imbecis que n'uma hora de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem,
e não posso tirar d'elles a vingança que merecem!
--Mas de que te queixas? Qual é o motivo do teu desgosto?
--São uns miseraveis! Não ha quem lhes apanhe dinheiro para nada...
Estou compromettido, cheio de dividas, porque tenho gasto sommas
enormes, tudo para honrar o partido e sustentar o brilho do meu nome,
unica coisa que ainda dá importancia a esse agrupamento de idiotas...
--És modesto, João!--interrompeu Jorge rindo.
--Que diabo! entre amigos não ha necessidade de estarmos com cerimonias.
A verdade é esta...
--Tens razão. _Inter amicus non est gerigonça_, dizia-se no meu tempo.
Continua.
--Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto que não passava de
um plano bem combinado para arranjar uma somma de que preciso para me
livrar de apuros. Bato á porta dos correligionarios mais endinheirados
de Lisboa e digo-lhes que preciso de vir ao norte combinar com os nossos
amigos um golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro, porque
elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma, a suprema força. Claro
está, eu não pedia para mim, pedia para o serviço do partido, para o
triumpho da causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer para
lhes arrancar os magros cobres com que fiz a viagem?
--Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...--disse Jorge com sarcasmo.
--É sangue... mas não teem elles obrigação de dar o _sangue_ pela
patria?
--É que elles não estão talvez bem convencidos de que a patria és tu...
--Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira imagem, pelintra e cheio
de necessidades como ella! Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria,
porque ella tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre missão o
salval-a! Pois os grandes burros não se capacitam d'isto!
--Mas, afinal, de que tens tu vivido?
--D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem ido largando os cobres,
persuadidos uns de que a coisa estava para já, outros pela simples
vaidade de se aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria... Mas
agora começam a retrahir-se, e sei que alguns até já teem dito que lhes
sou pesado em demasia! Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento
do seu partido!
--O mundo está cheio de ingratos, meu caro!
--Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço, reclamo dinheiro á
ordem para a realisação do meu plano, e contra a minha espectativa, em
vez de pôrem á minha disposição os seus cofres, torcem o nariz e
perguntam-me quanto é preciso, como se isto fosse uma sacca de arroz ou
um costado de bacalhau que convém regatear! É inaudito, não achas?
--Acho... acho que vieste sem dinheiro e que voltas sem elle... Meu caro
João, sejamos francos, tens levado uma vida de expedientes, uma vida de
exploração politica que não podia durar sempre... Tu devias pensar que
não ha minas inexgotaveis e que o mais vigoroso organismo não resiste a
sangrias repetidas...
--É certo, mas eu não vim ao mundo para viver de ar e de esperanças...
Tenho trabalhado, tenho sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é
justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...
--Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente inutil, improficuo, e os
factos demonstram que, em vez de prestares auxilio, o verdadeiro
auxiliado és tu...
--Estás muito enganado! Eu tenho segredos que valem dinheiro... Se eu
quizesse fallar, se eu quizesse reduzir a dinheiro tudo o que sei, não
teria difficuldades...
Jorge sorriu.
--Isso tambem eu creio--disse elle.
--E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que elles não correspondem á
sinceridade e dedicação com que eu os tenho servido...
--Queres dizer, se não continuarem a corresponder...
--Pois está claro! Eu não tenho obrigação de respeitar mais os
interesses d'elles do que os meus...
Houve um silencio de alguns minutos.
--É verdade, ainda te dás com o Avioso?--perguntou o Lazaro.
--Continuamos a ser amigos como sempre fomos.
--Esse homem é meu adversario politico, dos mais ferrenhos e
intransigentes, mas eu pessoalmente sympathiso com elle.
--É um bello e generoso caracter. O peor defeito que lhe conheço é o de
ser politico.
--Talvez me convenha aproximar-me d'elle...
--Quando quizeres, estou ao teu dispôr.
--Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára... Mas, se me fôr
preciso, conto comtigo, com a tua discreção, com a tua amizade...
--Já sabes que estou sempre ao teu dispôr...
--Bem; havemos de fallar.
N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento intimo do
aventureiro, e disse comsigo:
--Temos o chefe mudado em espião...
João Lazaro accendeu um charuto e passado um instante, expellindo uma
fumaça:
--A vida está para os vadios, para os valdevinos, para os impostores...
Olha aquelle rapaz por quem na dias me perguntaste no _Suisso_, o
Eugenio de Mello, como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!
--É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto de casamento?
--Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a respeito d'esse negocio,
nem pio! Os amigos, em geral, são assim... guardam o melhor para elles.
--É que não estará ainda definitivamente resolvido o enlace...
--Mas tu disseste-me que sim...
--Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os homens de dinheiro.
Primeiro que se resolvam a consentir no casamento de uma filha, tratam
de indagar se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que vae
adquirir... E como tu dizes que elle não tem nada de seu...
--Não tem onde cáia morto, essa te posso eu jurar!
--Então ahi está! talvez que não sejas tu o unico a saber essa
particularidade com respeito ao teu amigo, e d'ahi sobreviessem
difficuldades... Apesar de que o procurador Belchior affirma, segundo
ouvi, que elle possue importantes propriedades no Alemtejo.
--O procurador Belchior? Que sabe o procurador Belchior ácerca do
Eugenio?
--Não sei... talvez indagasse.
--Pois se indagou e diz que elle é rico, mente! Ahi ha de haver por
força grande embrulhada.
--Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo d'esse tal Eugenio, que,
não obstante, gasta dinheiro a rodos e sustenta bisarramente a fama de
rapaz rico...
--Á custa do commendador Garcia...
--Será, não contesto. Mas para ser dinheiro fornecido por uma mulher
n'essas condições, parece-me demasiado... Salvo se ella tambem é rica...
--Não é, mas o commendador dispende muito com ella.
--Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte de receita para tamanha
dissipação...
--Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o.
--O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza e nunca uma fonte de
receita, tu bem o sabes...
--Pois é verdade; mas como tem cambiantes, permitte a illusão...
--Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel viver como vive,
dispender como dispende, e, sobretudo, conquistar a amizade do
procurador Belchior... Alli deve haver mais alguma coisa...
--A não ser que o procurador vá feito com elle para embarrilar o
capitalista...--aventurou João Lazaro.
--Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz d'isso.
--Hei de averiguar!--tornou o João Lazaro.
--Que interesse tens tu em o saber?
--O interesse que tem todo o homem em conhecer as patifarias do seu
semelhante... Imagina tu que este Eugenio de Mello ámanhã me apparece
rico, senhor de grandes capitaes, personagem importante na politica e
que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes no homem que muda de
posição para melhor, acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama
amigo e offerece ceias?...
--E se tal acontecer, que te importas tu com isso? É mais um biltre que
ficas conhecendo...
--Pois sim, mas é um biltre que me offenderá impunemente, se eu não
tiver o cuidado de ir archivando as notas das suas patifarias d'hoje,
para lhe dar com ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer fino...
--Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese, nem mais me
lembrava d'elle... O meu despreso seria castigo sufficiente á sua
canalhice...
--Nada, nada, menino!--protestou João Lazaro--Quem o inimigo poupa nas
mãos lhe morre...
--Elle, porém, não é teu inimigo...
--Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia tem demonstrado que o
homem previdente está sempre a coberto dos maiores perigos...
--Tu és extraordinario, João! Se procedes assim com os amigos, como
procederás com aquelles a quem odeias?...
--Queres ver? Olha!
João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle uma carteira que abriu.
--Tenho aqui--disse elle--uma relação dos meus inimigos--a quem hei-de
um dia dar lembranças minhas... É uma espécie de lista da loteria em que
só estão os nomes dos individuos _premiados_... Vê!
Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes conhecidos.
