demora...
--Mestre--respondeu o outro--teria vindo mais cêdo, se um caso novo, de
que urge tratar, me não tivesse tomado o tempo.
--Um caso novo! O que temos, pois?
--Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante de que se pretende
fazer victima um dos irmãos da _Mão-Negra_.
--A _Mão Negra_ tem já força e poder bastante para desviar de sobre a
cabeça de seus _irmãos_ a iniquidade e a injustiça dos homens, por muito
alto que elles estejam collocados. De que se trata?
--Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo de Noronha...
--Ah! O que lhe succede?
--Este rapaz ama uma mulher, que corresponde ardentemente ao seu amor. O
pae d'ella, porém, rico capitalista, pretende violental-a a casar com um
herdeiro rico, que ella não deseja nem estima.
--E sabe elle dos amores da filha com Paulo?
--Não o deve saber, pois que este nosso _irmão_, movido de honestos e
nobres intuitos, não se julga auctorisado a tornar ostensivos os
sentimentos amorosos do seu coração, emquanto não houver conquistado uma
posição social que lhe permitta pedir a mão da mulher que ama.
--O que deseja elle então? Que lhe conquistemos a posição de que
precisa?
--De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço proprio. Simplesmente
o que desejaria era que a mulher que ama e em que faz consistir toda a
sua ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.
--Está na mão d'ella. Que recuse.
--Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da pobre menina, e é isso o
que Paulo pretende evitar.
--Pois bem. A _Mão-Negra_ cumprirá o seu dever. Como se chama o pae
d'essa menina?
--Custodio de Jesus?
--E o pretendido noivo?
--Eugenio de Mello.
--Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam esses dois homens;
conhecer-lhes a biographia, saber porque serie de circumstancias vieram
a encontrar-se e a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.
--Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre, não ordenaes o
contrario, eu mesmo me encarregarei do todos esses trabalhos.
--Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes. Conheceis todos
os _irmãos_ que podem prestar-nos auxilio. Recorrei a elles, e colhidas
as informações, procederemos como fôr de justiça.
Jorge inclinou-se.
--Temos ainda mais--disse elle.
--O quê?
--Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo o segredo do seu
nascimento...
--Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram o sêr o repudiaram,
que tem o filho que vêr com os paes que o não quizeram ser?
--Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e portanto o grande tormento do
pobre rapaz... Paulo não pode dizer-se um _abandonado_... A sua infancia
correu sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um padre e uma
freira, e ainda agora são elles os que occorrem, como sempre, a todas as
despezas da sua educação scientifica.
--Conhece elle esses protectores?
--Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição filial!
--N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que pódem ser elles os seus
proprios paes?
--Não são, porque madre Paula foi sua madrinha e o padre Filippe não usa
o appellido Noronha...
--Madre Paula e padre Filippe, dizeis?--interrogou o homem dos oculos
verdes com um leve tremôr na voz.
--Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo de Noronha.
O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento de _Mestre_, cruzou os
braços, inclinou a cabeça sobre o peito e ficou por algum tempo immerso
em profunda reflexão.
Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre Filippe lhe tinham
despertado tristes recordações, porque, ao levantar a cabeça e
reprimindo a custo um fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o
tremor da voz:
--Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente indagar a verdadeira
origem d'esse rapaz.
Depois accrescentou:
--Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida do homem, que ás vezes
mais vale não querer desvendal-os nunca... Ide, e deixae-me só, meu
amigo.
Jorge levantou-se.
--Amanhã--disse elle--deve reunir o capitulo e lá nos encontraremos á
hora do costume. É possivel mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido
obter os esclarecimentos que desejamos ácerca de Custodio de Jesus e de
Eugenio de Mello.
--Se assim acontecer--replicou o homem dos oculos verdes--poderemos
deliberar em capitulo o que convirá fazer.
Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas precauções com que havia entrado
para não calcar com os pés os livros dispersos pelo sobrado.
Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos sobre a mesa,
encostou a fronte ás mãos e ficou assim por largo tempo, engolfado em
profundo scismar.
--Madre Paula e padre Filippe!--disse elle por fim.--Porque
extraordinario acaso se encontram estes dois nomes ligados á existencia
d'esse adolescente que usa o mesmo appellido da _Irmã Dorothêa_?
Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em um papel que dobrou por
fim cuidadosamente, lacrando-o em seguida.
Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um grosso volume
encadernado a preto, que abriu e começou folheando.
As paginas d'este livro estavam todas em branco. No emtanto, o
mysterioso personagem ia volvendo-as com um sorriso amargo a vincar-lhe
os labios, como se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um
pensamento negro.
Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada nas folhas, punha
uma especie de signal, o novo personagem, fez saltar a mola de um
tinteiro em fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou
n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente. Ao passo, porém,
que a penna ia traçando as palavras, estas iam-se apagando rapidamente;
retomando o papel a sua brancura immaculada.
É que o homem dos oculos verdes escrevia com tinta sympathica.
Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle papel que os
guardava discreto, como um vasto mar guarda no fundo os coraes e as
perolas, as algas e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina
superficie das suas aguas denuncie a existencia dos thesouros que elle
occulta no seio?
IX
Amores faceis
Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia, seguiu pela rua de
Cedofeita, subiu á rua dos Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando
o Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.
O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada quando o bohemio
parou em frente de uma casa de um unico andar, construcção moderna, em
que se notava decencia e bom gosto.
Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a na fechadura, abriu a
porta e entrou. Subiu os quatro degraus de pedra que davam accesso ao
corredor, sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse dever
chamar a attenção do dono ou dona da casa.
Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque a meio do corredor
abriu-se uma porta e appareceu no limiar uma gentil figura de mulher,
trazendo na mão um castiçal de prata em que ardia uma vela.
--És tu, Eugenio?
--Sou eu, minha querida!
O bohemio aproximou-se da formosa dama que assim lhe fallava,
acariciou-lhe amorosamente os longos cabellos louros, esparsos sobre o
fino roupão de velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a
longamente nos labios.
--Demorei-me, não é verdade?--perguntou elle, lançando-lhe um braço á
roda da cintura e conduzindo-a para o interior da saleta d'onde ella
havia surgido.
--Principiava a desesperar-me... Imaginei que já não virias e pensava na
maneira de te castigar bem castigado pelo teu abandono!
--Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao teu Eugenio, que tanto te
quer, que tanto te adora?!
--Que queres! O ciume começava a atormentar-me! Lembrava-me que estavas
talvez nos braços de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz
quando te vê, quando te tem a seu lado!
A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor, pousou o castiçal sobre
um velador de pau ébano que ficava ao lado do marmore do fogão, e
lançando os braços ao redor do pescoço do mancebo, sorveu-lhe nos
labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo, mais lento e
voluptuoso que o primeiro.
--Mas tu não estiveste com outra, não?--disse n'um gemido em que havia
receio e esperança, supplica e perdão.
--Que ideia! Estive com uns amigos, de quem não pude ver-me livre...
--É que eu amo-te tanto que, quando não te vejo, penso sempre que te
perco, que não voltas mais ao pé de mim, que me esqueces, que foges com
outra para nunca mais!
Eugenio ria.
--Descança, meu amor... Quem é que me ha de querer? Não vês que eu sou
tão infeliz, tão desgraçado, que não tenho ninguem no mundo que devéras
me estime senão tu?
--E tambem de ninguem mais precisas!--disse com vehemencia a dama
loura.--Não estou eu aqui para te rodear de carinhos, de ternura, de
affectos que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas as
necessidades do teu coração, todas as ambições da tua existencia? Não
faço eu por adivinhar os teus pensamentos, por satisfazer os teus
desejos, as tuas mais caprichosas phantasias? De quem mais precisas para
ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho d'amor?!
--Decerto, decerto, minha querida amiga!--fez Eugenio, suspirando.--Eu
seria feliz, muito feliz comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...
E interrompeu-se suspirando.
--Se quê? Anda, acaba!
--Se fosses minha sómente... se eu fosse rico bastante para não
consentir que outro partilhasse os teus affectos...
--Mas eu não o amo!--protestou a dama loura.--Bem sabes que o não amo,
Eugenio! Recebo-o com desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle
me vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que elle me dá do seu
amor, cada manifestação da sua ternura, mais accrescenta o meu tedio e o
meu despreso por elle!
