--Elle é filho do padre Anselmo!--disse madre Paula--e se herdou a

indole cruel, hypocrita e verdadeiramente sanguinaria do pae, com

certeza ha de ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que

arrecear-se.

--É tambem filho da irmã Dorothêa--atalhou o padre Filippe--e é possível

que haja herdado da mãe os sentimentos de singela bondade que a fizeram

cahir nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que nunca mais

tornámos a vêr!

--É um caso que ainda hoje não sei explicar, o desapparecimento subito

d'essas tres creaturas!--exclamou madre Paula.--Parece incrivel que até

hoje não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo nem da irmã

Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!

--Como sabes, minha amiga--ponderou o padre Filippe--nas congregações

jesuiticas, muda-se frequentamente de nome, e é esse até o processo

adoptado por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar os rastos

compremettedores da sua passagem por este ou por aquelle ponto. É, pois,

de presumir que o padre Anselmo, ascendendo aos logares superiores da

Companhia, julgasse conveniente adoptar outro nome, e, levando comsigo a

irmã Dorothêa e o padre Hilario, lhes impuzesse a mesma mudança, afim de

que ninguem mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho das suas

grandezas...

--Assim será. No emtanto, Helena é ingrata! Sabendo quanto eu a

estimava, sabendo que lhe salvei a vida e lhe dediquei sempre uma

amizade sincera de irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me votou!

--Minha querida amiga, a distancia enfraquece os affectos. Não ha peor

inigma da amizade do que é a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o

padre Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome, lhe

impozesse silencio como condição indispensavel de seus beneficios...

--Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã Dorothêa tranzigisse com esse

homem, que tão profundamente detestava agora!

--Mas não dizes tu, minha querida, que ella amava o padre Hilario, o

joven filho do padre Anselmo, que desempenhava o cargo de capellão no

convento da Covilhã, de que ella era abbadessa?

--Ella propria m'o confessou.

--Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural repugnancia pelo pae, e

a esta hora temol-os juntos, n'algum convento do estrangeiro, felizes e

resignados como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo na

santa vinha do Senhor.

--Se tudo se passou como suppões--ponderou madre Paula--se realmente o

padre Anselmo ascendeu aos mais altos cargos da Companhia e levou

comsigo o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que a estas

horas Helena ignore quanto temos feito por esta creança que ella

cruelmente engeitou...

--Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós é que não as temos nem

podemos obtel-as d'ella...

--Mas é ingrata!--repetiu ainda madre Paula.--Por quanto procederia eu

de igual modo para com ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial

e inconstante nos meus affectos?

--Minha querida amiga--volveu risonho o padre Filippe--eu sempre fiz

justiça ao teu coração; e se me queixava da tua cabeça, é porque era

ella a que vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me deixar

penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E, para cumulo de desgraça,

succedia que eu nunca me encontrava alli sosinho; havia sempre na sala

commum das affeições triviaes dois ou tres frequentadores impertinentes

com quem me acotovelava e cuja presença me indispunha e fazia soffrer...

--Sabes que foste sempre o preferido do meu coração!

--Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E essa duvida torturava-me.

--E agora?

--Agora, minha bôa e querida Paula, tambem eu me não queixo. Devo-te os

mais bellos momentos de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes

prazeres da minha mocidade e as mais suaves consolações da minha

velhice. Bemdita sejas!

E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor ainda não de todo

extincto n'aqueile organismo gasto pela edade.

Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce abandono, murmurando com

os olhos brilhantes e as faces purpureadas de prazer:

--Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor absoluto de todo o

meu ser. Reinas e governas nos meus sentidos como no meu coração. Se me

faltasses, morria!

--Se o amôr é a vida--tornou-lhe o padre Filippe--se é a grande lei

universal que rege todos os sêres; se o amôr é a suprema aspiração dos

novos, e ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos nós,

minha querida, impedir ou sequer estranhar que Paulo ame com todo o fôgo

do seu juvenil coração a mulher que o destino pôz no seu caminho?

--Não é precisamente esse o meu desejo, mas tão sómente guiar e dirigir

esse pobre rapaz para que o desvairamento da paixão o não precipite nos

abysmos da desgraça irremediavel.

