Paula que venha junto ao seu leito de agonia dizer-lhe o ultimo adeus...
--Ella diz que está doente?
--Diz que está a morrer...
O sapateiro bateu uma palmada na testa com expansão:
--Quer vossa _incellencia_ vêr que é ella!?--exclamou--Pois não é oitra
coisa. É ella! Oh! com um raio de diabos! E eu aqui a dois passos, e sem
o saber! Que grande cabeça de burro eu sou! Pois é ella, não ha que vêr!
--Ella quem?--interrogou anciosamente Julio.
--A doente que está em casa da sr.^a D. Aurelia! Ora... ora esta! E fui
eu que dei co'ella na estrada, como morta, sem dar por burro nem por
albarda...
E depois, n'um movimento de duvida:
--Mas olhe lá, ó sr. Julinho, a carta diz isso?
--Sem duvida, mestre, a carta é de Helena... Diz que está doente e pede
a madre Paula que venha vêl-a...
--Agora... agora! Por isso vossa reverendissima se pôz tão prompto para
me acompanhar... Cá me queria parecer!... E eu a cuidar que era eu que a
trazia ao engano!... Sou esperto, não tem duvida! Posso ir p'ró diabo
que me carregue e mais a minha esperteza!
--Mas venha cá, mestre _Tomba_... explique-nos que doente é essa de que
está fallando... Eu não sei nada!
--Pois se vossa _incellencia_ tem estado ás portas da morte, vae hoje,
vae amanhã, e todos me _deziam_ que não lhe dissesse nada nem lhe
_trouvesse_ novidades, que podia ser ás vezes dar-lhe uma coisa pela
cabeça e alimpal-o ainda mais depressa... como é que eu havia de lhe vir
contar o que era passado? Mas agora é que eu percebo a _tramoia_...
Antão lá vae!
O sapateiro contou como encontrára inanimada no caminho, quando
regressava, do Porto, uma pobre mulher desconhecida e andrajosa, que
fôra recolhida por caridade em casa de D. Aurelia onde ainda se
encontrava.
--E atão agora está tudo explicado.--concluiu--A snr.^a D. Aurelia foi
que me mandou ao Porto entregar essa carta aqui á snr.^a madre, mas sem
me dizer de quem era... Ora, se o sr. Julinho diz que a carta foi
escrevida pela snr.^a D. _Helenia_, _atão_ a coisa está bem clara: a
doente que lá está e que eu topei na estrada é ella!
Julio ouvira com extraordinaria commoção a narrativa do sapateiro.
--Ah! meu Deus!--exclamou--até que emfim a encontro!
E voltando-se para madre Paula:
--Minha senhora, pois que foi chamada por Helena, cumpre-me conduzil-a á
casa onde ella se encontra.
Minutos passados, madre Paula, padre Filippe e Julio de Montarroyo,
acompanhados por mestre _Tomba_, entravam em casa de D. Aurelia.
A irmã de Gustavo veio recebel-os ao salão d'entrada, e não ficou pouco
surprehendida quando Julio de Montarroyo lhe disse:
--Minha amiga, tenho a honra de lhe apresentar madre Paula, virtuosa
superiora da casa conventual das Sereias, no Porto, amiga intima de
Helena de Noronha, que, segundo creio, se hospeda na casa de v. ex.^a...
E indicando o padre Fillipe:
--E este cavalheiro é o sr. padre Filippe, respeitavel sacerdote que
teve a amavel complascencia de acompanhar esta senhora na visita á sua
amiga.
D. Aurelia cumprimentou os visitantes, relanceando um olhar de censura
ao _Tomba_ que, interdicto, coçava na orelha, como quem comprehendia que
tinha feito asneira.
--É verdade--disse por fim D. Aurelia--que tenho em minha casa Helena de
Noronha; e se d'isso não informei immediatamente, como desejava, o snr.
Julio de Montarroyo, foi devido a duas considerações imperiosas: a
primeira foi o facto de Helena, que recolheu doentissima e em perigo de
vida a minha casa, me haver supplicado que não divulgasse, fosse a quem
fosse, a sua estada aqui; e a segunda foi a circumstancia do snr. Julio
de Montarroyo se achar gravissimamente enfermo e haver especial
recommendação do seu medico para que lhe não dessem noticia que pudesse
causar-lhe qualquer abalo moral, porque isso poria em perigo a sua
existencia.
--Oh!--protestou Julio--pois se toda a minha doença era não ter noticias
de Helena!
--Helena, cuja vida continua ainda em perigo--proseguiu D.
