--O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,--respondeu friamente

Beatriz--é por tal modo grave e serio, requer tanto socego e reflexão

que, aqui, n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre pessoas

que fallam, tocam e cantam, mais poderia v. ex.^a dar-lhe peso e eu

exprimir-me como desejo. Se lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe

que venha ámanhã de dia, e então fallaremos. Já expressei a meu pae a

necessidade que tinha de me entender com v. ex.^a sobre o assumpto em

questão, e portanto a sua vinda a esta casa está perfeitamente

auctorisada por elle.

--Virei então ámanhã--disse Eugenio.--Mas, por Deus, não me roube a

esperança de vir a chamar-lhe minha esposa, de vir a ser o seu escravo

sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.

Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.

--Amanhã!--disse ella.

Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos de Belchior e

Custodio, que ambos, fingindo prestar grande attenção ás filhas da D.

Thereza, não perdiam de vista Eugenio e Beatriz.

Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general deram o signal da

retirada.

A mulher e a cunhada do procurador despediram-se tambem.

Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio, perguntou:

--E então?

--Então... nada!

--Pois você não lhe fallou em amor, não lhe disse que morria de paixão

por ella?

--Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade, eu não vim cá para

outra coisa. Mas achei-a muito fria, muito reservada... Teima que me

quer fallar amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito graves a

dizer-me...

--Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que você lhe cante a sós as

lindas cantigas da sua paixão por ella e lhe jure mil vezes que a ha de

amar até á morte...

--Isso não são as coisas sérias e graves que ella tem para me dizer...

Se me chama, não é para que eu lhe falle, é para ella me fallar a mim...

Que quererá dizer-me?

--Naturalmente que tem um namoro que a ama apaixonadamente e que, assim

que souber que ella está para casar com outro, é capaz de se ir deitar

da ponte abaixo--disse rindo o procurador.

--Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe e saberemos o que ella

quer...

--Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe apanhar a cortiça toda da

sua quinta--porque julga que o pae está pobre e que não póde continuar a

dar-lhe vestidos de seda... As mulheres são todas assim, meu amigo!

--Não parece que seja isso--volveu Eugenio--Pelo contrario, supponho

outra coisa...

--O que?

--Que a pequena cahiu em alguma falta grave e quer francamente

confessar-m'a antes de casar...

--Pois você suppõe?...

--Não sei... Mulheres são mulheres...

--Mas você, ainda que isso seja, não faz caso!...--preveniu o

procurador, receioso d'escrupulos por parte do seu cumplice.

--Bem me importa cá a mim! Perdôo... faço de generoso... O que se quer

cá são os vinte contos...

--E que o Custodio morra breve para vir a _maquia_

completa!--accrescentou o Belchior.

--Nem mais nem menos!

Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se em casa do

Custodio.

O usurario, informado do que se passava, simulou uma sahida a tratar de

negocios, afim de facilitar a entrevista dos dois.

Beatriz, pallida de commoção, saiu á sala de visitas a receber o

mancebo.

--Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello--disse ella gravemente,

indicando-lhe uma cadeira--Pedi-lhe a fineza de me escutar a sós por

alguns instantes, pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido de

mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro que saberá

guardar absoluto sigilo sobre o que me ouvir...

--Oh, minha senhora!--exclamou o mancebo--Amo-a tanto que, mesmo sem

essa prevenção, guardaria avidamente no fundo da minha alma todas as

suas palavras como um inestimavel thesouro!

--E devem realmente valer para v. ex.^a um thesouro pela franqueza e

lealdade que revestem. V. ex.^a, segundo creio, manifestou a meu pae o

desejo de me tomar para sua esposa...

--De novo peço perdão, se assim procedi, mas julguei que ninguem melhor

do que elle podia ser interprete dos meus sentimentos junto de v.

ex.^a... Nos tempos que vão correndo é tão frequente vêr-se um seductor

abusar da hospitalidade de um homem de bem para lhe ludibriar uma filha,

que eu julguei um dever de honra, antes de tudo, patentear a quem tão

generosamente me acolhia as nobres e puras intenções do meu coração

apaixonado! Se errei, v. ex.^a saberá perdoar-me o inconsiderando passo

com que pude contrarial-a, em attenção aos honestos sentimentos que me

moveram.

--É v. ex.^a um homem de bem e por isso mesmo ha-de saber comprehender e

avaliar os justos melindres que me forçaram a uma explicação clara,

franca e leal da minha situação...

--Dos labios de v. ex.^a está dependente a minha sorte, o meu futuro, a

minha vida. Peço-lhe que falle como á pessoa que mais a ama e que mais

ardentemente deseja merecer-lhe inteira confiança!

