respeito de comer e beber... nem _burro queres tu auga_?! Eu támem não
precisava--accrescentou--e indas que ella me offerecesse, não era o
filho do meu pae que acceitava... Emquanto me lembrar a arriosca que me
armaram no Sardão, não cômo nada da mão dos frades e das freiras nem que
me matem... P'ra lição, bonda uma vez... Mas ó menos queria que ella
tivesse um migalho de cortezia commigo...
Julio ficou silencioso sem parecer ligar importancia aos queixumes do
sapateiro escandalizado.
--Precisava de ir ao Porto para lhe fallar. Mas estou tão fraco, tão
abatido, que não posso por emquanto fazer a viagem--murmurou.
--Mas o snr. Julinho queria ir ao Porto para fallar co'ella?
--Sim... unicamente para fallar com ella...
--Mas, o snr. Julinho, porque não lhe escreve uma carta, que eu
levo-lh'a?
--O que desejo dizer-lhe não é coisa que se escreva em carta...
--Deixe lá! O preto no branco falla como gente... Sendo uma carta bem
notada e com quatro cantigas que lhe eu cante, a mulher responde...
--Não, não... É preciso ir eu...
O _Tomba_ encolheu os hombros, n'um protesto mudo e disse por fim:
--O snr. Julinho lá fará como entender... Eu cá estou p'ró que fizer
_minga_. E se vê que é coisa que não se póde arranjar sem vossa
_incellencia_ lá ir, sabe o que lhe eu digo? Coma e beba, bote as
paixões p'ra traz das costas, que co'ellas ninguem medra, ponha-se rijo
e teso, que a freira faz o mesmo, e ella lá está á espera...
--Vá, vá, mestre _Tomba_--despediu Julio.--Deixe-se andar por ahi, que
póde ser-me preciso de um momento para o outro...
--Eu cá estou, sr. Julinho... Os amigos são p'rás _incasiões_...
E sahindo dos aposentos do doente:
--Este, se não trata de metter p'ró bucho alguma coisinha de sustancia,
está aqui, está prompto... E foi o ladrão do padre _Inxelmo_ que o pôz
assim!...
De repente bateu na testa, exclamando:
--Ai, a minha cabeça! E eu que não lhe dei novidades d'aquelle ladrão!
Voltou atraz, bateu á porta do quarto e perguntou:
--Dá licença, snr. Julinho?
--Entre, mestre _Tomba_--respondeu o enfermo, da cadeira em que se
achava sentado.
--Trazia no sentido p'ra lhe dizer que a respeito de padre _Inxelmo_, é
raça de patife de que ninguem me soube dar relações...
--Já sei... já sei que esse homem ha muito que não reside no
Porto--volveu Julio com um fundo suspiro.
--Pois eu ia com meu receio de o topar lá por aquellas casas de
_santidade_--disse o sapateiro, grifando a palavra com um sorriso--Que
eu, se o apanhasse na rua, era _home_ p'ra lhe rachar a corôa de meio a
meio, como quem racha cinco tostões falsos... Mas lá dentro da _seve de
pedreiro_ é que eu não queria topal-o... Ninguem me deu noticias d'elle.
--É natural--respondeu Julio.
O sapateiro retirou desconsolado pela pouca importancia que Julio dera á
descoberta.
--Parece que já não se importa muito com o padre...--resmungou--_Támem_,
n'aquelle estado, ainda que o visse e lhe quizesse chegar duas
_galhetas_, não podia...
Quando o medico soube que o _Tomba_ se demorára em conferencia com o
doente, exasperou-se e ameaçou de não voltar a receitar, se não fosse
obedecido.
É que notára no enfermo um novo accesso de febre.
Julio mostrou-se indifferente aos preceitos do doutor.
--Era um favor--dizia elle--deixar que a doença acabasse com isto!...
Passaram ainda uns dias, e o _Tomba_ faroleiro e mettidiço, não podendo
ser admittido á presença de Julio, vingava-se indo para casa de D.
