--Por exemplo... exigir que eu augmente o dote á rapariga e querer que

se façam escripturas, de modo que o que é d'elle fique perfeitamente a

coberto...

--O Eugenio não é capaz d'isso!--protestou o Belchior.

--Eu sei lá! A gente vê caras e não vê corações... Depois da rapariga

perdida, eu não terei remedio senão sujeitar-me ás condições que elle

impuzer... Nada, isso não é bom plano.

--Pois então, meu amigo, o melhor é desistirmos do negocio, porque não

vejo outro meio...

--Desistir tambem não... Talvez que, se eu a mettesse n'um convento com

ordem de a tratarem com rigor e de não a deixarem fallar nem escrever ao

namoro, isso desse bom resultado.

--Não dá resultado nenhum. Que diabo! Você é um homem desconfiado com

quem se não póde tratar nada a sério...

--O mal dos meus burricos é que me tem feito alveitar--volveu o Custodio

coçando a suissa--Por eu ter confiado demais nos amigos é que aquelle

ladrão do padre Anselmo me roubou a fortuna e a mulher... Depois é que

eu vim a saber tudo... Mas era tarde, já lhe não podia dar remedio...

--Pois sim, mas agora não se trata de lidar com gente de sotaina... Você

conhece-me ha muito tempo e sabe que tenho sempre zelado os seus

interesses como se fossem meus...

--Bem sei isso, mas o caso não é propriamente com você, Belchior. Se

fosse você que tivesse de casar, eu acceitava o plano com os olhos

fechados, porque bem sei que você não era homem capaz de faltar ao que

promettesse... Mas com esse rapaz o caso é outro...

--Não é outro nada...--replicou o Belchior.--Se elle se comprometter

comigo a casar com a pequena nas mesma condições em que está tratado,

cumpre com toda a certeza.

--E se não cumprir?

--Isso não póde ser... Mas se elle cahisse na asneira de faltar ao

contracto, eu cahia-lhe em cima com uma querella, que elle havia de ir

por uma barra fóra e nem tudo quanto tem lhe havia de chegar para a

justiça...

--E o que lucrava eu com isso?--perguntou o Custodio com um sorriso

velhaco.

--O que lucrava?

--Sim, o que lucrava eu, se a justiça lhe apanhasse todos os haveres

pela maroteira feita a mim?

--Homem, ninguem quer metter-se em assados... Logo que elle visse que o

caso era sério, chegava-se á razão... Você não comprehende?

--Comprehendo... isso comprehendo eu...--mascou o Custodio indeciso.

--Então, se comprehende, que mais quer?

--E você compromette-se a fazel-o cumprir?

--Está claro que comprometto! Eu fallo com elle, percebe? Fallo com elle

e proponho-lhe o expediente do rapto como coisa minha... Não lhe digo

que você está feito comnosco, porque, emfim, você é pae e é preciso

salvar as apparencias...

--Sim, isso é bom... Mesmo para elle me não perder o respeito.

--Justissimo! É isso mesmo!--apoiou o procurador.--Offereço-me a

proporcionar-lhe ensejo para a obra, mas imponho-lhe a condição de que

ha de casar sem mais preambulos e sem mais contratos, logo que seja

encontrado com ella.

--Justo!--disse o Custodio.

--Porque, se assim não fizer, compromette-me e então será comigo que

elle terá de se haver... Está bem assim?

--Está optimo!--apoiou o Custodio radiante.

--E o dito dito--tornou o Belchior--eu levo a percentagem combinada...

--Isso está sabido. Arranje você as coisas de modo que o casamento se

faça nas condições combinadas e o dinheiro passa-lhe logo para as unhas.

XVI

O rapto

Dois dias depois da conferencia entre o procurador e Custodio, Beatriz,

que fôra convidada pela mulher e a cunhada do Belchior para as

acompanhar n'um passeio ao campo, levantou-se de manhã muito contrariada

por não poder furtar-se ao convite que lhe não proporcionava o minimo

prazer.

O Custodio fingia-se tambem contrariado, e tendo-se levantado muito

cêdo, resmungava de modo que a filha o ouvisse, maldizendo a lembrança

de o convidarem para um passeio que alterava os seus habitos e talvez

lhe puzesse a saude em risco.

--Ora a minha desgraça!--clamava elle--Não basta ter tanta coisa que me

afflija, senão ainda agora obrigarem-me a andar um dia inteiro pelo

campo, a apanhar sol e a aturar senhoras!