Aurelia--pediu-me que fizesse entregar no Porto a madre Paula uma carta
que ella mesma escreveu e cujo contheudo eu ignoro...
--Essa, carta, minha senhora--disse madre Paula--eil-a aqui. Por ella
verá v. ex.^a que Helena reclama a minha presença...
E apresentou-lhe a carta que D. Aurelia recusou delicadamente com um
gesto.
--Por Deus, minha senhora! Eu não duvido um momento da sua palavra...
Simplesmente o que devo é prevenir v. ex.^a do melindroso estado de
saude da nossa pobre amiga... Qualquer abalo, qualquer commoção violenta
póde matal-a...
--Mas se Helena espera a visita de madre Paula--objectou Julio.
--Espera a visita de madre Paula, mas não espera a de v.
ex.^a...--retorquio D. Aurelia.--Era justamente essa surpreza que me
parecia bem poupar-lhe por emquanto...
--Decerto!--atalhou madre Paula.--Nem eu creio que o snr. Julio de
Montarroyo, que é tão dedicado a Helena, pense em lhe aggravar a
enfermidade apresentando-se-lhe, sem ella estar preparada para isso...
Julio de Montarroyo exclamou n'um accesso de exaltação febril:
--A minha vida pela d'ella! Digam-me que é preciso fazer saltar os
miolos para salvar Helena e eu não hesitarei um instante!
--Socegue, socegue, meu amigo, que não será preciso recorrer a esse
extremo, para termos a nossa querida doente restabelecida dentro em
pouco. Aqui o que é preciso é evitar-lhe qualquer sobresalto ou commoção
que possa aggravar-lhe a doença... V. ex.^a não imagina o estado em que
a pobresinha se encontra. Eu mesma, quando aqui m'a apresentaram, não a
reconheci... Foi ella que só passados dias se deu a conhecer, porque se
tal não fizesse, ainda agora eu estaria na ignorancia de quem ella
fosse.
--Pobre Helena!--exclamou madre Paula.
--Parece-me, pois, tornou D. Aurelia--que seria bom dispôr a nossa
doente para receber a visita da sua amiga. Emquanto ella a espera,
convem prevenil-a com cuidado...
--Sim... sim!...--concordou madre Paula.
D. Aurelia voltou-se para Julio e com um sorriso amavel:
--Tenha paciencia, meu amigo... Já não é pequena felicidade para o seu
coração o saber que Helena vive, está aqui entre nós e que, dentro
d'alguns dias, poderá vêl-a e fallar-lhe. O que é preciso é que v. ex.^a
mesmo tenha cuidado com a sua saude e trate de se restabelecer, livre de
apprehensões e de tristezas que já não têm razão de ser.
E a um gesto de assentimento de Julio de Montarroyo, que se inclinou em
silencio, proseguiu:
--Deem-me licença que eu vá junto da minha amiga, tratar de a predispôr
para receber sem grande surpreza a virtuosa madre Paula. Escuso
dizer-lhes que os considero meus hospedes n'esta casa e que vou tambem
dar as ordens precisas para serem convenientemente installados.
Fez uma ligeira mesura e sahiu.
D'ahi a instantes, a criada de quarto de D. Aurelia entrava na sala a
indicar aos hospedes que os seus aposentos estavam preparados.
XXVII
Duas amigas
No dia seguinte, muito cêdo ainda, Helena de Noronha que passára a noite
socegada, accordou inquieta e perguntou á creada se já tinha chegado uma
senhora que devia vir do Porto.
--Não sei, minha senhora--respondeu a creada que estava já
prevenida--mas eu hei-de dizer que senti ha pouco parar um trem ao
portão...
--Oh! vá saber sem demora--pediu Helena--e se fôr a pessoa que eu
espero, diga a sua ama que lhe peço para a fazer entrar aqui o mais
depressa possivel...
A creada subiu a cumprir a ordem recebida. Pouco depois entrava a dona
da casa.
--Veio?--perguntou-lhe Helena.
--Dá-me alviçaras, minha amiga--disse D. Aurelia alegremente--porque,
contra a tua espectativa, madre Paula está n'esta tua casa!
Helena levantou-se a meio no leito.
--Por Deus, minha filha, diz-lhe que entre... que entre já!
Madre Paula, que ficára occulta com o reposteiro, penetrou de um salto
no aposento, dizendo:
--Não é preciso, minha querida Helena, não é preciso, porque a tua amiga
está aqui!