Aurelia, a informar-se do estado da _probesinha_. Quando D. Aurelia o
incumbiu de levar ao Porto uma nova carta a madre Paula, o sapateiro não
pôde ter-se e, transgredindo os preceitos do medico, foi ter com Julio.
--O sr. Julinho quer alguma coisa para madre Paula?--perguntou.
--Porque? Vae fallar com ella?
--Não, senhor... É que eu vou ao Porto fazer umas mercas p'rá senhora D.
Aurelia, e se vossa _incellencia_ quizesse, eu, de caminho, levava
qualquer recado para Madre Paula.
Julio ficou pensativo.
--Não... não quero nada--disse por fim--Tenho immenso desejo de fallar
com ella; mas não posso pedir-lhe que venha do Porto aqui, ouvir-me.
Alem de indelicado, seria inutil o pedido, tanto mais que o que tenho a
dizer-lhe representa antes uma impertinencia da minha parte do que um
serviço a prestar-lhe...
E dizendo isto, Julio cruzou os braços e deixou descahir desalentado a
cabeça sobre o peito.
O sapateiro encarou-o com olhos compadecidos, e depois rompendo na sua
natural expansibilidade, exclamou:
--_Ameno_, sr. Julinho! O que não se faz em dia de Santa Luzia faz-se ao
oitro dia... O sr. Julinho inda ha-de ter pernas p'ro levarem aonde quer
ir... Mais velho sou eu, que já cá tenho _acaijo_ carro e meio d'annos,
e inda, sendo preciso, vou d'aqui ó cabo do mundo a pé...
E concluindo:
--E se fosse causo que eu fallasse co'a tal freira e a _arresolvesse_ a
vir por ahi arriba, assim como coisa minha?
--Como é que você havia de fazer isso, mestre _Tomba_?--interrompeu
Julio com um sorriso de quem achava disparatada a hypothese do
sapateiro.
--Como? Isso agora não sei eu... Mas se fosse eu que lhe pedisse como
coisa minha... sem lhe dizer quem é que lhe quer fallar... A mim, já se
sabe, que não me fica mal pedir uma coisa que não seja assim lá muito de
grande inducação... Eu sou p'rá aqui um _probe_ sapateiro, fazem á de
conta que eu não sei o que digo... e ás vezes pegam as bichas.
--Não, não, mestre _Tomba_, não pense n'isso, que é uma coisa que não
pode fazer-se...
--Está bô! Vossa _incellencia_ que o diz, lá sabe a _rezão_ porquê...
O _Tomba_ partiu para o Porto muito resolvido a envidar todos os
esforços para conseguir que madre Paula visitasse Julio de Montarroyo.
--Eu armo-lhe uma intrujice e ella cae logo--pensava elle.--Entrego-lhe
a carta da snr.^a D. Aurelia e logo vejo na cara os _himores_ de que
ella fica... Estas freiras são amigas de saber e de tirar nabos do
pucaro... e eu a paginas tantas ferro-lhe com a pêta de que a Lucilinha
está muito mal e que lhe manda pedir de bocca--porque não póde
escrever--se ella faz o favor e a esmola de a ir visitar, porque tem
umas coisas de muita importancia a dizer-lhe e não queria morrer sem a
vêr alli ó par d'ella... A freira vem, e eu, em vez de a levar p'ra
Villaverde, ferro com ella em S. Martinho do Campo... Depois digo que me
enganei no caminho e passe por lá muito bem...
E contente d'esta esperteza, o _Tomba_ achava impossivel que a sua
lembrança não produzisse resultado.
--Coitado do snr. Julinho, que está p'ra alli, que é mesmo uma dôr de
coração, morto por desabafar, e não vê meio de fallar c'oa madre Paula,
senão indo elle aonde a ella... Pois vamos a vêr se eu tenho labia p'rá
trazer cá... Ella inda está bem rija e fera, póde melhor andar do que
elle... Ora deixa que eu sempre quero vêr se uma coisa que se me mette
em cabeça hade ficar assim em _augas_ de bacalhau!
Chegado ao Porto, o _Tomba_ encaminhou-se á Bandeirinha, bateu á porta
da casa conventual das Sereias, e pediu para fallar a madre Paula.
