--Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo matou a mãe do proprio filho

d'elle?

--Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella e mais a mim, promettendo

a ambas que o nosso Hilario iria lá ter comnosco, para vivermos todos

juntos... Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá no quarto da D.

Carlota e... envenenou-a!

Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente torturada pela

recordação d'aquelle crime.

--Como o soube?--interrogou o padre Filippe.

--Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o quarto d'ella o bule do

chá com duas chávenas... Desconfiei e fui espreitar á porta do quarto...

Presenceei tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a dizer-lhe que

a matava por ella lhe faltar á obediencia... Depois, no outro dia, veio

a justiça e achou um bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo

tinha arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou por causa do

marido...

--E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse crime?

--Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo a mim, e calei-me...

--Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?

--Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre Anselmo disse-me que ia

ter com elle á Covilhã e nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu

digo que elle o foi matar!...

A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:

--Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio veio cá com os da

justiça e tomou conta de tudo o que era da sr.^a D. Carlota... Acho eu

que tomou conta, porque a mim não me chegou nada ás mãos...

--E quem era esse João Ignacio?

--Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...

--Sabe se elle ainda vive?

--Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram no hospital dos doidos...

Foi bem feito! Foi o castigo de Deus!...

--Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi em Braga, quando tomou conta

da creança?

--Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci quando o sr. padre

Anselmo a _trouve_ p'rás Sereias e depois a levou p'ra Lisboa

enganada... E como ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era

muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu deixar tudo ao

pequeno... Até me deu uma carta muito grande p'ra eu lhe entregar só

depois d'ella morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse

que era filho d'ella...

--E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre Anselmo?

--Essa carta...--fez a velha--tenho-a aqui... guardada... como ella m'a

deu... Nunca mais tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude

entregar...

Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.

--É por isso...--proseguiu a velha--que eu me queria confessar a quem

contasse isto... e confiasse esta carta... para a entregar ao meu

Hilario... se elle algum dia apparecer vivo...

Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada e tremula debaixo do

travesseiro e tirou de lá uma sacca de chita, surrada do attrito das

mãos e dos farrapos, e apresentando-a ao padre Filippe, disse com a voz

estrangulada pelo esforço:

--Aqui está a carta e mais um dinheirinho que eu fui ajuntando das

esmolas dos bemfeitores para lhe dar a elle... se um dia apparecesse...

Tome v. s.^a conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se

elle tiver morrido... diga-o de missas por minha alma...

--Não tem filhos, vocemecê?--perguntou o padre Filippe, acceitando com

repugnancia o thesouro da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.

--Tenho... Mas esses... estão arrumados... Nunca quizeram saber de

mim... Mil contos que eu tivesse... haviam de ser todos para o meu

Hilario... coitadinho!

--Não seria melhor distribuir pelos seus filhos este dinheiro, de que o

padre Hilario talvez não precise?

--Não! Não! exclamou a velha anciadamente, arregalando os olhos, onde a

vida começava a extinguir-se. Se elle não apparecer... missas pela minha

alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para a religião torna!

São tres centos de libras... Tres centos!

--Está bem! Socegue. A sua vontade será cumprida--aquietou o padre

Filippe.

--Graças a Deus! Morro descançada... E agora, meu padre... deite-me a

sua absolvição... para que Deus me perdôe!

O padre murmurou em latim as palavras da absolvição.

--E elle... se fôr vivo... que se acautele do padre Anselmo... que não

lhe mostre esse dinheiro... O padre Anselmo é pae d'elle... mas

envenenou-lhe a mãe... para o roubar!...--murmurou ainda a velha,

deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando logo na agonia

ultima.

O padre Filippe, impressionadissimo com as revelações que ouvira dos

labios da moribunda, guardou no bolso o legado da velha e sahiu do

lobrego cubiculo em que aquella vida se extinguia.

Chegado ao patamar, respirou com força e disse para a outra velha que o

aguardava com a fumarenta candeia de petroleo na mão.

--Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo que ella expire dê-me

parte, porque o enterro fica por minha conta.

--Sim, meu senhor!--disse a velha--Não seria bom dar-lhe ao menos a

Santa Uncção, já que não póde tomar o Senhor?

--É tarde--respondeu o padre Filippe--Quando cá chegasse esse ultimo

soccorro espiritual, encontraria um cadaver.

