e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse
rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo
tencionas demorar-te aqui, minha amiga?
--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...
Helena teve um sorriso estranho.
--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra
significação não escapou a madre Paula.
A freira atalhou:
--É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que,
conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos
prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no
isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo
de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua
existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de
teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte,
justamente porque a vida te offereceria encantos.
--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de
primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que,
sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta,
minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas
illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha
mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e
socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola
da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma
ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de
que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de
minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de
miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do
corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo,
conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o
infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel
de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me
abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo
bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no
teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos
teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...
--Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu
sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de
aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi
nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava...
Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei
pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta
eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração
deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que
tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não
amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para
aquelle que te perdeu...
--Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a
mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse
já indigna da estima de um homem de bem.
--Fallas de Julio de Montarroyo?
--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e
fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!
--Tornaste alguma vez a ter noticias suas?
--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo
e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente
insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de
Noronha nem _irmã Dorothea_ deviam existir jámais... Portanto, a minha
nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras...
Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu,
minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha
de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...
Calou-se offegante e exhausta.
--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter
trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a
trouxe...
--Uma grande riqueza, dizes?
--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma
noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa
alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no
cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu
correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar
para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa
justiça--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao
_in-pace_... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de
rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito
tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive
a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E
essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o
amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho
parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas
que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas
porque o seu thesouro ninguem o descobriria...
Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de
Helena...
--Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos
momentos...--disse ella.
--Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou
bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o
olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais
sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli...
manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o
producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o
inferno confunda!
--E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do
pae?
--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado
pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não
fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida...
Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas
horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca
mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso...
Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve
ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de
lá...
--E viverá ainda?
--Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o
remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura,
mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas
tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes
pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.
--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez
mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e
fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.
Disse e saiu deixando a doente em repouso.
XXVIII
Coração morto
Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia,
consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.
O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia,
foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.
Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.
O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a
amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam
gozar na plenitude da ventura que sonharam.
No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles.
Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e
andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara
exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no
convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de
incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas
companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os
olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do
louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na
sua retina de allucinada.
E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos
dezoito annos decorridos.
Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha
destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles
rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia
crudelissima.
Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se
encararam, quasi sem se reconhecerem.
Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda
que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a
reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.
--Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?
--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que não esperava tornar a
vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria
dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa...
Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está
presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é
assim?
Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e,
levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:
--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua
imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração
unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a
encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que
lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua
procura.
--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos
olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal
que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia,
Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais
amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me
e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro
gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu
pobre coração de mulher...
--Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a
chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu
pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!
--Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em
semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam
ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora
em rosto a minha recusa!
--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em
dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...
--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o
luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.
Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos
labios respeitosamente exclamando:
--Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos
tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para
a felicidade...
--Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e
misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse
viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta
confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo...
amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á
beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a
sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...
--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu
pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem
as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas
em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por
Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e
da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha
desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!
--Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em
Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar--Não
tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em
Paris.
--Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e
convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse
noticias suas?
--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida.
--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura
a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não
foi realmente para Paris?
--Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me
perdeu!
--A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como
verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!
--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!
--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações,
aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa
fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas
religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia,
á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce
as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da
sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a
encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto
a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava
presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante
pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem
resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não
podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos
cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de
seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a
minha unica aspiração n'este mundo.
Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes
de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.
--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz
Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu
pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de
affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de
mais ventura! .......................................................
.......................................................
Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que
mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a
narrativa de Julio.
Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por
aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da
loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio
arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:
--Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em
expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me
concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!
E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:
--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que não esta em
que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá
nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque
Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria
monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um
martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento
absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não
póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho
de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que
eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê,
recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga,
comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu
crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um
ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu
assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca
de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de
outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na
condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e
resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de
uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e
os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha
duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!
Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo
violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.
Julio de Montarroyo tentou socegal-a.
--Minha amiga--disse-lhe elle--é bem certo que muito temos ainda que
esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu
lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não
desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que
virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão
tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que
Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na
ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na
companhia d'aquelles a quem mais queremos?
Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a
estas palavras.
Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma
um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.
--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha,
quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a
encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua
casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de
ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só
que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu
sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no
mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois
no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...
--O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu
amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo
abatimento--Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar
no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...
--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo
pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a
vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.
--Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a
nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a
confiou?
--Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo
que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me
condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que
me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!
--Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui,
deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o
calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a
vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...
Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e,
extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas
lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.
XXIX
Confidencias
Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós
ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já
uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre
Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de
Paulo dava o tractamento de _Mestre_.
O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca
de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece
ser o seu discipulo querido.
--E então--pergunta elle--como vão os negocios do nosso novel irmão?
--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de
Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do
desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro,
persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella
recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha,
inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento
que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.
--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a
suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.
--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a
sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu
indicio compromettedor.
--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?
--Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico
bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças
que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente
preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar
este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria
jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.
--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada
com a eliminação d'aquella existencia...
--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo,
partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre
Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a
pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.
--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos
occulos, frazindo o sobr'olho.
--Partiu.
--É singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula
n'esse logar?
--Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que
tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos
annos, e que se encontrava perigosamente enferma...
O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma
explicação para este facto.
--É extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--é
extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe
fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva
importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...
--Tambem me quiz parecer isso.
--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho
chamamento ha de saber-se...
--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...
--Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de
si madre Paula.
--É coisa facil. A _Mão Negra_ está de tal modo ramificada, que em toda
a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre
bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber
com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a
prodigiosa importancia que conquistou.
O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os
olhos no seu interlocutor e disse: