retardado a vinda á penitente, resolvi-me a esperar alli, até de manhã,
para poder testemunhar com verdade até que ponto os terrores da gente de
Thayde tinham fundamento, ou então que todas essas atoardas de uma
phantastica apparição não passavam de grosseira patranha de torpes
invencioneiros. Passei assim mais de uma hora, encostado á porta
principal do templo, sem fazer um movimento, quasi sem respirar.
--Que estranha imprudencia a sua, sr. Julio de Montarroyo!--não pôde
deixar de exclamar a irmã de Gustavo.--Se não estava ninguem no local,
como pôde permanecer tanto tempo encostado ao templo, debaixo d'um
temporal desabrido, provocando um arrefecimento que podia prejudicar-lhe
a saude?
--Morrer hoje ou morrer amanhã, que importa, minha senhora, quando não
sentimos o menor apêgo á vida? Eu tinha ido alli para desvendar um
mysterio ou desfazer uma illusão de espiritos ingenuos e credulos. O meu
dever era ficar e fiquei... Ainda bem que fiquei, porque, uma hora
passada, os meus olhos, habituados á escuridão, viram mover-se na treva
da noite um vulto que se aproximava lentamente do portico a que eu me
encostava.
--Então sempre era certo!--exclamou o abbade triumphante.
--Certissimo. O vulto, que não suspeitava a minha presença alli, a
semelhante hora, chegou junto do primeiro degrau do templo, ajoelhou e
n'um grito lancinantissimo, implorou a morte á Senhora do Porto!
--A morte!--exclamaram a um tempo D. Aurelia e o padre Manoel.
--A morte, sim!--confirmou Julio--Era uma voz de mulher, lamentosa e
dôce, e de tal modo parecida com... com outra voz que eu já tinha
ouvido, que todo me senti estremecer e fiquei como que pregado á porta
do templo! Essa voz repetia por entre gemidos, com a face collada no
degrau da egreja:--«Senhora do Porto! Mãe Misericordiosa! ouve a minha
supplica, dá por terminado o martyrio da minha existencia, leva para ti
esta miseravel creatura!»--
Depois soluços e gemidos abafados seguiram-se a estas palavras...
--É singular!--disse D. Aurelia.
--E extraordinario!--accrescentou o padre Manoel.
--Não posso dizer-lhes, meus amigos, o que se passou em mim... Tomado do
sagrado respeito que inspiram os grandes desgraçados que só ao céo
dirigem as suas supplicas, permaneci por alguns minutos mudo e immovel
como uma estatua. Todavia, cada um d'aquelles gemidos penetrava no meu
coração como uma lamina de aço. Identifiquei-me de tal modo com aquella
dôr, que cheguei a pensar que conhecia de ha muito tempo a infeliz
creatura que alli jazia prostrada e que a minha presença devia ser-lhe
como que o apparecimento de um irmão querido. Então, sem pensar no que
fazia, recordei um nome, o nome de uma mulher que eu conhecia e que
devia ser aquella mesma: «Helena!»--bradei-lhe--«Helena!»--e
desloquei-me da porta do templo descendo um degrau. Ao ouvir este nome,
a mysteriosa creatura soltou um grito de terror, levantou-se espavorida
e fugiu... Corri em seu seguimento, mas a escuridão da noite e a
incerteza do caminho não me permittiram alcançal-a... Sumiu-se.
Procurei-a toda a noite chamando-a em altos brados, dizendo-lhe o meu
nome, porém tudo foi baldado!
--Não pôde então conhecer quem fôsse a estranha penitente?--aventurou-se
a dizer D. Aurelia.
--Os meus olhos não puderam distinguir-lhe as feições, mas o meu coração
reconheceu-a. Era Helena, era a filha de Norberto de Noronha, a antiga
herdeira d'esta casa, a penitente que eu surprehendi esta noite em Nossa
Senhora do Porto!
