O jornalismo tornou-se, como a maioria de tais coisas na Inglaterra sob
o governo cauteloso e filosofia representada por James Barker, um pouco
sonolento e muito diminuído em importância. Isto foi, em parte, devido
ao desaparecimento de partidos políticos e das discussões públicas, em
parte pelo compromisso ou impasse que havia feito guerras estrangeiras
impossíveis, mas, principalmente, é claro, pelo temperamento de toda a
nação, que era a de um povo em uma espécie de remanso. Talvez o mais
conhecido dos jornais restantes fosse o Jornal da Corte, que era
publicado em um escritório empoeirado, mas de aparência gentil em
Kensington High Street. Pois quando todos os jornais de um povo passam
anos cada vez mais fracos, decorosos e otimistas, o mais fraco, mais
decoroso e mais otimista é o provável ganhador. Na competição
jornalística que ainda estava em curso no início do século XX, o
vencedor final foi o Jornal da Corte.
Por alguma razão misteriosa, o rei teve um carinho muito grande em ficar
no escritório do Jornal da Corte, fumando um cigarro de manhã e olhando
os arquivos. Como todos os homens basicamente ociosos, gostava muito de
relaxar e conversar em lugares onde outras pessoas estavam trabalhando.
Mas qualquer um teria pensado que, mesmo na Inglaterra prosaica de seus
dias, poderia ter encontrado um centro mais movimentado.
Nesta manhã em particular, no entanto, saiu do Palácio de Kensington com
um passo mais alerta e um ar mais agitado do que o habitual. Usava um
extravagantemente fraque longo, um colete verde-claro, gravata preta bem
completa, e curiosas luvas amarelas. Este era o seu uniforme como
coronel de um regimento de sua própria criação, 1a dos Decadentes
Verdes. Era uma bela visão. Caminhou rapidamente em frente ao Parque e
da High Street, acendendo o cigarro enquanto andava, e abriu a porta do
escritório do Jornal da Corte.
— Já ouviu a notícia, Pally? Já ouviu a notícia?
O nome do editor era Hoskins, mas o rei o chamava Pally, que era uma
abreviação de Paladino das nossas liberdades.
— Bem, vossa Majestade — disse Hoskins, lentamente (era preocupado,
cavalheiresco, com uma barba falha marrom) —, ouvi coisas curiosas, mas
eu...
— Ouvirá mais delas — disse o Rei, dando alguns passos de uma espécie de
dança africana. — Ouvirá mais delas, meu tribuno de sangue-e-trovão.
Sabe o que vou fazer por você?
— Não, Majestade — respondeu o Paladino, vagamente.
— Vou colocar o artigo em fortes, arrojadas e empreendedoras linhas —
disse o rei. — Agora, onde estão os seus cartazes sobre a derrota de
ontem à noite?
— Não propus, vossa Majestade — disse o editor —, ter quaisquer cartazes
exatamente...
— Papel, papel! — gritou o rei, descontroladamente. — Traga-me um papel
tão grande como uma casa. Farei cartazes para você. Pare, tenho que
tirar o meu casaco… — começou a tirar aquela roupa com um ar de
definitiva intensidade, atirou-a alegremente na cabeça do Sr. Hoskins,
envolvendo-o inteiramente, e olhou-se no espelho. — Sem casaco e com
chapéu. Isso parece um subeditor. Na verdade, é a própria essência do
subeditor. Bem — continuou ele, voltando-se abruptamente —, vêm junto
com o papel.
O Paladino tinha acabado de livrar-se reverentemente das dobras da
casaca do Rei, e disse perplexo:
— Lamento, vossa majestade...
— Oh, você não tem nenhuma iniciativa — disse Auberon. — O que é o rolo
no canto? Papel de parede? Decorações para a sua residência privada?
Arte para casa, Pally? Jogue-o aqui, e vou pintar os cartazes na parte
de trás para que quando colocá-lo em sua sala vai colar o padrão
original contra a parede — e o Rei desenrolou o papel de parede,
espalhando-o pelo chão todo. — Agora dá-me a tesoura — gritou, e a pegou
antes do outro poder se mexer.
Ele cortou o papel em cerca de cinco pedaços, cada um quase tão grande
como uma porta. Então, pegou um lápis azul, e ficou de joelhos sobre o
empoeirado papel de parede e começou a escrever em enormes letras:
“DA LINHA DE FRENTE.
GENERAL BUCK DERROTADO.
ESCURIDÃO, PERIGO E MORTE.
WAYNE ESTARIA EM PUMP STREET.
SENSAÇÃO NA CIDADE.”
