambem a cega confiança que punha nos

seus recursos e habilidades. Via que no coração dos homens podia haver

mais do que ambição e manha; e na arte da guerra processos mais valiosos

do que a escada e o punhal, a _razzia_ e o assalto nocturno. Taes

observações, acompanhadas pela ferida do joelho que o conservava tolhido

roiam o velho capitão no seu antro de Santarem (1171).

O enthusiasmo da tomada de Lisboa tinha-o impellido a proseguir,

aproveitando a commoção triste dos vencidos e o apparecimento de novas

frotas que agora, christan Lisboa, demandavam o Tejo, para refrescar,

nas suas viagens para a Palestina.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 5 / 21 段