n'um quarto, que não tornava a vêr sol nem lua, emquanto não fosse á
egreja casar com quem eu dissesse!--bramiu o sr. Custodio de Jesus,
assentando furioso murro sobre as escripturas das hypothecas em
divida.--Mas você sabe alguma coisa? Homem, seja franco!
--Pois então fique o amigo Custodio sabendo que temos moiro na costa e
que a pequena... mas você não vá agora fazer asneira... estas coisas
levam-se com prudencia...
--Diga, diga, homem!--insistiu o capitalista afflicto.--Sabe que a minha
filha...
--Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural d'este mundo.
--Você falla serio?
--Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando eu lhe digo que sua
filha se corresponde com um rapaz a quem vae fallar da janella para a
rua todas as noites, é porque tenho d'isso a certeza.
Custodio de Jesus levantou-se de um salto como mordido da tarantula.
--Você não me repita isso nem a brincar!--bramiu elle--porque eu vou-me
áquella desavergonhada e racho-a!
--Mau! assim não fazemos nada!--reprehendeu o procurador--Aqui o que
convem é saber o que se passa e tratar de encaminhar as coisas de modo
que o projectado casamento com o nosso rapaz se realise o mais breve
possivel...
--Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?
--É um estudantito... um rapaselho.
--Rico?--interrogou o Custodio arregalando os olhos.
O procurador soltou uma gargalhada.
--Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes ricos andam por ahi aos
pontapés! Isto hoje é tudo uma pelintrice, você bem o sabe... Quando
apparece um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu digo: vamos a
deitar a unha a este, porque se o deixamos escapar não apparece outro
tão cedo...
O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento, quasi sem prestar
attenção ás palavras do procurador.
--Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para enganar!--blasphemava
elle--Até esta, de 16 annos, creada com todo o recato, longe das
sociedades, retirada das más companhias, até esta, que parecia uma
innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se com um namoro, sem que
eu, que sou pae e ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
os menores movimentos, tenha dado por isso!
--Amigo Custodio--obtemperou o procurador--não vale a pena affligir...
Não é caso de morte de homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
isto porque entendo que a você, como pae, convem saber o que se passa
para saber como ha de proceder...
--Como hei de proceder sei eu!--rugiu colerico o pae de Beatriz--Ponho-a
de pé descalço a fazer o serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a
cosinhar, para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada de
servir, que seja criada de servir em tudo!
--Homem, eu desconheço-o!--reprehendeu severo o Belchior--Tinha-o na
conta de um homem de juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
e que respeita os seus interesses, e você sae-me a querer fazer tolices
e disparates que não lembram a ninguem!
--É que você não sabe o odio que eu tenho ás mulheres!--explicou o
Custodio--Esta filha veio para meu castigo!
--Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe um casamento bom para
ella, um casamento de primeira ordem? Aproveite-o, trate de a casar por
bem ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper no excesso de a pôr
a fazer de servilheta, isso é dar murros em si proprio, amigo Custodio.
Ora imagine que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge... E
depois? Você desherdal-a não póde, porque ella é sua filha. Além d'isso;
já não tem mãe e mais tarde ou mais cedo tem que entrar na posse da
herança materna... Homem, prudencia!... levemos as coisas por bem, que é
melhor...
--Tem razão!--concordou por fim o Custodio--Mas olhe que é para um homem
arreliar! Não ha ninguem mais infeliz com as mulheres do que
eu!--desabafou com o desespero de quem tocou a méta do soffrimento--Eu
fui casado duas vezes... A primeira mulher, a Carlota, sahiu-me uma
bebeda, uma desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um padre em
quem eu tinha toda a confiança e que até por ultimo me roubou,
levando-me tudo, deixando-me a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era
um bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no céo e a mulher na
terra, tudo o que ella dizia era o que se fazia, e afinal o pago que me
deu foi aquelle! Tambem a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa,
e tão infame que até á hora da morte deixou um bilhete a dizer que se
matava por minha causa! Isso foi uma coisa muito fallada, até andou nas
gazetas...
--Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr isso...
--Foi ha dezoito annos...
--Sim... ha de haver esse tempo, ha de...
--Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me uma tramoia de umas
letras que eu acceitei a um outro maroto como elle, um tal João
Ignacio...
--Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem tambem parece que deu com
tudo á costa. Até esteve doido, e a sua mania é que tinha sido roubado
por um padre...
--Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão, um malandro com capa de
santo, que foi a minha desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a
mulher e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de quatrocentos
contos!
--Vamos lá!--observou sorrindo o procurador--Parece que ainda lhe não
levou tudo, porque você, amigo Custodio, está possuidor de capitaes
muito avultados.
--Á custa de muito trabalho e depois do segundo casamento para
cá--explicou o Custodio.
--Não sei como você, depois de ser tão infeliz com a primeira mulher,
ainda caiu em casar segunda vez.
--Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade, não... Mas eu fiquei,
como o outro que diz, sem eira nem beira nem ramo do figueira.
Appareceu-me uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e que por lá
arranjou uns contos de reis e esta filha com que voltou a Braga...
--Ah! então Beatriz...
--Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto de casar com a mãe, e
ahi é que eu quero chegar... A bebeda, a grande desavergonhada
enganou-me!
--Enganou-o... quem?
--A minha segunda mulher. Disse-me que trazia para cima de cincoenta
contos, e afinal vae-se a vêr, entre joias, dinheiro e papeis, pouco
passava de vinte!
--Está feito!
--Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a filha, tenho trabalhado
como um burro, aturei-a a ella até á hora da morte--que ella vinha
arruinada da saude, escangalhada, um caco velho em summa--tive de sahir
de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia a vida e era uma vergonha, e
agora, depois de tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é meu a
quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta rapariga é que é a
minha herdeira.
--Por esse lado, tem o meu amigo razão--concordou o procurador--mas
tambem, se não tem parentes ou outra pessoa que melhor lh'o mereça,
pouco desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova não o póde
levar...
--Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu muito bem
quizesse!--recalcitrou o Custodio, indignado.
--As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que esta
pequena...--philosophou scepticamente o Belchior, com um sorriso
desdenhoso.--Não havia Ordem nenhuma que fosse capaz de lhe metter em
casa uma fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se casar
com o Eugenio de Mello...
--Fortuna... para ella!
--E você não é pae? E sendo pae, não fica sendo sogro do rapaz? E sendo
sogro do rapaz, desde o momento em que elle não dê carreira direita não
lhe vem a administração do casal parar ás unhas?
--Isso ainda está em _vêl-o-hemos_... Se o rapaz ganhar juizo...
--Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão é que você queira...
--Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu hei-de querer?--perguntou o
Custodio de Jesus, arregalando os olhos, sem comprehender.
--Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe na massa do sangue... E
os estroinas são como os alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem
se continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande esforço para se
habituarem á agua, mas se um dia entram n'uma patuscada e vêem uma
garrafa que lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a ella,
bebem e morrem victimas do vicio que o instincto da conservação não foi
sufficiente para debelar. Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer
portar-se bem, emendar-se, ser um homem exemplar, mas, se lhe apparecer
um amigo que o leve a uma ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo
de cara regular, não tenha você mêdo que elle ahi irá de vento em pôpa
pelo caminho da dissipação e da prodigalidade, e então é que é dar-lhe o
golpe de misericordia... Percebe-me agora?
O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife que tinha sobre elle
a enorme vantagem de conhecer os _escaninhos da lei_, segundo a phrase
pittorêsca do procurador.
--Você--disse elle por fim, encarando sorridente o Belchior--é dos de
estrella e bêta e pé calçado!
--Meu amigo, um homem tem obrigação de não ser tôlo, de não andar no
mundo por vêr andar os mais... As patifarias da vida é que põem um homem
fino...
--Você havia de me ter apparecido em Braga, aqui ha vinte annos antes...
Não era comsigo que o ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você não
me tinha deixado roubar!
--Estava bem arranjado o padreca! Que viesse para cá... Comigo nem elle
nem o mais pintado fazia farinha!--blasonou basofiento o
procurador.--Tenho dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu
atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles veem buscar lã
mas vão tosquiados!
O Custodio suspirou:
--Aquelle ladrão!--exclamou n'um surdo rancôr--roubou-me por eu o não
conhecer a você!
--Meu amigo, com aguas passadas não móem moinhos... O que não tem
remedio remediado está... Agora vamos a vêr mas é se se trata de
arranjar outro... Disponha as coisas de modo que o casamento se faça
quanto antes, porque a fatia é boa e não se póde perder...
