está a dizer é tudo quanto ha de mais absurdo!
--Valha-me Deus, sr. Julinho! Eu o que digo é o que por lá se constou
n'aquelle tempo...
--E você não podia desmentir esses boatos, não podia desmascarar os
calumniadores?
--Eu a esse tempo, estava, mas era engaiolado no Sardão, mais morto que
vivo, _estrelicadinho_ com fome, porque aquellas carochas de seiscentos
diabos tinham-me a jejum de pão e _auga_, que eu cuidei que não tornava
mais a ver sol nem lua, e que, a respeito de petiscos, não se fariam
mais para os queixos do _Tomba_!
E contou a maneira ardilosa como o padre Anselmo o encerrara no convento
do Sardão e aquella outra mais ardilosa ainda como elle conseguira
escapar-se da prisão, depois de ter pregado uma sova mestra na freira
que o guardava quasi á vista.
--Eu só queria que vossa _incellencia_ visse, sr. Julinho... Aquillo foi
uma trépa co'as correias, que _inté_ o _sengue_ lhe esguichou pelo sitio
da tripeça, salvo seja! Depois puz-me a andar e marchei p'ra Braga a
saber novidades... A sr.^a D. Carlota tinha morrido em Lisboa, o sr.
Alvarinho--Deus lhe perdôe!--lá tinha o _Perneta_ dado cabo d'elle...
Raios o parta! Se quer ó menos, inda fui testemunha escontra elle, que o
enterrei!
--Ah! você foi testemunha no processo contra o _Perneta_, mestre?
--Pois atão não havia de ser? Eu tinha a veridica certeza de que o sr.
Alvaro tinha ido p'ra casa do _Perneta_, porque arrecebeu uma carta da
sr.^a D. Carlota--Deus a chame lá p'ra bem, que eu não a chamo cá p'ra
nada!--a dezer-lhe que a prima d'elle, a sr.^a D. Helena de _Laronha_
estava lá mettida com vossa _incellencia_...
--Comigo?!--tornou a exclamar Julio de Montarroyo, de cada vez mais
espantado.
--Tal e qual como eu lhe estou a _dezer_, sr. Julinho! Pode-se
_acuarditar_ em mim, porque eu ouvi lêr a carta e _escorda-me_ como se
fosse hoje tudo quanto ella dezia...
--E elle acreditou! Pois Alvaro de Noronha, conhecendo-me e tendo
convivido comigo por algum tempo, pôde acreditar em semelhante carta,
pôde julgar-me capaz de uma semelhante infamia?!
--Eu bem lhe dizia que não se fiasse, que aquillo era tramoia que lhe
queriam armar... Mas elle, que tinha aquelle genio de espirra-canivetes,
começou logo a atirar co'aparelho ao ar, a dezer que ia matar sete e
esfolar quatorze e nem á mão direita de Deus Padre fui capaz de ter mão
n'elle! Lá foi e se eu bem lh'o disse, melhor lhe aconteceu... Chegou lá
e aquelle ladrão do _Perneta_ e mais dois que elle lá arranjou deram-lhe
tamanha carga de paulada que o deixaram _cadable_ no meio da estrada!
Eu, já se sabe, n'essa maré estava preso no Sardão e nem tal coisa me
passava pelo sentido... Mas quando sahi e cheguei a Braga, _atão_ é que
eu soube tudo... E disse comigo: «Ai o alma do diabo do _Perneta_ que
deu cabo do _probe_ rapaz! Pois deixa que eu te vou fazer a cama!...»
Fui-me á Povoa, fallei com o sr. _amenistrador_, contei-lhe as coisas
como foram e como não foram, e o _Perneta_, que inda estava preso, mas
não confessava nada, assim que o _acarinharam_ comigo, não teve mão em
si, começou a _entoar_ e _dixe_ tudo! Lá foi por uma barra fóra, que o
levou seicentos diabos!
Julio ouvia espantado estas revelações do _Tomba_.
--Mas como é--disse elle--que D. Carlota pôde escrever uma carta d'essas
a Alvaro de Noronha na mesma occasião em que eu recebia uma carta de
Helena, dizendo-me que partia para França? Se D. Carlota vivia com o
padre Anselmo, como podia ella ignorar que Helena seguia para Paris?
--Vossa _incellencia_ quer que eu lhe diga uma coisa, sr. Julinho?
--Diga lá, mestre.
