fomentação nos pulsos e nas fontes, a vêr se assim conseguimos
restituir-lhe os sentidos.
D. Aurelia sahiu a chamar a criada e a dar ordem para que tratassem a
infeliz com todo o desvelo, seguindo as indicações do medico.
Pouco depois, a criada vinha annunciar á D. Aurelia que a pobresinha
voltára a si, olhara espantada á roda do leito sem reconhecer pessoa
alguma e sem soltar uma palavra; que o doutor lhe receitára um cordeal e
que, tomado elle, cahira n'um somno profundo e reparador.
O medico, passados instantes, confirmava estes dizeres, promettendo a D.
Aurelia voltar no dia seguinte.
--Deixem-n'a socegar--aconselhou elle--e amanhã veremos o tratamento a
que temos de submettel-a.
--Parece-lhe, doutor, que o seu estado é de inspirar cuidados?
--De certo, minha senhora. Convem não lhe fallar nem obrigal-a a grande
esforço de memoria. A pessoa que lhe servir de enfermeira deve apenas
limitar-se a ministrar-lhe o que fôr necessario, sem a obrigar a fallar
mais que o indispensavel. Mas por esta noite não acordará nem
necessitará de outra coisa mais que o descanço. Amanhã voltarei. Boa
noite.
--Boa noite, doutor, e peço-lhe que tome a seu cuidado esta infeliz que
não conheço. Seria para mim um grande desgosto que ella viesse morrer a
minha casa...
--Não morrerá, minha senhora, a não ser que outra doença mais grave
sobrevenha. Por emquanto, o mal é este: frio e fome.
--Coitadita!--murmurou compungidamente a irmã de Gustavo--E pensarmos
que ha gente que morre pelas estradas abandonada de toda a caridade!
--Minha senhora--volveu o medico philosophicamente, encolhendo os
hombros--o mundo compõe-se de tudo... Ha gente que morre de fome e ha
gente que morre de fartura... Os extremos tocam-se.
E sahiu, embrulhado no seu capote á cavallaria, e com um _cache-nez_
enrodilhado desde o pescoço até á ponta do nariz.
--Que _barbeiro_!--disse elle, ao sentir no rosto a aragem cortante da
noite, para o homem que á porta o esperava com o lampeão acceso afim de
o acompanhar no trajecto até casa--Este _barbeirinho_ é o tal das
pneumonias!
No dia seguinte voltou. A doente recuperára os sentidos, mas
apresentava-se n'um estado de abatimento e de fraqueza extraordinaria.
A febre consummia-a. Delirava.
Phrases entrecortadas e sem nexo escapavam-se-lhe dos labios, n'uma
confusão que não deixava perceber-lhes o sentido.
O medico observou-a longo tempo e por fim receitou um calmante,
prohibindo que dessem de comer á enferma.
--Então, doutor?--interrogou D. Aurelia.
--Enganei-me, minha senhora--disse o medico--julguei que um caldo de
gallinha e algum socego reconfortaria a nossa doente, mas vejo agora que
o remedio não está só na cosinha, está tambem na botica.
--É então grave o estado d'essa infeliz?
--Gravissimo. A febre é muito violenta e desconfio bem que tenhamos de
nos vêr a contas com uma pneumonia...
--Pobre mulher!
--Se v. ex.^a quer, e isso parece-me o mais sensato, é pregar com ella
ás costas de dois homens que a levem ao hospital de Guimarães.
--Oh! isso não!--fez D. Aurelia com vehemencia.--Acaso o doutor não terá
recursos na sua sciencia para valer a essa desgraçada?
--Oh! minha senhora! não se trata de mim, que estou prompto a
soccorrel-a conforme sei e posso: o alvitre tem por fim unicamente
evitar a v. ex.^a os incommodos e cuidados que taes casos sempre
acarretam...
--Doutor, o destino quiz que essa pobre mulher fosse recolhida em minha
casa. Aqui será tratada com os cuidados que o seu estado requer.