--Para que é isto?--perguntou Jorge.
--Para que? São _crédores_ meus a quem tenciono _pagar_ um dia... Ha-de
ser uma _liquidação_ completa!
E fez um gesto de quem aperta um laço.
--Serias capaz d'isso, João?--disse Jorge n'um tom sombrio.
--Oh! os candieiros não se fizeram para outra coisa! Has-de vêr...
Hei-de dar-te o espectaculo duma _illuminação_ como nunca viste.
--Não darás...
--Porque?
--Porque se a _festa_ se preparar, eu já sei que, para evitar o
espectaculo de uma semelhante _illuminação_, tenho de te procurar e
metter-te uma bala na cabeça antes de mais nada.
--Tu!
--Eu.
--Mas o caso não é comtigo. Tu não és meu inimigo.
--Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem como tu, é preciso estar
sempre prevenido...
João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo, teve mêdo de Jorge.
--Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que não posso nunca duvidar da
tua amizade. Alem d'isso, eu estava gracejando...
--E a gracejar confeccionaste esta lista...
--Para apavorar simplesmente. É uma fórma inoffensiva de
vingança--aterrar os que são meus inimigos, os que me fizeram mal!...
Jorge sorriu com despreso:
--Mau processo é esse de apavorar os inimigos com ameaças que não
tencionas realisar...--disse elle.
--Ao menos sobresalto-lhes as noites...--replicou o João Lazaro.
--Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que compromettes os teus
dias... Queres um conselho, João?
--Dize lá?...
--Rasga essa relação de nomes, que é o mais infame documento que pódes
dar do teu caracter... e se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a
leviandade de a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade.
--Jorge, vejo que levas muito mais longe do que eu suppunha um caso de
mera brincadeira da minha parte!--disse João Lazaro, verdadeiramente
compromettido.
--É que a mim revoltam-me os actos de cobardia, mesmo quando não passam
d'uma invenção absurda e idiota.
Fez-se um silencio constrangido entre os dois.
--A prova de que nem sequer houve ou ha da minha parte a intenção de
realisar a vingança quo te disse contra os individuos cujos nomes
figuram n'esta relação, está em que t'a mostro justamente no momento em
que mais afastado vou ficar do campo que lhes é hostil..
Jorge encarou-o.
--Vaes então mudar de campo de acção politica?--perguntou.
--Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo, indifferente. Não me
entendo com semelhante canalha!
--Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem dinheiro para a
realisação do teu decantado plano, o que farás?
--Ao dinheiro? Gasto-o.
--E ao plano?
--O plano vou realisal-o para Hespanha; e é possivel que eu por lá fique
e mais elle...
Jorge riu-se.
--É então ainda uma mystificação que projectas?
--Mystificação, propriamente dita, não é... Estreitarei relações com os
principaes vultos da peninsula, darei importancia ao meu partido, farei
que se falle n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel do que
é... Isto creio que é serviço de algum valor e que bem vale o dinheiro
que me derem...
--E se não conseguires que te dêem coisa alguma?
--Terei que pedir emprestado aos adversarios--que, mais avisados, não me
recusarão o que os meus correligionarios me negam...
--Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste se eu estou ainda em
boas relações com o Avioso?
--Foi.
--Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti, se eu não te apresentar.
--E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?
--Conforme. Se te comprometteres comigo a não abusar da boa fé do
Avioso, estou ao teu dispôr. Do contrario, não.
--Até faço mais... Isto para tu veres a minha lealdade...
--Dize lá!
--Eu não me aproximo do Avioso, para não dar nas vistas nem despertar
suspeitas... Faço-te as communicações a ti para tu lh'as transmittires.
Já vês que assim assumo a responsabilidade inteira para comtigo.
Acceitas?
--Está combinado. Acceito.
--Mas... tu comprehendes... a minha situação financeira é difficil...
--Já sei. Quanto?
--Por uma vez só?
--Não. Por mez.
