creaturas assim dotadas d'este fatal condão de trazerem o soffrimento e
a desgraça comsigo.
--E no emtanto as suas intenções eram sempre nobres e puras. Ninguem
conviveu mais de perto com ella e tambem por isso ninguem melhor do que
eu póde avaliar o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle coração!
--V. ex.^a que vae ter-me por vizinho, hade ter paciencia, sr.^a D.
Aurelia, e permittir-me que alguma vez peça ás suas recordações o dôce
lenitivo de me fallar de Helena...
--A minha vida é tambem uma interminavel cadeia de amargas tristezas
n'este solitario canto do mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e
soffri todas as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso dizer
que hoje vivo, como v. ex.^a, só de tristes recordações...--replicou D.
Aurelia com um fundo suspiro.
A conversação foi interrompida n'este ponto pela chegada do juiz e do
commendador que desciam ao jardim discutindo entre si o programma das
festas em honra de Julio.
Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada com a D. Aurelia, os dois
entreolharam-se e, com um sorriso significativo, disse o magistrado:
--Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando uma festa de nupcias?
--Póde ser...--replicou o commendador--A D. Aurelia está ainda muito
fresca e, se o Julio tiver juizo, o que deve fazer é casar com ella para
se distrahir.
Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem a perceber nos gestos ou
nas palavras a impressão. que aquelle encontro lhes causára.
Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.
XIII
Denuncia
João Lazaro fôra pontual em comparecer á hora marcada para a ceia que os
amigos offereciam em sua honra, no Palacio de Crystal.
O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e envaidecido por esta
demonstração de affecto e estima que Eugenio de Mello e os seus amigos
lhe davam. Mas apparentava grande desdem e indifferença por tudo quanto
o cercava, assumindo a attitude altiva e soberana de quem dispensa uma
honra quando recebe um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos,
no tom cançado e aborrecido de quem se vê obrigado a aturar importunos:
--Estes idiotas massam-me, não me largam e offerecem-me banquetes para
terem a honra de se sentarem ao meu lado!
--Não será bem isso--replicou o outro delicadamente, para não o
ferir--Devemos conceder que a amizade, a justa admiração pelos teus
talentos e, acima de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a
vaidade pessoal, são as determinantes d'estas manifestações de que és
alvo...
--Communhão de ideias!--tornou o João Lazaro desdenhoso--Que communhão
de ideias pódem elles ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos
incapazes de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não seja
arroz cosido em vez de miolos?
--Talvez tenhas razão, talvez...
--Com toda a certeza que a tenho! Se eu não fosse um homem notavel, se
não tivesse conquistado uma popularidade que me torna a primeira figura
do meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres, teriam a
generosidade de me pagar um café, quanto mais uma ceia? Eu conheço-os.
Querem explorar-me, querem illuminar-se da radiosa aureola de
immortalidade que me circumda a fronte. Com os olhos postos no futuro,
querem, a troco de uma ceia, que os seus nomes brilhem a par do meu,
quando se fizer a minha historia e quando os seculos repetirem com
admiração o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra de se
aproximarem de mim.
O intimo, que era um homem sensato, porem delicado, não pôde conter-se
que não dissesse:
--Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que realmente os idiotas são
elles, se pensam como tu dizes... Pois queres que te falle com
franqueza?
--Dize lá.
--Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem ser eu, juraria que o
idiota és tu!
João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo que irritara o amigo
com a sua estupida filaucia, mudou de tom e disse brandamente:
--Confesso que fui talvez demasiado violento e um poucochinho injusto na
apreciação d'esses sujeitos, que pódem ser muito bôas pessoas, e
animados das melhores intenções, mas que me irritam profundamente,
vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me o tempo que necessito
para tratar assumptos mais serios e de que depende a salvação de todos.
Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao Porto unicamente para os
amigos me darem de cear...
--Para que então?
--Para ver se querem collaborar comigo na grande obra da salvação
publica...
--Já lhes expuzeste o teu plano?
