esquecer, pelo que vejo, os habitos festivos da nossa provincia, que
ainda não mudaram. O portuguez, especialmente o minhoto, não perde
occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se evadir ás melancholias
do temperamento. Um casamento, um baptisado, um dia d'annos, um amigo
que chega, um amigo que parte, tudo isso constitue motivo de festa. Fóra
d'ahi, é sisudo, sorumbatico, macambuzio, incapaz de, por coisa alguma
d'este mundo, se arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel
bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se, que a alegria d'elles
não é d'aquellas que magoam o coração dos que soffrem...
No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um curto passeio,
dirigiu-se sósinho para os lados da velha casa de Norberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, que conservava os habitos madrugadores, adquiridos
no Brazil, todo vestido de linho crú e na cabeça um bonnet de gorgorão
preto, debruçava-se no caramanchão erguido em um dos angulos do jardim.
Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã, tendo cravado no
horisonte um vago olhar de tristeza.
Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira longe da patria, e
n'aquellas que ainda o haviam de consummir, agora que, depois de velho e
quando esperava morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da sua aldeia,
era outra vez obrigado a expatriar-se.
Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:
--Bons dias!
O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu, saudando:
--Muito bons dias!
--É o proprietario d'esta casa?
--Um seu criado!
--Li que ella se vende. Posso vêl-a?.
--Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
E chamando pelo criado:
--Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro, hein!--ordenou.
O _Manéca_, um labrego de jaqueta, chapéo braguez e suissa talhada em
fórma de foicinha, foi abrir, com grandes zumbaias, levando no labio
escanhoado o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr mandado e
obedecer.
Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro Pinho este
dialogo:
--V. s.^a vende esta propriedade, não é assim?
--Me résólvi á vender ella, porque estou preparando minhas coisas p'ra
tornar no Brazil...
--Esta casa--disse Julio--era de um antigo fidalgo que aqui morou e aqui
morreu, o sr. Norberto de Noronha...
--Não conheci elle, mas tenho ouvido fállár... Bôa péssôa, pelas
informações que dão-me d'elle, hein!
--Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.^a s.^a comprou a casa?
--Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em Portugal, a primeira coisa que
lembrou-me foi comprar casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu a
queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando que fizesse-se ella,
já viu? Depois meu compadre Damião me escreveu um dia para o Porto,
dizendo que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga p'ra vender
este palacete... Vim vêr ella, me agradou por ficar nos meus sitios e a
comprei... É uma rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!... Mas
como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo que demorarei-me por
lá...
--Norberto de Noronha--tornou Julio--tinha uma filha... Foi a essa
senhora que comprou esta casa?
--O négocio foi tratado com um procurador d'essa minina, qui estava
ella, dizem, nas irmãs da caridade e tinha passado procuração a esse tal
João Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas eu lhe fiquei
só com a casa e com estes campos de ao pé da porta... As outras
propriedades si venderam a differentes... Vossa excélléncia conheceu a
familia de Norberto, já vejo...
--Conheci. A casa soffreu modificações?
--Não altérei-lhe a planta, a ella, não... Lhe mandei botar papel e
pinturas novas, hein! mas lhe deixei ficar as divisões todas... O mesmo
jardim ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a casa para certificar-se de
que era uma vivenda _muito bôa ella_ e que se conservava quasi no mesmo
estado em que o fidalgo a deixára.
Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira e ultima vez a
Norberto de Noronha, já paralytico, cerrou um momento os olhos,
commovido, e a sua memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo,
que alli jazêra por tanto tempo ainda, na esperança de tornar a vêr a
filha, criminosamente ingrata ou assombrosamente desgraçada, por quem
morria.
Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades difficeis de
explicar, não merecêra as attenções do brazileiro para o mandar reparar.
Conservava-se no mesmo estado e na mesma disposição em que Julio o vira
a primeira vez quando alli entrou. Apenas alguns dos velhos moveis de
Norberto, inclusivè a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara,
achavam-se alli accumulados, em monte, a um canto.
--Isto áqui me tem sérvido para arrumações--explicou o brazileiro.--Aqui
encontrei esta cangalhada quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra pôr
ella fóra, nunca résolvi-me, hein! e ahi ficou, já viu?
--Quanto pretende v. s.^a pela casa?--perguntou Julio.
--Com mobilia ou sem ella?
--Tal como está, excepto os objectos de seu uso pessoal...
