--Paulo--disse elle afinal--se dizes que és um homem, como póde influir

no teu destino o saberes ou deixares de saber o nome d'aquelles a quem

deves a existencia? És um homem; e todos os homens devem ser guiados

pelo mesmo sentimento do bem, todos devem caminhar para o mesmo fim:

serem uteis a si e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber ou

ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada deve influir no destino

que lhe está traçado.

--Perdão, meu bom amigo!--objectou Paulo--Todo o homem tem o direito,

creio eu, de conhecer a sua origem, de saber o nome dos seus

progenitores, não só para os respeitar e bemdizer pelo beneficio da vida

que lhe concederam, mas ainda para nortear os seus actos pelas tradições

da sua familia. Por isso insisto na pergunta: quem é ou quem foi meu

pae?

--Teu pae--tornou o padre placidamente e agora de todo reposto do

sobresalto que lhe causára a pergunta--teu pae é ou foi um homem. D'isso

não te deve restar duvida, pois que homem te dizes já e como homem te

apresentas.

--Mas não tinha nome esse homem?

--Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.

--Nem o nome de minha mãe?

--Nem o nome de tua mãe.

--Como é, pois, que eu me chamo Paulo de Noronha?

--Naturalmente porque aquelles que te deram o sêr assim quizeram que te

chamasses.

--Assim quizeram! A quem manifestaram elles essa vontade? São ainda

vivos? Se o são, porque se occultam e me não apparecem? Se morreram,

porque motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?

--A nenhum filho é licito discutir e muito menos censurar os actos de

seus paes.

--Mas eu não censuro, nem sequer discuto!--obtemperou Paulo--eu apenas

pergunto.

--Ha perguntas que envolvem censura, se não para aquelles a quem se

fazem, pelo menos para aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,

que estranha curiosidade é essa que assim te move a querer saber o que

por emquanto deves ignorar?

O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim disse:

--Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com franqueza e lhe exponha

as duvidas que ha tempo a esta parte me obcecam o espirito e me fazem

reflectir na minha estranha situação...

--Falla, meu amigo, falla!--animou o padre bondosamente--e crê que, a

não sêr madre Paula, ninguem no mundo merece tanto como eu a tua

confiança.

--Pois bem!--tornou Paulo--ha muito tempo que eu dirijo a mim mesmo

estas perguntas: Quem sou eu? De que familia descendo? Como se chamam ou

se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos dizem de quem são

filhos, todos repetem com orgulho o nome dos paes ou relembram com

saudosa ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha casa, a minha

familia», só eu não posso dizer--_meu pae_, _minha mãe_, porque são

entes que não conheço, de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a

menor noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que não tivesse

mãe? Mas então a quem devo eu a minha existencia, o amparo e protecção

que até agora tenho recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo e

alimento-me do que por direito de nascimento me pertence, ou recebo a

esmola de nobres almas compassivas? No primeiro caso, se tenho direitos,

reclamo-os, porque esses direitos impõem-me deveres que eu quero

respeitar e cumprir. No segundo, como sou já um homem e tenho o braço

bastante robusto para ganhar o pão da existencia, não devo por mais

tempo acceitar criminosamente a caridade que me trouxe até aqui e que

póde fazer falta a outro desgraçado como eu!

--Paulo!--disse o padre Filippe, fundamente commovido--és ainda muito

novo para te preoccupares com assumptos que, por emquanto, devem

permanecer envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e aos

meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.

--É então á caridade de vossa reverendissima e de madre Paula que eu

devo o pão que até agora me tem alimentado, não é assim?--perguntou o

mancebo, extraordinariamente commovido e pallido.

--Não! Não!--atalhou padre Filippe.--Eu recebi de um meu superior, a

quem assisti nos ultimos instantes, o encargo de velar por ti e de

applicar ás despezas da tua sustentação e educação a quantia que

mensalmente me é enviada por pessoa que desconheço e que já antes a

enviava ao santo sacerdote que me legou este encargo. A mim nada me

deves, meu filho, senão a grande estima que tenho por ti e o grande

desejo que sinto de te vêr conquistar uma posição digna e honrosa na

sociedade.

Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas de suavidade e

doçura, impressionaram-n'o profundamente.

--Estou então condemnado--disse elle, passados instantes--a ignorar toda

a vida o nome de meus paes?

--E de que te valeria o sabel-o?

