--A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em

expedientes para se esquivar á perseguição da policia...

--Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?

--Que juizo fórma de mim?--perguntou João Lazaro encarando-a com

desdem--Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero,

julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?

--Mas não foi isso o que o senhor me prometteu!--bradou Leonor

indignada.--O senhor disse-me que me informaria de tudo...

--E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa,

senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade

de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...

--Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente

prevenida...

--Elle ainda não casou...

--Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe

mil protestos, mil juras de amor!

--Tudo isso, porém, não é casar--tornou João Lazaro com placidez.

--Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me!--gritou Leonor n'um

despedaçamento do coração.

--Bem! E o que quer a senhora?

Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de

colera:

--Pois ainda não comprehendeu?--rouquejou ella--Quero vingar-me!

--Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de

Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um

momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que

ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de

vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de

desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...

--Cale-se!--intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro,

que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar--Essa não é a vingança

que me satisfaz, a vingança que eu sonho!

João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:

--Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?

A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em

cheio uma bofetada na face.

--Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar?--disse ella tremula

de colera.

--Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um

insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se

encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia

á vingança ruidosa contra Eugenio...

--Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á _qualidade_

da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de

tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!

--Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos

seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de

uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas

palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio

de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como

poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o

casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do

commendador Garcia?

--E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir

quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?

--Punir, disse?

--Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria

mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou

com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se

Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de

outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo

cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu,

ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras

da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não!

Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o

por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que

se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto

de ficar viuva...

João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e

calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de

uma ameaça realisavel.

--Minha querida--disse elle--socegue e veja bem que n'esse estado de

excitação nada podemos fazer...

--Mas se eu já não quero fazer nada!--bradou Leonor.--O que eu quero

unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...

--Venha cá, Leonor!--exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e

obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e

conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por

coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe

desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?

--Oh! sim! sim! quero!--respondeu anciosamente Leonor, n'um

estremecimento nervoso.

--Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?

--A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!

--Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves

responsabilidades perante a justiça--ponderou João Lazaro.

--E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me

ludibriou, porque me trahiu!»

--A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo

o rigor da lei...

--Embora! Mas eu ficarei vingada.

--Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua

sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras

criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão

avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e

aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz

supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua

partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros

condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e

ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o

miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e

nos affectos do seu coração?

--Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a

rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á

mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me

humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a

prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo

e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!

--Mas, minha amiga--tornou João Lazaro com a voz mais doce e

persuasiva--não é isso tambem o que lhe estou dizendo...

--O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça

em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!

--Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma

publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem

por consequencia a morte de um homem, chama-se _crime_ e é punida

rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem

provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem,

chama-se _desastre_, _doença_, _fatalidade_, e a justiça não tem alçada

para a punir.

--Não entendo!--disse Leonor.

--Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de

modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria

assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á

justiça?

--De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no

peito de uma mulher como eu, se existe _o amor que salva_, tambem ha o

_amor que mata_.

--Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança

que deseja?

--Como poderia eu recompensal-o?

--Amar-me-hia?

--O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material

cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz

amar-me comprehende assim o amôr?

--Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está

dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada,

pertencer-me-hia?

--Em espirito, não. Materialmente, sim.

--É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados

que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o

corpo...

--Imponho uma condição, porém--objectou Leonor.

--Diga.

--Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro

permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a

minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem

quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia

ás minhas complacentes attenções...

--Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de

chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.

--É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o

senhor onde está Eugenio?

--Talvez...

--Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um

assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha

tranquillidade...

--Diga antes--de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...

--Seja! Onde está Eugenio?

--N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero

bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...

--Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?

--Nunca é tarde para a vingança.

--Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar

vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!

--Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a

pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.

--Como o sabe?

--Disse-m'o elle.

--Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...

XXI

Tal vida, tal fim

Leonor, prevenida na vespera por João Lazaro, ficou sabendo que Eugenio

iria procural-a n'essa noite, e d'accordo com aquelle, mandára mudar a

fechadura da porta para impedir que elle entrasse sem bater.