--Talvez se enganasse, meu amigo... Se fosse ella, para que fugiria
ouvindo que a chamavam pelo seu verdadeiro nome e que quem assim a
tratava era por força uma pessoa amiga?--retorquiu D. Aurelia.
--De noite todos os gatos são pardos--philosophou plebeiamente o padre
Manoel--Já uma noite, vindo eu das Caldas, vi debruçado sobre o muro da
estrada um homem com uma fouce roçadoura na mão, como quem se preparava
para me abrir a cabeça de meio a meio quando eu fosse a passar.
Suspeitando que fosse algum ladrão, sustei a egua e disse ao meliante
que sahisse d'alli porque queria passar. O vulto não respondeu e agitou
com mais força a fouce roçadoura n'uma silenciosa ameaça. Eu então era
rapaz. Desesperado por aquella insistente audacia, puxei de um revolver
e intimei tres vezes o meu aggressor a retirar-se d'alli sob pena de lhe
mandar uma bala. Não obedeceu e eu então dei ao gatilho--pum! pum!
pum!--e mal vi que elle deixara cahir a foice com que me ameaçava, metti
esporas á egua e cheguei n'um galope a casa. Ao outro dia fiquei muito
admirado de não ouvir fallar do caso de apparecer algum homem morto na
estrada e, depois do meio dia, montei a cavallo e lá fui eu muito
disfarçadamente estudar o sitio onde tinha tido o terrivel encontro...
Não lhes minto se lhes disser que fiquei envergonhado ao reconhecer que
o malfeitor contra quem eu tinha disparado era um carvalho inoffensivo
que bracejava para fóra do muro uma das suas vergonteas, a tal que eu
tomára por uma foice roçadoura e que lá estáva cahida na estrada,
cortada pela bala do meu revolver... De noite, a gente vê coisas
extraordinarias, que não passam de ordinarissimas coisas, observadas de
dia, á luz do sol...
--Sr. padre Manoel--protestou Julio, agitado pela febre e deveras
irritado pela incredulidade insultuosa do padre--faça-me a fineza de
acreditar que eu nem vinha das Caldas nem sentia a pesar-me no espirito
o mêdo deprimente de uma foice roçadoura, quando vi aproximar-se de mim
a penitente de que se trata. Estava tranquillo como v. s.^a o está agora
e tinha o entendimento tão claro como v. s.^a o póde ter--logo de manhã,
em jejum, quando vae para o altar dizer missa.
O padre Manoel, que não era tolo, inclinou a cabeça n'um sorriso bondoso
e apressou-se a dizer:
--Não foi meu proposito pôr em duvida a veracidade da sua narrativa, sr.
Julio de Montarroyo... Creio que v. ex.^a visse e ouvisse tudo o que
diz, mas podia muito bem acontecer que, por uma illusão que a noite
favorecia, tomasse como sendo a filha de Norberto de Noronha uma outra
pessoa bem differente... Era simplesmente n'este ponto que a confusão
podia dar-se...
Julio aquietou-se um pouco com esta explicação do padre.
--Tambem não affirmo que fosse ella--disse--mas tenho a convicção
intima, profunda, de que não é outra.
--E agora o que tenciona fazer, sr. Julio?--perguntou D. Aurelia.
--Voltar lá. Procurei-a durante a noite até de manhã. Bati o monte em
todas as direcções, observei-o em todos os recantos, e não pude atinar
com o sitio em que ella se occultou. Todavia, é certo que ella se
escondeu alli, porque nem teria forças para me fugir n'uma longa
caminhada a pé, nem a vereda que seguiu lhe permittiria poder andar
muito tempo a descoberto, sem que eu a encontrasse.
--Mas--observou D. Aurelia--se a mysteriosa penitente, surprehendida por
v. ex.^a, fugiu, é que não quer ser vista; e sabendo que é conhecida a
sua frequencia n'aquelle sitio, áquella hora, certamente não voltará lá
com receio de ser novamente surprehendida... Mórmente se v. ex.^a
acertou chamando-lhe pelo nome verdadeiro...
