--O que desejas de mim? Dize!

--Desejo que me salves! A minha vida, a minha liberdade, o meu futuro,

está tudo na tua mão!

--Como? O que posso eu fazer?

--Vaes ouvir. Não posso continuar a viver em Portugal sem entrar na

cadeia. É, pois, indispensavel que eu fuja quanto antes para a Hespanha

e por lá me demore até se apurar a minha innocencia. Presentemente não

posso contar com o auxilio de parentes nem amigos. Só tu me pódes valer,

emprestando-me a quantia necessaria para eu por lá não morrer de fome...

Vinha, pois, pedir ao teu amor a salvação que todos os outros me

recusam...

Era isto justamente o que Leonor esperava para acabar de se convencer da

perfidia do amante.

João Lazaro havia-lhe dito que Eugenio viria, n'uma ultima exploração,

arrancar á sua boa-fé o dinheiro para fugir com Beatriz para a Hespanha.

Confirmada a denuncia de João Lazaro pelas palavras do bohemio, a loura

sentiu dentro em si o demonio do ciume a espicaçar-lhe o desejo da

vingança.

--Quinhentos mil reis...--disse com voz tremula.--Não é isso o que

precisas?

--Sim, é isso mesmo!--exclamou o bohemio sem reparar no tom de pungente

sarcasmo em que a pergunta lhe fôra feita--Quinhentos mil reis é quanto

eu tenho calculado que me serão precisos para os primeiros tempos...

Leonor sorriu e disse:

--E se eu fosse comtigo?

O bohemio fez um movimento de surpreza a estas palavras.

--O que!--exclamou--querias ir comigo para Madrid?

--E porque não?--tornou Leonor sem desfitar os olhos do amante.

Eugenio ficou um momento calado. Pensava. A companhia da loura

ser-lhe-hia de alta conveniencia, se ella tivesse dinheiro em abundancia

para gastar com elle. Mas o bohemio sabia que ella apenas poderia dispôr

das suas joias e pouco mais.

Para o acompanhar, seria inevitavel o rompimento com o commendador

Garcia, e, desapparecida esta fonte de receita, que poderia ainda

ser-lhe um auxilio valioso mesmo distante, a loura ser-lhe-hia um

encargo pesado, senão odioso, em meio da sua desgraça.

Além d'isso, elle não podia contar com os encantos de Leonor n'um paiz

onde as mulheres são as mais graciosas e tentadoras do mundo e onde o

genero abunda em tal maneira, que d'elle faz annualmente grande

exportação para as principaes capitaes da Europa e até para o Brazil.

Assim, depois de rapidamente ter ponderado a inconveniencia de um tal

passo, respondeu:

--Comprehendes, minha querida, quanto me seria agradavel a tua companhia

n'uma terra estranha, longe da patria... Mas eu devo antepôr ao meu

egoismo a tua felicidade... Para me acompanhares, serias forçada a

romper com o commendador, a perder a sua protecção... E esgotados os

primeiros recursos, o que havia de ser de nós, dois ou tres mezes depois

de havermos d'aqui partido? Não, eu não posso consentir que faças por

mim esse sacrificio, porque é verdadeiramente o sacrificio do teu futuro

e do teu bem estar o que um tal passo importa!

O bohemio era, senão sincero, pelo menos sensato e pratico. Mas Leonor é

que não traduziu assim o seu pensamento e, attribuindo a recusa ao

desejo que o amante teria de partir com Beatriz, como João Lazaro lhe

fizera crêr, irrompeu n'uma explosão de ciume e de colera mal contida.

--Eu já esperava a resposta, miseravel!--bradou ella enfurecida--Eu bem

sabia que o teu maior martyrio seria que eu te acompanhasse, porque,

indo comtigo, não poderias levar na tua companhia a mulher por quem me

trocaste, vil!

--Leonor!

--Não tentes negar! Sei tudo, canalha!

--Leonor! Juro-te...

--Não jures, biltre, que as tuas juras são mentidas, são a hedionda

expressão do teu caracter baixo, cobarde e infame, vil explorador de

mulheres!...

E, rapidamente, tirando do bolso o rewolver, sem que Eugenio, ajoelhado

a seus pés, tivesse notado este movimento, apoiou-lhe o cano da arma á

fronte direita e disparou.

O desgraçado cahiu exanime no pavimento, sem soltar um gemido.