A madre porteira informou-o de que a superiora estava no campo, a ares;
e que não era esperada ainda por aquelles dias...
Atravessou a cidade em direcção ao Carvalhido onde já fallára com a
madre Paula dias antes, e disse ao criado que veio abrir-lhe a porta:
--Faça favor de dizer áquella senhora com quem fallei oitro dia que está
aqui o homem de Villaverde com uma carta para ella.
O criado foi e voltou pouco depois.
Na mesma sala em que já fôra recebido uma vez, estava madre Paula. O
sapateiro reconheceu-a o cumprimentou-a festivo e humilde, com grande
profusão de zumbaias.
--Ora atão vossa reverendissima e incellentissima madre como passou?
Passou bem?
--Obrigada, passei bem--respondeu madre Paula com risonho semblante.
--Pois eu támem passei bem, muito aguardecido á senhora... A menina de
Villaverde manda muitas _bugitas_ á senhora madre e mais esta
cartinha...
E entregou-lhe a carta de que era portador. Madre Paula abriu-a e com
grande surpresa leu:
«_Minha querida Paula_:
«Lembras-te ainda d'aquella desgraçada _irmã Dorothêa_ que no seculo se
chamou Helena de Noronha? Se da tua memoria não se deliu ainda o nome da
tua pobre amiga e desejas receber d'ella o supremo adeus, vem depressa,
antes que a morte lhe gele nos labios as revelações que deseja fazer-te
e que só tu poderás receber.
Não te demores, minha querida! Sinto que a vida me foge, e, se não vens
immediatamente, receio bem que apenas possas abraçar o cadaver da
Tua
_Helena_.»
--Minha pobre Helena!--murmurou attonita madre Paula, fixando na carta
os olhos turvos de lagrimas.
E voltando-se para o sapateiro:
--Onde está ella?--perguntou.
--Quem? A menina de Villaverde? Está em S. Martinho de Campo, que é alli
adiante da Povoa de Lanhoso...--principiou o _Tomba_, pondo em prática o
seu plano de arrastar a religiosa á presença de Julio.--Ella deu-me essa
carta muito afflicta p'rá vir trazer á senhora madre, porque ella foi
p'ra lá tratar de uma _probe_ senhora que está lá a morrer... E
_díxe-me_ de bôcca: «Diga á madre Paula--e senhora na _presencia_--que
lhe mando pedir se ella me póde fazer o favor de cá vir fallar commigo,
que eu pago todas as despezas de _camboio_ e de carro p'ra cá e p'ra lá,
que é um negocio de muita circumstancia e de muito interesse p'rá santa
religião, o que lhe eu quero dizer... Agora a senhora madre lá verá...
Mas ella _dixe-me_ isto co'uma cara tão afflicta, que eu inté lhe
dixe:--_Esteje_ descançada, menina, não se _affleija_, que a snr.^a
madre Paula não tem _caratle_ de dezer que não a uma coisa d'essas...»
--Sim... sim, eu vou!--exclamou madre Paula sensibiliaada--A que horas
temos comboio?
--Temos agora ahi um da tarde, depois das quatro horas... Se a senhora
madre quizer, inda hoje chegamos lá, porque a gente vae d'aqui _dereito_
a Guimarães e de lá mette-se n'um carro, vamos pelas Taypas e quando
forem oito ou nove horas da noite, estamos lá...
--Pois bem; vocemecê demore-se. Eu vou mandar que lhe deem de comer e...
--Comer? Nada, minha senhora! Muito aguardecido, mas á minha bocca é que
não vae nada, seja pelo que fôr!--interrompeu o _Tomba_ horrorisado, ao
lembrar-se da cilada do Sardão.
--Porque? Vocemecê jantou?
--Não, minha senhora... eu cá não jantei nem janto... É costume que não
tenho... já estou desafeito...
--O que! está desafeito de comer!?
--Quero dezer, minha senhora, eu jejuo... É uma _promessia_ que fiz de
jejuar dia sim, dia não... e hoje é o dia do sim...
