A circumstancia que mais decisivamente determina este caracter da nossa

historia primitiva é a conquista dos territorios sarracenos de áquem

Mondego, levada a cabo pelos barões portugueses, sem os auxilios do

suzerano de Leão. É este movimento que, principiando por quebrar os

laços de solidariedade entre os gallegos leonezes e os portugueses, vae

gradualmente addicionando a estes ultimos os _Lusitanos_ (seja-nos

licito dizer assim, para mais claramente definir o nosso pensamento) até

ao ponto de os ultimos predominarem na phisionomia posterior da nação,

transferindo de Guimarães e de Coimbra, para Lisboa, a capital do reino:

fazendo substituir á vida rural, primeiro quasi exclusiva, a vida

commercial e maritima depois predominante e quasi absoluta.

A primeira epocha da historia portugueza offerece pois á observação do

critico dois movimentos[33], oppostos n'um sentido, concordes em outro,

que é o da affirmação positiva da independencia. Mas, se essa afirmação,

terminante nas guerras leonezas, e tambem nas sarracenas, exprime de um

lado a politica da hegemonia na Galliza, do outro exprime, de um modo

todavia inteiramente inconsciente e espontaneo, uma tendencia contraria.

É a da formação de uma nação _lusitana_, de que a Galliza portugueza

desce á condição de provincia ao norte, como o Algarve, mais

propriamente turdetano, vem a sel-o ao sul. O entre Douro e Guadiana,

isto é, a espinha dorsal da Estrella, ladeada pelas Beiras ao norte,

polo Alemtejo a sul, pela Estremadura a poente: eis ahi o que, logo

desde o XIV seculo, começa a representar o corpo homogeneo da nação

portugueza.

* * * * *

No Portugal primitivo, a politica da hegemonia na Galliza não se

fundava, porém, sómente em uma indeterminada ambição collectiva. Era um

pensamento decisivo e fixo dos monarchas, e trazia origens tão antigas

como a propria constituição do condado portucalense.

Creado por uma desmembração da Galliza, o condado cedido ao borguinhão

não é natural que satisfizesse os desejos ambiciosos do principe. Como

as almas que, desorientadas pelas extravagancias do barbaro

christianismo medieval, viviam n'um estado de aspirações nebulosamente

infinitas: assim a ausencia de um criterio fixo, intellectual ou moral,

e a lei da pura força em que existiam, lançavam os barões n'uma vida de

aventuras, cujo criterio unico era a sua ambição, cujo unico limite era

o limite imposto por uma força adversa. O poder do rei leonez era, para

o conde borguinhão, o limite forçado das suas temeridades.

Logo porém que Affonso VI morreu, deixando um vasto espolio a dividir,

D. Henrique exigiu para si um largo quinhão. Quebrada pela morte a

cadeia da vassallagem a um rei poderoso, e acaso desobrigado já da

gratidão para com um sogro que tanto favorecera o conde, é d'esta éra

que, a nosso vêr, data a independencia de Portugal: e não da éra, de

resto indecisa e impossivel de determinar, em que Affonso Henriques

tomou para si o titulo de rei. É dar uma demasiada importancia ao facto

exterior e secundario do titulo, o fazer d'elle o symbolo da

independencia da nação. Apesar de rei, D. Affonso Henriques prestou

vassallagem: e a sua monarchia não é, de facto, mais nem menos

independente, como monarchia, do que o condado de D. Henrique, ou o

infantado de D. Thereza. A força e não a definição de um dominio, só

effectivo quando se estriba nas armas, eis ahi o que exclusivamente

caracterisa os movimentos dos seculos XI e XII.

Ora essa força era já para D. Henrique um facto, desde que lhe morrera o

sogro. A unidade que o seu valente braço dava ao dominio sobre os

territorios herdados ou conquistados, levara-a Affonso VI comsigo para o

tumulo; e entre os dois herdeiros rivaes, D. Urraca e o rei de Aragão, o

conde portugalense tinha um logar bem preparado para exercer a sua

astuciosa influencia, e para impôr condições e preço a uma alliança que

ambos egualmente ambicionavam.

