--Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este casamento. Conhecia

Eugenio de Mello, viu n'elle um bom partido para ti, apresentou-o a teu

pae e os dois, d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz a

pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura vantajoso, teu pae

emprega todos os meios para te resolver a casar. A violencia n'estes

casos é quasi sempre inutil, quando não é contraproducente... Portanto,

qual o melhor meio de vencer a tua resistencia? Era levar-te pelo lado

da compaixão e da ternura filial, pois que, pelo sentimento do interesse

material e grosseiro, teu pae deve conhecer-te bem para te julgar

invulneravel. D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e as suas ameaças

de pôr termo á existencia. Mas com o que elle não contava era comigo.

Teu pae que queira fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes

por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente lhe

apresentarei quem realise a transacção. Propõe-lhe isto, minha amiga, e

ouve o que elle te diz.

--É extraordinario!--disse Beatriz--Suppunha meu pae um homem de genio

rispido, despotico, intractavel mesmo, mas nunca o julguei capaz de

descer a representar comigo uma comedia tão aviltante da dignidade

paternal!

--Minha querida amiga, bem sabes que te amo por ti, sómente por ti, e

não por tua familia, e ainda menos pelos teus haveres, que nunca tratei

de indagar quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as

circumstancias me obrigaram a fixar a minha attenção sobre tal assumpto,

e Deus sabe com que boas e generosas intenções. Mas, visto que tanto te

admiras, permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio é o de

teu pae?...

--Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim sobre assumptos

commerciaes. Elle foi sempre homem de poucas palavras e de nenhuns

carinhos para mim. Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta

casa quasi como uma estranha... A primeira vez que lhe ouvi fallar de

negocios foi agora, depois que este rapaz se apresentou a pedir a minha

mão e eu recusei...

--Então saberás, minha bôa amiga, que teu pae empresta dinheiro ao juro

de vinte por cento, o minimo, sobre hypothecas que ordinariamente

representam o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em taes condições,

teu pae, que tem dinheiro para emprestar, póde dever cincoenta contos ao

procurador Belchior e encontrar-se na situação desesperada que diz.

--O que entendes que devo então fazer? Que resposta deverei dar-lhe? Eu

não queria vexal-o e desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe

abertamente que estou conhecedora da sua odiosa mentira...

Paulo reflectiu por alguns instantes.

--Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão que estás pensando no

que melhor convirá fazer em face da grave situação em que ambos vos

achaes...

--No emtanto, elle não deixará de insistir por uma decisão rapida...

--Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida em acceitar o marido que

se te propõe, desde que esse casamento seja a unica solução que se te

apresente para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te dispensas de

estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão que elle requer.

--Mas esta situação é insustentavel por muito tempo, meu Paulo...

--Não te dê cuidado o resto. Antes de seres obrigada a dar uma resposta

definitiva, tenho esperança que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae

a mudar de resolução.

--Oxalá que assim seja!

O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor movimento da filha,

ancioso como estava de saber que solução daria ella ao intrincado

problema dos cincoenta contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz

viera mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com Paulo; e no

dia seguinte, depois de almoço, pondo os olhos enternecidos na pobre

menina, perguntou-lhe com fingido carinho:

--Então, minha querida filha, já pensaste na nossa terrivel situação?

--Já, meu pae--respondeu Beatriz baixando os olhos.

--E o que resolves?

--Por emquanto, nada.

--Nada!--exclamou o snr. Custodio affectando grande espanto.--Pois é

possivel que, tendo-me tu promettido uma resposta decisiva sobre esta

questão de vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente ao

que póde succeder? Para que me pediste então essa conta que te

apresentei?

Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu placidamente:

--Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do que cumpre fazer.

--O que! Pois não sabes o que cumpre fazer? Quando se devem cincoenta

contos de reis e o crédor os exige, o que cumpre é pagar.

--Pagar ou casar...--replicou Beatriz com amarga ironia.

--Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou teu pae e que podia impôr

a minha auctoridade paterna, prefiro deixar-te ampla liberdade na

escolha do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha de sacrificar

a vida...

--Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.

--Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas não se pagam com

palavras... Prometteste-me resolver a questão, e afinal já lá vão uns

poucos de dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.

--Alguma coisa temos já adiantado...

--O que?

--A resolução em que estou de salvar meu pae...

--Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que se te propõe, minha

filha?

--Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.

--Pois olha que não tens outro recurso, crê!

--Veremos.

--Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça por outra forma?

