crueldade e dureza de um pae descaroado e egoista, que a todo o momento
te torturava, consulta o teu coração e dize-me se sentes por elle o
mesmo enternecido affecto que sentias por tua mãe, de quem me tens
fallado com tão viva saudade?
Beatriz corou e disse:
--Se é um crime não amar os paes, que, depois de nos terem lançado ao
mundo, se julgaram dispensados de ter por nós disvellos e amoravel
compaixão para com a nossa infancia desvalida, confesso que sou tambem
uma grande criminosa... Por meu pae não senti nunca o suave e dôce
affecto que me inspirava minha pobre mãe. Ella era meiga, terna e
bondosa para mim. Elle, rispido, austero, sêcco, intratavel. Nunca me
dispensou um affago, nunca teve para mim um sorriso, a não ser agora,
nos ultimos tempos, quando, representando commigo uma comedia...
inclassificavel, queria sacrificar o meu coração ao dinheiro de um homem
que eu não podia amar. Até ahi, porém, só teve para mim arremessos,
gestos bruscos, despotismos de senhor que se vê compellido a tolerar um
escravo de que deseja desfazer-se. Depois da morte de minha mãe, esse
mau tratamento accentuou-se de cada vez com mais rigor. Cheguei a pensar
que, se eu morresse, a minha morte seria motivo de grande alegria para
meu pae. Não ia vêr-me ao collegio, não me escrevia uma carta, não
buscava saber de mim, nem mesmo quando uma ligeira doença me prostrava
no leito. Contentava-se em pagar todas as despezas mas ternura paternal,
este dôce sentimento que liga, n'uma cadeia interminavel, a humanidade
de um ao outro extremo dos seculos, eu conhecia bem que não existia
n'elle... Chorei muito a minha orphandade, cheguei mesmo a pedir a Deus
a morte. E quando via o alegre alvoroço das minhas companheiras ao
receberem noticias dos paes que adoravam, perguntava a mim mesma porque
é que a lembrança de meu pae não despertava em mim o mesmo sentimento, e
o meu coração ficava frio e indifferente.
Madre Paula escutava Beatriz, visivelmente commovida com o tom de
sinceridade e candura que ella punha n'estes dizeres.
--Minha filha--disse-lhe a abbadessa--eu creio bem que, apesar de não
sentir por seu pae os extremos de ternura que seriam para desejar, não
sentiu nunca por elle indifferença e muito menos odio...
--Oh, não, minha senhora! Meu pae inspirava-me receio e temor pelo seu
genio desabrido, pela rispidez e quasi rancor com que me tratava. Mas eu
não pensei jamais em faltar aos meus deveres de filha obediente... E
ainda mesmo quando elle falsamente allegava que dependia de mim a sua
velhice socegada e tranquilla, estava resolvida a sacrificar-me por
elle, tanto quanto fosse compativel com a minha honestidade e com os
sentimentos do meu coração.
E cortou a phrase para envolver Paulo n'um olhar caricioso e apaixonado.
--E todavia--observou Paulo--esse homem não tem o minimo direito á
obediencia e ao affecto de Beatriz! Um pae que desce á ignominia de
consentir no rapto violento de sua filha para a obrigar a casar com o
homem que ella detesta, é um miseravel, um monstro despresivel, não é um
pae!
--Paulo! Paulo... então!--supplicou Beatriz.
Madre Paula interveio:
--O procedimento do pae d'esta menina foi incorrecto, não ha duvida; mas
a Providencia encarregou-se de o punir, fazendo voltar contra elle as
proprias armas da perfidia que queria empregar contra a filha.
E dirigindo-se a Beatriz:
--Minha menina--accrescentou--agradeça ao céo o havel-a protegido e
amparado contra a odiosa cilada em que queriam fazel-a cahir. Sem
praticar nenhum acto de desobediencia para com seu pae, encontra-se
liberta do homem a quem queriam entregal-a com manifesta repugnancia do
seu coração e grave offensa da sua reputação e da sua honestidade. Aqui
se conservará em minha companhia, se assim o deseja, em quanto não puder
livremente dispôr do seu destino, unindo-se pelos laços conjugaes ao
escolhido do seu coração. Servir-lhe-hei de mãe e serei uma garantia
segura da rectidão e honestidade de seu comportamento. Quer assim?
--Oh, minha senhora! quanto lhe devo e quanto a minha alma se sente
agradecida por tanta bondade e tão valiosa protecção!