No emtanto, não se deitára. Espreitando pela janella, vira-o

aproximar-se, vira o espanto que lhe causára a mudança da chave,

traduzido na attitude hesitante do bohemio, indo ao meio da rua a espiar

as janellas como que a certificar-se de que era aquella a mesma casa e

de que tudo lá dentro estava em silencio.

Viu-o depois dar alguns passos na rua, como que a tomar uma resolução,

encostar-se á parede fronteira com os olhos cravados nas janellas,

voltar á porta tentando vêr se a chave seria a mesma, e por ultimo

afastar-se a passo vagaroso como homem que não sabe bem o que pensar

d'uma contrariedade que lhe succede. Viu tudo, e por dentro dos vidros,

na escuridão da sala, com os dentes cerrados pela colera, ia murmurando

com rancôr profundo:

--Miseravel! vinhas ainda, pela calada da noite, saltear a tua victima,

roubar-lhe o dinheiro que precisas para sustentar a mulher por quem a

trocaste! Vae! vae e não voltes... Porque se voltas, saberás então

quanto custa ludibriar uma mulher como eu!

E nervosa, tremula, a face horrivelmente pallida, os louros cabellos em

desalinho, cahiu sobre um sofá e desatou n'um choro convulso e abafado.

Esteve assim por muito tempo, sem dormir, sem pensar. A febre

escaldava-lhe a fronte, e as lagrimas, em vez de lhe acalmarem a enorme

excitação, mais lh'a exacerbavam. De manhã, aos primeiros fulgores da

aurora, viu-se a um espelho e achou-se horrivel, com as feições

transtornadas pela vigilia. Teve então um accesso de furor invencivel.

Era elle, o perfido, o miseravel, que depois de lhe ter extorquido os

affetos e o dinheiro, depois de lhe haver roubado o socego e a

tranquillidade, ainda por cima lhe roubava a belleza! Oh! a vingança

seria terrivel!

Desde essa hora, Eugenio de Mello estava condemnado.

Logo que a velha criada abriu a porta da rua á hora habitual para fazer

as primeiras compras do dia, Eugenio de Mello, que já espiava os

arredores da casa, entrou no portal e subiu ao andar superior.

Como pessoa familiarisada com os costumes da casa, dirigiu-se ao quarto

de Leonor e encontrou a porta fechada por dentro.

Ia bater, quando a criada, apparecendo, preveniu:

--Faça o favor de não bater, que a senhora passou mal a noite e

recommendou que a não acordassem.

--Essa ordem não pode entender-se comigo--volveu Eugenio, admirado do

modo como lhe coarctavam a liberdade que até alli usara.

--Não se entende com o senhor, porque ella não o esperava. Mas deu-me

esta ordem e a minha obrigação é cumpril-a.

Eugenio encarou a criada por alguns momentos espantado de tamanho

atrevimento, a que não estava habituado.

--Marianna--disse elle, contendo-se e tomando um tom affavel--o que se

tem passado n'esta casa, que encontro tudo tão mudado?

--O que se tem passado, diz o senhor? Não se tem passado nada. Está tudo

na mesma.

--Tudo na mesma, não. A chave da porta da rua foi mudada. Agora é outra.

Leonor, que d'antes dormia com a porta do quarto aberta, agora tem a

precaução de se fechar por dentro. Porque é isto?

--Porque ha de ser?--respondeu a criada fazendo uma careta

inexpressiva.--O senhor bem sabe que, em casa onde não ha homem, não

póde uma senhora estar a dormir com a porta aberta. O sr. Eugenio foi-se

embora, a menina não o esperava... Eu ando cá na minha vida, e assim

como o sr. Eugenio entrou, podia entrar outra qualquer pessoa por ahi

dentro e ir dar com a senhora na cama. Por isso ella fecha-se, e faz

muito bem... E então agora que andam por ahi tantos ladrões!

--Foi então por causa dos ladrões que a sua ama mudou a chave da porta

da rua e se fechou no quarto, por dentro?