--Talvez.

--Ah! minha filha, minha filha! se confias no auxilio de qualquer das

pessoas nossas amigas, desde já te digo que nada conseguirás... Os

amigos fogem da desgraça como as andorinhas fogem do inverno. Se lhes

fallamos em dinheiro,--emigram!

Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa, porém firme e

serena:

--Quando se é leal e sincero para com todos; quando se não abrigam no

peito sentimentos de egoismo e de torpe má fé, a Providencia, que vela

pelos bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende e nos vale nos

lances mais desesperados da nossa vida...

--Pois sim!--tornou o sr. Custodio n'um tom de mal disfarçado motejo--é

bom a gente confiar na Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo

e tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios que puder... A

Providencia já não faz pouco em nos enviar esse rapaz que te quer para

esposa...

--Pois se ella se não manifestar por outra forma, acceitarei o casamento

que se me offerece... Mas, antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe

pensar reflectidamente sobre o caso...

--Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o que te parecer melhor,

comtanto que não pareça, pela demora em dar uma resposta decisiva, que

estamos a caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou e que

é, como sabes, nosso crêdor...

--Ninguem póde tomar como caçoada o facto de eu querer reflectir

maduramente antes de dar um passo de que vae depender o meu destino...

--Sim, isso é justo...--tornou o Custodio com brandura--Mas quantas no

teu logar, minha filha, se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam

logo as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!

--Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de se arrepender, mais vale

que seja antes do que seja depois. Justamente para que o arrependimento

me não sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou fazer, antes de

me decidir...

--Faze lá como entenderes. Para mim, como já pouco posso durar, a

questão está resolvida: é mais mez, menos mez, mais dia, menos dia...

Quando se chega á minha idade, a vida já pouco prende... Preferiria

morrer socegado na minha cama, da morte que Deus me desse, e não ter eu

que pôr termo á vida para me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver

determinado o contrario, cumprirei resignado a sua divina vontade...

Acredita que, se me afflijo, não é tanto por mim como por ti, a quem eu

não queria deixar no mundo sosinha, pobre e desamparada!

--Sim, meu pae...--respondeu Beatriz levemente ironica--Eu conheço

quanto lhe devo pelas provas de carinho que sempre me tem dado... Mas

não se afflija por mim como eu não me afflijo por meu pae, pois que Deus

ha de valer-nos...

--Tens essa fé, Beatriz?

--Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse já que, se outro remedio

não houver, casarei com o sr. Eugenio de Mello?

--Deus te abençôe, minha filha, pela grande consolação que me dás! E

has-de ser feliz, crê, porque o Eugenio é bom rapaz e está perdidamente

apaixonado por ti.

--É pena que eu não possa apaixonar-me por elle...

--Minha filha, depois, a convivencia faz tudo... Pensa, pensa e has-de

vêr que não encontras outra solução melhor do que esta para nos tirar de

difficuldades: casar e deixar de tolices...

Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer que tinha com o

seu discurso adiantado um grande passo no caminho do ambicionado

casamento que sonhava para a filha.

--Naturalmente--ia dizendo comsigo--lá o tal franganito mostrou-se

desanimado e ella vae perdendo a esperança que tinha n'elle... É questão

de mais dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que se

resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes fizessem como eu... se

quando as filhas se inclinam para um bigorrilha sem cinco reis, lhes

dessem logo com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na miseria

que as espera, não se via tanto casamento desgraçado como se vê!

E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido illudir a filha.

Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro illudido era elle!

XI

João Lazaro

Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao _Suisso_ tomar café, depois

de jantar.

Alli passava uma hora em palestra amena com os amigos, se os encontrava,

ou a lêr os jornaes estrangeiros que o criado lhe punha diante--para

matar tempo.

N'estas rapidas leituras encontrava coisas que pareciam interessantes,

porque ás vezes puxava do seu livro de lembranças e tomava notas a lapis

nas folhas em branco.

Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe amigavelmente no

hombro e ao mesmo tempo uma voz dizer-lhe:

--Estás a copiar alguma receita para te lembrares dos amigos?

Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.

--És tu, João!--exclamou levantando-se com impeto e estendendo os braços

para elle.--Como estava longe de te ver agora aqui!

Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se em seguida.

--Ora o meu João Lazaro!--tornou Jorge com alegria--Com que, voltaste ao

Porto!

--É verdade!--disse o outro recostando-se na cadeira com importancia e

tomando uma attitude de principe que regressa do exilio--O bom filho á

casa torna...