--Mas se o papá não quer--propoz Beatriz--manda-se dizer que está doente

e não vamos...

--Isso não! Não póde ser. O Belchior ficaria desgostoso...

--Mas se é um caso de força maior...

--Não, já agora, estou a pé, sempre vou... Não quero que o homem

supponha que não tenho desejo de lhe acompanhar a familia. Mas isto

custa-me muito, porque a minha idade já não permitte estas folias...

A este tempo parava um trem á porta e o Belchior e a familia subiam

açodadamente, gritando:

--Então vamos?

--Vamos lá... estou prompto!--disse o Custodio ao Belchior--A pequena

tambem já está preparada, acho eu...

A mulher e a cunhada do procurador dirigiram-se aos aposentos de Beatriz

n'uma grande alegria:

--Vamos, avie-se, sua preguiçosa! Então ainda n'esse estado?

--Estou prompta. É só levar para o carro um pequeno cesto com umas

coisas que mandei preparar...

--O quê! Mandou fazer de comer? Que tolice! Nós levamos alli comida que

chega para um regimento!...

--Por demais não perde...--apoiou o procurador--Vamos embora que são

horas... O bonito é sahir cedo para andarmos por lá todo o dia...

Entraram no carro, um _char-á-bancs_ enorme, e seguiram as duas familias

aos solavancos em direcção á quinta da Lavandeira.

A mulher e a cunhada do procurador não faziam senão soltar exclamações

de admiração e alegria, encantadas com a paisagem.

A tudo achavam graça, tudo achavam muito bonito.

Obtida a permissão de entrarem na quinta, n'essa epocha ao cuidado dos

caseiros, seguiram os passeiantes por baixo do copado arvoredo,

dividindo-se em dois grupos: um formado pelas tres senhoras, e o outro

pelos dois homens.

O procurador, allegando que para baixo todos os santos ajudam, despediu

o cocheiro, dizendo-lhe que não voltasse, porque regressariam a pé para

a cidade.

--Vamos indo devagar por ahi fóra e até é mais pittoresco... não acha,

amigo Custodio?

--A distancia, realmente, não é grande...

--Em chegando á Bandeira, estamos em casa... A rua do General Torres

desce-se bem...

--Eu cuidei que o passeio era para mais longe--disse a mulher de

Belchior.

--Mais longe para que? Aqui estamos muito bem... A quinta é bonita e é

muito grande, dá bem logar para passearmos... E quando nos sentirmos

cançados, abancamos e toca a palestrar... Aqui o que faz bem é o ar...

Passou-se o dia como não podia deixar de ser n'uma horrivel monotonia

para Beatriz, que de modo algum podia achar-se bem n'uma companhia que

não lhe offerecia o menor sentimento de agrado.

O Custodio conversava com o Belchior sobre negocios, repisando o

assumpto. As duas senhoras que constituiam a familia do procurador,

esgotado o reportorio da má lingua contra a vizinhança e varias outras

familias conhecidas, calaram-se e, sentadas á sombra de uma arvore

frondosissima, começaram a cabecear com somno.

Haviam-se levantado cêdo e resentiam-se do longo passeio.

Beatriz, portanto, ficou uma grande parte do dia entregue a um

aborrecimento cruel, que a punha de muito mau humor.

Pensava por vezes em Paulo, lembrando-se de que talvez não lhe fosse

possivel vel-o, fallar-lhe na noite que ia seguir-se a um dia tão

horroroso.

Não pudera prevenil-o d'aquelle passeio, porque o mancebo havia duas

noites que não apparecia a fallar-lhe.

Dissera-lhe que negocios importantes de que dependia o futuro dos dois o

deviam ter afastado do Porto por alguns dias, mas não se affligisse

ella, porque elle voltaria com boas novas.

--Mas o que vaes fazer?--perguntara-lhe interessada em tudo o que o

mancebo intentava.

--Permitte-me que por ora t'o não diga, meu amor. Breve saberás tudo e

tenho bem fundadas esperanças de que has-de applaudir o meu

procedimento.

Esta persistencia em guardar absoluto segredo sobre os seus designios,

quando Paulo não tinha tido até alli um unico pensamento que lhe não

communicasse, impressionou-a.

E era ainda sob a influencia d'este estranho procedimento do seu bem

amado que a pobre Beatriz se encontrava n'aquelle dia, um dos mais

aborrecidos e tristes de toda a sua vida, porque, além das mágoas

intimas que a torturavam, tinha ainda a constrangel-a e a aggravar-lhe o

soffrimento a presença de pessoas que, se não lhe eram odiosas, eram-lhe

pelo menos antipathicas.