--Olhe, senhor, eu não sei!--rematou a velha.--Ella não me dá contas nem

_estifações_ do que manda fazer... Ella é que dá as _ordes_, é a

senhora, e eu cá d'essas coisas não sei.

O bohemio tirou o chapéo e a capa, arrumou tudo sobre uma cadeira e

aproximando-se da criada, disse-lhe a meia voz:

--Marianna, quem está alli n'aquelle quarto?

--Quem ha de estar? Está a senhora...

--Só?

--Quem queria o senhor que estivesse lá com ella? O sr. _encommendador_,

não fica cá, o sr. Eugenio está ahi... Parece-me que aqui não vem mais

ninguem....

--Parece-lhe? Não tem a certeza...

--Assim Deus Nosso Senhor me ajude e os anjos acompanhem a minha alma á

hora da morte se já cá veio mais alguem depois que o senhor se foi

embora, tirante de ser o sr. _encommendador_... Então ella, coitadinha,

que não se tem fartado de chorar de noite e de dia, depois que andam

aqui estas rodilhices...

--Rodilhices de quem?

--Eu sei lá de quem! O sr. Eugenio bem sabe o que anda nas gazetas a seu

respeito. A senhora lê a folha todos os dias e afflige-se... Pudera!

Outra qualquer faria o mesmo.

Effectivamente o escandalo do rapto attribuido a Eugenio de Mello fôra

noticiado com grande pompa de phrase e de minudencias nos jornaes

diarios. Eugenio sabia-o e não estranhou por isso que a leitura do caso

tivesse impressionado a amante, como a criada affirmava.

--Leonor tem-se então affligido muito?--perguntou elle.

--Oh, Senhor! Não faz outra vida senão chorar e affligir-se... E anda

ruim que não ha quem a ature... O pobre do _encommendador_ anda parvinho

de todo, que ella dá-lhe cada sarabanda por dá cá aquella palha, que é

uma coisa por demais!

O bohemio teve um sorriso de vaidade satisfeita. O seu amor proprio

comprazia-se na ideia de que Leonor o amava a ponto de tratar mal toda a

gente, até o homem que a protegia, tudo por sua causa.

--É doida a Leonor em dar importancia ao que dizem os jornaes--disse

elle--principalmente quando sabe que tudo isso não passa de uma sucia de

pêtas.

--São pêtas, são pêtas--retorquiu a velha com um sorriso de

incredulidade--mas o sr. Eugenio anda a fugir da policia que lhe não vá

ella deitar a mão...

E depois n'um tom de reprehensão amigavel:

--O senhor tambem me sahiu levadinho da breca! Pois tendo aqui a

senhora, que tem uma cara como um sol, precisava de se importar co'as

outras lambisgoias para nada? Credo! Os homens são a coisa peor que ha!

Quem se fia n'elles está perdida.

--Pois você tambem acredita, Marianna?

--Cale-se, cale-se! Eu não digo nada... mas estes olhos teem visto muito

e estes ouvidos teem _ouvisto_ inda mais--disse ella, levando

alternativamente os dedos aos olhos e aos ouvidos.

--O que é que você tem visto e ouvido, Marianna?

--Muita coisa! Deus me livre que a senhora soubesse da missa ametade...

O sr. Eugenio cuida que se não sabem as coisas... mas eu já ha muito que

ouvia fallar que o senhor que se queria casar co' essa tal menina p'ra

amor de quem agora andam estas _questães_...

E muito persuasiva, como quem dá conselhos bons de sensatez e de

prudencia:

--P'ra que diacho a quer? Ella poderá ter mais dinheiro, mas nunca é

capaz de lhe ter a amizade que esta lhe tem... O dinheiro, quem tiver

mais que se enforque co'elle!... Demais, casar por casar, então antes

co' esta, que se quer ao menos já sabe quem tem... É só dezermos não é

uma menina capaz, mas em bom panno cáem as nodoas... E olhe que ella não

lhe dizia que não... que o que ella lhe quer de bem só eu é que o sei...

E dinheiro _támem_ não lhe havia de faltar, que se não fosse o

_encommendadôr_, não faltaria quem lh'o desse... O ponto era ella

querer.