--E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...

--Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem espanta. Não era de

esperar outra cousa desde que eu faltava cá para a reformar.

--Quando chegaste?

--Hoje de manhã.

--Que tempo te demoras?

--Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre assumpto importante,

e não posso calcular o tempo que isso me levará...

--Não tencionas fixar residencia no Porto?

--Não. Isto é pequeno demais para mim...

--Bravo, seu João! Você está crescido!--disse Jorge galhofeiramente.

--Pois tu comprehendes um vulto politico de certa importancia a viver no

Porto? Já Lisboa é uma deprimente miseria, meu caro! Mas, emfim, como

não ha outra terra maior, não ha remedio senão resignarmo-nos com

ella...

Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem, mordeu a ponta do

charuto caro, com affectação, e exclamou:

--Que mal servido está este café! Não ha aqui um criado que venha

receber as ordens?...

Jorge bateu as palmas, chamando o criado.

--O que tomas?--perguntou ao amigo.

--Vou tomar cerveja.

--Cerveja a este senhor--disse Jorge ao criado que se aproximara.

Este relanceou um olhar curioso para o freguez que dava pelo nome de

João Lazaro, e perguntou:

--Ingleza?

--Ingleza, sim!--respondeu o João Lazaro.

E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se afastava a cumprir a

ordem:

--Unica coisa em que transijo com esses bebedos inglezes!

--Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo nosso vinho...

--Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!--disse o João Lazaro com olhar

torvo.

--Pela _nossa_! Pois o Brazil tambem tem Africa?--interrogou motejador o

amigo de Paulo--Porque tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és

brazileiro...

--Mas portuguez pelo coração!--respondeu o outro com emphase.

E accrescentou:

--Ah! se não fosse o coração, cuidas tu que eu teria posto a minha

mocidade, a minha energia, o meu talento, ao serviço de um paiz tão

pequeno como este?...

--Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de mais para uma terra tão

pequena como esta... E ella assim o comprehendeu expulsando-te do seu

seio por duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que é a tua

patria, com a grande vantagem de encontrares lá já realisado o teu ideal

politico?

--Já te disse: sou portuguez pelo coração...

--E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco! sabe-te melhor o pão

_negro_ das terras brancas, do que a farinha branca das terras negras...

A conversação foi interrompida n'este ponto pela aproximação de Eugenio

de Mello que, tendo avistado João Lazaro, dirigiu-se a elle

familiarmente:

--Ó João--preveniu o bohemio--não te compromettas para amanhã á noite,

porque temos ceia de rapazes em tua honra...

--Oh, diabo!--replicou o Lazaro, sempre com ares de grande senhor--Para

amanhã não será possivel, porque tenho negocios importantes a resolver e

não sei se de dia ficarão concluidos...

--Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada resolveu isto e é

uma semsaboria se tu não appareces... Demais a mais, o elemento

feminino, o elemento galante, faz-se representar, e tu não pódes deixar

de ser gentil para com as damas.

--Está bem: irei.

E voltando-so para Jorge:

--Não se conhecem?

--Não tenho essa honra--disse Jorge.

João Lazaro então apresentou:

--O meu amigo Eugenio do Mello...

E para este:

--O meu amigo Jorge de Gusmão.

Os dois cortejaram-se.

--Estimo conhecer v. ex.^a--disse um.

--Igualmente--disse o outro.

E apertaram-se as mãos.

--Como se trata de uma festa intima, de amigos pessoaes do João--disse

Eugenio de Mello, dirigindo-se a Jorge--V. ex.^a, que é tambem amigo

d'elle, dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio, ás 10 da

noite.

--Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel, o que muito sinto,

associar-me a essa homenagem de estima ao nosso amigo, porque amanhã de

tarde devo partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes e

inaddiaveis--respondeu Jorge.

--Creia v. ex.^a--tornou Eugenio amavelmente--que teria immenso prazer

em o vêr lá...

Jorge agradeceu com uma inclinação de cabeça.

O bohemio, que não se sentara á mesa, despediu-se, dizendo ao Lazaro:

--Vê lá! Se não nos virmos antes, ás 10, lá te esperamos. Fui

encarregado de te dirigir o convite e agora não queiras collocar-me mal

perante a rapaziada.

Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome, reconhecera n'elle o

rival de Paulo, perguntou:

--Quem é este rapaz?

O outro sorriu desdenhosamente.

--Um aventureiro!--respondeu.