--De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que córar diante de quem me

interrogar a esse respeito! Valer-me-hia de não ter que recuar

envergonhado e confundido diante de uma familia honesta que, antes de me

admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me o nome de meus

paes! Valer-me-hia, emfim, de não me encontrar n'esta horrorosa situação

de não saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado, se o vil

e abjecto fructo de uma acção indigna, de um amor bestial e criminoso!

Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre Filippe sorriu ainda

amoravel e observou-lhe:

--Os tempos mudaram e com elles a orientação da sociedade moderna, meu

Paulo. Já nenhum homem se impõe hoje pela familia, pelas tradições dos

seus antepassados, pelas chimericas e phantasticas illusões de uma

arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões inuteis pelos

seculos fóra. Nenhum homem vale hoje pelo que valeram seus paes e seus

avós... Hoje, cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,

pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes manifestações

da sua intelligencia. A tendencia democratica dos nossos tempos de ha

muito que pôz de parte as falsas convenções de uma sociedade que se

desmoronou...

--Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da honra!--retorquiu o

mancebo.

--Decerto. E alguem te impede de te affirmares sempre um homem honrado,

Paulo? A honra está nos nossos actos, está no uso que fazemos das

faculdades com que a natureza nos dotou, está na firmeza e altivez com

que, através de todas as vicissitudes, cumprimos intemeratamente o nosso

dever; não está nos acasos do nascimento, nos brios de passados

avoengos, nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr. Faze, pois,

por merecer a estima e o respeito dos teus concidadãos, Paulo, e não te

preoccupe a ideia de não saberes de quem vens. Basta que apenas conheças

para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do dever.

O mancebo guardou silencio por alguns instantes.

--É, pois, um mysterio impenetravel o meu nascimento? Mas com que

direito se me occulta o nome de meus paes? Com que direito me condemnam

a esta lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que me dão o devo

receber como meu, se o devo considerar como uma esmola?

--Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste, proferiste a

palavra _esmola_. As esmolas dão-se aos desgraçados, aos invalidos, aos

que se encontram impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem aos

meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso. Quando muito, o que

recebes de mão ignota que não precisas conhecer, é um adiantamento, uma

divida que contrahes e que te será facil solvêr, correspondendo

dignamente ás esperanças que em ti depositaram os que quizeram fazer-te

um bom cidadão, um homem util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto,

meu amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me--continuou o padre

Filippe--tens ido visitar madre Paula?

--Ha mais de quinze dias que a não vejo.

--És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter estranhado a falta da tua

visita... Como é que pódes esquecer assim por tanto tempo quem tantas

provas de carinhoso affecto te tem dado?

--Padre--disse Paulo, ruborisado--eu não esqueço, nem poderei esquecer

nunca quanto devo a essa bondosa e santa senhora, que tem tido para mim

desvelos e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém, começam a surgir

tão imprevistas luctas, incidentes de tal modo inquietadores, que não

sei se deva perturbar com a minha presença o suave remanso d'aquella

existencia para mim tão cara!

--Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...--O que é isso, Paulo?

Falla-me com franqueza, dize-me tudo, rapaz! O que é que te acontece de

estranho e de ameaçador? Não te esqueças de que deves considerar-me o

teu primeiro e mais sincero amigo, meu filho! Creio que tenho direito á

tua confiança... Ou não?

--Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o com assumptos que

lhe parecerão talvez pueris...

--Bem sei!... Negocios do coração... Temos amores no caso... São os

primeiros rebates da virilidade no coração de um adolescente. Vamos!

quem é a tua Virginia, meu Paulo?--perguntou jovialmente o sacerdote.

--A minha Virginia--disse o mancebo, com enthusiasmo--chama-se Beatriz,

e não é menos formosa nem menos adoravel do que a immortal inspiradora

do Dante.

--Bravo!--exclamou rindo o padre Filippe.--Temos, pois, em perspectiva

uma _comedia divina_, para fazer confronto com a _Divina Comedia_...

--Se não tivermos antes um drama extraordinario, até agora inédito na

historia dos soffrimentos humanos...

O padre encarou-o gravemente.

--Fallas serio, Paulo?

--Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre Filippe, sobre a

historia do meu nascimento.

--Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia, pedir-me a chave do

enygma da tua existencia? Eu devia tel-o adivinhado... Só as mulheres

são curiosas por indole...

--Não, não!--atalhou Paulo.--A mulher que eu amo ainda não me fez a

menor pergunta que me difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo

saber quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.