--Sim, é certo..--concordou Julio--mas eu tenho de cumprir o meu dever
que me manda procurar vêl-a outra vez, fallar-lhe e concorrer quanto
possivel para pôr termo áquelle soffrimento.
--Tenciona, pois, voltar lá esta noite?
--Tenciono.
--Afigura-se-me trabalho inutil, sacrificio baldado.
--Porque?
--Pelas razões que já lhe disse. Se é realmente Helena de Noronha e não
quer tornar conhecida a sua presença, esta noite evitará apparecer junto
do templo onde sabe que é esperada pela pessoa que a reconheceu e lhe
chamou pelo nome...
--O que devo fazer então?
--Esperar que ella, perdido o receio, volte a apparecer regularmente, e
tomar todas as medidas para a seguir de longe até lhe descobrir o
paradeiro.
--É o que se me afigura mais prudente e mais acertado--approvou o padre
Manoel.--Demais, o sr. Julio de Montarroyo está n'um estado tal de
excitação febril, que uma segunda noite passada como a primeira póde
alterar-lhe profundamente a saude. Eu me encarrego, se v. ex.^a quer, de
mandar vigiar o local, e saber se a penitente continua a apparecer lá...
--Com a condição, porém, de que não hão de perturbal-a na sua oração nem
afugental-a d'aquelle sitio.
--A recommendação é inutil. Descance v. ex.^a que tambem eu e a sr.^a D.
Aurelia estamos com verdadeiro interesse em saber quem é a mysteriosa
creatura de que se trata. Prometta-me que não sahirá esta noite a expôr
a saude a um verdadeiro perigo, e amanhã ficará sabendo com certeza se a
penitente voltou ao templo.
Combinadas as coisas d'este modo, despediram-se os dois do doente,
recommendando-lhe socego e promettendo voltar no dia seguinte a
informal-o do que tivesse occorrido.
Já cá fóra, disse o padre Manoel á D. Aurelia:
--E que lhe parece a v. ex.^a este caso extraordinario que acabamos de
ouvir?
--Parece-me--respondeu a irmã de Gustavo--que o nosso pobre amigo tem
razão para estar bastante sobreexcitado com o que lhe succedeu.
--E v. ex.^a acredita que elle visse lá alguem?
--Acredito... Porque não hei de acreditar, se o que elle conta é a
confirmação dos boatos de que v. s.^a se fez echo?
--Oh, minha senhora! mas repare v. ex.^a que: eu apenas contei como
extravagante phantasia dos habitantes de Thayde o rumôr que corria entre
elles de que apparecia na Senhora do Porto uma alma do outro mundo.. a
alma da D. Rita de Briteiros.
--Mas v. s.^a não crê nas almas do outro mundo; e certamente não
recusará acreditar que a estranha apparição tenha realmente um fundo de
verdade, e que, em vez de ser uma alma penada, seja uma creatura em
corpo e alma, como tantas que, batidas pela desgraça irremediavel, fogem
dos povoados para habitarem os logares desertos, entregando-se á oração
e á penitencia!...
--Custa-me muito menos a crêr que o nosso amigo, allucinado pela febre e
pela estranha situação em que se encontrava, áquella hora e em
semelhante local por uma noite tão tormentosa, foi victima de uma
allucinação e julgou vêr o que não viu nem podia, vêr... Não reparou v.
ex.^a que elle tinha as faces afogueadas e os olhos brilhantes da febre?
Quem nos diz a nós que tudo aquillo não será o delirio da doença? O mais
acertado parecia-me chamar o medico...
--Conhece Julio de Montarroyo e sabe a organisação nervosa e irritavel
que elle é... Se lhe mandamos o doutor sem elle o reclamar, é muito
capaz de não o receber e de se offender comnosco...