Passemos longe d'essas chronicas de perfidias, de violencias, de

adulterios e barbaridades que constituem a historia da herança de

Affonso VI. Como os generaes de Alexandre, os principes da Peninsula

retalham o manto do imperador: e a Edade-média, tão phantasiosamente

pintada com traços de nobreza e galhardia, não é de facto menos corrupta

e asquerosa do que a edade dos satrapas do Oriente. A ferocidade é mais

violenta, a luxuria menos requintada, a perfidia mais ingenua, porque os

homens são verdadeiramente barbaros, e não gregos barbarisados[34].

Do pacto de alliança de D. Henrique e D. Urraca resultou o

engrandecimento do condado, para o norte na Galliza e para leste ao

longo da bacia do Douro, abrangendo Tuy, Vigo, Santiago, por um lado,

Zamora, Salamanca, Toro e até Valladolid pelo outro. A divisão e

demarcação do novo Estado chegou a fazer-se com a possivel solemnidade,

e com a concorrencia de barões leonezes e castelhanos. Era a definição

de um Portugal que a historia não consentiu se mantivesse.

N'este convenio ou tratado vieram posteriormente fundando-se todas as

pretenções dos soberanos portuguezes á posse da Galliza, e d'aquella

parte da Castella-velha geographicamente denominada Terra-de-Campos:

territorios que o conde D. Henrique soubera ganhar para si na disputa da

herança de Affonso VI. Tres annos apenas gosou o conde a posse d'esses

seus dilatados dominios. Morrendo, a mesma historia de ignominias,

adulterios e barbaridades ia assignalar o governo de sua viuva herdeira,

como tinha assinalado o da viuva do conde Raymundo. Eram irmãs tambem,

no caracter e nos appetites sensuaes, as duas filhas do D. Affonso VI.

Morrendo, o velho conde portuguez, ao sitiar Astorga, chamou para junto

de si o filho, em cujo peito borbulhavam ambições: «Filho, toma esforço

no meu coração! Toda a terra que eu deixo, que é d'Astorga até Leão e

até Coimbra, não percas d'ella cousa nenhuma, que eu a tomei com muito

trabalho. Filho, toma esforço no meu coração! e sê similhante a mim, e

sê companheiro dos fidalgos e dá-lhes todos os seus direitos, aos

concelhos. Filho, toma esforço no meu coração!»

Tal era o testamento do conde; já deixava ao filho uma nação constituida

nas suas duas faces parallelas e correlativas: a nobreza, os concelhos.

«E depois que houve castigado o filho d'estas cousas e outras muitas que

aqui não dizemos, morreu.»

* * * * *

A viuva de D. Henrique, publicamente amancebada com o conde gallego

Fernando Peres, deu com os seus escandalos pretexto para uma revolta,

que poz em risco a conservação dos vastos dominios herdados de seu

marido. Assim tambem succedera a D. Urraca, perdida de amores pelo conde

de Trava.

Dissemos pretexto e não motivo, porque nos costumes ingenuamente

dissolutos da Edade-média a mancebia não era caso que offendesse o pudor

particular nem publico: os amantes das princesas offendiam, porém, o

ciume dos seus collegas em fidalguia; e o poder effectivo de que um

d'elles dispunha, á sombra do amor que o preferira, enchia de inveja e

odio os companheiros.

As memorias do tempo retratam-nos D. Thereza como uma mulher sagaz, viva

e bella. A astucia combinava-se no seu espirito com um amor que a levava

a _comprometter-se_, como diriamos na nossa linguagem moderna. Uma vez,

na cathedral de Vizeu, apresentou-se com o amante, no meio da egreja

apinhada de povo, e em frente do prelado que prégava. A authoridade dos

bispos corria então parelhas com a rudeza das suas liberdades; e o de

Vizeu não duvidou dizer á rainha, em voz alta, do pulpito ou dos degraus

do altar, que abandonasse o amante ou se casasse: era um escandalo

aquella união, uma vergonha proceder de tal modo. A condessa, vermelha

de colera e confusão, fugiu rapidamente da egreja seguida pelo amante.

Porque não succederia ao escandalo a vingança, para não quebrar a

constante alliança da impudicicia e da crueldade, dominantes na

Edade-média? Porque naturalmente as invectivas do bispo traduziam a

força do partido dos invejosos e rebeldes, que já faziam do moço filho

de D. Henrique um pendão de revolta contra a viuva apaixonada. Nem por

tão pouco se affligiria a consciencia do bispo, pois o clero demasiado

ouvia tambem os conselhos da carne, e os amores sacrilegos eram tão

frequentes como os amores livres ou adulterinos.