--Está bem, Marianna, acabe com o sermão!--ordenou o bohemio, de mau

humor.--Visto que Leonor está dormindo, esperarei que ella acorde.

E estirou-se ao comprido sobre um canapé, resolvido a esperar.

Á hora habitual, a porta da alcova de Leonor abriu-se e a loura

appareceu na sala, fingindo-se surprehendida de encontrar alli o amante.

Eugenio, ao vêl-a, correu para ella com os braços estendidos, n'um

amplexo carinhoso.

A loura contrafez no rosto pallido um sorriso e perguntou:

--Tu por cá! Que novidade é essa?

--Venho pedir-te que me salves mais uma vez, Leonor!--exclamou o bohemio

com artificial commoção.

Leonor não respondeu. Encaminhou-se para um sofá e sentou-se, indicando

a Eugenio que a imitasse.

--O que é então que desejas?--perguntou.

--A policia persegue-me de cada vez mais encarniçadamente--principiou

dizendo o bohemio--de modo que não só me é impossivel continuar a viver

no Porto como permanecer por mais tempo em Portugal...

--E d'ahi?

--D'ahi, comprehendes quanto deve ser doloroso para o meu coração o

pensamento de te deixar...

A loura esboçou nos labios um sorriso de cruel desdem.

--Faço ideia!--disse ella friamente.

O bohemio, um tanto desconcertado com a attitude glacial da amante,

proseguiu:

--Sou victima da fatalidade, mais ainda do que dos meus inimigos! Estes

não perdem occasião de me perseguir e de instar com a auctoridade para

que me prenda, afim de me fazerem condemnar por culpas que não commetti!

Mas o que mais me afflige e perturba é o ver accumularem-se contra mim

provas de culpabilidade, quando eu juro que estou innocente! Dir-se-hia

que um genio infernal tomou a peito a minha desgraça e quer a todo o

custo perder-me sem me deixar possibilidade de salvação!

--Foi talvez feitiçaria que te fizeram!--disse a amante com um

aggressivo sorriso de sarcasmo.

O bohemio encarou-a espantado.

--Tambem tu, Leonor, tambem tu escarneces da minha desgraça?--lamuriou

elle, buscando enternecel-a com os seus queixumes.

--Eu? Que lembrança!--casquinou nervosamente a loura.--Eu posso lá

escarnecer de um amante feliz, de um seductor audacioso e arrojado, que

affronta impavido os perigos e os rigores da justiça para possuir por

força a mulher que por bem não quiz amal-o?!

Laura fallava nervosamente, com os olhos scintillantes de indignação e

de odio mal reprimido.

Eugenio imaginou-a dominada por um dos seus accessos de indomavel ciume,

e respondeu, sorrindo com a fatuidade do amante que ainda se reconhece

querido:

--Mau! ahi estás tu com as tuas loucuras do costume! Sabes que tens sido

sempre injusta para comigo, sendo a primeira a accusar-me de faltas que

não commetti. Mas agora peço-te, Leonor, que te moderes e repares bem na

injustiça que me fazes...

--Injustiça?!

--Sim! É uma injustiça que te não mereço o suppôres-me, como toda a

gente, auctor do rapto d'essa rapariga, que mal conheço, que não amo,

que nunca amei e que a esta hora se está rindo nos braços de outro da

partida que o seu raptor me pregou, envolvendo-me na aventura

escandalosa dos seus amores, a que sou--juro-o!--completamente estranho!

Leonor abanou a cabeça em silencio, sem responder. Eugenio, de cada vez

mais possuido do vivo desejo de mover a loura a emprestar-lhe dinheiro,

continuou:

--Juro-te, Leonor, que estou innocente! Este rapto não foi obra minha.

Eu podia pensar em tudo, menos em raptar essa rapariga, que é filha de

um homem rico e incapaz de transigir com tal violencia offensiva da sua

honra e do seu bom nome...

--Como é então que o acusam ao senhor?--disse Leonor, cravando n'elle um

olhar que o gelou.