--Para tudo ha meio, minha senhora... Contamos ao doutor o que se passou
e elle simulará um motivo qualquer para lhe ir fallar, sem ser o da
doença... Por exemplo: pedir-lhe o seu concurso para qualquer obra de
beneficencia... ou pedir-lhe informações sobre qualquer instituto medico
das grandes cidades que elle percorreu... Qualquer pretexto serve. O que
não devemos é deixal-o abandonado dos soccorros medicos, porque o pobre
homem, se já tinha _falha_ antes d'este caso, agora, com a mania de que
viu a filha de Norberto de Noronha, é muito capaz de ensandecer de
todo...
D. Aurelia intimamente revoltada contra esta apreciação do padre, teve
bastante força em si para responder apenas:
--Durante o tempo que tenho tratado com o sr. Julio de Montarroyo, ainda
não pude colher elementos que me auctorisassem a duvidar da sua lucidez
de espirito e da perfeita regularidade das suas faculdades mentaes... Se
agora me pareceu n'um estado de excitação febril, acho natural que assim
succeda depois da noite tempestuosa que passou e do violento abalo que
devia ter-lhe causado a apparição falsa ou verdadeira da estranha
penitente que elle diz ter visto... Como quer que seja, sr. padre
Manoel, a doença de que presentemente soffre o sr. Julio de Montarroyo
não é d'aquellas que se curam com synapismos e xaropes receitados pelo
medico.
--O que quer então v. ex.^a que se faça?
--Que v. s.^a cumpra o que prometteu... Que encarregue alguem de sua
confiança para vigiar o templo da Senhora do Porto e vêr se realmente
Julio de Montarroyo tem razão e os habitantes de Thayde tambem...
O padre Manoel encolheu os hombros:
--Pois v. ex.^a julga...?
--Julgo que ha de haver um motivo para que tal boato se espalhasse, como
creio que o sr. Julio de Montarroyo era incapaz de vir affirmar coisas
que não tivessem succedido, ou que pelo menos se lhe não tivessem
affigurado... O nosso dever, pois, é tirarmo-nos de duvidas e esclarecer
quanto possivel este mysterio.
--Está bem! Se v. ex.^a assim o deseja, mandarei o João Mil-homens, que
é arrojado e valente, e não crê em almas do outro mundo, rondar a
Senhora do Porto, esta noite e todas as outras que se lhe seguirem, até
não restar duvida de que não apparece lá viva alma...
--Porém, que isso se faça em segredo, com a maxima prudencia e cautella,
para não causar alarme na povoação nem dar logar a que a mysteriosa
penitente se afaste d'estes sitios.
--Fique v. ex.^a descançada, que o Mil-homens é fino como uma raposa e
tem o faro de um cão de caça para descobrir o esconderijo da tal
creaturinha, onde quer que ella se occulte. Vou já d'aqui prevenil-o e
estou bem certo que não ha nada, ou, se ha alguma coisa, não levará
muito tempo que não saibamos tudo.
O aldeão encarregado pelo padre Manoel de vigiar durante muitas noites
seguidas o templo e immediações da Senhora do Porto nada pôde observar
que confirmasse a narrativa de Julio de Montarroyo, nem sequer os boatos
que corriam entre os aldeãos de Thayde.
O padre Manoel sorria vaidosamente sceptico ao relatar á D. Aurelia os
baldados esforços empregados pelo Mil-homens para descobrir a penitente
e dizia:
--São tudo imaginações, minha senhora, são tudo imaginações... Eu já sei
o que isto é: um vê uma sombra e diz que é um homem; outro olha e vê um
gigante. Vem um terceiro e affirma logo que é um gigantarrão e jura até
que o ouviu fallar! Sabidas as contas, vae-se a vêr e não é nada... Eu
sempre disse que este sr. Julio de Montarroyo era boa pessoa, mas tinha
qualquer propensão para visionario...