--Paulo virá vêl-a--continuou Madre Paula--mas fallar-lhe-ha sempre na
minha presença, para que a todo o tempo eu possa testemunhar a nobreza e
correcção com que ambos procuram unir os seus destinos. Espero, pois,
que d'este modo concorrerei para a realisação dos seus mais vivos e
ardentes desejos, sem que uma leve sombra de suspeita possa macular a
honra e a reputação dos meus queridos filhos.
Beatriz e Paulo ajoelharam, beijando enternecidamente a mão da gentil
abbadessa.
Esta, sorrindo com um carinho e uma doçura verdadeiramente maternal,
disse para Beatriz, levantando-a nos braços:
--Deve estar fatigada, minha filha... Vou mandar servir-lhe uma leve
refeição e acompanhal-a em seguida ao seu quarto.
E dirigindo-se a Paulo:
--Vae, meu filho. Despede-te da tua noiva e faze por merecer sempre a
estima e o affecto que tens encontrado no meu coração.
XVII
Quem semeia ventos...
O Belchior e o Custodio, mal chegaram ao Porto, dirigiram-se ao
commissariado de policia e ahi formularam a sua queixa contra Eugenio de
Mello, accusando-o do rapto de Beatriz.
O procurador e a familia apresentaram-se como testemunhas, e todos
declararam haver reconhecido o bohemio n'um dos dois raptores.
A policia pôz-se em campo para descobrir os fugitivos, e o Custodio,
esfregando as mãos de contente, recolheu a casa á espera dos
acontecimentos.
--Agora, amigo Custodio--disse-lhe o Belchior--como tudo correu á medida
dos nossos desejos, vá descançado, que o casamento não leva oito dias a
fazer-se...
--Como o rapaz não tenha ainda gasto toda a cortiça da
quinta...--respondeu o Custodio com um sorriso velhaco--o casamento vem
em bôa occasião.
--Deixe lá, que por falta de cortiça não é que o negocio ha-de ir ao
fundo...
Despediram-se, promettendo voltar a vêr-se no dia seguinte.
Ao chegar a casa, porém, o Belchior ficou surprehendido ao encontrar um
bilhete de Eugenio de Mello, em que este lhe declarava que, tendo-o
procurado sem o encontrar, voltaria no dia seguinte de manhã, para,
saber que novidade tinha havido.
--É bôa!--disse o procurador á mulher--Este maluco rapta a rapariga e
quer que eu lhe diga a novidade que houve!
--Mas--observou a esposa--quando te deixou elle esse bilhete?
--Não sei... Encontrei-o na caixa das cartas... Naturalmente, mandou-m'o
por algum portador de confiança, depois do rapto.
--Mas elle diz que veio procurar-te e que não te encontrou...
--É verdade! Confesso que não percebo isto... Elle não iria com ella
para Villar do Paraiso como haviamos combinado?
--Não sei... não estaria o dono da casa prevenido para os receber?...
--Qual! estava tudo prevenido. É uma casa isolada no fundo de uma quinta
e de que um meu constituinte tem a chave... E elle estava prevenido...
Nada, aqui houve tolice do rapaz...
Intrigado com o bilhete de Eugenio, que não sabia como explicar, o
Belchior metteu-se na cama e dormiu regaladamente, na ideia de que
levava o negocio do casamento a bom caminho.
No dia seguinte, pelas dez horas, descia ao escriptorio quando Eugenio
entrou:
--Então?--disse-lhe o procurador.--Você já aqui, em vez de estar a
convencer a pequena!
--Qual pequena?--interrogou Eugenio, sem comprehender.
--Qual pequena? É boa! Então você não sabe o que fez?
--O que fiz? Eu não fiz nada, e não sei de quem me falla...
--Essa agora! Pois você quer-me metter em cabeça que não raptou a
Beatriz?
--Eu?!
--Homem, sim! Pois quem diabo havia de ser? Fui eu talvez?!
--Mas se lhe digo que não pratiquei rapto nenhum...
--Mau!--disse o Belchior, abespinhado com a ideia de que Eugenio estava
gracejando.--Isto são negocios muito serios e eu não gosto d'essas
brincadeiras!
--Que diabo! mas se lhe estou dizendo que não brinco... Você mandou-me
um recado, prevenindo-me de que não fosse, que o rapto não podia
effectuar-se como se havia combinado... Como queria que eu, depois
d'isto, fosse raptar a pequena?
--Com os diabos!--berrou o procurador, desesperado.--Mas eu vi! Você,
quer-me negar uma coisa que eu presenciei?!