--A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio tem ella senão
obedecer-me e fazer o que eu disser!
--Se ella estiver deveras encarriçada com o tal franganote, ha de
custar-lhe a resolvêl-a...
--Por isso não seja a duvida... A questão é saber se o negocio convem...
O procurador assobiou, acompanhando o assobio com repetidos estalos
produzidos pelos dedos maioral e pollegar.
--Se convem!--disse elle--É uma pechincha! É um negocio de costa acima!
Queira elle noventa contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um casão!
--Bom! pois então fique descançado, que a rapariga eu cá me encarrego de
a domesticar...
--Mas veja lá; você não lhe falle no namoro, que é peor...--aconselhou o
procurador.
--Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de lhe partir os ossos...
Nada! eu resolvi ir cá por outro caminho...
--E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe fazer o seu pé de
alferes...
--Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as coisas se preparam...
--Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa os constituintes á
espera.
Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao Custodio.
--Mas você apparece por cá?--disse o pae de Beatriz, apertando e retendo
na mão os dedos do Belchior.
--Sim, amanhã...
E dirigiu-se para a porta.
--Olhe lá: você vá dando esperanças ao rapaz, hein?
--Não tem duvida... Disponha você a pequena.
Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao andar superior e chamou
a filha.
Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas, doceis e
submissas por indole e por temperamento, na apparencia faceis de
dominar, mas que, depois de terem tomado uma resolução, primeiro se
deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos e olhos
castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu gracioso vulto, de uma
distincção rara, captivava pela belleza e impunha respeito pelo suave
perfume de innocencia e bondade que respirava.
Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu tremula, como se o
coração lhe presagiasse a tortura que a esperava.
--Aqui estou, meu pae--disse ella.
O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume, e, contrafazendo o
semblante n'um risinho agradavel, chamou a filha para o pe de si, fel-a
sentar ao seu lado, e perguntou-lhe:
--Então, já pensaste no casamento em que te fallei, minha filha?
--Já, meu pae... já pensei...--tartamudeou a pobre pequena, commovida.
--E decidiste acceitar o partido que se te offerece, não é assim?
--Não, meu pae...
--Não?!--exclamou o sr. Custodio, fingindo-se surprehendido e mudando
rapidamente d'aspecto.--E porque?
--Porque não me sinto ainda com disposição para casar...
--Não te sentes com disposição! Essa é bôa! Mas para casar ninguem está
á espera de disposição... Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
disposição vem depois...
--Eu não poderia unir-me a um homem por quem o meu coração não sentisse
a menor sympathia...
--Sympathia!--bramiu o sr. Custodio furioso, dando largas ao seu
desespero.--Que vem a ser cá isso? Temos frioleiras de romance? Com as
sympathias não é que os casados fazem sopa e compram os chapéos e os
vestidos ás modistas. O noivo é rico? É o essencial. Ora este tem uma
grande fortuna, é novo, é uma bôa figura, não é cego, não é aleijado--e
ainda que o fosse, não se perdia nada--porque é que elle não te hade ser
sympathico?
--Será para outras, mulheres, não para mim...--atreveu-se a dizer
Beatriz.
Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol em que o sr.
Custodio tinha accumulado toda a polvora dos seus rancores de ha muitos
annos contra as mulheres.
--Que pouca vergonha é essa?!--berrou elle, levantando-se e encarando a
filha, rubro de colera--Quem é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?
A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar no burlesco e
incongruente disparate da pergunta, que faria rir a pobre menina, se o
horror da situação em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.
--Meu pae! Meu pae!--bradou ella supplicante, caindo de joelhos com as
mãos postas--pelo amor de Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não
posso!
--Deixemo-nos de comedias!--rugiu o Custodio n'um recrudescimento de
ira--Ou casa ou metto-a nas irmãs da caridade!
Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:
--Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço que não me force a este
casamento que o meu coração não póde acceitar!
--Sua mãe! Não me falle em quem já morreu! Quem lá vae, lá vae, não é
aqui chamado!
A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se. No rosto
pallido as lagrimas seccaram-se-lhe como por encanto, e nos olhos,
fulgurantes de indignação, lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.
--Minha mãe--disse ella em voz calma e firme--não me responderia assim,
se eu, de joelhos, lhe invocasse a memoria de meu pae morto.
Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.
--Cale-se!--não me falte ao respeito!
--Não sabia que a lembrança de minha mãe era para meu pae uma offensa.
Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos d'edade, fôra
educada na crença de que este homem era seu pae e ignorava por completo
a historia do seu nascimento.
Notava que o homem a quem chamava pae a tratára sempre com grande
severidade e rispidez, e lamentava-se intimamente de não achar no
coração do auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem direito uma
filha obediente e submissa, como ella era.
Esta severidade recrudescera, quasi degenerando em tyrannia, depois que
a mãe se lhe finara.
A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento, e, crescendo na edade,
sentira mudar-se-lhe o terror infantil n'uma repugnancia instinctiva,
porém soffredora e paciente, que mais e mais a afastava do pae.
Evitava a sua presença o mais que podia; e nos curtos instantes em que
era obrigada a aproximar-se d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões
grosseiras e injustas, era sempre com os olhos no chão que o escutava.
Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes dois sêres, que o
destino cruel pussera em face um do outro, ligados pelos laços de um
parentesco ficticio, mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
mundo e da propria victima.
A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau para com a filha,
tornara-se desde este momento odiosa.
Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais santo e mais sagrado no
fundo do coração e que fazia objecto do seu culto:--o respeito pela
memoria de sua mãe e o seu amor por Paulo.
O despreso amargo com que seu pae acolhera a supplica que ella lhe
dirigira humildemente, de joelhos, em nome da mãe, revoltou-a, e onde a
revolta começa o respeito acaba.
Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que respondeu ao pae, que a
mandava calar, era o prenuncio da lucta que ia travar-se, era como que o
grito de revolta chamando em seu auxilio todas as energias da sua alma
de mulher para resistir á violencia com que queriam esmagar-lhe o
coração.
--Já disse!--volveu o descaroado pae.--Quem manda aqui sou eu. Este
casamento ha de fazer-se por vontade ou por força.
--Viva não me levarão á egreja!--respondeu firmemente a pequena.
--Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito? Esquece que sou
seu pae?
--Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que não devo ser tratada como
escrava.
--Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a ao quererem
fazer-lhe um casamento rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que
póde dar-lhe respeito na sociedade?
--O meu coração não se vende a pezo de dinheiro, meu pae! Se esse homem
quer comprar affectos, que os busque onde elles se vendem.
--Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou tanto?
--A minha razão e a consciencia dos meus deveres de mulher digna.
O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo. A sua vontade seria
estrangulal-a. Mas conteve-se.
--Isso são frioleiras de romances!--gritou elle--. A menina não sabe o
que diz. A culpa tenho-a tido eu em consentir que certas leituras lhe
ponham a cabeça á razão de juros. Mas não tem duvida... Eu a mandarei
para onde lhe ensinem os seus deveres de filha.
--Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei como filha que não
necessita que lhe ensinem os seus deveres. Mas não exija que acceite por
marido um homem que o meu coração não estime, porque a isso
recusar-me-hei.
--Veremos!
O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi direito ao escriptorio.
-- Que tal está a _bisca_?!--rosnova elle, no auge da furia.--Bem se vê
que não é minha filha!
Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora coçando nervoso a
suissa, o que n'elle denunciava sempre ou uma profunda meditação ou um
violento desespero.
--E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas com
prudencia!--regougou por fim.--A prudencia era dar-lhe com um cacête até
o diabo dizer _basta_! Amanhã estava ahi macia como um velludo e ia
casar com quem eu quizesse...
De repente parou como ferido por ideia subita.
--E talvez... quem sabe? Esta ideia não é má e póde dar resultado...
Vamos lá a experimentar se, levando as coisas por bem, conseguimos o
nosso fim.
Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.
A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e perguntou:
--O pae deseja alguma coisa?
--Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui. Quero que me escutes
com attenção e que vejas que não sou tão mau como pareço...
O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os olhos baixos, não
respondia, pegou-lhe na mão e puxou-a docemente para junto de si,
fazendo-a sentar ao seu lado, e principiou dizendo:
--Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas que ninguem é mais teu
amigo n'este mundo do que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés
na cova, e, com estes desgostos que me estás dando, não posso ir muito
longe.
--Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?
--Desgostaste-me com o teu procedimento de ha pouco...
--Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei de joelhos e mãos
postas que não me forçasse ao casamento com um homem que o meu coração
não póde acceitar... É isto desobediencia?
--Filha! mas tu matas-me com essa recusa!--exclamou o sr. Custodio,
afflicto, simulando uma enorme contrariedade.
--Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro viver ao lado de meu
pae?!
--Matas-me porque o teu futuro e o meu está dependente d'esse casamento,
filha! Matas-me porque recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença
de morte contra mim!
Beatriz empallideceu.
--Não o comprehendo, meu pae--balbuciou ella.
--Eu te explico, minha filha...
E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para tomar alento, passou o
lenço pelos olhos para enxugar uma lagrima ausente, suspirou fundo e
proseguiu:
--Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo, fui rispido, fui
mesmo, injusto para comtigo; mas tudo isto era não só o resultado do
muito amor que sinto por ti, porque todo o meu desejo é vêr-te feliz,
mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero da minha
horrorosa situação...
Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito que n'ella produziam
estas palavras. A pequena permanecia com os olhos baixos, immovel, na
attitude de quem escuta pacientemente uma historia que não lhe
interessa.
--Ouves, Beatriz?
--Ouço, meu pae.
--Da minha horrorosa situação!--tornou o sr. Custodio a dizer, com um
suspiro ainda mais fundo. E abraçando-se na pequena, a soluçar,
exclamou: --Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se tu o não salvas,
ficas orphã... orphã e pobre, porque eu a esta dôr não resisto!
Beatriz, surprehendida, porém de modo algum commovida com esta dôr
ficticia, perguntou, como se apenas cumprisse um dever:
--Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae? Porque é que assim se
afflige?
--Filha!--tornou o senhor Custodio, com a voz entrecortada pelos soluços
e sem desprender dos braços o corpo franzino de Beatriz--estou pobre...
estou arruinado e só tu me pódes salvar!
--Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu auxilio?
--Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te primeiro... Os meus
negocios teem corrido mal... Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos
importantes que me teem reduzido á miseria... Este procurador, este
Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu amigo...--não o posso negar,
é meu amigo!...--tem-me valido com a sua amizade, abonando-me
importantes quantias que me teem sido precisas para solvêr compromissos
creados... Mas agora nem já elle tem, nem eu... Este rapaz é rico,
possue uma importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha filha...
Elle promette pagar todas as minhas dividas no momento em que tu
consintas em ser sua esposa... Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á
miseria, sem um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto está
n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas este casamento e voltam para
o nosso lar os dias felizes, a paz e a abundancia, como até aqui.
E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos no chão, sem responder,
o sr. Custodio fitou-a anciosamente e perguntou n'um tom supplicante:
--Então, Beatriz, o que dizes?
A joven guardou ainda silencio por alguns instantes e depois murmurou:
--Digo que é uma grande desgraça, meu pae...
--Sim, é uma grande desgraça, não ha duvida... Mas, graças a Deus, temos
o remedio para ella, se tu quizeres, minha filha.
--Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e esta tambem o terá, sem
nos ser preciso buscar uma desgraça ainda maior...
--Não te comprehendo, Beatriz!--exclamou o sr. Custodio--O que queres
dizer?
--Quero dizer que se a perda de todos os seus haveres, meu pae, é uma
grande desgraça, o meu casamento com esse rapaz ainda a aggravaria
mais...
--Porque, minha filha?
--Porque eu não o amo.
--Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor vem com a convivencia... Tendo
tu o que necessitas para continuar a viver na abundancia, e tendo um
marido que te estime e que satisfaça todos os teus desejos, ainda os
mais insignificantes, verás que breve te affeiçoas a elle.
--Mas eu não necessito de coisa alguma!--protestou vivamente Beatriz.
--Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...
--Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho--acudiu corajosamente a
nobre menina.--Darei lições pelos collegios e pelas casas particulares,
e se não pudermos viver com ostentação, o que não dá a felicidade,
viveremos remediados e livres de maiores privações...
--Tu estás doida!--berrou o sr. Custodio, desmanchando-se no seu papel
de carpidor de desgraças, para assumir a attitude grosseiramente
petulante da sua indole má, irritada pola teimosia da filha.--Bem se vê
que tens instinctos baixos e que não te repugna fazer má figura!
--O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar alguem, seja por que
preço fôr...