--Seja pelas almas!--lamuriou a velha--Não _sêmos_ nada n'este mundo!

--Somos realmente bem pouco, quando presumimos ser tanto!--concordou

philosophicamente o sacerdote--Vocemecê faria uma obra de caridade, indo

assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...

--Sim, meu senhor... eu vou--concedeu a velha.

Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra chamar e que tambem

viera ao patamar n'uma curiosidade agradecida, pediu:

--E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o favor de me alumiar até

ao fundo da escada, que é tão cheia de precipicios para a minha idade?

--Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?

E tirando da mão da outra a candeia:

--Vá vocemecê pró par da creaturinha de Deus, emquanto eu _alumeio_ ó

sr. padre...

A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:

--Estes _carólas_ do inferno, em não sentindo dinheiro a uma creatura,

põem-se logo a _avoar_ e dizem aos oitros que se _aguantem_ co'as

massadas... Se lhe cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se

ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava d'aqui pé emquanto

ella não fechasse o olho... Assim, vae a correr metter-se no _quente_ e

tanto se lhe dá que a _probesinha_ de Christo vá p'ró céo como que vá

p'ró inferno!

O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara ao fundo da

terrivel escada com as costellas direitas.

--V. s.^a quer que o vá acompanhar _inté_ casa?--offereceu a mulher.

--Não, não é preciso... D'aqui até lá é perto e não ha escadas a subir

nem a descer. Amanhã procure-me para se comprar um caixão á pobre

creatura. Boa noute!

--Vá v. s.^a na graça de Deus, meu senhor!

VII

Tres miseraveis

Depois da scena que representou com a filha, o Custodio de Jesus correu

a procurar o seu amigo Belchior.

O agiota ia radiante de satisfação.

--Beatriz--disse elle ao procurador--está no caminho!

--No caminho de quê?

--No caminho de acceitar o casamento com o Eugenio de Mello.

--Sério?

--Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez cara feia, e ia-me

fazendo sahir fóra dos eixos, porque eu não sou para graças... Mas

depois...

--Conseguiu intimidal-a?

--Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê tem figados! Ameacei-a com

as irmãs da caridade para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de

me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer com que ella fosse á

egreja dizer o _sim_!...

--É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe volta ao juizo, e as

mulheres são assim... são peores que cabras... Em encarreirando para um

lado, não ha diabo que as faça voltar para trás!

--Mas consegui eu que ella voltasse...

--Como?

--Com bons modos... Você, afinal, foi quem me ensinou o segredo... Mas

eu tambem discorri alguma coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que

se desejava que ella acceitasse o casamento era para interesse d'ella,

porque eu estava pobre, estava desgraçado, tudo quanto tinha já não

chegava para pagar aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou

casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro nos miolos e arrumar

com isto por uma vez. Chorei, que se você visse até se admirava!

--E afinal?

--Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer que não e que não,

poz-se a considerar um bocado e por fim disse-me que queria fallar com o

noivo...

--Com o Eugenio de Mello?

--Pois então com quem? Quem é o noivo?

--O noivo é aquelle com quem ella estiver para se casar...

--Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se trata de outro.

--Que diabo lhe quererá ella?--commentou o procurador.

--Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe diga que lhe tem muito amor,

que está a morrer de paixão por ella, que não sonha com outra coisa

senão com o momento ditoso, _et coetera_... coisas que todas as

raparigas gostam de ouvir aos namorados.

O Belchior pôz-se a rir.

--Vá lá a gente fiar-se em mulheres!--disse elle.--Muito amor ao outro,

capaz de se deixar matar antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe

cheirou a que o negocio era de _cobres_ e que sem elles não teria mais

vestidos, nem mais luxo nem mais commodidades,--venha de lá o _homem da

massa_ e atire-se com o querido do coração ás ortigas! Ah! mulheres,

mulheres! quem não as conhecer que se fie n'ellas!...

--Pois por eu saber isso--retorquiu o Custodio--por ter a experiencia de

que não ha amor que resista á perspectiva da miseria, é que eu me

lembrei de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado... Agora

elle que lhe _cante_ umas cantiguinhas bem cantadas... que lhe falle

d'amor, de paixão e de todas essas frioleiras que as raparigas apreciam,

e d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais no outro!

--Quando entende você que deve ir fallar-lhe o Eugenio?

--O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca ha tempo a perder...

--Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á noite com elle tomar o chá...

--Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada... A pequena toca

piano, você gaba-lhe a habilidade para a musica, o rapaz rende-lhe

finezas, e ás duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não terá

remedio senão dizer que sim.

--Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo você não vir mais cêdo,

porque elle ainda ha bocado sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar

um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que de dois em dois annos

rende seis contos de réis, só em cortiça! É um doidivanas... Não sabe o

que tem de seu e anda sempre a _pillar_ por dinheiro!

--Afinal--considerou o Custodio de Jesus--este casamento até é uma

providencia para elle... Porque se nós não lhe puzessemos uma tutella,

por esse andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...

O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.

--Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o e tomar-lhe conta dos

haveres? Mas é preciso que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico

em peores lençoes...

--Porque?

--Porque este diabo é maluco, e depois, quando você e sua filha lhe

moverem um processo de interdicção, quem paga as favas sou eu... Contra

mim é que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta ratoeira de

proposito para lhe apanharem a fortuna...

--E a você que se lhe dá? A sua consciencia diz-lhe que praticou uma

acção bôa... que importa lá que elle grite?

--Pois sim, mas a minha consciencia tambem me diz que eu escuso de me

metter em _alhadas_ sem interesse, e que se elle, por fim, como é

maluco, me quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo que este

casamento esteja combinado, nós temos um pequeno negociosinho a fazer...

--Que negocio?--interrogou o Custodio franzindo o sobr'olho.

--Que diabo! É justo que eu leve rasca na assudura... Eu pratico uma

acção bôa... bôa para si e bôa para elle... Parece que tambem não será

fóra de razão que a pratique bôa para mim...

--Mas o que é então que você quer dizer com isso?--tornou o Custodio

desconfiado.

--Quero dizer que o negocio é negocio, e que se eu lhe metto a você para

cima de noventa contos de reis no bolso, é de justiça que leve n'isso

uma pequena commissão...

--Uma commissão! Mas que commissão quer você?

O Belchior sorriu:

--Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a sardinha e deixam para os

outros só a espinha... Ahi uns _dezitos_ por cento sobre a fortuna do

rapaz, não é coisa que empobreça ninguem...

--Dez por cento! Você está doido!--exclamou o Custodio de Jesus, fazendo

uma careta terrivel--Dez por cento sobre noventa contos, atirava lá para

nove contos. Isso era melhor do que fazer meia!

--É... é melhor do que fazer meia... E oitenta contos por uma filha que

está em vesperas de casar com um rapaz que não tem de seu oitenta reis,

o que é? É barro!

--Não que eu não a deixo casar senão á minha vontade!--barafustou o

Custodio.

O Belchior teve um sorriso desdenhoso.

--Você não a deixa casar senão com quem muito bem entender, e ella não

casará senão com quem muito bem quizer--replicou por fim.--Mas o nosso

caso é muito outro, amigo Custodio... Se você arranjar o casamento da

pequena com outro rapaz, sem ser por minha intervenção, ainda que o

noivo tenha mil contos de reis, descance, que eu não vou lá metter-me no

negocio nem reclamar para mim a mais insignificante parte nos lucros...

Ora agora, fazendo-se o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo eu o

principal agente d'este negocio que lhe mette a você para cima de

noventa contos no bolso, tenha paciencia, mas a minha commissão é justo

que se pague...

--Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você que queria o seu trabalho

de graça!--prorompeu o Custodio.--Mas é preciso ter consciencia... é

preciso que você não queira a melhor parte para si...

--A melhor parte! Então nove contos de reis é a melhor parte de noventa?

--Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem ter que aturar a noiva a

choramigar e sem ter que andar ás testilhas com o noivo para o fazer

entrar na ordem, acha você que não é nada!

--E a minha responsabilidade? E ter depois de me haver com o rapaz, que

é um touro de força, e que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me

lançar as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso não representa

nada, não?!

--Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo... Tem a justiça de

casa, fica-lhe barato...

--Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter, do lombo é que ninguem

m'as tira!--berrou o procurador.--Homem, é preciso que você veja que

isto é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me em folias, sem

ao menos ter garantidos os pontos que depois hei-de levar nas feridas...

não me serve!

E n'um repellão:

--Então acabemos com isto, não se falla mais em tal e você case lá a

pequena com quem quizer.

O Custodio amaciou um pouco.