--A classificação é pouco lisonjeira para ti e menos ainda para elle...

--De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes que um homem politico

tem por vezes a dolorosa e imprescindivel necessidade de se relacionar

com a gente da mais baixa especie.

--Mas este rapaz é...?

--É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem encadernado, insinua-se na

confiança da gente fina e é util para muita coisa que nós outros não

podemos fazer.

--E vive d'isso?

--Vive de tudo. A sua existencia é uma série de expedientes engenhosos.

--Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a melhor roda de rapazes e

passa entre elles por ser possuidor de grande fortuna...

--Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo e o amor com tanta arte

que, em vez de explorador, parece elle o explorado. Agora, por exemplo,

gasta sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz rico, á custa

de uma loura, que é a _sanguesuga_ deliciosa do commendador Garcia...

Conheces?

--Conheço o commendador Garcia perfeitamente.

--E a loura?

--Poderei tel-a visto, mas não estou certo.

--Não sabes nada!--volveu o João Lazaro desdenhoso.

--Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto, já pudeste saber tudo

isso?

--Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e comigo não tem reservas.

Conta-me tudo.

--Então, devia contar-te tambem que tem o casamento ajustado com uma

rica herdeira...

--Elle!?

--Elle, sim!

--Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito. Fallas sério?

--Absolutamente sério. E o mais interessante é que o pae da noiva

suppõe-n'o um rapaz riquissimo...

--É boa! E não me disse nada! Que grande patife!

--Pois é verdade.

--Tens bem a certeza?

--Conheço a noiva...

--Ella quem é?

--É filha de um capitalista, chamado Custodio de Jesus...

--Não conheço.

--Anda n'isso mettido um procurador chamado Belchior... Esse deves

conhecer...

--De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores referencias, já do

tempo em que vivi no Porto.

--Pois mantem ainda hoje a boa reputação que já gosava no tempo em que

ouviste fallar d'elle. O que ou não sabia era que especie de relações

podiam ligar o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me

que elle é um cavalheiro d'industria, está explicado o caso. Os dois

combinaram-se para roubar o capitalista, apanhando-lhe a filha...

--É bonita essa pequena?

--Creio que sim.

--Crês?

--Nunca a vi, e por isso não a conheço pessoalmente. Mas tenho d'ella

informações que a dão como uma belleza indiscutivel.

--É pena, porque, se é formosa, merece outro marido que não um

_escroc_... Mas que imbecil progenitor é esse, e demais a mais

capitalista, que entrega assim a filha a um typo como é o Eugenio de

Mello?

--Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como toda a gente.

--Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena, avisa o pae da

cilada em que o querem fazer cahir.

--Eu!--replicou Jorge--Não tenho nada com isso... Deixemos lá o rapaz.

Póde ser que a fortuna o regenere.

--A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo, extravagante, só está

bem quando gasta ouro ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o amôr de

varias Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue o mesmo

caminho, e com bastante felicidade pelo que vejo, pois que o encontro

levando vida do principe e bellamente relacionado...

--E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque o casamento, segundo se

diz, está para breve...

--Os jornaes já deram noticia?

--Não. Este negocio trata-se no maior segredo. E é natural, porque elle

não deve desejar que a formosa lourinha o saiba e lhe transtorne os

planos...

--É curioso!--tornou o João Lazaro--Como as mulheres são estupidas nos

seus amôres! Essa loura a que te referes teve a audacia de me resistir.

Assediei-a durante muitos mezes, nos primeiros tempos da sua ligação com

o commendador Garcia. Eu era incapaz de a explorar pecuniariamente...

Contentava-me em que não me fizesse exigencias de dinheiro, porque para

isso lá estava _o outro_. Escrevi-lhe cartas apaixonadas no meu

estylo... tu sabes! todo litterario, que até era mal empregado n'aquella

couçoeira de fórmas divinas, incapaz de me comprehender... Pois, meu

caro, entrincheirou-se na sua fidelidade ao commendador e não houve de

quê! Por fim, apparece este idiota, sem instrucção, sem elegancia, sem

espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!

--É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem uma tendencia especial

para escolherem o peor.

--Não são só as mulheres. Toda a humanidade é assim. Segues uma estrada

que se bifurca em dois caminhos, um dos quaes te conduz e outro te

afasta do sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a certeza

de que o que escolheste é sempre o peor. Mas o que me irrita é a fortuna

estupida d'esse imbecil. Não vale a pena um homem ter talento, ser

distincto, ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis que para

ahi enxameiam, porque as mulheres, meu caro, hão-do ser sempre pela

materia contra o espirito!

