--Estou persuadido de que a minha presença não poderá causar-lhe a menor
commoção, pois que me não conhece, como eu tambem pessoalmente a não
conheço a ella.
--Mas o objecto da sua visita...
--Não póde ser-lhe de modo algum desagradavel--atalhou o
desconhecido--porque o que tenho a dizer-lhe é a coisa mais simples e
mais natural d'este mundo.
--Quem devo, pois, annunciar á minha amiga?
--Dar-lhe o meu nome é inutil, porque lhe será sempre desconhecido. Se
v. ex.^a tivesse a bondade, dir-lhe-hia que um amigo de seu primo Alvaro
pretende fazer-lhe uma communicação importante e do mais alto interesse
para ella.
D. Aurelia entrou no quarto da enferma, que a essa hora estava
conversando com Julio, Paulo e a abbadessa, todos já conhecidos e
convivendo n'aquella intimidade tão facil e tão peculiar á gente da
provincia.
Helena, muito animada e, ao parecer, muito melhor dos seus soffrimentos
physicos, inspirava a todos uma grande esperança de a verem em breve
completamente restabelecida.
Chegara mesmo, em conversação intima com madre Paula, a fazer projectos
de viver, como governante, em companhia do filho e da nora, logo que
elles fossem casados.
--Elle não saberá nunca que sou sua mãe--dizia ella--e eu poderei vêl-o
e amal-o, como se visse n'elle a cada momento o retrato vivo do meu pae,
quando mais novo... E cada sorriso affavel, cada palavra de bondade que
elle me dirija, será para mim como que um signal de perdão enviado,
d'alem tumulo e pelos labios do meu filho, por aquelle pobre espirito,
que tanto fiz soffrer!
Madre Paula sorria de satisfação, ao ouvir da bocca da sua amiga Helena
estas palavras que significavam n'ella o desejo de regressar á vida.
--Na tua mão está, minha querida, o realisares o teu desejo... Faze por
melhorar. Que o amor por teu filho te dê a força e a energia
indispensavel para triumphar das reminiscencias do teu passado, e o
futuro, relativamente feliz, será teu.
D. Aurelia não quiz prevenir Helena, na presença das pessoas que a
rodeavam, da inesperada visita do desconhecido.
Quando todos se retiraram, a irmã de Gustavo, approximando-se do leito,
disse-lhe sorrindo:
--Venho annunciar-te, minha querida amiga, uma nova visita...
--Quem?--interrogou Helena.
--Um desconhecido que pretende fallar-te...
--Um desconhecido!--repetiu Helena com instinctivo sobresalto.
--Sim. Um desconhecido para mim e para ti.
--O que quer elle?
--Quer ser-te apresentado para te revelar um segredo de familia...
--A mim?!
--A ti.
--Que segredo de familia póde revelar-me uma pessoa que eu não conheço?
--Este homem diz-se um antigo e intimo amigo de teu primo Alvaro que, na
vespera de ser assassinado e prevendo a desgraça que ia acontecer-lhe, o
incumbiu de te fazer uma revelação importante, se algum dia te
encontrasse ou tivesse noticias tuas...
--Meu primo Alvaro!--balbuciou Helena estremecendo.
--Sim... da parte do teu primo Alvaro é que elle vem.
--Como sabe esse homem que eu estou aqui?
--Diz elle que tem durante muitos annos empregado os maiores esforços
para te encontrar. Sabendo que está doente n'esta casa uma antiga amiga
minha, pensou que talvez fosses tu e veio interrogar-me a esse respeito.
Como se trata de um assumpto que póde ser de interesse e de utilidade
para ti, achei conveniente dizer-lhe a verdade...
--Queres, pois, que o receba?
--Não t'o imponho, minha amiga. Mas creio que farias bem em o ouvir...
--Pois bem; faça-se a tua vontade...
--A minha vontade não. Aqui a unica pessoa a resolver e a decidir és
tu...
--Acho estranho esse caso de um desconhecido a procurar-me para me fazer
revelações!...
--A mim parece-me a coisa mais natural do mundo. Todas as familias teem
segredos que só em determinados momentos julgam opportuno transmittir
aos que lhes succedem... Teu primo era intimo de teu pae, estava para
ser teu noivo... É, pois, muito natural que, sabendo o estado gravissimo
em que se encontrava teu pae e perdida a esperança de tornar a vêr-te,
encarregasse a um amigo a missão de um dia te esclarecer... E quem nos
diz a nós que este desconhecido vem talvez trazer-te a independencia e a
fortuna, quando tu menos a esperas?
