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Rita Farinha (Fev. 2008)
SÁ D'ALBERGARIA
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
ROMANCE
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE
*Lello & Irmão, Editores*
1904
Typ. a vapor da Empreza Litteraria e Typographica
178, rua de D. Pedro, 184
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
I
Os irmãos da mão negra
O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar pausadamente as doze
badaladas da meia noite.
O tempo estava brusco e o vento, soprando da barra em frias e cortantes
rajadas, punha arrepios nos transeuntes que, levantadas as golas dos
casacos e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal desfeito.
Era em fins do outono.
As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas pela ventania asperrima,
despiam-se das suas ultimas folhas amarellecidas, n'um agitado e
sussurrante protesto de espoliadas.
Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres da Patria, veria,
encostado a uma das arvores que orlam o jardim, defrontando com a praça
do Peixe, um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso rugir d'aquella
noite agreste e frigidissima.
Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a meia noite no relogio
da torre, levou a mão ao bolso e, aproximando-se de um dos candieiros da
illuminação publica, consultou o seu relogio.
--Aquelle anda adiantado cinco minutos--murmurou.
E deu alguns passos distrahidamente como para illudir a sua impaciencia.
Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão, notaremos que é um
rapaz de 18 annos, decentemente vestido e de gentil presença, não
obstante as feições finas e delicadas quasi lhe desapparecerem
encobertas pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.
Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento do jardim, quando do
lado da rua do Calvario avançou a trote rasgado um trem, que parou em
frente d'elle.
--És tu, Paulo?--disse de dentro uma voz.
--Sou.
--Entra depressa, que a noite está agreste!
E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola, facilitando-lhe a
entrada.
O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro, a portinhola
fechou-se, e os cavallos seguiram no seu trote largo, dobrando a rua da
Restauração e subindo a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.
Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se trava dentro d'elle.
Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara e que era um homem de 28
a 30 annos, desceu rapidamente as cortinas do carro e disse para o seu
joven companheiro:
--Meu amigo, como já te expliquei, isto são negocios em que se requer a
maior circumspecção e escrupulo na observancia das praxes. Has-de
consentir que te vende os olhos.
--Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
--De modo algum. Mas é uma obrigação que o regulamento me impõe, e eu
não posso faltar a ella sem trahir o meu dever.
--Pois bem, seja!
O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então do bolso um lenço e
vendou com elle os olhos do companheiro.
--Has-de dar-me a tua palavra de honra que não tentarás arrancar a venda
sem que para isso recebas ordem...
--Dou. Mas se o fizesse?
--Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
--Apre!--fez o outro, sorrindo--vocês são intransigentes!
--Está n'isso a nossa força. Não violentamos ninguem a seguir-nos, damos
ampla liberdade a cada um de rejeitar a nossa associação, mas defendemos
a nossa existencia e mantemos o nosso segredo.
--É justo.
--Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu juramento, reconsiderar
e exigir que te restituam a liberdade. Nenhum mal te acontecerá por
isso, a tua vontade será respeitada, a tua independencia mantida. Mas
não saberás dizer onde estiveste nem as pessoas com quem fallaste.
--Poderei dizer que fallei comtigo...--gracejou o outro.
--Que importa? Eu não sou uma associação. Comigo póde fallar toda a
gente...
--Fallemos sério!--tornou o moço que dava pelo nome de
Paulo.--Asseveras-me que os intuitos d'essa associação em que vou entrar
são em tudo dignos das justas aspirações de um homem de bem?
--Assevero-te que os irmãos da _Mão-negra_ comprehendem e cumprem á
risca o nobre dever de se auxiliarem e defenderem mutuamente contra as
prepotencias sociaes da nossa epoca. No nosso gremio desapparecem as
differenças de gerarchia e de dinheiro. Não ha pobres, porque todos
somos ricos da riqueza e da importancia dos nossos irmãos.
--Poderei então contar com o auxilio da Associação na conquista da
mulher que amo?
--Decerto--volveu o outro.--Tanto como amanhã qualquer de nossos irmãos
poderá contar com o teu auxilio para a realisação dos seus desejos. Isto
é apenas uma associação de soccorros mutuos, meu caro Paulo. A mulher
que amas será tua desde que te filies no nosso gremio. Comprehendes que
toda a acção da _Mão-negra_ se resume em tornar felizes e ricos os seus
irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade lhe advem a ella a
força, o poderio, a importancia.
O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido, sem que Paulo,
entretido na conversa, parecesse ter notado o tempo gasto na corrida.
--No emtanto--accrescentou ainda Jorge--os fins e intuitos da Associação
vão sêr-te ainda expostos e confirmados por pessoa idonea e mais
competente de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo escrupulo,
poderás renunciar ao teu intento, com a unica condição de não tirares a
venda nem tentares deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...
--Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos do meu
caracter!--protestou o mancebo.
O trem parou em frente de um portão largo, que dava accesso a uma vasta
quinta murada.
Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.
--Chegámos!--disse elle.
Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo, transpoz o portão, que
se abriu mysteriosamente, tornando a fechar-se sem ruido.
--E o cocheiro?--perguntou o mancebo.--Não receias a sua indiscreção?
--É um dos nossos irmãos--respondeu simplesmente o outro.
--Apre!--tornou o mancebo alegremente.--Eis aqui o que se chama um
serviço bem montado!
Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa e sombria vereda de
ramadas até o fazer entrar n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram
seguindo em silencio.
--Já estamos em casa!--disse Paulo.
--Porque?--perguntou o outro.
--Sinto-o pela differença de temperatura.
--Ainda não... Vamos entrar agora...
E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle um silvo agudo e
prolongado.
Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os dois entraram n'um
pequeno recinto em que os passos se amorteciam, abafados no tapete.
--Pódes tirar a venda--disse Jorge.
O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande assombro seu, achou-se
sósinho n'uma sala forrada de crepes, tendo ao centro uma mesa coberta
de velludo preto e em que pousava uma caveira, allumiada por duas velas.
Um momento impressionado pelo sinistro aspecto da sala e pelo funebre
quadro que se lhe offerecia á vista, o mancebo empallideceu e recuou um
passo, aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior á que
seria de esperar na sua edade, breve retomou o sangue frio e lançou um
olhar de glacial indifferença para a caveira.
--É singular!--pensou comsigo.--Entro na vida pela visão da morte!
Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma voz soturna e cavernosa
resoar na sala:
--Medita!--disse aquella voz.
O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a vêr quem lhe fallava.
Não viu pessoa alguma.
Passeou então os olhos curiosos pelas paredes forradas de crepes e não
descobriu a porta por onde tinha entrado.
Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre recinto, não o
poderia fazer, por não encontrar sahida.
Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.
--Medita!--tornou a voz a repetir.
Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo cruzou os braços sobre
o peito e ficou encarando fito a caveira.
N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim por muito tempo.
Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido na associação secreta da
_Mão negra_, era preciso dar provas de energia, coragem e inquebrantavel
força de vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos tinham
de sujeitar-se eram rudes e de molde a fazerem tremer o mais ousado.
Elle, não obstante, insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores
perigos com animo sereno e tranquillo.
--Principiou a prova!--pensou--julgam-me uma creança assustadiça, capaz
de me apavorar com este apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança
é um homem, que póde disputar primasias de coragem aos mais fortes.
E n'esta resolução avançou para mesa, estendeu o braço e ia a tocar no
funebre despojo, quando a voz mysteriosa recuou de novo, gritando:
--Detem-te! O que ias fazer?
--Tocar n'esta caveira--respondeu o mancebo com voz tranquilla.
--Com que fim?
--Com o fim de provar que a ideia da morte me não apavora.
--Que pensamento te suggere a vista d'esse triste despojo humano?
--Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos para a mesma miseria...
--E depois?
--Depois, que a Morte é a niveladora implacavel do genero humano.
--Assim, crês que na Morte se confundem bons e maus, virtuosos e
impuros?
--Creio que, materialmente, tudo se confunde na mesma podridão.
--Materialmente, disseste?
--Disse.
--Crês então que vicio e virtude são coisas indifferentes, visto que
tudo se apaga ao mesmo gelido sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo
do Nada?
--Não.
--Explica-te.
--Do homem subsistem as ideias, os pensamentos, os actos bons ou maus de
toda a sua vida. Esses não tem a Morte o poder de os anniquillar.
--Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem é esse craneo?
--De um meu irmão.
--É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio? Será de um ignorante?
Será de um homem honesto? Será d'um criminoso? Será d'um nobre? Será
d'um plebeu?
--Ignoro.
--Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?
--Não! Confesso apenas que na Morte todos teem egual direito ao respeito
dos vivos.
--Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos devem confundir-se no
mesmo respeito, como queres que se distingam os bons dos maus?
--Pelo que d'elles fica no mundo e não morre. Dize-me o nome d'aquelle a
quem pertenceu este craneo, e se elle foi um sabio, um artista, um
litterato, um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
assignalada no mundo por obras de grandeza e de virtude, eu te
recordarei as suas conquistas scientificas, os seus quadros, os seus
livros, os seus versos, as nobres acções e exemplos com que se perpetuou
na humanidade emfim.
--Tens religião?
--Tenho.
--Qual?
--A do Bem.
--A que vieste?
--Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra o Mal.
--Sabes o sacrificio a que isso obriga?
--A todos os sacrificios me sujeito.
--Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a obediencia cega e passiva
ás ordens dos que dirigem o nosso gremio constituem a principal condição
para seres admittido entre nós.
--Acceito-a.
--Terás que resistir ás tuas proprias paixões, terás que dominar os mais
irresistiveis impulsos do teu coração, para só obedeceres á lei da nossa
Sociedade; terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
familia--tudo, ao bem de teus irmãos, quando isso te fôr reclamado.
--Obedecerei.
--É preciso que o braço execute o que a cabeça ordena. Tu serás o braço.
O chefe invisivel da nossa Associação é a cabeça. Se fôr preciso
derramar sangue, ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro, uma
vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?
--Sem a menor hesitação.
--Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento que não póde ser
quebrado nem illudido. Em toda a parte onde te encontres, seja qual fôr
a posição social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado ou n'um
logar deserto, o olhar invisivel da nossa Associação seguir-te-ha por
toda a parte. A _Mão-negra_, cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
vingadora e terrivel, como a propria mão da Providencia, impedirá teus
passos e guiará o teu destino. Não mais te pertencerás a ti; pertencerás
aos teus irmãos. Senhor liberrimo das tuas acções até agora, vaes
reduzir-te por um juramento ás condições d'um escravo, mais que d'um
escravo--d'um simples automato. O teu cerebro não mais pensará para ti;
o teu coração não mais sentirá por ti. Cerebro e coração teem de
emmudecer perante as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas vezes,
da nossa Associação. Terás força para tanto?