--Paula!--exclamou Helena, estendendo para ella os braços, n'um alvoroço
de indizivel contentamento.
Estiveram assim as duas amigas por muito tempo abraçadas, n'um silencio
apenas cortado pelos soluços que se escapavam do peito de ambas.
D. Aurelia assistia commovida a esta scena de uma terrivel eloquencia na
mudez d'aquellas lagrimas que ambas vertiam ao abraçarem-se.
Por fim, foi Helena quem rompeu o silencio, exclamando:
--Vieste ver-me, minha amiga... Bem hajas pela caridade com que
attendeste o meu pedido!
--Minha pobre Helena!--respondeu madre Paula--quantas vezes me tens
lembrado nos longos dezesseis annos da tua ausencia! Procurei por mil
modos saber noticias tuas... Tudo inutil!... Ninguem me dava relação de
ti, ninguem te conhecia, ninguem sabia para onde tinhas partido...
--Fiz uma viagem muito longa, minha amiga... tão longa que só devia
terminar no começo desta outra viagem mais longa ainda, que vou
emprehender...
--O que! pois não ficas ainda aqui? Tencionas partir outra
vez?--perguntou madre Paula admirada.
--Sim... vou partir e d'esta vez para nunca mais voltar... Vou
emprehender a eterna viagem do sepulchro... Por isso te pedi que
viesses...
--Morrer!--exclamou a abbadessa--que extranha fraqueza é essa? A vida
chama-te ainda, minha querida... Tu és nova, és forte, és ainda uma
mulher valida, tens um espirito são, uma alma extraordinariamente
bella... Chama a ti todas as energias, reage contra os soffrimentos,
oppõe ás violencias da dôr que te avassala, a força suprema da tua
vontade e triumpha do abatimento physico pela energia moral.
Helena tornou a sorrir o sorriso triste dos que não se illudem na
approximação do seu fim.
--Tu é que estás ainda a mesma, minha querida!--disse ella.--Não parece
que passaram por ti dezesseis annos desde que nos separámos...
--Os meus cabellos branquearam um pouco, porque ninguem resiste
impunemente á acção do tempo--replicou madre Paula--mas, comquanto um
pouco mais velha que tu, não penso ainda na morte...
D. Aurelia, sentindo-se de mais n'aquelle colloquio entre as duas
amigas, que certamente tinham mais importantes assumptos a tratar,
interveio pedindo que a dispensassem por um instante, pois tinha que
ordenar serviços domesticos da maior urgencia.
--Espera!--replicou Helena--deixa-me primeiro dizer á minha Paula quem
tu és...
--Não é preciso--accudiu D. Aurelia com meiguice--já nos conhecemos
desde hontem á noite...
--Sim--confirmou madre Paula--já devo a esta senhora a mais amavel e
gentil hospitalidade que ha muitos annos me foi dado receber fóra do meu
convento...
--Pois tu já cá estás desde hontem?--perguntou Helena admirada.
--Vim acompanhada pelo portador da tua carta e pelo reverendo padre
Filipe, de quem certamente ainda te recordas...
--Oh, decerto, decerto! E como são gratas as lembranças que conservo
d'esse honesto e digno sacerdote! Porque não veio elle ver-me tambem?
--Temos tempo, minha querida--disse madre Paula--Uma das principaes
virtudes christãs é a paciencia... E o padre Filippe, que é, como
acabaste de dizer, um honesto e digno sacerdote, exercita esta virtude
como poucos... Elle espera, e é dos que sabem esperar...
Logo que D. Aurelia sahiu, madre Paula encarou fito Helena de Noronha e
perguntou-lhe em voz sumida, n'um tom de mysterio:
--E o padre Anselmo?
--Matei-o!
--O que!--disse a religiosa empallidecendo--Mataste-o... quando?
--Ha desesseis annos, no dia em que deixei de ser superiora da casa
conventual da Covilhã...
--É extraordinario! E como pudeste...?
--O miseravel, de quem eu tinha jurado vingança, não soube, no meio de
toda a sua perversa astucia, desconfiar da apparente submissão da mulher
que tão infamemente havia ludibriado e escarnecido... Julgou-se
inteiramente senhor de mim e veio elle mesmo procurar a occultas o
castigo que a sua torpeza e maldade mereciam...
--E o outro... o filho d'elle... o padre Hilario?
--Foi meu cumplice. Elle mesmo ajudou a crucificar o pae no subterraneo
do convento. Oh! foi uma vingança terrivel, e esse dia, minha querida
Paula, foi o mais bello e o mais feliz de toda a minha vida, desde que
abandonei a casa de meu pae... de meu pobre pae que ingratamente
condemnei á morte!