Helena sorriu incredula.
--Não creio--disse ella--mas seja o que fôr, desde que se trata de um
segredo de familia, devo ouvil-o. Manda entrar esse homem.
D. Aurelia saiu e pouco depois dava entrada na camara da enferma o homem
dos oculos.
Helena, recostada n'uma cadeira de braços, encarou-o fito e não o
reconheceu.
O desconhecido inclinou a cabeça n'uma saudação, e pareceu esperar que
D. Aurelia se retirasse.
--Fica!--pôde ainda dizer Helena, tomada de subito receio, olhando para
a sua amiga.
--Perdão!--obtemperou o desconhecido.--O que tenho a dizer a v. ex.^a é
tão importante segredo, que não póde ser ouvido por mais alguem.
--Não tenho segredos para a minha amiga...
--Todas as pessoas teem segredos--insistiu o homem dos oculos--e se a
ninguem é licito devassal-os, menos licito se me afigura revelar os que
nos não pertencem. V. ex.^a não tem o direito de tornar publico um
segredo que lhe não pertence, que não é só seu, porque é tambem de sua
familia...
Estas palavras foram ditas com tal intimativa que Helena baixou os olhos
tremula e confundida.
--Este cavalheiro tem razão--disse D. Aurelia--Eu aguardarei na sala
proxima as tuas ordens, minha boa amiga... Escuta este senhor.
E sahiu.
Então o desconhecido, avançando alguns passos no quarto, fitou Helena e
disse-lhe em voz soturna:
--Não me conheces, Irmã Dorothêa, abadessa da Covilhã? Sou eu, o teu
cumplice!
Helena fez um gesto de horror e soltou um grito abafado. Reconhecera no
homem dos oculos verdes o padre Hilario, o seu cumplice no assassinato
do padre Anselmo.
--Não venho accusar-te pela maneira infame e ignobil como abusaste da
paixão ardentissima que a tua presença accendeu na minha alma, e menos
ainda do ludibrio de que me fizeste victima, obrigando-me a esperar-te
baldadamente na fronteira, onde prometteste que irias, reunir-te a mim.
Era justo que ao crime succedesse a expiação, e não haveria decerto
Providencia, se eu pudesse ser feliz comtigo. Fizeste de mim um
assassino miseravel, um perjuro, um parricida, Helena de Noronha. Tudo
isso te perdôo. Sabes, porém, o que não te posso perdoar? É que ames
outro e com elle penses viver ainda feliz. Isso não. Julio de Montarroyo
não será mais venturoso comtigo do que eu.
--Julio de Montarroyo!--balbuciou Helena aterrada--Quem lhe ensinou esse
nome?
--Eu sei todos os nomes que estão ligados á tua existencia, filha de
Norberto de Noronha, amante do padre Anselmo, mãe de Paulo de Noronha.
Sei tudo, que para outra coisa não tenho vivido ha dezoito annos,
rastejando como a serpente, ao peso do meu remorso. Quiz saber de ti,
quiz conhecer a que qualidade de mulher sacrifiquei a minha posição, o
meu futuro, a minha vida, a minha alma. E soube-o! Nada me resta por
saber. E, pois, que ainda na tua vida ha um lampejo de esperança, e na
tua alma um vinculo de affecto que te prende a alguem, eu venho dizer-te
que chegou a hora de partirmos. Jurei que não pertencerias a outro, que
não amarias outro, que nenhum homem ouviria de teus labios juras eguaes
áquellas que de teus labios fementidos ouvi. Eis-me, pois, aqui, prompto
a cumprir o meu juramento. Queres obedecer a elle voluntariamente, ou
preferes o escandalo ruidoso, que nada remedeia e que te acompanhará
alem da morte? Vamos! fomos companheiros no crime; é bem que o sejamos
na expiação. Se tiveste coragem para matar, tel-a-has agora tambem para
morrer.
--Mate-me! mate-me!--soluçou Helena, pondo as mãos.
Então o padre Hilario tirou do interior do casaco uma pequena caixa, que
abriu. Depois, tomando entre os dedos uma pastilha, disse:
--Eis aqui um veneno activissimo que dentro em duas horas terá cumprido
o seu dever, matando-te suavemente, sem uma agonia prolongada. Até este
beneficio me deves, porque não quero que a morte te seja dolorosa.
Vamos! aqui tens a morte.