--Pois bem; em primeiro logar, o meu coração já não está livre--disse

Beatriz--Amo e sou amada com o sincero e vehemente amôr de duas almas

irmãs que desejam unir-se no mesmo destino...

Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito bem fingida commoção.

--Beatriz!--disse elle arrebatadamente tentando apoderar-se das mãos da

joven--não posso crêr que haja no mundo quem a ame, quem a adore com o

santo e fervoroso culto que o meu coração lhe tributa! É possivel que

haja, e creio bem que haverá, quem renda o merecido preito á sua

belleza, ás suas virtudes, á nobre e graciosa distincção de sua gentil

figura. Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como este que me agita

o peito, que me rouba o socego e a tranquillidade e me faz sonhar

constantemente na ventura de a possuir, de a ter por esposa, de lhe

dedicar todas as horas da minha vida, todas as alegrias da minha

existencia... oh, não! não é possivel! Diz-me que o seu coração não é

livre... Creio bem que o seu coração a engana e toma como sincera

expressão de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia, fugaz,

passageiro, como são em geral todas as affeições que nascem de um olhar,

de um sorriso, de um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca de

simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar de uma walsa ou na

mysteriosa entrevista de uma janella para a rua!

--Engana-se, sr. Eugenio de Mello!--retorquiu Beatriz--Este amor que me

prende o coração a outro coração, não é um d'esses caprichosos

sentimentos de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem no

outro; é, pelo contrario, uma paixão verdadeira, profunda, sinceramente

sentida e a que está indissoluvelmente presa para sempre a nossa

existencia, o nosso destino...

--Todavia--observou Eugenio com um sorriso levemente desdenhoso--essa

declaração de v. ex.^a harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me

pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.^a a seu pae e que elle me

transmittiu ácerca do nosso enlace...

--É justamente por isso que desejei fallar-lhe--volveu Beatriz, com

altiva dignidade.--Quando meu pae me fez sciente das honrosas pretensões

de v. ex.^a á minha mão, recusei terminantemente, dispensando-me de

declarar os poderosos motivos que determinavam a recusa. Meu pae

insistiu e eu reagi, pois não reconheço á auctoridade paterna o direito

de dispôr do coração dos filhos para os obrigar a um enlace que só uma

sentida affeição determina. Ameaçou-me com rigores, com violencias, com

a sahida immediata de casa para um convento. Nada d'isso me intimidou

nem me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me com

franqueza que o motivo da sua insistencia para que esta união se realise

é o estado de ruina financeira em que se encontra e que de um momento

para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem pão. Chorou, lamentando a

sua e a minha miseria, e declarou-me que, tendo posto toda a esperança

de salvação n'este casamento, desde que eu o recusava, faria saltar os

miolos com um tiro na cabeça e que a mim me ficaria o remorso de lhe ter

causado a morte. Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos seus

desejos com a condição de que préviamente me seria permittido fallar com

v. ex.^a. Eis tudo o que se passou e eis o que tenho a dizer-lhe:

Quererá v. ex.^a acceitar por esposa uma mulher cujo coração pertence a

outro e que unicamente,--unicamente, tome v. ex.^a nota--por salvar a

vida de seu velho pae, faz o sacrificio da sua vida e do seu amor,

acceitando o enlace que v. ex.^a lhe propõe?

Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude crueza d'esta inesperada

pergunta que punha em cheque os seus brios d'homem, a tão apregoada

dignidade dos seus sentimentos.

--E v. ex.^a no meu logar o que faria?--disse elle por fim, respondendo

com esta pergunta á pergunta que lhe fôra feita.

--Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não julgo acceitavel uma

união em taes circumstancias.

--N'esse caso, o que é que v. ex.^a exige de mim?

--Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno. Que v. ex.^a, guardando

absoluto silencio sobre os motivos que acabo de expôr-lhe, simule

reconsiderar e dê como irrealisavel a união que projectou.

--Oh! isso nunca!--protestou vivamente o bohemio--Com que pretexto diria

eu a seu pae que lhe rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não só

uma violencia cruel ao meu coração, como uma affronta gravissima á honra

de v. ex.^a. E eu que a amo, eu que faço consistir toda a minha ventura

na dita immensa de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a lançar na

reputação de v. ex.^a o stygma affrontoso de um repudio aviltante?!

Repare v. ex.^a que isso é exigir-me mais que a propria vida!

--Pois bem; não diga v. ex.^a que desiste inteiramente das suas

pretensões a esta união impossivel; mas busque, pelo menos, um pretexto

para o addiamento indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços

emprevistos, uma viagem longa, demorada...