E n'uma furia crescente, persuadido de que Eugenio premeditava maroteira
grossa:
--Olhe que isso não é digno, ouviu? Eu bem sei aonde você quer chegar...
Mas comigo é preciso vêr como se fazem, porque eu não sou menino que se
deixe enganar!
O bohemio encarou-o fito, franziu o sobr'olho e replicou n'um tom meio
zombeteiro, meio ameaçador:
--Você está doido, amigo Belchior?
--Não estou doido nem você é capaz de me tirar o juizo, percebeu? É
preciso notar que eu cumpri tudo aquillo a que me obriguei, e você ha de
cumprir tambem, ou então temos muito que vêr!
--O que quer você dizer com isso, Belchior?
--Quero dizer que escusa você de vir negar o rapto que eu presenciei,
com a ideia de se furtar a entregar-me a commissão que tinhamos
combinado... Eu sei qual é a sua ideia... A sua ideia é fazer-se com o
Custodio para arranjarem o casamento a occultas e deixarem-me a mim a
chuchar no dedo... Mas lembre-se que eu tenho-os a ambos na mão... De
você, descubro tudo, digo quem é e quem não é, faço vêr que não tem onde
cahir morto, e depois sempre quero saber se o Custodio não prefere
mandal-o por uma barra fóra, a dar-lhe a filha. E a elle, se se fizer
fino e me quizer ser falso, tenho cá uns certos segredos que o
compromettem e veremos quem n'este jogo leva a melhor! Comigo é preciso
muito cuidado, ouviu? Eu não me deixo ir assim na rêde, ainda que a você
lhe pareça o contrario!...
O procurador punha tal indignação nas suas palavras, que Eugenio
comprehendeu que havia alli um equivoco a desfazer.
--Homem, não se zangue e fallemos sério--disse elle, procurando serenar
o Belchior.--Eu não percebo uma palavra do que você está para ahi a
dizer...
--Não percebe? Ah! você agora não percebe, mas eu sou muito capaz de o
fazer preceber...--tornou o Belchior, sempre persistente na ideia de que
o aventureiro o queria enganar.--É preciso que se lembre de que eu
estava lá, vi-o chegar, apear-se do carro com o outro, deitar as mãos á
pequena, atirar com ella para dentro do carro e abalar... Isto a mim não
se me nega e bem póde você vir com um santo Christo dizer-me o
contrario, que eu não o acredito.
--Pois não fui, amigo Belchior, creia que não fui!--protestou Eugenio,
verdadeiramente espantado das affirmações do procurador.
--Não foi! Então quem foi?
--Não sei. Eu é que posso dar-lhe a minha palavra d'honra de que não
entrei n'isso, nem pensei mais em tal, desde que você me mandou recado a
dizer que o rapto ficava transferido para outro dia...
--Que recado? Eu mandei-lhe algum recado?
--Certamente. Eu estava no _Suisso_, eram quatro horas da tarde,
conversando com o amigo que devia acompanhar-me, quando entrou um homem,
que me chamou de parte e me disse: «O sr. Belchior manda dizer que tenha
a bondade de não ir ao sitio onde sabe, porque houve transtorno e o
passeio da menina ficou addiado para outro dia. Elle depois lhe
explicará os motivos.» Ouvindo isto, perguntei-lhe:--«Onde está o sr.
Belchior?»--«Em casa do sr. Custodio de Jesus com a familia e não
regressa a casa d'elle senão á noite.» Ora, depois d'isto, como queria
você que eu fosse raptar a pequena?
O procurador ficou-se a olhar espantado o aventureiro.
Elle queria convencer-se de que Eugenio fallava verdade, mas os factos
de que tinha sido testemunha, contradiziam totalmente a narrativa do
bohemio.
--Sim... tudo isso está muito bem--disse elle.-- Mas o peor é que a
rapariga foi raptada; eu vi, o pae viu, minha mulher e minha cunhada
viram, e ninguem podia ter sido senão você...
--Mas você não está gracejando, amigo Belchior?--interrogou por sua vez
o bohemio.--Realmente Beatriz foi raptada?
--Essa agora! Então não sabe que o foi?
--Ah! sim... então foi raptada por outro!... Não tem duvida.. Você
indemnisa-me dos prejuizos e está o negocio arrumado...
--Dos prejuizos... Que prejuizos?
