--Jorge, a _Mão Negra_ póde ser um instrumento do Bem, como póde ser um

instrumento do Mal, conforme o pensamento do seu supremo dirigente fôr

alevantado e nobre ou mesquinho e vil. As bases em que assenta a nossa

mysteriosa aggremiação permittem concentrar na mão de um só homem a

vontade e as energias de muitos; e d'aqui resulta uma cohesão e um poder

de tal modo irredutivel, que força alguma da terra ousará combatel-o ou

destruil-o. A nossa principal força está no mysterio em que ella se

exerce. Todos os demais poderes vivem publicamente, á luz do dia; os

seus menores movimentos, as suas mais occultas intenções poderão ser

observadas e surprehendidas. Nós, pelo contrario, trabalhamos na sombra,

e a nossa acção, exercitando-se livremente, faz-se sentir sem deixar

conhecer a origem. Isto torna-nos invulneraveis como a propria

divindade. Assim, podemos dizer: «Os homens propõem e a _Mão Negra_

dispõe».

--É certo--confirmou Jorge--Mas que outro cerebro, senão o do Mestre,

poderia conceber e realisar o maravilhoso plano da nossa Associação, de

modo a prender nos fios subtilissimos de uma grande teia de interesses

communs o destino de todos e de cada um? Confesso, Mestre, que só um

espirito superior e uma sciencia profunda como a sua poderiam levar a

cabo tamanha e tão extraordinaria empreza.

O homem que dava pelo nome de Mestre fitou Jorge com interesse, e n'um

tom repassado de extraordinario carinho, disse-lhe:

--Tu, meu amigo, és novo, és forte e és intelligente. A ti está

reservada a alta missão de continuares um dia a minha obra, que é

realmente grandiosa.

--Eu, Mestre--replicou Jorge--tenho os hombros extremamente debeis para

tamanha empreza.

--Não. Tu és o unico de entre tantos que deverá succeder-me. Como sabes,

eu sou o poder occulto que tudo dirijo e tudo governo dentro da nossa

Associação. Em meu nome, poderás governar, mandar e dirigir, mesmo

depois da minha morte.

--Pensa em morrer? Mestre!--exclamou Jorge surprehendido.

--A ideia da Morte deve estar sempre presente ao homem que, podendo

tanto, só não póde prolongar a vida uma hora, um instante mais alem

d'aquelle que marca o fim da sua existencia sobre a terra. Ha muito que

eu penso, Jorge, na maneira de triumphar da Morte continuando a viver na

vida e no pensamento da nossa Associação; e, sendo assim, eu não podia

deixar de pensar em ti como meu continuador...

--Oh, Mestre!--fez Jorge commovido.

--És o unico que ha muitos annos privas particularmente comigo; és o

unico que bem conhece os fios occultos que movem a nossa Associação; és,

portanto, o unico no caso de me succeder e de sustentar com honra e

brio, com dignidade e consciencia, as tradicções já gloriosas da _Mão

Negra_. Não esqueças, meu filho, que ella é a ingente força, o supremo

poder, e terá no futuro em suas mãos os destinos da humanidade.

--Mas a sua sciencia, Mestre, esse espirito investigador e profundo,

essa intelligencia privilegiada, esse cerebro potentissimo que tudo

pensa, tudo prevê e tudo resolve, como poderei eu substituil-o?

O Mestre sorriu.

--Quando eu faltar--disse elle--virás a esta casa, encerrar-te-has

n'esta sala, sentar-te-has n'esta cadeira, tal como eu estou agora, e

consultarás o archivo secreto da nossa Associação. Ha

aqui--accrescentou--todos os elementos de que careces para proseguir

desassombradamente o caminho que encetei.

Depois abriu uma gaveta da meza, tirou um enorme livro encadernado a

preto e com fechos de metal.

--Este livro--disse elle, abrindo-o--está em branco. Quando eu morrer,

basta que lhe passes por cima de cada folha uma lamina de ferro,

aquecida, para que a tinta sympathica em que está escripto se revele e

te permitta fazer a leitura. Então encontrarás aqui a historia d'este

homem mysterioso a quem tanto te affeiçoaste e cuja origem desconheces.

Este livro que é toda a minha vida e toda a minha sciencia, é tambem

toda a vida da nossa Associação. Sê prudente, sê sabio e sê justo, meu

filho; e se a historia da minha vida puder merecer-te uma lagrima de

compaixão, que essa lagrima se crystalise e se transforme na perola dos

nobres intuitos, como symbolo do Bem com que eu quiz redimir tanto mal

feito e recebido da mão da perfidia e da traição humana.

