--Pois bem--disse ella passados instantes--deixa-me recobrar alentos...

e sobretudo deixa-me familiarisar com a ideia de que hei-de vêr n'esse

rapaz sómente o meu filho e não o filho do padre Anselmo. Que tempo

tencionas demorar-te aqui, minha amiga?

--Todo o que tu julgares preciso para a tua convalescença...

Helena teve um sorriso estranho.

--Pois sim... Convalescerei breve...--disse n'um tom cuja sinistra

significação não escapou a madre Paula.

A freira atalhou:

--É porisso que eu queria que visses teu filho, Helena. Talvez que,

conhecendo-o, sentisses acordarem em ti todos os ternos affectos que nos

prendem á vida. O mundo, hoje, para ti é um deserto. Morres no

isolamento e no abandono do coração... Nada ha que te estimule o desejo

de viver, e consideras a morte como um beneficio. Mas se tivesses a tua

existencia ligada a outra existencia, se te sentisses viver na vida de

teu filho, então, minha querida amiga, terias triumphado da morte,

justamente porque a vida te offereceria encantos.

--Ah! minha pobre Paula! comprehendes acaso que um risonho dia de

primavera possa reverdecer a arvore a que destruiram as raizes e que,

sêcca, perdeu a seiva e se despiu da folhagem? Eu sou uma arvore morta,

minha amiga! Perdida a seiva da juventude, desfolhadas as minhas

illusões e as minhas esperanças pelo rijo vendaval da desgraça, não ha

mais para mim no mundo possibilidade de existencia tranquilla e

socegada. Oh! agora só peço o esquecimento e a morte como suprema esmola

da Providencia. Perdida a innocencia e as santas crenças da minha alma

ingenua, vivi para a vingança. Realisada esta como um justo castigo de

que fui providencial instrumento, restava-me viver para a expiação de

minhas culpas... Expiei-as em 16 annos de servidão, de humilhações e de

miserias de toda a ordem. Soffri o frio, a fome, as dôres da alma e do

corpo, com a resignação do condemnado que caminha para o patibulo,

conscio da sua libertação pela morte. Remorsos de haver suppliciado o

infame que me perdeu, nunca eu os tive nem podia ter. Mas a dôr horrivel

de haver causado a morte a meu pae e a meu primo... Oh! essa nunca me

abandonou, e tanto bastava para que eu anceasse morrer, como o supremo

bem a que podia aspirar... Chamei-te porque precisava rehabilitar-me no

teu conceito... precisava que, ao lembrares-te de mim, não assomasse aos

teus labios um sorriso de desprezo e me julgasses egual ás outras...

--Helena, minha amiga, minha irmã... não sejas injusta para commigo! Eu

sabia que a tua grande alma era capaz de amar como era capaz de

aborrecer... A vingança que tiraste do padre Anselmo foi justa e foi

nobre. Libertaste a humanidade de um facinora que a envergonhava...

Dou-te por isso sinceros louvores. Mais fraca do que tu, eu não ousei

pensar sequer em tirar igual desforço d'aquelle que me condemnou a esta

eterna servidão em que vivo... E não pensei, porque o meu coração

deixou-se illaquear nas redes de um affecto vivissimo qual é o que

tributo ao padre Filippe, tu bem o sabes. Tu mais infeliz do que eu, não

amaste... Porisso, o fel do teu odio se converteu em veneno mortal para

aquelle que te perdeu...

--Não amei, dizes? Amei, sim... amei um homem que teria feito de mim a

mais venturosa das mulheres se, na hora em que o encontrei, eu não fosse

já indigna da estima de um homem de bem.

--Fallas de Julio de Montarroyo?

--Fallo, sim, Paula! Amei-o com todas as véras da minh'alma. Amei-o e

fugi-lhe para não soffrer a horrivel dôr de me ver depresada por elle!

--Tornaste alguma vez a ter noticias suas?

--Nunca mais. Recuperada a minha liberdade com a morte do padre Anselmo

e separada do meu cumplice, cuja presença me seria horrorosamente

insupportavel, considerei-me morta pela segunda vez. Nem Helena de

Noronha nem _irmã Dorothea_ deviam existir jámais... Portanto, a minha

nova existencia passou a ser outra bem differente das duas primeiras...

Na misera e obscura condição social a que desci, ninguem, nem mesmo tu,

minha amiga, terias adivinhado sequer, quanto mais reconhecido, a filha

de Norberto de Noronha ou a superiora da casa conventual da Covilhã...

Calou-se offegante e exhausta.

--Comtudo...--proseguiu passados instantes--comtudo eu poderia ter

trazido do subterraneo da Covilhã uma grande riqueza... e não a

trouxe...

--Uma grande riqueza, dizes?

