--Isso é uma coisa que eu vou já tratar de saber... Alli perto tenho uma

alminha do senhor, muito devota e que sabe a vida de toda a gente da

vizinhança... Ella diz-me tudo assim que eu lá fôr...

--Veja lá, olhe que tenho o maximo interesse em saber tudo...

--Ó minha senhora! Fique vossa maternidade descançada que lhe trago aqui

tudo sabidinho, sem faltar nada... Eu parece-me que essa familia não é

lá de grande religião, porque não tenho ideia de a vêr muito pelas

igrejas...

--Saiba se esse Custodio de Jesus é de Braga e se vive cá no Porto ha

muito tempo.

--Sim, minha senhora.

--Saiba tambem se a mãe da menina que é filha d'elle, e que se chama

Beatriz, tem o nome de D. Carlota...

--Sim minha senhora! Eu vou saber tudo isso...

Sahiu a serventuaria e duas horas depois regressava com tudo sabido.

--Já aqui estou de volta com tudo na ponta da lingua!--disse lépida a

cuscuvilheira.

--Então, o que soube?

--O homem é de Braga, chama-se Custodio de Jesus e já cá está no Porto

ha muitos annos. Empresta dinheiro sobre _hybotécas_ e pelos modos leva

coiro e cabello... Tem má fama, mas é home de dinheiro...

--E a familia?

--A familia é só elle e mais a filha e mais a creada--uma _focinho de

cão_ que primeiro que se lhe _arrinque_ uma palavra do bucho é um dia de

juizo!

--E a mulher? Elle não é casado?

--Já é viuvo duas vezes. A primeira mulher morreu-lhe ainda elle estava

em Braga... Chamava-se D. Carlota e d'essa não teve filhos. A segunda

chamava-se D. Anna, tinha vindo do Brazil com fama de trazer mundos e

fundos, mas acho que eram mais as vozes do que as nozes...

--E o que foi feito d'essa mulher? Morreu tambem?

--Pois já se sabe! Morreu e elle fez-lhe um enterro muito rico...

--Então esta menina Beatriz é filha da segunda mulher, da tal snr.^a D.

Anna?...

--É como diz, minha senhora! Ella é um palminho de cara muito bonito...

E parece que não ha de ter mau interior; mas o pae, que é má farda, não

a deixa pôr pé em ramo verde... Veja lá como aquella alminha ha de estar

carregada de peccados!

--Tem vocemecê bem a certeza de que essa menina Beatriz é filha da

segunda mulher do Custodio de Jesus?

--Então não tenho, minha senhora?! Aquillo foi chegar a casa d'aquella

santa Maria do Rosario e ella contar-me tudo p-a-pá Santa Justa, nem que

estivesse a lêr n'um livro aberto! E olhe que ella não me engana, porque

quem lhe disse tudo, como era e como não era, foi a criada do seu

_préscurador_ chamado o _snr. Mélchior_, que é lá todo da casa do

Custodio de Jesus e mais as senhoras d'elle, que são as que contam estas

coisas todas diante da criada... Inda ella honte lá esteve, porque

agora, pelos modos, vae lá um inferno em casa p'ra amôr do

namorico--Credo! Santo nome de Jesus!--que a pequena traz com um

estudante que se chama Paulo... E o pae quer mas é que ella case com

oitro, que diz que é pôdre de rico.

--Está bem!--disse madre Paula.

--Veja lá a senhora as _desgracias_ que vão por esse mundo, tudo causado

pela falta de religião e temor de Deus!...

--Está bem!--repetiu madre-Paula, despedindo a devota onzeneira.--Vá na

graça de Deus e escusa de dizer a alguem que eu a incumbi d'este

serviço...

Quando o padre Filippe voltou ao outro dia, madre Paula disse jubilosa:

--Já sei tudo. O pae de Beatriz é o mesmo Custodio de Jesus, marido da

D. Carlota do padre Anselmo... porém, esta pequena é filha do segundo

matrimonio... A mãe era uma tal D. Anna, que tambem já morreu, pois que

o Custodio de Jesus é viuvo duas vezes...