O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado desdem e levou o copo

da cerveja aos labios com a solemnidade de quem estivesse dando exemplos

de suprema elegancia n'um salão aristocratico.

Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e disse:

--Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz com as damas...

--Não; não tenho sido. Muito pelo contrario, tenho sido alvo do

carinhoso interesse de mulheres finas, elegantes, da primeira roda. Mas

essas, impede-me a minha posição politica de lhes corresponder, porque

se tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam logo de lançar

sobre mim a suspeição, accusando-me de me deixar subornar pela

aristocracia.

--Sacrificas o amor á politica...

--Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim, crê, é que um homem póde

affirmar-se capaz de salvar um paiz á beira do abysmo...

--Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os outros ou em te salvar

a ti? Porque afinal, sejamos francos, tu que diabo tens sacrificado ou o

que é que pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca possuiste dez

reis, tu não passavas de um anonymo perdido na massa dos anonymos, dos

obscuros, dos humildes. Chegou uma occasião em que julgaste poder

especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste, sem

criterio, sem fé, sem consciencia, armando á popularidade, muito

disposto a sacrificar os que te escutavam ao teu interesse pessoal...

Erraste no calculo, porque, na hora em que julgavas ter triumphado,

cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de ambição, e tambem

porque te era impossivel retrogradar, visto que não tinhas adquirido

valôr que te desse direito a uma cotação rasoavel no campo adverso,

seguiste ávante, simulando convicção onde só havia má fé.

--Não é tanto assim, meu caro--protestou o João Lazaro frouxamente.

--Que diabo! sabes que te conheço e porisso de nada te vale o fingimento

para comigo... Tu és um especulador politico, como o teu amigo Eugenio

de Mello é um especulador amorôso... Vives dos _kalenderes do ideal_

como elle vive das infelizes sonhadoras do amôr. As tuas fontes de

receita são tão occultas e tão inconfessaveis como as d'elle.

--Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!

--Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não admitto que os amigos,

porque o são, vão julgando que me illudem e que não os conheço

cabalmente.

--Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado na tua amizade

para não ser sincero comtigo. Mas que demonio queres tu que eu faça

n'estas circumstancias? Eu bem sei que foi um mau passo o que dei

misturando-me com esta canalha... Mas agora que remedio tenho senão

proseguir no caminho mau em que me lancei?

--Tambem não é tão mau como dizes. Que poderias tu esperar dentro das

velhas normas? A manga d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com

papel dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais nada,

porque as repartições estão atulhadas de ociosos e mais um importa já um

verdadeiro attentado orçamental. Assim, dás-te ares de martyr, de

principe desthronado, diante dos papalvos que vêem uma aureola de gloria

a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro emprestado para poderes

sustentar o prestigio da causa...

--Oh! mas estão já desmoralisados... São uns verdadeiros biltres!

Imagina tu que, para vir ao Porto onde preciso de me mostrar, porque

quem não apparece esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais

fanaticos para, espremidos e quotisados, poderem dar-me duzentos mil

reis!

--Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que nem tudo sejam rosas no teu

caminho. Mas tu em certo modo tens tido a culpa.

--Eu?

--De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como um principe, o que não

custa a fazer quando se tem ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos

tambem ás vezes ganham juizo...

--Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias em que me encontro, se

deixo de honrar a minha posição, apresentando-me em harmonia com o meu

nome, sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...

--E o que vens tu fazer ao Porto?

--Venho arranjar dinheiro...

--Para quem?

--Para mim.

--E suppões que t'o dêem?

--Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...

--Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?

--Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...

--Bem; anda lá!

João Lazaro levantou-se.

--E tu, sempre o mesmo?

--O mesmo sempre.

--És um homem singular!

--Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade, que é realmente

o livro mais curioso e mais difficil de lêr.

--Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia e com a tua

fortuna podia ir longe, se quizesse, n'este paiz onde só os audaciosos

vencem.

--Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens. Conheço-os tão bem!

João Lazaro consultou o relogio.

--Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?

--Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá todos os dias até á uma

hora da tarde.

--Irei dizer-te adeus.

--Pois sim.

Apertaram-se as mãos e despediram-se.

João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando um olhar de

despreso pelos frequentadores abancados ás mesas.

Já na rua, ia murmurando:

--Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se com a filha de um

capitalista!

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 10 / 28 段