--Quer v. ex.^a dizer que me afaste, que deixe de a ver, de lhe fallar,

de viver na mesma terra em que v. ex.^a vive, de frequentar os mesmos

logares que v. ex.^a frequenta, de respirar o mesmo ar que v. ex.^a

respira!--exclamou o bohemio n'um fingido rapto de desesperada

eloquencia--E emquanto eu, distante, na solidão e no abandono da minha

retirada terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de um amor

sem esperança, fica um _outro_, um _outro_ a quem v. ex.^a ama, na posse

feliz do seu coração, gosando tranquillo as suaves delicias do amor

correspondido! É por demais cruel, minha senhora! E eu, francamente, não

lhe mereço o atroz supplicio a que quer condemnar-me!

Estas palavras foram proferidas com um mixto de indignação e amargura

tal, que Beatriz não pôde deixar de córar, pensando que tinha sido

demasiado impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.

--Peço perdão--balbuciou ella--mas propondo isto, eu parto do principio

de que v. ex.^a, como homem digno, não póde pensar mais em que eu seja

sua esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo, ser para sempre

banido da sua lembrança...

--Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração do homem que ama com o

ardor e enthusiasmo com que eu amo a v. ex.^a!--exclamou cynicamente o

bohemio.--Se antes de a ouvir eu tinha motivos para a desejar, para

querer ser o possuidor unico de esse precioso thesouro d'encantos e

perfeições que fazem de v. ex.^a a creatura mais adoravel do Universo,

agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e impellem o meu

coração a amal-a doidamente! V. ex.^a está pobre. Eu sou rico. Do meu

casamento com v. ex.^a depende não só o seu futuro tranquillo e feliz,

mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo inestimavel a quem me

prendem tantos laços de sincera affeição. Já não fallo de mim, do meu

coração para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão sem

esperança... Mas poderia eu, sem ser um miseravel cobarde, abandonar á

pobreza e aos horrores do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo

que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que um desconhecido, um

homem que eu nunca vi, que não estimo, que não sei quem é, não seja

perturbado nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não tem nem

póde dar!

A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e tremula, agitada por

uma commoção indescriptivel.

--Sr. Eugenio de Mello--disse ella com os olhos brilhantes de

indignação--o homem de quem falla não pediu nada a v. ex.^a, nem eu quiz

com as minhas palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos

temerarios. Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de nós. V.

ex.^a persiste na ideia d'este casamento, não obstante saber que amo

outro homem e que só por salvar a vida de meu pae é que eu poderia

consentir em conceder-lhe a mão de esposa?

--Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que á força de dedicação e

de sacrificios hei-de fazer-me tambem amar por v. ex.^a!

--Nunca! Nunca!--protestou Beatriz--Mulheres como eu, amam uma só vez na

vida e só podem pertencer d'alma e coração ao homem a quem se dedicaram.

Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.

--V. ex.^a é livre, minha senhora--replicou elle--Póde impunemente matar

seu pobre pae e matar-me tambem a mim com a sua recusa... O que não

conseguirá é fazer-me cumplice n'esse parricidio e tampouco que eu

acceite voluntariamente a morte a que me condemna, em premio de tanto

amor que lhe consagro.

Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia um desprezo mortal, uma

d'estas condemnações terriveis que cavam um eterno abysmo de odio entre

dois sêres.

--Tenho entendido, senhor--disse ella em tom breve e secco--Preciso de

meditar nas suas palavras antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae

o informará da minha resolução.

Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento de despedida, e sahiu da

sala com altiva serenidade.

--Tens cabellinho na venta--disse comsigo o bohemio, descendo as escadas

que conduziam ao escriptorio do Custodio--mas, se me caes nas mãos, eu

te porei macia que nem velludo!...

No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior, anciosos por saberem

o que se estaria passando entre Beatriz e Eugenio.

Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares dos dois patifes

cravaram-se perscrutadores no rosto do bohemio.

--Então?--perguntaram ao mesmo tempo.

--Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.

--Mas o que disse ella?--insistiu o Custodio.

--Contou-me toda a scena da pobreza que o meu amigo lhe metteu em

cabeça; disse-me que amava outro homem, e que só pelo receio de que o

meu amigo se matasse é que condescendeu em dar esperanças d'acceitar o

casamento. Queria que eu desse o dito por não dito, que desistisse de a

querer para esposa...

--Mas você nem _nentes_!--atalhou o Belchior ancioso por se inteirar de

tudo.