--Me custou a mim dez contos... Com mais de dois que gastei em mobilia e
concertos, anda isso por doze, hein! Más se v. ex.^a me quizer comprar
ella por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?
--Não, senhor!--acudiu Julio.--Se por doze contos lhe ficou, doze contos
lhe darei por ella.
O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador. Julgára que elle iria
regatear o preço, achar caro, desfazer no valor da propriedade e
reservava-se para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou dois
contos de reis. E via com surpresa que este generoso desconhecido queria
embolsal-o integralmente de tudo quanto havia dispendido, elevando a
somma, de dez, a doze contos, que era o que calculava ter gasto.
--Quer assim?--interrogou Julio.
--Mas...--objectou honradamente o brazileiro consciencioso--eu tenho
vivido na casa, os moveis me custaram dinheiro que já não valem elle
ágora...
--Pequenas coisas! Não compro isto para negocio, e por isso não penso em
o adquirir por menos do seu justo valor.
--Mas então a casa é de v. ex.^a!--decidiu o brazileiro com uma profunda
cortezia.
--V. s.^a não me conhece--disse Julio--mas eu dou como fiador á validade
d'este contrato o meu amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho.
Quando quizer, faremos a escriptura!
--O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle muito bem. V. ex.^a é
hospede d'elle, já vejo...
--Sou. V. s.^a dirá agora quando quer legalisar o contrato e quanto devo
dar-lhe de signal.
--Signal!--protestou o brazileiro--não é priciso elle... Os homens se
conhecem pelas palavras, já viu?
--Como queira.
--Me dê v. ex.^a oito dias para tratar de minha mudança, e iremos no
tabellião fazer a escriptura, hein!
--Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um mez. Não tenho pressa de
vir para esta casa, mas tenho-a de lhe chamar minha.
--Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale uma escriptura! Mas não
ha pricisão de mais demora, não... Homens de bem se entendem sempre
elles... Quando v. ex.^a quizer, vamos no tabellião...
Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando a casa de Gustavo.
--Já comprei a casa de Noberto de Noronha--disse elle ao amigo, logo que
chegou.
--O que!--exclamou Gustavo.--Pois logo de manhã, tão cedo, foste tratar
um negocio d'essa ordem?
--Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo para protelar a
compra. Agora conto comtigo, como advogado, para que o contrato tenha
uma realisação legal.
--Por quanto a compraste?
--Por doze contos, tal como está.
--Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e Julio era o proprietario
da casa que pertencera a Noberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da venda, apressava agora a
sua partida, no intuito sómente de não occupar por muito tempo a casa
alheia.
Os convidados de Gustavo, em assembleia magna, tendo sabido que Julio
comprára a casa de Noberto e se constituira, por este facto, um dos
proprietarios da localidade, resolveram addiar a celebração dos festejos
para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia na sua nova
propriedade.
Esta deliberação fôra tomada em segredo e mantinha-se discretamente
guardada entre todos, sem chegar ao conhecimento do melancholico amigo
de Gustavo de Magalhães.
--Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre, sociavel, sem os
absurdos preconceitos de um homem que, tendo percorrido o mundo e visto
tudo, chega a capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de o
emocionar e lhe causar alegria--dizia o magistrado de voz aflautada,
presumindo de habil conhecedor das diversas fraquezas e aberrações do
espirito humano.
--Fatalmente--commentava o medico--alli ha desiquilibrio de
faculdades... Aquella melancolia profunda, aquelle afastamento
systematico de todo o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave
enfermidade mental, propria d'um homem que passou a vida em viagens, sob
a impressão dos variados aspectos da natureza e sob a influencia de
diversos e oppostos costumes...
--Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do coração... amôres mal
succedidos...--aventou um dos menos theoricos e mais praticos.
--Não, alli o que ha é tedio, cansaço, o _spleen_ dos inglezes--opinou o
juiz.--O homem correu tudo, viu tudo, gozou tudo--menos a amizade dos
amigos e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao homem amado.
Nas viagens--accrescentou com grande auctoridade e emphase de
sabedor--perde-se a sensibilidade pela frequente e repetida excitação
dos sentidos. O espirito habitua-se á contemplação dos espectaculos
grandiosos e desdenha, como insignificantes e mesquinhos, os suaves e
dulcissimos prazeres da convivencia remansosa e placida de almas irmãs,
prazeres que são a vida do coração... Amôres mal succedidos, como diz
aqui o nosso amigo Gilberto, não creio... Mais me inclino a crêr que
seja o desdem pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos amôres
faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e que são, por via de
regra, os unicos que elles conhecem... E quem me diz a mim que o que
este homem sente é justamente a falta de um amôr sério, verdadeiro, como
é o de uma esposa por seu marido?...
