ainda estes tormentos da existencia. Em quanto a alma póde ter amor ou
odio, vive. É a extinção das paixões, que é a morte. O nada é que o
espirito não póde suportar. O homem crê na sua propria immortalidade,
porque quando o corpo está a ponto de destruir-se, a alma ainda conserva
o pensamento, e as paixões. Tens a gloria ainda, Mendo. Tens a fé...
D. MENDO
Essa!... Não sei... (_Pauza._) Tenho fé, tenho.
FR. BERMUDO
Tens um allivio, uma esperança--então bemdicta seja ella.--Deixa-me para
mim essa tua vingança, Mendo. Violante odiar-te-hia, e morreria na
desesperação, se tu lhe assassinasses seu pae.
D. MENDO
(_Dando-lhe o punhal._)Ahi tens esse punhal... É um presente maldicto,
esse que te dou.
FR. BERMUDO
(_Beijando o punhal._) Este sangue, este sangue!... Oh! Chegou a hora
que já foi tão desejada, e que tão temida é agora! (_Á parte._) Terei eu
n'este solemne momento o poder que até hoje me tem falecido?--Irmão, meu
irmão... É por teu filho este sacrificio! Pede a Deus que me dê forças,
meu irmão!
D. MENDO
Que tens?
FR. BERMUDO
(_Tranquillo._) Ámanhã teu pai estará vingado.
D. MENDO
Violante!... Violante orphã, só, e desgraçada...--Desgraçado de mim!
FR. BERMUDO
E eu, maldicto por ella! Vou pedir a Deus que me perdoe, e que me
inspire... Sou fraco, sou um um fraco (_Entra para a capella do fundo, e
vae ajoelhar deante do altar_).
SCENA VIII
_D. Mendo, e depois D. Affonso, D. Violante, D. Pedro Framariz, Damas, e
Cavalleiros da Côrte_
D. MENDO
E eu tambem, já nem tenho alento para viver!--Ó minha fé, minha fé,
accende-te nesta alma, para que eu possa supportar este lanço terrivel.
D. AFFONSO
(_Entrando._) D. Mendo Paes, venho cumprir o que vos prometti, no dia da
victoria. (_Aos cavalleiros._) Pedimos agora, e obtivemos de D. Pedro
Framariz rico-homem, e filho d'algo do nosso reino, a mão da sua filha
D. Violante, para o muito nobre cavalleiro D. Mendo Paes.
D. MENDO
Não posso acceital-a... não posso!... (_Cahindo de joelhos._)
Violante!... Perdão!...
D. VIOLANTE
(_Desmaiando._) Mendo!
D. AFFONSO
O que se oppõe a este casamento, Mendo? O que se oppõe á tua felicidade
agora?
FR. BERMUDO
(_Á porta da capella apontando para o altar._) A vontade do céu.
FIM DO 3.º ACTO.
ACTO QUARTO
_A cella de Fr. Bermudo no mosteiro de Mumadona. Alguns instrumentos de
alchimia, livros e pergaminhos etc. Uma porta do lado direito; outra ao
fundo deitando para um pequeno oratorio, em que se vê uma cruz com
toalha; uma janella do lado esquerdo. É noite, uma lampada alumia a scena._
SCENA I
_Frei Bermudo (Só.)_
FR. BERMUDO
(_Olhando para o céu pela janella aberta. Ouve-se do interior do theatro
uma harmonia solemne ao longe, fazendo apenas um murmurio brando._) Os
espiritos superiores caminham invisiveis por entre os astros.