Jorge ouvia o velho sem o comprehender, mas sentia-se singularmente

commovido.

--Mestre!--exclamou elle com voz tremula e repassada de

ternura--afastemos para longe de nós a ideia da morte. Não me assusta a

perda da propria vida, mas aterra-me o pensamento de que posso ver

morrer aquelle que tem sido o meu melhor amigo, o meu verdadeiro e unico

Mestre.

Os dois calaram-se e permaneceram mudos e silenciosos por alguns

instantes.

Evidentemente, uma profunda commoção embargava n'esse momento a voz

áquelles dois homens energicos, tão fortes e tão activos que,

consubstanciados no mesmo pensamento, tinham conseguido organisar,

dominar e dirigir com superior intelligencia uma das mais poderosas e

terriveis associações secretas dos nossos dias.

--Meu amigo--disse por fim o mysterioso personagem dos oculos--era

indispensavel que eu te manifestasse a minha ultima vontade, antes de

partir para a grande romagem. Não é que eu pense realisal-a breve; mas

como a vida é um thesouro de que apenas somos depositarios, um valor á

ordem que pode ser-nos reclamado de um momento para o outro, o meu dever

é prevenir. Aqui tens e aqui ficam n'este livro todas as indicações

precisas para poderes continuar a minha obra. Se eu faltar, repito,

assume a direcção suprema da _Mão negra_, e o meu espirito será comtigo.

XXX

Mãe

Madre Paula enviára o _Tomba_ ao Porto com uma carta a chamar para junto

de si o filho da _Irmã Dorothea_, sob pretexto de que precisava da sua

companhia por alguns dias, para suavisar com a sua presença o

aborrecimento do padre Filippe, constrangido a permanecer alli emquanto

ella velava o leito de uma amiga intima, perigosamente enferma.

No mesmo dia em que Paulo chegou, a abbadessa approximou-se do leito de

Helena e disse-lhe sorrindo:

--Deixas que eu te entremostre, minha amiga, um pedaço do ceu azul da

tua existencia por entre as brumas do soffrimento que te opprime?

--O que queres dizer?

--Quero dizer que está n'esta casa, debaixo do mesmo tecto que te

abriga, um rapaz que seria o orgulho e a consolação de sua mãe, se sua

mãe consentisse em o vêr e lhe fallar...

--Meu filho!?--bradou Helena em sobressalto com um afflictivo gesto de

terror--Pois tu, Paula, trouxeste a esta casa esse testimunho vivo da

minha deshonra?

--Quem o conhece, senão eu e tu? Para todos os effeitos, Paulo é meu

sobrinho, e elle proprio está longe de pensar em que se encontra tão

perto de sua mãe...

--Embora! Por Deus, poupa-me a esse enorme sacrificio, a essa horrorosa

angustia!

--Helena, porque teimas em te mostrar sem coração, quando toda a tua

vida está provando o contrario, filha? Lembra-te de que o mesmo terror

experimentaste quando se te fallou em receberes Julio de Montarroyo. E

comtudo, a sua presença, em vez de te mortificar, alegrou-te, quasi te

restabeleceu... Pois bem; deixa-me apresentar-te agora teu filho. Nada

te obriga a reconhecel-o. O segredo fica entre ambas. Se a sua presença

te affligir, se continuares a detestal-o, eu o arredarei para longe de

ti... Se, pelo contrario, te sentires bem ao lado d'elle, ouvindo-o e

apreciando-lhe as nobres qualidades, ficará e continuará a vêr-te, como

uma pessoa amiga, na ignorancia absoluta dos laços que o prendem a ti...

Helena de Noronha guardou um silencio indeciso que era quasi uma

acquiescencia.

As palavras de madre Paula eram de uma tão irresistivel persuazão, que a

doente nada tinha a oppôr-lhes.

--Comprehendes--disse ella--que nem curiosidade nem affecto podem

mover-me a receber esse rapaz que para mim não passa de um estranho...

--E como estranho se conservará a teu lado... Quem o duvida?--tornou a

religiosa com aquelle meigo sorrir que se prodigalisa aos enfermos

impertinentes e caprichosos.--Aqui, ha apenas da minha parte o interesse

de que conheças teu filho, que revivas nelle os tempos felizes da tua

infancia, recordando nas suas feições as feições de teu pae...

--Pois sim... que venha!--disse por fim Helena, com visivel esforço.

