Vós que sois admirado pelo muito que sabeis, fallaes de vinganças como o

mais estupido homem d'armas... Matar... matar um homem!... O que importa

isso? Pois elle não ha de morrer, sem que o matem?--Matal-o é affastal-o

de todos os tormentos deste mundo, é dar-lhe o descanço eterno... Estou

hoje um bobo serio, não é assim? Um bobo serio é como um vestido de dó

num casamento, excita a compaixão e o desprezo.

BONAMIZ

Mestre, estás hoje insipido.

D. BIBAS

Que queres? Deante destes dois mochos a piarem sons de agouro, até o

genio de um jogral fica vencido.

FR. BERMUDO

Não digaes nada do que ouvistes, bobos.

D. BIBAS

Tambem tu, fr. feiticeiro, julgas que os bobos são como o resto dos

homens? Ficae descançados; nós queremos saber para rir, e não para ir

contar aos outros. (_Dando uma gargalhada._) Vingativos frades.

BONAMIZ

E pagens contrictos...

D. MENDO

Calae-vos ahi, bobos do inferno. (_A fr. Bermudo._) Acceito, fr.

Bermudo. Não quero a morte ainda.

FR. BERMUDO

Vive...

D. MENDO

Cumprir-se-ha minha sina?

FR. BERMUDO

Cumprir-se-ha. (_O rumor do exercito aproxima-se_)

BONAMIZ

Ahi vem o nosso infante, o nosso tio infante.

FR. BERMUDO

Adeus. D. Mendo--Quando me quizeres, estarei ao pé de ti. (_Sáe._)

(_A noite tem-se cerrado pouco a pouco._)

SCENA VI

_O Infante, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo, e Cavalleiros_

TODOS

Viva o nosso infante! viva!

ALGUNS

Viva El-Rei!

INFANTE

Havemos de vencer; protege-nos o braço do Senhor.

ALGUNS

Viva D. Affonso!

INFANTE

Ide purificar-vos pela oração para que Deus proteja as nossas armas.

(_Saem todos gritando--Viva D. Affonso, fica só o infante e D. Mendo._)

SCENA VII

_O Infante e D. Mendo_

INFANTE

Mendo, amanhã é o mais bello dia da tua vida... Sentirás pela primeira

vez o furor dos combates correr-te nas veias. No meio do turbilhão dos

inimigos sentirás essa força estranha, superior e independente da

vontade, que dirige o braço dos que pelejam pela sua fé, e pela sua

patria; essa força que faz os heroes e os martyres; que é a inspiração

dos homens de guerra. Não estejas assim triste agora; que depois da

peleja terás de chorar os nossos que morrerem... e então... Que importa?

Resta-me o amor. Tu és moço, nobre; serás em pouco um dos

melhores lidadores de Portugal. (_Sentando-se._) Ajuda-me a tirar este

capêllo. És feliz, Mendo; sobre ti não pezam nem remorsos do passado,

nem terror do futuro...

D. MENDO

Sr. infante!

INFANTE

Meu amigo!... Diz-me o que desejas; quero fazer-te feliz, a ti.

D. MENDO

(_Com excitação._) Meu senhor!

INFANTE

Falla-me com sinceridade.

D. MENDO

Amo.

INFANTE

Amas D. Violante, já o sabia. Amas a filha de D. Pedro Framariz, e és

amado por ella. Sereis unidos.

D. MENDO

Unidos... Eu, e Violante...

INFANTE

Sou eu que t'o prometto.

D. MENDO

Meu Deus, meu Deus! que feliz é o meu destino!

INFANTE

Vae agradecel-o a Deus... vae pedir-lhe por nós todos. Anda Mendo, vae

pedir ao Senhor, que tenha misericordia dos que desejam glorificar seu

santo nome.

D. MENDO

Vou...

INFANTE

Deixa-me só. (_Mendo sáe._)

SCENA VIII

_O Infante. (Só.)_

INFANTE

(_Depois de uma pauza em que escuta os gritos do exercito ao longe._)

Aníma-os a todos a esperança da victoria. Esqueceram tudo, para se

lembrarem só do triumpho. Uns combaterão por que têem fé, e querem,

combatendo, ganhar o ceu; outros porque têem ambição, e querem

accrescentar as suas terras e augmentar o seu poder. Agora é tudo

enthusiasmo, tudo esperança ahi... depois, mais tarde, quando cada um

desses guerreiros estiver a sós com a sua alma, virá a meditação; depois

as recordações, e as saudades; depois a oração fervorosa... e depois...

depois talvez o medo da morte... Morrer pela fé é ganhar a corôa celeste

dos martyres; e todos os meus companheiros d'armas creem como eu na

misericordia de Jesus Christo! (_Cravando no chão a espada e pondo-se de

joelhos._) Cruz de redempção, sobre que primeiro se escreveu a palavra

sacrosanta de perdão para os homens, symbolo de eterna victoria,

ajudae-nos... Que vos cerque uma luz de gloria: que se passe um milagre

diante de mim, e a minha confiança será infinita! Gedeão era humilde e

fraco como eu, os seus eram poucos contra muitos, como são agora esses

meus, e o altar de Baal foi derrubado, e em seu logar se levantou o

templo de Jéhovah. É por que a sua fé era viva, é por que a sua offerta

tinha sido consumida pelo fogo do ceu no altar do sacrifício, é por que

a mão de Deus o protegia, é por que na sua alma havia uma

inspiração sagrada... Inspirae-me, meu Deus: dae-me a victoria Senhor...

e o vosso nome será adorado por toda a parte onde chegar o meu poder.