--O meu plano é tão vasto que não póde ser resumido n'um discurso para
se repetir a cada um em particular; e é de tal modo melindroso, que
tambem não póde ser publicamente revelado a uma assembleia. Aqui, de
duas uma: ou ha confiança em mim, ou não ha. Se ha, faça-se o que eu
digo, facultem-se-me os meios de que careço e mais tarde se verá a obra
grandiosa que projecto e para cuja realisação todos devem concorrer. A
gloria, porisso, será de todos. Eu não a quero só para mim... Se não ha,
é inutil perguntar-me o que penso e o que desejo fazer. Se eu submetto o
plano á discussão, admittindo emendas e correcções, então o plano deixa
de ser meu para ser de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para
me converter n'um simples instrumento como os outros. Ora a isso não me
sujeito. Sinto aqui dentro--e batia na testa com impeto--alguma coisa de
grande e de superior, para que consinta em me nivelar com essas
vulgaridades que nada teem feito e nada podem fazer, pela simples razão
de que não nasceram para dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora
ahi tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com aquelles mesmos para
quem o não devo ser... É que queria vêr mais ardor, mais enthusiasmo e,
sobretudo, mais desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me
rodeiam!...
--Bom! Mas, a final, o que queres tu?
--Dinheiro!
--Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque é isso precisamente
o que todos querem...
--Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens, que o semeiem, que eu lhes
volverei cem por um!--exclamou o João Lazaro, convicto.--Não me falta
mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar, apenas careço de
dinheiro. Dêem-me dinheiro e, dentro em tres mezes, eu terei mudado a
face do paiz.
--Mas bem vês, meu caro, que isso depende de circumstancias...
--Quaes circumstancias?
--Se o dinheiro que tu pedes para a realisação do teu plano fôr uma
somma tão importante que não esteja nas forças dos nossos amigos...
--Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre tudo aquillo de que
depende a salvação da patria. Quando se trata de um caso d'estes,
ninguem está a medir e a calcular o que póde fazer. As forças medem-se
pela grandeza da obra e da vontade de cada um para a realisar.
--Não é tanto assim. Convencido estás tu da excellencia e efficacia do
teu plano, e tambem mais que ninguem deves sentir o desejo ardente de o
realisar. E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o pôr em
acção e pedes o concurso dos correligionarios para que o teu pensamento
não fique na cathegoria das coisas irrealisaveis...
--Certamente. E creio que todos teem obrigação de me ajudar. O bem não é
só para mim, o bem é para todos.
--Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O que se discute é se as
sommas que a realisação do teu plano exige estão nas forças dos nossos
amigos. Bem sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...
--Pois sim, mas aqui não é o rei que perde, é o povo.
--E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das circumstancias assim o
impõe, o que havemos de fazer?
--Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes que não ha
dinheiro!--exclamou João Lazaro n'um tom de amargo despeito.
--Eu não sei nada!--volveu-lhe o interlocutor.--Isto são apenas
considerações que eu faço sobre o que póde succeder. Ainda não me
revelaste o teu plano, ainda não me disseste de quanto carecias... Como
queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a somma que desejas?
Simplesmente, o que me parece é que, se essa somma fôr avultada, haverá
difficuldade em a conseguir.
--Onde está então o amôr d'esses patriotas á ideia?
--Está no coração. Mas tu bem sabes que o coração sem dinheiro é uma
força tão fraca que, hoje, nem sequer remove as difficuldades de um
casamento, quanto mais as difficuldades da salvação de um povo.
João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.
--E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho e me sacrifico! Vale
bem a pena, realmente, expôr-se um homem a todas as violencias, a todos
os odios e todas as perseguições, para melhorar a sorte de um povo que
não está ainda educado para as grandes reformas sociaes! Cuida a gente
que encontra ao seu lado crenças profundas, dedicações sinceras, homens
capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá mas é com um bando de
egoistas, agarrados ao dinheiro como a ostra á casca, incapazes de
soltarem um vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro do
_Deve_ e _Haver_! Raça ignobil de bacalhoeiros ignaros, que estão a
pedir João Branco e Pita Beserra!
Depois d'esta violenta explosão de colera, por não achar abertos os
cofres dos homens a quem d'antes chamava filhos e netos de heroes e aos
quaes agora malsinava de _bacalhoeiros ignaros_, visto que não lhe davam
o dinheiro que elle queria para sustentar a ociosidade infame, o João
Lazaro despediu o amigo com um gesto altivo.
--Bem!--disse elle--tenho entendido. Não se arranja nada. O peor mal é
d'elles. Hão-de arrepender-se, mas ha de ser tarde...
E consultando o relogio:
--São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas recolherei cedo, porque não
estou para os aturar. Amanhã, se quizeres, apparece. Mas vem de dia,
porque á noite talvez retire para Lisboa.