Os olhos de Helena de Noronha coruscavam ainda de furor satanico, ao
recordar aquelle lance supremo em que havia dado morte horrivel ao
jesuita que a perdera.
Madre Paula, tomada de pavor, encarava Helena de Noronha, mal podendo
acreditar no que ouvia.
Fez-se um curto silencio em que os olhos das duas exprimiam um mundo de
pensamentos.
--Sim...--disse Helena de Noronha como respondendo á pergunta muda que
lhe dirigia a sua amiga--o padre Hilario foi, por assim dizer, o
executor da sentença de morte a que eu havia condemnado o pae... E era
preciso que assim succedesse para que a minha vingança fosse completa...
--Mas não sabia elle os laços de sangue que o prendiam a esse miseravel?
--Não o sabia; mas, ao expirar, o padre Anselmo patenteou-lhe toda a
verdade do alto da cruz onde agonisava, amarrado como o mau ladrão.
Disse-lh'o por entre maldições e injurias, e a voz do sangue não fallou
no meu cumplice. Assistiu impassivel á agonia do pae, que elle immolava
á minha vingança e sacrificava ao seu amor por mim... Oh! foi uma boa
hora aquella, minha amiga! E se eu alguma vez pude crêr em Deus, foi
justamente n'esse instante em que o maior dos criminosos expiava com a
maior das agonias todo o seu passado de negras infamias!
E contou então como o padre Anselmo, apparecendo-lhe mysteriosamente no
convento da Covilhã, desceu á cripta, no intuito, dizia elle, de orar
aos pés da cruz, onde devia ser crucificado... Relembrou com infernal
prazer todas as minucias d'essa scena horrivel; a maneira como,
acompanhada do padre Hilario, o seguiu ao subterraneo e como, quando
elle vinha sahindo, depois de ter feito ouvir por largo tempo o ruido
surdo de quem cavava, o proprio filho, com um vigoroso murro, o fez
cahir no meio do subterraneo, fechando-lhe a porta pelo lado de fóra...
Depois, os tres dias de agonia lenta, torturado pela fome e pela sêde,
todas as peripecias terriveis d'esse drama sombrio de vingança e de
sangue, que teve a sua acção no medonho _in-pace_ da Covilhã.
Madre Paula ouviu attonita toda esta narrativa, chegando por vezes a
suspeitar que Helena de Noronha, tomada de loucura, estivesse
phantasiando uma vingança que não realisára.
--E o padre Hilario?--perguntou por fim.
--Pobre rapaz! Nunca mais o tornei a vêr... O pensamento que nos uniu
foi o mesmo que devia separar-nos e... separou-nos.
--Accusou-te depois, lançando sobre ti as culpas do remorso que o
torturava?
--Oh, não! Eu poupei-lhe a desgraça do remorso, semeando-lhe no coração
o odio por mim...
A abbadessa, de cada vez comprehendendo menos o sentido das palavras de
Helena de Noronha, atreveu-se a inquirir:
--Trahiste o teu novo amante?...
--Meu amante! Nunca o foi. Trahi o cumplice, isso sim... Utilisei o
instrumento da minha vingança emquanto o necessitava e arremesseio-o
para longe de mim quando já me não era preciso... O padre Hilario
amava-me... dizia elle que me amava.. Porém, eu não poderia vêr nunca
n'esse homem senão o filho do padre Anselmo... Logo depois que a minha
vingança estava cumprida, tratei de me affastar d'elle...
--Como?
--Enganando-o como o pae me enganou a mim. Disse-lhe que para não
levantar suspeitas, era conveniente que ambos seguissemos por differente
caminho para o mesmo ponto onde deviamos encontrar-nos.
Esse ponto era uma terra do estrangeiro, onde passariamos por marido e
mulher, vivendo de algum dinheiro que eu tinha amealhado, emquanto não
pudessemos voltar ao paiz, depois de obtida a certeza de que o nosso
crime não havia sido descoberto. Elle tudo acreditou e, obcecado pela
paixão, não duvidou um momento de que eu fosse reunir-me a elle. Partiu
por um caminho, eu parti por outro, e até hoje nunca mais nos tornámos a
vêr...
--De modo que...
--De modo que o meu cumplice, ao reconhecer-se ludibriado, deve ter
sentido mudar-se lhe todo o amor que nutria por mim n'um odio profundo.
Madre Paula, profundamente impressionada com estas revelações, quasi não
atinava com palavras que dissesse.