Então Leonor, pondo-lhe o revolver ao lado, levantou-se e, desgrenhada,

a face livida pela commoção do momento, levantou-se e começou clamando

por soccorro em brados afflictivos.

A primeira que acudiu foi a velha Marianna.

--Meu Deus! o que foi, senhora?

--Matou-se! Matou-se! Ai, quem acode! Vá chamar um medico... ande, vá

depressa!

E com as mãos enclavinhadas, estorcendo-se n'uma dôr angustiosa, a loura

debruçou-se sobre o cadaver do amante e rompeu n'um chôro

lancinantissimo.

O estampido do tiro e os gritos de Marianna, que alternavam com os da

sua joven ama, attrahiram as attenções da visinhança e das pessoas que

iam passando.

Em breve a casa encheu-se de gente, e, por entre a turba, appareceu

tambem o guarda civil de giro, que recebeu as primeiras declarações,

participando o caso para o commissariado.

XXII

Mysterio

Emquanto o sapateiro andava pelo Porto farejando o rasto de madre Paula,

passavam-se em S. Martinho do Campo acontecimentos extraordinarios e

verdadeiramente inesperados, tanto para o leitor como para os

personagens d'esta singela narrativa.

Julio de Montarroyo e Aurelia de Magalhães, propellidos ao natural

desafogo de suas mágoas intimas, encontravam-se a miudo, quer em curtos

passeios, quer em reciprocas visitas, que semanalmente se faziam, sem

ultrapassarem jamais os limites de uma estricta e rigorosa observancia

das leis do decoro e do respeito devido á posição de cada um.

D. Aurelia, se alguma vez visitava o amigo de seu irmão, quando um

ligeiro incommodo o retinha no leito, ia sempre acompanhada da sua

criada de quarto e era recebida na presença da velha governante de

Julio; e este, pela sua parte, quando visitava a amiga de Helena, tinha

sempre todo o cuidado em escolher os dias em que D. Aurelia recebia

algumas pobres viuvas que caridosamente soccorria com o excesso do

rendimento de sua casa.

Ainda assim, e apesar do cuidado e escrupulo que ambos punham em não dar

pasto á maledicencia da aldeia, sem duvida mais acerada e mais venenosa

do que a das grandes cidades, não faltava quem esperasse, como coisa

mais ou menos natural e proxima, a noticia de um enlace matrimonial

contrahido entre os dois.

Ora convem dizer-se que entre D. Aurelia de Magalhães e Julio de

Montarroyo se estabelecera esse mutuo e invisivel laço de sympathia que

une e impelle irresistivelmente uns para os outros todos os grandes

desgraçados, fazendo-os compartilhar, n'um sentimento de inquebrantavel

fraternidade, as dôres intimas que os dilaceram.

Assim, Julio de Montarroyo sentia grande lenitivo á sua magoa quando

podia referir á irmã de Gustavo toda a grande chaga incuravel que Helena

de Noronha lhe abrira no peito; e a amiga de Helena tambem não se sentia

menos feliz quando podia recordar, na presença de quem bem a

comprehendia, todo o enorme thesouro de venturas que perdêra com o

marido e com o filho, prematuramente mortos.

Julio de Montarroyo não occultara de D. Aurelia o encontro com o _Tomba_

e a missão de que o encarregara na esperança de poder descobrir, com a

existencia de madre Paula, qualquer indicio do destino que tomara a

_irmã Dorotheia_.

--Uma coisa que extraordinariamente me preoccupa e mortifica,--dizia

elle--não é tanto a ingratidão de Helena como é este mysterio que pesa

sobre a sua existencia! Que ella sahiu de Portugal não resta duvida,

pois que nem minha prima Lucilia nem nenhuma das educandas e noviças que

com ella estiveram no Sardão ouviram mais noticias suas. Mas, sendo

assim, como é que nem em Pariz nem em nenhuma das casas religiosas do

estrangeiro, que todas percorri e visitei, eu pude descobrir indicios da

sua passagem?

--As congregações religiosas--observou sensatamente Aurelia de

Magalhães--ao que me consta, parece que teem o costume de mudar

frequentemente o nome das _irmãs_; de modo que a que aqui se chama irmã

Dorotheia, alem chama-se irmã Ephigenia, n'outra parte irmã Sophia, e

assim por deante, tornando por esta fórma impossivel estabelecer a

identidade de cada uma d'ellas. Quem nos diz a nós que, com Helena, não

terá succedido o mesmo?