O padre Filippe, encarou, sorrindo, madre Paula:

--As tuas informações condizem perfeitamente com aquellas que eu pude

obter...

--Ah! tambem indagaste?

--Tambem. Ha, porém, um ponto escuro que eu ainda não pude aclarar...

--Qual é?

--É que D. Carlota morreu ha dezoito annos, envenenada em Lisboa pelo

padre Anselmo, e esta pequena Beatriz, se não tem mais, deve ter pelo

menos uma idade que regula por esse tempo...

--D. Carlota morreu envenenada pelo padre Anselmo, dizes?

--Morreu.

--Como o sabes?

--Revelou-m'o a velha Maria do Carmo na hora extrema.

--De modo que essa desgraçada não chegou a vêr o filho?

--Não.

--E o padre Hilario, pela sua parte, se ainda é vivo, deve ignorar quem

foi sua mãe?

--Decerto.

--Aquelle padre Anselmo era um sicario da peor especie!--disse ainda

horrorisada a bella abbadessa.

--O padre Anselmo, que nós conhecemos, era um facinora como tantos

outros que se acobertam com a religião santa do Crucificado... Ambicioso

e profundamente perverso, tudo era capaz de sacrificar sem escrupulo á

sua desmedida ambição...

--Envenenaria tambem a pobre Helena de Noronha? Quem sabe?

--Para isso, bastaria só que ella lhe fosse um leve estorvo na sua

carreira de crimes...

--Não terias meio de indagar se ella ainda vive?

--Como? Se é hoje Provincial ou Assistente e usa de outro nome, como

poderei descobrir-lhe o rasto? Mas nem isso agora nos serviria de nada.

Paulo é para todos os effeitos nosso filho adoptivo. Desde qua tomamos

sob a nossa protecção essa creança devemos proceder para com ella como

se foramos seus unicos e verdadeiros paes... De que serviria sabermos

que o padre Anselmo e a irmã Dorothea são ainda vivos? A mãe renegou-o

ao nascer, e o pae nem talvez tivesse noticia do seu nascimento. Dizer

ao filho o nome dos que lhe deram o sêr era ensinar a Paulo o nome dos

que devia amaldiçoar... Não, minha amiga... Sejamos caridosos para com a

pobre creança. Uma vez que não tem fundamento o nosso receio de que

Beatriz seja irmã de Paulo, deixemol-os amarem-se e unirem-se

livremente. Concorramos na medida das nossas forças para a sua união e

que sejam felizes amando-se como nós nos temos amado sempre.

O padre Filippe, sempre de uma galanteria correcta a despeito da idade,

sellou estas ultimas palavras com um delicado beijo na face de madre

Paula, que, a sorrir, o estreitou com frenesi ao seio palpitante de

alegria.

--Sempre o mesmo gentilissimo espirito! sempre o mesmo generoso e nobre

coração!--disse ella commovida.

--Esse Custodio de Jesus--continuou o padre Filippe retomando a sua

attitude grave--é, ao que me consta, um sordido usurario que sonha um

casamento rico para a filha... Ha de ser difficil demovel-o d'este

proposito, que seria desculpavel se elle não tivesse a certesa de que

vae assim sacrificar o coração de duas pobres creanças.

--Talvez que tu, procurando-o, o pudesses convencer a dar o seu

consentimento...

--Já me lembrou isso. Mas se elle alguma vez veio a ter conhecimento dos

amores da sua primeira mulher com o padre Anselmo, a presença de um

homem de sotaina não deve ser-lhe muito sympathica... E talvez mesmo

que, em vez de o demover a favor de Paulo, isso o irrite e de cada vez

mais o mantenha no proposito de contrariar o casamento...

Como respondendo a esta pergunta, ouviu-se fóra da porta da cella a voz

de Paulo:

--Dá licença, minha mãe?

--Ah! és tu? Entra, entra, meu filho!--exclamou a abbadessa correndo ao

seu encontro.