--Terei--respondeu firmemente o mancebo.
--Pareces corajoso--observou a voz mysteriosa--pareces ter em pequena
conta a propria vida.
--Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.
--A ideia da justiça é relativa. O que para uns é justiça para outros é
iniquidade. Os irmãos da _Mão-negra_ não teem o direito de discutir e
apreciar as ordens que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o dever
de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves um punhal no teu
coração, não terás o direito de discutir a justiça do sacrificio; apenas
terás que obedecer.
--Experimentem.
--Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria vida te é fácil,
outros sacrificios te pódem ser mais penosos. Estás em tempo: se não te
sentes com animo e coragem para te prenderes a nós por toda a
vida,--vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao sitio d'onde
vieste.
--Não!--respondeu o mancebo com energia--Eu não sou dos que recuam.
Quero ser dos vossos.
--Estende a mão sobre essa caveira e jura que queres ser submettido á
_prova_!--ordenou a voz.
Paulo estendeu a mão sobre a caveira:
--Juro--disse elle--que desejo ser um dos irmãos da _Mão-negra_ e estou
prompto a submetter-me á prova que me for imposta!
Quando acabou de proferir este juramento, sentiu que lhe tocavam no
hombro. Voltou-se e viu diante de si um vulto athletico, sinistramente
vestido de preto e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
aguazis do Santo Officio.
Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de novo os olhos. Em
seguida disse:
--_Á prova!_
Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso corredor até parar em
frente de uma porta, a que bateu de maneira mysteriosa e symbolica.
--Quem sois?--perguntou de dentro uma voz, sem abrir.
--Irmão--respondeu o mysterioso guia de Paulo.
--D'onde vindes?
--Da Ala negra.
--Que trazeis?
--Um novo braço.
--Que busca elle?
--A mão.
--Quem vos guia?
--S. Miguel.
A porta abriu-se.
--Passae!--disse um homem, igualmente envolto n'um habito preto e o
rosto coberto pelo capuz.
Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala ampla, abobadada, de
paredes escuras e illuminada apenas por um globo enorme de vidro, seguro
por uma phantastica _mão negra_, que pendia do tecto.
Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e impassiveis, n'uma
immobilidade de estatuas, muitos vultos negros, com o rosto inteiramente
occulto sob o capuz do habito.
Em cada uma das paredes avultava uma grande mão negra, sustentando
punhaes e espadas, em panoplia.
Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se uma especie de throno,
assente sobre quatro formidaveis dragões e todo coberto de crepes.
Occupando esse logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava uma
figura mysteriosa como as suas companheiras e como ellas silenciosa e
immovel.
O _irmão_ introductor de Paulo avançou, silenciosamente, com o mancebo
pela mão, até curta distancia do throno, parou, levou a dextra ao peito,
movendo o pollegar rapidamente, de modo a descrever com elle uma cruz, e
ficou de cabeça curvada, em attitude respeitosa.
--Que quereis, irmão?--interrogou o vulto que se sentava no throno e que
era sem duvida o chefe da seita.
--Que escuteis e recebaes sob vossa protecção este meu companheiro, que
pretende entrar na _ala_ como combatente.
--Fiaes d'elle?
--D'elle fio, senhor!
--S. Miguel vos proteja!
--O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar o seu logar junto á
parede, em fila com os seus companheiros.
Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.
--Que pretendeis, mancebo?--interrogou o chefe.
--Combater.
--Que armas trazeis?
--A submissão, a energia e a lealdade--disse Paulo.
--Boas armas são essas quando temperadas ao fogo vivo do sentimento do
Bem e da Justiça. Que vos falta?
--A força da _Mão-negra_.
--A _Mão-negra_ só dispensa a sua força e o seu amparo aos que tudo lhe
sacrificam com coragem, valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem
os timidos nem os cobardes.
--Não o sou.
--Dizer é facil; provar é difficil. Quereis sujeitar-vos á prova?
--Estou prompto!
--Reparae que podeis perder a vida na jornada aspera que ides
emprehender.
--A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe applicação util.
--É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos de que, sem perderdes a
vida, podeis perder a esperança da felicidade, que é a vida do coração,
o objectivo da existencia.
--Tudo sacrificarei aos meus irmãos.
--É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada que tendes a percorrer
antes de chegardes á _Mão-negra_, encontrareis mil perigos e mil
precipicios terriveis, que sereis obrigado a transpôr ou a morrer.
Avançado o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal, recuar é
impossivel; a menor hesitação é a morte. Só uma coragem admiravel e uma
força de vontade rara pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.
--Irei e hei-de chegar.
--Pois bem, vinde!
Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão, abriu uma porta ao lado da
parede e, empurrando-o para dentro d'ella, disse:
--Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro subterraneo até ao
fim. Tereis que luctar com o fogo, com a agua, com os homens e com as
feras, antes que chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e que
S. Miguel--que venceu o dragão--vos dê força e coragem.
O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a venda e embrenhou-se n'uma
escura e estreita galeria subterranea, que foi seguindo com estranha
ousadia.