--Sim... O padre Anselmo appareceu-me inesperadamente no convento uma

noite, exigindo que a sua chegada não fosse conhecida de pessoa

alguma... Elle disse-me que tinha de descer ao subterraneo, no

cumprimento sagrado de uma promessa que fizera para que eu

correspondesse dignamente aos pezados e espinhosos encargos do logar

para que me nomeara. E realmente, na noite seguinte--a noite da rigorosa

justiça--elle, persuadido de que ninguem o observava desceu ao

_in-pace_... Mas lá, com a porta fechada á chave por dentro em vez de

rezar aos pés da cruz, como promettera, cavou na terra por muito

tempo... Ouvimos-lhe cá fóra o bater da enxada no solo recalcado... Tive

a suspeita de que alguma coisa importante elle ia esconder alli... E

essa suspeita converteu-se em certeza, quando do alto da cruz a que o

amarraramos, vociferando maldições e insultos sobre mim e sobre o filho

parricida, declarou n'um accesso de furor que possuia riquezas immensas

que tencionava legar ao filho maldito, mas que lhe permaneceriam vedadas

porque o seu thesouro ninguem o descobriria...

Madre Paula ouvia com singular attenção esta parte da narrativa de

Helena...

--Talvez isso não passasse de uma allucinação dos ultimos

momentos...--disse ella.

--Não... O padre Anselmo tinha ido alli enterrar o seu thesouro, estou

bem certa d'isso... Ao expirar, olhou para o lado direito da cruz e o

olhar baço, de moribundo, perdeu-se-lhe no canto mais escuro e mais

sombrio do subterraneo... Se algum dia lá fôres... manda cavar alli...

manda revolver toda aquella terra e encontrarás, estou bem certa, o

producto de tantos crimes accumulados d'aquelle sicario maldito que o

inferno confunda!

--E o padre Hilario não manifestou desejo de se apoderar do thesouro do

pae?

--O padre Hilario, esse comprehendes bem... n'aquelle momento, obcecado

pelo amor e pelo ciume, não via nem comprehendia outra coisa que não

fosse a posse da mulher por quem enlouquecera e se tornára parricida...

Deixou o convento no mesmo dia em que eu o deixei, precedendo-me algumas

horas na partida, convencido de que eu iria reunir-me a elle... E nunca

mais... oh, nunca mais voltou á Covilhã, estou bem certa d'isso...

Depois de se vêr ludibriado por mim, a recordação do seu crime deve

ter-se-lhe tornado bem negra! O proprio remorso o deve ter afugentado de

lá...

--E viverá ainda?

--Não sei... Se o remorso matasse, elle deveria ter morrido. Mas o

remorso é um veneno que vae minando lentamente a existencia. Tortura,

mas não fulmina, as suas victimas. Elle matou o pae, é bem certo. Mas

tambem eu matei o meu e não morri... Não morri, quando tantas vezes

pedia a morte a Deus! Deve portanto viver.

--Socega, minha amiga...--observou-lhe madre Paula, vendo-a de cada vez

mais agitada.--Tens fallado muito... e, no estado de abatimento e

fraqueza em que te encontras, é isso uma imprudencia grave.

Disse e saiu deixando a doente em repouso.

XXVIII

Coração morto

Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia,

consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.

O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia,

foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.

Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.

O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a

amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam

gozar na plenitude da ventura que sonharam.

No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles.

Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e

andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre _Tomba_ encontrara

exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no

convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de

incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas

companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os

olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do

louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na

sua retina de allucinada.

E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos

dezoito annos decorridos.

Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha

destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles

rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia

crudelissima.

Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se

encararam, quasi sem se reconhecerem.

Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda

que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a

reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.

--Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?

--Diga antes, meu amigo--volveu-lhe Helena--que não esperava tornar a

vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria

dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa...

Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está

presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é

assim?

Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e,

levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:

--Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua

imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração

unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a

encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que

lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua

procura.

--Pobre amigo!--murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos

olhos--Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal

que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia,

Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais

amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me

e creia--agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro

gelido da morte--creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu

pobre coração de mulher...

--Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a

chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu

pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!

--Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em

semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam

ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora

em rosto a minha recusa!

--Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em

dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...

--Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o

luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.

Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos

labios respeitosamente exclamando:

--Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos

tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para

a felicidade...

--Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e

misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse

viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta

confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo...

amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á

beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a

sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...

--Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu

pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem

as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas

em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por

Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e

da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha

desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!

--Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em

Paris?--balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar--Não

tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em

Paris.

--Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e

convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse

noticias suas?

--Nunca lhe escrevi tal carta!--bradou Helena surprehendida.

--Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura

a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não

foi realmente para Paris?

--Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me

perdeu!

--A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como

verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!

--Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!

--Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações,

aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa

fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas

religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia,

á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce

as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da

sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a

encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto

a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava

presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante

pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem

resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não

podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos

cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de

seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a

minha unica aspiração n'este mundo.

Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes

de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.

--Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo!--suspirou ella.--Quiz

Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu

pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de

affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de

mais ventura! .......................................................

.......................................................

Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que

mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a

narrativa de Julio.

Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por

aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da

loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio

arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:

--Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em

expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me

concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!