A princeza não era menos sagaz do que voluptuosa, e adiava para mais

tarde a vingança. Beijos lascivos, perfidias indignas e barbaridades

ferinas, eis os elementos que constituiam a mulher da Meia-Edade. Os

dotes femininos eram naturalmente pervertidos por um ambiente de

brutalidade anarchica nos sentimentos e nas acções; e, quando a mulher

dispunha da aucthoridade e da força, ou como a Fredegonda dos Merowigues

cevava em sangue a sua féra natureza, ou satisfazia n'uma impudicicia

desesperada as necessidades sensuaes do seu temperamento. Nem a

crueldade, nem a sensualidade eram menores nos homens: mas a natureza

que n'elles dá o predominio aos pensamentos, como o dá aos sentimentos

nas mulheres, fazia com que a rudeza dos primeiros andasse

subalternisada á ambição e aos calculos politicos, ou á bravura e ás

façanhas guerreiras.

Não se imagine, porém, a mulher da Edade-média um ser apenas formado de

crueldade e amor; menos se supponha D. Thereza uma similhante creatura.

A condessa, infanta ou rainha de Portugal--porque de todos estes titulos

usou--era tambem sagaz e astuta, qualidades que o filho veiu a herdar

com o sangue. Não tinha o animo varonil de uma amazona, mas tinha a

perspicacia e o juizo proprios dos principes d'esses tempos. Sabia

moderar a colera e engulir affrontas como a de Vizeu, quando não podia

vingar-se d'ellas. O amor traduzia apenas uma exigencia dos sentidos,

deixando livre e independente a acção da intelligencia. No meio das

agitadas circumstancias do seu breve governo, não deixou abandonadas as

conveniencias proprias, como dona e senhora do Estado portuguez.

Muitas vezes se lêem descripções de uma vida sentimental e heroica, em

que as mulheres andam loucas de paixões poeticas, e os homens, typos de

nobreza e audacia, são victimas dos conflictos do amor e da honra. Não

ha nada mais differente da verdadeira, do que essa Edade-média das

operas. A carnalidade desenfreada, o cynismo e a perfidia, uma frieza

sempre calculadora, uma ambição feroz, uma avareza sordida, uma

corrupção de todas as fontes da vida moral: eis ahi o que de facto

constitue a vida aristocratica da Edade-média. Onde está a causa de

tamanhas desordens? Está na coexistencia e no conjuncto de condições

barbaras e de tradições cultas. D'onde provém a illusão com que muitos

suppozeram bellezas espontaneas nos caracteres, e nobres dedicações nos

actos, creando com a phantasia um falso quadro de encantos? Da

ingenuidade dos typos barbaros.

Ha, com effeito, na natureza espontanea o quer que é de seductoramente

bello, que nos chama para uma região de deleites inconscientes: assim

todas as descripções das sociedades primitivas produzem em nós uma

impressão vivificante, e desde logo somos levados a engrandecer e

nobilitar os homens ainda não corrompidos pelas aberrações da

civllisação. É mistér porém observar que taes homens primitivos não são

os do XI seculo; que na Edade-média existem e vivem, principalmente por

via da Egreja, todas as tradições da cultura antiga; e que a conjuncção

da barbarie e do requinte lança nos caracteres uma semente de perversão,

prompta a rebentar em actos monstruosos, tão corrompidos no principio,

como barbaros na fórma. É popular o sentimento de tédio e nojo para com

o imperio de Byzancio; pois as causas originarias d'essa repugnancia são

tambem communs ás sociedades néo-latinas, ou néo-godas da Hespanha.[35]

Só variam as proporções: os elementos combinados são os

mesmos. No Oriente a cultura é maior, os costumes mais requintados: aqui

é maior a rudeza, e a feição barbara predomina. Por isso os vicios

procuravam, além, esconder-se sob o manto das convenções; e aqui se

expandem ingenua e francamente, á luz de uma ignorancia quasi primitiva.

* * * * *

Assim que D. Urraca morreu. Affonso VII, depois de reconquistadas ao

visinho aragonez as cidades de Castella, olhou para oeste, afim de

reconstituir de novo a monarchia leoneza, fazendo regressar ao seu

dominio os territorios de Campos e da Galliza. A invasão e a guerra

duraram apenas uma campanha; e a amorosa Thereza curvou-se ao imperio

das condições, reconheceu o facto da conquista, e confessou com

humildade a vassallagem ao sobrinho leonez.

