E se elle conhecesse, como eu, toda a grandeza, da nossa desventura! Se

elle estivesse nesta duvida tremenda, em que o meu espirito vacilla

agonisante; ora persuadido de que cumpria um dever, ora aterrado pelo

mais cruel remorso, que homens tem sentido!--Violante ainda vive, mas

daqui a uma hora...--Eu devo ir arrancar-lhe das mãos aquelle veneno;

para que ella não morra! Mas que importa?... Ella quer morrer, e bem sei

que vontades poderosas, resoluções firmes como a sua não as vence nem a

persuasão, nem a força!--Ainda ha pouco lhe fallei, lhe pedi pelas

cousas mais sagradas da terra, e do ceu, pelo amor e pela

religião, que não cedesse á triste tentação que a arrasta, á fascinação

que a cega... respondeu-me só que amava e queria morrer pelo seu amor.

(_Neste instante entra Violante pela direita, e aproxima-se de Fr.

Bermudo, sem que D. Mendo a veja._)

SCENA IV

_Os mesmos, D. Violante._

D. VIOLANTE

Fr. Bermudo.

FR. BERMUDO

Violante!

D. VIOLANTE

Eu não podia morrer sem o ver uma vez ainda... por isso vim. É um

instante; o tempo de lhe dizer que ainda o amo.

FR. BERMUDO

Mas agora, se viessem os templarios, os cavalleiros, Violante...

D. VIOLANTE

Em elles vindo, vou-me eu. Não me verão. Ide, Fr. Bermudo, deixae-me um

instante só com Mendo.

FR. BERMUDO

É tornar ainda mais angustiosa esta horrivel separação...

D. VIOLANTE

Eu tenho forças; sinto em mim uma força sobrenatural. Ide--Deixae-nos.

FR. BERMUDO

(_Áparte._) Ainda mais esta dor, meu Deus!

SCENA V

_D. Violante, D. Mendo--no fim Fr. Bermudo_

D. VIOLANTE

(_Com muita doçura._) Mendo, Mendo... não me sentes aqui, Mendo?

D. MENDO

(_Que escutou um instante a voz de Violante, e depois se voltou

subitamente, e a viu--indo para ella._) Violante! Minha Violante!--Então

esta dor, esta separação, era tudo um engano.--Estás aqui, minha

Violante!!..

D. VIOLANTE

Estou aqui para te dizer adeus para sempre; para te pedir que perdoes...

D. MENDO

Perdoar... o que, o que hei de eu perdoar?

D. VIOLANTE

Fui eu que te fiz infeliz com o meu amor.--Mas não sabia, Mendo,

eu não conhecia essa tenebrosa historia--Perdoa-me... perdoa a

meu pae tambem. Eu não quero, não posso ficar com um remorso destes

na consciencia.--Quero morrer em paz.

D. MENDO

Morrer?

D. VIOLANTE

Sim, quando eu morrer, quando for a vontade de Deus que esta minha vida

tenha fim, não quero que venha um pensamento funebre, a idéa de um crime

não perdoado perturbar a minha ultima oração.--Quem sabe se Deus me

perdoará?

D. MENDO

Quem te não ha de perdoar? O que ha que perdoar a um anjo tão puro como tu?

D. VIOLANTE

Mendo, eu bem sei que a honra da tua familia foi offendida: e que ha

offensas que um cavalheiro da tua linhagem não deve deixar sem

vingança... É assim que pensam os homens; mas Deus condemnou a vingança

como um crime abominavel: e tu, Mendo, daqui a pouco vaes professar

n'uma ordem, instituida para servir a Deus.--Mendo, pela religião... e

pelo nosso amor que foi deixa-me fallar-te ainda uma vez desta

felicidade que já passou--pelo nosso amor tão suave para mim, e para ti

tambem, Mendo, peço-te por esse amor que perdoes, que esqueças, que te

não vingues do pae da tua Violante.

D. MENDO

Violante, eu... sabes como te amei, sabes como te quero ainda; que esta

separação não é angustia só, é a morte para mim!--Escuta, minha

Violante.--Não sei se meu pae me amaldiçoará da sepultura; mas faz-me

horror a idéa de odiar teu pae; e vingar-me delle por minhas mãos, não o

hei-de fazer nunca.

D. VIOLANTE

E perdoas-lhe?

D. MENDO

(_Depois de uma pauza._) Perdôo.

