--Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir muito frio e grandes dôres
de cabeça... E creio que tive uma ponta de febre...
--Foi constipação, com toda a certeza! És uma descuidada, não te
agasalhas... Quando Deus quer, puzeste-te por ahi á janella, a vêr
quando eu chegava, e deu-te esse resultado!
--Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te esperava senão mais
tarde... Não sei, não posso calcular do que isto fôsse...
--Mas estás melhor, não é verdade?
--Sim... agora sinto-me um pouco melhor... Depois que tomei uma chavena
de chá bem quente, as dôres abrandaram-me um pouco...
--Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia ter ido chamar-me... Tu
sabias onde eu estava, e se mandasses dizer-me o teu estado, viria
immediatamente.
--Não valia a penna ir incommodar-te por uma coisa tão ligeira... Isto
passa.
A conversação proseguiu assim serena, e amigavel, podendo Leonor
occultar aos olhos do amante o terrivel inferno que lhe ia n'alma.
O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na simulada doença da
formosa loura e attribuiu a isso a pallidez mortal que no dia seguinte
lhe notou nas feições.
Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se dôce e carinhosa, mais
ainda do que de costume, e quando chegou ao fim da tarde e o bohemio
teve de sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com um
transporte de ternura infinita que lhe disse:
--Peço-te que não venhas tarde, mas tambem não desejo que sacrifiques a
companhia dos teus amigos á ideia de que estou mal, porque, felizmente,
sinto-me melhor...
--Não, eu venho cêdo...
--A que hora?
--Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me esperes a pé,
filhinha...
--Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna, quando tu vieres,
servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres ceiado...
--N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje fóra para não dar trabalho
á criada quando recolher. E tu não me esperas a pé... Valeu?
--Pois sim.
Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com os amigos no botequim.
Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o commendador Garcia,
Leonor, com a janella do centro aberta e a sala illuminada, sentou-se ao
piano e começou executando a walsa _Leonor_, conforme o seu anonymo
correspondente lhe havia indicado.
Quando mais não fosse senão a natural curiosidade de conhecer quem lhe
escrevia denunciando-lhe a atroz perfidia de Eugenio, já era motivo mais
que bastante para que Leonor acceitasse o offerecimento que se lhe fazia
e désse o signal convencionado. Mas, muito mais que isso, imperava no
espirito da ardente rapariga o sentimento do ciume e o irresistivel
desejo de conhecer toda a verdade.
Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos e já á porta da
rua carregava no botão da campainha electrica um homem, embuçado n'uma
ampla capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas abas largas de um
chapéo de feltro.
A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a porta, franqueou a entrada
ao desconhecido, indo em seguida postar-se de vigia n'outra janella,
para avisar da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.
Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store, esperava o
denunciante, de pé, na sala, com o coração palpitante de anciosa
curiosidade.
O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou a porta sobre si e,
parando em frente de Leonor estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e
disse, inclinando-se em garboso cumprimento:
--Não esperava que fosse eu, não é verdade?
--O senhor!--disse Leonor com pasmo, reconhecendo no embuçado as feições
de João Lazaro.
--Eu mesmo, é verdade!--replicou João Lazaro n'um tom meio grave, meio
galanteador;--julgava-me bem longe do Porto e completamente esquecido
d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o interesse que uma
vez despertou na minha alma não desappareceu, antes mais se fortaleceu e
acrisolou com a ausencia.
--Mas, perdão!--tornou Leonor, franzindo o sobr'olho n'um gesto de
impaciencia--creio que não foi para insistir nos seus protestos de
estima que aqui veio...
--Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a negra perfidia de
Eugenio... Vamos de vagar, minha querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe
quaes os motivos que me impelliram a dirigir-lhe a carta que hontem
recebeu...
--Mas não estão elles expostos n'essa mesma carta? Se, como creio, os
factos n'ella relatados são verdadeiros, basta a existencia d'esses
factos para explicar o seu procedimento...
--Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho visto commetter muitas
perfidias, tenho sido testemunha de villanias e infamias bem
censuraveis, e nem por isso me tenho julgado no dever de intervir em
favor das victimas. E isto por duas razoes bem simples: a primeira,
porque, hoje em dia, no mundo a velhacaria, a traição, é moeda corrente;
e a segunda, porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer
são em geral creaturas pelas quaes o meu coração não se interessa. Ora
com a gentil Leonor não estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe
declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia, quanto interesse e
quanta dedicação a sua estonteante formosura despertava na minha alma...