O bohemio, sem perder a gravidade, replicou n'um tom cheio de convicção:
--Obrigou-me a despezas excessivas, na ideia d'este casamento. Depois,
entretendo-me com as suas promessas e os seus palanfrorios de me
arranjar esta noiva que me convinha, fez com que eu perdesse outra união
mais vantajosa. Tudo isto são prejuizos que eu não estou disposto a
soffrer; e você, antes de me roer a corda, devia pensar n'isso...
--Com seiscentos diabos!--gritou o procurador desvairado--Então já o
ladrão é o roubado, hein! Então a você não lhe basta raptar a rapariga e
negar, para se safar com ella e casarem-se occultamente em sitio que eu
não saiba, para me não darem nada, senão ainda por cima quer que eu lhe
dê dinheiro, a titulo de indemnisação? Diz que gastou mundos e fundos! E
de quem era esse dinheiro, não faz favor de me dizer? A conta está alli,
e o preto no branco falla como gente!
E apontou para o cofre onde guardava os documentos da divida de Eugenio.
--É verdade!--replicou o rapaz com soberano despreso--E esse preto no
branco, que você alli tem, diz de uma maneira bem clara e bem evidente
que você é o maior ladrão que a roda do sol cobre!
--Veja como falla... Olhe que eu estou em minha casa!--berrou o
procurador n'um gesto de ameaça.
--Esta casa não é sua, é dos desgraçados que você tem esfollado, seu
malandro! A sua casa é a penitenciaria, e lá é que você devia estar.
--Pulha!--regougou o Belchior, rouco de colera--Ponha-se lá fóra!
ponha-se lá fóra!
O bohemio avançou para elle com o punho estendido. O procurador, livido
de medo, foi recuando até á parede.
Então ahi, sereno e imperturbavel, Eugenio, pondo-lhe a mão vigorosa
sobre o hombro, disse:
--Amigo Belchior, você escolheu mau parceiro para a sua bisca, porque eu
não tenho que perder, e só posso ganhar... Tome bem conta no que lhe
digo: eu não sou homem de quem se escarneça impunemente. Você fez raptar
a rapariga por outro... Por ella, pouco me importa, porque eu não tinha
empenho na mulher. Mas pelo dote, faz-me differença e eu não posso
perder. Tenho, pois, direito a uma indemnisação e ou você m'a dá ou lhe
mando a vida para o inferno. É um ladrão que fica de menos no mundo e os
tribunaes, se não me absolvêrem, tambem não hão-de dar-me grande pena.
Estou novo, posso bem com alguns annos de penitenciaria, mesmo porque
não tenho nada que fazer cá fóra... Pense n'isto e não seja tôlo. Eu não
sou exigente. Receberei mesmo em prestações. Adeus!
O Belchior, desorientado, sahiu tambem pouco depois, dirigindo-se
apressado a casa de Custodio.
Não podia crêr no que ouvira da bôcca do bohemio, e parecia-lhe, em face
de tamanha audacia, que havia já combinação feita entre Eugenio e o pae
de Beatriz para o roubarem a elle, despojando-o da commissão que ambos
haviam combinado dar-lhe.
--É incrivel--murmurava elle--a desfaçatez com que aquelle maroto nega
uma coisa que eu vi e ainda por cima me pede uma indemnisação! Agora o
que falta é que o patife do Custodio tambem queira que eu o indemnise...
Ah! mas não tem duvida! Eu arranjo-os... Comigo não brincam elles!
Atravessou a cidade a passo accelerado e entrou em casa do Custodio no
momento mesmo em que este se preparava para sahir.
--Ia agora mesmo a sua casa--disse-lhe o agiota.
--Sim? Então o que ha de novo?--perguntou-lhe o Belchior, que tivera
tempo de serenar e recobrar o sangue frio.
--Que eu saiba, não ha nada... O que eu queria saber era se sempre temos
de ir á administração de Villa Nova de Gaya ratificar as declarações que
fizemos hontem ao regedor e á policia...
--Pois está claro que sim!--tornou o procurador--Agora é carregar-lhe
com a polvora toda, declararmos que o vimos, que o reconhecemos, de modo
que elle não possa negar ainda que queira...
--Você julga-o capaz d'isso?--perguntou o Custodio em sobresalto.
--Não... eu não o julgo capaz d'isso... Mas supponhamos que lhe dá o
diabo na cabeça para se arrepender e dizer que não foi elle? É preciso
que a gente tenha força nas declarações para o obrigar.
--Mau! Mas você não fallava assim antes do rapto...--observou o Custodio
desconfiado.