O mancebo beijou-lhe a mão com respeito filial, e vendo o padre Filippe

dirigiu-se a elle, de braços abertos, dizendo com sincera alegria:

--Que felicidade! encontro-os a ambos reunidos quando tanto precisava de

os consultar e pedir o seu conselho e o seu auxilio!

--Tu dirás, meu amigo, o que desejas--disse, bondoso, o padre Filippe--e

se fôr, como creio, coisa compativel com as nossas forças, pódes dispôr

de nós...

Paulo principiou dizendo:

--O que venho pedir-lhes é realmente um sacrificio... Mas sacrificio de

que está dependente a minha vida, mais que a minha vida, toda a minha

felicidade futura, e porisso espero bem que o não recusarão ao seu

filho, a este filho que não conheceu nunca outros paes nem tem no

coração logar para outro affecto igual...

--Falla, falla, meu Paulo!--animou com doçura a bondosa abbadessa.

--O caso é este--continuou o mancebo--Beatriz, de quem lhes tenho

fallado, está em risco de ser victima de uma monstruosa infamia com a

cumplicidade de seu proprio pae!

--O que! O que dizes tu, meu filho?--interrogou madre Paula.

--A verdade, minha mãe!

O padre Filippe silencioso, encarando fito o mancebo, parecia observal-o

com attenção.

--Repara, meu amigo, que essas palavras envolvem uma accusação terrivel

para o pae da tua amada, o que é sempre uma coisa grave e digna da maior

censura, quando se não tem a certeza do que se affirma...

--Mas eu tenho a certeza!--protestou Paulo--E porque a tenho é que venho

pedir-lhe o auxilio no sentido de obstar a que tal infamia se realise.

--Falla!--disse o padre Filippe.

O mancebo prosegniu:

--Custodio de Jesus, o pae de Beatriz, depois de ter inutilmente

envidado todos os esforços para coagir a filha a casar com um tal

Eugenio de Mello, que se diz um rico proprietario do Alemtejo, resolveu,

de combinação com o pretendente e com o procurador Belchior, que tem

sido o agente d'esta ignobil negociata, proteger o rapto da propria

filha, com o fim de, por este meio, a violentar a acceitar o noivo que

se lhe impõe e que ficará sendo o unico que em taes condições não duvide

recebel-a por esposa.

--Isso é impossivel, Paulo!--bradou madre Paula, indignada--Não ha um

pae que pense em realisar uma tal monstruosidade! Tu és por força

victima de um engano, talvez de um cruel gracejo de alguem que deseja

vêr até que ponto vae a tua cegueira por essa menina, que não te recusas

a acceitar invenções de tal ordem!

--Não, minha mãe!--volveu Paulo--O que lhe digo é absolutamente certo e

vae realisar-se, se eu o não impedir como me cumpre. Um amigo intimo de

Eugenio de Mello e que com este deve tomar parte na miseravel aventura

foi quem o declarou diante de mim.

--É o que eu digo! gracejo de rapazes.

--Não é gracejo como suppõe, minha mãe. Quem isto revelou fel-o em taes

circumstancias que não podia nem lhe era permittido gracejar. O rapto

está combinado e deve effectuar-se amanhã, durante um passeio ao campo

que as duas familias--a do Belchior e a de Beatriz--teem preparado.

--E Beatriz sabe a infame cilada que lhe querem armar?

--Beatriz nada sabe, nem eu tenciono prevenil-a.

--O que tencionas então fazer?--perguntou o padre Filippe.

--Castigar o miseravel pae que assim malbarata a honra da propria filha

n'um trafico infame, aproveitando-me das circumstancias por elle

preparadas, para lh'a raptar eu.

--Tu?!

--E porque não? Se ella me ama e eu a adoro e a quero para minha mulher,

heide deixar que m'a roubem e levantem entre mim e ella uma barreira

impossivel de transpor--a barreira da deshonra? Tenho tudo prevenido e

tudo preparado para arredar sem escandalo, e até sem suspeita do que vae

passar-se, os raptores de Beatriz, e tomar eu e um outro meu amigo o seu

logar. Falta-me apenas uma coisa.