E offereceu-lhe a pastilha. Helena, sem a mais leve hesitação, acceitou
o veneno das mãos do seu cumplice e tomou-o com assombrosa serenidade.
--Pago-te assim a minha divida--disse ella--Estamos quites. Se para me
ajudares a vingar do monstro que me perdeu tivesses exigido a minha vida
em troca, ter-t'a-hia sacrificado. Pediste, porém, o meu amor... e esse
eu não podia conceder-t'o... Mas era-me preciso vingar-me. Perdoa-me!
--Mas se eu te amo ainda!--exclamou o padre Hilario debruçando-se no
leito e beijando-lhe freneticamente as faces e os olhos!--Amo-te e morro
feliz, sabendo que me precedes algumas horas na romagem mysteriosa do
tumulo!
Depois, com voz tremula em que havia toda a expressão de um infinito
amor:
--Irei comtigo, descança! Se não pude fazer que me pertencesses n'esta
vida, buscarei na outra ser teu companheiro de tormentos e penas
eternas! Lá nos havemos de encontrar.
Beijou-a ainda com louco frenesi e sahiu do quarto da enferma, sem
deixar transparecer na face impassivel a commoção que lhe agitava a
alma.
Duas horas depois, Helena de Noronha, tendo-se despedido de todas as
pessoas que lhe rodeavam o leito, morria tranquillamente, docemente,
como se a morte a fizesse cahir n'um somno doce e reparador.
Este inesperado desenlace surprehendeu a todos; mas ninguem ousou
suspeitar-lhe a verdadeira causa.
Julio de Montarroyo, cahindo n'um mutismo aterrador, velou-lhe o cadaver
e acompanhou-o á sepultura, frio e impassivel, como se fora um cadaver
tambem. Nem aos olhos lhe assomou uma lagrima nem de seus labios sahiu
um gemido, ao vêr desapparecer para sempre no pó da sepultura a face da
mulher que tanto amara!
Conclusão
Um mez depois d'estes acontecimentos, madre Paula e padre Filippe,
regressando de uma mysteriosa visita ao convento da Covilhã, mandaram
chamar Paulo de Noronha.
--Meu filho--disse-lhe o padre Filippe, apresentando-lhe um cofre de
ferro quadrado--eu e madre Paula temos até hoje sido depositarios de uma
fortuna que te pertence e que fomos encarregados de te entregar logo que
hajas attingido a maioridade e possas por lei dispôr do que é teu. Estão
n'este cofre oitocentos contos que te pertencem. Como deliberaste unir o
teu destino ao de uma menina que desejas fazer tua mulher, julgamos do
nosso dever informar-te d'esta circumstancia, afim de que possas regular
com o pae da tua futura esposa as condições do teu enlace.
Paulo, attonito e mal podendo crêr no que ouvia, encarava ora o padre
Filippe, ora madre Paula, sem poder articular uma palavra.
--Oitocentos contos!--balbuciou por fim.--E d'onde vem tanto dinheiro?
--De teus paes--respondeu madre Paula.
--Meus paes! E quem eram elles?--perguntou o mancebo, na esperança de
que, emfim, o segredo do seu nascimento lhe iria ser revelado.
--Nunca o saberás. Essa fortuna que elles te legaram não traz nome.
Designa-lhe tu, meu filho, um bom destino e uma applicação nobre e
justa.
Quando o mancebo retirou, louco de alegria a communicar a boa nova a
Beatriz, padre Filippe, voltando-se para madre Paula, exclamou:
--Como Deus é misericordioso e é justo! Esta fortuna, accumulada á custa
de crimes nas mãos do padre Anselmo, vae agora, nas mãos d'este rapaz
que é seu filho, ter um destino bem mais nobre e mais digno.
--Que o altruismo do filho possa ao menos redimir as torpezas e os
crimes do pae!--replicou madre Paula.
No dia em que Paulo de Noronha se unia a Beatriz, a contento do sr.
Custodio de Jesus, seu pretenso progenitor, recebeu madre Paula a
noticia de que Julio de Montarroyo se havia suicidado sobre a sepultura
da _Irmã Dorothea_, legando uma parte dos seus haveres ao _mestre Tomba_
e a parte restante a D. Aurelia para obras de caridade.
E como os acontecimentos notaveis nunca veem isolados, o procurador
Belchior leu tambem n'esse dia, nas gazetas, a noticia de que Leonor,
que tanto se salientára no tragico suicidio de Eugenio de Mello, partira
para Lisboa em companhia de João Lazaro.