Accompanham-os essas harmonias infinitas das constellações, que os
sentidos imperfeitos dos habitantes da terra não podem ouvir, mas que a
rasão atrevida ousa advinhar e comprehender. Caminham pelo céu os
espiritos invisiveis, e no seu rapido vôo vão escrevendo com as
estrellas os destinos dos homens. Quem póde lêr claramente essas
phrazes, que duram um instante apenas, que são ephemeras como a
existencia do homem, essas phrazes escriptas n'uma lingua de que os
astrologos conhecem apenas algumas palavras soltas? Quem póde duvidar de
que no ceu se escreve a historia do futuro de cada homem? Quem póde
duvidar?... Eu, eu mesmo duvido. O orgulho talvez seja o creador da
astrologia. Pois o homem merece que os espiritos superiores
escrevam o seu destino? O que sabemos nós todos? Sabemos até onde chega
a nossa ignorancia e nada mais.--O homem, em vigilias longas e
virtiginosas, gasta a vida, séca a intelligencia, destróe a fé e a
pureza de espirito, mas não penetra o segredo d'essas palavras, lançadas
no céu pelos poderes da natureza. (_Pauza._) Caminha, ó minha pallida
estrella, caminha... caminha astro de funebre agouro; que em breve
marcarás a hora mais fatal da minha existencia.--(_Longa pausa; calla-se
a orquestra_). Hoje maldicto... hoje serei amaldiçoado por
Violante.--Tomei para mim esta tremenda vingança... heide ser eu o
assassino de D. Pedro, do pai de Violante.--Se ao menos esta vingança
podesse apagar da memoria de todos o crime de D. Pedro Framariz, depois
o meu querido Mendo, e a pura Violante podessem ser felizes!--Ai! Que
dôr será a desses desventurados agora que sabem já o tremendo poder que
os separa!... Que vida, que existencia esta minha!... Um abismo... é um
abismo a minha alma! Um abismo onde não houve nunca senão tres paixões..
a amizade, a vingança, o amor. Uma amizade sancta, profunda, unica,
exclusiva. Um desejo de vingança frio, lento, sem enthusiasmo, como se
houvera nascido no coração de um cadaver. Um amor... um amor que pode
fazer esquecer a vingança... que pode esquecer-se a si proprio para só
desejar a felicidade d'aquella a quem se consagra.--Ó Violante...
quero-te tanto, que vou buscar o teu odio, para que tu não odeies o
homem que te captivou o coração. (_Silencio; ouve-se de novo a orquestra
muito longiquamente até ao fim do monologo._) Se nesses livros, onde
homens orgulhosos escreveram o que elles chamavam a sua
sciencia, eu podesse descobrir o segredo de Deus!... Se eu podesse criar
um talisman que subjugasse o destino!... Se eu tivesse pelo poder do
pensamento, e pela grandeza da vontade, força para desfazer o passado!
Ambição!... orgulho!... loucura! O passado não pertence já a nenhum
poder, nem mesmo ao poder infinito de Deus! Quizera ao menos ver um
desses espiritos superiores, para lhe fallar, para saber delle os
mysterios do material e do immaterial... (_Com abatimento._) para saber
quando ha de acabar este padecer, esta minha vida.
SCENA II
_Fr. Bermudo e D. Violante_
D. VIOLANTE
(_Entrando toda vestida de branco._) Fr. Bermudo.
FR. BERMUDO
Um espirito... um anjo... falla... falla...
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo, escutae-me.
FR. BERMUDO
Violante! aqui!
D. VIOLANTE
Vim para vos pedir a paz... o repouzo, o que só me póde salvar, o que
vós só me podeis dar.
FR. BERMUDO
(_Baixo._) Que sinto, meu Deus?... Que dor, e que alegria me dilaceram
aqui o peito?... (_Alto._) Dizei, sr.ª D. Violante, que quereis de
mim?
D. VIOLANTE
Venho pedir-vos...--Escutai-me. Já sei tudo, conheço o que para sempre
me separa de Mendo. Sei que esse que para mim era a alegria e a vida
perdi-o para sempre... e talvez que nem por elle seja amada já; eu a
filha do homem que...--Horrenda idéa!--Perder uma felicidade tão grande,
assim de repente, é uma dor com que não pode este coração--Fr. Bermudo,
sois forte, tendes uma alma superior a estas fraquezas do mundo... A
minha alma não é assim. Uma pobre mulher, como eu, tem um espirito
fraco, e que não pode resistir á dor extrema...
FR. BERMUDO
Que quereis... que quereis de mim, D. Violante?
D. VIOLANTE
Quero o que não me dareis talvez. Mas estou resolvida... Nada me pode
fazer mudar de resolução, porque não é a vontade que me impelle, é o
desalento; não é a força, é um abatimento desanimador; não é a
desesperação é a esperança de acabar com um martyrio com que não posso.
FR. BERMUDO
Assustam-me essas palavras!
