cerebro accudira-lhe um pensamento terrivel.
--Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me vingar d'elle pelo
cuidado com que occultou de mim o seu projecto de casamento!--rosnou por
entre dentes--Decididamente, eu sou um homem de genio e não devo
consentir que este idiota me passe adiante e se me avantage em amôr, em
fortuna e em posição social.
João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça de preto e branco,
minado de inveja, roido d'ambições, irritava-se e agitava-o um rancor
profundo quando algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade, por
esforço proprio, por acaso, ou por capricho da fortuna, melhorava de
posição e subia mais um furo na escala das considerações sociaes.
A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com a filha de um
capitalista, pompeando grandezas e vivendo a vida feliz que o dinheiro
dá, acendera-lhe um inferno de invejas na alma parda como um ceu de
maio, prenhe de trovões, e como a propria _parda_ brazileira de quem era
filho e cujas feições retratava na côr bronzeada, nos labios grossos,
nos dentes brancos, no nariz de ventas largas e acachapadas e no
cabello, onde havia ainda uns longes de carapinha.
De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e um tanto gingado, de
preto _capoeira_, tinha o quer que era de elegante e distincto, e
chegaria mesmo a ser attrahente e sympathico, se não fôra a pretensão
ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de grande senhor.
Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o leitor terá occasião de
apreciar melhor em capitulos subsequentes.
Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano de anniquilar o amigo
que o convidava para uma ceia em sua honra, e vamos nós travar relações
com outros personagens importantes d'esta complicada mas veridica
historia.
XII
Velhos conhecimentos
Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de Lanhoso e não longe da
casa de Norberto de Noronha, que os leitores da _Irmã Dorothea_ já
conhecem, havia uma outra casa de bôa apparencia,--_casa nobre_, como lá
se diz,--mas de severo e melancholico aspecto.
Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas na quadra estival as
suas janellas se abriam e as salas se illuminavam n'um rumor de alegria
e de festa.
É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de Magalhães, tendo casado
e perdido marido e filho no curto espaço de quinze dias, ao cabo de
cinco annos do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e
encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a solidão do seu viver
tornava ainda mais profunda.
Occupando um aposento interior do edificio, servida apenas por uma velha
criada que fôra sua ama de leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas
quando sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites da vasta
propriedade murada e inaccessivel ás vistas exteriores.
Os caseiros encarregados do amanho e semeadura das terras passavam mezes
que a não viam, nem mesmo ao domingo á hora da missa, na capella da
casa; porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que communicava
com o interior da vivenda, podia assistir sem ser vista á celebração do
santo sacrificio.
O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o sensato academico que na
_Irmã Dorothea_ vimos desempenhar um curto mas sympathico papel como
amigo de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha,
doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento, fôra abrir banca
de advogado em Lisboa, onde conquistou rapidamente uma reputação
brilhantissima de orador e jurisconsulto notavel.
Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a a viver comsigo na
capital; mas a magoada viuva recusou, preferindo gemer as saudades do
esposo e do filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a abafal-as
no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.
Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da irmã, não insistiu, e como
tambem na vida agitada da capital as saudades da sua aldeia o pungiam,
reservava os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço natal, e
alli se demorava de junho a setembro.
Era então, quando elle chegava com a mulher e os filhos--e já contava
nada menos de tres--que a vida entrava na casa, e ao silencio e á
tristeza succediam o ruido e a alegria.
Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o, demoravam-se dias,
havia passeios, jantares na Senhora do Porto, os pequenos chilreavam na
casa logo de madrugada e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo
campo.
E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr e no seu luto,
acariciava os pequenos e mostrava-se contente com a alegria dos outros.
--Aurelia--dizia-lhe o irmão--se vivesses um anno em Lisboa, verias como
isso te fazia bem.
--Não, Gustavo, não--replicava a dolorida viuva.--Aqui nasci, aqui vivi
feliz na companhia de meu marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na
saudade dos que me fôram queridos.
--Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos contraria-te, não
é verdade?
--Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa alegria é a minha alegria, a
unica que póde ser-me suave alem da que sinto na recordação dos entes
que perdi.