--Ora venha cá...--disse elle.--Você sempre tem um demonio d'um genio!

--Mas pela razão!... pela razão é que eu tenho genio!--contestou o

Belchior.--Você, se fosse outro, dava o valôr ás coisas e não estava a

fazer questão de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu entro

n'isto por ser seu amigo...

--Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu amigo; e por isso mesmo é

que eu esperava que você fosse mais rasoavel...

O procurador descarregou violento murro sobre a escrivaninha.

--Mais rasoavel!--exclamou elle.--Póde-se ser mais rasoavel do que isto?

Você, que empresta dinheiro a vinte e a trinta por cento, acha caro

noventa contos de reis comprados a troco de nove?!

--Pois sim, mas isso não é dá cá, toma lá... O dinheiro é do rapaz e

elle é que continua sendo senhor d'elle...

--Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse a você como é que as coisas

se arranjam... Mas se acha que é prejudicado ou que o negocio não vale a

pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você casamento melhor para

a pequena.

Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar o negocio. O

Custodio de Jesus tremeu com a ideia de que o procurador tivesse já

posto a mira n'outra noiva para o seu cliente.

--Homem!--disse elle--a gente não está aqui a jogar facadas. Nem você

quer o meu prejuizo nem eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica

a coisa reduzida a seis por cento...

--Sete tenho eu quem me dê!--volveu o procurador.--E é porque eu não

quiz entrar em transacção, senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim

aborrece-me regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse que hão de

ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz não casa no Porto. Então dou um

passeio com elle até Lisboa, e você verá como até apanho lá uma

viscondessa para elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali dá-se

valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...

--Bom! Você é teimoso... tambem não quero que diga que, sendo eu seu

amigo, estou a fazer questão por pouca coisa... Está tratado.

--Ora até que, emfim, chegou-se á razão!--disse o procurador, como quem

se alliviava d'um grande peso--Eu bem sabia que você não deixava fugir o

bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior para mim... Mas eu não

gosto d'abusar com os amigos...

--Vamos lá!--suspirou o Custodio.--Para amigos, você carregou um

bocadito na mão... Mas acabou-se! Está tratado, está tratado. Não volto

com a palavra atrás.

--Sim, senhor!--tornou o Belchior.--Ora agora temos a regular a forma do

contracto... Eu recebo os nove contos no dia do casamento, antes dos

noivos irem para a egreja...

--O que! Então você põe-me assim as facas ao peito?!--exclamou o

Custodio de Jesus muito admirado.

--Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me a levar o noivo até sua

casa no dia do casamento, sem escripturas, para a noiva poder entrar na

meação dos bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que eu

ganhei é meu, você passa-m'o para a mão e estamos quites. Pois como

queria você?

--Isso não podia ser depois do casamento realisado?

--Póde, acceitando-me você letras...

--Você sabe-a toda!--fez o Cutodio sorrindo, como quem acaba de

effectuar um bello negocio.--Vá lá! No dia do casamento entrego-lhe o

dinheiro e está a conta arrumada.

--Antes dos noivos partirem para a egreja...

--Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem para a egreja.

--Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar prevenir o rapaz para não

faltar.

O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao _Francfort_ a prevenir

Eugenio.

N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio de Jesus era theatro

da odiosa farça que os tres miseraveis se dispunham a representar á roda

do coração de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como quasi sempre

acontece quando tres patifes de grande marca se encontram unidos pelo

mesmo pensamento de interesse commum.

O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára pela casa de D.

Barbara, viuva d'um general reformado e mãe de tres filhas feiissimas

que o Monte-pio militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar

o chá e fazer um bocado de companhia á Beatriz, que já tinha fallado

n'ellas e estranhado que estivessem tanto tempo sem lhe irem fazer uma

visita.

O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar da mulher, a D.

Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia, ambas vermelhuscas e adiposas,--a D.

Rosalia queixando-se sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus flatos.

Eram estas as relações mais intimas do Custodio que, usurario e forrêta,

detestava reuniões e convivencias que o forçassem a incommodos e

despesas.

Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento proviera de serem as

filhas companheiras de Beatriz no collegio, porque lhe rebatia as

pensões com extraordinaria usura; e quanto á familia do Belchior, está

bem patente o interesse que lhe advinha das suas relações.

Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite viriam visitas,

preparou-se para as receber.