--O coração apaixonado raro escuta os dictames da prudencia. Todavia,

talvez tu possas, minha amiga, com essa tua dôce voz persuasiva, influir

no espirito d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da

experiencia. Prometteu-me que viria procurar-te, e creio bem que virá. A

ti incumbe, pois, a difficil missão de dirigir os seus passos e vigiar

pelo seu futuro. Elle ama-te como filho e se não escutar a tua voz,

ninguem n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.

--Pois bem; se até amanhã aqui não apparecer, mandal-o-hei chamar e

ouvirei o que me diz. No emtanto, convém saber quem é a mulher que elle

ama, a que familia pertence, e no caso que a união dos dois não seja uma

d'estas inconsequencias absurdas que a razão repelle e as conveniencias

sociaes condemnam, espero que não duvidarás unir os teus esforços aos

meus para aplanarmos o caminho da felicidade a esse pobre rapaz.

O padre Filippe sorriu.

--Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima hora!--acquiesceu

elle--Seja! Interroga-me esse rapaz, inquire e desvenda todos os

segredos da sua alma; e se te convenceres de que se trata de uma paixão

séria e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e tão perigosas na

adolescencia, faremos todo o possivel por lhe aplanar as difficuldades e

conduzil-o triumphante á realisação dos seus desejos.

--Eu devo-lhe protecção e carinhos de mãe--disse ainda madre Paula--Não

posso esquecer-me de que fui cumplice, embora forçada, na grande

desgraça do seu nascimento. Essa creança é o fructo das milagrosas

apparições do Christo á desvairada Helena de Noronha. Se não fosse eu,

talvez que o padre Anselmo não realisasse a infame burla por esse

processo tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem que a

intenção com que procedi fosse mais humanitaria que criminosa. Eu quiz

poupar a essa desgraçada os horrores de uma desillusão brutal, de uma

violencia monstruosa como aquella de que foi victima a pequena Candida,

immolada no Sardão aos instinctos bestiaes do padre Anselmo.

--Não recordemos, minha querida, esses horrores que a miseria da nossa

situação subalterna nos tem obrigado a presenciar e até a proteger com o

coração confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo. Vinguemo-nos

da crueldade da sorte praticando o bem espontaneamente, em desconto dos

males que temos sido forçados a fazer. Paulo é para todos os effeitos

nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios compativeis com a

nossa consciencia e com a nossa posição, e que Deus nos leve em conta o

bom desejo que temos de proceder sempre bem e de harmonia com os

dictames do nosso coração, que não é mau, mas que a fatalidade

acorrentou a uma vida de torpezas e de immoralidades.

Despediu-se de madre Paula promettendo voltar no dia seguinte.

A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma profunda tristeza.

--É o unico que a alma negra da seita não perverteu de todo!--murmurou

ella.--Que adoravel esposo e que exemplar cidadão se não perdeu n'este

homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado na sotaina da

hypocrisia que elle proprio odeia! Pobre amigo! morrerás como eu na dôr

e na saudade cruciante da liberdade que te roubaram!

VI

Á hora da morte

Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a madre Paula, bateram

violentamente á porta do sacerdote, era uma hora da noite.

O padre Filippe não se tinha ainda deitado.

Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante de madre Paula

passava grande parte da noute a folhear poeirentas chronicas e a fazer

annotações curiosas, no intuito de esclarecer varios pontos obscuros da

nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem duvidas aos mais

persistentes e lucidos investigadores. Ouvindo bater á porta com a

violencia propria de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente possivel,

o padre Filippe levantou-se, marcou com um papel em branco a pagina em

que interrompia a leitura e veio á janella indagar quem batia. Á porta

estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça para se resguardar

do frio cortante da noite.

--É aqui que móra um senhor que é padre e que vae dizer todos os dias

missa aos Grillos?--perguntou ella.

--É aqui. O que deseja?

--É que está alli uma velhinha, que é minha visinha, a morrer, e a pobre

de Christo não faz senão pedir que lhe chamem um padre, porque se quer

confessar; e eu venho cá vêr se v. s.^a faz a esmola de a ouvir de

confissão...

--Onde móra essa mulher?

--Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É pertinho... é d'aqui a dois

passos, e se v. s.^a fizesse a esmola de vir comigo, chegava lá n'um

instante!...

--Espere ahi, que eu desço já.

Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na cabeça o seu chapéo alto,

pegou da bengala, e pouco depois estava na rua.

--Vamos lá!--disse elle.

Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto, que fica a curta

distancia, nas proximidades do paço episcopal. A mulher que viera chamar

o padre Filippe caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar a

tempo com o soccorro espiritual que a moribunda reclamava.

--Seja pelas almas!--lamuriava ella.--Está a pobresinha a appellidar por

um confessor desde o resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem

se confessar, e não havia uma alma de Christo que se _arresolvesse_ a

vir chamar v. s.^a ou oitro qualquer que lhe deitasse a _assolvição_!

--Não tem familia essa mulhersinha?--inquiriu o sacerdote.

--Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha como as serpes, e não tem

filhos nem parentes. Vive lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou

por cinco tostões por mez, e dês que caiu emprégadinha, o que vale é a

gente ir olhando por ella, por caridade, senão morria p'rá alli, sem ter

quem lhe chegasse uma sêde _d'auga_!

--Coitada!--lamentou o padre Filippe.

--Mas que!--tornou a mulher--a gente _támem sêmos probes_... _támem_

temos de olhar pela nossa vida, que, se a gente o não ganhar, ninguem

nol-o vem trazer... De sorte que a _probesinha_ tem passado muita

necessidade...

--Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram para o hospital?

--No _isprital_, meu senhor, não na acceitaram, porque lá diz que não

curam a velhice... Nem ella queria... Eu ás vezes inda lhe _dezia_: «Ó

sr.^a Maria do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr se a

_arrecolhiam_ no _Azylio_ das velhas?» Mas ella: «que não, e que não»,

nem queria que lhe fallassem n'isso!

Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel aspecto, com a porta da

rua escancarada.

A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras do portal, e chegando

ao fundo de uma estreita e perigosa escada, que dava accesso aos andares

superiores, gritou:

--Ó sr.^a Izabelinha, _alumeie_, que vae aqui o sr. padre!

No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se uns chinellos a

arrastar, e na balaustrada do corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz

d'uma candeia de petroleo.

--É vocemecê, sr.^a _Barbora_?--perguntou uma voz lá do alto.

--Sou eu, sou, alminha do Senhor! _Alumeie_, que não vá este senhor

cahir...

A sr.^a Barbara investiu com a escada como quem de ha muito estava

familiarisada com os perigos d'aquelles desconjuntados degraus.

E voltando-se para o padre Filippe:

--É melhor v. s.^a agarrar-se ao corrimão, que não vá por ahi cahir e

partir alguma perna... Isto, quem não está costumado, nada mais _facel_

do que aleijar-se...

O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o expediente que a sua

cuidadosa guia lhe aconselhava.

Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento corrimão da escada,

e tacteando os degraus com os pés e com a bengala, revestira-se de

coragem e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima

ascenção.

Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde uma velha esguedelhada, de

cabeça estopenta e candeia na mão o aguardava, o amante de madre Paula

parou offegante e cançado.

--É cá muito em cima!--disse elle.

--E as escadas são ruins _d'assobir_, meu senhor!--accrescentou a

velha.--Eu _támem_, quando venho de lá de baixo e chego cá arriba, fico

que, se me puzessem uma mão na bocca, arrebentava!

--Onde está a doente?--interrogou por fim o padre Filippe.

--Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo a _espedir_,

coitadinha! Já desde _honte_ que não lhe foi nada á bocca, e não faz

senão pedir _auga_... Parece que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O

que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu mandar chamar o

confessor!

--E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?

--Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v. s.^a ha de conhecer, mas

como a gente _semos probes_, fez á de conta que não era pressa e inda

_inté_ agora cá não appareceu...

--É que vocemecês não lhe mandaram talvez dizer que se tratava de uma

pessoa em artigos de morte...--desculpou o padre Filippe.--Ora vamos

lá... vamos lá ouvir essa creatura de Deus...

A velha, com a candeia lançando de si um enorme pennacho de fumo negro e

suffocante, allumiou o padre Filippe até ao escuro e fétido cubiculo

encravado no interior do misero pardieiro, que era um genuino

representante da miseria suja do Porto, a mais repellente e odiosa de

todas as miserias.

Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes de

honestidade, de honra, de civismo e de labôr persistente, que fariam o

orgulho de todos os povos do mundo. Os seus habitantes são generosos,

hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e exemplo a quantos se

presam de possuir em elevado grau estas raras e nobilissimas qualidades.