Ao cahir da tarde Custodio e o procurador fingiram enthusiasmar-se n'uma

grande polemica a proposito de uma questão commercial palpitante; e com

grande profusão de gestos e de berros, interrompiam-se frequentemente um

ao outro, sem chegarem a accôrdo. De modo que, esquecidos da distancia

que os separava do Porto, foram deixando-se ficar até ao cahir da tarde.

A noite estava de luar, serena e calma, convidativa de longo passeio

pela fresca.

--São horas de nos irmos chegando a casa...--advirtiu a mulher de

Belchior, quando notou que a conversa se ia demorando.

--É verdade, vamos indo...--disse o procurador, travando de braço de

Custodio para continuar na discussão acalorada em que estava

interessado.

E voltando-se para as senhoras:

--Andem lá adiante...

Sahiram para a estrada, a essa hora silenciosa e deserta.

As damas, levando Beatriz cada uma por seu braço, tomaram a dianteira, e

muito alegres, muito lepidas, iam cantarolando por entre dentes alguns

numeros mais populares de uma revista em voga.

--Ah! que dia tão bem passado!--exclamava a cunhada do procurador--Não

ha nada para abrir o appetite e dar saude á gente como é um passeio ao

campo!

--E a noite está linda!--accudiu a mulher do Belchior--dá mesmo gosto

passeiar por uma noite assim! Não gosta do campo, Beatrisinha?

--Não desgosto...--volveu a namorada de Paulo com o coração oppresso de

ignoto receio.

O procurador e Custodio, de cada vez mais encarniçados na controversia,

paravam de vez emquando, falando muito, gesticulando, adduzindo

argumentos sem tom nem som.

Era uma esperteza dos dois velhacos para justificarem a distancia a que

queriam encontrar-se no momento do assalto.

--Deixe-as ir... deixe-as ir...--murmurava o Belchior--Quanto mais longe

estivermos d'ellas, mais facilmente o Eugenio e os amigos deitam a luva

á pequena.

Assim foram caminhando, até que, n'uma volta da estrada, as damas deram

de frente com um trem parado, quasi obstruindo a passagem.

Detiveram-se esperando, que o carro seguisse na direcção que ellas

levavam, para poderem continuar o seu caminho. Mas rapidamente dois

homens mascarados saltaram á estrada e, sem darem tempo á mais leve

resistencia, apoderaram-se de Beatriz e atiraram-n'a para dentro do

carro, que partiu em carreira desabrida.

--A mulher e a cunhada do procurador, industriadas pelo marido e

perfeitamente conhecedoras do que havia de succeder, quando viram partir

o carro, desataram a gritar por soccorro, simulando uma grande

afflicção.

Os dois patifes ao ouvir gritar as damas, correram para ellas muito

açodados, perguntando:

--O que é? O que aconteceu?

--Dois homens, sahindo-nos ao caminho, agarraram a Beatrizinha e fugiram

com ella dentro d'aquelle trem!

E apontavam a carruagem que desapparecia n'uma curva da estrada.

--E ella não gritou?--disse o procurador.

--Ella soltou um grito, mas elles abafaram-lhe a voz, de modo que a

pobresinha não se tornou a ouvir!

--Talvez a amordaçassem...--aventurou o Belchior.

--Ou talvez perdesse os sentidos...--concluiu a mulher.

O Custodio julgou conveniente fingir grande desespero, e levando as mãos

á cabeça, não fazia senão gritar:

--Oh! minha filha! minha filha! desgraçado de mim, que me roubaram a

minha filha!

--Um rapto!--gritava o procurador--O crime foi praticado de noite, e de

noite bastam os indicios... Vamos já ter com a auctoridade da freguezia

e apresentemos-lhe a queixa...

--E quem diremos que foi o raptor?--perguntou o Custodio.

--Ora essa! Foi o Eugenio de Mello... Pois quem havia de ser?

-- Sim... foi elle...

--Está visto que foi--tornou o procurador--Elle queria, ella não

queria... raptou-a!

E em tom mais baixo:

--Convem affirmar desde já que o vimos e o reconhecemos perfeitamente,

que é para o entalarmos logo desde o principio, de modo que não haja

outro remedio senão fazer-se o casamento sem escripturas.

--Vamos a isso! Foi elle, o grande maroto!... Eu bem o reconheci... Isto

não é coisa que se faça a um pae!

--Mas que coisa! que coisa!--dizia a mulher do procurador, simulando a

maior consternação.--Ainda não estou em mim!