Portugal retrahia-se aos primeiros limites--do Minho ao Mondego--do

condado creado por Affonso VI; e os calculos do conde borguinhão

frustravam-se, depois de menos de vinte annos de indeciso dominio.

Esse infortunio da _regina_ de Portugal acabou de decidir os invejosos

do conde gallego, seu amante. As tendencias de sublevação, até ahi

sopitadas ou mal definidas, tomaram corpo e unidade; e a revolta

declarada dos barões achou nos desastres de 1127 motivo sufficiente para

se erguer em campo aberto.

Capitaneava a revolta o infante portuguez. Não é esta a unica occasião

em que vemos erguerem-se em armas os filhos contra os paes, os irmãos

contra os irmãos, como prova de que, se os sentimentos andavam

pervertidos pelos instinctos brutaes, ou vinculos de familia eram apenas

laços tenues que se rompiam ao impulso de qualquer exigencia da colera

ou da ambição. Nem sentimentos, nem instituições fixas: uma anarchia

total no individuo e na sociedade, uma desordem acabada na moral e no

direito, eis ahi as bases historicas da Edade-média, cujo deus é a força.

D. Affonso Henriques, o primeiro rei portuguez, ou capitaneava ou era o

pendão apenas--hypothese que a sua curta edade justifica--da revolta que

tinha por chefes o arcebispo de Braga D. Paio, Sueiro Mendes o _grosso_,

Ermigio Moniz, Sancho Nunes, genro da _regina_ Thereza, e Garcia Soares.

Aos pactos de Braga succedeu o encontro de Guimarães. A rainha, abraçada

ao seu amante, vinha seguida por barões fieis de áquem, e pelos barões

de além-Minho, que se tinham submettido a Affonso VII[36].

A batalha decidiu-se pelo filho, e a rainha fugiu a esconder no condado

do amante o desespero da derrota. De protectora, os acasos da guerra

faziam-na agora protegida; e a historia deve ainda ao conde gallego a

justiça de mencionar que a não abandonou, quando a viu despojada do

poder e do titulo. Os prazeres da paixão acaso suavisariam á formosa

filha do grande Affonso a infelicidade das armas, e porventura tambem o

desespero maternal, se é que os vinculos de sangue tinham para a mãe um

merecimento superior ao que tinham para o filho.

No seio da barberie corrupta em que se revolvia, a Edade-média tinha,

porém, não só o instincto dos deveres, innato nos homens, como o medo

dos castigos divinos prégados por uma religião que até para o proprio

clero baixára ás condições de um quasi fetichismo. As lendas contam que,

vencedor, o filho encarcerára a mãe, e põem na bocca de D. Thereza este

anathema terrivel: «Affonso Henriques, meu filho, prendeste-me e

metteste-me em ferros e exherdaste-me da minha terra que me deixou meu

padre, e quitaste-me de meu marido: rogo a Deus sejas assi como eu sou,

e porque metteste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas

com ferros. Mande Deus que isto assim seja!» E o anathema cumpriu-se em

Badajoz, annos depois, porque Deus vingador não perdoava os crimes

frequentes dos filhos contra os paes. Assim pensavam esses homens simples.

Á batalha de Guimarães ligava-se, porém, um alcance maior do que o de

uma simples questão de familia: era a ruptura de solidariedade entre as

duas metades da Galliza, e a victoria da portugueza sobre a leoneza. Era

o primeiro symptoma de uma direcção nova, que se ia imprimindo na vida

historica nacional. Essa ruptura da solidariedade, e a força da

monarchia leoneza sob Affonso VII, serão dois motivos concorrentes para

impedir que as tentativas do primeiro rei portuguez tenham sobre o norte

resultados efficazes.

Logo depois de Guimarães, Affonso Henriques, preferindo o papel de

invasor ao de atacado, procura reivindicar as fronteiras perdidas em

1127 por D. Thereza. Duas vezes invade a Galliza transminhota: duas

vezes é forçado a recuar, em 1130 e em 1132; mas depois de Guimarães,

depois da lide de Val-de-Vez em que os portuguezes venceram, já a

independencia de facto estava conquistada. Sellados os preliminares de

paz, Affonso Henriques occupou-se em _acalmar_ as terras do seu senhorio

afim que nunca «lhe acontecesse outro tal desavisamento,» e conquistou

«todallas fortalezas de portugal assy como se fossem de mouros.»