--Ah! se eu fôsse rico--tornou a suspirar o bohemio--com que prazer eu o
correria a pontapés d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu
quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes, reduzindo tudo a
cacos, tudo a farrapos, para só salvar de todo este montão de ruinas,
puro e intacto, o adorado coração da minha pobre Leonor!
Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos pelos cabellos, n'uma
attitude de heroe de melodrama.
Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos alvas e pequeninas,
em cujos dedos lusiam brilhantes, supplicando:
--Então! Vá! Não sejas louco!... Isto ha de acabar um dia... Bem sabes
que elle é velho... não póde durar muito... E como promette
contemplar-me no testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...
--Dias muito felizes!--repetiu o bohemio com desanimo, deixando-se cahir
de novo sobre o estofo do sofá.--Antes d'isso hei-de eu morrer de
desespero!
--Morrer!--exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos beijos.--Não me
falles em morrer, se és meu amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e
receias que um velho dure mais que tu?!
--Não! eu não temo que a morte me colha antes do tempo... Mas tenho um
vago presentimento de que serei eu que hei-de ir ao encontro da morte...
Ás vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade possivel
n'este mundo só existe na paz da sepultura!
--Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro, aposto!
--O não ter dinheiro é o menos... Desde que rompi com a minha familia,
que quiz por força tolher o meu destino, anniquilar o meu futuro,
habituei-me ás privações inevitaveis que resultam de uma mezada, que
minha mãe me manda ás escondidas de meu pae... Mas o peor não é isso...
o peor são as decepções, os desenganos que todos os dias um homem nas
minhas circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem e que
nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.
--Mas o que foi? Conta-m'o, filho!--supplicou Leonor com interesse.
--Para que hei-de eu affligir-te com coisas que não pódes remediar?
Fallêmos antes de ti, do nosso amor, tão puro e tão ardente que, se não
fôra elle, já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!
--Não, não! quero saber... Anda, falla!--insistiu ella amorosamente.
Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a cabeça com um fundo
suspiro e principiou contando, em tom de confidencia:
--Quando eu vivia ainda em casa de meus paes e dispunha de todo o
dinheiro que me era preciso para satisfazer todos os meus caprichos,
todas as minhas loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e
todas as horas me protestavam uma eterna dedicação, uma amizade sem
limites... Oh! como eu os tenho conhecido agora, na adversidade, esses
falsos e indignos amigos, esses canalhas, esses biltres, esses
miseraveis!
O bohemio interrompeu-se para verberar indignado com estas apostrophes
violentas uns amigos que nunca teve.
--Vamos! Não te afflijas!--aquietou em voz dôce a carinhosa e ingenua
Leonor.
--Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em valer a um pobre rapaz,
nosso novo companheiro de rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil
reis, que o infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia como
empregado, achando-se na dura contingencia de entrar para a cadeia, se
não apresentasse esta quantia. O pobre moço apaixonara-se por uma actriz
e, arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia. Veio ter
commigo afflicto, contando-me a sua desgraça e pedindo-me que lhe
valesse. N'essa occasião, infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro,
porque tinha perdido em uma só noite perto de um conto de réis. Mas como
a todo o custo queria salvar a reputação e o futuro do pobre rapaz,
lembrei-me de escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que
abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.
--Generoso coração!--exclamou a loura, envolvendo-o n'um olhar
ternissimo, em que havia um mixto de sensualidade e de respeitosa
veneração.
O bohemio continuou:
--Valeu-se ao rapaz, que continuou desempenhando o seu logar, sem que
nunca ninguem, suspeitasse a sua falta, até que um dia, poucos mezes
depois, foi colhido pela febre typhoide e morreu... Tive muita pena
d'elle!
--Coitado! Esse rapaz era infeliz,--commentou ingenuamente a loura, mais
por comprazer ao amante do que por se sentir movida á compaixão.
--Era! Era muito infeliz!--suspirou o bohemio.--Como elle morreu, é
claro que não pode pagar...
--Não deixou nada?
--Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois, meu pae queria
obrigar-me ao casamento com uma minha prima de que te fallei e que eu
detestava e detesto! Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me sahir de
casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli era o _menino bonito_ da
familia, fiquei de repente reduzido a uma magra mezada que minha pobre
mãe me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de cada vez mais
enfurecido contra mim, teima em não me dar um real...