Não me quiz attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer a
mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém immensamente menos digno e
mais ingrato do que eu, teve a dôce ventura de tocar o seu coração. Fui
preterido. Paciencia! O que n'essa preterição houve de injusto e cruel
para mim o de immerecido para elle vae agora a adoravel e encantadora
Leonor sabêl-o...
--Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me occulte nada!
--É então certo que o ama muito?--perguntou o aventureiro com um sorriso
ironico.
Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um impeto de irreprimivel
desespêro:
--Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo saber quem é, como se
chama e onde mora a mulher com quem vae casar. Sei que o sr. accusa
Eugenio de me haver illudido, de me haver trocado por outra, e de me
haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle entramos de sociedade e de
intimo accordo n'um casamento de exploração infame. Estas accusações são
gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer ainda para o meu
coração de mulher. É preciso que o senhor justifique perante mim, sem
subterfugios e sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...
--Aliás?--interrogou João Lazaro, sorrindo.
--Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala na cabeça.
E, n'um arrebatamento de justa indignação, os olhos faiscantes, os
labios descorados e tremulos, Leonor tirou do bolso do vestido um
pequeno revolver, com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.
--É justo!--disse elle tranquillamente, sem perder a linha do amavel
galanteador.--O castigo deve sempre igualar o delicto, e eu não
mereceria outra punição se calumniasse de maneira tão infame o homem que
a senhora ama e que, além d'isso, é meu amigo... Mas, vejamos: se a
mentira merece ser punida, a verdade não tem direito a ser premiada?
--O que quer dizer?
--Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo muito justa. Se eu minto,
mata-me... Se eu fallo verdade, não é justo que me dê vida? Porque é
preciso que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse esquivo e ingrato
coração, que a outro se abandonou, ando eu ha muito tempo!
Leonor encarou-o com altiva dignidade:
--É o meu coração o que me pede ou... a minha belleza?
--Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me a vida, a felicidade, que
sem o seu amor não existe para mim, e que outro ingrato indignamente me
tem usurpado! Prometta-me que não me recusará a esmola que lhe imploro
do seu affecto, e terá de mim a prova evidente, clara, irrecusavel, da
negra perfidia de Eugenio!
Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João Lazaro attentamente,
como se quizesse lêr-lhe no rosto os pensamentos mais intimos. Por fim,
respondeu:
--O meu coração, por emquanto, não está livre.
--Mas se aquelle que n'este momento o occupa fôr d'elle expulso, como
merece, poderei ao menos contar com um infimo logar no mais afastado
recanto do seu peito, Leonor?
--Não costumo ser ingrata para os que uma vez me provaram dedicação e
estima sincera.
--Não o será então para mim, porque, desilludindo-a, dou-lhe a prova
mais completa de quanto lhe quero, de quanto a amo!
A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e recostou-se no sofá que lhe
ficava proximo.
--Assim entendidos--disse ella--queira dar-me as explicações que me
prometteu.
--Perdão, minha querida!--tornou o aventureiro, sorrindo
amavelmente--Por emquanto ainda não passamos de promessas vagas, que a
nada obrigam...
--O que deseja então?
--Que me prometta, que me jure duas coisas...
--Dirá.
--A primeira que será discreta, que obedecerá em tudo e por tudo ás
minhas indicações, para chegar a obter a certesa absoluta da
infidelidade de Eugenio.
--Prometto.
--A segunda é que, confirmada a minha accusação e adquirida a certeza
completa dos factos que lhe aponto, conceder-me-ha uma hora de
felicidade, ao menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar
que, n'esta casa, occupava Eugenio...
A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia por este homem que
mercadejava infamemente com a paixão terrivel que abrasava o seu coração
de mulher ciumenta.
--E se eu recusar essa ultima condição?--perguntou.
--Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de indagar por si o que
póde ficar sabendo desde já.
--Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que sabe!
--Vê que confio na sua promessa e que não lhe peço como penhor a mais
leve liberdade, nem sequer o adiantamento de um beijo...
--É de mais!--bradou Leonor, colerica e impaciente.--Se veio aqui, para
se divertir á minha custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a
brincadeira!