Onde eu poder fazer ouvir a vossa palavra divina, grandes e pequenos,

nobres e humildes a escutarão com amor e contricção. Dae-me a victoria,

meu Deus!

SCENA IX

_O Infante e Fr. Bermudo_

FR. BERMUDO

(_Á entrada do Real._) A victoria será tua.

INFANTE

(_Levantando-se._) Quem és? Que queres aqui? Foi Deus que te mandou?

FR. BERMUDO

A sua benção caiu sobre ti, e os teus.

INFANTE

A victoria!... Será nossa a victoria?

FR. BERMUDO

(_Abrindo as cortinas do fundo do Real, deixando vêr o campo, que se

estende por uma encosta, e em que brilham algumas fogueiras; apontando

para o Oriente._) Ao romper d'alva verás no Oriente o braço do Senhor

estender-se sobre o teu exercito.

INFANTE

A victoria, a victoria! Uma palavra tua, meu Deus!... (_Abraçando de

joelhos a cruz da espada._) Gloria ao teu nome Senhor!

FIM DO 2.º ACTO

ACTO TERCEIRO

_Uma salla do castello de Guimarães, portas lateraes e ao fundo. É

noite, brandões seguros por braços de ferro lançam uma luz brilhante.

Ouve-se musica, ha differentes bailados, durante a primeira scena._

SCENA I

_D. Gonçalo de Sousa, D. Lourenço Viegas, D. Soeiro Viegas, Cavalleiros,

Prelados, Damas, D. Mendo, D. Violante, D. Bibas e Bonamiz. Os

Cavalleiros e Damas passeiam e dançam._

D. GONÇALO DE SOUSA

(_A uma dama que traz pelo braço._) Foi bello, magnifico este nosso jogo

do tavolado.--Nunca damas mais formosas fizeram nascer dezejos de gloria

em corações de mais ardentes e destros cavalleiros.

DAMA

Lembraram-vos hoje essas batalhas verdadeiras, onde sois sempre o

primeiro, sr. D. Gonçalo de Sousa?

D. LOURENÇO VIEGAS

(_Aproximando-se._) Feliz o cavalleiro que ganhou hoje uma coroa para

vos offerecer, linda Branca.

DAMA

Não sejaes invejoso, D. Lourenço Viegas, que é feia a inveja em quem

vale tanto: vossos feitos de armas já vos mereceram o nobre titulo de

_espadeiro_.

BONAMIZ

Mas nem por isso lhe tem valido grandes triumphos em amor. É

por que o amor não se leva á espada, como se levam os infieis

sarracenos. As mulheres são infieis, que se conquistam pela brandura, e

que se conservam pelo galanteio. O braço forte não serve para conquista

destas, D. Lourenço.

DAMA

(_Rindo._) Que tem isso?--Não se póde ser grande em tudo. (_Vão para o

fundo da scena._) É melhor cubrir-se um cavalleiro de gloria nas

batalhas do que nos amores.

D. SOEIRO VIEGAS

(_Vindo á frente da scena com uma dama._) D. Sancha, sois a formosa de

todas as lindas damas de Portugal. Um mouro chamar-vos-hia uma huri, eu

adoro-vos como a um anjo.

DAMA

É nos campos da lide que se aprende a lisonja?

D. SOEIRO VIEGAS

Aprende-se a ser franco, e leal...

D. BIBAS

(_Rindo._) Como todos os da vossa raça, dom namorado...

D. SOEIRO VIEGAS

Excommungado bobo!

D. BIBAS

Não ha nada que esfrie uma paixão como uma gargalhada a tempo. O bobo é

o avesso de Cupido. Ri-se das coisas serias, o bobo; e Cupido e todos os

seus escravos tomam a serio até os ridiculos galanteios do amor.

(_Um cavalleiro e uma dama vêem á frente da scena._)

1.º CAVALLEIRO

Está sempre triste, e cuberta de lucto, a infeliz D. Gontrade.

DAMA

Vistel-a hoje aqui? Em quanto o filho, D. Mendo...

1.º CAVALLEIRO

O namorado D. Mendo. Vede com que olhos elle admira a filha de D. Pedro

Framariz. Feliz Mendo!