D. VIOLANTE

Bemdicto seja Deus, que me dá esta consolação n'uma tão grande dor?

D. MENDO

Minha mãe é que lhe não perdoa.

D. VIOLANTE

Era o teu perdão, que eu desejava, Mendo. Não podia supportar a idéa

que, entre ti e meu pae, se levantasse esse livido e sangrento espectro

da vingança.--E a mim tambem me perdoas? Se ainda, por minha causa,

padeceres uma grande dor, perdoas-me?

D. MENDO

Não te perdôo só, amo-te... hei de amar-te sempre, hei-de de morrer

amando-te.

D. VIOLANTE

Deus não ha de ser menos misericordioso do que tu.--Mendo, ainda havemos

de ser felizes!

D. MENDO

Ai, não póde, isso não póde ser. Felizes, nunca.

D. VIOLANTE

N'outro tempo, n'outro logar; longe deste tenebroso mundo, muito longe

destas paixões da terra, havemos de ser felizes.--Eu vi, Mendo, esta

noute antevi a nossa felicidade futura.--Era um paraiso. (_Ouve-se uma

musica de orgão e um coro, muito ao longe até ao fim da scena._) Um

campo todo de flores maravilhosas, com um perfume inebriante; um lago

coberto de diamantes, de uma serenidade e formosura sem igual no mundo;

sobre o lago nuvens, em que o ouro e a purpura se misturavam com a luz

rosada da mais bella aurora; e do ceu resplandecente, scintilante,

baixavam, fluctuando brandamente, anjos que vinham pousar sobre as

graciosas nuvens. Depois, vozes sobrenaturais as vozes dos anjos em

divino coro, pediam a Deus pela nossa felicidade; e o meu e o teu nome,

Mendo, subiam assim até ao throno do Eterno.

D. MENDO

Foi um sonho, e o sonho até se póde realisar.

D. VIOLANTE

Não foi sonho, Mendo, foi uma visão celeste, uma divina promessa.

Naquella hora tudo eram puras alegrias diante de mim; e no meu coração

tudo eram orações fervorosas, e ardentes esperanças.

D. MENDO

Que esperanças podemos nós ter ainda?

D. VIOLANTE

Deus quer a nossa união, apesar dos agoiros, das negras paixões, dos

crimes, das vinganças dos homens.--Na terra não podemos ser unidos,

sel-o-hemos no ceu!

D. MENDO

E quando, quando, minha Violante, terão fim estas angustias do existir?

Violante, amo-te; nesta hora amo-te mais do que nunca te amei. E é

agora, que nos vamos separar para sempre! Esta deve ser a unica vez, que

nos vejamos; estas devem ser as nossas ultimas palavras de amor. Amo-te,

amo-te, Violante.

D. VIOLANTE

O amor mata, aqui na terra; mas no ceu é a eterna alegria.--Mendo,

deixa-me repetir tambem essas palavras, em que se resume a minha vida

toda!--Amo-te, amo-te.

FR. BERMUDO

(_Aparecendo á porta do fundo._) Os cavalleiros do templo já estão

reunidos na igreja.

D. MENDO

Violante!

D. VIOLANTE

Mendo, adeus!--Adeus para sempre! (_Cae nos braços de D.

Mendo beija-o, e sae correndo pela porta da direita._) (_Ouve-se depois

a voz de Violante, já fóra de scena repetindo, « Adeus!....

adeus!»_)--(_A musica do orgão acaba logo depois._)

SCENA VI

_D. Mendo e Fr. Bermudo_

FR. BERMUDO

(_Detendo D. Mendo._) Deixa-a ir só.

D. MENDO

Quero vel-a... Não me posso separar della ainda.

FR. BERMUDO

De que te serve prolongar por mais tempo esta angustia? O momento mais

doloroso passou para ella, já agora: e daqui a um instante vir-te-hão

buscar os templarios.

D. MENDO

Mas deixal-a assim!--Bermudo, aquelle adeus foi um como grito de extrema

dôr, que me aterrou. Naquelle sonho de felicidade, naquellas esperanças

de alegria de Violante, havia não sei o quê de sinistro, como a morte.

Naquelle espirito angelico ha um pensamento de crime, ha naquella alma a

presciencia do remorso.

FR. BERMUDO

Deixa-a morrer com o seu sonho do ceu.

D. MENDO

Morrer!

FR. BERMUDO

A morte é o termo do padecer.

D. MENDO

Que dizes?