--O que é?--interrogou madre Paula.

--A salvaguarda de uma mulher honesta para garantir a reputação de

Beatriz que eu não quero vêr maculada, com a sombra de uma suspeita,

antes de a receber por esposa perante o altar do Deus Vivo.

O padre Filippe e madre Paula trocaram um rapido olhar.

Se o mancebo pudesse conhecer o segredo da sua origem e saber a quem

devia a vida, teria traduzido n'esse olhar esta phrase que estava no

pensamento dos dois:

--«Não parece filho do padre Anselmo!»

--Desejas então...?--interrogou madre Paula dirigindo-se ao mancebo.

--Que minha bôa mãe, de cuja virtude ninguem ousará suspeitar, se digne

receber a minha noiva em sua companhia durante todo o tempo que ella

seja forçada a conservar-se occulta...

--Queres trazel-a para aqui, Paulo? Isso, meu filho, é um passo muito

grave, que póde pôr em risco a bôa ordem e segurança d'esta santa

casa... Imagina que as auctoridades são obrigadas a intervir, e por

qualquer circumstancia descobrem aqui essa menina, que, de mais a mais,

não consultaste ainda sobre se consente em acolher-se á nossa protecção?

--É tal a confiança que tenho no amôr de Beatriz, minha mãe, que não

duvido asseverar que ella dará por bem feito tudo quanto eu haja

deliberado, logo que conheça os motivos que me obrigaram a raptal-a...

O padre Filippe, que durante esta conversação guardára absoluto

silencio, resolveu-se afinal a intervir.

--Parece-me que tudo se póde conciliar muito bem--disse elle. Paulo

deseja salvaguardar a reputação da sua noiva, o que é de todo ponto

justo e nobre. Para isso, pois, pede o concurso de sua mãe adoptiva,

porque sob a égide da virtude da madre Paula, ninguem se atreverá a

julgar menos licitos os intuitos d'este rapto. Portanto, madre Paula

deve intervir com a sua presença, porque é um acto de verdadeira

caridade evangelica o que se lhe pede. Mas surge uma difficuldade, que é

o poder comprometter por esta fórma os interesses d'esta santa casa, se

a trouxer para aqui...

--É justamente esse o inconveniente que já apontei--interrompeu a

abbadessa.

O padre Filippe fez um gesto e proseguiu:

--Ha, porem, um meio, que me parece rasoavel, de obviar a esse

inconveniente...

--Qual?

--Paulo buscará uma casa profana para onde conduzirá a sua noiva; e ahi,

madre Paula, vestindo trajos seculares, receberá a pobre menina e

conserval-a-ha em sua companhia durante os primeiros dias. Se depois de

Beatriz conhecer do que se trata, manifestar desejos de acompanhar madre

Paula para esta santa casa, poderemos então, com as devidas cautelas e

resguardos, internal-a aqui até que as circumstancias lhe permittam

legalisar a sua união com Paulo. Não acha acceitavel este alvitre, minha

amiga?--concluiu interrogando a abbadessa.

--As opiniões do padre Filippe teem para mim o valor de leis

indiscutiveis. Far-se-ha como diz, concordou madre Paula.

Paulo abraçou n'uma expansão de reconhecimento o padre Filippe.

--Sempre generoso e bom para mim! disse o mancebo com as lagrimas nos

olhos.

--Vamos, vamos!--replicou o padre Filippe commovido, procurando

furtar-se ás demonstrações de reconhecimento do pobre rapaz--Trata de

procurar uma casa em condições de abrigar por alguns dias tua mãe

adoptiva e a tua noiva. Os meus recursos são minguados--concluiu--Sou um

pobre sacerdote que fez eterno voto de pobreza... de pouco posso

dispôr... Mas até onde as minhas magras economias o permittam, tudo está

á tua disposição, porque tudo é teu, meu Paulo.