No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava para a capital,
sentia como que uma especie de allivio intimo, por poder regressar ao
silencio e á solidão dos seus habitos, silencio e solidão que eram um
linitivo ás amarguras do seu espirito.
Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo á sua aldeia que nós
vamos encontrar a casa de D. Aurelia de Magalhães em festa.
Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos e condiscipulos, ao
saberem da sua chegada, apressaram-se a visital-o.
Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á noite, com as janellas e
sacadas abertas, rindo e conversando, emquanto que D. Albertina, a
gentil esposa de Gustavo, sentada ao piano, executa algumas das modernas
composições mais em voga.
A noite estava bella, de luar--d'esse luar sereno e calmo das noites
claras do estio.
Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz silenciosa das aldeias,
apenas quebrada pelo rumôr dos mil insectos que, n'um admiravel
concerto, faziam ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos,
symphonia cujo maravilhoso segredo de orchestração nenhum grande maestro
pôde ainda devassar.
Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo de Magalhães,
attrahidos pela belleza da noite, vieram debruçar-se nas sacadas
continuando as conversações em que estavam entretidos.
--É verdade, sabes, Gustavo?--disse D. Aurelia--vende-se outra vez o
palacete que foi de Norberto de Noronha.
--Vende?--respondeu o advogado--Então o Pinho, o brazileiro para onde
vae?
--Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher do caseiro á
Mathilde, á minha criada de quarto.
--É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia, veio senhor de uma grande
fortuna e não tencionava tornar para o Brazil.
--O Pinho--esclareceu o medico de partido, o dr. Gomes, que fôra
substituir o Negrão, fallecido ha annos--tem soffrido, ao que me consta,
prejuizos importantes no Brazil... Depois, elle não é um homem
economico... tem dispendido.
--Pois parece que não deveria ser assim--objectou Gustavo--Um homem, com
uma fortuna superior e que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões
para dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em que? Se vivesse
no Porto ou em Lisboa, comprehendo. Mas aqui, em S. Martinho de Campo!
--Pois é verdade!--tornou o doutor--Aqui mesmo, em S. Martinho de Campo,
o Pinho tem tido a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos em
dez annos.
Houve um murmurio de incredulidade no pequeno auditorio.
--Não póde ser!--insistiu Gustavo--Elle comprou a casa que foi de
Norberto de Noronha, por um preço inferior; gastou alguma coisa em a
reformar, mas não foi muito, porque não lhe alterou a planta e apenas se
limitou a uma simples questão de limpesa... Não me consta que tenha dado
bailes, que reuna em sua casa grandes companhias ou que se haja cercado
de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas que o doutor lhe
attribue.
--Pois ahi é que está a desgraça!--retorquiu o medico--Soube ganhal-o e
não o soube gastar... O Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde
que chegou...
--A todo o mundo!?
--É um modo de dizer. Deu um manto bordado a ouro a Nossa Senhora do
Porto; offertou um pallio novo á junta de parochia; mandou fazer um
painel á irmandade das almas; mandou construir á sua custa a torre que
faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um relogio, e tem sido elle o que
tem feito á sua custa a festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que
não é nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se a vêr e somma
contos de reis...
--Isso é verdade!--concordaram alguns do grupo.
--Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito dinheiro!--contestou
ainda Gustavo.
--Mas não se teem limitado só a isso as despezas do Pinho... Tem
protegido muita gente... tem dotado muita rapariga pobre cá dos sitios,
tem sido padrinho de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro a toda
a gente e d'onde se tira e não se põe...
--Bem sei! Em todo o caso...
--Em todo o caso--concluiu o doutor--se não fossem os ultimos revezes
soffridos lá no Brazil, o Pinho, com um bocado de juizo, podia ainda
aguentar-se. Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes e elle
não tem remedio senão ir acudir ao resto, para não ficar litteralmente
sem nada.
--Pobre homem! Tenho pena.
--O Pinho é um bello coração. Um bocadinho vaidoso, gostando de se impôr
pelo seu dinheiro, mas, no fundo, um pobre diabo. Os de cá
conheceram-lhe o fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho
isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias de eleições! A
ultima não lhe ficou por menos de dez contos...
--E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!