D. VIOLANTE
A vida é impossivel assim.--Fr. Bermudo, estou decidida a morrer.
FR. BERMUDO
Violante... Que dizeis?
D. VIOLANTE
Mendo acabou, morreu para mim..--E sem luz, e sem alivio, que vida seria
esta minha!?--Uma existencia nas trevas, sem esperança nem
consolação.
FR. BERMUDO
Como tem sido sempre esta minha... Perdão, D. Violante.--Que vos
importam a vós os meus padecimentos?
D. VIOLANTE
(_Com alegria._ ) Sabeis o que é uma dôr, dessas que matam? Julgava
encontrar em vós um ente superior aos homens, e tinha medo. Mas agora...
posso fallar-vos da minha dôr, pedir-vos... a morte, que desejo, que
espero; porque é a paz para o coração.
FR. BERMUDO
Tende animo, paciencia, resignação; se o mundo se fechou para vós,
ficavam-vos abertas as portas da igreja, onde ha consolações para todos.
D. VIOLANTE
A oração é consoladora; a fé póde dar allivío ás grandes magoas; mas
para orar é preciso pensar em Deus, para ter fé, é preciso força na alma
e eu só penso em Mendo, e na minha alma não ha senão desalento.
FR. BERMUDO
Mendo tambem vos amava muito; e daqui a horas fará voto, na ordem dos
Templarios, de consagrar a vida ao serviço de Jesus-Christo.
D. VIOLANTE
Mendo é homem, tem força no coração. A dôr--bemdicto seja Deus!--não lhe
matou a alma, como a mim.--Olhae, fr. Bermudo, eu já não posso viver, e
a morte não me faz horror, antes a amo, e a desejo. Mas o que me assusta
é a dôr; é a idéa de me sentir rasgar o coração com um ferro, ou ficar
dilacerada ao deitar-me n'um precipicio, que me repugna.--São isto
sentimentos que um homem como vós, de coração forte, não
póde comprehender talvez!
FR. BERMUDO
Eu comprehendo, e respeito esses sentimentos.--As obras de Deus, a
belleza e a graça, só a mão sacrilega de um barbaro as póde destruir sem
horror.
D. VIOLANTE
Não seria possível alcançar, por um desses venenos que a sciencia tem
descoberto, uma morte, sem dôr, e sem agonia?
FR. BERMUDO
Ha... talvez.
D. VIOLANTE
Fr. Bermudo, é um desses venenos, que eu venho pedir-vos.
FR. BERMUDO
Eu... pois eu hei-de dar-vos a morte?
D. VIOLANTE
Não é a morte, é a paz; é o termo desta dor infinita, que me dilacera.
Por piedade dae-me esse veneno... senão, irei buscar a morte n'um
precipicio, ou n'um punhal.
FR. BERMUDO
(_Meditando._) Tem rasão... Tendes rasão, Violante. E hei de ser quem
lhe dê a morte... Eu que a amo!
D. VIOLANTE
(_Com horror._) Que dizeis?... Vós!... (_Querendo fugir._) Virgem Maria!
FR. BERMUDO
(_Detendo-a._) Ficae, Violante, ficae.--Este amor é como a vaga
esperança, o suave pressentimento, a doce attração que a alma tem para
as bellezas do ceu.
D. VIOLANTE
Não sou eu só a padecer no mundo, meu Deus!--Se esse amor é, como
dizeis, triste, e sem esperança, como é agora a minha existencia, deveis
intender, fr. Bermudo, o padecer, a angustia da minha alma; e não
podeis, não deveis recusar-me o que vos pedi.
FR. BERMUDO
O suicidio é um crime, Violante.
D. VIOLANTE
Antes o suicidio do que renegar a Deus... E esta dor far-me-ha duvidar
da misericordia divina.
FR. BERMUDO
Um crime, que Deus, não perdôa, talvez.
D. VIOLANTE
Deus tudo póde perdoar, porque a sua bondade é superior a todos os
crimes dos homens.--Não me deixeis mais tempo neste martyrio! Fr.
Bermudo, pela minha alma, por esse amor, por esse vosso amor, que é tão
puro e tão sublime, vos peço a paz. Quero morrer, sem uma longa, sem uma
dolorosa agonia.