--Oh, meu pae!

--Essa menina deve ser tratada com a decencia e conforto a que

certamente esta habituada...

--Eu tenho amigos, meu pae!--affirmou Jorge.

--Os teus primeiros amigos somo nós, eu e madre Paula. Não tens, pois, o

direito de recorrer ao auxilio monetario dos segundos emquanto existirem

os primeiros. A minha casa irás buscar todo o dinheiro de que careceres.

Vê bem a casa que escolhes para receberes n'ella a tua familia.

--Tenho um amigo, quasi um irmão, que não só me acompanha e auxilia na

aventura do rapto, como põe á minha disposição a sua casa, onde não tem

mais familia e onde nada falta.

--Muito bem. Se entendes que ahi pódem acolher-se sem perigo, deves

acceitar.

--Já acceitei, meu pae!

O leitor já conhece como o rapto se effectuou e como madre Paula recebeu

com os extremos e carinhos de mãe a gentil Beatriz, salva das garras do

aventureiro Eugenio de Mello e da sua alma negra, o procurador Belchior,

por maneira tão original como inesperada.

Agora, emquanto a pobre menina, livre de perigo, encontra na doce

convivencia da abbadessa os affectos maternaes que a morte lhe roubára e

os tres sujos heroes d'esta repellentissima, porém veridica, historia se

empenham n'uma lucta de desconfianças e malquerenças, que são o seu

verdadeiro castigo, voltemos a S. Martinho do Campo, onde novos e

interessantes episodios se estão dando.

XIX

Um velho amigo

Julio de Montarroyo, logo que o brazileiro lhe deu por desoccupada a

casa que pertencera a Norberto de Noronha, tomou posse da sua nova

propriedade e installou-se n'ella immediatamente, sem mesmo esperar que

se fizessem os convenientes e indispensaveis reparos.

Este acontecimento foi celebrado pelos convivas e amigos de Gustavo de

Magalhães com um jantar lauto, em que houve discursos, brindes e

poesias, como estava combinado muito tempo antes.

O amigo de Gustavo, que tinha adquirido fóros de excentrico, supportou

como pôde toda a ruidosa alegria d'aquelles amigos e passada a

_glorificação_, como elles lhe chamavam, encerrou-se na sua habitual

tristeza, sem comtudo se mostrar intratavel e esquivo a convivencias

affectuosas.

No emtanto, furtou-se obstinadamente a toda e qualquer recepção festiva

em sua casa, dando como desculpa a falta de pessoal habilitado para bem

servir n'um banquete de cerimonia.

O caso, porém, não era esse.

Julio de Montarroyo considerava um sacrilegio infame fazer resoar os

risos da alegria n'aquellas salas onde morreram abafados os gemidos de

tamanha desgraça, de tão profunda e inconfortavel dôr.

Elle adquirira aquella casa para recolher n'ella a sua grande tristeza,

o lucto eterno do seu coração.

Não podia por isso, ainda que o desejasse, converter aquelle tumulo, em

que queria encerrar-se vivo com as suas recordações e os seus

desalentos, n'um logar de festivas alegrias, de expansivos affectos.

Os amigos de Gustavo, que o eram tambem seus, comprehenderam-n'o e não

se offenderam.

--É um excentrico--dizia o juiz--Não ha que vêr, é um excentrico...

--É um paranoico com a tendencia romantica!--affirmava o

medico.--Aquillo desanda n'um volume de lyricas mais hoje, mais amanhã.

E talvez esteja ahi a sua salvação.

--Não é nada d'isso, meus amigos--contrariava Gustavo--Este homem é um

de tantos incomprehendidos que teem atravessado a vida como o viageiro

atravéssa os areaes do deserto, sem jámais encontrar o appetecido oasis.

O maior beneficio que lhe podemos fazer é deixal-o entregue á sua grande

tristeza, á sua enorme e insanavel dôr.