A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde punha os pés.
Algumas duzias de passos andados, um subito clarão illuminou o
subterraneo. Paulo, deslumbrado, levou as mãos aos olhos. Na sua frente,
erguiam-se as chammas pavorosas de um incendio, que avançava para elle
em linguas de fogo, ameaçando devoral-o. Dir-se-hia que uma enorme
represa de alcool ou de petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia
inundar o subterraneo, transformando-o n'um immenso forno crematorio.
O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na face o calôr das chammas,
nem por isso se deteve. Caminhou audaz e resoluto para o perigo,
disposto a deixar-se queimar vivo antes que retroceder.
Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se subitamente,
tornando mais densa a treva do corredor.
Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso e sinistro de uma
enorme queda d'agua, que se despenhava em catadupas de uma rocha que
obstruia a passagem e que parecia o remate d'aquelle medonho e tenebroso
subterraneo transformado n'um lago.
A agua despenhava-se de tal altura e com tal fragor que, batendo nas
pedras, resaltava, esparrinhando com tanta violencia, que algumas gottas
vinham açoitar o rosto de Paulo.
Á primeira vista, parecia impossivel transpôr aquelle enorme pégo sem
perecer afogado. Uma dubia luz, coada por uma pequena abertura na
abobada do subterraneo, esclarecia o medonho passo.
Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as barreiras ou morrer,
avançou corajoso, fechou os olhos e atirou-se á agua. Com grande
assombro seu, achou-se em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
com ella o ruido pavoroso da corrente.
A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle caminhava afoito,
quando, de repente, se sentiu agarrado e preso por duas fortes e
vigorosas mãos que o levantaram ao ar deixando-o cahir.
Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que o terreno lhe faltava
debaixo dos pés e se precipitava n'um abysmo.
Não soltou um grito. Esperava morrer como um homem, e assim chegou a um
segundo subterraneo, onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse
a menor contusão.
Continuou o seu caminho corajosamente, embora sob o peso das commoções
soffridas. Foi andando na treva por alguns minutos, quando um rugido
terrivel lhe despertou a attenção.
Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro, defendida, por dois
enormes leões, que punham n'elle os olhos de fogo, escancarando n'uma
ameaça a guella hiante.
Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram novo rugido atroador.
Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas de susto, o mancebo
pensou em retroceder, mas envergonhado d'esta cobardia, exclamou,
avançando para as féras:
--Antes morrer que recuar!
Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e Paulo pôde bater á porta,
levantando e deixando cair o pesado batente em forma de mão negra.
A porta abriu-se.
--Entrae!--disse o mesmo chefe que o havia introduzido no subterraneo,
recebendo-o de novo na sala d'onde havia partido.
Paulo entrou.
--Ides dar-nos a ultima prova--propoz o chefe.--Aqui tendes este punhal.
N'aquelle gabinete está, sob a acção de um narcotico, uma mulher, que é
preciso _eliminar_... Ide! Cravae-lhe este punhal no coração.
Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar, quando recuou
espantado, soltando um grito terrivel:
--Ella!--bradou o pobre rapaz afflictivamente.
É que diante dos seus olhos admirados apparecera uma bella e gentil
figura de mulher, estendida sobre um pôtro de torturas, os pés e as mãos
amarradas, a face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem mais nem menos do
que a sua amada, a aspiração querida da sua alma, a mulher por quem o
pobre moço ia filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da _Mão negra_!
--Hesitas?--perguntou o chefe com um accento de desprezo e sarcasmo na
voz.--Não prestaste ainda juramento, mancebo; não estás preso a nós por
nenhuns laços. Se o teu coração se entibia, se o teu braço treme e se
recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere apenas uma palavra e serás
restituido á liberdade.
No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia profunda. Os cabellos em
desalinho, a face pallida, a fronte banhada de um suor frio, não
desfitava os olhos d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que
tinha presa toda a sua existencia, todas as esperanças da sua juventude,
todas as nobres aspirações da sua alma e que alli via, sem saber como
nem porque, semi-morta, amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a cahir
aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava apunhalar!
E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o executor da fatal
sentença, elle, que por ella sacrificaria a vida, a honra, a familia,
tudo o que um homem póde sacrificar á mulher amada!
Era horrivel!
--Decide-te, mancebo!--tornou o chefe--Ou cumpres corajosamente os
mysteriosos designios da _Mão-negra_, ou recusas e vaes em paz com a tua
cobardia!
Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra _cobardia_, o mancebo
apertou na mão o punhal e, voltando-se para o seu mysterioso
interlocutor, disse, rangendo os dentes:
--Cobarde não o sou, não o serei jámais! Que posso eu fazer para
resgatar a vida d'aquella mulher?
--Nada!
--Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em mim, amarrae-me áquelle
pôtro onde a tendes manietada, sujeitae-me á tortura mais cruel, mais
horrenda,--não soltarei uma queixa, não me ouvireis um gemido! Mas
libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade, concedei-lhe a vida, e eu
bem direi a vossa generosidade, a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo
alento será ainda um protesto, de gratidão para comvosco!
--Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada, e nada poderá
libertal-a da nossa justiça. Queres executar a sentença ou preferes
retirar-te em paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?