FR. BERMUDO
(_Dando-lhe um dos frascos que tem sobre a meza._) Aqui tendes um penhor
do amor... do amor, que morreu já.--Agora acabou tudo para nós... acabou
tudo para mim!
D. VIOLANTE
(_Pegando no frasco._) É a paz que me daes.. Irei esperar por elle no
ceu!... Deus hade perdoar-me este crime Padre, não reveleis este segredo
a ninguem.
FR. BERMUDO
Não.--É meu. (_D. Violante vae para sahir._)
FR. BERMUDO
(_Com anciedade._) Violante, não me direis ao menos uma palavra?!
D. VIOLANTE
Deus vos dê o descanço da morte. (_Sáe._)
SCENA III
FR. BERMUDO _(só)_
O descanço da morte...--Porque não tenho eu ousado buscal-o já, para pôr
termo a esta agonia do espirito, em que ando ha dez annos?--Não sei que
poder me prende á vida. É medo... é medo do segredo, que se esconde além
do sepulchro.
SCENA IV
_D. Mendo e Frei Bermudo_
D. MENDO
Aqui estou, Fr. Bermudo. Venho já para ficar no convento, até me haver
separado do mundo, professando na ordem dos templarios.
FR. BERMUDO
Mendo!... Encontraste?...
D. MENDO
Ninguem. Vim pela porta do campo, para não ser visto. Na igreja está
tudo preparado para a minha profissão, não é verdade? Estou com desejo
de professar, para sentir quebrados todos os laços que me prendem ao
mundo. (_Pausa_) Ella como ficou? Vistel-a?--Eu fugi porque não
podia...
FR. BERMUDO
Está mais socegada já.
D. MENDO
Pobre Violante!--El-Rei?
FR. BERMUDO
Mandou elle proprio preparar tudo aqui no mosteiro para a tua profissão.
D. MENDO
Disseste-me que Violante estava mais socegada, que já não padecia tanto?
Bemdicto seja Deus. (_Pauza._) Ai! quem sabe se ella se esquecerá de mim!?
FR. BERMUDO
Esquecer-se de ti?!... talvez; se o pensamento tambem morre.
D. MENDO
E se ella me esquecesse, e se amasse outro, que desesperação não seria a
minha!
FR. BERMUDO
E é assim que este homem paga tanto amor! Duvidando della!
D. MENDO
Que dizes?
FR. BERMUDO
Digo, que não comprehendes o amor, que póde conter um coração de homem;
que não sabes o que é uma paixão, que destroe, que devora a existencia,
que está sempre no fundo da alma, inabalavel e tremenda, dominando o
pensamento, matando o desejo, e seccando a esperança, digo... que não
comprehendes esse amor.
D. MENDO
Frade, tu amas Violante? Tu...
FR. BERMUDO
Amo-a, sim; mas não receies deste amor, que nasceu n'um
templo, e irá esconder-se debaixo da terra. Amo-a e ouso... e sinto
alegria em fallar deste amor, porque chegou a hora do soffrimento, o
instante do martyrio.
D. MENDO
Fr. Bermudo, amas Violante? Não repitas essas palavras desvairadas...
FR. BERMUDO
Nenhum de nós tem já direito de amar, porque para ti, e para mim este
amor é um crime. (_Pausa._) Este meu não, que me salvou a alma... que eu
sentia perder pelo descrer. Quando ao atravessar o deserto, para ir ao
Santo Sepulchro do Redemptor, cahi sobre as areias ardentes, quasi morto
pela sede... um anjo me appareceu e me salvou... Em Violante, encontrei
depois a imagem do meu Anjo Redemptor: é a mesma fronte pallida do anjo
é o mesmo sorriso meigo e triste, o mesmo olhar celeste e candido... a
mesma voz... Oh! mas a alma dessa mulher é mais pura do que os espiritos
do ceu Amei-a! Amei Violante.
D. MENDO
(_Chorando._) Meu Deus, tende piedade de mim! acabae com esta dôr!...
matae-me!
FR. BERMUDO
Quando a voz da fatalidade, troando nos espaços, pronuncia a sentença,
que nos condemna, devemos escutal-a, e ter resignação.