--Cruel pae!
--Retirei então para o Porto, para esta terra onde ninguem sabe quem
sou, para não dar ás pessoas que me conheciam o desagradavel e triste
espectaculo da minha decadencia, da minha, triste e apertada situação...
--Era o destino que te chamava e te impellia para mim, meu amor!
--Pois sim... era! Mas por essa ventura que a sorte me deparou, quantas
amarguras, quantos dissabores, quantos crueis desenganos! Este amigo de
quem te fallo, este indigno, que é rico, que está altamente collocado, e
que sabe a difficil situação em que me encontro, tem-me escripto mais
que uma vez a pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle sabe
que eu não utilisei, que não foram para mim e que não posso pagar n'esta
occasião! Escrevi-lhe a expôr-lhe a minha má situação e a pedir-lhe que
não me apertasse por uma divida que, por emquanto, me é impossivel
solver. Pois este miseravel, este infame ameaça-me com os jornaes, se eu
não lhe mandar na volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o
canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me, cobrindo-me de
opprobrio e de vergonha aos olhos de todo o mundo, sem ter em
consideração que eu um dia hei de ser rico e que basta que de hoje para
amanhã morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e que me deixa
tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe de contos de reis a
guela ignobil!
Dito isto com o calor e a convicção que põem nas mentirosas phantasias
todos os intrujões que fazem officio de o ser, o bohemio tornou a
levantar-se de repellão, passeando agitadamente pela sala.
--E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um homem perdido! Sou um
homem perdido, porque vou ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e
depois acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!
--Eugenio! meu Eugenio!--exclamou afflicta a loura Leonor--não penses em
fazer tolices...
--Como queres tu, meu anjo, que eu continue a viver depois de ter
soffrido este horroroso ultraje? Homem honrado, antes morto do que
injuriado! E eu não posso... não posso com esta ideia de me vêr
offendido por um homem que se dizia meu amigo! Ah! eu só queria ter os
trezentos mil reis para lhe atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi
tens, miseravel! Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza, do que
tu, infame, em todo o teu fastigio de homem rico!»
--E assim lhe dirás, meu amigo!--exclamou fremente de indignação a
apaixonada loura.--Não será por trezentos mil reis que esse canalha,
quem quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio... Os trezentos
mil reis tel-os-has amanhã.
--Oh! mas eu não posso acceitar...--recusou o bohemio, em cujos olhos
fulgiu um raio de alegria.--Tens feito tantos sacrificios por mim...
Devo-te já tantas provas de ternura e carinhosa dedicação, que não devo
consentir em que te sacrifiques mais...
--Cala-te, não sejas creança!--interrompeu Leonor, pondo-lhe a pequenina
mão na bocca para o impedir de continuar.--O meu maior prazer, a minha
maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para te ver contente e
feliz!
--Como és boa e como eu te adoro!--exclamou Eugenio, cingindo-a
ardentemente nos braços com amoroso impulso.
Não devemos nem é justo deixar mais tempo o leitor sem a explicação que
esta scena extraordinaria requer.
Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia d'estes abjectos e
sujos amores.
Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural, que um velho
commendador--o sr. commendador Garcia--encontrára um bello dia á sahida
da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos afilados e bonitos,
a preço de tres tostões por dia.
O commendador Garcia, picado tambem pela belleza provocante da rapariga,
começou a sentir-se apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu
envolvel-a em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e brilhantes, se
ella lhe cedesse a elle, commendador, os graciosos encantos da sua
mocidade e da sua gentileza em vez de os desperdiçar no provavel
matrimonio com algum pobre operario faminto e honrado.
Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre experimentada em
varios lances d'esta natureza e ao cabo de poucos dias, sentindo-se
abalada nos seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro do
generoso commendador.
Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante do Palacio de Crystal
com o rico esplendor dos seus vestidos caros e com a phenomenal belleza
da sua figura gentilissima.
O commendador deu-lhe mestra de francez e professora de piano, que
passaram um tenue verniz de educação por sobre aquella rudeza nativa do
berço humilde da linda Leonor; e então era vêl-a, esquecida da sua pobre
origem, affectar modos de duqueza, desdenhosa e altiva, quando passava
nas ruas, fazendo gala do seu impudôr.
Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito tempo Leonor o appetecido
pomo, tanto mais cubiçado quanto era difficil colhel-o, tal era a altura
em que o commendador bizarro e dadivoso a collocára.
Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado por uma sorte rara á
roleta, que em tres dias successivos o favorecera com quatro contos de
reis em uma das nossas praias mais concorridas.
O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém, naturalmente fino e
intelligente, educara-se na convivencia dos rapazes estroinas da capital
e d'elles copiára as maneiras elegantes, a linguagem culta e até--oh
supremo instincto de imitação!--o apparente despreso pelo dinheiro que
os outros desperdiçavam ás mãos cheias, porque eram ricos e que elle
raras vezes possuia, porque era pobre.
Com taes predicados e n'uma sociedade para a qual as apparencias são
tudo, e que abre sem escrupulos os braços e as portas ao primeiro
adventicio que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer de que
maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não podia deixar de ser, logo
recebido como uma das primaciaes figuras da elegancia portuense.
Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres, habituado, além
d'isso, a explorar o vicio dourado da capital, comprehendeu desde logo
que estava alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia
facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a conquista. Ora como
as mulheres do mau sempre escolhem o peor, Leonor, que rejeitara
desdenhosa as homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os
rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não podia senão
diminuir-lh'os.
Começou então entre os dois um doce idylio, em que para Leonor havia
apenas o travo do commendador Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez
horas e a impedir-lhe a expansão franca do seu coração amoroso.
Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro do Alemtejo,
futuro senhor de porcos e cortiça que chegariam para pagar a divida
externa, mas, por desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae
protervo e sem coração, que o condemnara á pobreza por elle não querer
sacrificar o seu coração de rapaz brioso á cortiça e aos porcos de uma
prima com quem pretendiam casal-o.
Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o coração rebelde de um moço
que tão impavidamente resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma
prima detestada, puzera á disposição do amante numero dois, o seu
coração virgem de affectos e todo o dinheiro que lhe sobrava das
despezas a que occorria o amante numero um.
Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a hora da entrada: á noite,
depois das dez. De dia, a toda a hora.
Eugenio, porém, hospedara-se no _Hotel Francfort_ como convinha e era
prudente, para que estas relações, que deviam conservar-se clandestinas,
não chegassem a escandalisar o commendador Garcia.
Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia seguinte lhe facultaria
os tresentos mil reis para atirar com elles á face estanhada do amigo
indigno, o bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem restricções e sem
sombra de melancholia á mais carinhosa e enthusiaetica adoração que um
coração de mulher louca e linda jamais recebeu do seu amante.
--Sabes?--disse-lhe elle.--De ti recebo estas provas de affecto e
orgulho-me dos sacrificios que fazes por minha causa, porque te amo,
porque o meu coração todo te pertence e, assim, vejo que entre nós não
ha meu nem teu, tudo é commum, tudo é igualmente compartilhado pelos
dois. E de minha prima... vê tu lá!--ainda que viesse de rastos
lançar-se a meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a salvação da minha
vida, a salvação da minha alma, eu repellil-a-hia, morreria, iria para o
inferno, mas não acceitava d'ella um real que fosse!
--É porque não a amas...
--É porque te amo, Leonor! É porque só tu n'este mundo tiveste poder
para quebrantar o meu orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um
dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as mãos!
--Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo! Só queria ser bem rica
para te fazer o mais rico dos homens! Nenhum havia de fazer melhor
figura que tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!
--Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu, então, Leonor, o que tu hoje
desejas fazer-me, é justamente o que eu te hei de fazer a ti! Hei de
pegar n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei de
trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa, que é outra terra, e
então verás o que é vida, o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á
Italia, a Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois noivos que
se amam, que se adoram e que fazem a inveja do mundo inteiro! Queres?
--Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver contigo sósinha, sem
estorvos, sem impecilhos, ainda que fosse num canto bem retirado do
mundo, numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!
--Amor e uma cabana!--disse rindo maliciosamente o velhaco, beijando-a
com enthusiasmo.--Graças a Deus, havemos de ter melhor do que isso...
E suspirando com tristeza:
--Para isso bastava só que morresse meu pae!
--Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua loura.