--Cobarde nunca!--bradou o moço, luzindo-lhe nos olhos uma colera
terrivel--Bem vêdes que não é o meu braço que treme--é o meu coração que
lucta!
--Vence-o!
--Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me: não tem preço aquella vida? Quantas
vidas quereis que vos entregue em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu
vos juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda que para
isso eu tenha de descer tão baixo, que me confunda com os mais infimos
sicarios, ou haja de subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus de
um throno! Reparae que esta é a mulher que amo! É o mundo que vós me
mandaes anniquilar com aquella existencia!
--Está condemnada. Decide-te!--tornou a voz--Partes ou ficas?
--Pois bem, fico!... para partir com ella!
Avançou desvairadamente para a sua amada, que, immovel, amarrada ao
pôtro, parecia cahida em profundo lethargo.
--Beatriz, perdoa-me!--murmurou elle.--Não é a ti que eu apunhál-o, é a
mim proprio... Seguir-te-hei no teu resgaste!
Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no coração. O sangue espadanou
do peito da victima, que não soltou um gemido.
O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á sala e disse
serenamente, encarando os seus lugubres e mysteriosos companheiros que
se conservavam mudos e immoveis:
--Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos ao mesmo tempo
como se mata e como se morre!
E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que o detivessem, alçou o braço
e cravou o punhal no coração.
A lamina, porém, não penetrou a carne e o mancebo, admirado de que o
ferro lhe não tivesse produzido a menor dôr, examinou espantado a arma
homicida.
Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de latão, se embebe e
desapparece no cabo quando se descarrega a punhalada, voltando a
apparecer impellida por occulta mola desde que deixa de ser premida de
encontro ao corpo.
--Mas o que é isto?--disse elle indignado, quasi sem
comprehender.--Estamos nós representando uma farça?
--Não, meu amigo!--respondeu amavelmente o chefe--estiveste dando-nos a
prova da tua rara coragem, do valor e lealdade do teu caracter, e nós
todos, bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um _irmão_ de tanto
valor!
Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia inanime a _amada_
de Paulo, continuou:
--Como já deves ter comprehendido, alli não está a tua amada, porém a
sua imagem tão perfeita e semelhante, que a tomaste por ella propria.
O mancebo, aturdido, punha no manequim os olhos, recusando-se a
acreditar o que ouvia.
--Foi, pois, uma simulação de morte--proseguiu o chefe--O valor moral da
acção fica em pé, visto que a tua intenção era obedecer aos preceitos da
_Mão-negra_...
--E matar-me em seguida!--accrescentou o mancebo.
--É a unica porta que resta aberta aos nossos _irmãos_ para se separarem
de nós. A sahida por esse lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um
crime. De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os que se tornam
indignos de pertencerem á nossa Associação.
--Espero que não tereis o incommodo de me ensinar o caminho, se algum
dia me arrepender de haver buscado a vossa camaradagem--disse Paulo.
--Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia, lealdade e valor do teu
caracter, de que déste prova. Serás um bom _irmão da Mão-negra_ e
auguro-te uma brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
em conservar puras e immaculadas as apreciaveis qualidades a que deves a
tua admissão. Queres prestar juramento?
--Sim!
--Irmão Golias!--ordenou o chefe--vendae os olhos ao neophyto!
Destacou-se da parede o _irmão_ que já havia sido o apresentante do
mancebo, e cumpriu as ordens do chefe.
--Vendam-se-vos ainda os olhos--disse este--não porque esteja no nosso
animo guardar para comvosco novos mysterios ou admittir-vos com fins
reservados, mas tão sómente porque a venda que se vos põe agora
representa a confiança cega, illimitada, que deveis ter nos vossos
irmãos e nos nobres e justos fins para que todos trabalhamos, unidos
como um só homem, guiados pela mesma potente e mysteriosa _Mão-negra_.
Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal. Os vultos que, de pé
e immoveis rodeavam a sala, encostados á parede, avançaram
silenciosamente e formaram um circulo á roda de Paulo.
--Irmão Golias!--disse o chefe.
--Eis-me, senhor!
--Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?
--Do fundo da minha alma.
--Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.
O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se ao lado do mancebo, tendo
na mão uma salva de prata coberta por um crepe.
O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle recinto uma scena
deveras surprehendente.
De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio de pau santo com
embutidos de prata e marfim representando uma caveira com dois fémures
em cruz, carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se,
transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo carmezim em que
assentava um craneo alvissimo, seguro por dois punhaes em tropheu.
Estendeu para a assembleia o braço sustentando esta estranha _reliquia_,
e immediatamente os vultos, levando as mãos á cinta, desembainharam
luzentes floretes que traziam occultos debaixo dos habitos e que
apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um circulo de ferro.
Ao mesmo tempo uma voz resoou:
--Está aberto o templo!
Tres portas abriram-se e por ellas começou entrando uma verdadeira
multidão de capuzes negros, trazendo na mão esquerda uma tocha accesa e
na dextra um punhal.
Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e ao través do _templo_,
abrindo em alas, voltados todos para o centro, onde se agrupavam, como
já dissemos, os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
desembainhados.
Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi sem deixar perceber o
ruido dos passos.
Então o chefe, erguendo a voz, disse:
--Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a todos os irmãos da _Mão
negra_? Juras não revelar a alguem os segredos da nossa agremiação?