--Pois não é sufficiente o coração do homem que ama para a mulher amada?

--Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem pae, que se julga com

direito a intervir no seu destino e a impedir que sua filha busque a

alliança de um homem de origem... desconhecida.

--Foi essa menina quem t'o disse?

--Disse-m'o a minha propria razão.

--Queres um conselho, Paulo?--perguntou inopinadamente o padre Filippe.

--Os conselhos de vossa reverendissima são para mim leis sabias e

justas, que eu não posso deixar de acatar com o respeito e gratidão que

lhe devo.

--Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por essa menina e busca

antes de tudo fazer-te digno do seu amor.

--Já o sou.

--Pelos dotes do coração, concordo, mas não pela posição social

alcançada. O primeiro que o pae d'essa menina ha-de perguntar-te, quando

souber que lhe pretendes a mão da filha, é com que recursos contas para

proporcionares a tua mulher a felicidade e o bem estar a que ella tem

direito. Quererá saber que posição é a tua, que profissão exerces ou de

que meios de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a na

sociedade ao respeito e á consideração das pessoas de bem. E

comprehendes, meu Paulo, que a taes perguntas não se responde com uma

certidão de baptismo que nos dá avós illustres de quem não herdámos um

palmo de terra onde cahir mortos, nem com a reedição apaixonada dos mil

juramentos de amor constante que enviamos á filha em perfumadas

cartinhas que lá estão, em maço, amarradas com fita de seda...

O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas palavras do padre Filippe,

que denunciavam um profundo conhecedor da arte do galanteio.

--Os paes não se contentam com tão pouco, exigem mais alguma

coisa--continuou o sacerdote--Ora esse _mais alguma coisa_ é que está na

tua mão offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho

honesto uma posição que te nobilite aos olhos do mundo; engrandece-te a

ti proprio, torna-te homem; e quando a tua consciencia te disser que não

és inferior á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que o pae te

não encontre bastante nobilitado para entrares na sua familia.

--Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!--exclamou o mancebo,

dando largas ao desespero que lhe ia na alma.

--O pae d'essa menina sabe que ella te ama?

--Não sabe.

--É, pois, natural que, julgando o coração da filha desligado de

qualquer affeição, pense em lhe proporcionar um enlace que lhe parece

vantajoso. Todos os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não o

seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe o

coração e a impor-lhe á força um casamento que ella rejeita, vae uma

distancia enorme. Se essa menina te ama sinceramente, como dizes,

recusará o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo que

para todos os paes deve ser sagrado--a ausencia absoluta de sympathia

pelo noivo proposto. Se, pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por

ti não é tão vivo e intenso que lhe permitta a recusa, casar-se-ha, e

com o facto só tu tens a lucrar, pois que assim te livras do escolho de

vires a possuir por companheira uma creatura incapaz de corresponder ás

nobres aspirações da tua alma. Não creio, pois, que isso seja

contrariedade de maior, que te dê motivos para os sobresaltos e

inquietações que revelas. Vae visitar madre Paula, meu rapaz...

Conta-lhe os segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como nas

suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego e quietação que

precisas... Isto não é desviar de mim o encargo de te guiar e dirigir no

accidentado caminho a que o coração te propelle--accrescentou o

padre--Mas é que as mulheres, em questões do coração, teem mais

auctoridade, são mais profundamente conhecedoras da mysteriosa sciencia

do sentimento alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a nós

outros os homens nos fallece. Procura madre Paula, conta-lhe tudo,

escuta as suas palavras e verás que has-de sentir-te bem, meu filho.

--Procural-a-hei--disse Paulo--mas creio bem que não poderá

aconselhar-me melhor do que vossa reverendissima acaba de o fazer; nem

as palavras da santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda ao meu

espirito a convicção que vossa reverendissima me deu de que preciso

engrandecer-me, fazer-me _homem_ para conquistar a posse da mulher que

amo!

--Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito das minhas palavras,

Paulo. Crê que ninguem mais do que eu deseja a tua felicidade e o teu

bem estar. Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente

nem desejaria com mais ardor ver-te ascender a uma posição culminante.

D'isso pódes estar certo.

--Trabalharei e empregarei todos os esforços para realisar os desejos de

vossa reverendissima--que são tambem os meus.

--E conseguil-o-has, porque és intelligente, és energico, e revelas

nobreza de caracter. Com taes predicados, só não alcança uma posição

distincta na sociedade quem não quer.

