--Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte... Mas acredita que, ás

vezes, Leonor, até chego a pensar que não tenho pae!

O velhaco tinha razão.

Ele não só já o não tinha, como nunca fizera caso d'elle, desde que pôde

abandonar o pequeno cubiculo em que o desgraçado vendia, como adelo,

botas e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto, alli pelas

immediações da travessa dos Fieis de Deus.

Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado na sua onda negra para

o hospital de S. José, onde falleceu, nunca elle a conhecera.

Portanto, esta exclamação: «ás vezes até chego a pensar que não tenho

pae», ficaria verdadeira, horrivelmente verdadeira, se dissesse que

desde criança se habituára a pensar que o não tivera.

No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador Garcia os tresentos

mil reis que o bohemio devia levar, não para o phantasiado amigo, mas

para o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde o miseravel não

só afundava o dinheiro que podia obter á custa de tranquibernias e

abjecções, mas ainda a sua propria saude e robustez de homem válido.

O commendador, capitalista opulento, mandou o dinheiro pedido, não sem

notar de si para comsigo a frequencia com que taes exigencias se

repetiam.

No emtanto, como a sua paixão por Leonor era violenta como um incendio

n'uma casa velha, ainda d'esta vez não se atreveu a fazer a menor

objecção.

Foi com extremo contentamento que Leonor passou para as mãos do seu

_anjo mau_ o dinheiro extorquido á imbecilidade senil do commendador.

--Aqui tens--disse ella--paga a esse canalha, a esse falso amigo, e

lembra-te que no mundo ninguem te ama tanto como a tua amiguinha!

--Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida, que ninguem no mundo adora

tão ardentemente os teus encantos como eu!--replicou o bohemio, radiante

de contentamento, guardando na algibeira a generosa dadiva da amante.

Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar aquella quantia ao seu

destino.

Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio do Belchior.

--Olhe lá--disse elle--esta noite posso dispôr de mim, ou teremos nova

estopada?

--Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio. Elle lá ficou encarregado

de tecer os pausinhos...

--O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas não tem duvida que, se me

entra para a _loja_, eu saberei applicar-lhe a espora e obrigal-a a

tomar andadura regular.

--Isso, depois, é lá comsigo e com ella--respondeu rindo o

procurador.--Mas eu sempre lhe darei de conselho que a leve por bem,

emquanto o Custodio não esticar o pernil...

--Isso é dos livros! Mas sabe você que já me vae enfadando tanta

difficuldade?

--Meu amigo, não se agarram trutas a bragas enxutas... N'estas coisas, é

preciso muita paciencia, porque de outro modo não se faz nada.

--Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos convidar alguns amigos para

uma ceia?

--Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem é que o ha de impedir?

--Quem me impediu hontem. Você é sempre o meu _desmancha prazeres_,

amigo Belchior!

--Para seu bem.

--E para seu...

--Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito mais para você do que para

mim.

O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu e appareceu o Custodio

de Jesus.

--E então?--interrogaram os dois.

--Então, sabem o que ella me disse?

--O que foi?

--Adivinhem!

--Não somos bruxos!--replicou o procurador--Falle para ahi, com

seiscentos diabos! Sim ou não?

--Pois bem--não!

--Hein?!--fizeram os dois espantados.

--É verdade! Disse-me agora muito terminantemente que não.

--E você não voltou á historia do tiro na cabeça?--observou o

procurador.

--Espere ahi, que o mais bonito está por dizer. A pequena não só me

declarou abertamente que não queria casar com o sr. Eugenio, mas fez

mais. Pediu-me que visse eu quanto me era preciso para solver as minhas

dividas e que lhe apresentasse uma nota dos credores, porque ella se

encarregaria de resolver a questão de modo satisfatorio e que nos

puzesse a coberto da miseria que eu tanto temia...

--E você o que respondeu a isso?--perguntou o Belchior.

--O que havia de eu responder? Fiquei entalado com esta sahida... Sim,

porque você bem vê que, depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia

dizer que ia dar um tiro na cabeça...

--Mas o que pensa então fazer?--interrogou Eugenio.

--Esperar, a ver o que sae d'aqui...