--Está visto! Recusei, porque a amo, porque a adoro sinceramente, e você

amigo Belchior bem sabe se isto é verdade...

--E ella?--interrogou o Custodio.

--Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar e depois daria

resposta definitiva...

--Amigo Custodio!--disse o Belchior, batendo familiarmente no hombro do

usurario--o caso agora é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a

representar a scena da pobreza até ella dizer que sim... Tenha pena

d'este pobre diabo, que anda aqui pelo queixo!...

--Não tem duvida!--aquietou o Custodio--Ella ha de ir... O que eu quiz

foi apanhar-lhe o _fraco_... Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar,

a fingir que me mato... E ella ha de ir!...

VIII

Entre irmãos

Paulo de Noronha, depois que se filiara na _Mão-Negra_, não obstante

saber que um rival lhe disputava a posse de Beatriz, alimentava a

esperança bem fagueira de conquistar em breve uma posição que lhe

permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão da filha.

Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu nascimento pesava um

mysterio que elle não sabia explicar e que o havia de collocar em

terriveis embaraços, quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe

perguntasse o nome de seus paes.

O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o um homem honesto,

buscando para a filha uma alliança _limpa_, e o sigillo que o padre

Filippe e madre Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles a quem

devia a existencia, fazia-o tremer pelos resultados da pergunta a que

não podia responder.

Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento legitimo e que,

se podia apresentar-se como filha de um homem que a perfilhara, esse

homem não era seu pae.

O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a madre Paula os segredos

do seu coração e ouvisse os conselhos que ella maternalmente entendesse

dever dar-lhe.

Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em não o elucidar ácerca do

seu mysterioso nascimento, o mancebo julgou, e com razão, que madre

Paula tambem nada mais adiantaria a esse respeito.

Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar o seu amigo Jorge, o

mesmo que o iniciára nos mysterios da _Mão-Negra_.

--Posso fallar-te com franqueza, não é verdade, Jorge?--perguntou-lhe

elle.

--Como se fallasses a um irmão--replicou o outro--Desde hontem que nos

achamos ligados indissoluvelmente pelos laços de uma associação secreta

em que é condição essencial que os filiados se considerem e se amem como

verdadeiros irmãos.

--Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão e espero que como tal

prestarás attenção ao que vou dizer-te.

--Falla.

--Como te expliquei, amo uma mulher que é todo o meu pensamento, todo o

meu sonho, toda a grande aspiração da minha vida!

--Já m'o disseste.

--Essa mulher corresponde com lealdade e com ardor ao sentimento

affectuoso que me inspirou. Mas tem pae, um homem rico, um argentario

que busca para a filha uma alliança vantajosa, alliança de dinheiro, e

que ha de necessariamente repellir-me com desdem, quando souber que eu,

simples academico, apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a

mão da filha...

--Mas--objectou Jorge--que necessidade tens de que elle o saiba antes de

haveres conquistado a posição que te ha de permittir constituir familia?

--A necessidade está bem patente desde que elle pensa em casar Beatriz

com um rapaz rico, que se apresenta como pretendente á sua mão.

--Ah! ah!--fez Jorge--E a pequena?

--Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae é rispido, severo, chega

mesmo a ser brutal... É capaz de querer impôr pela violencia este enlace

e, comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de Beatriz, receio

comtudo pelos maus tratos e soffrimentos que o pae é capaz de lhe

inffligir...

--Não estamos em terra de selvagens--replicou Jorge sorrindo.--Como se

chama esse _amavel_ progenitor?

--Custodio de Jesus....

--Mora?

--Na rua do Principe.

--E o outro?

--Qual outro?

--O teu pretendido rival?

--Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio de Mello.

--Eugenio de de Mello... É do Porto?

--Não; supponho que é um rico proprietario na provincia.

--Já _entrado_ na edade, não?

--Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe chamei um rapaz.

--Os homens ricos são sempre _rapazes_ em questão de casamento... A

mocidade tem para elles a duração do seu dinheiro...

--Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda rapaz.

Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.

--Muito bem!--disse elle--Urge, antes de tudo, conhecer os adversarios

com quem temos que medir-nos... Eu vou obter informações e veremos

depois o que convem fazer...

--Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...

--Dou-te a certeza de que esse casamento não se fará e de que Beatriz

não será maltratada pelo pae...

--Obrigado, meu amigo, meu irmão!--exclamou Paulo, cahindo-lhe nos

braços.--Escuta ainda,--continuou. --Preciso de te dizer tudo. Entre nós

não deve haver segredos...

--Falla, meu irmão!

Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe de vergonha.