FR. BERMUDO

A alma de Violante é já de um outro mundo, o seu corpo em breve será dos

elementos.

D. MENDO

Meu Deus! Que quer isso dizer? Não posso comprehender.

FR. BERMUDO

Uma paixão destruiu nella a vida do espirito; e a morte porá em breve

termo à vida corporal.

D. MENDO

Pois ella, Violante ousará attentar contra a propria vida?

FR. BERMUDO

A infeliz não tem força, não tem animo para supportar o seu martyrio.

Ella vê na morte só a paz, e a passagem para um mundo melhor; por que na

sua alma pura, nada lhe faz receiar o eterno julgamento.

D. MENDO

Violante morrer!--E como hade ella morrer?

FR. BERMUDO

Hontem, Mendo, a desventurada Violante veio aqui ao convento, e

pediu-me, pelo que para mim existe de mais sagrado, que lhe desse um

veneno, para ella não padecer longas dores na hora do passamento.

D. MENDO

E tu déste-lhe o veneno?

FR. BERMUDO

Dei!.,.

D. MENDO

Tu!--a vingança levou-te a um tal crime.--Vingaste-te sobre uma

innocente...

FR. BERMUDO

A vingança... esqueci-a por ella. Tu bem o sabes, Mendo.

D. MENDO

O ciume...

FR. BERMUDO

Um amor como este meu, é como á immensidade do deserto; as tempestades

atravessam-no rugindo medonhas e ferozes, os vulcões ardentes passam

revolvendo as areias, cavando abysmos, cobrindo com montanhas os restos

de antigas cidades; mas toda essa desordem tremenda perde-se, torna-se

pequena n'aquelles espaços infinitos; e depois fica tudo arido, morto,

immobil como d'antes.--Oh! o ciume foi como a tormenta do deserto,

passou atravez da immensidade d'este amor, revolvendo-me o mais intimo

do coração, sem que eu mesmo possa ver já as ruínas que deixou após si.

Não foi o ciume, foi a piedade, foi uma grande dor de coração, um puro e

sancto dó d'esse padecer, que a consumia.

D. MENDO

Dó! Piedade! E matas-te-la! Corre a salva-la, se ainda é tempo.--Não

vás... vou eu.

FR. BERMUDO

(_Detendo-o._) Não, não vás. É uma crueldade. E, de mais, é tarde: agora

já ella terá tomado o inexoravel veneno.

D. MENDO

E se ella está envenenada não haverá meio de a salvar?

FR. BERMUDO

Quando a morte penetra o sanctuario da vida, quando estende

o poder até sobre a luz do espirito, só um milagre pode vencer o seu poder.

D. MENDO

Palavras... palavras! És um louco, Bermudo, sem coração nem consciencia.

Váe, váe já, e salva-a. Essas palavras insensatas que dizes, não te

podem justificar. És um assassino, Bermudo, se a não salvas. (_A D.

Gontrade, que apparece á porta, pallida e cadaverica._)--Oh! Vinde...

vinde, minha mãi... vinde tambem pedir por ella, a este homem, Violante

morrerá se elle a não salva.

SCENA VII

_Os mesmos e D. Gontrade_

D. GONTRADE

Salva-a!.. e a elle tambem! salva-os a ambos fr. Bermudo. É preciso

perdoar tudo, perdoar a todos, para que Deus nos perdoe tambem.

FR. BERMUDO

Vós perdoaes, senhora, como eu perdoei já; e não deveis pedir a vida de

Violante, porque a morte é para ella o descanço; a eterna paz.

D. GONTRADE

Deixal-a morrer!.. Pois que tem ella?! Quem a quer matar?!

D. MENDO

Foi elle, esse homem cruel, esse homem sem coração... foi elle que lhe

deu o veneno... e que a não quer salvar agora.

D. GONTRADE

Ide, meu irm... ide, homem; salvae Violante, se ainda é tempo.--Sou eu

que vol-o peço n'esta minha ultima hora (_Caindo de joelhos._)

Salvae-a, e uni-os um ao outro, estes dois innocentes, que

se amam... Que seja tudo esquecido, porque elle, lá do tumulo, já

perdoou. Vou morrer... Fazei Mendo e Violante felizes. Salva-os pela

minha alma! Salvae-os para que Deus, me perdoe.