--D'ahi o que sae é ella perceber que você não está arruinado como diz,

e não só recusar-se a casar aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas

ainda pôr-se a _chuchar_ comsigo!--exclamou o Belchior

furioso.--Segue-se que você representou mal a scena e não é por esse

modo que nós conseguiremos nada.

--Espere, homem, espere!--interrompeu o Custodio.--Eu tenho uma ideia.

--Que ideia é?

--Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda á janella fallar ao

tal rapaselho que a namora...

--Você viu?

--Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando desconfiado, e quando eu

desconfio ninguem me faz o ninho atrás da orelha... Não ouvi o que

disseram, mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se passava, e

elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me das difficuldades

financeiras em que me encontro, para evitar que o casamento se faça...

--Isso é lá possivel! O rapaz é pobre, e se prometteu isso, com certesa

temos intrujice no caso, porque elle não póde arranjar cem mil reis,

quanto mais uns poucos de contos.

--Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é apresentar-lhe a nota dos meus

crédores e deixar que elle confesse que não póde fazer nada. Então eu

torno a ameaçar que me mato e ella não terá remedio senão ceder.

--Mas isso então quer-se para breve!--objectou o procurador--Aqui o sr.

Eugenio de Mello tambem não póde estar na contingencia da pequena querer

ou não querer... Porque é pessoa respeitavel e tomaram-n'o muitas

meninas em tão boas ou melhores condições de fortuna do que sua filha...

--Eu é porque devéras a amo!--explicou o bohemio--Sinto-me loucamente

apaixonado pela senhora D. Beatriz e estou disposto a todos os

sacrificios para conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa.

Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse rapaz conseguir offertar

generosamente a quantia que o meu amigo disser carecer para reconstituir

a sua fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?

--O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer todo o homem de juizo:

pego no dinheiro com as mãos ambas, e depois não dou o consentimento

para a pequena casar.

--Ande-me assim, seu Custodio!--bradou o procurador.--Essa é de

mestre... Mas n'esse bolo havemos de ir feitos...

--Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho que não havemos de ter

questões por causa da partilha...

Os tres desataram a rir.

--Vamos a ver o que sae d'aqui!--disse por fim o Belchior.--Tinha graça

se o rapazote nos sahia á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque

d'uma varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!

--Amigo Belchior--expôz o Custodio--parece-me que andei bem em não

apertar o fiado... O melhor que temos a fazer agora é preparar uma

relação dos crédores e apresental-a á rapariga...

--Qual relação de crédores!--protestou o procurador.--Você não tem senão

um credor... Esse credor sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle

que venha entender-se comigo...

--Justamente!--apoiou Eugenio.--E assim ficaremos sabendo os recursos de

que o tal menino dispõe...

--Está dito!--decidiu o Custodio.--É claro que cincoenta contos não se

arranjam como se fossem cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça

fallar em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a apparecer. Então

ficaremos com o campo livre para continuar a representar a scena do tiro

na cabeça, se a pequena teimar em não querer este casamento.

--Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha quantia, passar o pé,

a propria pequena, por despeito e por vingança, será a primeira a dizer

que pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe propõe--opinou o

procurador.

--Fiquemos então n'isto. Você é meu credor, com letras acceites por mim,

e impõe que ou este casamento se faça, ou eu pague no dia do vencimento,

que está para breve--concluiu o Custodio, voltando-se para o Belchior.

--Exactamente--respondeu este.--E mandemos para cá, que eu me

encarregarei de resolver a questão.

O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe um signal para que

sahisse.

O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando que estava

irresistivelmente apaixonado por Beatriz e appellando para a amizade dos

dois, afim do que envidassem os seus esforços em defesa da sua causa.

Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio, abriu a gavêta da

escrivaninha e, tirando de dentro uma certidão do escrivão de fazenda de

Borba; apresentou-lh'a, dizendo:

--Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que a sua filha torce o

nariz!

O Custodio pegou na certidão das contribuições pagas por Eugenio de

Mello á Fazenda Nacional.

--Com os diabos!--disse elle--para pagar tudo isto, perto de dois contos

de reis, é preciso que tenha uma fortuna enorme!

--Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda você está com pannos

quentes com a rapariga! Onde vae ella encontrar um partido como este?