--Ora vamos, minha querida... socegue!--volveu o Lazaro com um sorriso
cynico.--Bem vê que eu sou incapaz de abusar da sua credulidade,
submettendo o seu coração a um rude soffrimento por mero gracejo. Mas
estes casos, porisso mesmo que são graves e sérios, querem-se meditados
e reflectidos. Temos obrigação de os encarar com serenidade e sangue
frio, para procedermos com acerto e prudencia.
--Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia me nota, é
apenas a de ouvir as revelações que me interessam e que certamente me
vae fazer.
--Ora muito bem!--principiou o João Lazaro.--Disse-lhe na minha carta
que Eugenio pediu em casamento uma menina formosa e rica. E disse a
verdade.
--Como se chama essa menina?
--Beatriz.
--Onde mora?
--Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio de Jesus.
--Diz então que o casamento está projectado para breve?
--Digo.
--N'esse caso, essa menina ama-o?
--Tanto não sei, mas é de suppôr que sim, visto que está disposta a
recebel-o por marido. O que, porém, não offerece duvida é que Eugenio a
ama, pois que pediu a sua mão.
--Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?
--Eugenio nada me disse. Não atraiçôo, portanto, o amigo, descobrindo o
seu segredo...
--Como o soube então?
--Se é publico e notorio! Se nos cafés não se falla de outra coisa!
--Não será isso uma invenção de rapazes levianos, que gostam de se
divertir á custa alheia?
--Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além d'isso, a pessoa que mais
particularmente me elucidou d'este caso não conhecia Eugenio e veio
pedir-me informações a seu respeito.
--O que lhe disse?
--O que não podia deixar de dizer de um homem de quem sou amigo: que
Eugenio é muito bom rapaz, um cavalheiro a toda a prova.
--Mas é forçoso impedir esse casamento!
--Talvez não seja impossivel.
--Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio de Jesus?
--De vista apenas. Não tenho com elle relações pessoaes; mas conheço
amigos intimos seus. O que deseja d'elle?
--Informal-o de que Eugenio mantém relações comigo e fazer comprehender
que não deve dar a filha a um homem que tem uma amante...
--Está doida! E o commendador Garcia?
--Que me importa a mim o commendador Garcia, comtanto que Eugenio não
case!--bradou Leonor, erguendo-se arrebatadamente do sofá em que se
achava sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma agitação
indescriptivel.
--Venha cá, socegue!--disse João Lazaro, tomando-lhe a
mão.--Prometteu-me obedecer a todas as minhas indicações, e é forçoso
que cumpra o que prometteu.
--Pois sim... Diga então o que devo fazer...
--Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade o Eugenio trahil-a.
--Como?
--Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a confiança...
--Merece...
--Pois a sua criada procurará travar relações com alguma das criadas de
Custodio de Jesus, e por esse modo saberá o que ha de verdade ácerca do
que se diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores d'este
mundo.
--E obtida a certeza?
--Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao momento que eu lhe marcar.
Faz isto?
--Faço.
--Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto da perfidia.
--Não suspeitará.
--E eu voltarei a informál-a.
--Quando?
--Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.
--E até lá nada devo dizer nem fazer?
--Nada, senão isto: pôr a sua criada em relações com as criadas do
Custodio de Jesus.
--Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel? Como quer que eu, com
o inferno no coração, guarde silencio e me sujeite ás dilações de uma
informação tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar immediatamente!
Não está no meu genio occultar por muito tempo o que me vae n'alma...
--As circumstancias impõem-lhe dissimulação e prudencia.
--As circumstancias! Qual é a mulher que no meu caso attende ás
circumstancias?
--Todas. No seu caso, todas--replicou João Lazaro com reflexiva
gravidade.
E amaciando a voz, n'um tom de convicção profunda:
--Ora venha cá!--disse elle--Deixe-me pensar pela senhora e defender os
seus interesses, o seu futuro, a sua posição, uma vez que essa cabecinha
transtornada não se mostra em estado de pensar coisa alguma com acerto.
E, creia, foi principalmente por isso que não quiz logo dizer-lhe tudo
na minha carta... Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu
lado alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a obrigal-a a ouvir-me e
a attender-me...
--Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o que não posso, o que os
meus nervos não consentem é, obtida a prova da perfidia de Eugenio,
remetter-me a uma passividade absoluta, deixando que o infame realise os
seus torpes intentos!
--Não seja creança e vamos a vêr se consigo convencel-a de que um
escandalo ruidoso nada impede e a mais ninguem prejudica senão á
senhora...