A candida menina preferiria antes a solidão do seu quarto á enfadonha

conversação de tão estolidas creaturas; mas como era a ella que cumpria

desempenhar os deveres de dona da casa, não teve remedio, sacrificou-se

ás leis da boa educação e foi com risonho, embora contrafeito, semblante

que veio á sala.

Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se gentil e muito

correcto no seu trajo elegante de rapaz rico, affectando uns ares

superiores, de bom tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e

attencioso em extremo para com as damas.

Conversaram estas de modas, do tempo, dos theatros, dos mil nadas que

preoccupam o espirito das senhoras finas, ou que de taes se presumem;

emquanto Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos

acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores ao futuro de

Portugal.

Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:

--Então não temos um bocadinho de musica? Vá, sr.^a D. Rufininha, dê-nos

um bocadinho de piano.

Rufininha era a filha mais velha do general.

--É verdade! apoiou Custodio--e a sr.^a D. Therezinha canta aquella

canção

_Murmura, rio, murmura!_

que é tão bonita.

A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha, morta por cantar,

começou a fazer caretas e a desculpar-se, que estava sem voz, que não se

sentia bôa da garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.

Mas o Belchior e o Custodio insistiram,--que cantasse, que eram

desculpas de mau pagador, que quem tinha uma voz tão bonita não devia

ser tão avara do seu thesouro.

E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a até junto do

piano, onde já a irmã pingava notas preparando-se para o acompanhamento.

Assim instada, a Therezinha começou esganiçando-se terrivelmente, a

pedir ao rio que murmurasse, em meio do silencio e da forçada attenção

dos circumstantes.

Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se da filha do

Custodio e, sentando-se n'uma cadeira proxima, encetou com ella este

dialogo:

--Dá-me licença, sr.^a D. Beatriz, que lhe faça uma pergunta?

--Queira v. ex.^a dizer, sr. Eugenio de Mello--respondeu Beatriz, sem

poder reprimir um movimento de terror instinctivo.

--Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de um desgosto intimo...

Acaso devo eu attribuir á minha presença a melacholica expressão do seu

rosto?

--Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de Mello?

--Perdão, se fui indiscreto!--tornou o mancebo.--Mas, em primeiro logar,

interessam-me as dôres e as alegrias do seu coração mais do que talvez

póde imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser estranho o desejo

ardente que me anima de lhe dedicar toda a minha existencia e de viver

feliz da sua felicidade...

Beatriz baixou os olhos.

--Creio que quer referir-se--disse ella--a um projecto de casamento de

que já ouvi fallar meu pae...

--Não me atrevi a patentear a v. ex.^a o sentir intimo do meu coração, e

dizer-lhe a chamma abrasadora que o seu dulcissimo olhar me accendeu no

peito... E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa e

obediente, não hesitei em pedir a seu pae e meu bom amigo, que fosse

interprete fiel e auctorisado dos meus sentimentos junto de v. ex.^a.

Fiz mal?

--No logar de v. ex.^a, eu não teria procedido assim...

--Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros e santos affectos da

minha alma, das delicadas e nobres intenções que me animam, do que o

proprio pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor por v. ex.^a

não fosse uma d'aquellas paixões abrasadoras, violentas, em que fazemos

consistir toda a nossa felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do

auctor dos seus dias?

--V. ex.^a esqueceu ou não contou para nada com o meu coração. Era no

emtanto a elle que v. ex.^a devia dirigir-se primeiro, creio eu...

--Supponho-a tão bôa, tão pura, tão santa, que não duvidei um momento da

bondade angelica com que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo

que eu, infeliz, morro por v. ex.^a.

--Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca deveria suppôr-me tanto

que me julgasse capaz de sacrificar o meu coração á sua felicidade, sr.

Eugenio de Mello.

--Quer dizer com isso que me despreza, que recusa o meu amor, que devo

julgar para sempre perdida a felicidade, esmagado para sempre o meu

coração?

--Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe com a lealdade e

franqueza que devo a v. ex.^a e á minha dignidade de mulher. Se depois

de me escutar, ainda persistir no seu proposito...

--Consentirá em ser minha esposa?

--É possivel.

--Pois bem; falle! Diga-me v. ex.^a o que tem a dizer, porque eu anceio

pelo momento de lhe poder dar uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do

meu amôr!

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 6 / 28 段