--A mim ninguem me tira da _pinha_ que a sr.^a D. Carlota não escreveu
carta nenhuma... Aquillo foi o maroto do padre _Inxelmo_ que mandou
escrever a carta em nome d'ella para arranjar a trempe ó probe rapaz!
Vossa _incellencia_ não se _escorda_ do sr. Alvaro dizer muitas vezes
que o patife do padre _Inxelmo inté_ uma vez escreveu uma carta muito
bem _escrevida_, co'a letra da sr.^a D. Helena, a dizer ó pae d'ella que
estava em Coimbra com um sujeito com quem se queria casar, e no fim de
contas vae-se a vêr e estava mas era _agachada_ em casa do _Perneta_!
Julio de Montarroyo deu um salto na cadeira. Só ao ouvir estas palavras
do _Tomba_ é que pensou na possibilidade de ter sido victima de uma
infame mystificação.
--Eu tambem recebi uma carta de Helena convidando-me a seguil-a, pois
que ia partir para uma casa religiosa de Paris. Seria essa carta
escripta por Helena, ou seria ainda uma tôrpe cilada do padre Anselmo?
--Olhe, sr. Julinho; o cesteiro que faz um cesto faz um cento, se tiver
verga e tempo... O padre já tinha feito uma e porisso _támem_ era capaz
de fazer a outra...
Julio de Montarroyo ficou por algum tempo silencioso e pensativo. Estava
recordando o singular e extraordinario mutismo de Helena, a qual tendo-o
solicitado a esperar noticias suas em Paris, nunca mais lhe mandára
aviso nem recado. Porque não teria D. Carlota revelado ao padre Anselmo
o interesse que elle tomava pela libertação da filha de Norberto e
suggerido por esta forma ao jesuita a ideia de se livrar dos dois ao
mesmo tempo, matando um e expatriando o outro?
Mas, n'esse caso, Helena não teria sahido do paiz, e ao passo que elle a
procurava pelo mundo, morria ella ignorada no mesmo convento onde a
deixara.
--Mestre _Tomba_--disse elle--sabe o que foi feito do padre Anselmo?
Tornou a ter noticias d'elle?
--O padre _Inxelmo_, depois que roubou o _Custoido_ nunca mais tornou a
pôr os pés em Braga, ó menos que eu o enxergasse... Aquillo sumiu-se
como o fumo, que nunca mais vi raça d'elle!
--Diz você que o padre Anselmo roubou o Custodio?
--Pois roubou! O _Custoido_, p'ra não dar nada á mulher, assignou letras
a fingir ao João Ignacio, que era p'ra ella lhe não poder pegar em
nada... E quem metteu o probe do _home_, coitado! n'essas fofas foi o
patife do padre... Vae _óspois_ a D. Carlota _esticou_ o _pernil_ em
Lisboa... diz que se matou... Tanto sei eu se ella se matou como se foi
o padre que lhe deu cabo da casta... E vae n'isto, assim que se constou
a morte d'ella, o João Ignacio salta em riba do _Custoido_ co'as letras
e leva-lhe tudo, que o deixou sem um fio! O _Custoido_ barregava
_escontra_ o padre a _dezer_ que foi elle que o metteu co'aquelle
ladrão, que era uma coisa por demais! Mas o padre _esguipou-se_ que
ninguem soube mais d'elle!
Julio de Montarroyo relacionava mentalmente todos estes factos e
procurava o fio mysterioso que devia explical-os.
--É singular!--disse elle--E o Custodio? Morreu?
--Qual morreu! Casou-se oitra vez e fez um _bô casorio_... Foi co'uma
brazileira... co'a Anninhas das Travessas, que tinha ido p'ró Brazil ha
um _rôr_ de annos e que _vêo_ de lá rica que não sabia o que tinha de
seu... O _home_, como em Braga todos o conheciam, pegou e foi co'ella
p'ró Porto, e acho que lá estão na santa paz de Deus... _Porfilhou-lhe_
a filha que ella _trouve_ e inda apanhou uma riquesinha bem bôa!
--De modo que--tornou Julio--você, mestre, não voltou mais a saber de
Helena de Noronha?
--Eu, como a sr.^a D. Carlota e o sr. Alvaro tinham morrido... e o sr.