FR. BERMUDO

É tarde. A esta hora talvez, Violante não exista já...--Disseram-no os

astros, e os astros não mentem... (_Sáe._)

SCENA VIII

_D. Mendo, e D. Gontrade_

D. GONTRADE

Meu Deus, piedade!.. Salvae-a, senhor!

D. MENDO

Salvae-a!.. (_Vae para sair._) Oh! Quero vêl-a... Não quero que morra

sem que eu morra tambem com ella!

D. GONTRADE

(_Levantando-se._) Meu filho, ouvi... escuta-me, meu querido Mendo, não

me deixes agora... não me deixes aqui só: Sinto que vou morrer, e tenho

necessidade de ti... quero beijar-te ainda como quando tu me julgavas

innocente.

D. MENDO

(_Segurando-a nos braços'_) Que tendes, minha pobre mãi?! Como estaes

palida!... Que martyrio é este meu, Senhor.

D. GONTRADE

Não é nada... é a morte... é o descanço se Deus me perdoar. Meu filho,

meu filho, eu cometti um grande crime, mas se tu m'o perdoares,

Deus perdoar-me-ha tambem. Perdoa, filho, perdoa a tua mãi, que vai

morrer!

D. MENDO

Vós tambem minha mãi, ides deixar-me! Todos me abandonam!... fico só, só

com esta dor no mundo!

D. GONTRADE

Ai, Mendo, se eu visse cumprido antes de expirar o sonho do meu delirio!

Que sonho tão bello, meu Deus! Que vizão consoladora!.. Vi-o, a elle, a

teu pai, cercado das glorias infinitas do céo... Não ameaçava já,

abençoava... não me olhava com colera, sorria-se com brandura e piedade!

Senti uma alegria infinita derramar-se no meu espirito... Accompanhava-o

um anjo; e disse-me estas palavras divinas: «Perdoa, como eu te

perdôo... Este anjo, é o anjo da guarda do nosso filho... faz feliz o

nosso amado filho, o nosso querido Mendo.»

D. MENDO

E o anjo...

D. GONTRADE

O anjo era Violante. Violante á o teu anjo da guarda!

D. MENDO

E o meu anjo deixou-me... para sempre me abandonou o meu anjo da guarda!

D. GONTRADE

Na terra, talvez; no céu, não te abandonará de certo.

D. MENDO

Vou... Deixai-me-ir, minha mãi. Vou procurar Violante.

D. GONTRADE

E deixas-me aqui morrer só!?

D. MENDO

Vamos rezar por ella, ao menos--pedir ao céu que nol-a salva. (_Cáem

ambos de joelhos._)

D. GONTRADE

(_Levantando as mãos ao céu._) É esta a minha ultima oração... que ao

menos esta seja ouvida por vós, Senhor!

D. MENDO

Virgem Maria, explendor de eterna gloria, luz que faz desaparecer todas

as trevas do coração, dá azas a minha alma para subir ao teu throno, a

pedir-te vida, vida para ella... Salvae-a, Senhora Nossa! (_Ouve-se um

coro religioso entoando o_ Dies irae) Oh! São os canticos da morte, que

respondem a esta nossa oração, minha mãi!

D. GONTRADE

São tremendas aquellas palavras; são palavras que gelam de pavor a quem

vai morrer.

SCENA IX

_Os mesmos, os templarios e depois D. Violante, e Fr. Bermudo_

UM TEMPLARIO

É a hora, cavalleiro D. Mendo Paes de vos unirdes á Santa Ordem do

Templo, para nos ajudar a defender, e a fazer adorar por toda a terra a

Cruz do Redemptor.--O mestre dos templarios espera por vós.

D. MENDO

Esperae; esperae!.. ainda não!., ainda não!

D. VIOLANTE

(_Fóra._) Mendo! Mendo!

D. MENDO

Violante!... viva! ainda viva!

D. VIOLANTE

(_Caindo nos braços de D. Mendo._) Mendo, aqui estou... sou tua... já

sei tudo! Mendo... estou viva para te amar! (_Mostrando fr. Bermudo._)

Salvou-me elle.

D. GONTRADE

Agora já posso morrer.--Filho... filhos, adeus.

(_Cáe por terra Mendo e Violante correm a D. Gontrade.--Os templarios

aproximam-se._)

FR. BERMUDO

Serão felizes, elles... Só para mim os astros não mentiram.

Fim do 5.º acto e do drama.

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ESTÁ NO PRELO

Amor de Poeta, drama em verso por J. G. Lobato Pires.

Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo · 第 7 / 7 段