--Pelo menos, quando não seja isso--disse o commendador--o casar devia
fazer-lhe bem... Se a mulher fosse d'estas que ás vezes apparecem na
vida de um homem como um flagello, que com tudo embirram e com coisa
alguma se satisfazem quando estão a sós com os maridos, elle buscaria a
convivencia da sociedade como um refugio contra as impertinencias da
esposa!
Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos rumôres que corriam
acerca da vida torturada que o commendador passava, de portas a dentro,
com a D. Graciana.
--Que eu por mim--emendou logo com solicita dissimulação--com bem o
diga, não sei praticamente o que isso é... Mas tenho ouvido varios
maridos queixarem-se do inferno que passam em casa com as mulheres, e
faço ideia do petisco que ha-de ser...
--Nós tambem fazemos ideia...--atalhou o juiz sarcasticamente, na sua
voz de assobio.
--Meus amigos--interrompeu Gustavo, que ouvira esta conversação sem
tomar parte n'ella--não se cancem em conjecturas sobre os motivos que
pódem ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo que hoje é. A vida
d'este homem é um mysterio que não seria facil decifrar nem mesmo aos
que na mocidade o conheceram intimamente, quanto mais áquelles que só
agora o encontram, depois de velho. De resto, pouco deve preoccupar-nos
a sua tristeza, se não está na nossa mão o dissipar-lh'a. Querer á força
fazer de um homem triste um homem alegre, parece-me coisa tão insensata
e absurda como querer mudar as tardes melancholicas do outono nas
risonhas manhãs da primavera. Cada qual é como é; e nem me parece que a
nós nos seja licito avaliar da tristeza ou da alegria intima de um
homem, pelo simples aspecto da sua physionomia ou pela estranha
soturnidade dos seus habitos. O que para nós é tedio póde ser para elle
distracção; o que para nós é dôr póde muito bem ser para elle um grande
prazer. Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole, ou por
caracter, se comprazem, desde a infancia, na solidão mais absoluta,
achando insupportavel a convivencia em que outras pessoas encontram uma
verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
--Isso é verdade!--accudiu o commendador--eu já tive uma epocha na minha
vida em que todo o meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr a
um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava n'isso horas e horas,
sem dar palavra, e se alguem me interrompia n'aquella tarefa em que
sentia um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E em todo o
caso, aposto que nenhum dos senhores acharia distracção n'uma coisa tão
simples...
--Não tanto!--replicou o juiz--Quem não tem que fazer caça môscas, diz o
vulgo. Ora se o meu amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se
distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda agora se entregue
ao divertimento...
--Agora não!--tornou o commendador.
--Por falta de pisco?--perguntou o medico.
--Por falta de pisco e por falta de paciencia... Mudei completamente...
Agora não me entretem nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com
passaros em casa.
A conversação proseguiu animada de ditos picarescos a proposito d'esta
ingenua confissão do commendador que, sem o querer, veio desviar as
attenções do grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim a D. Aurelia de Magalhães
e travava-se entre os dois este dialogo:
--Então, já sei que vou tel-o por vizinho, não é verdade, sr. Julio de
Montarroyo? Disse-me o Gustavo que v. ex.^a já comprou a casa de
Norberto de Noronha.
--A casa de Helena, minha senhora... É verdade, comprei-a.
--Na intenção de a habitar?
--Sim, minha senhora. Faço tenção de passar n'ella os ultimos dias da
minha vida.
--É muito triste este sitio a que n'este momento empresta uma apparencia
de alegria a permanencia dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão
retirar para Lisboa e todos regressarem a suas casas, tudo isto recahe
n'um silencio e n'uma tristeza que só póde agradar ás almas tristes...
--É justamente esse silencio e essa tristeza que a minha alma anceia...
--A solidão e a tristeza são um lenitivo para a alma quando nos prendem
recordações saudosas aos sitios em que habitamos e em que outr'ora fomos
felizes. Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me criei, aqui
passei dias felizes na companhia dos que me eram caros, e aqui os vi
desapparecer para sempre e para nunca mais. Mas v. ex.^a, snr. Julio de
Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me lembre, e em dias bem
luctuosos e bem tristes para o pobre Norberto de Noronha...