--Diabo! Eu não sou um espião vulgar...
--O que é bom paga-se bem. Quanto?
--Duzentos mil reis será muito?
--Não sou eu que hei-de dizel-o...
--Pois quem?
--Tu e mais ninguem. Não se compra o homem, compra-se o serviço...
--Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis por mez e eu prestarei
serviço que valerá muito mais.
--Têl-os-has.
--Mas--observou João Lazaro com uma certa hesitação--ha ainda uma
coisa...
--Dize.
--Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos serios que não posso
protelar por mais tempo.
--Bem sei, precisas de um adiantamento...
--É isso.
--Quanto calculas que te seja preciso?
--N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo, mas era um grande
auxilio.
--Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o adiantamento. Mas, tu bem
sabes, elle é curioso, excessivamente curioso mesmo...
--Comprehendo.
--Então, se comprehendes, não perderei tempo a explicar-te qual a
maneira de obteres do Avioso a somma que desejas.
--Olha lá: uma relação completa dos que mais se salientaram nas ultimas
reuniões secretas e das resoluções n'ellas tomadas bastará por emquanto?
--Basta.
--Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as minhas difficuldades não
forem removidas por outra fórma, trarei tudo isso.
--Está bem.
--Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?
--Fallo.
--Mas recommenda-lhe o maior segredo e discrecção. Que isto não
transpire por modo algum.
--A quem mais interessa guardar segredo é a elle. Bem vês que,
inutilisado o agente, de nada serviria gastar dinheiro com elle.
--É precisamente isso.
--Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo que a elle proprio convem
guardar.
João Lazaro accendeu outro charuto.
--Só a tua grande amizade e dedicação me poderia levar a isto!
Jorge sorriu.
--A minha amizade e a sovinice sordida dos teus amigos...
--É claro. Mas se não confiasse tanto como confio em ti, eu não
acceitaria uma aproximação de semelhante natureza com o Avioso.
--E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e não sentisse um grande
desejo de te auxiliar na situação difficil em que te encontras, tambem
não tomaria sobre mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te dinheiro.
A proposito: sempre partes breve para Lisboa?
--Já, já, não. Demoro-me aqui ainda alguns dias. Mas quando partir para
Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos.
--Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas indagar a especie de
relações que existem entre Eugenio de Mello e o procurador Belchior?
--Estou resolvido a tratar d'isso.
--Não me disseste que esse Eugenio tem uns amores inconfessaveis,
occulta fonte de receita que equilibra o largo orçamento em que estão
representados todos os vicios com as respectivas verbas de despeza?
--Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais: essa loura, ciumenta
como um demonio e apaixonada como uma gata, já sabe que Eugenio projecta
casar-se.
--Sabe? Quem lh'o disse?
--Eu. Tu não me pediste segredo.
--Nem me interessa que ella o não saiba.
--Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu me propuz, e tomou amores
com Eugenio de Mello. A hora da minha vingança havia de chegar, e
chegou. Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a esta hora está
ella esperando impaciente que eu lhe leve as minhas informações e as
minhas ordens.
--Eu já sabia isso.
João Lazaro encarou o amigo com espanto.
--Já?!--perguntou.
--Já.
--Como o soubeste?
--Eu sei tudo.
--Não suppuz que te interessassem os meus actos a ponto de me mandares
espionar.
--Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do que eu se interessa em saber
a tua conducta.
--Ah! sim...--fez João Lazaro reflectindo.--Mas esta visita que eu fiz
não tinha caracter politico--e não acho correcto que me espionem e me
sigam n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento com que me
perseguem quando eu conspiro...
--Vamos a saber--disse Jorge.--Tens interesse em que Eugenio de Mello
não realise o casamento com a filha do capitalista?
João Lazaro fez uma carêta.
--Não me importo absolutamente nada com isso. O meu empenho é só
castigál-o pela sua falta de franqueza e lealdade para comigo. Devia
ter-me dito que ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto pelo
que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita a Leonor, vingo-me
e preparo o terreno para occupar a praça, que vae ficar abandonada.