Parecia-lhe impossivel que aquella mulher fraca e ingenua, que ella
recebera na casa das Sereias, pudesse vir a triumphar da maldade
perversa do padre Anselmo, da sua astucia e systemathica desconfiança de
tudo e de todos, tirando d'elle uma vingança atroz, que os mais
poderosos agentes da Companhia não ousariam sequer sonhar.
--O que me contas é por tal modo extraordinario, minha querida
Helena--disse ella, passados instantes--que me deixa muda de assombro!
Se o não ouvisse de teus proprios labios, recusar-me-hia a
acredital-o...
--Oh! minha boa Paula!--replicou Helena, ainda tremendo de ira--pois
acaso não teria eu razão para muito mais? Não foi aquelle maldito a
ruina, a miseria e a morte de toda a minha familia? Não abusou elle da
minha innocencia e ingenuidade de creança para me aviltar, roubar e
perder, fazendo de mim sua barregã e sua escrava? poderia eu perdoar ao
maldito que tão infamemente lançou a desgraça e a deshonra sobre mim e
sobre os meus?
--Tens razão. Mas não é a justiça da tua vingança que me surprehende...
--O que é que te surprehende, pois?
--Surprehende-me a habilidade e a coragem com que pudeste levar a cabo o
teu plano...
--Auxiliou-me o acaso, se não foi antes um designio da propria
Providencia que inspirou ao padre Anselmo a ideia de mandar o filho para
junto de mim...
--Nunca mais ouvi fallar do padre Hilario... Naturalmente abandonou a
Companhia.
--Era essa a sua resolução inabalavel quando nos separámos... Eu não
sahi do paiz, como lhe prometti, e passei uma grande parte d'estes
dezeseis annos perdida e obscura pelas terras de provincia, exercendo
mysteres humildes, improprios da minha educação... Sujeitei-me a tudo,
minha querida... Fui creada de quarto, fui costureira, fui creada de
meninos, e confesso que me era menos amargo o pão em casa de meus amos
do que n'esse antro maldito onde, por tua commiseração, fui elevada á
dignidade de abbadessa! Abbadessa! que irrisoria e infame impostura,
minha amiga!...
--Helena--disse madre Paula--pareceu-te assim porque não amaste... Se
tivesses amado o padre Hilario como eu amei o padre Filippe...
--Oh! não! eu não podia amar a sotaina desde que a sotaina me havia
ludibriado e escarnecido. No meu coração só havia odio por essa infame
instituição que alberga no seu seio facinoras preversos da laia do padre
Anselmo e vive da exploração cruel das suas victimas.
--E não tens, já não digo remorso, mas ao menos pezar, de haveres
sacrificado ao teu odio e á tua vingança esse pobre rapaz que te amava e
que pelo teu amor se fez parricida?
--Era filho _d'elle_. E o meu odio implacavel vae de paes a filhos...
Elle proprio devia ser um monstro como seu pae..
--Todavia, minha querida... ha inda um filho do padre Anselmo que em
nada o parece... nem na figura, nem no coração. É nobre, é digno, é
honesto, é leal, é amoravel e trabalhador...
--Fallas de...?
--De teu filho, Helena de Noronha!
--Elle vive ainda?
--Vive e é um bello e gentil rapaz...
--Padre tambem?
--Não. É um academico distincto e espero que ha de ser um homem util a
si e aos seus semelhantes, honrando a sciencia e a humanidade. Eu e o
padre Filippe temol-o educado sob o influxo das doutrinas liberaes,
longe de nós e estranho aos funestos exemplos da falsa religião que nos
victimou.
--Não te conhece então?
--Conhece. E ama-me e respeita-me com um carinho e uma ternura que faz
honra aos nobres sentimentos da sua alma.
--Sabe esse rapaz quem foram seus paes?
--Ignora-o inteiramente, comquanto use o teu appellido, Helena de
Noronha.
--O que! pois tu...--ia a dizer Helena, levantando-se a meio no leito.
--Sim--atalhou madre Paula--quiz que se chamasse Paulo de Noronha, afim
de que sua mãe um dia pudesse reconhecel-o e amal-o.
--Oh! nunca... nunca!