Do homem dos oculos verdes, o Mestre fundador da _Mão Negra_, nunca mais
Jorge, o amigo de Paulo, ouviu fallar, substituindo-o porisso na
direcção da famosa sociedade secreta, que é hoje a mais florescente e
poderosa de todas as suas irmãs.
FIM
INDICE
PAG.
I--Os irmãos da mão negra 5
II--Amor e esperança 23
III--Pae e filha 43
IV--Dois patifes 69
V--Madre Paula 78
VI--Á hora da morte 87
VII--Tres miseraveis 103
VIII--Entre irmãos 124
IX--Amores faceis 135
X--Para os grandes males 153
XI--João Lazaro 168
XII--Velhos conhecimentos 181
XIII--Denuncia 211
XIV--Miseravel! 239
XV--Conluio infame 255
XVI--O rapto 262
XVII--Quem semeia ventos 280
XVIII--Revelação 289
XIX--Um velho amigo 304
XX--Alma negra 317
XXI--Tal vida, tal fim 333
XXII--Mysterio 346
XXIII--Allucinação 357
XXIV--Extranho encontro 369
XXV--Pobre Helena 389
XXVI--Um amigo dos diabos 399
XXVII--Duas amigas 411
XXVIII--Coração morto 427
XXIX--Confidencias 436
XXX--Mãe 442
XXXI--O homem dos oculos verdes 452
Conclusão 461
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+----------+---------------------+----------------------+
| | Original | Correcção |
+----------+---------------------+----------------------+
|#pág. 8| ter fôr | te for |
|#pág. 17| a aquella | aquella |
|#pág. 18| danda-nos | dando-nos |
|#pág. 23| algum temdo | algum tempo |
|#pág. 24| pancado | pancada |
|#pág. 25| com | como |
|#pág. 35| Na primeiro | No primeiro |
|#pág. 43| pupilllo | pupillo |
|#pág. 70| mefica | me fica |
|#pág. 98| ella | elle |
|#pág. 99| pabre | padre |
|#pág. 109| palava | palavra |
|#pág. 111| famila | familia |
|#pág. 112| devo ou | devo eu |
|#pág. 127| circumstancios | circumstancias |
|#pág. 140| continou | continuou |
|#pág. 162| aprsentou | apresentou |
|#pág. 164| auctoridado | auctoridade |
|#pág. 169| importaacia | importancia |
|#pág. 190| as as minhas | as minhas |
|#pág. 194| muduram | mudaram |
|#pág. 201| tembem | tambem |
|#pág. 202| risonha | risonhas |
|#pág. 223| dinheiro | o dinheiro |
|#pág. 226| trasnporte | transporte |
|#pág. 235| respendeu | respondeu |
|#pág. 258| dm | em |
|#pág. 260| mutio | muito |
|#pág. 263| prepada | preparada |
|#pág. 263| seguiramos | seguiram os |
|#pág. 267| pergunou | perguntou |
|#pág. 271| as sentidos | os sentidos |
|#pág. 288| ciosa | coisa |
|#pág. 310| o gente | a gente |
|#pág. 311| semelhanle | semelhante |
|#pág. 311| qne | que |
|#pág. 315| esssas | essas |
|#pág. 317| a molestias | as molestias |
|#pág. 333| pelo colera | pela colera |
|#pág. 344| Lenor | Leonor |
|#pág. 350| desconhcida | desconhecida |
|#pág. 357| horrrivel | horrivel |
|#pág. 357| algnma | alguma |
|#pág. 365| pssou | passou |
|#pág. 366| ssforços | esforços |
|#pág. 430| Juliod e | Julio de |
|#pág. 442| fiho | filho |
|#pág. 450| setas | estas |
|#pág. 450| o reprimendas | e reprimendas |
+----------+---------------------+----------------------+
Ao longo do texto original encontramos "..", num espaço onde caberiam
reticências ("..."): assumi tratar-se de um erro tipográfico,
substituindo os dois pontos horizontais por três.
Noberto e Norberto são variações constantes da mesma palavra, a manter
de acordo com o original. O mesmo acontece para as palavras Laura e
Leonor, que se identificam como sendo a mesma personagem.
Os números dos capítulos foram alterados a partir do capítulo XIII (no
original capítulo XIV da página 211), uma vez que houve um erro
confirmado com a ordem correcta do índice.
Foram acrescentadas aspas de fecho quando estas não existiam e onde
faziam falta, por terem sido iniciadas e não terminadas.
Foram acrescentados travessões quando se mostraram necessários e
vice-versa.