--Chamas-me _irmão_--e comtudo eu creio que não posso ser irmão de

ninguem.

--Porque?

--Porque não tenho pae nem mãe, porque eu mesmo, sabendo o que sou,

ignoro quem sou!

Contou-lhe então o desespero em que se debatia por não conhecer o

segredo do seu nascimento. Conhecia apenas o padre Filippe e madre Paula

como seus protectores, ignorando comtudo porque serie de circumstancias

se encontrava sob a tutella d'aquelles dois religiosos, recebendo toda a

protecção e amparo.

--Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias em que me

encontro!--concluiu elle desalentado.--Ainda que me encontrasse de um

momento para o outro em circumstancias de pedir Beatriz, como poderia eu

fazel-o não sabendo o nome de meus paes?

--Os irmãos da _Mão-Negra_--disse Jorge gravemente--são todos filhos do

mesmo pae--o Pensamento Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma

mãe--a Associação Invencivel que os protege e lhes dá força. Com

semelhante parentesco qualquer de nós póde considerar-se

sufficientemente nobilitado para aspirar á mão da mais nobre e rica

princeza do mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha, filha de um

rico burguez chamado Custodio de Jesus!

--Não duvido da grandeza e poder da nossa Associação, meu amigo; mas,

pelo caracter secreto que a reveste, o facto de pertencer-lhe não

constitue titulo, que possamos apresentar publicamente, em abono da

origem honesta do nosso nascimento...

--O homem--volveu Jorge--creatura de Deus, não póde ser jamais

responsavel por actos que não praticou nem estava na sua mão impedir.

Tanta culpa teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão, como gloria

em descender do mais poderoso monarcha da terra. Filho d'um criminoso ou

filho de um rei, elle é sempre um homem _igual aos outros_ e d'elles só

póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias, ou ser-lhes

inferior pelas suas abjecções e pelos seus crimes.

--Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria essa, se todos os homens

a comprehendessem assim!

--Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento que nos une. Temos de

luctar, bem sei, contra o preconceito, contra o prejuizo de muitos

seculos, contra a _rotina_--que é a famosa trincheira erguida a impedir

a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade. Mas se não houvesse

lucta, não seria tão glorioso o triumpho nem teria tanto valor a

conquista.

Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se, deixando o

mancebo mais tranquillo e confiado no futuro.

Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma casa de modesta

apparencia, na rua de S. Bento da Victoria...

É um predio de dois andares, que nada tem de notavel e que quasi se

confunde na linha de casas modestas, senão pobres, que se erguem do lado

nascente d'aquella rua, em frente á Relação, desde a esquina dos

Martyres da Patria até á travessa de S. Bento da Victoria.

Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio permanecia fechada.

Mas logo que Jorge bateu abriu-se, franqueando-lhe a passagem.

Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma, e assim que o amigo de

Paulo transpoz a entrada, tornou a fechar-se sem que alguem a

impellisse.

Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos habitos da casa,

penetrou no corredor escuro do portal e subiu o primeiro lanço das

escadas até ao primeiro andar.

Chegando ahi, parou em frente da porta de uma sala que ficava para o

lado das trazeiras do predio e pronunciou em latim:

--_Licet?_

--Entrae!--disse de dentro uma voz.

Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao centro da qual se via uma

ampla mesa de carvalho, coberta de livros e papeis e a que estava

sentado um homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa barba

grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe um aspecto de patriarca

biblico, que infundia respeito e terror a quem pela primeira vez se

encontrava na sua presença.

Rodeado de livros que se viam espalhados pelo chão, em cima das cadeiras

e collocados em desordem nas estantes que cobriam as paredes, desde o

soalho até ao tecto, não era preciso grande esforço de intelligencia

para desde logo comprehender que se estava em presença de um homem de

estudo, sabedor e profundo.

Jorge foi passando peio estreito carreiro que se abria entre rumas de

livros, da porta até á mesa, fazendo prodigios de equilibrio para não

pôr os pés sobre os volumes que lhe obstruiam a passagem.

--É preciso estar na graça de Deus e ter azas como os cherubins--disse

elle rindo--para entrar no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a

sciencia, Mestre!

O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o por trás dos oculos e

respondeu grave e pausado:

--Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece esmagada pelo pé

inclemente do homem, na sua marcha para o Bem, para a Verdade e para a

Justiça. A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o pezo de um pé

que se lhe põe em cima do que a torre dos Clerigos o pezo de uma môsca

que vá pouzar-lhe no pára-raios.

Indicou uma cadeira desoccupada que se achava junto da sua, e disse ao

recem-chegado:

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 7 / 28 段