--E para o meu coração, minha senhora! Quando se é verdadeiramente
desgraçado, quando nunca se teve uma hora de felicidade, sente-se um
prazer amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios em que mais
soffremos, em que o nosso coração sentiu mais profundos e mais
lancinantes os golpes da desventura. Foi justamente n'esse predio que
hoje comprei que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes
espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella casa, dezoito
annos volvidos, pareceu-me vêr ainda, ao canto da mesma sala, sentado na
mesma poltrona de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com os olhos
fitos em mim, ouvindo com a alma anciada a espelhar-se-lhe na pupilla
dilatada e immovel, as palavras de animadora esperança que então
proferi, e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio d'aquelle
infernal martyrio! E esta evocação terrivel, bem longe de augmentar o
meu soffrimento, suavisa-o. Comparando o que soffro e o que tenho
soffrido com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo para me
julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu, que ella passou os unicos
dias venturosos da sua infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de
felicidade, até que a negra mão da desventura a veio empolgar...
--Pobre Helena!--murmurou D. Aurelia--se v. ex.^a a conhecesse n'esse
tempo, se pudesse avaliar os finos quilates d'aquelle espirito, a suave
candura d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga, sua companheira
de infancia, eu que tão de perto privei com ella e conheci todos os
primôres d'aquella alma nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei
como explicar aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela loucura.
Para mim, Helena de Noronha soffreu grande abalo nas faculdades mentaes,
antes de abandonar o pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados
deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre com uma
religiosa pontualidade!
--V. ex.^a nunca mais teve noticias d'ella?
--Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que a minha pobre amiga perdeu
a rasão antes do fatal passo que havia de custar-lhe não só a propria
ventura, mas tambem a vida do pae e do primo.
--Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado em casa de um
taberneiro da Serra do Carvalho...
--É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o alli sob pretexto de
que encontraria Helena, lá conseguiu matal-o e roubal-o. A principio,
suppôz-se que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem assaltado
em viagem, porque o cadaver appareceu na estrada. Mas uma denuncia
anonyma, enviada ás auctoridades e confirmada mais tarde por um
sapateiro de Braga, por alcunha o _Tomba_, que foi testemunha no
processo, pôz a justiça na pista do criminoso, e o Perneta foi julgado e
condemnado a galés por toda a vida.
--O _Tomba_!--disse Julio--Conheci muito bem esse sapateiro e procurei-o
agora no meu regresso a Braga, esperançado em obter d'elle
esclarecimentos que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas ha
muitos annos que desappareceu, e ignora-se o rumo que levou, podendo ser
até que já tenha morrido...
--Não sei, não conheci o _Tomba_. Ouvi fallar muito n'esse homem por
aquella occasião e sei que veio depôr como testemunha no tribunal de
Lanhoso, mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
--Se o _Tomba_ esclareceu a justiça e depôz como testemunha, então o
assassinato do pobre Alvaro obedeceu a um plano de vingança a que não
foi estranho o raptor de Helena...
--O padre Anselmo?
--Justamente. Como conhece v. ex.^a esse nome?
--Pois não sabe v. ex.^a que elle andou por aqui missionando e que foi
com as suas perniciosas praticas ao canto do confissionario que
conseguiu desvairar a minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a
casa paterna?
--E v. ex.^a era sabedora das intenções de Helena?
--Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu trataria de impedil-a
d'um semelhante passo. Guardou-se de mim como de toda a gente. O que eu
lhe notava era uma tristeza profunda, um recolhimento mystico de que
cheguei por vezes a reprehendel-a. Mas, como ella insistia, não me
preoccupei muito com isso, por suppôr que, retirando os missionarios,
breve retomaria a sua habitual despreoccupação de espirito. Enganei-me!
O mal tinha lavrado fundo, e o que eu suppunha não passar de um
momentaneo devaneio mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos
os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena! nem chego sequer a
accusal-a de ingratidão pelo seu procedimento para comigo, porque,
apesar de quanto se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão
Gustavo, julgo-a irresponsavel.
--É esse o juizo que v. ex.^a forma de Helena de Noronha?
--É. E formo-o assim, porque a conheci desde a infancia, e posso
assegurar a v. ex.^a que não havia mais nobre alma, coração mais terno e
cheio de affectos. Extremamente sensivel e impressionavel, de uma boa fé
e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a perdeu.