D. Aurelia defendia o apaixonado de Helena.
--É certo--dizia ella--que o sr. Julio de Montarroyo é dominado por uma
paixão violenta que quasi constitue n'elle uma doença incuravel. Mas não
creio que esse estado d'alma o excite e lhe altere por tal modo as
faculdades, que o faça imaginar coisas que não vê nem ouve... Isso seria
a loucura, e o seu entendimento é por demais lucido para o suppôrmos um
allucinado...
--Valha-me Deus! não digo que elle esteja doido varrido... Elle conhece
as pessoas e sabe o que diz... Mas n'este caso, minha senhora, tenha v.
ex.^a paciencia, eu julgo que elle viu tanto a tal penitente como eu vi
os milagres de Santo Antonio...
--Mas acredita n'elles!...
--Acredito, que é o meu dever...
--Pois então acredite tambem o sr. padre Manoel nos factos narrados pelo
sr. Julio de Montarroyo, por muito inverosimeis que elles lhe pareçam...
Note v. s.^a que elle não diz que prégou aos peixinhos e que elles o
ouviram devotamente com muita attenção, nem affirma que fez levantar
Norberto de Noronha da sepultura para dizer quem o matou... Conta
simplesmente que viu uma pobre mulher prostrada nos degraus de um
templo, invocando a Senhora do Porto para que lhe désse a morte... Isto
não é tão inverosimil, acho eu, que repugne acreditar-se...
--Minha senhora--volveu o padre Manoel fungando uma pitada--o sr. Julio
de Montarroyo não é santo Antonio nem tem como aquelle santo
reconhecidas auctoridades theologicas a abonar-lhe a veracidade dos
casos que lhe succedem ou que diz haverem-lhe succedido. Demais, minha
senhora, S. Thomé tambem precisou de vêr para crêr... Ora eu já me
contentava, para crêr, com o testemunho do João Mil-homens, que não é
nenhum doutor da egreja, mas que é homem capaz de averiguar se uma coisa
que vê é pau ou é pedra. Mas o João Mil-homens diz que não viu nada na
Senhora do Porto... Ora se elle não viu nada, como é que os outros podem
ter visto?
--É possivel e até provavel que a estranha creatura cuja existencia real
o sr. padre Manoel põe em duvida, ao vêr-se surprehendida na sua oração
pelo sr. Julio de Montarroyo, tivesse receio de ser novamente encontrada
e reconhecida e resolvêsse mudar de sitio e fugir para bem longe...
--Póde ser--acquiesceu o padre Manoel, incredulo.
--No emtanto, e seja como fôr, v. s.^a faz-me o obsequio de continuar a
mandar vigiar o local. Eu me encarrego de gratificar o Mil-homens pelo
trabalho que lhe está incumbido.
--Para lá vae todas as noites. Mas creia v. ex.^a que tanto faz ir como
estar na cama... O homem, não pôde vêr lá pessoa alguma, pela simples
razão de nunca lá ter estado de noite essa tal penitente imaginaria que
se diz... Os tempos de fé acabaram, minha senhora, e quem reza gosta de
o fazer com ostentação, á luz do dia, diante de toda a gente... não se
vae pôr de noite, como os mochos e as corujas que chupam o azeite das
lampadas, a piar miserias á porta dos templos desertos...
XXIV
Estranho encontro
D. Aurelia, despedindo-se do padre Manoel, recolheu a casa, scismando
nas palavras do sacerdote.
--Será realmente Helena de Noronha?--dizia comsigo--Julio de Montarroyo
affirma que sim; mas o seu estado febril justifica em certo modo uma
allucinação, que o fizesse tomar pela mulher que ama, uma sombra, talvez
uma phantastica visão dos seus sentidos excitados... Emfim, o Manoel
Mil-homens, que é arrojado e valente, encarregar-se-ha de verificar até
que ponto são verdadeiras as affirmativas de Julio.