--Se Eugenio casar...
--Quer case, quer não, Leonor não lhe perdoará. Convencida do que o
amante quiz trahil-a casando com outra, cortará immediatamente as suas
relações com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir pelo maior
amigo do perfido. Ora ella sabe que o maior amigo de Eugenio sou eu...
--E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades de vir a ser
admittido ao logar vago...
--Justo!
--É curiosa essa aventura!
--É curiosa, mas muito vulgar entre amigos.
--Será, mas entendo que deves proceder com cautela...
--Porque?
--Porque não te fica bem que se torne publico o teu papel nada invejavel
n'essa intriga. Queres fazer uma coisa?
--Dize.
--Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer aventura sem me
consultares primeiro. Valeu?
--Está dito. Mas não te esqueças de fallar ao Avioso. Estou immensamente
precisado de dinheiro...
--Não me esqueço.
O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se.
--Adeus--disse elle--Amanhã procuro-te.
--Pois sim. Adeus.
Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou com a vista até elle
transpôr a porta da sala, murmurou:
--Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!
XV
Conluio infame
No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente o dono da
casa e o seu amigo e confidente, o procurador Belchior.
--A coisa é esta:--dizia o procurador--com pannos quentes não se faz
nada.
--Ai, já? Você já é da minha opinião?--replicou o Custodio,
triumphante.--Pois, meu amigo, se eu, contra o meu genio, tenho usado de
pannos quentes, a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar da minha
auctoridade de pae e levar a rapariga á força á igreja, você não
deixou... Segui o seu parecer, tentei levar as coisas pela brandura, e
agora é tarde para tomar outro caminho...
--Qual outro caminho?
--O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido... o caminho da
auctoridade e do rigor paterno... Mas agora, depois de eu ter descido
até ao ponto de chorar diante da rapariga e de a deixar levantar a
crista, a julgar que estou dependente da sua protecção, como é que eu
hei-de chegar ao pé d'ella e dar-lhe dois safanões e quatro berros que a
façam entrar na ordem?
--Mas não é preciso nada d'isso, homem!
--Não é preciso? Pois você diz que com pannos quentes não se arranja
nada e acha que não é preciso empregar a força?
--Acho que se póde empregar a força, sem que você passe por ser um pae
cruel...
--Pois está claro que eu tambem não vou empregar a violencia diante de
gente. O que se passa em minha casa escusa de se saber no meio da rua.
Mas não posso... a rapariga perdeu-me o respeito, agora... boas noites!
--Homem, deixe-se de tolices... Ha uma força que nós podemos empregar
muito bem e a que a pequena não terá remedio senão obedecer...
--Mas que força é essa então?
--É a força das circumstancias, homem! Quem é que não se dobra á força
das circumstancias?
--Ó demonio, mas essa força já eu empreguei; já disse á pequena que as
nossas circumstancias não podiam ser mais desgraçadas e nem assim
consegui convencêl-a.
--Pois bem; mudemos de systema--disse o Belchior, piscando um olho.
--Mudemos do systema como?--perguntou o Custodio, sem comprehender.
--Se ella não quer largar o tal namorico, obriga-se o namorico a
largal-a a ella...
--Quer você dizer que lhe mande eu dar uma carga de pau, qualquer noite
quando elle cá vier á porta... Mas isso o que faz? A rapariga é capaz de
tomar o freio nos dentes e então é que não haverá forças humanas que a
obriguem a acceitar este casamento...
--Ninguem falla em empregar esses meios violentos...
--Não?
--Pois com certeza. Isso seria uma tolice sem resultado pratico. Aqui o
caso é outro...
--Mas então diga lá.
O Belchior fitou demoradamente o Custodio e disse:
--A questão é você querer...
--Pois eu quero! Tomára eu... Diga lá, homem!
--O processo é um bocado exquisito, mas dá resultado...