--O que! Retiras sem conferenciar com os nossos amigos?
--Se me dizes que elles não estão dispostos a sacrificar-se...
--Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso... Mas isto não é nem póde
ser tomado como uma resposta decisiva ao teu pedido...
--Não, que eu não peço!--exclamou Lazaro com enfatuada altivez--Eu
proponho. Era o que me faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o
meu talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes que mo acceitem o
favor de os salvar! Se querem ser homens, se querem ser livres, aqui
estou eu, prompto a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso
para o pôr em execução. Se, pelo contrario, preferem ser escravos
abjectos, vis instrumentos de especuladores sem dignidade nem
consciencia, fiquem-se com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por
mim não darei mais um passo em beneficio de semelhante canalha!
Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne como um deus sagrado.
--Vaes para a ceia dos teus amigos, não é isso?--perguntou o outro
despedindo-se.
--Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade de um partido
que me não merece.
--Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a vêr o que se póde
arranjar... Tu, porém, tens de ser ouvido...
--Não terei duvida em fallar e expôr as coisas com as reservas precisas,
se porventura elles estiverem dispostos a entrar n'isto a sério. Se,
porém, vires que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por simples
devaneio, peço-te que não me incommodes, obrigando-me a descer até esses
bilhostres.
Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o outro apertou, e desceu
a metter-se na carruagem de praça, que o esperava á porta do hotel.
--Para o Palacio!--ordenou ao cocheiro.
Pelo caminho, ia monologando:
--Este idiota ficou aterrado com a minha attitude, e estou certo de que
vae mover os outros estupidos a largarem o dinheiro... Se não fôr assim,
á valentona, por boas palavras não se se faz nada... Preciso de lhes
apanhar dinheiro para ir até Hespanha.
E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios sensuaes, n'uma atavica
reminiscencia da tanga:
--Oh! as hespanholas... as hespanholas são um encanto!
Quando entrou no Palacio, passava já da hora marcada. Os amigos, com
Eugenio á frente, vieram recebel-o n'uma doida expansão de alegria.
--Cuidei que não vinhas!--disse-lhe Eugenio.--Seria um grande desgosto
para nós todos, que te estimamos, mas muito principalments para estas
damas, que nos honraram com a sua presença e que estavam anciosas por te
conhecer.
O aventureiro saudou gravemente, com um forçado sorriso de polidez e,
respondeu n'um tom de pedantesca superioridade:
--Foi em verdade um sacrificio grande para mim o ter de comparecer a
esta hora, e tanto que me vi forçado a transferir para amanhã uma
reunião importantissima que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos,
que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta transcendencia,
insistiam comigo para que vos enviasse um bilhete de desculpa e não
protelasse a reunião que se havia marcado; mas eu recusei-me a acceder
aos seus desejos, pois não quero que se diga que sou menos amavel com os
velhos amigos da mocidade e com as bellas e gentis damas que os
acompanham.
Seguiram-se as apresentações:
--Senhorita Lola...
--Senhorita Dolores...
--Senhorita Consuelo...
O João Lazaro, com os ademanes de um principe, sorria benevolamente a
cada um d'estes nomes, inclinando-se amavel, com modos de grande senhor.
Abancaram á mesa e principiou o festim.
A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o commendador Garcia, que
havia entrado ás sete, vinha debruçar-se á janella, na anciosa
espectativa de sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço de
recados parou á porta da rua, espreitando para o numero, e bateu, depois
de se certificar de que era realmente aquella a casa que procurava.
A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois voltou com uma carta.
--Um moço de fretes com esta carta para a menina...
A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias ao commendador,
usava d'este tratamento meio familiar, meio respeitoso, sempre que se
achava a sós com Leonor.
--Dê cá!--disse a loura, pegando na carta e examinando o
sobrescripto.--Queres vêr que é algum massador a seringar-me com uma
declaração?
--O portador não esperou _reposta_.
--Bem sei que não esperou. Eu estava á janella e vi-o partir logo que
entregou a carta.
E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.
--É singular! O papel não vem perfumado--disse ella, mostrando o papel
vulgar em que a missiva vinha escripta.
--É de homem de dinheiro!--commentou a velha, muito pratica em negocios
d'amôr.--Os _cheiros_ são para os pelintras que só querem agradar com
bugigangas e a respeito de _louça_... nem um pires!... Homem sério,
homem de _massas_, não está lá com essas coisas... Confia no seu
dinheiro e é bastante...
Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da criada, ia lendo n'uma
agitação crescente. Quando chegou ao fim, exclamou horrivelmente
pallida, amarfanhando o papel entre as mãos:
--Oh! mas isto é impossivel! Isto é uma infamia!
--O que é, menina?--perguntou a velha serviçal, n'um movimento de
curiosidade.
--Dizem-me aqui--tornou Leonor com voz rouca de commoção--que Eugenio
vae casar.
--Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe que isso hão-de ser ditos
de gente que lhe quer mal... Que isto é, eu direi... nos homens não ha
que fiar... Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma pessoa mal
cuida, parece que estão muito seguros e põem-se a _avoar_!
Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar de que não tinha
comprehendido mal o que n'elle se lhe dizia e que era o seguinte:
«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria a vida para lhe ser
agradavel, julga dever avisal-a de que Eugenio de Mello acaba de pedir
em casamento uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista
muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se prepara para muito
breve.
«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento é muito commentado,
discute-se de maneira bastante humilhante para a gentilissima Leonor o
procedimento de Eugenio.
«Uns affirmam que elle, cançado da amante, aborrecido de uns amôres que
já não lhe offerecem encanto nem prazer, busca pelo casamento com uma
menina rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente,
libertar-se de umas relações que considera despreziveis e improprias da
sua dignidade. Outros sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio,
receiando que o commendador Garcia, de um momento para outro,
escandalisado com o mau uso que ambos fazem do seu dinheiro, _suspenda
pagamentos_, combinaram que o melhor era garantirem-se contra a miseria
provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro e ficando Leonor a
receber d'elle o preço dos seus amores como agora o recebe do
commendador Garcia.
«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que Leonor é vilmente
atraiçoada por Eugenio, e por isso caridosamente a previne d'este facto,
afim de evitar que a sua reputação, continue a ser infamemente
enxovalhada pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato amante.
«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se em segredo da
veracidade d'este aviso, a pessoa que lhe escreve esta carta estará
amanhã ás 11 horas em sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do
meio estiver aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a valsa
_Leonor_, é signal de que deseja recebel-a e então essa pessoa
apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos que desejar.
«Até lá, silencio e discreção é a unica coisa que se recommenda.»
Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada a velha
confidente, exclamando:
--Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!
--Crédo, menina!--bradou a velha benzendo-se--Isso são tentações do
demonio! Deixe lá, não faça isso, que não vale a pena uma pessoa ir
pagar c'os ossos na cadeia um burro ruim por um _bô_! Homens ha muitos,
tão _bôs_ e melhores do que aquelle... Olha agora, se a menina, com uma
carinha d'essas, que parece mesmo uma _image_, não achava homem que lhe
désse o merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi rapazes como uns
soes, babadinhos pela menina que tomaram elles quem lhes désse
attenção... Era só a menina abrir a bôcca e veria!... Eu é que não quero
dizer nada, mas tenho _osservado_ muita coisa... Só eu é que sei!
--Que e o que você tem observado, Joanna?--interrogou Leonor roida da
curiosidade de saber alguma coisa que lhe esclarecesse a perfidia de
Eugenio.
--Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas se eu fizer com que a
menina lhes dê attenção... Mas eu cá... como a via virada p'ró sr.
Eugenio... mal haja elle, se é certo o que diz a carta!
--E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca ouviu que Eugenio tivesse
outro namoro?
--Não, lá isso, na minha salvação se eu ouvi boquejar nem tanto como
isto!
E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o têrmo da comparação.
--Mas será verdade?--tornava a loura passeando agitadamente na
sala--Elle terá animo para me fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto
o amo, quanto me tenho sacrificado por elle?
--O amor dos homens é como a fôlha do olmo... ora vira para um lado, ora
p'ró oitro, menina...
--Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe mereço um tamanho despreso, uma
tamanha perfidia! É preciso que um homem seja muito infame para abusar
assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar assim nas trevas preparando
um golpe de morte ao meu coração!
E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos, com frenesi.
A velha apaziguava:
--Ás vezes _támem_ se diz mais do que é,..
--Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem d'isso, esta carta não
póde ser uma impostura, porque a pessoa que a escreve presta-se a dar-me
esclarecimentos... E ninguem ousaria vir comprometter-se affirmando uma
coisa que mais tarde se saberia ser mentira... Oh, meu Deus! meu Deus!
que mal te fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!--exclamou por fim,
rompendo em soluços.