Juras sacrificar por ella todos os dias da tua vida, todas as horas da
tua existencia, o vigor do teu braço, os pensamentos do teu cerebro, os
sentimentos do teu coração?
Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:
--Juro!
Immediatamente, o irmão Golias, entregando a outro a salva que tinha na
mão, voltou-se para o neophyto, dizendo:
--Irmão _David_, pois que sou teu padrinho, vou impor-te o habito de
_Mão-negra_!
Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual ao que os outros vestiam,
deixando-lhe apenas a cabeça a descoberto, sem lhe deitar o capuz.
--Tirae a venda, irmão--ordenou o chefe--para que toda a luz se faça aos
vossos olhos!
O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado e surprehendido ante o
estranho quadro que se apresentava á sua vista.
Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas e descoberto os
rostos, conservando-se, porém, na mesma attitude severa e hostil, com os
florêtes apontados ao novo irmão.
Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo ficou
surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos á volta de si.
O irmão Golias, pegou-lhe na mão e fêl-o subir os degraus do throno.
O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços e osculou-o na
testa.
--Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa ala!--disse elle.
A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram, entrando na bainha.
Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até ao degrau inferior do
throno, dizendo:
--Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te conservares sempre digno
d'elles.
Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes vieram todos um a um
abraçál-o e beijál-o na testa.
--Irmãos!--disse o chefe do alto do throno--vae reunir o sublime
capitulo. Está encerrado o _templo_.
As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a sahir pelas differentes
portas do recinto, sumindo-se mysteriosamente sem que alguem pudesse
dizer que caminho levavam.
II
Amôr e esperança
Deixemos os mysteriosos irmãos da _Mão-negra_ seguir o caminho que os
havia de reconduzir ao mundo do qual por algum tempo semelhavam ter-se
apartado, e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que acaba de
iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.
Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em companhia do seu amigo
Jorge, agora convertido em seu _irmão_, regressou á cidade no mesmo trem
que o conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro em uma rua
proxima da de Cedofeita.
Eram tres horas da manhã e o vento continuava soprando rijo da barra,
pondo negrumes de tempestade n'aquella noite desabrida.
O mancebo seguiu pela rua deserta até parar junto de uma casa de luxuosa
apparencia, e que denunciava pelo exterior severo e pelo amplo jardim
gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos seus habitantes.
Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos, imitou o canto da
perdiz.
Era evidentemente um signal, porque algum tempo depois, uma das janellas
do rez do chão, vedada por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz
feminina disse, tremula e quasi sumida:
--Como vens tarde, meu amigo!
--Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto interesse e de que
depende a nossa felicidade futura impediu-me de vir á hora costumada.
Hesitei em vir despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia de
estar sem te fallar e talvez sem te ver até amanhã á noute, obrigou-me a
procurar-te, Beatriz.
--Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha tambem que te dizer... Oh!
se soubesses como estou afflicta!
--Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...
--Paulo...--gemeu a meiga voz que fallava do lado de dentro da
grade--não sei como t'o hei de dizer... meu Deus!
--Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o peço!--supplicou o
moço--Não me tenhas por mais tempo n'esta cruel espectativa... Tu
choras, tu pareces afflicta... Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?
Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra do aposento,
occultava o rosto entre as mãos buscando afogar os soluços.
--Paulo,--disse ella--meu pae... quer casar-me!
O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem descarregado uma violenta
pancada no peito.
--Quer casar-te!--exclamou.--E com quem?
--Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz que tem vindo duas ou tres
vezes de visita a nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais
intimos amigos de meu pae...
--Dize-me o nome d'esse rapaz!--intimou desvairadamente o moço.
--Eugenio de Mello--soluçou Beatriz.
--Eugenio de Mello!--repetiu o mancebo.--Esse nome é completamente
estranho para mim. Nunca t'o ouvi pronunciar.
--Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes de visita a nossa casa,
apresentado por um amigo de meu pae...
--Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia de te casarem com elle?
Acaso esse rapaz alguma vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo que por uma bem
entendida delicadeza da tua parte para comigo, julgasses dever
occultar-me os galanteios d'esse rapaz, se porventura elles te eram
indifferentes... Mas não comprehendo como teu pae pudesse ter a ideia
subita de te casar com elle, sem mesmo tentar indagar se o teu coração
não repelliria um semelhante enlace.
--Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz ouvi uma palavra que
pudesse dar-me a perceber o mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra
dos cumprimentos e ceremoniosas attenções que as pessoas de boa
sociedade usam ter para com uma senhora, não se trocaram entre nós
quaesquer amabilidades que justificassem o pensamento d'este enlace que
me surprehende!
--É extraordinario! E como é que teu pae pretende impor-te um casamento
em que tu nem sequer tinhas pensado?
--Sabes que meu pae--volveu Beatriz--habituou-se a contar com a minha
obediencia cega e passiva em todos os seus desejos, que para mim são
ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen de ferro em que a sua
vontade é a unica que predomina...
--Isso, porém, não é rasão para que elle se julgue no direito de
sacrificar o teu futuro de mulher aos seus caprichos de... pae.
--Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga o meu coração desprendido
de qualquer affecto e crê que não me repugna a ideia de unir o meu
destino ao de um homem que elle julga digno de mim.