Ia deitar-se, quando no portão da casa soaram violentas pancadas.
Estranhou que assim batessem áquella hora, e calculou que não podia ser
senão um estranho desconhecedor de que o portão tinha uma sineta que
facilitava a chamada.
--Batem ao portão--disse ella para a criada.--Diga ao Francisco que vá
vêr quem é...
D'ahi a pouco, voltava a criada, annunciando:
--Está lá em baixo um homem que pede para fallar á senhora com toda a
urgencia.
--Que qualidade de homem é?
--Parece una homem do povo, minha senhora; mas não é d'estes sitios.
--Não disse como se chama, nem de mando de quem vem?
--O nome não disse. Diz que já foi a casa do sr. Julio de Montarroyo,
mas que não o deixaram fallar com elle por estar doente, e por isso que
deseja dar só uma palavrinha á senhora.
--Mande-o entrar, e o Francisco que fique de vigia, que não vá ser algum
mal intencionado.
--Não me parece... Só se fôr algum desgraçado que use d'este meio para
pedir abrigo por esta noite...
--Bem; vejamos o que elle quer.
Pouco depois, apparecia á porta da sala o mestre _Tomba_.
D. Aurelia tinha-o visto em casa de Julio de Montarroyo e reconheceu-o
logo.
--Ah! é vocemecê, mestre _Tomba_?
--Sou eu, minha... Vossa _incelencia_ perdoará eu vir _trupar_ á porta a
esta hora, mas ha um _causo_ que não póde deixar de ser...
--Diga, mestre, diga!--exclamou D. Aurelia assustada com as attitudes e
gestos solemnes do velho sapateiro--Occorreu alguma desgraça?
--Uma grande _desgracia_, minha senhora! E se vossa _incellencia_ não
acode e manda alguem comigo, a _probe_ de Christo está aqui, está a dar
o ultimo suspiro!... Já fui a casa do sr. Julinho p'ra lhe contar o
_assucedido_.., Mas lá _dixeram-me_ que elle _támem_ estava de
_catrambias e atão_ eu lembrei-me de vir ter co' a senhora p'ra esta
obra de caridade...
--Mas de que se trata, mestre? Falle.
--Trata-se de uma _probe_ creatura, uma triste mulhersinha que eu topei
alli adiante, cahida na estrada sem dar por burro nem por albarda!
--Uma mulher!?
--Sim minha senhora... Eu vinha p'ra cá e dava ó canello com toda a
força, porque se me tinha feito escuro mais cedo do que eu pensava, e
estava morto por chegar a casa do sr. Julinho, porque _támen_ já trazia
uma lazeira que nem via nada.. Vae n'isto, não sei como reparo e vejo
estirado ao canto da estrada um _burto_ preto que me parecia coisa
viva... Cheguei-me, sempre com cuidado, que não fosse ser algum alma de
cantaro que estivesse a _infingir-se_ morto, p'ra me deitar as unhas e
alimpar-me o que eu _trouvesse_, e vi que o dito _burto_ não mexia com
pé nem com mão... Accendi um _phrophe_, cheguei-lh'o á cara, e era uma
mulher, coitadinha! Chamei por ella, abanei-a, mas, qual quê! a _probe_
de Christo mal resfolegava... estava sem sentidos! Inda me lembrou de
pegar n'ella ás costas e trazel-a comigo; mas a caminhada era mui bem
grande e eu _támem_ já vinha estafado, sem poder comigo... de modos que
deitei a correr p'ra vir ó sr. Julinho contar-lhe o caso e pedir-lhe que
mandasse alguem que me ajudasse a trazel-a... Mas elle támem está
doente...
D. Aurelia, verdadeiramente commovida com esta narrativa, não deixou que
o sapateiro terminasse.
Chamou os criados e mandou que fossem com o sapateiro buscar a infeliz.