Paulo foi introduzido no quarto da doente.

O mancebo, com a polidez propria das pessoas indifferentes, abeirou-se

do leito; e pois que madre Paula lhe explicára que esta approximação

tinha unicamente por fim distrahir a sua amiga e desviar-lhe o espirito

de dolorosas preoccupações moraes que a obsidiavam, envidou todos os

esforços por tornar alegre e interessante a sua conversação.

--Disseram-me que v. ex.^a--principiou elle por declarar, dirigindo-se a

Helena--ainda por muito tempo reteria junto do seu leito esta boa e

santa senhora que é minha mãe; e esta alarmante perspectiva obrigou-me a

vir supplicar-lhe que se restabeleça o mais breve que ser possa, porque,

em verdade, minha senhora, começo a sentir-me lesado nos meus sagrados

direitos... de filho.

--Não é minha vontade prejudical-o...--replicou Helena fitando-o e

estudando-lhe demoradamente as feições.--Quando escrevi á minha amiga

Paula, pedindo-lhe a esmola da sua companhia, estava bem longe de suppôr

que um tal pedido significasse uma contrariedade para alguem...

--Oh, minha senhora! peço-lhe que não tome á lettra as minhas

palavras--atalhou Paulo rindo.--Isto é mero gracejo da minha parte e

tanto mais desculpavel quanto é certo que v. ex.^a se me affigura em via

de um prompto restabelecimento... E como não quero passar tambem sem o

meu quinhão de importancia n'este jubiloso caso de a vermos restituida á

saude e á vida, tracto de fazer valer, desde já, os meus direitos a um

louvor que não mereço... De resto, minha senhora, eu felicito-me de a

encontrar n'um estado que está bem longe de ser o que á minha imaginação

se apresentava. Julguei vir encontrar uma velhinha na agonia, uma luz

bruxuleante, quasi a extinguir-se; e com grande surpreza e alegria

minha, encontro uma senhora nova e formosa ainda. V. ex.^a, embora um

pouco abatida pela doença, apresenta um aspecto promettedor de muita

vida... Antes assim!

--É demasiado lisongeiro para com uma pobre doente, sr. Paulo de...

--De Noronha, minha senhora--apressou-se Paulo a dizer, notando a

hesitação de Helena.

--Ah! v. ex.^a usa esse appellido?--não pôde Helena impedir-se de

perguntar.

--Uso, minha senhora; e se quer que lhe falle com franqueza, não sei bem

porquê...

--Naturalmente, appellido de seus paes...

--Não os conheci, nunca tive a menor noticia delles... Tanto sei se eram

Noronhas como se eram Silveiras... Podiam ser uma e outra coisa, ou

podiam não ser coisa nenhuma d'estas... Quem podia talvez dizer-me

alguma coisa com verdade a esse respeito era minha mãe...

--Sua mãe!--interrompeu Helena, mal podendo dominar o

sobresalto--Conhece-a?

Paulo indicou rindo madre Paula:

--Pois eu não disse ainda a v. ex.^a que minha mãe é esta santa senhora

que v. ex.^a tem por amiga?

Madre Paula interveio:

--Não te admires, minha amiga. Paulo habituou-se a chamar-me _mãe_, não

obstante saber que não é a mim que deve a existencia...

--Pois a quem a devo? Que outra mãe conheci eu, que affectos, que

carinhos, que disvellos e cuidados devo a outra que não seja a nobre e

santa creatura a quem me estou dirigindo?--accudiu Paulo voltando-se

para a superiora,--É bem certo--creio-o e não discuto--que devo a

existencia a um acto physiologico de terceiros, que me produziram, tão

independentemente da sua vontade como da minha, e que por isso mesmo se

julgaram desobrigados de me reconhecer e amparar. Mas esse facto não

envolve sentimento impeditivo do meu amor e ternura filial para com

aquelles a quem tudo devo, a quem considero meus unicos e verdadeiros

paes e que são madre Paula e o padre Fillippe.

--Deve então odiar muito aquelles que lhe deram o sêr...--balbuciou

Helena com os olhos fitos nos do filho.

--Não os odeio, minha senhora, lamento-os.

--Por natural instincto do coração talvez...

--Não. Por uma tendencia especial do meu espirito para deplorar a sorte

de todos aquelles que se afastaram da linha recta do dever e resvalaram

no crime ou na cobardia.

--É singular! Como explica isso? Se não conheceu seus paes, como póde

saber se elles fôram cobardes ou criminosos?