--Faça-se a sua vontade, minha senhora.
D. Aurelia deu logo ordem para que ficasse constantemente a velar a
enferma a sua criada de quarto, que era uma enfermeira distincta.
--Que não falte nada a essa infeliz--disse a irmã de Gustavo--Não lhe
façam perguntas indiscretas, não inquiram coisa alguma do seu passado, e
façam-lhe comprehender que está entre pessoas amigas que se interessam
pela sua saude e que desejam vêl-a restabelecida.
Esta ordem foi cumprida rigorosamente, e ao cabo de tres dias, tendo
diminuído a febre, a doente encontrava-se sensivelmente melhor.
--Está salva--disse o medico a D. Aurelia--Agora o que precisamos é ter
muito cuidado com a alimentação.
--Tel-o-hemos.
Prescreveu o regimen a seguir e tão rigorosamente foi obedecido que,
oito dias passados, a desconhecida entrava em franca convalescença.
Durante este tempo, o padre Manoel vinha todos os dias informar que o
João Mil-homens não lobrigava viva alma na Senhora do Porto.
--É escusado!--dizia o bom do parocho--aquillo foi tudo sonho do nosso
Julio. E quem sabe mesmo se foi visão da febre que o consummia. Pobre
homem! Eu bem lhe disse que não cahisse na asneira de se metter a
caminho com uma noite d'aquellas... Não quiz attender, ainda é dos que
dão credito a tolices e invenções da gente rude do povo, e o resultado
foi cahir de cama e ficar para alli entre a vida e a morte ha uns poucos
de dias...
--Disse-me o doutor que o encontra muito melhor...
--É verdade. Até já lhe deu ordem para receber o _Tomba_, que esteve
hontem mais de uma hora em conversa com elle... E o que é mais curioso é
que o doente, hoje, quando todos esperavam que peorasse, appareceu muito
melhor, mais animado e com um semblante alegre e risonho.
--Não pude ir vêl-o n'estes dois dias, mas talvez vá logo visital-o.
--O que eu não sei é que diabo de intimidade é a do _Tomba_ com elle. Um
homem ordinario, de baixa esphera, gosa de uma tal consideração em casa
d'aquelle homem, que chega a espantar. Alli ha mysterio por força!
--Não ha mysterio nenhum, snr. padre Manoel. Os humildes tambem teem
direito á estima e consideração das pessoas superiores, quando possuem
qualidades de honradez e honestidade que os recommendam...
--Sim, sim... Mas não se vê isso muito frequentemente... A não ser que
v. ex.^a queira attribuir ao _Tomba_ qualidades unicas e até hoje nunca
vistas e apreciadas em remendão portuguez.
--Não lhe attribuo qualidades nem defeitos, sr. padre Manoel... Acho
natural que o sr. Julio de Montarroyo proteja e estime um pobre homem do
povo, e nada mais.
O padre fez uma carêta significativa.
--Sim, sim, minha senhora... V. ex.^a é uma santa, acha tudo muito
natural porque não conhece o mundo... O _Tomba_ é bom homem, não digo
que não, mas ha muitos bons homens como elle, e não encontram o
acolhimento de que este se póde gabar...
--Nem era possivel, sr. padre Manoel... Eu, por exemplo, recolhi em
minha casa uma pobre mulher que foi encontrada moribunda a um canto da
estrada... Dispensei-lhe todos os cuidados e carinhos compativeis com os
recursos de que disponho e nem sequer sei ainda quem ella é...
--Quem ha-de ser? Alguma pobre mendiga, alguma desgraçada sem eira nem
beira... Ha tantas por esse mundo!
--Justamente. Ha tantas por esse mundo, e comtudo é esta a primeira que,
em taes circumstancias, encontra abrigo em minha casa.
A este tempo, appareceu a creada encarregada de tratar a desconhecida.