--Levem um lampeão para se alumiarem... Deitem roupa bastante na padiola
e tragam n'ella a pobresita com cuidado. De caminho, um que venha por
casa do medico pedir-lhe para chegar aqui n'um instante. Vá, não se
demorem... lembrem-se que é uma vida que vão salvar!
Estas ordens puzeram em movimento toda a gente da casa, e poucos minutos
decorridos, seguia o _Tomba_, pela estrada, á frente do grupo, em
soccorro da infeliz creatura.
Uma hora depois regressavam o _Tomba_ e os criados de D. Aurelia,
conduzindo na padiola o corpo quasi inanimado da desconhecida que o
sapateiro encontrára abandonada no caminho.
A irmã de Gustavo, ao sentir o ruido dos homens que entravam o portão,
acudiu á sala de entrada, e sem attentar na pessoa que elles conduziam,
deu ordem para transportarem a enferma para um quarto onde já havia uma
cama preparada.
A esta hora chegava tambem o medico que acudia solicito ao chamamento,
julgando que se tratava de algum familiar da casa ou talvez mesmo da
propria D. Aurelia.
--Então, quem temos por cá doente?--disse elle ao encarar D. Aurelia--Já
vejo que não é v. ex.^a. E antes assim.
--Felizmente, doutor, não sou eu a que preciso dos seus soccorros.
Trata-se de uma pobre creatura que foi encontrada cahida, sem accordo,
na estrada, e que eu mandei buscar e recolher pelos meus criados.
--Onde está ella?
--Lá dentro, no quarto onde mandei arranjar-lhe uma cama.
--Vamos vêl-a.
E encaminhou-se para o interior da casa, guiado por D. Aurelia.
A infeliz estava já mettida no leito, mas ainda sem dar accordo de si.
Informou a criada que a despira, que a desgraçada trazia os vestidos
rotos e sujos da terra da estrada.
Vinha andrajosa. Notava-se-lhe, porém, desusado asseio nas roupas
brancas, humildes e pobres, mas em que havia o cuidado proprio de pessoa
que está habituada á limpeza--que é o primeiro indicio de uma boa
educação.
O medico e D. Aurelia abeiraram-se do leito e examinaram a desconhecida.
Trazia os cabellos em desalinho e na face macerada e pallida havia os
vestigios profundos de mil soffrimentos e privações.
Com os olhos cerrados e a respiração quasi imperceptivel, a desditosa
similhava um cadaver.
Não era ainda idosa, mas as rugas de uma velhice precoce sulcavam-lhe o
rosto triste.
D. Aurelia fitou-a com uma compassiva curiosidade e não se recordou de
ter visto entre os innumeros mendigos, que todos os dias lhe batiam á
porta implorando a esmola da sua caridade, uma figura que se lhe
assimilhasse.
--Esta pobre mulher--disse ella--não deve ser d'estes sitios.
--Tambem me parece--affirmou o doutor--Pelo menos, não é d'estas aldeias
proximas onde exerço a clinica e onde conheço quasi toda a gente.
--O que tem ella, doutor?--perguntou D. Aurelia ao medico, que acabava
de auscultar a doente.
--Frio e fome, talvez...--respondeu o homem de sciencia, fazendo uma
careta--Esta mulher tem sido mal alimentada, a fadiga prostrou-a e seria
esta com certeza a sua ultima noite, se a caridade de v. ex.^a a não
amparasse. Vamos tratar de a restituir á vida, e encetaremos depois o
tratamento que julgarmos conveniente... Creio, porém, que não teremos
grande necessidade de recorrer á botica... Afigura-se-me que bastará
apenas recorrer á cosinha...
--Vou mandar-lhe já matar uma gallinha!--acudiu D. Aurelia.
--Sim--approvou o doutor.--E tenha v. ex.a a bondade de mandar-me cá a
criada, a Brigida, para me ajudar no tratamento a que vou sujeitar a
doente.
--Eu estou aqui, doutor... Diga-me o que é preciso fazer...