Mas a par d'isto, quantos defeitos de educação, deprimentes da dignidade

de um povo que podia e devia ser o primeiro a marchar na vanguarda da

civilisação do seu paiz!

Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se, na sua grande maioria,

sujas, andrajosas, repellentes de immundicie, mãos e cara accusando uma

ignorancia absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente e

honesto precisasse d'estes ascorosos attestados da porcaria para se

fazer respeitar!

Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra terra de Portugal,

percorrem as ruas, descalças, esmadrigadas, as repas soltas, estrelladas

de lendeas, e os pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das

fraldas, escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!

E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos andrajos nas limpas

e asseiadas vestes da gente pobre que se lava! Uma pouca d'agua--e o rio

Souza, e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes offerecem

tanta!--e dez reis de sabão bastavam!

É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza nas classes proletarias,

uma das mais sympathicas e civilisadoras missões que estão reservadas á

imprensa periodica dos nossos dias.

Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam tantas doutrinas

salutares e tantas noticias perniciosas ás classes humildes, que por

elles se guiam e norteiam,--quando se não desnorteiam--não poderiam, com

um bocadinho de boa vontade e persistencia, encetar efficazmente a

propaganda da limpeza publica e particular dos cidadãos como base

primaria de toda a hygiene social e moral?

Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando da facil e comesinha

acção do romance para as considerações sabias e profundas de um sabio e

profundo auctor de originaes opusculos?

Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos, visto que não ha outro

remedio, o padre Filippe através dos corredores defumados e mal

cheirosos, resumando das paredes e do soalho podridão e esterco, até ao

humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria, quasi uma

mumia, enterrada sob um montão de farrapos.

É a sr.^a Maria do Carmo.

Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou para elle os olhos, em

que perpassou um lampejo de alegria, e disse com voz debil e quasi

extincta:

--Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.^a me ouça de confissão!

O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou, á luz de uma candeia

de azeite, espetada na parede, do lado da cabeceira, o rosto enrugado e

magro da pobre creatura.

--Então deseja reconciliar-se com Deus, não é verdade, minha irmã?

--Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me... A morte avisinha-se e

eu quero... preciso de alliviar a minha consciencia do peso de...

peccados que não sei se Deus m'os perdorá!--balbuciou a enferma, com voz

entrecortada e de cada vez mais debil.

--Deus é infinitamente bom, infinitamente misericordioso--aquietou o

padre Filippe--e está sempre prompto a perdoar á creatura que, humilde e

contrita, sente na alma o arrependimento da culpa e para ella implora o

divino perdão!

Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á cabeceira do leito e,

fazendo signal ás duas mulheres que o conduziram para que o deixassem a

sós com a enferma, continuou:

--Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em nome de Deus, cujo humilde

ministro sou, as vozes do seu arrependimento e absolvel-a... De que se

accusa?

A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em que se lia o pavor do

inferno, e principiou com voz lenta e abafada a seguinte narrativa:

--Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia todos os dias ouvir missa

e confessar-me, e Deus ajudava-me sempre com a sua divina graça, porque

desde que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca me faltou nada, e

havia muitas almas bôas que me soccorriam, compadecidas da minha

pobreza...

--Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa nunca o seu divino

amparo áquelles que na sua infinita misericordia depositam inteira fé e

confiança...

--Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de S. Bento da Victoria

conheciam-me todos... e faziam o favor e esmola... de serem muito meus

amigos...

--É porque reconheciam em vocemecê verdadeira devoção e temor de Deus...

--Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre com muito respeito... E

até quando via certas beatas fingidas--Deus me perdôe!--a fazerem da

casa do Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia um peso na

consciencia e ia-me logo confessar d'isso, como se fosse eu que tivesse

commettido o peccado... E aonde não chegava mandava... que era para

ellas terem vergonha!

O padre Filippe sorriu indulgente:

--E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade pouco edificante aos

olhos do Altissimo, que se arrepende agora e quer pedir perdão a Deus?

Tem razão, minha irmã! A moral do evangelho, a religião santa do

Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas do proximo e não

façamos d'ellas objecto de escandalo e de aggravo, com perda e offensa

da reputação d'aquelles que peccaram...

--Não é d'isso que eu me accuso, meu padre!--accudiu a velha reanimada

um pouco pelo prazer da confissão--Isso até os meus santos padres

confessores me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que os avisasse

de tudo o que visse e ouvisse, que era para elles não andarem a ser

enganados... e saberem quem tinha religião e quem não tinha...