Ele contemplou por algum tempo, com a cabeça de um lado, e levantou-se,
com um suspiro.
— Não é intenso o suficiente. Não alarmista. Quero o Jornal da Corte ser
temido, assim como amado. Vamos tentar algo mais contundente — e voltou
a ficar de joelhos novamente. Depois de chupar o lápis azul por algum
tempo, começou a escrever novamente. — Como fazer? – Escreveu:
“VITÓRIA MARAVILHOSA DE WAYNE.”
— Acho — disse ele, olhando apelativamente, e chupando o lápis – que não
poderia dizer ‘witoria’. Maravilhosa ‘witoria’ de Wayne ’? Não, não.
Requinte, Pally, requinte. Já sei.
“WAYNE GANHA. LUTA ESPANTOSA NO ESCURO.
/Os postes de luz no caminho lutaram contra Buck.”/
— (Nada como a nossa boa e velha tradução inglesa.) O que mais podemos
dizer? Bem, algo para irritar o velho Buck? — E acrescentou, pensativo,
em letras menores:
“Rumores de corte marcial para o General Buck.”
— Serão suficientes por enquanto — disse ele, e os dobrou ambos para
baixo. — Cola, por favor.
O paladino, com um ar de grande terror, trouxe a cola de uma sala interna.
O Rei apertou a com o prazer de uma criança brincando com melaço. Em
seguida, com suas composições enormes tremulando em cada mão, correu
para o lado de fora, e começou colá-las em posições de destaque ao longo
da frente do escritório.
— E agora — disse Auberon, entrando novamente com não diminuída
vivacidade —, para o artigo principal.
Pegou outra das grandes faixas de papel de parede, e colocando-a em uma
mesa, puxou uma caneta e começou a escrever com intensidade febril,
lendo em voz alta cláusulas e fragmentos para si mesmo, e rolando-as em
sua língua como se fosse vinho, para ver se tinham o puro sabor
jornalístico:
— A notícia do desastre para nossas forças em Notting Hill, terrível
como é (terrível como é? não, angustiante como é), pode fazer algo de
bom se chama a atenção para a não-sei-qual-o-nome ineficiência
(escandalosa ineficiência, é claro) dos preparativos do Governo. Em
nosso atual estado de informações, seria prematuro (que palavra alegre!)
lançar qualquer reflexão sobre a conduta do general Buck, cujos serviços
sobre tantos campos atacados (ha, ha!), e cujas honrosas cicatrizes e
louros, dão-lhe o direito de pelo menos ter o julgamento suspenso. Mas
há um assunto sobre o qual devemos falar claramente. Temos estado em
silêncio sobre isso por muito tempo, por sentimentos, talvez de cautela
ou de lealdade enganados. Esta situação nunca teria surgido, se não
fosse o que só se pode chamar de indefensável conduta do rei. É doloroso
ter que dizer essas coisas, mas, falando no interesse público (plagiei o
famoso epigrama de Barker), não devemos parar por causa da aflição que
pode causar a qualquer indivíduo, mesmo o mais exaltado. Neste momento
crucial de nosso país, a voz do povo exige como uma só língua, "Onde
está o Rei?" O que ele está fazendo, enquanto seus súditos rasgam-se em
pedaços nas ruas de uma grande cidade? São os seus divertimentos e suas
dissipações (de que não podemos fingir ser ignorantes) tão cativantes
que não pode dispensar algum pensamento para uma nação perecendo? É com
profundo sentimento de responsabilidade, que avisamos aquela exaltada
pessoa que nem sua grande posição, nem seus incomparáveis talentos
irão salvá-lo na hora de delírio do destino de todos aqueles que, na
loucura de luxo ou tirania, se encontrarem com os ingleses no raro dia
de sua ira.
— Agora — disse o Rei —, vou escrever um relato da batalha por uma
testemunha ocular. — E pegou uma quarta folha de papel de parede. Quase
no mesmo momento Buck entrou rapidamente no escritório. Ele tinha uma
bandagem em volta de sua cabeça.
— Disseram-me — disse com a sua habitual civilidade áspera —- que sua
Majestade estava aqui.
— E de todas as coisas na terra — exclamou o Rei, com prazer —, aqui
está uma testemunha ocular! Uma testemunha ocular que, lamento observar,
tem atualmente apenas um olho para testemunhar. Pode escrever-nos um
artigo especial, Buck? Tem um rico estilo?
Buck, com um autocontrole que quase se aproximou de polidez, ignorou
qualquer genialidade enlouquecedora do rei.
— Tomei a liberdade, vossa Majestade — disse rapidamente —, de pedir ao
sr. Barker para vir aqui também.