Julio de Montarroyo começou, pois, a ser uma figura estranha ás alegrias

ruidosas d'aquella vida campesina, passada em convivencia intima de

amigos.

Os dias do melancholico amante de Helena de Noronha decorriam-lhe n'uma

taciturnidade de espirito aterradora.

Encerrava-se horas e horas na sala onde pela primeira e ultima vez

fallára a Norberto de Noronha e parecia experimentar um cruel prazer em

recordar, em todas as suas tristes minudencias, essa estranha e dolorosa

entrevista.

Mandára collocar todos os moveis que serviram a Norberto na sua

disposição primitiva. Lá estava a cadeira de rodas, onde o desgraçado

agonisou por tanto tempo. E em frente d'ella, passava horas esquecidas a

monologar as suas recordações e os seus desgostos.

Um dia, viera ao jardim e sentára-se no caramanchão que olhava sobre a

estrada.

Devia ser alli, suppozera elle e confirmara-lh'o depois a irmã de

Gustavo, que Helena de Noronha vinha sentar-se muitas vezes, nos tempos

felizes da sua infancia, e era por isso mesmo o logar por elle preferido

para as suas meditações ao ar livre.

De repente ao portão chegou alguem que fez vibrar a sineta. Julio de

Montarroyo debruçou-se na grade do caramanchão e olhou.

Viu um pobre mendigo, um _ermitão_, de longas barbas brancas, vestindo

um garnacho remendado e encostando-se a um bordão. Trazia ao peito,

pendente de uma correia, um nicho de folha de Flandres, em que se via a

imagem de um Santo Antonio, cercada de flôres artificiaes.

--O que deseja?--interrogou Julio.

--Esmola para Santo Antonio, meu rico senhor!--supplicou de baixo o

pobre, tirando o chapéo e indicando o santo.

Julio de Montarroyo não reconheceu aquella figura, mas ficou

estranhamente impressionado com o metal de voz do pedinte.

Parecia-lhe que já a tinha ouvido em qualquer parte, e como toda a sua

vida, n'aquelle ermo, se compunha de recordações, aventurou uma

pergunta.

--Você é d'estes sitios?

--Não, meu senhor... Eu sou de Braga.

--De Braga?!

--Sim, meu senhor, mas já lá não vou ha muitos annos...

--Vem então de muito longe?

--Venho, meu senhor!

--Espere ahi.

Julio desceu ao portão e franqueou a entrada ao pedinte.

--Entre!--disse elle.

O pobre entrou.

--Você é de Braga?--tornou a perguntar Julio.

--Nascido e baptisado, meu senhor!--confirmou o pobre.

--Ha que tempo sahiu da sua terra?

--Ha muitos annos, meu senhor...

--Olhe lá; você conheceu lá um sapateiro chamado _Tomba_?

--Conheci, meu senhor, conheci! Era um bom _home_, amigo do seu amigo...

E eu _támem_ era muito amigo d'elle!

--Ah! você então era amigo do _Tomba_?

--Oh, senhor! pois se nós eramos da mesma creação... Eu e mais elle

eramos como a unha e a carne...

--E o que foi feito d'elle? Não sabe?

--Se não morreu... ha-de estar vivo por força, meu senhor...

Julio reconheceu n'esta resposta o espirito velhaco do antigo sapateiro.

--Diga-me: o que é feito de D. Carlota e do padre Anselmo?--interrogou

Julio a meia voz.

O pedinte, surprehendido, encarou o seu interlocutor e de repente, como

se a memoria se lhe tivesse avivado, exclamou:

--Ora espera! Vossa _incellencia_ é o sr. Julinho de Montarroyo, pois

não é?

--Sou.

--Cá me queria a mim parecer!

E batendo na testa desesperado:

--Ah! grande cabeça de burro, que nem já conheces quem te deu tanto pão

a comer!... Ah, sr. Julinho, vossa _incellencia_ perdoará, mas eu estava

agora bem longe de o _topar_ aqui! Antão _cumpassou_?--perguntou o

_Tomba_, lisonjeiro e carinhoso.--Vossa _incellencia_ está féro! Está

que é uma bisarria!