Quem era Affonso Henriques? Já amestrado no officio de reinar, á maneira

porque então se entendia um tal officio, o moço principe reunia as

condições necessarias para consolidar uma independencia até ahi

precaria. Era audaz, temerario até, pessoalmente bravo, qualidade nem

tão commum no tempo, como a muitos acaso pareça. Fraco general, ao que

se vê, porque as batalhas feridas com as tropas leonezas perdeu-as

sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando um troço de soldados, caía

de improviso sobre um logar, e a furia irresistivel do ataque deu-lhe a

maior parte das suas victorias. Nem a grandeza das emprezas o assustava,

nem as distancias o impediam de acudir a um tempo, do extremo norte,

quasi ao extremo sul no paiz. A estes dotes militares reunia outros não

menos valiosos, na precaria situação em que se apossára do reino. Era

secco, astuto, friamente ambicioso, sem chimeras, nem illusões. Era um

espirito agudo e pratico, e isso fazia boa parte da sua força. Mal dos

politicos ao mesmo tempo apostolos! Como a tenra haste que verga á mais

leve brisa do cannavial, assim Affonso Henriques, sem rebuços obedecia,

logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta erguia-se; e á

facilidade astuta com que se humilhava, respondia logo a teima perfida

com que se rebellava. Isto fazia-o indomavel. Tinha o quer que é de

fugitivo, na sua politica e no modo porque fazia a guerra. Ubiquo

militarmente, era nos negocios um proteu. Os seus amigos, leonezes,

sarracenos, não achavam por onde prendel-o. Submisso e humilde quando se

achava vencido, subscrevia a todas as condições, acceitava todas as

durezas; para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os

tratados, com uma franqueza ingenua, uma simplicidade natural, que

chegavam a espantar a propria Edade-média. Nem brios cavalleirosos, nem

sentimentos de familia, nem odios pessoaes, nem vinganças estupendas:

nenhuma chimera, nenhuma grande ambição, nenhum sentimento poetico,

enchiam a sua cabeça, estreita, e inteiramente occupada pela idéa fixa

de consolidar a sua independencia. O predominio absoluto de uma idéa

pratica, servida por uma intelligencia lucida, por um caracter sem

grandeza, e por uma valentia provada, tornavam-no invencivel, ainda

mesmo quando era batido. A sua teima fazia-o similhante a uma lamina de

aço, um instante vergada por um esforço momentaneo, logo estendida

quando livre, e impossivel de manter curvada desde que se acha solta. O

seu pensamento tinha a tenacidade da mola, e não a rigeza do bronze nem

o peso do chumbo. Vivia dentro do seu Portugal como um javardo no seu

refoio: assaltado, investia, despedaçando tudo com as fortes prezas.

Perseguido, fugia. Não tinha a nobreza do leão, nem a astucia ferina do

tigre: possuia apenas a tenacidade brava e bronca do javali. Um fraco

apenas lhe notam, embora os actos da sua vida não denunciem que esse

defeito o prejudicasse muito: gostava de ser adulado.

Affonso Henriques foi quem verdadeiramente consummou a separação de

Portugal, não pelos meritos proprios apenas, mas porque a direcção

politica do reino começou no seu tempo a ser encaminhada pelos factos no

sentido de definir de um modo positivo a independencia da nação.

Uma parte dos barões da Galliza leoneza, sublevados contra o suzerano,

acolheu-se em 1137 sob a protecção de Affonso Henriques, prestando-lhe

vassallagem, e, assim, de novo se levantou a questão das fronteiras do

norte de Portugal. Affonso VII não pudera, nos annos anteriores, descer

a rebater as invasões do turbulento visinho, occupado como estava a

debellar o navarro; agora, porém, tinha já os movimentos livres, e

apressou-se a submetter a Galliza. Por seu lado Affonso Henriques era

solicitado a defender a fronteira austral, onde os sarracenos tinham

vindo n'uma álgara feliz derrocar o castello de Leiria. É por estes

annos que o destino de Portugal se debate entre a Lusitania e a Galliza,

quando a actividade do guerreiro é solicitada, ora do norte contra os

leonezes, ora do sul contra os sarracenos. Oscillante ainda e indeciso,

breve assistiremos ao definitivo pender da balança no sentido do

alargamento das fronteiras austraes.