Madre Paula, muito preoccupada com a extraordinaria carta que acabava de
receber, não prestou attenção á estranha physionomia do sapateiro
recusando a refeição que se lhe offerecia.
--Pois então, se jejua, não quebre o seu jejum, meu irmão. Mas tem de
esperar que eu me aprompte para a partida...
--Ó reverendissima madre, eu espero o tempo que fôr preciso... Lá p'rá
amor d'isso, não seja a duvida.
--Sente-se então ahi ou vá até lá fóra, á quinta.... Como quizer.
Dito, isto Madre Paula dirigiu-se a uma sala interior onde se encontrava
o padre Filippe conversando familiarmente com Paulo de Noronha e Jorge
de Gusmão.
--Sr. Padre Filippe--pediu ella--vossa reverendissima faz-me a fineza de
me conceder alguns minutos de attenção em particular?
--Pois não, minha senhora!--respondeu o padre gentilmente.
Paulo e Jorge levantaram-se.
--Dêem-me licença, meus amigos--disse-lhes a abbadessa--que lhes roube
por um curto instante a interessante conversa do snr. padre Filippe.
E dirigindo-se a Paulo:
--Vae, meu filho, vae até á bibliotheca com o teu amigo a quem pedirás
desculpa da minha impertinencia...
Quando os dois sahiram, madre Paula, voltando-se para o Padre Filippe,
exclamou:
--Helena de Noronha, a _irmã Dorotheia_, vive ainda!
--Como o sabes?--perguntou o padre Filippe surprehendido.
--Lê!
E apresentou-lhe a carta de Helena.
O padre Filippe leu, examinou detidamente a carta e disse:
--É a letra d'ella!
--É, não ha duvida... Minha pobre Helena!
--E o que tencionas fazer?
--O portador está lá fóra... E, pois que ella está a morrer, quero
pedir-te, meu bom amigo, que me acompanhes a ir visital-a...
O padre Filippe, com a despreoccupada bondade que lhe era natural,
respondeu sem hesitar:
--Do melhor grado te acompanharei, minha querida Paula. Quando queres
partir?
--Hoje mesmo.
--Porém, Beatriz?...
--Beatriz ficará em companhia de madre Angelica das Sete Dores, que é,
como sabes, austera e de são conselho.
--Pois sim.
--Vou mandal-a chamar já e dar-lhe as instrucções precisas... De resto,
a nossa demora será curta, porque a pobre Helena acha-se moribunda, como
ella propria o diz...
--Convem prevenir Paulo da nossa ausencia e pedir-lhe que se abstenha de
vir visitar Beatriz emquanto nós não regressarmos...
Madre Paula sorriu.
--E porque não ha de vir?
--É preciso confiarmos nos sentimentos de nobre lealdade d'esse rapaz, e
não o prevertermos com a suspeita que uma tal prohibição traduziria...
--Dizes bem.
--Minha pobre Helena! Que mysteriosa cadeia de soffrimentos a conduziu
até ao leito de morte d'onde agora me chama na agonia do traspasse?
XXVI
Um amigo dos diabos
Na tarde d'esse dia, madre Paula e padre Filippe, convenientemente
disfarçados sob os trajes seculares e guiados por mestre _Tomba_,
tomavam na estação do Pinheiro, em Campanhã, bilhetes para Guimarães,
por ser o caminho que mais rapidamente os levaria a S. Martinho de
Campo.
O sapateiro, persuadido de que fôra elle quem conseguira resolver a
superiora das Sereias a esta viagem, pois ignorava inteiramente o
conthéudo da carta de que fora portador, ia radiante e vaidoso da sua
astucia.
A principio observou com desgosto e desconfiança o padre Filippe, em
quem suspeitava um segundo tomo do padre Anselmo. Essa suspeita, porém,
em breve se lhe desvaneceu, em presença da attitude lhana e amavel do
secerdote.