--Minha senhora--disse ella--a nossa doente...
--O que tem? Peorou?
--Não, minha senhora. Até está muito melhor. Mas ha pouco perguntou-me
onde estava, que casa era esta e quem é que a tinha trazido para aqui...
--O que lhe respondeu?
--Cumpri as ordens de v. ex.^a, disse-lhe que estava em casa de pessoas
amigas e que não se affligisse, que não lhe havia de faltar nada... Mas
ella quiz por força saber como se chamam os donos da casa... e eu
disse-lh'o.
--E então?
--Mostrou-se muito inquieta e pediu para fallar á senhora...
--Para me fallar a mim!--disse D. Aurelia--Pois bem; diga-lhe que vou já
vêl-a...
E voltando-se para o padre Manoel:
--Tenha paciencia, meu amigo, se lhe roubo uma parte das attenções que
lhe devo... Bem vê, a enferma está melhor, aliás teria pedido antes o
seu soccorro espiritual...
--Sinto-me lezado nos meus direitos de confessor--replicou o padre
Manoel gracejando.--Realmente, v. ex.^a com a sua extrema caridade faz
que os infelizes esqueçam que só aos ministros do altar devem
confessar-se... Porque ninguem me tira da cabeça que a sua protegida
quer fazer-lhe revelações intimas...
--Talvez. E se assim fôr, creia o sr. padre Manoel que serei tão
escrupulosa em guardar rigoroso sigillo como v. s.^a o costuma ser...
--Quer dizer com isso que escuso de tentar saber o que ella vae
confiar-lhe.
--Oh, decerto! Se ella me pedir segredo, com certeza que o guardarei...
--N'esse caso, minha senhora, não quero fazer esperar a sua
confessada... E se o caso fôr de consciencia, estou bem certo que v.
ex.^a lhe aplacará os escrupulos tão bem ou melhor do que o mais
auctorisado mestre de casos...
--O sr. padre Manuel é sempre demasiado lisonjeiro para mim--replicou D.
Aurelia sorrindo.--Não tenho pretensões a arvorar-me em sacerdotisa.
Faço o bem que posso e valho ao meu semelhante sempre que elle precisa
do meu soccorro, quer temporal quer espiritual.
--V. ex.^a é inquestionavelmente uma santa!--affirmou o padre sahindo.
D. Aurelia passou ao quarto da doente. Ao vêl-a entrar, a desconhecida
fitou n'ella os olhos marejados de lagrimas.
A dona da casa abeirou-se do leito. A meia obscuridade do quarto não lhe
permittia analysar as feições da enferma.
--Então, como está?--perguntou a irmã de Gustavo com voz doce e
carinhosa.
--Muito obrigada, minha senhora... sinto-me melhor--replicou a doente
com voz debil. O som d'aquella voz, porém, impressionou a dona da casa.
Parecia-lhe que já a tinha ouvido alguma vez, que o seu timbre lhe não
era estranho.
Voltou-se para a criada e disse-lhe:
--Deixe-nos sós--ordenou.
--Sim, minha senhora--replicou a criada. E sahiu.
--Disseram-me que queria fallar-me...--interrogou D. Aurelia com os
olhos fitos na doente--Poderei ser-lhe util em alguma cousa?
--Queria--tornou a doente--que tivesse a bondade de abrir um pouco
aquella janella e attentar no meu rosto...
D. Aurelia satisfez o desejo á doente e ficou-se fitando-a, sem poder
reconhecel-a.
--Não me conheces, Aurelia?--balbuciou a infeliz por entre
lagrimas.--Tens razão! Estou tão mudada que nem meu proprio pae me
reconheceria, se fosse vivo e me visse agora!
E escondendo o rosto entre as mãos, desatou n'um choro convulso e
abafado.
Como se as palavras e o choro desesperado da desditosa lhe tivessem
levado um raio de luz ao espirito, D. Aurelia gritou n'um indescriptivel
alvoroço de espanto:
--Helena de Noronha! serás tu?!