Agora, reanimado pela esperança que as palavras do padre Filippe lhe

incutiram, o mancebo despediu-se do seu protector, mais que nunca

resolvido a encetar a lucta pela vida e pelo triumpho completo das

nobres aspirações do seu amoroso coração de rapaz.

III

Pae e filha

Emquanto o pupillo do padre Filippe e de madre Paula busca a maneira de

realisar os dourados sonhos da sua imaginação juvenil, queira o leitor

acompanhar-nos a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento com o

sombrio progenitor da encantadora menina.

Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para occultar do pae as

relações com a filha, justo é que busquemos o conhecimento de ambos e

entremos na intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o caracter

de cada um e apreciar os acontecimentos que vão desenrolar-se aos nossos

olhos.

Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de Jesus sentado á secretária

do seu gabinete, fazendo contas e archivando documentos que parece lhe

são muito uteis, pela attenção e minuciosidade com que os examina e pelo

cuidado com que em seguida os guarda emmaçados e rodeados de uma larga

cinta de papel branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal, a

palavra--Hypothecas.

--Estas bem estão--murmura elle coçando distrahidamente com a mão

direita a vasta suissa grisalha, talhada em fórma de foucinha e

franzindo o labio superior completamente rapado á navalha, talvez para

facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito em repetidas

pitadas nas profundezas insondaveis de um nariz que exteriormente

apresenta a configuração e o aspecto de um capacete de alambique--Estas

bem estão... O peor são as outras...

Passou a examinar segundo maço, mostrando no rosto evidentes signaes de

mau humor.

--Aqui está!--disse elle, batendo com a mão espalmada sobre os

papeis--Mais de cincoenta contos em hypothecas que não pagam ha um anno

um real de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda vir fazer questão

para juizo e arranjar-me a tramoia de modo que eu não fique com as

propriedades pelo preço da louvação...

Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam no sr. Custodio de

Jesus um agiota costumado a perseguir as suas victimas até as espoliar

em leilão, nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e entrou por

ella um homem alto, espadaudo, porém excessivamente magro, usando uma

comprida barba que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á

physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz de apavorar o mais

remisso devedor, o mais teimoso dos litigantes.

Este homem entrou como pessoa intima na casa, cerrou a porta sobre si,

dirigiu-se a uma cadeira que estava devoluta junto da secretária, e

sentou-se sem mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que lhe

ensombrava o barbudo rosto.

Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso de intimo

contentamento e exclamou:

--Estava agora mesmo a pensar em você, amigo Belchior!

--Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na occasião... Não vim mais cedo

porque tive de ir ao tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho

outro... Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só gostam de comer e

não pagar! Mas aquelle que me cahe nas unhas e tem por onde pagar,

amola-se! Deixo-o expremido que nem um limão.

--É o que eu preciso que se faça a estes tratantes que aqui estão com o

juro por pagar!--exclamou o sr. Custodio de Jesus, apontando para as

escripturas que tinha diante de si.

--Não se afflija, que isso é negocio de pouca demora... Qualquer dia

tratamos d'isso. Sabe ao que eu cá venho?

--Você o dirá, amigo Belchior.

--O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e um partidão!

--Sim?

--Não imagina! É mesmo mais rico do que eu supunha... O melhor que temos

a fazer é não perder tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.

--Você bem sabe que o caso não é para pressas, amigo Belchior... Eu

mesmo tenho receio do rapaz... Diz você que elle tem uma grande fortuna,

e eu mesmo não duvido que assim seja, mas quem é que me assegura que

elle não tem a maior parte dos haveres compromettidos, ou que não possa

vir a compromettel-os?

--Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe que o rapaz tem sido

estroina, tem gasto em passeios, em ceias com as actrizes, tem

finalmente pago o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas

não teem desfalcado o rendimento, que é grande... Quanto á segunda

hypothese, é provavel que elle, depois de casar com sua filha, mude de

feitio e comece a portar-se como homem sério... Mas se o não fôr, tanto

melhor...

--Tanto melhor, como?--interrogou o sr. Custodio de Jesus,

indignado.--Então é melhor que minha filha case com um valdevinos, um

dissipador, um extravagante? Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,

meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me custou muito a

ganhar, e não é para o vêr dissipado em patuscadas e ceias ás actrizes!