--Só a mim, diz?
--Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor: Imagina que se se apresentar em
casa de Custodio de Jesus e disser: «eu sou amante ostensiva do
commendador Garcia, e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino»,
essa declaração pesará no espirito do abastado capitalista o bastante
para impedir o casamento?
Leonor baixou os olhos e não respondeu. João Lazaro continuou:
--O mais que com isso poderá fazer, é provocar explicações da parte de
Eugenio que, bem longe de negar, confessará essas relações, que nada
affectam a reputação de um rapaz livre e em pleno goso da sua mocidade;
pois, infelizmente, toda a gente considera perdoaveis uns amôres que
sempre se calculam do duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem
toma a sério.
A loura ergue-se como impellida por occulta mola. Os olhos faiscaram-lhe
de colera, n'uma indignação suprema.
--Ninguem toma a sério o amor de uma mulher como eu!--exclamou ella--E
porque? Acaso o meu coração vale menos do que o d'outra mulher? Acaso
sou eu uma creatura differente de todas as outras, e porisso condemnada
a não sentir no meu coração os dôces affectos que são a vida e a
felicidade ainda dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei eu o
direito de amar e de exigir que o homem que despertou na minha alma o
terno sentimento a que jurou corresponder cumpra lealmente os seus
juramentos?
João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de indignação, sem perder um só
instante o sorriso meio amavel, meio ironico, que desde o principio lhe
brincava nos labios.
--Tem razão--disse elle por fim--Mas que quer, minha querida? A
sociedade é quasi sempre cruel e iniquia nas suas decisões; e ahi está
precisamente um caso em que ninguem, da boa fé, poderá attribuir-lhe
rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade é que dicta a lei pela
qual cada um se rege, segue-se que Eugenio, na sua perfidia, tem a seu
favor a lei, que todos acatam, ao passo que a senhora tem apenas a
razão, que ninguem attende.
--Ha de pelo menos attendel-a elle!
João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.
--Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse ouvidos á razão, se
ao menos tivesse uma sombra de respeito por esse coração que elle
esmaga, por esse amor que calca aos pés, não teria pensado em casar-se.
Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve ter a confirmação do que lhe
assevero, o Eugenio pensa, em se _fazer homem sério_ por meio de uma
alliança vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper os laços de
uma affeição que nunca reputou duradoura nem digna d'elle.
--Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro canalha que
é!--bradou Leonor completamente dementada.
--Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu me julgo no dever de
impedir, porque a amo, porque a estremeço, Leonor, e porque nunca
poderia absolver-me de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande
loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo cujo ridiculo
cahiria inteiro sobre a senhora? Obrigar a que a discutissem nos cafés e
a ultrajassem nas conversações particulares, como a uma mulher
despresada, uma mulher publicamente repellida? A sociedade é assim,
minha querida amiga! Não perdôa aos vencidos. E depois, o ruido d'este
escandalo chegaria aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector. Por
muito que elle lhe queira, por muito que transija com os despoticos
impetos do seu temperamento e do seu coração de mulher galante, bem vê,
Leonor, que seria crear-lhe uma situação que nenhum homem, nem mesmo o
commendador Garcia, poderia acceitar... O rompimento, portanto, com este
seria inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais um motivo de
prazer para todos aquelles a quem o seu desdem tem magoado. Repare bem
n'isto, Leonor, olhe que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está
fallando.
--Mas o que devo então fazer, santo Deus!--clamou a formosa Laura,
estorcendo as mãos em desespero.
--Ter prudencia e esperar.
--Ter prudencia! Esperar... o que e como?
--Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é o prazer dos deuses? Pois
tenha prudencia e vingue-se, Leonor...
--Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me... Porém, como? Como é que eu
hei-de levar a cabo essa vingança tremenda que o meu coração anhela?
--Primeiro, convença-se serenamente do delicto. Depois, julgue com
provas á vista, e fulmine a condemnação que o seu coração lhe ditar.
Para a auxiliar na execução da sentença, cá estou eu. Façamos uma
alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos um ao outro. Eu
ajudal-a-hei a vingar-se do homem que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha
a...
--A que?
--A realisar grandes emprezas que premedito...
Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.
--E que emprezas são essas?
--Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta só que saiba que podemos
auxiliar-nos reciprocamente com grande vantagem e interesse para ambos.
Posso contar com a senhora?