--Este parece que é vinho d'outra pipa!--commentou comsigo o
sapateiro--Mas _támem_ se o não fôr, o que eu quero é lá pilhal-o,
porque, depois, quem manda é o sr. Julinho e mais eu... E se se fizer
fino, lá ainda ha de haver quem lhe troque a corôa em mindos p'ra lhe
metter juizo á força na cachola...
Passadas as primeiras estações, o sapateiro tornou-se loquaz e palrador.
Dando largas ao seu genio communicativo e alegre, ia dando informações
pelo caminho aos seus dois companheiros. Conhecia todas as propriedades
e nomeava-lhes os donos pelo nome. Este era muito _bô_ sujeito; aquelle
_támem_ não era mau, mas andava em demanda com os cunhados á conta das
partilhas por morte da sogra. Emfim, elle conhecia toda a gente e de
tudo dava relação exacta e minuciosa.
Quando chegaram a Guimarães, o _Tomba_ perguntou se queriam descançar um
pouco no _hotle_ ou se queriam seguir logo para S. Martinho.
--É muito longe d'aqui lá?--? perguntou o padre Filippe.
--É alli logo _adiente_ das Taypas... Se o cocheiro bater bem, chegamos
lá em tres horas.
--Então é melhor que partamos já.
O _Tomba_, solicito, fretou um carro em que entraram os tres, com
recommendação ao cocheiro de que urgia chegar breve.
Ás 9 horas da noite, o carro parava á porta de Julio de Montarroyo.
O _Tomba_, sempre movido do pensamento de surprehender agradavelmente o
seu amigo e protector apresentando-lhe madre Paula em casa quando elle
menos o esperava, em vez de parar á porta de D. Aurelia, guiou os seus
companheiros para a antiga casa de Norberto de Noronha.
O sapateiro introduziu madre Paula e o padre Filippe na primeira sala,
pedindo-lhes que se demorassem, que elle ia dár parte á senhora. E quasi
sem esperar resposta e desrespeitando todas as prescripções medicas,
entrou impetuosamente no quarto de Julio de Montarroyo, exclamando:
--Ora, sr. Julinho, os amigos conhecem-se nas _incasiões_, e o _Tomba_,
com um raio de diabos! p'ra servir um amigo é capaz de dar uma volta no
inferno! Cá está ella!
--Ella, quem?--interrogou Julio de Montarroyo.
--A madre Paula, com seiscentos livros de missa!
Julio de Montarroyo encarou espantado no sapateiro, suspeitando que elle
tivesse endoidecido.
--Mas está onde, mestre?--perguntou.
--Alli fóra, sr. Julinho, alli fóra na sala... Vem acompanhada com um
padréca, mas não tem _duveda_... Quer que os mande entrar p'ra aqui?
--Você falla serio, mestre Tomba?
--Ó sr. Julinho, isso não são coisas que vossa _incellencia_ me diga a
mim na minha cara!--exclamou o sapateiro escandalisado--Pois eu ando por
lá a dar voltas ao miolo p'ra lh'a trazer,--que suei e tornei a suar
primeiro que a _arresolvesse_--e o snr. Julinho, chego aqui, e não me
quer _acuarditar_?! Eu serei capaz de lhe _dezer_ uma coisa por oitra,
sr. Julinho?
--Está bem, mestre...--tornou Julio--Não vale a pena zangar. Eu vou
immediatamente cumprimentar essa senhora...
--Olhe lá, ó sr. Julinho--observou o sapateiro detendo-o quando elle ia
já a transpôr a porta do quarto--eu enganei-a!
--Enganou-a?
--Disse-lhe que estava cá a _irmã Dorotheia_, muito doente e que lhe
mandava pedir p'ra ella cá vir vê-a... Ora agora, o sr. Julinho arranje
lá as coisas de modo que não me deixe ficar por mentiroso...
--Você está doido, mestre? Como quer que eu sustente essa mentira, se
Helena não está aqui nem eu tenho noticias d'ella?
--Não sei, sr. Julinho... Diga-lhe que ella já morreu e que se enterrou
_honte_ á noite... Eu cá por mentiroso é que não hei-de ficar, senão
ellas, em me apanhando lá outra vez, são capazes de me dar uma coça...