--Sim; e creio bem que succederia. Porém, ainda quando assim fosse,

Helena não teria deixado de me reconhecer, se se encontrasse em qualquer

das casas que percorri. Porque não me limitei a simples informações.

Apparentando decidido amor pelas instituições jesuiticas, consegui, á

custa de donativos, captar a confiança e a estima de todos os superiores

e superioras, sendo em toda a parte recebido como um verdadeiro amigo e

auxiliar valioso; isto é, como um jesuita de casaca.

D. Aurelia sorriu tristemente.

--E quem lhe assevera que, sob essa apparencia de estima e confiança, o

senhor não era rigorosamente vigiado e a sua verdadeira individualidade

absolutamente conhecida?

--Impossivel! Quem poderia denunciar-me, se ninguem estava na posse do

meu segredo?

--Isto é apenas uma supposição que eu faço--apressou-se a dizer D.

Aurelia.--Tenho ouvido attribuir aos jesuitas tanta sagacidade e astucia

na defesa dos seus intimos interesses, que não seria para estranhar que

elles pudessem illudir e annullar todos os esforços empregados pelo sr.

Julio para encontrar Helena...

--Não, não! Helena morreu. Do contrario, eu teria tido noticias

d'ella... Se o _Tomba_ encontrar madre Paula, ella confirmará, estou

certo, esta minha funesta previsão...

--E se, pelo contrario, Helena viver ainda?

Julio pareceu agitado por uma pilha galvanica.

--Oh! se fôr viva, tornarei a vel-a, ainda que para isso tenha de

sacrificar os ultimos dias da minha vida!

Este dialogo passava-se em casa de D. Aurelia, ao cahir da tarde. A irmã

de Gustavo, no intuito de proporcionar a Julio, seu vizinho e amigo de

seu irmão, uma distracção que lhe aligeirasse as horas tristes das

pesadas e longas noites de inverno, costumava tambem receber o parocho

da freguezia, que não era já aquelle saudoso padre Luiz dos tempos de

Norberto de Noronha.

Era todavia um homem amavel, bondoso e illustrado, de trato simples e

affectuoso, tendo sempre um sorriso para todas as tristezas, uma palavra

de consolação para todas as amarguras.

Repartia-se o bom do cura entre estes dois desgraçados, ora visitando

Julio, ora visitando D. Aurelia, succedendo que raras vezes deixavam os

tres de encontrar-se juntos e de, em commum, trocarem impressões sobre

os acontecimentos que se succediam, quer na localidade, quer mesmo

n'outros pontos do paiz, e cuja noticia lhes chegava pelos jornaes.

D'esta vez, o padre Manoel faltára á hora habitual da visita e entrava

na sala, já tarde, com o ar de quem trazia um acontecimento grave a

noticiar.

--Hão-de ter a bondade de me desculpar a demora--disse elle com o seu

eterno sorriso bondoso--mas não foi culpa minha...

--Já cá estavamos sentindo a sua ausencia, sr. padre Manoel...--disse

amavelmente D. Aurelia.

--Que quer v. ex.^a, minha senhora? Esteve em minha casa o Joaquimsinho

de Thayde contando-me um caso extraordinario...

--Sim?

--É verdade. Imagine v. ex.^a que ha oito dias que se vê todas as noites

na Senhora do Porto uma mulher desconhecida, prostrada com a face no

chão, resando em frente á porta principal do templo e passando assim as

longas horas da noite n'uma oração muda. De manhã, aos primeiros alvôres

do dia, some-se e ninguem mais a vê!

--Isso, naturalmente, ha-de ser alguma das muitas phantasias dos

invencioneiros das nossas aldeias--disse D. Aurelia sorrindo--É lá

crivel que uma mulher possa passar assim oito dias prostrada á porta

d'um templo e sumir-se como um demonio de magica, sem que se saiba o

caminho que toma e o destino que leva?

--O Joaquimsinho de Thayde assevera que a viu de longe; mas não se

atreveu a aproximar-se, apavorado pelo mysterio que cerca a desconhecida

e que já vae formando lenda.

--Então ninguem se atreve a aproximar-se d'ella e a interrogal-a?--disse

Julio.

--Ninguem. Como v. ex.^a sabe, esta nossa gente do Minho é temivel com

um cacête nas unhas, fazendo frente ao adversario que se lhe apresenta

de cara levantada, n'uma arremettida franca. Porém, desde que a sombra

de um mysterio extraordinario lhe excita a phantasia, torna-se

supersticiosa, fraca, timida, e foge do rugir de uma folha sêcca com a

precipitação de quem foge do diabo. Por isso, não admira que, oito dias

volvidos, sobre a extraordinaria apparição que a todos apavora, ainda

até agora ninguem se haja atrevido a devassar aquelle estranho mysterio.