--Tudo obra dos meus inimigos!--balbuciou o bohemio,

desconcertado--Sabes que tenho concitado contra mim os odios e as

invejas d'essa canalha endinheirada que não póde perdoar-me a maneira

como a affronto com a minha distincção e a minha maneira de viver... E

eu sei lá se n'esta perseguição surda que agora se me move entra tambem

o ciume d'aquelles que tu rejeitaste e talvez o do commendador Garcia, a

esta hora sabedor das nossas relações?

--Basta!--bramiu Leonor, livida de colera, levantando-se de

salto--basta! Que o senhor abusasse da fraqueza do meu coração para me

illudir, ainda lh'o poderia tolerar; mas que leve a infamia ao ponto de

calumniar o homem que confia em mim e a quem tenho feito soffrer por sua

causa, não lh'o consinto!

--Bravo!--tornou o bohemio sarcasticamente--Vejo que o commendador tem

feito progressos no teu coração durante a minha ausencia!

E encolhendo os hombros com desprezo.

--Afinal, é de justiça... Ha tanto tempo desapossado do thesouro que de

direito lhe pertencia, é obra de caridade restituir-lhe o que se lhe

tirou.

Levantou-se e encaminhou-se para a cadeira onde tinha posto o chapéo e o

capote.

Com esta retirada falsa, expediente que tantas vezes lhe havia sortido o

effeito desejado, esperava elle abrandar a irritação da amante.

--Adeus!--disse, já da porta da sala, como quem se preparava para sahir.

Leonor avançou para elle:

--Foi para isso que o senhor cá veio?--rugiu indignada--Foi unicamente

para fazer uma accusação tão insensata como absurda a um homem que nem

sabe que o senhor existe? Visto isso, ainda a perseguição que a justiça

lhe move não é tamanha como diz, pois que lhe deixa ociosidade e tempo

para essas distracções...

O bohemio retrocedeu.

--Não foi para isso precisamente que eu cá vim. Mas ainda quando não

viesse senão para isto, não dava por mal empregado o meu tempo, que é

sempre curioso e interessante vêr como as mulheres amam os que atraiçôam

e atraiçôam os que dizem que amam...

--O que! O que é que o senhor diz? Explique-se sem trocadilhos, faça

favor!

--Digo--volveu o bohemio--que eu devia esperar isto mesmo... Seria caso

unico na historia da humanidade que a desgraça me perseguisse e o

coração da amante me restasse firme... Peço-lhe perdão se vim

importunal-a. Eu devia desde logo pensar que as mulheres só amam o

prazer, as alegrias da vida facil e que não podemos contar com ellas

para as horas negras da desgraça.

Leonor, tremula e excitadissima, lançou-lhe a mão ao braço e arrastou-o

para junto do sofá. O bohemio deixou-se conduzir.

--Venha cá!--disse ella.--A accusação que o senhor acaba de fazer é mais

uma infamia sobre tantas! A que é que o senhor veio aqui?

--Vinha despedir-me da mulher que amava e...

--E...?

--E pedir-lhe que me salvasse da vergonha e da miseria da prisão. Mas

isso terminou. Sei que nada posso esperar. Seguirei o meu destino...

--Se a sua consciencia lhe dizia que nada podia esperar, para que veio

cá? Vamos! explique-se! O que desejava?

O bohemio conhecia a loura. Sabia por experiencia que todos os

conflictos por ciumes acabavam por ternissimas demonstrações de affecto,

sempre que elle proferia palavras de resentimento, desilludido.

--Para que hei-de dizer-lhe nada, se tudo entre nós acabou?

--Talvez se engane... talvez ainda não acabasse _tudo_ como o senhor

suppõe...

Illudido por estas palavras, o bohemio ajoelhou aos pés de Leonor,

tomou-lhe as mãos e cobriu-lh'as de ardentes beijos.

--Se é certo que conservas ainda no teu coração um terno sentimento de

affecto por mim, para que me torturas na minha desgraça, para que me

lanças no desespero quando venho pedir-te consolação e amparo?--bradou

elle.

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 20 / 28 段