--A minha propria existencia m'o diz, minha senhora. Eu appareço no

mundo, filho de paes incognitos... isto é, filho de pessoas que me

negaram a paternidade ou para se não macularem a si proprias ou para me

não macularem a mim. No primeiro caso, se temeram a macula do meu

nascimento e a ella se furtaram pela vilta do anonymo, esta acção

reflecte a cobardia dos seus sentimentos, porque não tiveram a coragem

de assumir a responsabilidade dos seus actos. No segundo caso, se a sua

situação era de tal modo contraria ás leis sociaes que, do chamarem-me

_filho_, revertia para mim uma vergonha inilludivel, nenhuma duvida

resta de que meus paes fôram criminosos. De qualquer modo, dois

desgraçados com os quaes não tenho nem quero nada de commum, a não ser

para os lamentar, como sempre lamento todos aquelles que, podendo ser

dignos e honestos, o não são, faltando aos dictames da sua consciencia e

ao cumprimento dos seus deveres.

--Então, se seus paes um dia lhe apparecessem a reivindicar o direito

que teem á sua ternura, repudial-os-ia--perguntou Helena com a voz de

cada vez mais sumida.

--Não, minha senhora--replicou Paulo serenamente--não os repudiaria, que

não é do meu animo repudiar os que soffrem e os que se arrependem. Mas

se pedissem ao meu coração mais do que o compassivo sentimento que se

tem para com todos os desgraçados, responder-lhes-ia que o meu amor e a

minha ternura filial pertenciam exclusivamente áquelles que me foram

paes adoptivos na infancia--a madre Paula e ao padre Filippe.

Helena baixou os olhos e as faces purpurearam-se-lhe n'uma commoção

facil de explicar.

--Tem razão--murmurou ella--No entanto, talvez que motivos ponderosos

forçassem sua mãe a...

--A não ser minha mãe?--atalhou Paulo--Perfeitamente de accordo. A mim

cumpre-me respeitar esses motivos que não conheço e que nem sequer tento

conhecer. Mas v. ex.^a comprehende muito bem que, se minha mãe teve

motivos para me arredar de si como a um objecto incommodo e

compromettedor, eu não posso ter no fundo do meu coração razões que

justifiquem e fundamentem qualquer affecto e ternura especial por ella.

De resto, nós estamos apenas formulando hypotheses que estão muito longe

de factos, pois não creio que venha a dar-se o caso de meus paes um dia

apparecerem a reclamar o filho que por tantos annos repudiaram.

--Quem sabe?--observou madre Paula--Não admittiste ha pouco a hypothese

de que possam soffrer ou arrepender-se?

--No campo das supposições, tudo póde admittir-se, minha boa mãe, porque

tudo póde suppôr-se... Mas para que havemos de estar a preoccupar-nos

com um assumpto que não interessa a nenhum de nós, e principalmente a

mim? O facto é, minha senhora--proseguiu elle, voltando-se para

Helena--que eu, a despeito da irregularidade do meu nascimento, sou

feliz quanto o póde ser um homem nas minhas circumstancias.

--Deve muito á Providencia, visto isso!--disse Helena suspirando,--ha

tão poucas pessoas que, mesmo bem nascidas, possam dizer-se felizes!...

--É certo. Porém eu, até agora, e presentemente, posso considerar-me a

mais feliz das creaturas. Abandonado por meus paes...

--Mas quem te disse a ti que teus paes te abandonaram?--atalhou,

docemente reprehensiva, madre Paula--É muito avançar, quando nada sabes

a esse respeito, Paulo!

O mancebo sorriu.

--Se eu penso assim, a culpa não é por certo minha, mas tão somente

d'aquelles que tenazmente se teem recusado a dizer-me uma palavra unica

que me illucide ácerca do meu nascimento.

E voltando-se para Helena:

--Desde a mais tenra infancia que eu vivo exclusivamente do amparo e dos

carinhos do padre Filippe e de madre Paula, que considero meus paes pela

grandeza do beneficio e pela constancia do affecto. Não conheci outros,

nunca me fallaram de outros, nunca d'outros me deram noticia. Já homem,

tive um momento na minha vida em que senti a necessidade cruel de

penetrar o mysterio do meu nascimento para poder dizer á mulher que

amava e que escolhera para companheira de toda a minha existencia, o

nome de meus paes. Interroguei o padre Filippe. Respondeu-me que não os

conhecera, que d'elles não tivera nunca noticia, e que eu fôra passado á

sua benevolente e humanitaria tutella, como um _legado_, no espolio de

um padre seu amigo, que morrera e que levara comsigo para a sepultura o

segredo da minha vinda a este mundo. Creio que, n'estas circumstancias,

quer as palavras do padre Filippe exprimam a verdade quer a encubram, o

abandono não póde ser mais evidente nem mais completo. Não é v. ex.^a

d'esta opinião, minha senhora?