--A esse respeito, houve umas historias muito compridas... O titulo
estava-lhe arranjado, mas quem lh'o arranjava, á ultima hora, precisou
de uma somma importante... O Pinho soube-o e não se lembrou de a
offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava com o cheiro em ser
titular, apresentou-se a fazer o offerecimento, e apanhou o titulo para
elle...
--Que miseria!--disse Gustavo enojado.
--E até foi bom para o Pinho--tornou o doutor.--Porque, se lhe tivessem
dado o titulo, agora a sua situação era muito mais difficil. Imaginem:
um homem sem dinheiro e com um titulo ás costas...
--Deve ser horrivel!
--Pois foi do que elle se livrou! Ha males que veem por bem...
--E quanto quer elle agora pela casa?
--Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe, elle não ficou com todas
as propriedades do velho Noberto. Apenas comprou os campos que circumdam
o predio e que pódem valer, com os melhoramentos que elle lhes tem
feito, os seus nove a dez contos de reis. Mas estou persuadido que se
apparecer quem lhe dê oito, o homem não diz que não...
N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem que parou ao portão da
casa de Gustavo.
--Quem nos honra?--disse o doutor, ao ver apear um sujeito de sobretudo
claro e franquear o portão de entrada, depois de fallar ao criado.
--Querem vocês vêr que é o Sampaio que se aborreceu nas Taypas e veio
até cá para se distrahir um pouco?
Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de o receber, quando
Sebastião, o criado da casa, appareceu no limiar, dizendo:
--Senhor doutor, saberá v. ex.^a que está lá em baixo um senhor que diz
que deseja fallar ao sr. doutor....
--A qual de nós?--disse rindo Gustavo.--Aqui ha uns poucos de
doutores... Solicita o soccorro da medicina ou as luzes da
jurisprudencia, esse estranho recemchegado?
--Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.
--Ah! então é comigo... Não disse o seu nome?
--Não quiz _dezer_... É um senhor de barbas...
--Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.
E voltando-se para os hospedes:
--Meus amigos, deem-me licença... Isto é por força gracejo de algum
amigo de nós todos... A esta hora, não é natural que um desconhecido me
procure... Eu volto já.
Gustavo de Magalhães passou á sala onde o aguardava o desconhecido
visitante.
Era este um homem que figurava ter quarenta a quarenta e cinco annos,
estatura regular, barba loura em que se entremeavam já muitos fios
brancos, accusando, com as rugas profundas que lhe cavavam as faces, uma
vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente um sobretudo
escuro apesar da estação calmosa ser mais propria ao uso das côres
claras.
Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de braços abertos, n'uma
expansão de velha amizade, dizendo:
--Já me não conheces, não é assim, Gustavo?
--Julio! Pois és tu?
--Sou eu, meu amigo!
E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou effusivamente nos
braços o seu amigo e companheiro de infancia.
--Mas o que é feito de ti?--perguntou Gustavo--Ha quantos annos não
tenho tido noticias tuas!
--Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que deixei o paiz...
--Singularissima ausencia!
--Que queres? Precisava de movimento, precisava das estranhas commoções
do imprevisto, porque precisava de esquecer...
--E esqueceste, afinal? Ainda bem!
--Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E a prova é que, ainda
agora, velho, doente, alquebrado, eu venho ao sitio onde ella viveu e
d'onde partiu para não mais voltar, dar á minha alma o supremo lenitivo
de contemplar os logares que a viram creança, pura, innocente, feliz, e
onde tudo me hade ainda fallar d'ella!
Gustavo encarou surprehendido o seu amigo. Atravessára-lhe o cerebro a
suspeita de que as faculdades mentaes d'aquelle homem estavam
desgraçadamente transtornadas.
Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo e disse, sorrindo:
--Julgas-me doido, não é verdade?
--Não, não julgo...--replicou o irmão de Aurelia de
Magalhães--Surprehende-me apenas que, volvidos tantos annos, as viagens
e o tempo não pudessem ainda desvanecer-te do peito essa fatal paixão.
--Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo. Ama-se uma vez na vida,
uma unica; e aquelle que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar,
é porque sinceramente não a amou.
--Mas não tiveste mais noticias de Helena de Noronha?
--Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me que ia para
Pariz, transferida para uma casa de _irmãs Dorotheias_ e pedindo-me que
a fosse esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias suas.
Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma carta, um recado, uma palavra
que me tirasse da infernal situação em que me encontrava e me désse uma
esperança, ainda que longinqua, de a tornar a vêr...
--E como pudeste esperar tanto tempo?
--Esperaria até ao fim do mundo se, pelas indagações a que procedi,
pudesse capacitar-me de que ella estava em Paris. Relacionei-me com os
jesuitas, apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei as
egrejas, as casas religiosas, percorri todos os institutos, todos os
collegios jesuiticos e não a encontrei. Então tive a suspeita de que
talvez houvessem descoberto a intenção em que aquella infeliz estava de
se unir a mim e a tivessem enviado a outra parte. Passei á Hespanha,
percorri todas as cidades e usei de todos os meios que podiam
permittir-me o encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da
investigação, segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me com
toda a ala negra, occultando sempre o meu pensamento secreto. D'alli fui
á Africa Oriental, percorri as missões onde me seria facil encontral-a,
e sempre baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura, nem ainda pela
familia, me foi possivel obter noticias d'ella. Afinal, desalentado,
velho, gasto, alquebrado e doente, resolvi regressar a Portugal,
convencido de que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela _irmã
Dorotheia_, já não existe!
--Meu pobre amigo!--disse Gustavo envolvendo-o n'um olhar de funda
compaixão--que grande fatalidade foi para ti essa mulher na tua
existencia!
--Bem pensado, não foi--volveu Julio--Devo-lhe soffrimentos acerbos, mas
tambem lhe devo alegrias intensas, esperanças dulcissimas que outra
mulher jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos meus desalentos me
sorria uma probabilidade de a encontrar, que felicidade meu amigo! que
doida alegria a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal que
se vende o palacete de Norberto de Noronha, e venho compral-o.
--Comprar a casa de Norberto de Noronha!
--Sim.
--Com que fim? O que pretendes fazer?
--Viver n'ella os ultimos dias da minha vida, que não será longa...
--Mas vens só, não tens familia?
--Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas irmãs casaram,
constituiram familia, e eu encontro-me só... só com as minhas
recordações!
--Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como amigo e como irmão, hoje como
sempre. És meu hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia
emquanto me demorar por estes sitios.
--Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei. Desejo a tua
interferencia n'este negocio.
--Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me apresentar-te aos meus
amigos que tiveram a santa caridade de vir alegrar-me as horas d'esta
triste solidão. Tambem quero apresentar-te minha mulher e meus filhos,
que já te conhecem de me ouvirem fallar muitas vezes de ti... Minha
irmã, essa já t'a apresentei n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr,
porque, como amiga de infancia de Helena de Noronha, fallar-te-ha d'ella
com aquelle entranhado affecto que sempre lhe tributou, apesar da sua
ingratidão... Vem!
Deu-lhe o braço e conduziu-o até á sala onde já todos os esperavam com
grande curiosidade.
A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral impressão nos
circumstantes.
Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam n'aquelle velho o
elegante moço bracarense de ha 18 annos, notavel nas duas cidades--Braga
e Guimarães--pelo apurado esmêro no trajar e pelos distinctos primôres
da educação.
Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da bôca do recemchegado a
relação das suas viagens, que elle narrou n'uma linguagem viva,
scintillante, pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto, o
secreto motivo de tão longa e demorada permanencia em paizes estranhos.
--De modo que--disse por fim o commendador Seabra, um dos mais velhos
condiscipulos de Julio--eis-te de novo entre nós, qual filho prodigo que
regressa á casa de seus paes!
--É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um filho prodigo, que
desperdiçou vida, mocidade e dinheiro entre os estranhos e que regressa
velho, cançado e cheio de achaques, a pedir á terra em que nasceu um
canto onde possa morrer descançado.
--Morrer! Quem falla aqui em morrer?--atalhou Gustavo alegremente--Tens
ainda vida para muito tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de
saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado por uma vida
inteira de trabalho, pae de tres filhos, tres enormes traquinas, que
reclamam constantemente os meus cuidados e que todos os dias me recordam
a necessidade impreterivel que tenho de viver para elles, até os fazer
homens e acompanhar a sua entrada no mundo com os conselhos da minha
experiencia e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não penso em morrer sem
ter cumprido a minha missão...