--Sou eu, minha amiga! sou esta desgraçada, rôta e faminta, que vem
receber, como supremo castigo de seus crimes, a esmola da tua compaixão!
Estas ultimas palavras foram já proferidas nos braços de D. Aurelia, que
estreitava a sua infeliz amiga ao coração, cobrindo-lhe o rosto de
beijos e orvalhando-lh'o de lagrimas.
--Vamos! não chores, minha querida--disse por fim D. Aurelia.--Quiz Deus
que viesses a esta casa que é tua e onde encontrarás a mesma amisade
sincera de sempre.
--Obrigada... obrigada!--murmurou Helena de Noronha--Peço-te apenas que
me deixes morrer aqui, ignorada de todos, como uma pobre mendiga que a
miseria arrojou nos ultimos momentos ao suave aconchego do teu lar
bemdito, da tua santa caridade!...
--Não, minha amiga, não! Tu viverás, tu acharás ainda n'esta casa, que é
tua, no meu coração que é sempre o da tua amiga d'infancia, o conforto e
os affectos de que necessitas e de que os teus soffrimentos te fazem tão
digna.
--Sinto-me morta, minha amiga... Pouco poderei importunar-te...
Mandei-te chamar e quiz que me reconhecesses e me ouvisses, porque não
desejo levar para a sepultura, com o remorso de tantos erros e de tantos
crimes, ainda mais este cruciante espinho de uma ultima ingratidão...
D. Aurelia tentava socegal-a e reanimal-a com a sua amisade, com seu
carinho.
--O medico disse-me que estás melhor... Agora, o que é indispensavel, é
muito socego, muita tranquilidade de espirito... e o restabelecimento
far-se-ha breve e por completo.
Um sorriso de amarga tristeza vincou os labios de Helena de Neronha.
--Para que eu me encontre aqui, na tua casa, minha amiga, foi preciso
que as forças me fugissem e a vida estivesse proxima a abandonar este
misero envolucro... por tal modo desfigurado que nem tu mesma o
reconheceste... Não te illudas, Aurelia... eu não poderei viver mais que
alguns dias, e durante elles, deixa que eu te confie a historia das
minhas desgraças, afim de que, ao recordal-as, tenhas ainda uma lagrima
de compaixão para a memoria da tua desditosa e infeliz amiga d'infancia.
--Eras tu a penitente da Senhora do Porto?--interrogou de repente D.
Aurelia.
--Era! Como soubeste que eu estava alli?
--Não o soube. Alguem tinha a fundada suspeita de que eras tu, se é que
não possuia a intima certeza...
--Esse alguem era...?
--Julio de Montarroyo...
A enferma soltou um grito.
--Ah! tu conhecel-o? Então sempre é certo que era elle... não foi uma
allucinação dos meus sentidos?
--Não, minha amiga, não! Julio de Montarroyo, ouvindo dizer que na
Senhora do Porto apparecia alta noite uma penitente desconhecida e que
ninguem lograva ver de dia, teve o presentimento de que essa penitente
eras tu... Partiu para a Senhora do Porto, e alli te surprehendeu, ou
antes, adivinhou-te nas trevas da noite...
--Sim... sim... eu vi um homem encostado á hombreira do portico, e
quando eu, julgando-me só, elevava áquella imagem, a minha fervorosa
prece, ouvi uma voz que chamava por mim. Fugi espavorida e durante muito
tempo ouvi repetir o meu nome... E a voz que o repetia parecia-me a
d'elle...
--Não te enganaste... Era elle, era Julio de Montarroyo que te chamava.
--Como veio elle para aqui, para esta terra, que não era a d'elle e onde
não me recordo de o ter visto nunca, nos tempos da minha mocidade?