UM MONGE
(_Apparecendo á porta da esquerda._) Fr. Bermudo, está á porta do
mosteiro uma penitente, que vos deseja fallar.
FR. BERMUDO
Conduzi-a aqui, irmão. (_O monge sae._) Mendo, vae orar por nós ao
Senhor.
D. MENDO
Ficarei ali a fazer penitencia, até que me venham buscar, para ir fazer
profissão na igreja. É tarde já; d'aqui a poucas horas é manhã.
FR. BERMUDO
(_Levando-o ao oratorio do fundo._) Espera aqui, em quanto vou saber o
que me quer essa mulher. (_D. Mendo entra no Oratorio. Frei Bermudo
fecha a porta._)
SCENA V
_Fr. Bermudo e D. Gontrade_
D. GONTRADE _(Coberta com um véo negro.)_
Padre, estás disposto a ouvir a ultima confissão de uma grande peccadora?
FR. BERMUDO
Aquelles que, como eu, se votaram ao serviço de Deus, não negam nunca as
suas consolações aos que padecem. Mas aqui?
D. GONTRADE
Se as consolações da religião podem fazer esquecer os remorsos
profundos, e as infinitas saudades, eu preciso dellas já.
FR. BERMUDO
Porque me não mandastes chamar, senhora; iria eu, como é do meu dever,
ter comvosco.
D. GONTRADE
Saberieis então quem eu sou; e o que vou confessar-vos interessa a honra
de uma familia nobre. Posso dizer-vos o meu crime, mas devo esconder-vos
o meu nome, para que não recaia sobre outros a deshonra, com que esse
crime manchou um nome illustre.--Padre, remorsos ha que não podem ter
fim... nem talvez com a morte...
FR. BERMUDO
Com o arrependimento e a fé podem apagar-se da alma muitos pensamentos
tenebrosos; muitos martyrios podem ter fim.
D. GONTRADE
Mas Deus perdoará sempre á peccadora, que se arrepende?
FR. BERMUDO
Talvez; que a sua misericordia é infinita.
D. GONTRADE
Escutae-me então, padre, e pedi a Deus que seja misericordioso comigo;
porque me sinto morrer, e vou ser julgada no tribunal supremo.
FR. BRMUDO
(_Áparte._) Esta voz!... Esta voz é de D. Gontrade; Que vou eu ouvir,
meu Deus! (_Assentando-se._) Dizei.
D. GONTRADE
(_Ajoelhando._) Dae-me forças Senhor! (_Pausa._) Padre, eu era feliz,
quando um nobre cavalleiro de Portugal me offereceu a sua mão, e o seu
nome.--Não se póde amar com mais amor, não se póde querer mais da alma,
sacrificar mais por uma mulher, do que esse homem o fez por mim!! Ouvi
como eu lhe paguei tanto amor! As guerras do Conde D. Henrique com os
moiros chamaram-no para longe de mim: fiquei só em quanto elle peleijava
por essas terras distantes. Passaram mezes, sem que eu houvesse novas de
meu marido. Um dia, estava eu assentada no eirado de minha casa, lancei
os olhos ao campo, e vi vir ao longe um cavalleiro, seguido de muitos
homens d'armas, julguei que fosse elle, e corri a recebel-o. Foi a
ultima alegria que tive. Quando o cavalleiro se aproximou... conheci que
não era quem eu desejava. Perguntei-lhe, se pelas guerras em
que andára vira meu marido... respondeu-me, que expirára n'um recontro
com os moiros, peleijando como um heroe; assegurou-me que todo o
exercito, e elle mais que todos havia chorado muitos prantos sobre a sua
sepultura. Mais de um mez chorei a morte de meu marido, com uma dôr
amarga e sincera. Mas a minha alma era fraca; não sabia soffrer. Depois
do pranto vieram as saudades; depois as consolações; e depois o amor por
esse mesmo homem, que me havia trazido a fatal nova.
FR. BERMUDO
(_Com muita anciedade._) E vosso marido!?
D. GONTRADE
(_Continuando._) Passei alguns dias no delirio do crime, sem remorsos,
sem arrependimento; por que amava de coração, e julgava ser amada. Esses
dias foram para mim como um sonho, hoje apparecem-me como um espectro.