--O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem como é que se ganha

dinheiro, como se descontam letras e se empresta a juro sobre hypotheca;

mas o que não sabe é nada de jurisprudencia--disse o Belchior com

emphase.--É preciso que o meu amigo se lembre de que sou solicitador ha

mais de vinte e cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho

adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar o que é meu e o que é

dos meus constituintes...

--Não digo que não, mas essa theoria, com franqueza, não me agrada... Lá

que o rapaz tenha tido estroinices, emfim, não é bom precedente, mas

desde que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento, tudo

se lhe póde perdoar e esquecer com a condição de mudar de vida e de

costumes dissipadores, logo que ligue o seu destino ao de minha filha.

Mas agora achar melhor que elle continue nas suas dissipações e

loucuras, do que se emende e seja um bom marido, isso é que me não entra

cá!

--É o que eu digo!--volveu o procurador com desdem--não sabem nada da

lei e mettem-se a discutir com quem conhece a letra dos codigos!

--Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que quizerem, mas o que

elles não pódem é metter-me em cabeça que um marido estroina é muito

melhor do que um marido economico, morigerado e amante de sua mulher.

--É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus--respondeu o procurador,

formalisado--não sabe que a lei faculta uma acção de interdicção contra

o marido prodigo, e confere a administração do casal a uma ou mais

pessoas de familia.

O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.

--O quê? O que é isso? Explique lá, homem, que eu não percebi bem.

--Não tem que explicar. Não se fazem escripturas, de modo que a noiva

tem a meação nos haveres de seu marido, como o marido a tem nos haveres

da mulher. Ora a administração do casal pertence de facto e por lei ao

marido; mas se este, em vez de administrar parcimoniosamente, se entrega

a dissipações e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito de

requerer a interdicção do marido e pôr-lhe uma tutela que, n'este caso,

poderia muito bem ser exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...

Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais valerá que elle

continue a affirmar-se um estroina, um dissipador de marca?

--Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha privilegiada! exclamou

enthusiasmado o pae de Beatriz.--Porque não estudou você para doutor?

O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os hombros com despreso:

--Não me faz falta--disse.--Conheço tão bem a lei como aquelles que

fôram a Coimbra. Por isso lhe digo, não deixe perder esta bella occasião

de apanhar uma fortuna, que decerto lhe não voltará tão cedo a bater á

porta outra igual... Case a pequena quanto antes com o doidivanas que se

lhe offerece, e deixe o caso por minha conta.

--Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito gosto em que ella

acceitasse por marido este rapaz...

--E ella, o que respondeu?

--Como o meu amigo póde bem avaliar, minha filha, que até agora não tem

pensado em casamento, caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.

--Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido que se lhe propõe?

--Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta... Emfim... deseja

consultar o seu coração, e isso não se lhe póde levar a mal...

--Bem! Mas supponha que ella recusa...?

--Que motivo terá para recusar quando sabe que a minha vontade é que

este casamento se faça e quando o noivo é realmente uma bella figura,

capaz de captar as sympathias da menina mais exigente?

--Mas supponhamos que recusa!--Insistiu ainda o procurador.

--Não posso suppôr tal cousa, porque não estou habituado a que, em minha

casa, alguem tenha vontade differente da minha.

--Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo... eu creio que o

meu amigo tenha sido e continuará a ser completamente obedecido... Mas

n'este caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que suppõe...

--Por que?

--Porque as mulheres, quando encarreiram as suas affeições para um lado,

não ha diabo que as faça voltar para outro, amigo e sr. Custodio...

--O que quer dizer com isso, amigo Belchior?

--Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi namoro que lhe faça

andar a cabeça á roda, ao meu amigo não lhe será tão facil como julga o

fazer que ella obedeça á sua vontade...

--Namoro! A minha Beatriz é uma creança de dezeseis annos e não pensa

n'essas tolices!--protestou o sr. Custodio de Jesus encrespando o

sobr'olho.--Isso é bom para aquellas raparigas que são educadas á redea

solta e que não teem paes que lhes saibam dar educação... Namoro! Eu

admittia lá que uma filha minha tivesse namoro!

--As filhas nunca pedem licença aos paes para essas coisas...--commentou

o outro.

--As filhas que não respeitam os paes ou que não teem paes que se façam

respeitar, d'accordo. Mas em minha casa não se dá isso...

--E se se desse?

--Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?

--Se se desse, é o que eu pergunto?--retorquiu o procurador com um

sorriso mysterioso.

Os Filhos do Padre Anselmo · 第 2 / 28 段