--Eu sempre fallei como fallo agora, amigo Custodio. Eu não sou homem de
duas caras nem digo uma coisa por outra... O que eu disse é que ficava
por minha conta obrigal-o a casar com a pequena depois d'elle a raptar.
Mas para isso é preciso que você me ajude e puxe certo...
--Eu estou prompto!--volveu o Custodio--Diga você como quer que puxe...
O Belchior adquiriu n'esta resposta a certeza de que o Custodio ainda
nada sabia da negativa de Eugenio e que, portanto, não estava combinado
com elle para o espoliarem da parte que lhe cabia n'aquelle infame
negocio.
--Trabalha por conta propria--pensou--e quer vêr se faz jus a mais
dinheiro por parte do velho e a dar-me menos dinheiro a mim... Mas está
enganado. É mais facil eu arranjar-lhe a cama na penitenciaria e perder
tudo, do que deixar-me comer por aquelle patife!
E voltando-se para o Custodio de Jesus:
--É teimar sempre que foi elle e que foi elle! Eu juro que o reconheci,
porque deixou vêr a cara na occasião em que raptava a pequena... Minha
mulher e minha cunhada juram a mesma coisa... e você, já se sabe, tem de
dizer comnosco... não nos póde contradizer...
--Ágora contradigo! N'essa não caio eu...
--E assim, com esta prova, ainda que elle negue e diga que não foi, ou
casa ou vae para a Penitenciaria que nem Santo Antonio o livra de lá...
--Mas a você palpita-lhe que elle seja capaz de negar?--insistiu o
Custodio de cada vez mais apprehensivo.
--A mim não me palpita nada... Mas você nunca ouviu dizer que o seguro
morreu de velho? É preciso a gente prevenir sempre o peor...
--Bem; pois então vamos lá para o administrador de Gaya.
Chegaram á praça de Carlos Alberto, tomaram um trem á hora e partiram
para Villa Nova.
XVIII
Revelação
O padre Filippe, quando chegou a casa, depois de ter assistido aos
ultimos momentos de Maria do Carmo, tirou da sotaina a sacca das libras
e o manuscripto que a moribunda lhe confiara, atirando tudo para dentro
da gaveta da sua secretária, sem se dar pressa em observar de perto o
estranho legado.
Vinha fatigadissimo e como a idade já lhe não permittia prolongadas
vigilias, recolheu-se ao leito, reservando para o dia seguinte o exame
do mysterioso manuscripto.
A confissão da velha, porém, impressionara-o.
Elle conhecera o padre Hilario e sabia muito bem, pelo que lhe dissera
madre Paula, que o novel capelão da Covilhã era filho do padre Anselmo.
O que de todo o ponto ignorava eram as particularidades que a velha lhe
revelára nos ultimos momentos.
Nunca tivera grande curiosidade de saber a origem d'aquelle filho que o
padre Anselmo parecia querer encobrir, não obstante a grande protecção
que sempre lhe dispensára e que era o que afinal trahira o seu segrêdo.
Mas, comparando os relativos cuidados havidos para o padre Hilario com o
abandono a que Paulo fôra votado, o padre Filippe não sabia explicar a
differença, senão pelo grau de affecto que separava aquellas duas mães
no coração do padre Anselmo.
Todavia, madre Paula suppunha a _Irmã Dorothêa_ vivendo em paiz
estrangeiro, protegida pelo seu seductor, a essas horas talvez elevado
ao cargo de Provincial ou Assistente, com outro nome diverso do que a
principio tivera. E n'este caso, como é que os dois esqueceram Paulo,
deixando-o entregue aos cuidados de duas pessoas amigas, de quem mais
não quizeram saber?
Emaranhado n'esta ordem de considerações, o padre Filippe adormeceu,
reservando para o dia seguinte a leitura do manuscripto, que talvez
viesse fazer luz em tão escuro labyrinto.
Se essa leitura alguma coisa o esclareceu, poderemos nós avaliar pela
conversação que, na tarde d'esse mesmo dia, se travou entre elle e madre
Paula, na casa das Sereias.
--Sabes, minha amiga--disse o padre Filippe, entrando na cella da
abbadessa--que tive noticias do padre Anselmo?
--Sim?--perguntou madre Paula com curiosidade.
--É verdade. Noticias bastante retardadas, mas em todo o caso novas para
mim e creio que tambem para ti...
--Decerto. Ha muitos annos que não tenho noticias do padre Anselmo. É
ainda vivo?
--Não sei. A pessoa que d'elle me fallou é já morta, e, ao expirar, não
soube dizer-me se elle ainda vivia.