--Trouxe-o para aqui o coração, o desejo ardentissimo de se vêr rodeado
de tudo o que pudesse fallar-lhe do passado da mulher que tão infeliz e
desditosamente amou... Viver na mesma terra em que ella viveu e foi
feliz, respirar o mesmo ar que ella respirou out'rora, amar os mesmos
sitios que ella amou. O desgraçado julga viver assim mais perto d'ella,
mais identificado com o pensamento e com as saudades da mulher que foi
toda a sua esperança e que é todo o seu martyrio. «É
impossivel--disse-me elle um dia--que ella algumas vezes não pense com
saudade n'estes sitios, que foram o berço da sua infancia descuidosa e
feliz. E n'esses instantes de dolorosa recordação, consola-me a ideia de
que os nossos pensamentos se unem no mesmo objecto, através a distancia
que os separa».
Helena de Noronha chorava silenciosamente, apertando com ambas as mãos o
coração, que parecia querer saltar-lhe fóra do peito.
D. Aurelia proseguiu:
--Assim, o desditoso adquiriu por todo o preço a casa que foi de teu
pae,--que foi tua,--e n'ella vive, ou antes n'ella vae morrendo
lentamente, ralado de dôr e de saudade...
--Meu Deus! quantas victimas eu fiz!--bradou Helena de Noronha
angustiadamente, estorcendo-se n'uma dôr incomportavel.
--Vamos, minha amiga!--tornou-lhe D. Aurelia, querendo
confortal-a.--Quiz Deus que viesses ainda a tempo de reparar o mal que
fizeste áquelle desgraçado. A maior felicidade para elle será o tornar a
encontrar-te.
--Ah! não! não!--bradou Helena de Noronha, pondo as mãos
supplicante:--Pelo amor de Deus, por tudo quanto mais tens amado n'este
mundo, não lhe digas que eu estou aqui!... Morreria de vergonha, se me
encontrasse na sua presença... Eu não sou digna d'elle... Deixa-me
morrer ignorada de todos, minha querida Aurelia!
A infeliz arfava afflictivamente, pondo na amiga os olhos turvos de
lagrimas.
--Morrer! Não falles em morrer, minha amiga... Cobra alento e pensa que
a tua vida é ainda precisa, porque pódes ser util a alguem. Julio de
Montarroyo ama-te com um amor que só as almas essencialmente delicadas
conhecem e avaliam. Desde que te viu e reconheceu na Senhora do Porto,
sem poder fallar-te, porque lhe fugiste, cahiu prostrado no leito por
febre intensa, e ahi agonisa, apenas animado da esperança de poder ainda
encontrar-te. Todas as noites tem sido enviado, por sua ordem, um homem
á Senhora do Porto, a vêr se póde lobrigar-te e seguirte de longe até ao
sitio onde costumavas occultar-te de dia. E cada manhã que o vigia
regressa sem dar novas da penitente, é para elle uma cruel angustia que
o approxima da sepultura. Quererás tu condemnar á morte uma vida que tão
nobre e desinteressadamente se te devotou? Se está na tua mão minorar
tamanho soffrimento, se com a tua presença pódes fazer voltar a
felicidade ao coração d'aquelle desgraçado e banhar de luz e de alegria
os ultimos dias d'aquella existencia amargurada, porque o não has de
fazer?
--Oh! não! não! É impossivel! Eu estou condemnada, minha amiga!
Existencia maldita foi a minha em que, sem o querer, e guiada, por um
genio infernal, só pude semear a dôr, a desolação e a morte em toda a
parte por onde passei!... Se tu soubesses que horroroso pélago de
crimes, de atrocidades e de infamias tenho atravessado desde que, filha
ingrata, abandonei a casa de meu pobre pae, repelir-me-hias com asco e
nojo! Não! não! eu não posso mais aproximar-me de quem quer que seja sem
que o meu halito pestilencial o envenene, sem que o contacto impuro das
minhas mãos, manchadas de sangue e de crimes, deixem em tudo o que tocam
uma nodoa indelevel de corrupção e de infamia!... Oh! o miseravel! O
maldito persegue-me sempre com o seu olhar de fogo, que me abrasa... com
o seu infernal sorriso de demonio, percuciente como um punhal...
corrosivo como um veneno! Oh! vêl-o?... vêl-o? Lá está elle, envolto na
sua negra sotaina esfarrapada... as faces congestionadas... a bocca
espumante de raiva... e os olhos, como carbunculos, sempre fitos em
mim!... Desprende-se da cruz... estende para mim as garras... Oh!
salva-me! salva-me!
E n'um estranho accesso de delirio, Helena de Noronha agarrou-se
convulsivamente á sua amiga, tombando em seguida sobre o leito, sem
sentidos...
Apavorada e attonita, D. Aurelia mandou immediatamente chamar o medico,
a quem contou que a doente, commovida com o caridoso acolhimento que lhe
dispensara, proferira algumas palavras de agradecimento e cahira em
deliquio.
O doutor observou a enferma e attribuiu o accidente ao seu estado de
extrema fraqueza.
--Devêmos evitar a menor commoção, o menor abalo--disse elle.
Tres dias esteve Helena entre a vida e a morte, de tal modo fôra
violento o abalo produzido pelas revelações que lhe fizera a sua amiga.
A ideia de que Julio de Montarroyo estava alli a dois passos, vivendo na
mesma terra, habitando a casa que fôra d'ella e sempre alimentando-se
das recordações de um amor impossivel, sem remedio e sem esperança,
matava-a.
A pobre filha de Norberto de Noronha tremia só com a lembrança de que
havia de supportar os olhares de Julio, tão franco, tão leal, tão amante
e apaixonado e tão cruelmente illudido e ludibriado nos seus amores.
Porque não lhe teria ella confessado francamente a sua situação, a sua
desgraça, a sua queda irremediavel, quando no Sardão o mancebo lhe
implorava de mãos postas que salvasse seu velho pae e confiasse no puro
e desinteressado amor fraternal que lhe offerecia?
Não quiz. Receou confessar-se indigna do nobre affecto que aquelle
coração lhe tributava. E comtudo, n'esse tempo, ainda ella não passava
de uma victima innocente, sem sombra de culpa, immolada á torpeza
jesuitica. Como poderia ter coragem para se lhe apresentar agora, quando
já não era só uma desgraçada a quem ludibriaram desfolhando-lhe a sua
corôa de innocencia, mas tambem um sêr ascoroso e repugnante, manchado
por toda a especie de crimes, semeando desolação e morte por toda a
parte?
Filha, ingrata e desobediente, occasionara a morte de seu pae. Mulher,
leviana e perversa, lançara-se imbecilmente nos braços de um monstro de
sotaina, sacrificando o coração e a vida de seu primo, que a adorava, e
deixando que, na embriaguez de um mysticismo absurdo, abusassem da sua
innocencia e a convertessem na incestuosa e infame barregã de um
jesuita. Mãe, abandonara seu filho, repudiara-o cruelmente e, peor que
as feras, relegara-o á fome, á miseria e á morte talvez. Amada
sinceramente por Julio de Montarroyo, mentira-lhe, ludibriara-o, lançara
aquella alma no desespero, na tortura de todas as horas.
Adorada com louco frenesi pelo padre Hilario, convertera essa paixão
n'um instrumento de morte. Fizera d'elle um parricida e ella propia
manchára as mãos no sangue de um assassinio cobarde, embora justificado
pelas monstruosas infamias e torpesas de que o miseravel a fizera alvo.
Mas um crime não auctorisa outro e, seja qual fôr o sentimento que o
dite, o remorso entra sempre mais tarde ou mais cedo no coração do
criminoso.
Helena de Noronha, pois, debatia-se nas angustiosas recordações de
tantos crimes e reconhecendo-se perdida para a rehabilitação n'este
mundo, pedia a Deus, como suprema esmola, a morte, embora esta fosse
seguida da condemnação eterna para a sua alma.
As penas do inferno pensava ella que não podiam ser-lhe mais tormentosas
e afflictivas do que o peso d'esta existencia amaldiçoada que arrastava
havia já dezeseis annos.
Ao fim do terceiro dia, chamou junto do leito a sua amiga.
--Aurelia--disse-lhe ella--tu não sabes a grande desgraçada que acolhes
em tua casa e a quem nos ultimos dias da sua tormentosa existencia dás a
esmola da tua compaixão.
--Helena!--volveu-lhe a irmã de Gustavo--peço-te que não voltes a
atormentar-te com as recordações do passado. Fui tua amiga e tua
companheira de infancia, e se isto merece recompensa, dá-me ao menos a
consolação de te poder chamar minha irmã.
--Sim, minha boa e santa amiga! Acceito reconhecida os thesouros da tua
bondade nas curtas horas que me restam de vida... É isso um signal
evidente de que Deus se amerceia de mim e tem em conta as lagrimas e o
arrependimento de tantos crimes...
--Helena! socega, minha irmã... Tem esperança na misericordia divina que
ha de ainda conceder-te dias venturosos.
--Fazes-me um favor que te peço, Aurelia?
--Dize, filha! Tu mandas n'esta casa, não pedes.
--Desejava que enviasses alguem ao Porto, a saber se no convento do
Sardão ou no das Sereias existe ainda uma superiora chamada Madre
Paula... E se ella existir, que lhe entreguem uma carta minha...
--Madre Paula!--replicou Aurelia--Existe, minha amiga, sei que existe.
--Como o sabes?--interrogou alvoroçadamente Helena de Noronha.
--Porque Julio teve tambem interesse em o saber e mandou ao Porto
informar-se um homem de sua confiança, o mesmo que te encontrou
desfallecida na estrada e que aqui te conduziu.
--E esse homem viu-a, fallou-lhe?
--Fallou.
--Serás capaz de fazer com que elle volte a procural-a, minha amiga?
--Porque não!?
Fez-se um instante de silencio.
--Esse homem sabe quem eu sou? Conheceu-me?
--Não. Todos aqui, excepto eu, ignoram o teu nome.
--Não o digas a ninguem, por ora.
--Socega. Cumprirei a tua vontade.
Helena de Noronha pediu papel o penna, e escreveu algumas linhas, que
fechou em seguida n'um _enveloppe_.
--Que parta sem perda de tempo!--disse ella, entregando a carta a D.
Aurelia--Desejo que a resposta me encontre viva.
O _Tomba_ partiu n'essa mesma noite para o Porto.
XXV
Pobre Helena!
Julio de Montarroyo melhorara um pouco da febre intensa que o
acommettera. O restabelecimento, porém, fazia-se tão lentamente, o seu
estado de fraqueza era tal, que o medico prohibira-lhe que sahisse do
quarto e recommendava-lhe insistentemente que se abstivesse de longas
conversas com quem quer que fosse.
Todavia, o _Tomba_ lograra fallar-lhe e informal-o de que madre Paula
era viva e podia ser encontrada no Porto.
--Fallou-lhe, mestre _Tomba_?
--Fallei, snr. Julinho... saberá vossa incellencia que fallei... Fui ás
Sereias _préscural-a_ e não estava lá... Mas eu taes intrujices armei,
que me mandaram ó Carvalhido ter co'ella... E está ainda fresca que nem
parece a edade que tem... Aquellas bochechas não se criam só com _auga
benta_, essa lhe juro eu!--commentou o sapateiro.
--Fallou-lhe de Helena de Noronha?
--A esse respeito nem pio... Tive medo que ella soubesse ó que eu lá ia
e se espantasse... Nada! Eu _infingi_ que ia de mando da prima de vossa
_incellencia_, a snr.^a D. Lucilinha de Villaverde...
--Ah!