--Pois, amigo Belchior--affirmou o Custodio com resolução--ainda que

saiba de a levar pelos cabellos á egreja, esta fortuna é que eu não

deixo perder.

--Mas é preciso que isto não demore muito tempo a decidir.

--Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá manobrar á vontade e você

verá como a coisa se arranja...

Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador e partiu a arranjar

a conta do seu debito para apresentar á filha.

X

Para os grandes males...

Custodio de Jesus não se enganara quando dissera aos seus dois cumplices

em patifaria que suppunha ter sido Paulo quem inspirara a Beatriz o

pedido da relação das dividas do pae, para pensar na melhor maneira de

as solver.

Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos conselhos de madre

Paula, a quem fizera a confidencia dos seus amores, e pelas palavras de

esperança que ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa mesma

noite fallar com Beatriz.

A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua recusa formal, as

instancias do pae, o arrebatamento de colera com que elle, a principio,

pretendera impôr-se-lhe, e afinal a dolorida confissão em que cahira das

suas desgraças financeiras e do funesto designio em que estava de

recorrer ao suicidio, se o casamento que propunha como unico recurso

salvador fosse de todo em todo repudiado pela filha.

Mais contou a apaixonada creança o expediente de que lançara mão para

retardar o desenlace da tragedia com que o pae a ameaçava, pedindo uma

entrevista com Eugenio de Mello, afim de expôr a este, com lealdade e

franqueza, as circumstancias difficeis da casa de seu pae e os laços de

inquebrantavel affeição que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.

--E o que respondeu esse homem?--interrogou Paulo.

--Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se de cada vez mais

apaixonado e declarou não desistir da sua pretensão, com o fundamento de

que, em face da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu coração lhe

impunha o dever de salvar meu pae da ruina e a mim da pobreza.

--E tu?...

--Despedi-o sem responder, disposta a recusar, mas tambem a pensar no

meio de evitar que meu pae pratique o acto de verdadeiro desespero com

que me ameaçou.

--E se não encontrares esse meio?

--Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei jamais mulher de outro

homem que não sejas tu, meu Paulo!--exclamou Beatriz com firmeza.

O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera alegria ao ouvir estas

palavras.

--Ouve, Beatriz--disse elle.--É possivel que sejamos victimas de uma

d'essas astuciosas ciladas que os paes ambiciosos ás vezes preparam á

ingenua affeição de suas filhas para as compellirem a acceitar um enlace

de que se lhes affigura depender a felicidade d'ellas e d'elles... Mas o

nosso dever é tomar como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos

de remediar do melhor modo os males de que se diz victima. Eu sou pobre,

não tenho fortuna, porque, se a tivera, desde este momento ella

pertenceria inteira a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer

de que mais tarde me solveria essa divida. Por mim nada posso. Mas tenho

amigos valiosos com quem conto e em quem espero encontrar auxilio para

remover as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso

sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a um homem que não

estimas e que não duvido affirmar indigno de ti. Pede, pois, a teu pae

uma nota das suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da

responsabilidade d'ellas.

--Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?--interrogou Beatriz commovida,

quasi adivinhando a nobre intenção de mancebo.

--Penso pedir aos meus amigos que me constituam seu devedor por essa

quantia, que pagarei quando haja concluido a minha carreira e

conquistado a posição a que tenho direito na sociedade. Tu és filha

unica. e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu dote que

asseguro por esta forma. Se eu morrer antes de solver toda a divida, tu,

um dia, quando te encontrares senhora da herança paterna, restituirás

aos meus crédores o que faltar para seu integral reembolso. Assim, não

prejudicaremos ninguem e teremos salvado a vida de teu pae.

--Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre coração! Como tu és digno

do santo amor que te dedico!--exclamou a donzella.

Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu pae o estranho pedido de

uma nota dos credôres, declarando ao mesmo tempo que recusava

terminantemente o enlace com Eugenio de Mello.

O antigo marido de D. Carlota podia perguntar, com a sua auctoridade de

pae tyranno, como é que uma menina de dezenove annos ousava pensar em

remediar desastres financeiros que elle, velho agiota, encanecido na

usura, não podia sanar; e dando-se por offendido e desrespeitado nos

seus brios de progenitor, por um momento esteve para exigir que a filha,

em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas de todos

os seus actos.

Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo ganhára em manha o

que perdera em dinheiro e não em honra--porque essa nunca elle a

tivera--achou prudente e de bom aviso levar a farça até ao fim,

apparentando uma inteira e absoluta submissão á vontade da filha.

O secreto plano que formára, já nós lh'o ouvimos no escriptorio do

procurador em conversa com este e com Eugenio de Mello: apanhar o

dinheiro, se Paulo o arranjasse, e negar o consentimento para o

casamento dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado com a

grandeza do sacrificio que era preciso para obter a mão de Beatriz,

desapparecesse sem dar novas suas, o que resolveria a teimosa menina a

acceitar a mão de Eugenio sem repugnancia.

Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e phantasiou uma conta

corrente com o procurador Belchior, em que este apparecia com um saldo a

favor de cincoenta contos, representado por letras acceites em poder do

crédor e com vencimento em curto praso.

Eram estas letras que o Custodio declarava não poder pagar, se o

casamento com Eugenio não se realisasse, devendo seguir-se o protesto e

a execução em poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio e

deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria a reforma,

exigindo immediato embolso.

Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao quarto de Beatriz e,

apresentando-lhe o papel, disse:

--Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento da nossa desgraça! Por

elle verás que estamos perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio

unico da nossa salvação!

--Não fallemos n'isso, meu pae!--retorquiu mansamente Beatriz--Vamos a

vêr se por outro meio mais em harmonia com a dignidade de ambos,

conseguimos fazer face á adversidade que nos persegue.

--Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes--observou o snr.

Custodio--Supponho que não póde haver nada mais digno do que o casamento

com esse rapaz, que é rico, que é de bôa familia e que te ama

loucamente...

--Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a indignidade, se eu

consentisse em me vender a elle por dinheiro...

--Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher recebida á face da

egreja e ficarias senhora de metade do que é d'elle.

--Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe pertence, reputaria uma

venda ignobil o acto de me unir a elle, desde que o meu coração o

repudia...

--O coração!--fez o sr. Custodio com um desdenhoso encolher de

hombros--O coração, minha filha, está sempre bem, desde que o estomago

não está mal...

--Essas theorias não se comprehendem na minha idade, meu pae...

--Comprehende-as toda a gente, em todas as idades, Beatriz... Só não as

comprehendes tu, porque até agora, graças a Deus, não tens sentido falta

de nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas quando a

miseria chegar e tu vires fugir de ti todos quantos agora te fazem muita

festa, então comprehenderás que teu pae tem rasão no que diz.

O usurario, com refalsada velhacaria e crente em que Paulo sentiria

gelarem-se-lhe os ardentes impulsos do seu coração amoroso ante a

horrivel perspectiva d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o

espirito da filha para acceitar no fim o casamento com Eugenio, como

unico recurso que se lhe offerecia.

Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o, depois de lhe

relancear a vista.

--Eu verei isto--disse ella--e póde ser que Deus me inspire alguma ideia

salvadora que nos livre de apuros, sem ser necessario recorrer ao sr.

Eugenio de Mello.

--Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...

E depois de um curto instante de silencio:

--Emfim, pensa e repara que não é brincadeira... São cincoenta contos.

Ha muito que isto teria dado um estoiro, se não fosse o Belchior,

coitado, que, ainda assim, tem sido meu amigo... Agora é que está lá

embirrado com a historia do casamento e já me disse que, se tu não

acceitares, escuso eu de contar com elle para mais nada... Aquellas

malditas letras de ouro do Banco de Credito Real do Brazil

arrazaram-me!--suspirou por fim.

--E foi só o pae que teve prejuizos com ellas?--perguntou Beatriz.

--Não. Ficaram muitas familias redusidas á miseria... Mas cada qual

sente o seu mal...

--E Deus o de todos.

--Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas quando Elle offerece o

remedio á creatura e ella o não acceita, tambem se offende e não sente

nada...

--Será o que Deus quizer.

O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se e fazia visiveis

esforços para respeitosamente disfarçar o seu enfado.

Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde e dependente da

vontade de Beatriz, retirou-se, dizendo:

--Só te peço, minha filha, que não me sujeites á vergonha de me pôrem

fóra d'esta casa por justiça. Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá

da vida... O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes de soffrer

um tal desgosto...

--Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de fazer pelo melhor...

N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo aos seus aposentos,

conservou-se á espreita, para vêr se a filha fallava da janella com

Paulo.

Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi pela meia noite, deu

conta de que Beatriz descia ao rez-do-chão para ir fallar através da

janella gradeada com o mancebo.

--Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar para longe de

ti!...--resmoneou escarninho o velho, esfregando as mãos de

contente.--Cincoenta contos era o bastante para fazer fugir o homem mais

rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não tem cincoenta vintens.

E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da filha, enfiou-se na cama.

D'ahi a pouco, ressonava.

Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e dizia-lhe:

--Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má escolha que fizeste do

homem que ha-de ser teu sogro.

--Então?--interrogou o mancebo.

--Segundo as informações que acabo de obter, o pae da tua Beatriz é um

usurario, um agiota insaciavel, com instinctos de chacal, incapaz de

deixar sahir com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras

implacaveis.

Paulo encarou o amigo:

--Tens bem a certeza d'isso?--perguntou.

--Se tenho a certeza! Não me resta a menor duvida. Esse homem empresta a

vinte e a trinta por cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga

das unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com dois, e é assim

que tem conseguido amontoar uma fortuna que se calcula superior a cem

contos de reis.

--Como é então que elle diz dever cincoenta contos ao procurador

Belchior e que está perdido porque não lh'os póde pagar?

--Esse procurador Belchior--disse Jorge--é tambem um refinado patife.

Não trata senão de causas escuras e ha em toda a sua vida uma longa

série de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que o Custodio

de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se esse Custodio fosse homem para

se deixar roubar por alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio

entendem-se. Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre

humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se, pois, que os dois estão

combinados para roubarem um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a

quem pretendem casar com a tua namorada.

--E elle quem é?

--Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda esclarecimentos exactos

sobre esse figurão, mas hei-de obtel-os breve. Por emquanto, o que se

sabe é que é um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto pelas

suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o rico e é de crêr que o

seja pelo interesse que o Custodio tem em querer casar com elle a filha.

--De maneira que--observou Paulo--essa divida dos cincoenta contos...

--Não é mais que uma phantasia para justificar a insistencia em que o

casamento se faça e compellir Beatriz a acceitar o noivo que se lhe

offerece.

--Eu já tinha suspeitado isso mesmo!--redarguiu Paulo indignado--Mas o

que precisamos agora é provas d'essa infamia.

--Descança que hão-de apparecer. Por agora, o que quiz foi dar-te a

certeza de que o pae da tua amada não se matará por falta do dinheiro

d'elle--que esse está bem garantido. O que póde é matar-se por não poder

apanhar todo o dinheiro dos outros. Previne, pois, a pequena de que póde

recusar a mão do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não

pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto emquanto n'elle

houver quem tome dinheiro a trinta por cento, com hypotheca...

--Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não transige com a decisão da

filha. Tendo-lhe falhado o plano que imaginou, ha-de buscar outro...

--E nós cá estamos!

--Pois sim, estamos... Mas não impediremos que elle empregue a

violencia, visto que os meios suasorios lhe não deram resultado...

Jorge poz-se a rir.

--Desde que a _Mão-Negra_ protege Beatriz, o pae, o pretendido noivo e o

procurador não teem senão que tremer pelas consequencias do seu

procedimento, se não fôr correcto.

Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz todas as informações

obtidas por Jorge ácerca das verdadeiras condições de fortuna em que se

encontrava o sr. Custodio de Jesus.

--Teu pae não deve coisa algum ao procurador Belchior--disse-lhe o

mancebo--Essa divida, com que elle finge affligir-se tanto, não passa de

um pretexto para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...

--Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?--perguntou Beatriz admirada.

--Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior a cem contos de

reis, solidamente garantidos por boas hypothecas. Não tenhas, pois,

receio de que se mate apavorado com a ideia da miseria.

--Mas se isso é assim, como é então que o procurador Belchior exerce

sobre meu pae um tal ascendente?

--São alliados. Quem apresentou em vossa casa Eugenio de Mello?

--Foi o Belchior.

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 9 / 28 段