E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:

--Meu amigo--acrescentou--uma outra patria nos espera, que não esta em

que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá

nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque

Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria

monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um

martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento

absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não

póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho

de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que

eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê,

recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga,

comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu

crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um

ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu

assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca

de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de

outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na

condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e

resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de

uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e

os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha

duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!

Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo

violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.

Julio de Montarroyo tentou socegal-a.

--Minha amiga--disse-lhe elle--é bem certo que muito temos ainda que

esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu

lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não

desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que

virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão

tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que

Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na

ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na

companhia d'aquelles a quem mais queremos?

Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a

estas palavras.

Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma

um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.

--Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha,

quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a

encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua

casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de

ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só

que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu

sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no

mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois

no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...

--O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu

amigo...--balbuciou Helena, cahindo agora em profundo

abatimento--Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar

no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...

--Pois bem!--exclamou Julio n'um impeto de desespero--se de todo em todo

pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a

vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.

--Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a

nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a

confiou?

--Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo

que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me

condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que

me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!

--Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui,

deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o

calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a

vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...

Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e,

extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas

lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.

XXIX

Confidencias

Em quanto estas scenas se passam em S. Martinho do Campo, voltemos nós

ao Porto, entremos na mysteriosa casa de S. Bento da Victoria, onde já

uma vez introduzimos o leitor, e ouçamos o dialogo alli travado entre

Jorge de Gusmão e o singular e estranho personagem a quem o amigo de

Paulo dava o tractamento de _Mestre_.

O homem dos occulos verdes está, como da outra vez, sentado á sua banca

de trabalho, e falla com affectuoso semblante para aquelle que parece

ser o seu discipulo querido.

--E então--pergunta elle--como vão os negocios do nosso novel irmão?

--Mestre, quanto ao rapto de Beatriz, nada transpirou ainda. Eugenio de

Mello, apesar de morto, continua a carregar com as culpas do

desapparecimento da rapariga. A loura, industriada por João Lazaro,

persiste em affirmar que Eugenio se suicidou, porque, tendo ella

recusado emprestar-lhe dinheiro para fugir para Hespanha,

inesperadamente disparou um tiro na cabeça, declarando n'esse momento

que estava perdido e que só a morte lhe restava como ultimo recurso.

--De modo que a policia, sem provas e sem indicios que justifiquem a

suspeita de um crime, não terá remedio senão pôr a loura em liberdade.

--Creio bem que sim. Demais a mais, a bala foi diparada tanto a

sangue-frio e com tal habilidade, que, pela autopsia, não se descobriu

indicio compromettedor.

--E quem sabe se realmente se trata de um suicidio?

--Não creio, Mestre. Em primeiro logar, Eugenio de Mello era crynico

bastante para não pensar em matar-se, fossem quaes fossem as desgraças

que o acabrunhassem. Em segundo logar, João Lazaro é sufficientemente

preverso para induzir a loura, de quem deseja apoderar-se, a praticar

este assassinato por vingança. Tenho, pois, a certeza, quasi iria

jural-o, que Eugenio de Mello não se suicidou.

--O que de resto pouco deve importar-nos... A sociedade não perdeu nada

com a eliminação d'aquella existencia...

--Absolutamente nada. Pelo contrario, lucrou. Agora, quanto a Paulo,

partiu hoje para fóra do Porto, a juntar-se á sua mãe adoptiva, á madre

Paula, que o mandou chamar de S. Martinho de Campo, onde se encontra, a

pretexto de que precisa que elle lhe vá fazer companhia.

--Paulo partiu para S. Martinho de Campo?--perguntou o homem dos

occulos, frazindo o sobr'olho.

--Partiu.

--É singular!--disse elle--E que genero de negocio retem madre Paula

n'esse logar?

--Não sei. Em uma das suas primeiras cartas, madre Paula explicava que

tinha sido chamada alli por uma amiga intima, que já não via ha muitos

annos, e que se encontrava perigosamente enferma...

O _Mestre_ ficou silencioso por algum tempo, como que buscando uma

explicação para este facto.

--É extraordinario!--disse elle por fim, quasi fallando comsigo mesmo--é

extraordinario que madre Paula mande chamar o seu protegido para lhe

fazer companhia, quando sabe que a sua ausencia de junto da noiva

importa para o pobre moço um verdadeiro sacrificio...

--Tambem me quiz parecer isso.

--Bem!--concluiu o Mestre--o verdadeiro motivo d'esse estranho

chamamento ha de saber-se...

--Se o Mestre entende que devemos proceder a averiguações...

--Sim. Convem saber quem é e como se chama essa amiga que retem junto de

si madre Paula.

--É coisa facil. A _Mão Negra_ está de tal modo ramificada, que em toda

a parte encontramos irmãos a quem recorrer em casos extremos. O Mestre

bem o sabe, pois que a obra é sua e á grande energia e profundo saber

com que nos tem guiado deve a nossa Associação o rapido impulso e a

prodigiosa importancia que conquistou.

O homem dos oculos fixou por alguns instantes, atravez dos vidros, os

olhos no seu interlocutor e disse:

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 26 / 28 段