Após mais duas entrevistas com homens das lojas, no entanto, a confiança
do patriota em sua própria diplomacia psicológica começou a minguar
vagamente. Apesar do cuidado com que considerava a lógica peculiar e a
glória peculiar de cada loja separadamente, parecia haver algo que não
respondia nos homens das lojas. Se era um ressentimento obscuro contra o
não-iniciado bisbilhotando sua magnificência maçônica, ele não conseguia
conjecturar.
Sua conversa com o homem que mantinha a loja de curiosidades começou
encorajadora. O homem que mantinha a loja de curiosidades tinha, de
fato, o encantado com uma frase. Ele estava de pé tristemente à porta de
sua loja, um homem enrugado com uma barba grisalha pontuda,
evidentemente, um cavalheiro que tinha descido no mundo.
— E como é que vai o seu comércio, estranho guardião do passado? — disse
Wayne, afavelmente.
— Bem, senhor, não muito bem — respondeu o homem, com a voz paciente de
sua classe, que é uma das coisas mais comoventes do mundo. — As coisas
estão terrivelmente quietas.
Os olhos de Wayne brilharam de repente.
— Um grande provérbio, digno de um homem cuja mercadoria é a história
humana: Terrivelmente quieto. Estas duas palavras são o espírito desta
época, como senti desde meu berço. Às vezes, perguntei-me quantas outras
pessoas sentiam a opressão dessa união entre quietude e terror. Vejo bem
ordenadas ruas brancas e homens de preto que se deslocam nelas
inofensivos e mal-humorados. Isso continua dia após dia, dia após dia, e
não acontece nada, mas para mim é como um sonho do qual poderia acordar
gritando. Para mim, a retidão de nossa vida é a retidão de um cordão
esticado. Seu silêncio é terrível. Pode estalar com um barulho de um
trovão. E você que se senta no meio dos escombros das grandes guerras,
você que se senta , por assim dizer, em cima de um campo de batalha,
sabe que a guerra era menos terrível do que esta paz maligna, sabe que
os rapazes ociosos que portavam espadas sob Francis ou Elizabeth, o rude
fidalgo ou barão, que balançavam aquela maça nas batalhas de Picardy ou
Northumberland, podem ter sido terrivelmente barulhentos, mas não eram
como nós, terrivelmente quietos.
Seja por um fraco embaraço de consciência quanto à fonte original e data
das referidas armas, ou simplesmente uma enraizada depressão, o guardião
do passado olhou um pouco mais preocupado.
— Mas não acho — continuou Wayne — que este silêncio horrível da
modernidade vai durar, embora acho que por enquanto vai aumentar. Que
farsa é essa liberalidade moderno! Liberdade de expressão significa, na
prática, em nossa civilização moderna, que devemos falar apenas sobre
coisas sem importância. Não devemos falar sobre religião, porque é
antiliberal; não devemos falar de pão e queijo, porque estamos falando
de compras; não devemos falar sobre a morte, porque é deprimente; é
preciso não falar sobre o nascimento, porque é indelicado. Não pode
continuar. Algo deve quebrar essa indiferença estranha, este estranho
egoísmo sonhador, esta solidão estranha de milhões de pessoas em uma
multidão. Algo deve quebrá-lo. Por que não você e eu? Não pode fazer
nada além de guardar relíquias?
O lojista mostrou uma expressão clareando gradualmente, o que teria
levado os antipáticos à causa do Leão Vermelho a pensar que a última
frase foi a única frase para a qual ele havia anexado qualquer significado.
— Eu sou um pouco velho para entrar em um novo negócio — disse ele — e
não sei bem o que seria de qualquer forma.
— Por que não... — disse Wayne, gentilmente tendo atingido o cume de sua
delicada persuasão — Por que não um coronel?
Foi neste momento, com toda a probabilidade, que a entrevista começou a
produzir resultados mais decepcionantes. O homem parecia inclinado a
considerar a sugestão de se tornar um coronel como fora da esfera de
discussão imediata e relevante. A longa exposição da inevitável guerra
da independência, juntamente com a compra de uma duvidosa espada do
século XVI por um preço exagerado, pareceu reassentar os assuntos. No
entanto, Wayne saiu da loja um pouco infectado com a melancolia de seu
proprietário.
A melancolia foi completada no barbeiro.
— Barba, senhor? — perguntou o artista de dentro de sua loja.
— Guerra! — respondeu Wayne, em pé na soleira.
— Como? — disse o outro, bruscamente.
— Guerra! — disse Wayne, calorosamente. — Mas não para algo incompatível
com a beleza e as artes civilizadas. Guerra pela beleza. Guerra pela
sociedade. Guerra pela paz. Uma grande oportunidade é oferecida para
repelir a calúnia que, em desafio a vida de tantos artistas, atribui
poltronaria para aqueles que embelezam e pulem a superfície de nossas
vidas. Por que não podem cabeleireiros ser heróis? Por que não...