--Se dá resultado, vamos a elle!--concordou o Custodio--Então como é
isso?
--É d'uma maneira muito simples; rapta-se a pequena...
--Hein! O que? Rapta-se?
--É claro! Prepara-se um rapto, faz-se escandalo e conduzem-se as coisas
de modo que a rapariga não tenha remedio senão casar com o Eugenio...
--Mas...--obtemperou o Custodio indeciso--torne a dizer, que eu não
percebi bem?...
--Isto não tem que perceber: combina-se um passeio ao campo... Vae você
com a pequena, vou eu com a minha mulher e minha cunhada... Andamos por
lá, petiscamos, e a paginas tantas minha cunhada afasta-se para mais
longe com a Beatriz, a admirar a paisagem...
--Sim... E depois?
--Depois, o Eugenio, que está emboscado com dois amigos, salta de lá,
agarra na Beatriz, mette-se n'uma carruagem e parte com ella a todo o
galope. Minha cunhada grita, tem um desmaio, nós acudimos, mas já é
tarde--não lhe podemos valer... O resto segue-se depois naturalmente...
--O resto... Mas qual resto?
--Ora qual resto! O casamento. Pois que quer você que se siga senão o
casamento depois d'isto? Beatriz, depois de raptada, não terá remedio
senão acceitar por marido o homem que a raptou...
--Não sei... Ella é muito capaz de ainda assim recusar...
--Qual recusa! Quando ella reconhecer a impossibilidade de casar com
esse pintalegrete que lhe endoideceu a cabeça ou com outro qualquer que
não seja o Eugenio, não terá remedio senão resolver-se...
--E você sabe lá se o rapaz, ainda mesmo assim desiste?
--Pois desiste, porque a gente faz escandalo... E depois d'ella
desacreditada, só se elle não tiver vergonha.
--Desacreditada! Então a rapariga ha de ficar desacreditada? Isso não...
isso é que eu não consinto! Não é por mais nada... Mas emfim... ella usa
o meu nome, passa por minha filha, e eu não estou para me sujeitar e
andar fallado nas bôccas do mundo!--recusou honestamente o marido de D.
Carlota.
--Que diabo! Você não sabe que tudo isto é uma _planta-fórma_ para
obrigar a pequena a casar? Que diabo tem que a rapariga seja raptada,
uma vez que o raptor a receba por mulher?
O Custodio ficou silencioso e meditativo por alguns instantes como que
ruminando o plano do seu amigo Belchior.
--A coisa--disse elle por fim--talvez desse bom resultado... Mas isso
era um escandalo de seiscentos diabos!
--Pois era... era um escandalo bastante grande, e isso mesmo era o que
convinha...
--O que! Convinha o escandalo--interrogou o Custodio
escandalisado--Então você quer que eu, como pae--porque afinal ella não
tem outro--goste e ver uma filha minha ou que passa por isso mettida em
escandalos?
--Você não comprehende, Custodio, você não comprehende... Isto era
escandalo e não era escandalo... E como naturalmente fazia barulho, a
cidade alvorotava-se com a noticia do rapto e isso era justamente o que
convinha...
--Mas convinha porque?--insistiu o Custodio.
--Convinha por todos os motivos. Em primeiro logar, Beatriz, depois
d'este escandalo, comprehenderia que não podia casar com outro homem,
senão com o Eugenio... Em segundo logar, ainda quando ella teimasse em
alimentar no coração essa paixoneta pelo tal estudantelho que a namora,
não teria remedio senão curar-se, porque o rapaz, depois d'ella
desacreditada, não a queria e não lhe tornava a apparecer... Depois da
_praça_ abandonada, que remedio terá a pequena senão render-se?
--Sim... e demos o caso que esse tal Eugenio, emfim... como é rapaz e
estroina, depois de a ter raptado, não se resolve a tomal-a por mulher,
senão debaixo de certas condições?
--Quaes condições?