Julinho _támem_ não dava rumor de si... tratei mas foi de governar a
minha vida... Os freguezes, como eu andei por lá todo aquelle tempo, sem
dar nova nem recado, foram ó aprendiz buscar os sapatos e levaram-n'os a
oitro... O senhorio, como eu não paguei o aluguer, tomou-me conta da
_farramenta_ do officio e poz-me o rapaz na rua! Veja lá o alma do
diabo, que _inté_ co'a tripeça me ficou! Vi-me _desauriado_! P'ra me
tornar a estabelecer, eu já não tinha _farramenta_ nem freguezia...
estava _desacuarditado_! Peguei e fui-me _inté_ Villaverde, á tia do sr.
Julinho, contei-lhe a minha _desgracia_ e ella teve dôr de mim e deu-me
uma libra d'esmola!
--E você contou a minha tia tudo o que se tinha passado com respeito a
Helena de Noronha?
--Eu não disse nada! N'estas coisas, antes carta de menos do que carta
de mais... Peguei na libra que ella me deu, mandei arranjar este Santo
Antonio e botei-me a pedir por essas terras de Christo fóra, tal e qual
como o meu compadre _Longuinhos_ que _támem_ se arranjou muito bem
co'este modo de vida... Tenho corrido todas essas _Europias_ de
Portugal, e louvado seja o meu rico padre Santo Antonio, sempre tenho
tirado mais do que quando trabalhava pelo officio!...
--Diga-me uma coisa, mestre: você seria capaz de dar conta de uma
incumbencia que eu desejo fazer-lhe?
--Ó sr. Julinho! que me pedirá vossa _incellencia_ que lhe eu não faça?!
--Bem! Desejava eu que você fosse ao Porto e indagasse nas _Sereias_ ou
no _Sardão_, se ainda lá está como abbadessa uma senhora chamada madre
Paula...
--Madre Paula... disse o sapateiro procurando reter na memoria este
nome.--Eu vou lá e trago-lhe isso sabido, que é um regalo... O diabo é o
_Sardão_ que se lá me conhecem fazem-me pagar os açoites que preguei na
freira velha... Mas da raça do diabo será ella se não estiver já a fazer
tijolo!
--Não tenha receio, que lá ninguem o conhece... Eu mesmo, que tão de
perto lidei comsigo, já quasi o não reconhecia, como hão-de conhecel-o
pessoas que nunca lhe fallaram?...
--Bem! eu vou--decidiu o sapateiro--mas não levo o santo, porque se a
policia do Porto me apanha lá com elle, é capaz de ferrar comigo no
_Asylio da Mendecidade_, que, aquillo, pelo que me tem zoado cá pelos
ouvidos, é peor do que estar nas profundas do inferno a arder!...
--Pois não leve o santo...
--Eu deixo-o cá ao sr. Julinho, mas faça favor de ter cautela, que m'o
não estraguem, que é o meu ganha-pão...
--Vá descançado, mestre _Tomba_. O santo fica a meu cuidado... Ninguem
cá lhe bulirá n'elle...
--_Atão_ quando quer o sr. Julinho que eu vá?
--O mais depressa que possa...
--Eu vou já hoje, se fôr preciso... É verdade: e se ella lá estiver, o
que quer que lhe diga?
--Nada. Saiba só se ella está em qualquer d'essas duas casas.
--E se lá não estiver?
--Saiba se é viva e em que casa religiosa da provincia se encontra.
--Está bem! Vamos a vêr se ainda tenho geito para estas coisas--disse o
_Tomba_ radiante.
E n'esse mesmo dia partiu para o Porto.
XX
Alma negra
Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia,
apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas
mãos de João Lazaro.
O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito
desconsolado, porque o _seu peccado_--que era assim que elle chamava á
endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição
insensata--havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de
histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns
accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do
encarquilhado protector.
Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico,
consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse _sangue alvoroçado_,
que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo,
porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem
posse do corpo é que custam mais a debellar.
Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella
não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por
algum tempo, sem aquelle _caustico_ do commendador a importunal-a, a
fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o
com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar
com aquella vida que não podia continuar assim.
--Mas o que queres tu?--perguntava-lhe lacrimoso o commendador--Falta-te
alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha
filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os
teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu
sem ti não podia viver...
E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente,
a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a
sua vida, senão a de ser commendador.
A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de
luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era
o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a
inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado
quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe
batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:
--Ah! maganão, você é que a sabe toda!... _Aquella pessoa_ está de cada
vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer
desfazer, endosse-me a letra...
Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada
dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia
prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que
mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com
outro.
Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella
mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais
dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao
amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais
depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e
extraordinaria mulher.
E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e
constancia de Leonor--que para elle tinha sempre carinhos e meiguices
que nenhuma outra saberia fazer-lhe.
Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a
negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido
amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente
do infeliz commendador.
E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do _seu peccado_!
Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a.
Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do
medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.
N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a
suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava
doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.
A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir,
deixando-lhe o _ninho_, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe
fallar em medicos.
Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe
prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.
Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com
impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.
Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no
tapete, pôz se a mordiscar as unhas.
--O João Lazaro--murmurava ella--prometteu de vir hoje fazer-me
revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me
dizer?
Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de
Eugenio?
N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e
appareceu a figura de João Lazaro.
Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em
que vinha embuçado.
--Tardei, não é verdade?--disse elle.
--Esperava-o com anciedade--respondeu a loura febrilmente, levantando-se
para o receber--Diga-me: que noticias traz de Eugenio?
--Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o
auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...
--Pois sim, bem sei--disse a loura impaciente--Mas Eugenio jurou-me que
era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não
tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.
João Lazaro sorriu.
--No emtanto--disse elle--a policia procura-o, porque sobre elle recahem
todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a
cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que
arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é
concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu.
N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não
poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se
homisiar...
--Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o
que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que
partiu...
--Sem lhe dizer para onde...--tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.
--Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...
--E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...
--O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar!--exclamou a loura
irritada.
--Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas
como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime
de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber
que elle diligenciava casar-se com Beatriz...
--A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte
de Eugenio...
--Porque?
--Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse
enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um
pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a
necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão
açodado em perseguição do raptor da filha.
João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.
--É bem deduzido--disse elle--Ahi ha logica. É pena que o raciocinio
esteja muito longe da verdade...
--Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a!--exclamou Leonor com
impeto--tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o
que hei-de pensar!
--Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que
venho fazer.
Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com
abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o
dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o
accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos
n'elle:
--Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o
casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e
isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio
a conhecer que eu a informára da verdade.
--Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento--objectou
Leonor.
--Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias,
porque eu ainda não me esqueci...
E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:
--Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque
tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém,
influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de
agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha
a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe
disseram as suas informações?
--É.
--Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se
recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si
jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia
nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o
recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance
era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto
que se effectuou como se havia projectado...
--Por Eugenio?
--Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se
combinou comigo.
--Mas é isso o que Eugenio nega...
--Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que
não admitte duvidas.
--Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o
que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais
depressa realisaria o casamento?
--É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A
rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue
mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as
dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas
enormes á conta d'este casamento...
--Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a
Eugenio?...
--Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos
de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario
do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de
terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem
dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os
charutos...
--Que exaggero!--disse Leonor com desgosto.
--Minha querida amiga--tornou João Lazaro com modo affavel--não é isto
desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio
lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil
desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis
nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo
esse dinheiro...
--Tanto, não...
--Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que
devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia
combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida
e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do
rapto...
--Mas para quê! meu Deus! para quê?--exclamou a loura de cada vez mais
aturdida.
--Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a
augmentar o dote da filha...
--Mas isso é uma infamia!
--Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a
senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil
raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o
dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais
mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...
--Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim?--interrogou Leonor
com os olhos chammejantes de colera.
--Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado
em confidencia pelo proprio Belchior.
--Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão
ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde
elle se encontra...
--Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e
está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende
ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao
pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o
reembolsar logo depois do casamento.
--Que sucia de miseraveis!--bradou a loura enojada.
--Verdade, verdade--observou João Lazaro, rindo--a partida foi bem
pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura
e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada,
emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu
natural desenlance na egreja da freguezia.
--Nunca! Nunca!--protestou Leonor levantando-se enfurecida.--Antes
d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame
perfidia!
--O que quer fazer?--perguntou João Lazaro fleugmaticamente.
--O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.
--E depois?
--Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.
João Lazaro soltou uma gargalhada.
--A escolha está feita, minha amiga!--disse elle.--Pois ainda tem
duvidas?
Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.
--Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita?--perguntou.
--Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em
casar?
--Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...
--E casa-se com ella por amor.
--Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o
casamento...
--Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje
o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da
formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo,
pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle
impuzer.
Leonor bateu o pé furiosa.
--O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á
gente!--disse ella.
--Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa
é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu
conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto
de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.
Houve uns momentos de silencio.
--Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa
rapariga?--perguntou por fim.