--O pae, segundo creio, projectava casal-a com o primo, com o Alvaro...
--Sim, essas eram as supremas aspirações de Norberto.
--E Helena amava o primo?
--Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia por outro homem. Muitas
vezes fallámos n'isso e lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse
indifferente, casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me até
que, de uma das ultimas vezes em que nós fallámos a tal respeito, ella
me affirmou: «Meu primo é para mim um homem como os outros. Caso com
elle como casaria com outro que meu pae indicasse. O mesmo não
succederia, se eu tivesse, como muitas meninas da minha edade, algum
rapaz a quem quizesse mais...»
--Não foi, portanto, a repugnancia invencivel pelo primo que a levou a
abraçar a vida religiosa....
--Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de Noronha amava muito a filha
para a constranger a casar com um homem que ella abertamente recusasse.
Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada pelas perigosas e
seductoras pinturas que o padre Anselmo lhe fez da vida religiosa,
fanatisando-a e enlouquecendo-a com infernal habilidade.
Os dois calaram-se por instantes.
--Sabe v. ex.^a--disse Julio de Montarroyo por fim--que me tem sido
immensamente grata ao espirito esta conversação a respeito de Helena?
--É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que v. ex.^a ignorava...
--Por isso, e porque não ha para mim felicidade igual áquella que
experimento em poder fallar de Helena com pessoa que a tivesse
conhecido. Com effeito, v. ex.^a acaba de me contar pormenores que me
eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda isso não é tudo: é que
sinto verdadeiramente um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de
Noronha e de coisas que de longe ou de perto se relacionem com ella. Foi
esse, e não outro, o motivo porque vim comprar a casa onde ella nasceu,
onde se creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que alli tudo me
hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles logares me dará como que uma
recordação d'aquella creatura, que o destino pôz no meu caminho para
logo a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e desapparece um
meteoro no espaço, em noite calmosa de estio!
--V. ex.^a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena de Noronha com uma
paixão que tornaria feliz a minha pobre amiga, se ella tivesse podido
apreciar como eu toda a vehemencia do seu affecto!
--Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a amava...
--Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que preencheria as mais
ardentes aspirações de um coração sedento de affectos?
--Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto a sua nobre alma lh'o
permittia, a esta paixão que me inspirou. E se não abandonou o convento
para vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem que ella amava, é
porque foi victima de alguma infame cilada que para sempre a perdeu.
Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que tivera repetidas
entrevistas com Helena no convento do Sardão; que ahi combinára com ella
a fuga, quando uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar
todo o plano concertado entre os dois; e que, sendo compellida a seguir
para Paris, lhe escrevera uma carta convidando-o a ir esperar noticias
d'ella na grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado muitos
mezes, aguardando as promettidas noticias, nunca mais lhe fôra possivel
ouvir sequer fallar d'ella.
--Conclue portanto que Helena...
--Foi infamemente illudida mais uma vez pelos seus crueis algozes!...
--Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente em abandonar a vida
religiosa, creio bem que não seria facil impedil-a de realisar o seu
pensamento. Helena de Noronha era por demais altiva e dotada de energia
de caracter sufficiente para não se deixar prender e illaquear por outra
vontade que não fosse a sua.
--Eu creio que Helena de Noronha já não vive... Procurei-a por toda a
parte, percorri o mundo em sua procura, e em parte alguma pude jamais
achar quem de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella. Isto me
leva a crêr que a supprimiram antes que ella pudesse effectuar a sua
evasão.
--Seria possivel?
--Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha senhora.
--Mas não sabe v. ex.^a que o padre Anselmo foi quem resolveu Helena a
professar?
--Sei muito bem.
--Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena, se lh'as
exigissem?
--O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me com verdade do
destino de Helena, se me fosse facil encontral-o. Mas é homem de quem
tambem ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia talvez
dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha muitos annos em Lisboa... Era
uma tal D. Carlota que, tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos
os esforços que empregámos para libertar Helena do convento, á ultima
hora nos trahiu, reatando as suas relações com o padre Anselmo...
Regressando a Braga, alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a
morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio que envolve
tanto a existencia de Helena como a do jesuita que a arrebatou para
sempre á familia e á sociedade.
--Pobre Helena!--suspirou D. Aurelia--que negro destino foi o seu!