Enquanto falava, de fato, Barker veio para dentro do escritório, com sua
habitual pressa.
— O que está acontecendo agora? — perguntou Buck, virando-se para ele
com uma espécie de alívio.
— A luta ainda está em curso — disse Barker. — Os quatrocentos de West
Kensington mal foram tocados na noite passada. Eles mal chegaram perto
do lugar. Os homens do pobre Wilson de Bayswater chegaram, no entanto.
Lutaram bem. Tomaram Pump Street. Que coisas loucas acontecem no mundo.
E pensar que de todos nós foi o pequeno Wilson com os bigodes vermelhos
que se saiu melhor.
O Rei fez uma nota em seu papel:
“A conduta romântica do Sr. Wilson.”
— Sim — disse Buck —, isto faz um ficar um pouco menos orgulhoso de si
próprio.
O Rei repente dobrou ou amassou o papel e o colocou no bolso:
— Tenho uma ideia. Serei uma testemunha ocular. Vou escrever cartas da
frente que serão mais lindas do que o real. Dê-me o meu casaco,
Paladino. Entrei nesta sala um mero Rei de Inglaterra. Deixo como
Correspondente Especial de Guerra do Jornal da Corte. É inútil me parar,
Pally; é inútil agarrar meus joelhos, Buck; é inútil, Barker, chorar
sobre o meu pescoço. "Quando o dever chama...”, o restante do sentimento
me escapa. Receberá meu primeiro artigo esta noite em torno das oito horas.
E, correndo para fora do escritório, pegou um ônibus azul para Bayswater
que estava passando.
— Bem — disse Barker, melancolicamente —, bem.
— Barker — disse Buck —, negócios podem ser menores do que a política,
mas a guerra é, como descobri ontem à noite, bem mais como negócios.
Políticos são demagogos arraigados que, mesmo quando têm um despotismo,
não pensam em nada, senão a opinião pública. Então aprendem a atacar e
correr, e estão com medo da primeira brisa. Agora, nós nos atemos a algo
até conseguir. E nossos erros nos ajudam. Olhe aqui! Neste momento
vencemos Wayne.
— Vencemos Wayne — repetiu Barker.
— Por que diabos não? — exclamou o outro, abanando as mãos. — Olhe aqui.
Eu disse ontem à noite que os pegamos assegurando as nove entradas. Pois
bem, eu estava errado. Deveríamos tê-los pego, mas por um evento
singular, as lâmpadas se apagaram. Mas isso era certo. Já ocorreu a
você, meu brilhante Barker, que um outro evento singular aconteceu desde
o evento singular das lâmpadas apagarem?
— Que evento? — perguntou Barker.
— Por uma incrível coincidência, o sol nasceu — gritou Buck, com um ar
de paciência selvagem. — Por que diabos não estamos assegurando todas
esses caminhos agora, e passando sobre eles novamente? Isso deveria ter
sido feito ao nascer do sol. O confuso médico não me deixou sair. Você
estava no comando.
Barker sorriu tristemente:
— É gratificante para mim, meu querido Buck, ser capaz de dizer que
antecipamos as suas sugestões com precisão. Fomos o mais cedo possível
fazer um reconhecimento das nove entradas. Infelizmente, enquanto
estávamos lutando entre nós no escuro, como um monte de trabalhadores
braçais bêbados, os amigos do Sr. Wayne estavam trabalhando muito duro.
A três centenas de metros de Pump Street, em cada uma dessas entradas,
há uma barricada quase tão alta quanto as casas. Eles estavam terminando
a última, em Pembridge Road, quando chegamos. Nossos erros... — gritou
amargamente, e jogou o cigarro no chão. — Não fomos nós que aprendemos
com eles.
Houve um silêncio por alguns momentos, e Barker recostou-se cansado em
uma cadeira. O relógio do escritório fazendo tique-taque no silêncio.
Finalmente Barker disse de repente:
— Buck, já passou pela sua mente para que tudo isto? Um caminho de
Hammersmith para Maida Vale era uma especulação extraordinariamente boa.
Você e eu esperávamos muito dela. Mas vale a pena? Vai custar-nos
milhares para esmagar este motim ridículo. Suponha que o deixemos em paz?
— E ser humilhado publicamente por um louco de cabelos vermelhos que
seria internado por qualquer médico? — gritou Buck, levantando-se. — O
que propõe fazer, Sr. Barker? Pedir desculpas ao admirável Sr. Wayne?
Ajoelhar-se à Carta das Cidades? Apertar no seu peito a bandeira do leão
vermelho? Beijar em sucessão cada sagrada lâmpada pública que salvou
Notting Hill? Não, por Deus! Meus homens lutaram bem; eles foram
vencidos por um truque. E vão lutar novamente.