— Agora, saia! — disse o barbeiro, irascível. — Não queremos alguém do
seu tipo aqui. Saia!
E avançou com a contrariedade desesperada de uma pessoa suave quando
enfurecida.
Adam Wayne colocou a mão por um momento sobre a espada, então a soltou.
— Notting Hill — disse ele — precisará de seus filhos mais ousados — e
virou-se tristemente para a loja de brinquedos.
Era uma daquelas pequenas lojas estranhas tão constantemente vistas nas
ruas de Londres, que só devem ser chamados de lojas de brinquedos só
porque brinquedos predominam sobre o todo, pois o restante das
mercadorias parecem consistir de quase tudo no mundo. De tabaco, livros
de exercício, doces, novelas, clipes de papel, apontadores baratos,
cordões de botas e fogos de artifício baratos. Também vendia jornais, e
uma fileira de cartazes de aparência suja pendurada ao longo da frente.
— Estou com medo — disse Wayne, quando entrou — que não estou lidando
com esses comerciantes como deveria. Será que negligenciei o pleno
significado do trabalho deles? Existe algum segredo enterrado em cada
uma dessas lojas que nenhum mero poeta pode descobrir?
Ele deu um passo para o balcão com uma depressão que rapidamente dominou
quando abordou o homem no outro lado — um homem de baixa estatura e
cabelo prematuramente branco, e a aparência de um grande bebê.
— Senhor — disse Wayne —, estou indo de casa em casa nesta nossa rua,
buscando despertar algum senso do perigo que ameaça agora a nossa
cidade. Em nenhum lugar senti meu dever tão difícil quanto aqui. Pois o
lojista da loja de brinquedo tem tudo o que nos resta do Éden antes das
primeiras guerras começar. Senta aqui meditando continuamente sobre os
desejos do tempo maravilhoso em que toda escada levava para as estrelas,
e todos os jardins eram caminhos para a outra extremidade da Terra do
Nunca. Acha que é impensado que eu bata o velho e escuro tambor do
perigo no paraíso das crianças? Mas considere um momento, não me condene
às pressas. Mesmo o próprio paraíso contém o rumor ou início desse
perigo. Assim como o Éden que foi feito perfeito continha a terrível
árvore. Para julgar a infância, mesmo pelo seu próprio arsenal de
prazeres, você mantém tijolos; sem dúvida para o testemunho do instinto
construtivo mais velho do que o destrutivo. Você mantém bonecas, você
torna-se o sacerdote dessa a idolatria divina. Você mantém Arcas de Noé;
perpetua a memória da salvação de toda a vida como um bem precioso, uma
coisa insubstituível. Mas, senhor, mantém apenas os símbolos desta
sanidade pré-histórica, esta racionalidade infantil da terra? Não mantém
as mais terríveis? Que são essas caixas, aparentemente de soldados de
chumbo, que vejo nessa caixa de vidro? Não são testemunhas de que o
terror e a beleza, que o desejo de uma morte linda, não pode ser
excluídos até mesmo da imortalidade do Éden? Não despreze os soldadinhos
de chumbo, Sr. Turnbull.
— Não desprezo — disse Turnbull, da loja de brinquedos, brevemente, mas
com grande ênfase.
— Estou feliz em ouvir isso — respondeu Wayne. — Confesso que temi por
meus planos militares a inocência terrível de sua profissão. O que,
pensei comigo mesmo, será que este homem habituado apenas com espadas de
madeira que dão prazer, pensará sobre as espadas de aço que dão dor? Mas
estou pelo menos em parte tranquilizado. Seu tom sugere-me que tenho
pelo menos a entrada de um portão da terra das fadas — o portão através
do qual os soldados entram, isso não se pode negar — devo, senhor, não
mais negar, que é de soldados que vim falar. Permita que o seu emprego
suave o faça misericordioso para com os problemas do mundo. Permita que
a sua própria experiência prateada diminua as nossas tristezas
sanguíneas. Pois há guerra em Notting Hill.
O mantenedor da loja de brinquedo pulou de repente, batendo as mãos
gordas sobre o balcão.
— Guerra? — ele gritou. —Verdade, senhor? É verdade? Oh, que piada! Oh,
que vista para os olhos cansados!
Wayne foi surpreso por essa explosão.
— Estou muito contente — gaguejou. — Não tinha noção.
Ele se pôs para fora do caminho a tempo de evitar Turnbull, que deu um
salto sobre o balcão e correu para a frente da loja.
— Olhe aqui, senhor — disse ele —, olhe aqui.
Voltou com dois dos cartazes rasgados que estavam do lado de fora de sua
loja na mão.
— Olhe para eles, senhor — disse ele, e atirou-os no balcão.