--Helena!--tornou madre Paula com severo aspecto--o odio que se estende
ate aos proprios filhos das nossas entranhas é perversidade que repugna
á razão e de que nem as bestas feras, na crueza de seus instinctos,
jámais nos deram exemplo. Vê tu, minha amiga, que nem o padre Anselmo,
esse cynico perverso, de uma ferocidade de chacal, pôde resistir ao
amoravel sentimento que Deus poz no coração dos paes pelos filhos. E
quererás tu cerrar teu peito ao affecto mais nobre e mais santo que póde
caber no coração de uma mulher? Quererás morrer amaldiçoando teu filho
innocente e deixar que elle viva sentindo n'alma o gelo da indifferença
e do abandono de seus paes? Que triste herança lhe queres legar, minha
amiga! E comtudo, Paulo é digno de que o amem porque nas nobres
qualidades de seu caracter, na sua figura varonil e no porte altivo,
reflecte bem a figura e as nobres qualidades d'esse santo e desditoso
homem que foi teu pae.
--Meu pae!--gritou Helena de Noronha--Paulo parece-se com elle? Não tem
na physionomia os traços odiosos de monstro que lhe deu o ser?
--Queres vêl-o?--perguntou madre Paula.
--Não, não!--recusou Helena tomada de subito terror--Para que has de
pôr-me diante dos olhos, na hora extrema, um filho que eu não posso
amar, uma creatura que ha de ser-me sempre odiosa pela recordação dos
negros crimes que lhe andam ligados? Oh! deixa-me morrer, minha amiga,
no esquecimento d'um dever que eu não tenho forças para cumprir...
Calou-se offegante. E depois, como fallando comsigo mesma:
--E como poderia eu dizer a esse rapaz: «Sou tua mãe!» sem ter que lhe
confessar a minha miseria e a minha vergonha? Perguntar-me-ia o nome de
seu pae... e eu teria que me calar vexada diante de meu filho para lhe
não dizer: «Teu pae era o padre Anselmo, um monstro com figura humana...
Ladrão e assassino da mais infima especie... Um miseravel sacrilego que
tôrpemente entenebreceu a minha razão e abusou da religião de Christo
para nos condemnar, a mim e a ti, a uma deshonra eterna!» Oh! não...
não! prefiro morrer sem passar por mais esse doloroso transe, consolada
com a certeza de que elle ignorará o nome da desgraçada que foi sua mãe!
--Socega, minha querida!--tornou-lhe madre Paula suavemente--O que eu te
proponho não é bem isso que tu suppões...
--O que me propões então?
--Trazel-o até junto de ti para que o vejas e ouças e possas
certificar-te pelo testemunho dos teus proprios sentidos, de que esse
encantador rapaz, bem longe de reproduzir as feições repellentes do
padre Anselmo, é o vivo retrato do teu pae, de quem parece ter herdado
as santas virtudes e os nobres sentimentos. Em vez de ser para ti uma
tortura, a sua presença ser-te-hia um dôce allivio e uma grande
consolação. Crê, se eu fosse mãe de Paulo, sentir-me-hia orgulhosa e
feliz da minha maternidade.
--E não corarias, ao menos de pejo, ao teres de lhe confessar a serie de
monstruosas torpezas que deram origem ao seu nascimento, Paula?
--Não me apresentaria como sua mãe... exactamente como eu te proponho
que o faças... A felicidade seria toda tua em poderes vêl-o junto do teu
leito, sabendo que é teu filho e ignorando elle que sejas sua mãe...
--E a que titulo viria elle aqui, se a verdade não tivesse de lhe ser
dita? Não... não! De que serviria isso? Sou pobre... nada tenho que lhe
legar... Os bens que me pertenciam roubou-m'os o pae bem o sabes...
--Filha! é impossivel que no fundo do teu coração não esteja o
sentimento mais sublime que póde nascer em peito de mulher--o sentimento
do amor maternal. Tu, que eu conheci tão candida, tão amoravel e doce,
tu que tiveste affectos para mim e para a pequena Lucilia, terás um
coração insensivel á lembrança de teu pobre e innocente filho? Vamos!
não me recuses a consolação de vêr que testemunhaste, ao menos
secretamente e por alguns instantes, toda a grandeza da minha obra de
dedicação e ternura. Puzeste nos meus braços um pequeno sêr, debil e
fragil. Restituo-te um moço util, uma alma d'eleição.
Paulo, se eu o mandar chamar, virá immediatamente. Ama-me como filho e
não estranhará que eu deseje tel-o junto de mim por alguns dias...
Queres vêr o teu filho, ao menos por curiosidade? Admira o teu filho,
Helena de Noronha e alegra-te com a ideia de que as virtudes da tua raça
viverão n'elle com a mesma intensidade com que brilharam em teu pobre
pae.
Helena guardou silencio.