FR. BERMUDO
E o acordar desse sonho?...
D. GONTRADE
N'uma noite, estava eu com esse homem, entregue a esse enlevo d'alma em
que se escondia um crime tremendo, quando ouvi um ruido estranho por
toda a casa, senti, por um pressentimento subito o frio da morte
correr-me pelas veias. Era meu marido que voltava da guerra.
FR. BERMUDO
E então?...
D. GONTRADE
Então vi apparecer diante de mim, que havia quasi perdido a razão, um
homem ameaçador, e tremendo, o rosto pallido, os olhos ardentes, a mão
armada. Apoderou-se de mim a vertigem... Ouvi um grito de agonia, que me
gelou... e depois, o baque de um corpo em terra.
FR. BERMUDO
E esse que morreu, era...
D. GONTRADE
Meu marido--Nessa hora consumou-se o meu crime, nessa hora começou o
castigo! O homem, que me enganou, abandonou-me naquella dôr.
FR. BERMUDO
(_Levantando-se com horror._) Oh! maldicta de Deus!... estás maldicta,
mulher!...
D. GONTRADE
(_Levantando-se e deixando cair o veu que lhe esconde o rosto._) Não é
verdade que sou uma mulher miseravel?... Não é verdade que sou maldicta
de Deus? Que a misericordia do Senhor não é bastante para tão negro
peccado?...
FR. BERMUDO
Queres alcançar perdão para esse crime?
D. GONTRADE
Deus de misericordia!
FR. BERMUDO
Pede primeiro perdão áquelles que offendeste, e que estão nesta hora
padecendo por tua causa. (_Abrindo a porta do fundo a que apparece D.
Mendo._) Irmão, perdoas áquella mulher a morte de teu pae?
D. MENDO
Minha mãe...
D. GONTRADE
(_Caindo por terra._) Meu filho!... perdoa-me.
D. MENDO
Perdôo.
FR. BERMUDO
Mendo perdoou-te a morte de seu pae; e eu, D. Gontrade, perdôo-te a
morte de meu irmão!
D. GONTRADE
Meu filho!.. O irmão de meu marido!... (_Caindo com a fronte por
terra._) Justiça eterna!
FIM DO 4.º ACTO.
ACTO QUINTO
_Uma casa vasta, de abobada de volta abatida, apparencia triste e
arruinada. Ao fundo porta em arco, por onde se vê uma parte de um
clausto. Á direita uma porta, á esquerda um grande crucifixo, sobre um
altar de pedra tosca, objectos proprios para uso da igreja. A luz dos
primeiros raios do sol entra já por uma pequena fresta alta, e pelo
fundo, mas a scena está ainda alumiada por dois brandões, seguros por
braços de ferro, defronte do altar._
SCENA I
_D. Mendo (coberto de armadura, ajoelhado.) Um templario._
O TEMPLARIO
Daqui a uma hora estará tudo prompto.
D. MENDO
D. Guilherme virá tambem?
O TEMPLARIO
O grão-mestre dos templarios vem assistir á vossa profissão, D. Mendo.
D. MENDO
E el-rei?
O TEMPLARIO
El-rei tambem. D. Affonso quer-vos muito; tem mostrado grande interesse
por vós.
D. MENDO
Meu bom, meu excellente principe! E fr. Bermudo, esse não póde
demorar-se. Já me vae tardando.
O TEMPLARIO
Vou á igreja saber em que estado estão os preparativos para logo.
D. MENDO
Pois ide irmão; que eu aqui fico só, a pedir a Deus que me não abandone.
O TEMPLARIO
Quereis alguma cousa mais?