--Estou velho, amigo _Tomba_, estou velho!

--Qual velho! Velhos são os farrapos! Mais velho estou eu e olhe que,

graças a Deus e a Santo Antonio, que está aqui e que bem me ouve, ainda

as pernas me levam p'r'a onde eu quero.

Julio de Montarroyo, alegre por ter encontrado este homem, que podia

talvez elucidal-o ácerca de factos que elle tinha interesse em conhecer

minuciosamente, conduziu o _Tomba_ através do jardim, até ao interior da

habitação.

--Venha cá, _Tomba_, venha cá, homem, que temos que fallar...

--Ora o sr. Julinho! Como eu havia de vir aqui topal-o! Isto foi milagre

de Santo Antonio, que eu trago aqui comigo... Foi elle que me _trouve

inté_ aqui, por sua infinita _mesericordia_!

Chegados ao gabinete de Julio, este voltou-se para o sapateiro e

disse-lhe:

--Arrume o santo, mestre _Tomba_, e diga-me se tem vontade de comer...

--Oh, meu senhor! Vontadinha, graças a Deus, ha sempre...

--Bom! Vou mandar que lhe dêem alguma coisa.

Julio ordenou que dessem de almoçar ao _Tomba_ que, fiel ao seu costume,

honrou a cosinha do seu generoso amphytrião.

Depois, mais animado, e dando parabens á sua fortuna por ter encontrado

aquelle grande e rico amigo, passou á sala onde o aguardava o dono da

casa.

--Já matei quem me matava!--disse elle satisfeito.--Ora agora aqui tem

vossa _incellencia_ um _home_ p'ra tudo que fôr preciso!

--Conte-me cá, mestre _Tomba_, o que é feito de você? O que foi feito de

D. Carlota, do padre Anselmo e d'aquelle doidivanas do Alvaro de

Noronha?

--Pois vossa _incellencia_ não sabe?--disse o sapateiro admirado.

--Nada! Não sei nada.

--Pois já tudo isso lá vae!

--Tudo?

--Tudo ou _acaijo_ tudo... _Inté_ é de _inorar_ o sr. Julinho não saber

as _desgracias_ todas que se déram logo assim que o sr. Julinho

_arretirou_ p'ra Braga.

--Não! Eu fui obrigado a partir para Paris pouco depois de sahir do

Porto e por lá andei muitos annos sem ter mais noticias de Portugal.

--Pois é! O sr. Julinho é que fez bem... Foi-se inté Paris de França e

não deu mais cavaco ás tropas... Pois a sr.^a D. Carlota, coitada! lá

deu ao penagal em Lisboa... O padre _Inxelmo_--_rais_ o parta!--lá teceu

taes indrominas com o _Custoido_ a dezer-lhe que ella que lhe tinha sido

falsa com o sr. Julinho...

--Comigo!--exclamou Julio admirado.

--Pois _antão_ não sabia?

--Eu não sabia de nada...

--Bem digo eu! _Antão_ já vejo que não sabe nem da missa a metade!...

Pois o maroto do padre _Inxelmo_, emquanto nós estavamos no Porto a ver

se lhe deitavamos a luva, _vêo_ a Braga dizer ó _Custoido_ que a sr.^a

D. Carlota andava lá pelo Porto mettida c'o sr. Julinho de Montarroyo...

E vai elle, o malandro, que nunca se importou emquanto ella lhe

desfeiteou as barbas c'o padre, começou a dar por paus e por pedras,

_assubiu-lhe_ a honra á cabeça, e quando ella vinha p'ra tornar p'ra

casa, pôl-a fóra e pouco faltou p'ra lhe bater...

--Isso é extraordinario!--disse Julio.

--E lá em Braga toda a gente se _acuarditou_, porque demais a mais, como

o sr. Julinho se prantou na _planta-giria_, todos _dixeram_ que foi

verdade, porque quem se _cia alhos come_...

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 18 / 28 段