--Mas o que julgam elles que seja?

--As versões variam. Uns querem que seja a alma penada da D. Rita de

Briteiros que anda pela Senhora do Porto a espiar os seus peccados, que

eram muitos... Outros pensam que, embora aquelle mysterioso vulto

apresente fórmas humanas, é comtudo um enviado do espirito das trevas

para attrahir alli algum dos incautos habitantes de Thayde e leval-o em

corpo e alma para o inferno...

--E vossa reverendissima o que diz?--interrompeu Julio.

--Eu digo que, se não é a sombra de alguma arvore, transformada pelos

olhos medrosos dos aldeãos de Thayde n'um vulto de mulher sobrenatural,

então é alguma desgraçada a quem o remorso afflige e que busca na

solidão da noite e no balsamo da oração o allivio e perdão de suas

culpas.

Julio ouvia a estranha noticia, trazida pelo padre, com grande

curiosidade e interesse. Dir-se-hia que uma voz secreta o avisava de que

aquelle facto extraordinario, apparentemente absurdo e inacreditavel,

como tantos que a phantasia da gente das aldeias borda a capricho nas

noites interminaveis do inverno, ao fogo da lareira, tinha relação

intima com a sua triste historia, feita de amarguras e de esperanças

perdidas.

--E acredita, padre Manoel--disse elle por fim--que a oração, por tal

modo, constitua balsamo efficaz para as tribulações de uma alma

alanceada de remorsos?

--Creio que a oração é sempre um balsamo consolador de

afflictos--respondeu o padre.--Quando nas angustias do soffrimento

volvêmos os olhos á roda de nós e não encontramos em nada do que os

cerca um lenitivo á nossa dôr, então volvemos os olhos ao céo e, pondo

em Deus toda a esperança, achamos o conforto e o allivio que nenhuma

força humana póde dar-nos.

--Mas n'essa mulher, que os aldeãos de Thayde phantasiaram ou realmente

viram na Senhora do Porto, não ha apenas uma alma crente, buscando na

oração o balsamo suavissimo da esperança, que as coisas terrenas já não

pódem dar-lhe: ha uma expiação, ha um rigor de penitencia, que revela a

existencia de faltas, erros e talvez crimes, cuja lembrança aterra e

apavora a propria creatura que os commetteu...

--Por isso eu disse a v. ex.^a--volveu o padre, com bondoso sorrir--que,

a ser verdade o que se diz, não ha duvida que se trata de uma

desgraçada, atormentada pelo remorso, pedindo o allivio e o perdão de

suas culpas...

--Se a expiação corresponde ás faltas commettidas, devem estas ter sido

muito grandes para que a propria culpada busque expial-as por semelhante

modo.

--Só Deus lê no coração da creatura e só Elle póde julgar com justiça

dos erros de cada um... Em todo o caso, o que é evidente é que estamos

em frente de uma creatura desgraçada e como tal merecedora da nossa

compaixão...

Julio calou-se por alguns instantes, parecendo meditar nas palavras do

sacerdote.

--Ás vezes--concluiu por fim--a imaginação exagera em nós a gravidade de

erros commettidos, avultando-os até os fazer tomar as proporções de

crimes horrorosos que nos apavoram e mortificam... Póde ser que essa

pobre creatura seja uma d'estas allucinadas que, por um excesso de

sensibilidade doentia, se julgam culpadas de crimes que não

commetteram...

--Tudo póde ser--tornou o sacerdote--Na minha opinião, toda a penitencia

significa arrependimento e todo o arrependimento affirma a existencia de

uma alma bôa, embora um momento transviada do recto caminho pelo

diabolico poder das paixões... Alma feita para o mal e endurecida no

crime não experimenta arrependimento. Póde simulal-o, é certo, por mêdo

ao castigo, mas, em tal caso, não busca as sombras da noite nem a

solidão dos logares desertos para exercitar o seu fingimento... Pelo

contrario, ostenta-se publicamente á luz do dia, prostra-se nos templos,

em face dos altares, aos olhos de todos aquelles a quem quer illudir...

derrama lagrimas fingidas, bate murros no peito, grita que tudo, espera

de Deus e tem o diabo a rir no coração. Não é d'esta natureza a

mysteriosa penitente que traz sobresaltados os habitantes de Thayde,

creio eu, porque desapparece e esconde-se, aos primeiros clarões da

aurora, nas covas do monte, sem que ninguem conheça onde se occulta.