--De certo--murmurou Helena com voz tremula.

--Mas eu não accuso meus paes do seu procedimento para commigo, nem

quando emprego esta palavra _abandono_ lhe ligo o menor sentimento de

revolta e indignação que ella póde inspirar. Nada d'isso. Elles

procederam assim, porque talvez tiveram motivos para assim proceder.

D'esses motivos, porém, não fui eu o culpado, e isso me basta pensar

para minha completa tranquillidade. Para tranquillidade d'elles, se

forem vivos e souberem de mim, bastar-lhes-ha a certeza de que sou

completamente feliz com o amor de madre Paula e da minha noiva, e com a

estima e paternal affecto do padre Filippe. Aqui está, pois, um drama

que talvez no seu inicio ameaçou ser de lagrimas e que, por um

extraordinario desenrolar de circumstancias favoraveis, acaba por

apresentar todos os personagens felizes e contentes comsigo mesmos!

Ao proferir estas ultimas palavras, Paulo ria jubiloso, com aquella

alegria franca do seu temperamento expansivo e sincero.

Helena de Noronha, de cada vez mais encantada com a attitude

despretenciosa e alegre d'aquelle rapaz que reproduzia nas feições e nos

gestos os modos e as feições de Norberto de Noronha, sentiu-se

extraordinariamente feliz ao ouvir da bocca do proprio filho palavras de

compassivo perdão para o criminoso abandono a que ella o votara.

--O senhor--disse ella--possue uma alma nobilissima e um coração dotado

de generosos sentimentos. Merece ser feliz; e uma vez que já o é, busque

nortear-se sempre pelos dictames da piedade e da compaixão, mesmo para

com aquelles que o offenderam ou aggravaram...

O tom quasi supplicante em que estas palavras foram ditas não escapou a

madre Paula que, com a sua natural perspicacia, comprehendeu bem o que

se passava na alma da sua amiga.

--Paulo é um bello caracter--interrompeu ella envolvendo o mancebo n'um

olhar de maternal ternura--e sinto verdadeiro orgulho de ter sido eu a

sua educadora... Eu e o padre Filippe--emendou logo--porque é justo não

esquecer que esse exemplar sacerdote tem tido com este filho adoptivo

todos os extremos e disvellos de um pae.

O mancebo começou então recordando alegremente passagens esquecidas da

sua infancia, travessuras de creança, brincadeiras, affagos e

reprimendas do padre Filippe e de madre Paula, e n'isto levou algumas

horas, que muito distrahiram e interessaram Helena de Noronha, agora de

todo familiarisada com o filho.

Quando Paulo, pretextando não querer com a sua conversação fatigar o

espírito da doente, se retirou promettendo voltar depois, a religiosa, a

sós com Helena, perguntou-lhe:

--E então?

--Então, minha querida Paula--exclamou a enferma--é bem meu filho, é bem

o neto de Norberto de Noronha aquelle rapaz que alli está!

--Não te dizia eu que Paulo era um bello e excellente moço, reflectindo

na figura varonil e cheia de nobreza as feições de teu pae? Dize-me, não

será elle digno de que o ames como filho, e por elle e para elle busques

ainda viver? Não seria doce e consolador para ti vêr-te, depois de

tantos annos de soffrimentos e amarguras, querida e amada por quantos te

rodeiam?

Helena teve um sorriso e os olhos brilharam-lhe n'um fugitivo anceio de

felicidade.

--Sim... sim!...--disse ella--seria feliz ainda, se pudesse viver na

companhia de meu filho, amada por elle e respeitada por aquelles que me

conhecem... Mas isso é impossivel! E queres que te diga? Agora, depois

que vi meu filho... sinto-me mais desgraçada!

--Porque?

--Porque... tu comprehendes... na minha alma começam a despertar agora

todos os sentimentos do amor maternal, e não posso dizer a meu filho:

«Sou tua mãe!»

XXXI

O homem dos oculos verdes

Decorreram quinze dias de suave e doce convivencia entre mãe e filho, na

casa de D. Aurelia.