D. MENDO
Nada. (_O Templario sáe._)
SCENA II
D. MENDO (_SÓ._)
D. MENDO
É manha já, e Fr. Bermudo sem voltar! Sem me trazer uma palavra della
para me dar força! Elle que me prometteu voltar cedo, logo que lhe
fallasse! Ama-a, Fr. Bermudo tambem a ama! Quem sabe se nesta hora mesmo
de suprema dor, elle ainda tem ciume dos seus prantos, e m'os quer
roubar?!--O sangue delle é o meu sangue; é o irmão de meu pae; não póde
ser traidor.--Para que quero eu mais ouvir fallar della? Que pode agora
haver de commum entre nós ambos? A dor, a dor que é o mais intimo laço
que póde existir entre dois corações que se amam. Fr. Bermudo não chega,
meu Deus; e nem uma palavra consoladora de Violante me vem dar alento
nesta tristeza, nesta solidão do espirito. Fr. Bermudo!... Violante...
oh! estes dois nomes encontram-se ás vezes nesta lide maldita do meu
pensamento, e esse encontro faz-me gelar toda a fé, mata-me toda a
força... Se em mim ha força ainda: que não ha... não ha de certo. Eu já
não vivo, que me senti morrer corpo e alma, quando de todo me vi
separado della. Até aquella agitação convulsiva da desesperação acabou
em mim... Já não tenho odio... e nem sei mesmo se ainda tenho amor!
(_Pausa._) Morri de todo e para sempre.
SCENA III
_D. Mendo, e fr. Bermudo_
FR. BERMUDO
Não percas assim o animo, Mendo.
D. MENDO
Bermudo!... E ella?!
FR. BERMUDO
Sempre a mesma.
D. MENDO
Tem padecido muito?...
FR. BERMUDO
Tem... muito.
D. MENDO
E tem fallado de mim? Tem-se lembrado... do que já acabou.
FR. BERMUDO
É um anjo, que não sabe senão amar; que não póde esquecer o seu amor.
D. MENDO
Olha... diz-me a verdade... que quer ella fazer!
FR. BERMUDO
Não t'o posso dizer... Sei só, que nunca baixou á terra alma, que mais
soubesse sentir, alma capaz de maiores sacrificios!
D. MENDO
Conta-me o que se passou. Vistel-a? Que te disse?
FR. BERMUDO
Quando ha uma hora sai daqui fui logo direito á pousada de
D. Pedro Framariz. Procurei a aia de Violante, que me levou ao oratorio,
onde esta se fechára... para pedir, o que a todos nós vae faltando...
forças para padecer.
D. MENDO
E Violante estava...
FR. BERMUDO
De joelhos, pallida, immobil, com os olhos erguidos ao ceu, o corpo
dobrado pelo peso da dor, a boca semi-aberta como se a oração ao sair já
fria e sem alento n'um ultimo suspiro, se lhe houvera petrificado nos
labios.
D. MENDO
Morta?...
FR. BERMUDO
Morta, não. Violante estava viva ainda; sem dar quasi outro signal de
vida, a não ser o lento baixar dos olhos sobre mim, e o murmurar
baixinho das palavras; n'uma voz suave e angustiosa, Violante
perguntou-me o que eu ia alli fazer? Se eu, se alguem ainda se lembrava
della?
D. MENDO
Se me lembrava della?
FR. BERMUDO
Fallei-lhe só de ti, porque só assim me quereria ouvir. Que dor a da
pobre Violante! E não ha, não ha remedio, para dores, como aquellas...
Oh! os homens que teem descoberto tanto segredo da materia, não poderam
comprehender ainda nem um dos mysterios do espirito, não poderam ainda
curar nenhuma dessas enfermidades agudas, a que chamam paixões.--São
tudo sonhos, são tudo illusões na terra; mas sonhos, mas illusões, que
matam.
D. MENDO
A desgraça é uma realidade!
FR. BERMUDO
(_Tranquillo_). Escuta.--A desgraça é uma provação da alma, que a deve
robustecer; que lhe deve dar essa grandeza, signal da sua immortalidade.
É tempo de voltar para o ceu esses teus pensamentos, que ainda não
soubeste desprender das cousas mundanas.--Daqui a uma hora professarás.
É necessário, filho, que o novo cavalleiro do templo seja digno do seu
elevado ministerio, esteja pela fé á altura destes tempos de dura
provação, de lucta permanente porque a igreja de Christo está passando
neste seculo.
D. MENDO
Não posso, Fr. Bermudo, parece-me que não posso pensar senão em
Violante. Mas vou ver se pela oração comsigo elevar a minha alma até
essas alturas sublimes, donde se perdem de vista as miserias do mundo.
(_Vae lentamente ajoelhar diante do altar._)
FR. BERMUDO