O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão e de enfado, e

perguntou:

--De que é então que se accusa, minha irmã?

--Eu... de mim... não me accuso de nada, meu santo padre! Eu... o que

fiz... foi sempre com os olhos em Deus... e tudo para bem da santa

religião...

--Pois se não tem de se accusar de faltas proprias, as dos seus

semelhantes tambem não são as que hão-de fazer-lhe carga aos olhos do

Altissimo, se para ellas não concorreu nem estava na sua mão

impedil-as... Portanto, como onde não ha culpa não ha perdão, eu nada

tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem póde como vocemecê apparecer no

tribunal divino com a alma limpa de macula.

Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se para sahir,

quando a velha, estendendo para elle as mãos convulsas, bradou com

indizivel accento de pavôr:

--Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo, meu padre, ouça-me!

Ouça-me que eu quero... confessar-me!...

--Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão a confessar-se, creatura

de Deus?

--Como v. s.^a ainda me não perguntou nada...

--Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã... Vocemecê consulta a sua

consciencia, e se n'ella encontra escrupulo ou duvida de falta

commettida, confessa-a sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em nome

de quem eu a estou escutando...

A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse em voz sumida:

--É que eu... criei como se fosse meu filho uma creança... que era

filha... de um padre e d'uma mulher casada...

--E vocemecê concorreu d'algum modo para que esse padre e essa mulher

casada incorressem na falta que originou o nascimento d'essa creança?

--Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo de me confessar a

elle, na egreja de S. Bento, no tempo do sr. padre Couto, que era um

santo...

--Só Deus sabe quem é santo!--murmurou o padre Filippe, surprehendido ao

ouvir fallar no padre Anselmo.

--E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me a Braga para eu

tomar conta d'aquella creança debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe

devia muitas obrigações, trouxe-a e tratei a creança como minha... E o

sr. padre Anselmo é que pagava as despezas...

--Que nome tinha essa creança?--perguntou o padre Filippe, agora

interessado na estranha narrativa da velha.

--Chamava-se Hilario, meu senhor...

--Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico--disse o padre Filippe.

--V. s.^a conhece-o? Sabe d'elle? Onde está?--perguntou a velha.

--Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual das irmãs Dorothêas,

na Covilhã...

--É esse mesmo! É esse mesmo!--bradou a velha--E onde está agora?

--Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar n'elle... Supponho que

talvez haja partido para as missões ultramarinas ou viva em alguma casa

religiosa do estrangeiro...

--Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!

--Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter interesse na morte d'esse

obscuro sacerdote?...

--O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...

E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia, murmurando:

--Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter salvo... o meu pobre Hilario,

coitadinho!

E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em fio.

--Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não foi victima de nenhum

attentado como suppõe--disse o padre Filippe--A morte de um sacerdote

não é coisa que passe despercebida na sociedade, mormente se essa morte

é resultante de um crime. Ora eu não me recordo de ter lido a noticia do

fallecimento do padre Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que

leio todos os dias.

--Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!--murmurou

afflictivamente Maria do Carmo.

--Vive decerto--affirmou o padre Filippe, no intuito de serenar a

doente.

--Mas então porque não me escreve elle ha tantos annos? Eu que o criei

com tanto amor... eu a quem elle chamava mãe...

--Julgará que vocemecê já não é viva...

--Não... não!--tornou a velha--Mataram-n'o para o roubar!...

O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio nas palavras da velha

beata, perguntou:

--Como póde vocemecê ter semelhante suspeita? Pareceu-me ouvir-lhe ha

pouco que a mãe d'esse rapaz foi assassinada...

--Foi... foi...

--Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?

--Não... o marido não... Foi o outro... o proprio amante...

--Quem?

--O padre Anselmo!

--O padre Anselmo!--disse o padre Filippe com espanto.

--Foi em Lisboa...--continuou a velha enferma--D. Carlota, a mãe do meu

Hilario... separada do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito

testamento, deixando-me todos os haveres, para eu fazer entrega d'elles

ao filho...

--E entregou-os?

A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.

--Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me assignar um papel de divida a

um homem... um tal João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me levou

tudo, tudo!

O padre Filippe esforçava-se por comprehender a confusa narrativa da

velha.

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 5 / 28 段