A simultaneidade do ataque leonez e sarraceno em 1137 obriga Affonso

Henriques a curvar a cabeça, assignando as pazes de Tuy, nas quaes

desiste das suas pretensões de além-Minho, confessando, ao mesmo tempo,

vassallagem ao suzerano de Leão. _Ut arundo fragilis ferebatur_: vergava

como o cannavial o principe, a este sopro da fortuna adversa! Desistia

de tudo, da ambição e até da independencia. Quem se fia, porém, na

palavra do pertinaz batalhador? Defendido o seu senhorio por norte, não

se demora a persistir n'uma guerra leal mas perigosa. Espera melhor

oocasião para a desforra; porque lhe não custa subscrever a um tratado,

a que não pensa decerto submetter-se, senão emquanto a força das cousas

a isso o violentar. Não assim os fronteiros de nordeste que, apesar das

pazes de Tuy, continuam a guerra por conta propria: tão frageis eram

ainda os laços, que reuniam os vassallos ao conde soberano de Portugal!

De Tuy, o leonez, subindo pelo valle do Lima atravez da Galliza

portugueza que assolára, vae encontrar as mesnadas dos ricos-homens

sublevados nos Arcos-de-Val-de-Vez. Resam as tradições de um torneio ou

_bufurdio_[37] em que os cavalleiros inimigos batalharam

por seus exercitos, vencendo os portuguezes na estacada, onde numerosos

combatentes ficaram mortos, segundo as regras da cavallaria. Apesar de

victoriosos, porém, os portuguezes não podiam resistir a Affonso VII,

tanto mais que D. Affonso Henriques desistira de continuar uma guerra

improficua.

Que fazia entretanto o principe? Tratava da desforra de Leiria; e em

1139 levava a cabo o temerario fossado de Ourique, pagando uma estocada

com outra; e preludiando esse duello de morte, entre Portugal e o

Al-Gharb sarraceno, com um golpe que foi, com a rapidez penetrante do

raio, ferir o corpo musulmano quasi junto a Chelb ou Silves, o coração

da Hespanha austral. A esta aventura temeraria, mas feliz, ia succeder

em curtos annos a empreza mais seria e importante da conquista da linha

estrategica do Tejo: facto de um alcance capital, n'esse periodo em que

o futuro destino da nação fluctuava ainda indeciso entre a Galliza e a

Lusitania.

* * * * *

Desde que o antigo condado portucalense, batido na sua tendencia de

absorver a Galliza, conquistava a região de entre Mondego e Tejo,

chegando a avançar padrastos ameaçadores para o sul, era evidente que um

novo Estado se formava; e esse Estado nascia dos actos proprios do conde

portuguez, não de concessões ou beneficios do suzerano. Esse Estado era

pois um reino, uma vez que a esta palavra andava ligada, de um modo mais

ou menos definido, a idéa da independencia, segundo o direito politico

dos godos. Foi, portanto, quando o plano de se apossar do sul do reino

começou a occupar o espirito do guerreiro, orgulhoso pela victoria de

Ourique, isto é, em 1139 ou 1140 (a erudição não conseguiu determinar a

éra) que Affonso Henriques tomou para si o titulo de rei. O caso não era

novo, porque por vezes a mãe usára chamar-se rainha de Portugal;

dava-se, porém, agora a circumstancia de que esse titulo, embora

juridicamente usurpado, o era com tamanho fundamento, que nunca mais

deixou de ser o dos soberanos portuguezes.

A razão politica da independencia, evidente hoje para a critica, não o

estava de certo para o rei, a quem as conquistas apenas satisfaziam a

ambição, e o titulo a vaidade. Via-se mais poderoso e grande; mas não

tinha de certo a consciencia de que isso importasse o primeiro passo no

caminho da formação de uma nova nação peninsular. Ferido, tirára do

sarraceno uma desforra completa; mas faltava ainda apagar a nodoa de

Tuy, rasgar esses tratados que ligavam, como vassalla, á corôa soberana

de Leão, a sua corôa ainda mal assente, o seu reino precario ainda. Uma

volta da fortuna podia outra vez precipital-o, das eminencias onde as

suas ambições o erguiam, na humilde condição de conde de Portugal.

Historia de Portugal: Tomo I · 第 4 / 21 段