--Descance, mestre; eu vou fallar com madre Paula.
E deixando o sapateiro, entrou na sala onde se encontravam a religiosa e
o seu companheiro.
Padre Filippe, que o não conhecia, limitou-se a observal-o com
curiosidade.
--V. ex.^a certamente não reconhece n'este velho o moço que ha desoito
annos teve a honra de admirar na gentil superiora do Sardão uma das mais
austeras religiosas que em sua vida lhe foi dado cumprimentar?--disse
Julio de Montarroyo, dirigindo-se a madre Paula, ao mesmo tempo que
saudava com uma reverente inclinação de cabeça o padre Filippe.
--Está v. ex.^a enganado, sr. Julio de Montarroyo--replicou madre Paula
recobrando a serenidade--Reconheço-o perfeitamente, e é com verdadeira
satisfação que torno a vel-o, se bem que estava longe de o encontrar
aqui.
--A surpreza, portanto, é para nós dois, pois que eu tambem, apezar do
vivo desejo que sentia de fallar a v. ex.^a, não podia esperar a subida
honra que me dá da sua caridosa visita... E digo caridosa, porque
visitar um enfermo nas minhas condições é verdadeiramente uma obra de
caridade, que só as almas sinceramente religiosas como a de vossa
excellencia sabem comprehender e praticar.
Madre Paula escutava-o sem o comprehender.
Julio de Montarroyo offereceu o sophá aos seus hospedes.
--Dignem-se v. ex.^{as} sentar-se, e, pois que me dão a honra da sua
visita, permittam-me que os considere meus hospedes por alguns dias.
Esta casa é pobre. Ha aqui o triste desconforto das casas da provincia
que não teem a direcção intelligente de uma mulher a governal-as.
No entanto, dois titulos tornam digna esta desconfortavel habitação da
subida honra de abrigar sob o seu tecto a superiora do Sardão: o
primeiro vem a ser o soccorro espiritual prestado a um enfermo que
ardentemente o deseja e implora; e o segundo o facto de ter sido esta,
outr'ora, a casa de uma das amigas mais intimas de v. ex.^a, a _irmã
Dorotheia_, conhecida no seculo por Helena de Noronha.
--Helena!--bradou madre Paula--Onde está ella? Peço-lhe que me conduza
sem demora até junto do seu leito. Mal soube que estava doente, accorri
immediatamente ao seu chamamento, e tenho fé que a minha presença ha de
fazer-lhe bem, ha de melhoral-a...
Julio de Montarroyo encarou com insistencia a abbadessa.
--V. ex.^a não sabe onde está Helena de Noronha?--perguntou elle.
--Julguei encontral-a nesta casa, d'onde me escreveu a chamar-me e onde
me disseram que estava.
--D'onde lhe escreveu, diz v. ex.^a?
--Sim. Eis aqui a carta que hoje mesmo recebi pelo homem que aqui nos
conduziu.
E madre Paula apresentou a Julio de Montarroyo, estupefacto, a carta de
que o _Tomba_ fôra portador.
--É a lettra de Helena!--exclamou Julio n'um brado de alegria
extrema--Não ha duvida, Helena escreveu esta carta... Mas onde está
ella?--perguntou por sua vez tambem.
--Pois deveras Helena de Noronha não está aqui?--interrogou ainda madre
Paula, tomada de estranha surpreza.
--Não, minha senhora--volveu Julio--e até eu ignoro como e de que
maneira esta carta pudesse ser-lhe enviada por Helena, de quem não tenho
noticias ha dezoito annos! Esperava eu que v. ex.^a, compadecida do meu
estado de doença e do muito que tenho soffrido no esforço inutil de
encontrar a filha de Norberto de Noronha, se dignasse dar-me quaesquer
indicações que me permitissem fallar-lhe ou escrever-lhe ainda antes de
morrer.
E com uma eloquencia febril, contou em rapidas palavras tudo o que lhe
succedera nos desoito annos decorridos e que o leitor não ignora, por já
lh'o ter ouvido contar a Gustavo de Magalhães.