--O que é estranho--ponderou Julio--é que ninguem até agora se lembrasse

de verificar se realmente se trata de uma creatura humana, ou se tudo

isso não passa de uma absurda ficção de espiritos broncos... Porque não

irá o proprio regedor com os seus cabos proceder a uma diligencia n'esse

sentido?

--Disse-me o Joaquimsinho de Thayde que o regedor é o primeiro a

recolher a casa ao cahir da noite, tomado de um terror supersticioso...

Para aquella gente, é ponto de fé que se trata da D. Rita de Briteiros,

morta ha dois mezes, com fama de ter envenenado o irmão e a cunhada para

lhes herdar os bens. E o regedor de Thayde não quer nada com almas do

outro mundo..

--O que me parece--opinou D. Aurelia--é que tudo isso não passa de uma

grosseira invenção d'algum malevolo inimigo da D. Rita, que nem mesmo

depois de morta quer deixar-lhe o descanço da sepultura... O sr. padre

Manoel não ignora quanto é má e ás vezes profundamente perversa esta

gente da aldeia, perseguindo com os seus odios, ainda além da campa,

aquelles que em vida lhe não mereceram sympathias...

--Sim, é certo--concordou o padre Manoel--e creio bem que a sr.^a D.

Aurelia tem razão em pensar assim, tanto mais que a D. Rita--Deus lhe

perdôe!--era geralmente odiada, e supponho que com algum motivo...

--Devemos perdoar aos mortos--tornou D. Aurelia n'um tom de suave

recriminação--pois não é justo que vamos revolver-lhes o pó da sepultura

para desenterrar crimes de que a justiça humana lhes não tirou contas e

que, affectos ao tribunal da justiça divina, só a Deus pertence

julgar...

--Eu tambem concordo, minha senhora--replicou o padre Manoel--que

devemos perdoar aos mortos e deixal-os repousar na eterna paz do

sepulchro. Todavia, não deixo de reconhecer que esta deshumana e talvez

impiedosa crueldade do povo para os que se finaram e que em vida não

seguiram as normas do bem e da virtude, tem um alto fim moralisador,

qual é o de dizer aos que ficam que os seus crimes nem mesmo depois da

morte obteem o perdão e o esquecimento do mundo...

--Mas quantas abusões, quantos erros, quantos absurdos e quantas

injustiças lançadas sobre a memoria de pessoas erroneamente julgadas

pela opinião, sempre fallivel, do vulgo ignaro?--interrompeu Julio--O

sr. padre Manoel não ignora decerto que, por via de regra, não são os

peores aquelles que o povo aponta como maus...

--_Vox populi, vox Dei_... A voz do povo é a voz de Deus--argumentou o

padre Manoel, repetindo o proloquio latino.

--Mas tambem _vox populi, vox diaboli_...--retrucou Julio--E mais vezes

é a voz do povo a voz do diabo, do que a voz de Deus. Depois, vossa

reverendissima bem sabe, argumentar com superstições absurdas, com

apparições sobrenaturaes de almas penadas, é uma cobardia tão abjecta e

repugnante, que só tem desculpa na estupidez do vulgo semelhante fórma

de castigo infligido aos mortos!

O padre Manoel não insistiu, limitando-se a responder:

--Isto já vem assim do principio do mundo...

--E porque vem assim, devemos nós consentir que assim continue? Não me

parece justo. Illustremos o povo, desfaçamos-lhe erros e abusões em que

vive. Procuremos conduzil-o ao caminho do bem pela consciencia do dever

e não por principios erroneos de superstição absurda. E, pois, que em

Thayde não ha alguem sufficientemente sensato e honesto para dar um

exemplo de dignidade humana, eu irei esta noite mesmo á Senhora do Porto

investigar o que ha de verdade na mysteriosa apparição.

--Pois quer aventurar-se, por uma noite d'estas, a ir d'aqui á Senhora

do Porto!--observou D. Aurelia, espantada.

--E porque não?--respondeu Julio--Conheço o caminho e o meu cavallo é

seguro. Dentro de uma hora, estarei lá.

--É uma imprudencia!--reprovou o padre Manoel--V. ex.^a sabe que as

nossas estradas são mal frequentadas de noite...