--Ai, meu Deus!--accrescentava a cunhada--Em que perigo nós nos

mettemos! Olhem se aquelles malditos se lembravam de me raptar tambem a

mim!

--Á senhora?!--disse inconvenientemente o Custodio, com um sorriso

escarninho.

--E então?--retorquiu a cunhada do Belchior, offendida--Eu sou solteira,

e elles eram dois...

--Ahi está a prova!--affirmou o procurador--Vinham dois e raptaram só

uma... Logo, provará que o reu premeditou o crime, porque escolheu a que

lhe fazia conta. Foi o Eugenio de Mello, não ha que ver... Vamos ter com

o regedor para perseguir os fugitivos!

Tudo isto era dito a andar esbofadamente pelo caminho que conduzia ao

largo da Bandeira, em Villa Nova de Gaya, onde afinal chegaram depois

das nove horas da noite.

Tendo indagado onde morava o regedor, apresentaram-se-lhe, e

contaram-lhe o succedido.

--E para onde fôram elles?--perguntou o funccionario.

--Nós ainda os seguimos um bocado gritando; mas ninguem nos accudiu, e

afinal perdemol-os de vista...

--Os senhores reconheceram os raptores ou suspeitam quem fossem?

--Elles levavam a cara coberta, mas um d'elles descobriu-se sem querer,

deixando vêr o rosto, e todos nós reconhecemos um rapaz que vive no

Porto e que se chama Eugenio de Mello.

--Bem!--concluiu o regedor--Eu vou mandar os meus cabos indagar, a vêr

se descobrem os criminosos... E amanhã dou parte para a administração.

Mas sempre será bom os senhores apparecerem lá para formularem a queixa.

E preparando-se para tomar nota n'um papel:

--Os seus nomes, fazem favor?

O Belchior declinou os nomes de todos, figurando elle, a mulher e

cunhada como testemunhas e o Custodio de Jesus como queixoso.

--Vou já mandar proceder a rigorosas pesquizas na minha freguezia--disse

o regedor--a vêr se se encontram os delinquentes. Mas, amanhã, o sr.

administrador terá conhecimento do facto e tomará as providencias

precisas...

--Veja v. s.^a, sr. regedor, a situação em que me encontro com uma filha

roubada nas minhas barbas!...--lamuriou o Custodio.

--E demais a mais, menor!--declamou o procurador--É crime de casamento

ou penitenciaria!

--Tudo vem a dar na mesma... Pobre de quem as tem!--Concluiu o regedor.

--E agora--disse o Belchior muito solicito--em chegando á cidade, vamos

direitos ao commissario de policia, apresentar a queixa...

--Está visto...--apoiou o regedor--Ninguem sabe o caminho que os

fugitivos tomaram, e a policia, telegraphando para todos os concelhos,

póde muito bem fazel-os capturar...

--O que vale é que nós conhecemos o raptor...

--Sim, isso é meio caminho andado--disse o regedor--e se tivessem

photographias, ainda melhor...

--A verdadeira photographia é o nome--accudiu o procurador--Elle é

conhecido.

--Bem, bem! Eu vou tratar de ver se elles estão na minha freguesia, mas

não me parece... Amanhã, amanhã na administração do concelho, o snr.

administrador dará as ordens.

Despediram se do pacifico funccionario que, interrompido no trabalho de

empacotar prégos para a Africa, voltou á sua tarefa, logo que os viu

sahir.

--E d'aqui para a policia!--bradou o Belchior já na rua.

Metteram pela rua do General Torres abaixo, em direcção á cidade.

--Tudo correu bem!--segredava o procurador ao Custodio--Agora, na

policia, é que a coisa vae dar echo... Talvez amanhã saia nos jornaes...

--Ó diabo! mas isso é uma vergonha... fica-me a rapariga perdida!

--E você a dar-lhe! Ella fica mas é achada, porque não terá outro

remedio senão casar com o Eugenio...

--Sim... isso é verdade.

--Pois ahi está! Quanto maior fôr o escandalo, melhor. Deixe fallar os

jornaes... Tomaramos nós que elles berrassem bastante... Até nos

convinha...

--Mas os jornaes só depois d'amanhã é que se occuparão do caso, porque

já hoje não vão á policia...

--Pois sim; mas vou eu aos jornaes... Isto é preciso não deixar

arrefecer... Precisamos de lhe tapar todas as sahidas... Ella ha-de

casar, quer queira, quer não!