--E se de facto te não repugna... obedece-lhe!--bradou o mancebo n'uma
voz estridente em que ia todo o fel do seu desespero.
--Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te amo, que não posso amar
outro homem que não sejas tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao
peso da cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a minha dôr, de
me animares com o teu conselho a resistir á fatal imposição que me é
feita, ainda me torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das tuas
palavras! Não te mereço isso...
As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que, se realmente possue um
rosto tão meigo como as suas palavras, de linhas tão suaves e puras como
é doce o accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
pareceu abrandar um pouco o irritado animo do mancebo.
--Mas o que queres tu que te diga, minha querida, se eu noto que era vez
de pensares em repellir a despotica imposição de teu pae, ainda tentas
desculpal-o?
--Não o desculpo... digo apenas o que elle pensa.
--Mas que tenho eu que saber o que pensa teu pae? O que desejo saber é o
que pensas tu, minha querida! O que é que tencionas fazer? Que
respondeste a teu pae? Qual é a tua intenção?
Beatriz pareceu hesitar na resposta.
--Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava que me dissesses o que
devo fazer...
--Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus actos? É a mim que
compete dictar a tua resposta? Consulta o teu coração, Beatriz... Elle
que te responda e te diga a resolução que deves tomar...
--Paulo! O meu coração diz-me que só a ti pertenço, que só a ti eu
desejo ter por marido... Mas, bem vês, quando eu disser a meu pae que te
amo, e que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace, por
mais vantajoso que se apresente, meu pae ha de perguntar-me quem és...
--E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que eu seja. Ou vae tão longe
a tua piedade por mim e o teu despreso por ti que, tendo-me na conta de
indigno do teu amor, assim mesmo m'o concedes?
--Oh! não, não, Paulo!
--N'esse caso, o que receias?
--É que eu julgo-te com o coração; meu pae, porém, ha-de julgar-te com a
cabeça; e entre o coração da filha e o cerebro do pae existe uma
distancia tão grande, que eu receio bem que não possamos transpôl-a...
--Se essa é a tua convicção e te faltam forças para resistir e luctar,
submette-te e... adeus! Adeus para sempre, Beatriz!...
Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo d'este adolescente de
18 annos, que tinha já a energia e a vontade de ferro de um homem feito,
não podia supportar sem protesto os timidos receios e as hesitações
offensivas da mulher que adorava.
--Paulo!--tornou a chamar a joven.--Escuta-me! Que singular prazer tens
em me atormentar, quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua
piedade!
--Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde que aqui cheguei outra
coisa não tens feito senão revolver-me n'um perfeito inferno de
torturas! Acabemos com isto, e vamos direitos ao fim sem tergiversações
nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com esse... rapaz, que deve
ser por força rico, distincto... amavel, emfim. E tu acceitaste?
--Eu...
--Hesitas na resposta e a tua propria hesitação me responde: acceitaste
e vens dizer-me que está tudo terminado entre nós...
--Oh, não!--accudiu a joven, com impeto.--Eu não acceitei nem respondi
como desejava. Pedi que me deixassem reflectir, porque o meu primeiro
pensamento foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo o que devo
fazer...
--O que deves fazer não seja eu quem t'o diga. Teu pae é rico, Beatriz;
tu mesma és já herdeira de uma avultada fortuna, e eu sou pobre.
Separa-nos, portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia contar
comtigo solteira e livre até ao dia, que não viria longe, em que eu
pudesse apresentar-me a teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido
revestisse o caracter humilhante para mim de uma tentativa de penetrar
no sanctuario da riqueza pela porta do coração de uma mulher. Vejo,
porém, que o destino quer o contrário; que outro pretendente se
apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do que eu, e que da
firmeza e constancia do teu amor nada tenho a esperar, se eu não me
resolver a prestar-te o amparo incompativel com a minha dignidade de
homem e com o programma que me tracei de só a mim dever o meu triumpho.
Paciencia!
--Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces, estás sendo para mim de
uma injustiça que mais tarde te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu
amigo, escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas palavras.
E Beatriz, com voz tremula de commoção, principiou dizendo:
--Não conheces o caracter de meu pae e não admira por isso que julgues
sêr-me coisa facil o contrariar-lhe os propositos... Eu, porém, que o
conheço, que por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo do
seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis amarguras e horriveis
tormentos a sua colera me prepara na lucta que vou ser obrigada a
sustentar, recusando-me a acceitar por esposo o homem que elle me
escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva do soffrimento. Morrerei
de bom grado na defesa dos sagrados affectos do meu coração e
conservar-me-hei fiel ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O
que quero é ter a certeza de que a tua confiança me não abandona, Paulo;
que quaesquer que sejam as mudanças que se operem no nosso modo de viver
e de nos relacionarmos--mudanças que eu não posso prevêr por emquanto
quaes sejam, mas que certamente hão de sêr as mais dolorosas para o
nosso coração--eu terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que
o meu amôr me dá direito...
--Beatriz!--exclamou o mancebo--quando se ama como eu te amo; quando se
sente no peito a chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que de
todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia, lucta-se,
soffre-se, morre-se, mas não se esquece jámais o nome d'aquella que nos
inspirou tão fervoroso culto!
--Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino nos reserve dias bem
sombrios de uma ausencia crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração
e quasi volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes forem as apparencias
que me condemnem, não duvidarás nunca da lealdade do meu affecto como eu
não duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não é verdade?
--Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto exaggeras o pavoroso
quadro dos nossos infortunios...--disse o mancebo, pallido de commoção.
--É que tu não conheces meu pae!
--Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente esse enlace como uma
violencia imposta ao teu coração? Antes de tudo, tu és sua filha; e um
pae, por muito severo e rispido que pareça, não se transforma por
simples capricho no algoz d'aquella a quem deu o sêr.
--Não sei... não posso dizer-te nada por emquanto, senão que tudo espero
d'este funesto designio manifestado por meu pae... Mas seja como fôr,
jura-me que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre confiar na tua
Beatriz como n'aquella que mais te ama no mundo.
--Juro-te, meu amor, que serás minha e que não te has-de encontrar só na
lucta e no soffrimento. Tenho amigos--continuou Paulo--amigos poderosos,
contra os quaes não é facil nem prudente luctar... Com elles conto como
_irmãos_ e n'elles espero encontrar o auxilio de que ambos carecemos.
Não te assustes nem te deixes dominar pelo terror. Hontem, ainda
desprotegido, poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
contra inimigos tão poderosos como é teu pae; hoje, conscio de que os
brados intimos do meu coração ameaçado de morte encontrarão ecco
n'outros corações que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo do
teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da minha alma! Tem confiança
em mim, que havemos de vencer».
O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu estas palavras
pareceu transmittir novo alento á joven.
--Luctarei--disse ella--e agora com mais energia, desde que nas tuas
palavras tenho o penhor de que não será perdido o meu sacrificio. Nada
mais te pedia e nada mais te peço do que essa confiança inabalavel na
constancia do meu amor. Ama-me como eu te amo, Paulo! e d'este
sentimento, que é a vida, hauriremos forças para resistir aos embates de
uma sorte cruel e adversa!
Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia e amor sem fim,
despedindo-se, e promettendo tornar a ver-se na noite seguinte.
O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente está sorrindo do córte
romanticamente amoroso e piegas d'este dialogo dos dois namorados.
Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto brunida e lustrosa das
heroinas dos romances d'outras eras, o que dá um tom de inverosimilhança
ao lance ingenuamente sentimental.
Mas o romancista, se copía do natural como nós o estamos fazendo, não
tem remedio senão acingir-se á verdade e reproduzir os seus personagens
com os aleijões que a natureza, as condições do meio ou os acasos do
nascimento e da educação lhes imprimiram no corpo ou no caracter.
Esta menina, assim romanticamente apaixonada, exprimindo-se em termos de
um antiquado sabor litterario, não nos está revelando uma assidua e
ingenua leitora das novellas de Camillo?
Claro está que ella reproduz incorrectamente o que de peor podia haurir
na leitura do genial escriptor--a emphase, o arredondado do periodo, a
declamação cantante, sem os esmêros da dicção, sem a impeccavel belleza
e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas o facto é que ella, em
assumptos de coração, não podia exprimir-se de outra maneira, visto que,
como mais tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas
soluçantes do «Amor de Perdição» que aprendeu a traduzir as primeiras
balbuciações do seu amoroso coração de creança.
Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas mesmas leituras,
correspondia-lhe no tom e no gosto do seu arrasoado. Se, porém, esta
linguagem póde ser capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella
exprimia um sentimento profundamente verdadeiro.
Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso é o que mais importa
saber ao leitor inimigo de divagações.
Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de responder a reparos que a
grande maioria certamente não fará e digamos em poucas palavras o que
foi feito de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada, teve que
retirar-se a passos apressados para que a chuva, que começava a cair em
grossas gôtas, o não surprehendesse na rua tristemente deserta.
O mancebo era estudante. Tinha completado o curso do Lyceu e
matriculara-se no primeiro anno da Academia.
O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem se dizia encarregado de
lhe fornecer os meios de subsistencia e de estudo.
Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o aos cuidados de uma
familia honesta, onde era tratado como filho, e limitara-se apenas a
exigir que o _seu estudante_ o fosse visitar duas vezes por semana, nas
quintas e nos domingos, á casa que elle habitava, na rua Chã.
Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella em casa de quem o
hospedaram aos doze annos. Até ahi, que se lembrasse, fôra alumno
interno d'um instituto religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram
com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato uma recordação tão
saudosa que, ainda agora, ia a meudo visitar a abbadessa, madre Paula,
que tinha no seu coração o primeiro logar.
Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima, o mancebo
não pôde dormir.
Agitadissimo, recordando o seu passado, em que parecia haver um ponto
escuro que o mortificava, Paulo resolveu erguer uma ponta do veu
mysterioso que encobria o seu nascimento.
No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa do seu protector, e
sem mais preambulos, disparou-lhe esta pergunta á queima roupa:
--Diga-me, padre: quem é meu pae?
O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto da pergunta, pôz no
mancebo os olhos espantados e ficou-se a consideral-o em silencio por
alguns momentos.
--Porque me fazes essa pergunta, Paulo?--disse por fim.
--Porque sou um homem, porque tenho já dezoito annos, e desejo saber
d'onde venho, para poder destinar para onde vou, ou para onde devo ir...
respondeu o mancebo com firmeza.
O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do moço e continuou a
olhal-o fixamente.