--Alguem, ao morrer, fallou-te do padre Anselmo?
--Uma tal Maria do Carmo, que foi creatura muito d'elle...
--Tenho ideia d'essa mulher. Persuado-me que a vi duas ou tres vezes
procurar o padre Anselmo, quando elle se demorava n'esta casa.
--Eu não a conhecia, mas fui chamado hontem á noute para a ouvir de
confissão, porque a pobre creatura não queria morrer sem fazer
revelações importantes.
Contou então toda a conversação que tivera com a moribunda e o legado de
que ella o fizera depositario.
--E o manuscripto o que diz?
--O manuscripto--replicou o padre--é uma sentida e commovente narrativa
feita pela mãe do padre Hilario ao filho, revelando-lhe o segredo do seu
nascimento e dando conta dos funestos amôres que, desde muito nova
ainda, a ligaram ao padre Anselmo...
--É singular!
--Pelo que d'esse manuscripto se deprehende, essa mulher não vira mais o
filho desde o momento em que o déra á luz. O padre Anselmo
arrebatara-lh'o da vista, dera-o a crear e encarregara-se da sua
educação, conservando no mais rigoroso mysterio as circumstancias do
nascimento d'aquella creança. Chamava-se Carlota a mãe, e por suggestões
do padre Anselmo, casara em Braga com um agiota chamado Custodio de
Jesus...
--Custodio de Jesus!--repetiu madre Paula, sobresaltada.
--Sim, Custodio de Jesus--tornou o padre Filippe--Porque te sobresalta
esse nome?
--É porque Custodio de Jesus se chama tambem o pae de Beatriz, a
namorada de Paulo; e creio ter ouvido dizer que esse homem residira
primitivamente em Braga.
--É extraordinario!--exclamou o padre Pilippe--Dar-se-ha caso que
Beatriz seja filha da amante do padre Anselmo?
--Não sei. É possivel, como é possível que a propria Beatriz seja...
irmã de Paulo.
--Convem esclarecer esse mysterio, mas de modo que não transpire a menor
suspeita do que se trata.
Madre Paula ficou por alguns instantes pensativa.
--Chamava-se D. Carlota--disse--a mãe do padre Hilario?
--Chamava.
--É ella mesma quem se declara casada com Custodio de Jesus, no
manuscripto que te veio ás mãos?
--É. E posto não diga claramente que as suas relações intimas com o
padre Anselmo continuaram, bem o deixa perceber nas differentes
passagens em que se refere ás supplicas que frequentemente lhe fazia
para que a deixasse vêr e beijar o filho, seu unico amor, sua unica
aspiração.
--De modo que--tornou ainda madre Paula--se Beatriz é filha de D.
Carlota...
--Não haverá remedio senão impedir por todos os modos o casamento
d'essas duas creanças, ainda mesmo que não tenhamos a certeza moral do
impedimento dirimente.
--E teremos então que revelar a Paulo o segredo do seu nascimento?
--Não me parece que o devamos fazer emquanto não tivermos esgotado todos
os outros meios ao nosso alcance.
--Paulo ama loucamente essa menina e é correspondido com igual
vehemencia por parte d'ella... Creio bem que será empreza difficilima
arrancar ao coração dos dois um sentimento que alli tem creado tão
fundas raizes.
--Buscaremos convenientemente empregar os nossos esforços no sentido de
suavisar o melhor que pudermos o golpe que talvez sejamos obrigados a
vibrar-lhes... E se queres que te diga, minha querida, acho
extemporaneas quaesquer considerações a esse respeito... Primeiramente,
devemos informar-nos acerca da identidade d'esse Custodio de Jesus. Póde
muito bem acontecer que, em vez de se tratar da pessoa que suspeitamos,
se trate apenas de um homonymo do marido de D. Carlota.
--Tratarei de averiguar por alguma das serventuarias do convento.
--O que não convem--recommendou o padre Filipe--é que Paulo tenha
conhecimento d'estas nossas indagações que não devem perder o caracter
do mais intimo segredo...
--Descança, meu amigo. Paulo nada saberá.
N'essa mesma tarde, madre Paula chamou á sua cella uma das serventuarias
do convento e incumbiu-a de averiguar e saber de certeza certa quem era
Custodio de Jesus, que pessoas compunham a sua familia, qual o seu
estado, e como se chamava a mãe de Beatriz.
--Quero saber isto com a maxima exactidão e a mais breve possivel--disse
madre Paula.