A loura hesitou. Por fim respondeu:
--Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento de Eugenio, ou,
pelo menos, a vingar-me d'elle.
--Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.
--Está bem!--disse a loura estendendo-lhe a mão--póde contar comigo.
João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o chapéo sobre os olhos e
dispoz-se a sahir.
--Ámanhã voltarei á mesma hora--disse elle á sahida.--E o signal
convencionado para eu saber que me recebe, póde ser o mesmo de hoje.
--Espere!--reflectiu a loura--Se ás vezes, por qualquer motivo, não me
fôr possivel recebel-o...
--Claro está que não dá o signal.
--Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde vir mais tarde...
--Toque então a marcha da _Cadiz_.
--Está bem.
--Ainda mais--tornou o Lazaro--se quizer prevenir-me de que não venha no
dia seguinte, substitua. a marcha da _Cadiz_ pela _Cavallaria
Rusticana_. Ouvindo-a, já fico sabendo que só poderei vir dois dias
depois.
--Não se dará esse caso, mas sempre é bom prevenir...
--Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.
--Até amanhã.
O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou n'ella galantemente um
beijo, e sahiu.
XIV
Miseravel!
João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte batia á porta de Jorge.
Era uma casa modesta, de homem só, em que se notava o natural desarranjo
de quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher a dirigir o
serviço domestico.
--Venho fazer-te a promettida visita--disse João Lazaro ao amigo que
estava já sentado á banca no seu gabinete de trabalho.
--Bem vindo sejas, meu caro!--volveu-lhe Jorge, interrompendo a escripta
e indicando-lhe uma cadeira.
--Sempre a trabalhar!--disse João Lazaro com um sorriso de
curiosidade.--Em que diabo te occupas agora?
--Tomo apontamentos para um bosquejo historico... Bem vês, a historia é
a minha paixão...
--Bonito entretenimento para quem não tem que fazer...
--Que queres? Em alguma coisa se hade matar o tempo...
--Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que eu dirijo em Lisboa?
--Eu!
--Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me de immensissima utilidade.
Ha tão pouco quem escreva bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um
trabalho obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa, quando podias
brilhar entre os primeiros, tornares-te lido, popular... Queres?
--Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes, e principalmente os
da tua côr.
--Mas, homem, eu não te peço a collaboração politica, posto que ella me
fosse extremamente agradavel e vantajosa... Mas, ao menos, a
collaboração litteraria. A litteratura pertence a todos os campos e não
impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade de ideias
politicas. O meu jornal está a precisar de sangue novo... Eu esforço-me
por fazer d'elle um jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço se
perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna brilhante que me
secunde. Além d'isso, o publico não está educado, o publico não
comprehende o que é bom nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau
a que está habituado, deixando no olvido e na indifferença o que é bom!
--Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me havia de escassear
publico...--disse Jorge rindo.--Mas não, meu caro, eu não estou
resolvido a collaborar em jornaes...
--Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma formidavel, a unica que a
sociedade respeita, porque é a unica que a faz tremer.
--Mas eu não pretendo amedrontar ninguem--tornou Jorge impassivel.--Não
tenho ambições, não alimento a vaidade de querer tornar-me celebre por
nenhum titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade do meu
gabinete e a suave alegria de um estudo que me não cança á lucta
violenta do jornalismo diario, famulento Minotauro, que consome vida,
actividade, talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o sacrifica.
Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre partes hoje para Lisboa?
--Não. Demoro-me ainda por cá uns dias, não sei quantos...
--Bem! Folgo com a tua permanencia entre nós... É signal de que tiveste
bom acolhimento por parte dos teus amigos...
João Lazaro fez uma carêta de despeito.
--Uns pulhas, os taes meus amigos!
--O que! Acaso não estás contente com elles?
--Queres que te falle com franqueza? A ti posso dizer tudo, porque és
meu amigo...
--Bem sabes que não tenho o menor interesse em revelar as confidencias
que me fazes.
--Pois bem; declaro-te que estou arrependido de me haver sacrificado por
um partido de verdadeiros bilhostres!
--Ai, já?!
--Já! E, com franqueza, agora não me fica bem recuar... seria um
escandalo compromettedor da minha popularidade, do meu nome... Mas,
acredita, que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas vistas,
fazia-o sem a mais leve hesitação.
--Não pódes... isso com certeza não pódes--tornou Jorge.