— Buck, sempre admirei você. E estava muito certo no que disse outro dia.
— Em que?
— Ao dizer — disse Barker, levantando calmamente — que nós todos
entramos na atmosfera de Adam Wayne e fora da nossa. Meu amigo, todo o
reino territorial de Adam Wayne se estende a cerca de nove ruas, com
barricadas no fim delas. Mas o reino espiritual de Adam Wayne
estende-se... Deus sabe até aonde! Estende-se a este escritório, de
qualquer maneira. O louco de cabelo vermelho que qualquer médico
internava está preenchendo o quarto com sua alma que ruge de forma
não-razoável. E foi o louco de cabelo vermelho que disse que a última
palavra.
Buck foi até a janela, sem responder.
— Entende, claro — disse finalmente —, que nem sonho em desistir.
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O rei, por sua vez, foi sacudindo ao longo do percurso no topo de seu
ônibus azul. O tráfego de Londres como um todo não tinha, é claro, sido
muito perturbado por estes eventos, pois o caso foi tratado como um
motim de Notting Hill, e a área foi demarcada como se tivesse estado nas
mãos de uma quadrilha de reconhecidos desordeiros. Os ônibus azuis
simplesmente rodaram como teriam feito se uma estrada estivesse sendo
consertada, e o ônibus onde o correspondente do Jornal da Corte estava
sentado foi em volta de Queen’s Road em Bayswater.
O Rei estava sozinho no topo do veículo, e estava gostando da velocidade
em que estava indo.
— Avante, minha beleza, meu árabe — disse ele, batendo no ônibus
encorajador —, o mais rápido de toda sua limitada tribo. São as tuas
relações com o teu motorista, me pergunto, as mesmas do beduíno e sua
montaria? Será que ele dorme lado a lado contigo...
Suas meditações foram quebradas por uma parada repentina e chocante.
Olhando por cima da borda, viu que os veículos foram parados por homens
em uniforme do exército de Wayne, e ouviu a voz de um policial gritando
ordens.
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O rei Auberon desce do ônibus com dignidade.
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O rei Auberon desceu do ônibus com dignidade. A guarda ou piquete de
alabardeiros vermelhos que pararam o veículo não eram mais do que vinte,
e estavam sob o comando de um pequeno, escuro, e aparentemente
inteligente jovem, bem visível entre os outros, vestido com um simples
fraque, mas com uma faixa vermelha na cintura e uma espada longa do
século XVII. Um chapéu de seda brilhante e óculos concluíam a roupa de
uma maneira agradável.
— Com quem tenho a honra de falar? — disse o Rei, se esforçando para
parecer Charles I, apesar das dificuldades pessoais.
O homem moreno de óculos levantou seu chapéu com igual gravidade:
— Meu nome é Bowles. Sou um químico. Também sou capitão da companhia O
do exército de Notting Hill. Estou aflito de ter de perturbá-lo parando
o ônibus, mas esta área é coberta por nossa proclamação, e interceptamos
todo o tráfego. Peço a quem tenho a honra… Boas graças, peço o perdão de
Vossa Majestade. Estou muito desconcertado em encontrar-me com o Rei.
Auberon levantou a mão com grandeza indescritível:
— Não com o Rei, com o correspondente de guerra especial do Jornal da Corte.
— Peço o perdão de Vossa Majestade — começou o Sr. Bowles, em dúvida.
— Chama-me de Majestade? Repito — disse Auberon, com firmeza —, sou um
representante da imprensa. Escolhi, com um profundo senso de
responsabilidade, o nome de Pinígero. Desejo um véu sobre o passado.
— Muito bem, senhor — disse Bowles, com um ar de submissão —, aos nossos
olhos a santidade de imprensa é pelo menos tão grande como a do trono.
Não desejamos nada mais que nossos erros e as nossas glórias sejam
amplamente conhecidas. Posso perguntar, Pinker, se tem alguma objeção a
ser apresentado ao superintendente e ao General Turnbull?
— O superintendente já tive a honra de conhecer — disse Auberon,
simplesmente. —Nós velhos jornalistas, sabe, encontramos todo mundo.
Estaria encantado em ter a mesma honra novamente. Também seria uma
satisfação conhecer o General Turnbull. Os homens mais jovens são tão
interessantes. Nós, da velha gangue de Fleet Street perdemos o contato
com eles.
— Se importa de me acompanhar? — disse o líder da companhia O.
— De maneira alguma — disse Pinker. — Pode prosseguir.