--É justo--respondeu Julio--Ha um objectivo na tua existencia, que te
faz amar a vida e te dá força e coragem para a não perderes: são os
filhos, é a esposa, é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de
affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar dos desalentos,
das dôres physicas e moraes, conduzindo-o, confiado e alegre, através a
velhice como o viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos
no oasis que, de longe, lhe promette repouso e frescura. Mas eu,
abandonado e só, sem familia, sem o estimulo dos grandes affectos que
tornam o homem superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão
a morte redemptora dos grandes desgraçados?
--Casa-te, meu amigo, casa-te!--aconselhou o commendador Seabra n'um tom
de convicta auctoridade.--Olha que não ha como o casamento para fazer um
homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz, tambem tive as minhas
estroinices, as minhas excentricidades... Não andei lá por fóra, porém,
cá dentro mesmo, no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz o que
pude... Mas quando cheguei a certa altura e senti que começava a
aborrecer-me da vida, disse commigo: «Nada! isto não está bem... Preciso
ter alguem a quem me dedique de alma e coração... alguem a quem eu
estime e que me estime tambem, porque um barco só não faz carreira...»
Tive a fortuna de encontrar o que desejava, uma esposa que é um anjo, um
genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito! Casei e temo-nos dado
muito bem... Não é assim, Gracianinha?--rematou, pondo os olhos na
esposa, a D. Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco,
toda cheia de requebros e denguices, mais do que é permittido a uma
mulher que passa dos quarenta.
--É assim, meu amigo!--suspirou a D. Graciana, revirando para o marido
os olhos ternos e abanando-se com o leque, na pudibunda attitude de uma
paixão confessada.
--Não temos tido filhos--tornou o commendador, muito roliço, muito
gordo, envolvendo a mulher n'um olhar carinhoso--mas não é por falta de
amôr... É que ella não é de qualidade de os ter... Mas vê tu que eu era
um espeto... lembras-te que eu era um espeto? Pois estou isto que vês!
Gordo e forte, que nem pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que
casei... Não ha nada como o casamento para dar saude a um homem!
E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos na cava do collete,
e tamborilando com os dedos restantes no peito, n'uma exhibição grotêsca
das fartas enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam o
rotundo abdomen.
Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio feita pelo
commendador que, segundo resavam as más linguas, soffria uma cruz em
casa com os destemperos da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
--Ora agora o que é preciso--propôz o juiz de direito, um velhote de
oculos, bigodes brancos, com uma voz aflautada e cheia de impetuosidades
nervosas--é não deixar passar despercebido este feliz acontecimento do
regresso de um querido e distincto filho do Minho aos encantos da sua
provincia e aos braços dos velhos amigos, que todos gemiam saudades pela
sua prolongada ausencia!
E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada de sentimento:
--Isto é mais do que um regresso, isto é uma resurreição! Propunho,
pois, uma Paschoa _inter amicus_, uma festa alleluitica, em que se
celebre condignamente o _resurrexit_ d'este illustre cavalheiro, que eu
não tinha a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem já estimava e de
quem era sinceramente amigo, pelo conhecimento de seus primores e
gentilezas, que a tradição oral tinha trazido até mim!
Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa approvação e logo
alli se decidiu promover uma festa ruidosa em honra de intrepido
viajante, que dezoito annos gastara em percorrer as _sete partidas_ do
mundo, como o _infante D. Pedro_.
O juiz foi o encarregado de elaborar o programma e nomear a commissão
que havia de proceder aos festejos.
Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo pela perspectiva de
mais um dia de grossa pandega.
--Livra-me d'esta gente, meu amigo!--segredou Julio a Gustavo.--Tu, que
conheces o estado do meu espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria
me mortifica!
--Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te d'estas honras, que
só aos _eleitos_ da amizade se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má
lembrança de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de ser
clandestinamente, porque, se constar que andas a tirar passaporte,
agarram-te e não te deixam partir sem gramares a festa!
--Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!--murmurou Julio.--Venho a
fugir do bulicio, do ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e
eis-me o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto de
tristezas!