Deixemo-los seguir caminho da policia e dos jornaes, e vejamos o que foi

feito de Beatriz, a essa hora seguindo caminho desconhecido na companhia

dos dois mascarados que a raptaram.

Surprehendida pelo assalto inesperado d'aquelles dois homens, Beatriz

quiz resistir e gritar, mas vendo-se cingida por uns braços possantes e

atirada para dentro do carro com uma rapidez assombrosa, foi tal a

commoção que soffreu, que perdeu os sentidos.

Quando o trem se poz em fuga n'uma corrida vertiginosa, um dos

mascarados quiz naturalmente serenal-a, porque disse n'uma voz repassada

de ternura, pegando-lhe na mão:

--Beatriz!

Mas a pobre pequena reclinada sobre um dos lados do trem, não se mexeu.

--Beatriz!--tornou a dizer a voz, sacudindo-lhe levemente a mão fina e

delicada.

O mesmo silencio e a mesma immobilidade.

Estão o desconhecido que a chamava, inclinou-se-lhe sobre o rosto,

poz-lhe a mão na fronte, que estava banhada de suor frio, e notou que a

filha do Custodio não respirava.

--Perdeu os sentidos!--disse elle visivelmente commovido.

--É natural--replicou o companheiro.--Compleição franzina e delicada,

assustou-se e desmaiou.

--E agora?--perguntou o que primeiro fallara.

--Agora é caminhar... caminhar sempre até chegarmos a casa... O trem vae

em boa carreira e não devemos demorar muito a chegar lá.

E vendo que o companheiro se mostrava de cada vez mais inquieto e

afflicto:

--Não te assustes--tranquillisou.--Isso passa. É um ligeiro deliquio,

que até nos favorece o bom exito da empreza.

--Parece-me que não somos seguidos.--tornou o outro, inquieto.

--Quem querias tu que nos seguisse, se tudo estava tão bem combinado e

tudo correu tão de molde ao nosso desejo que os que podiam impedir-nos

foram os proprios que nos auxiliaram?...

--É verdade. Elles conservavam-se a distancia, mandando as senhoras

adiante...

--Já esperavam o lance, os patifes!

--Pois é claro. O que eu queria era vêr a cara d'elles quando souberem

que a raptada seguiu caminho differente d'aquelle que lhe haviam

assignalado...

--Era para Villar do Paraiso, pois não era?

--Era.

O trem havia descido a rua do General Torres e parara á entrada do

taboleiro inferior da ponte D. Luiz para pagar a portagem.

--Estamos na ponte--disse o primeiro dos dois desconhecidos.

--Estamos. Agora falta-nos atravessar a cidade. É questão de meia hora.

Paga a portagem pelo cocheiro, o trem continuou o seu caminho, sem que

alguem reparasse na veloz corrida que levava. Andou assim meia hora, até

que a final entrou na estrada do Carvalhido, parando em frente de um

largo portão de ferro.

--Eis-nos, emfim!--disse um dos dois raptores.

E levando um apito aos labios, tirou d'elle um silvo agudo e prolongado.

Immediatamente o portão se abriu e a carruagem entrou n'um largo pateo,

seguindo por uma extensa alea de frondosos castanheiros, até junto de

uma casa de severo aspecto, que alli se erguia, dominando os vastos

campos que a circumdavam.

Os dois desconhecidos saltaram do trem, conduzindo nos braços Beatriz,

ainda em deliquio, para uma sala interior ricamente mobilada.

Depositaram a pobre creança sobre um sofá, e rapidamente, correndo-se um

reposteiro, appareceu na sala uma dama alta, de nobre aspecto, que fez

aspirar a Beatriz um frasco de saes.

Dos dois mascarados, um murmurou algumas palavras ao ouvido da dama e

retirou-se; o outro, tirando a mascara, ficou com os olhos pregados em

Beatriz, sem preferir palavra.

Momentos depois, a filha de Custodio, suspirou, abriu os olhos e

circumvagando um olhar pela sala, soltou um grito d'alegria.

--Paulo! És tu?--disse ella.

--Sou eu, Beatriz, sou eu! E Paulo aproximou-se da namorada, pegou-lhe

na mão e beijou-lh'a com transporte.

--Paulo!--tornou a filha de Custodio, visivelmente intrigada--o que é

isto? Como me encontro eu aqui?

--Encontras-te aqui, minha querida, porque eu te salvei de um grande, de

um enorme perigo...

--Ah! bem sei... aquelles homens que nos assaltaram na estrada... Meu

Deus!--disse ella, recordando-se da scena estranha que se déra.--Mas

como pudeste tu saber?