--Desgraçado é o diabo!--consolou a velha Joanna--Quem conta um conto
sempre lhe accrescenta um ponto... Isso ás vezes póde ser que não seja
tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve fazer é botar o coração
ao largo... Mal por mal, antes isso do que o sr. commandador _Gracía_
dar por ella e não tornar cá... _Antão_ sim, _antão_ é que a menina se
devia affligir, porque o amôr é muito bonito, mas sem dinheiro não se
arranja nada...
--Cale-se, Joanna, cale-se!--bradou Leonor n'um impeto de
desespero--Você pensa como elle, que tambem vae atrás do dinheiro, sem
se lembrar que eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a
perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro que não chegara a
gosar esse maldito ouro pelo qual me troca! Miseravel! neguei-lhe eu
alguma vez todo o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher, vivendo
unicamente da protecção de um homem, eu nunca hesitei em sacrificar
todos os meus recursos, o meu dinheiro, as minhas joias, a minha
posição--o proprio amor do homem que me sustenta--ás suas necessidades,
aos seus caprichos, aos seus prazeres! E anda em segredo tratando
casamento com outra, vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu
socego, a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e ás chufas dos
seus amigos, arrasta o meu nome pelas mesas dos botequins onde me julgam
capaz de me associar a elle na infame exploração de uma mulher! Oh! a
ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam para pagar esta
affronta!
No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões que pódem agitar um
peito de mulher: o amôr despresado, o amôr proprio offendido, a vaidade
irritada, o odio, o ciume, emfim.
A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a proferir palavras de
prudencia ou de banal consolação.
De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a barriga, limitava-se a
suspirar, murmurando em voz lamurienta:
--Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem... Nossa Senhora do
Allivio nos accuda pela sua infinita misericordia!
Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor, mais tranquilla,
pareceu tomar uma resolução.
--Joanna--disse ella--de tudo isto que aqui se passou, você não dá uma
palavra ao sr. Eugenio.
--Ó menina! Crédo!--protestou a velha--a minha bôcca não se abre para
nada! Não diga a menina coisa nenhuma, que eu _tàmem_ faço de conta que
nada _assucedeu_... Mas a menina é capaz de não ter mão em si e
começar-lhe por ahi com _climas_, que elle logo desconfia...
--Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade, e para isso não convem
que Eugenio suspeite que alguem me disse qualquer coisa...
--Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada! E olhe que se a menina
fizer isso, anda ás horas!... Ao menos, assim, não dá logar a que elle
se encubra. E depois de se _infirmar_ da verdade, já fica sabendo quem
tem...
--É justamente isso o que eu quero.
--Porque ás vezes--commentou a velha--_támem_ são _malquerencias_...
Pobre do rapaz! póde ser que ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma
coisa d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho, só p'ra
amôr da menina se dar mal co'elle... Olhe que no mundo _támem_ hão
muitas _invejidades_!...
--Pois é por isso...--tornou Leonor dominando-se--Eu vou-me deitar...
Não desejo que elle me encontre a pé quando vier... E como isto é contra
o meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar ao meu quarto, a
primeira coisa que tem a fazer é perguntar-me se estou melhor...
--Bem sei; a menina quer-se _infingir_ doente esta noite p'ra elle não
desconfiar...
--É isso mesmo. Vocemecê não esquece isto que lhe digo?
--Ora essa! A'gora esqueço!...
--Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...
--Então, com bem passe a noite, menina!... Se fôr preciso alguma coisa,
não tem senão chamar...
Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada. A ceia prolongara-se e a
alegre companhia das hespanholas tivera o singular condão de fazer voar
as horas com a rapidez de minutos.
Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio penetrou, ás quatro
horas da manhã, no quarto da amante.
Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria tarde, por motivo da
ceia offerecida a João Lazaro, esperava uma scena de ciumes,
recriminações e queixas, como succedia sempre que a fazia esperar.
Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou deitada e, ao parecer,
tranquilla.
--Deitaste-te?--disse elle--Fizeste bem, minha querida. A ceia
prolongou-se mais do que eu esperava, e depois, conversa d'aqui,
anecdota d'acolá, quando demos conta de nós eram estas horas que vês!
Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu com ternura:
--Estava anciosa que viesses, porque me senti muito incommodada...
Deitei-me por não poder estar de pé, mas não tenho dormido...