--Estou habituado a toda a especie de encontros. Na minha mocidade fiz

muitas vezes o caminho, de noite, de Braga para Lanhoso, e era no tempo

do Papa Assucar...

--A mysteriosa apparição--tornou o padre Manoel--póde mesmo não ser mais

do que o pretexto para uma cilada.

--Uma cilada, a mim!--exclamou Julio--Não ha nada menos provavel... Quem

poderia esperar que eu, vivendo em S. Martinho do Campo, me importasse

com o que se passa de noite na Senhora do Porto?

--Não digo que seja uma cilada propositadamente armada para v. ex.^a.

Mas é sempre um perigo ir a gente metter-se nas ratoeiras armadas para

outros--aconselhou prudentemente o padre.

Julio sorriu desdenhoso.

--Seja como fôr--decidiu elle--irei certificar-me do que se trata. Se é

um conluio de malfeitores que pretendem por esta fórma espalhar o terror

no sitio e apavorar os credulos habitantes de Thayde, para mais á

vontade effectuarem o assalto e o roubo, a auctoridade ficará sabendo

com quem tem de se haver. Se, pelo contrario, é uma creatura infeliz,

uma existencia desgraçada que busca na penitencia e na oração o remedio

para as dôres da alma, é uma obra de caridade levar-lhe o balsamo da

piedade e da compaixão como lenitivo a tanto soffrer.

E consultando o relogio d'algibeira:

--São 10 horas--disse elle--Vou partir. Se antes da meia noite não

estiver de volta, amanhã de manhã poderá vossa reverendissima ouvir em

minha casa a narração fiel do que tiver acontecido.

--Repare, meu amigo--tentou impedir D. Aurelia--que a noite está

tempestuosa e que vae pôr em perigo a sua saude, bastante abalada.

--A minha existencia--replicou Julio com amargura--ha muito que decorre

batida pelos vendavaes do infortunio. Que importa uma noite de chuva a

quem traz a alma obscurecida n'uma perpetua noite de tempestuosas

desgraças? Até amanhã! Nada receiem por mim, que eu vou preparado para

tudo.

E sahiu, na resolução inabalavel de cumprir o que dizia.

XXIII

Allucinação

No dia seguinte de manhã, D. Aurelia e o padre Manoel, movidos da

extraordinaria curiosidade de saberem o resultado da audaciosa aventura

de Julio de Montarroyo, correram a casa d'este com o fim de o

interrogarem.

O excentrico apaixonado de Helena de Noronha estava no leito ardendo em

febre.

Ao vêr entrar D. Aurelia e o padre Manoel, estendeu os braços para

elles, exclamando:

--É horrivel, meus amigos, é horrivel!

--Como assim! Viu alguma coisa?--interrogou o padre com espanto.

--Vi... vi!...

--E então?

--Então... oh! não posso dizer-lhes o que vi...

--Malfeitores por certo...--aventurou D. Aurelia--teve de bater-se com

elles...

--Não... não!--contradisse o doente com vehemencia--Não se trata de

malfeitores... Ha effectivamente alli uma creatura extraordinariamente

desgraçada, um ser mysterioso que tem alguma coisa de sobrenatural e

phantastico, impossivel de reconhecer...

Padre Manoel e D. Aurelia trocaram um rapido olhar como se quizessem

significar um ao outro que havia talvez motivo para duvidar da

integridade mental do seu interlocutor.

Julio, com os olhos brilhantes e a face afogueada pela febre, n'uma

grande agitação, proseguiu:

--Fui. A noite estava realmente tempestuosa e horrivel. Atravessei

Quintella sob uma chuva violenta e, quando cheguei a Thayde, o temporal

desencadeou-se n'um vendaval desfeito. Ainda assim, não parei. O meu

fito era ganhar a Senhora do Porto e surprehender o mysterioso vulto no

extasis da oração. Chegando ao sopé do sanctuario, apeei-me, prendi o

cavallo a uma arvore e, envolto na minha capa, com o revolver

engatilhado, fui subindo lentamente o escadorio, até á crista do monte

onde se ergue o templo da Senhora... A treva era profunda e eu mal

poderia divisar quem quer que fosse, por muito perto que estivesse de

mim, se a luz dos relampagos, fendendo a miudo o espaço, me não

illuminasse o caminho. No alto, tudo estava em silencio e tudo

deserto...

--Não viu, portanto, pessoa alguma?--interrogou o padre Manoel.

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 21 / 28 段