--Pude saber que te queriam raptar, d'accôrdo com teu pae e com o

procurador Belchior--esclareceu Paulo:--Era uma cilada infame que te

estava armada e em que te queriam fazer cahir...

--Com o consentimento de meu pae?!--gritou Beatriz horrorisada.

--Com o consentimento de teu pae, sim. E eu que fui advertido da

desgraça a que semelhante infamia ia condemnar-te, resolvi substituir os

raptores e, em vez d'elles, apresentar-me eu a raptar-te.

--Ah! então os dois homens que me assaltaram no caminho e me lançaram

dentro do carro...

--Era eu e um meu amigo. Teu pae e o Belchior ficaram persuadidos de que

foi Eugenio de Mello quem effectuou o rapto, porque tinha de se

realisar, estava combinado entre elles, e nem por sombras suspeitam a

esta hora que, em vez de cahires nas mãos do noivo que te queriam impôr,

estás ao lado do escolhido do teu coração!...

Beatriz relanceou um olhar curioso para a dama desconhecida que, junto

d'ella, o estava fitando com expressão de ternura maternal.

--E esta senhora--disse ella--quem é?

Antes que Paulo respondesse, madre Paula, pois que era ella, respondeu á

pergunta:

--É uma amiga que muito a estima e que só deseja a sua felicidade, minha

filha.

--É minha mãe!--accrescentou Paulo, beijando carinhosamente a mão á

religiosa, mais elegante e sympathica nos seus trajes seculares.

Madre Paula sorriu amavel e dirigindo-se a Beatriz:

--Este louco--disse ella--teima em querer impôr-me um titulo que me não

pertence e a que de forma alguma tenho direito...

--Não diga isso, minha mãe!--protestou Paulo--Pois quem me acalentou na

infancia, quem protegeu e amparou os meus primeiros passos, quem tem

tido sempre para mim todos os disvellos, todas as ternuras e carinhos de

uma mãe por seu filho? Conheci eu outra mãe? Ouvi alguma vez palpitar

junto do meu berço outro coração que não fosse o seu, grande e generoso?

--Mas, meu filho...--ia a dizer madre Paula commovida.

--Meu filho! vês?--interrompeu o mancebo voltando-se para Beatriz--Diz

que não é minha mãe e chama-me seu filho!

Madre Paula replicou n'um tom cheio de bondade e doçura:

--«Meu filho», é a formula terna, cariciosa do meu tratamento para

comtigo... Mas se me deves affeições e cuidados que outra qualquer no

meu logar te dispensaria, é todavia bem certo que outra tem direito á

funda veneração e aos ternissimos affectos do teu coração de filho...

--Outra!--exclamou Paulo indignado--Quem quer que ella seja não a

conheço, nunca a vi nem desejo vel-a! Se tive outra mãe, aquella de quem

a natureza ou a fatalidade se serviu para me lançar a este mundo, é tão

pouco o que lhe devo em affeição e tanto o que d'ella me veio em dôres e

soffrimentos, que já faço muito não a odiando, para sómente sentir por

ella indifferença.

--Paulo, não digas isso!--reprehendeu madre Paula--Sabes que me

mortificas fallando assim. Não te aconselhei e não busquei sempre

incutir no teu coração o sentimento do amor e respeito que se deve aos

paes?

--Perdôe-me, minha boa mãe! Os seus conselhos não foram esquecidos nem

os seus esforços baldados. E a prova é que a amo e a respeito com todas

as véras da minha alma, com todas as forças do meu coração. Mas como

quer que eu tenha os mesmos affectos, os mesmos ternos sentimentos de

respeitosa veneração por uma outra que não conheço, que nunca vi, que me

abandonou e me deixou entregue á generosa caridade de seu nobre coração,

minha boa e santa mãe? A ella devo os soffrimentos, as angustias da vida

que eu lhe não pedi e que de bom grado dispensava. A madre Paula devo

tudo o que um filho deve a sua mãe: devo-lhe o amparo, o carinho, a

protecção o amor que uma boa mãe tem sempre por seu filho. Quem é, pois,

minha mãe? A quem devo eu todo o respeito, toda a obediencia, toda a

estima e gratidão que constituem a obrigação de um filho para com seus

paes: aos que me crearam e protegeram, ou aos que me deram o sêr e me

abandonaram?

E voltando-se para Beatriz, que assistia silenciosa e commovida a esta

scena:

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 16 / 28 段