--Agora--concluiu--alquebrado, doente, com poucos dias de vida, todo o
meu empenho era procurar v. ex.^a e pedir-lhe, por tudo quanto mais ama
no mundo, que me dissesse se Helena de Noronha vive ainda ou se devo
procural-a no mundo dos espiritos...
--O homem que aqui nos guiou é que foi portador d'esta carta. Elle
portanto, poderá dizer quem lh'a entregou e onde se encontra quem a
escreveu...--explicou madre Paula, de cada vez mais attonita e
surprehendida.
--Tem v. ex.^a rasão. Vou mandal-o chamar á sua presença, e elle
explicará...
Julio levantou-se, tocou uma campainha e ordenou ao criado que appareceu
á porta da sala:
--Diga ao mestre _Tomba_ que venha cá.
Pouco depois apparecia á porta o sapateiro com o ar petulante de quem
está resolvido a dizer tudo sem rodeios, e a assumir inteira
responsabilidade dos seus actos.
--O sr. Julinho, chamou?
--Chamei, mestre. Venha cá...
--Prompto!
E o sapateiro avançou dois passos na sala, de cabeça erguida e olhar
firme.
--Então como é isto?--ia Julio a dizer.
Mas o sapateiro interrompeu-o, sem o deixar concluir.
--Então como hade ser? Fui eu que armei esta _trempe_, p'ra fazer que
aqui a nossa reverendissima madre e mais este reverendissimo sr. padre
viessem á _presencia_ do sr. Julinho... Vossa _incellencia_ estava todos
os dias a appellidar por ella, que a queria vêr, que lhe queria fallar e
que morria sem _estifazer_ o seu desejo... Vae eu _atão_ disse comigo:
«Se eu, armar uma pêta bem arranjada e disser á nossa reverendissima
madre que é a sr.^a D. _Helenia de Laronha_ que está a dar a alma a
Deus, ella larga barcos e redes e vem por ahi fóra atrás de mim, que é
um ar que lhe dá... Ponto é que ella me _acuardite_... Vamos a vêr se as
bichas pegam... Fui e as bichas pegaram. Ella aqui está... Agora o sr.
Julinho diga o que tem a _dezer_, e se eu fico por mentiroso, é o
mesmo... Se quer ó menos, _intrujei_, mas foi p'ra _estifazer_ a ultima
vontade a vossa _incellencia_... Agora já póde morrer descançado.
--Mas venha cá, _Tomba_, como arranjou você a carta de Helena de
Noronha?
O sapateiro arregalou os olhos:
--A carta da sr.^a D. _Helenia_? A carta não é d'ella!
--Como não é d'ella?
--Não é d'ella, já lhe disse! Assim um raio venha que nos parta aqui a
todos, se eu vi a sr.^a D. _Helenia_ ou sequer alguem me boquejou a
respeito d'ella!
--Mas esta carta--disse madre Paula--foi-me entregue por vocemecê...
--Isso é oitra coisa...--tornou o sapateiro--Mas as cartas são papeis...
Essa carta não é da sr.^a _D. Helenia_.
--Não é!--exclamou Julio--Mas a lettra e a assignatura são d'ella. Como
arranjou você esta carta?
--São d'ella!?--disse por sua vez o _Tomba_ muito admirado.
--Se esta carta não é escripta por Helena--tornou Julio de
Montarroyo--então alguem lhe imitou a lettra e a assignatura. O mestre
dirá quem foi...
--E a carta o que diz, ó sr. Julinho?--interrogou o sapateiro com grande
interesse.
--Pois você não o sabe, mestre?
--Eu não, senhor! Cego seja eu e o meu Santo Antonio, que está lá
dentro, permitta que eu não arranje mais cinco réis d'esmola em toda a
minha vida, se eu sei o que ella diz... Eu levei-a fechada, não a abri
para a mandar lêr, como hei-de eu adivinhar o que ella diz?
Julio percebeu que o sapateiro fallava verdade, e de cada vez mais
surprehendido pela ignorancia do mestre sobre o contheudo da carta,
resolveu-se a esclarecel-o.