Madre Paula e a irmã de Gustavo, ambas de intimo accôrdo no empenho de

salvarem Helena de Noronha, tinham sabido dispôr e conduzir as coisas de

modo que Julio, Paulo e o padre Manoel se encontrassem muitas vezes

reunidos á volta da doente, sem que nenhum d'elles suspeitasse os laços

de sangue que ligavam aquelle mancebo, tão cheio de vida e de alegria, á

infeliz victima do padre Anselmo.

A pobre Helena parecia um tanto esquecida das suas mágoas e infortunios,

sentindo renascer dentro em si o desejo de viver, tal era o amoravel

cuidado que todos punham em lhe suavisar a existencia, tão attribulada

de dôres physicas e moraes.

Infelizmente, o medico constatara que a doente soffria de uma lesão

cardiaca em estado bastante adiantado, e que tanto podia deixal-a viver

ainda muitos mezes como dar-lhe a morte em breves dias.

Este diagnostico, porém, reservara-o apenas para si, limitando-se a

recommendar que não expuzessem a enferma a sobresaltos e commoções

fortes, que podiam ser-lhe de funestas consequencias.

O honesto homem de sciencia, reconhecendo quanto a pobre doente era

amada por todos que a cercavam, não quiz destruir no coração dos que

tanto lhe queriam a dôce esperança de a verem completamente salva.

Estava-se, pois, n'esta bella illusão de um restabelecimento proximo,

quando um dia, pelo fim da tarde, bateu ao portão de D. Aurelia, pedindo

para fallar á dona da casa, um desconhecido, que a todos causou surpreza

pelo seu extranho aspecto e pelas suas mysteriosas maneiras.

Era um homem alto, de cabellos compridos e longa barba grisalha.

Usava oculos verdes. Vestia um amplo casacão, que quasi lhe descia aos

calcanhares e que, todo abotoado na frente, tomava o aspecto de uma

sotaina. Na cabeça, trazia um chapeu de enormes abas que,

ensombrando-lhe o rosto, dava um aspecto mais carregado á sua figura.

Viera a pé, encostado a um bordão e, comquanto agil, parecia fatigado da

longa jornada.

D. Aurelia, ao annunciarem-lhe o desconhecido, sahiu á sala de visitas a

recebel-o e ficou extranhamente surprehendida ao vêr diante de si

aquelle homem que ao mesmo tempo lhe infundia respeito e mêdo.

--Minha senhora--disse elle com voz sonora, mas em que havia uma certa

suavidade--peço desculpa de vir assim importunal-a, apresentando-me a

fazer-lhe um pedido sem para isso estar de forma alguma auctorisado. Mas

a importancia da minha missão é tal, que eu atrevo-me a suppôr que v.

ex.^a não me recusará o auxilio de que careço para bem a cumprir.

--Não conheço a pessoa a quem estou fallando--respondeu D. Aurelia, com

simplicidade--mas se é o meu concurso para uma obra boa que vem pedir,

rogo-lhe a fineza de me dizer em que posso ser-lhe util.

O desconhecido baixou a voz e disse n'um tom de confidencia:

--Fui amigo intimo de Alvaro de Noronha, e elle, um dia antes de ser

assassinado, constituiu-me depositario de um segredo de familia, que só

deve ser revelado a sua prima, a sr.^a D. Helena de Noronha, actualmente

n'esta casa...

D. Aurelia fitou-o perplexa.

--E como sabe v. ex.^a que a minha amiga Helena está aqui, quando toda a

gente ignora...

O desconhecido sorriu de um modo indefinido e volveu com firmeza.

--Sou um homem de bem, minha senhora, e sei cumprir os meus juramentos.

Jurei ao meu amigo Alvaro que revelaria a sua prima o segredo de familia

que elle me confiou com esse fim, e não me tenho poupado a esforços para

bem cumprir a ultima vontade do moribundo. Tendo a snr.^a D. Helena

permanecido em parte incerta durante muitos annos, comprehende v. ex.^a

certamente o empenho com que eu terei buscado encontral-a, mórmente

achando-me no fim da vida quasi, e não querendo levar commigo para a

sepultura um segredo que me não pertence...

--Quer v. ex.^a, pois, fallar com Helena de Noronha?

--É esse o unico objecto da minha vinda a casa de v. ex.^a, e para isso

ouso supplicar-lhe o favor da sua intervenção.

--A minha amiga, não sei se sabe, tem estado muito doente...

--Mas tambem sei que ultimamente tem experimentado sensiveis melhoras.

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 27 / 28 段