DAMA

Em quanto o pagem d'El-Rei...

1.º CAVALLEIRO

Agora cavalleiro. Ganhou a espada na batalha de Ourique. Foi o sr. D.

Affonso Henriques, quem o armou com a sua propria mão.

DAMA

Em quanto D. Mendo andou pela guerra, a mãe, D. Gontrade, passou os dias

e as noites fechada, a rezar sempre. Aquella mulher tem dôr ou remorso

que lhe dilacera o coração.

1.º CAVALLEIRO

Estava ali na capella esta manhã: parecia ainda mais triste que de costume.

DAMA

Pobre D. Gontrade! Dizem que lhe mataram o marido! É uma historia

tenebrosa, que ficou sempre em mysterio, e de que pouco se sabe.

1.º CAVALLEIRO

Seu filho Mendo vae casar.....

DAMA

Assim se diz. Mas a fallar verdade, eu duvido.

(_Um grupo de cavalleiros vem á frente da scena.)_

1.º CAVALLEIRO

Foi uma rija arrancada aquella de Ourique. El-Rei D. Affonso

derrubou de um golpe dois daquelles perros infieis.

2.º CAVALLEIRO

Ismael pouco resistiu.

3.º CAVALLEIRO

Nunca, por vida minha, nunca vi uma tão grande róta.

1.º CAVALLEIRO

Parecia que o braço de Deus pelejava por nós.

2.º CAVALLEIRO

E que alegria a do exercito quando depois da batalha, levantámos por

nosso rei a D. Affonso Henriques.

3.º CAVALLEIRO

Agora já temos rei independente.

2.º CAVALLEIRO

Temos ainda que combater muito pela independencia de Portugal.

(_Outro grupo de cavalleiros vem á frente da scena._)

1.º CAVALLEIRO

É um leal cavalleiro D. Pedro Framariz.

2.º CAVALLEIRO

Honrado como Egas Moniz.

3.º CAVALLEIRO

Não tanto. Elle não se hia de certo entregar nas mãos dos inimigos para

não faltar á palavra dada, á lealdade jurada.

2.º CAVALLEIRO

Lá isso é verdade; D. Pedro Framariz não era capaz de tal.

BONAMIZ

(_Rindo._) Tem mais amor á pelle, e menos amor à honra. (_Vae-se

cantando._)

3.º CAVALLEIRO

Estes bobos!...

2.º CAVALLEIRO

Dizem que a filha caza com D. Mendo, o antigo pagem d'el-rei. É um

cazamento muito honroso para D. Mendo.

3.º CAVALLEIRO

Estão namorados, mas cazarem... Não cazarão talvez.

2.º CAVALLEIRO

É a vontade d'el-rei, que se cazem.

4.º CAVALLEIRO

Entre as duas familias houve n'outro tempo alguma coisa.

3.º CAVALLEIRO

Um homizío... dizem.

D. MENDO

(_Aproximam-se de Violante que está assentada._) Violante, ficae; deixae

sahir todos.

VIOLANTE

Fico. (_D. Mendo affasta-se._)

_Um grupo de velhos cavalleiros e de prelados, vem á frente da scena_

1.º PRELADO

Vae-se demorando o banquete.

2.º CAVALLEIRO

Muito mais do que se demoram os nossos golpes quando pelejamos contra os

excommungados da Moirama...

2.º PRELADO

As nossas orações no côro tambem se não demoram tanto tempo como esta ceia.

3.º CAVALLEIRO

Não tarda. Ainda bem que se demora porque podemos conversar.

UM OVENÇAL

(_Na salla d'armas, á porta._) Nobres, ricos-homens,

infanções, cavalleiros, srs. de prestamos e alcadarias, el-rei de

Portugal vos convida a vir tomar parte no banquete.

2.º CAVALLEIRO

Em fim!

PRELADO

Vamos, vamos.

(_Sahem todos, todos excepto D. Mendo e D. Violante. D. Bibas esconde-se

detraz de um pilar._)

SCENA II

_D. Mendo e D. Violante, D. Bibas (escondido.)_

D. MENDO

Violante!... minha Violante!

VIOLANTE

Mendo?!

D. MENDO

Uma palavra... uma palavra, por minha alma.

VIOLANTE

Mendo, nem um instante passei sem pensarem vós: e eu tambem estava

esperando com ancia este momento para vos ouvir dizer-me uma palavra de

amor.

D. MENDO

E não teve, Violante, não teve essa bocca um sorriso para mim, nem esses

olhos tiveram um olhar terno para me dar até agora?

VIOLANTE

Ai! que nem eu sei dizer-vos o que sinto, dizer-vos o que me deteve

diante de toda essa gente! Ha uma coisa occulta, Mendo, que me prende a

palavra e o gesto quando quero mostrar-vos tudo o que sinto em mim.

Faltam-me forças, faltam-me faculdades para tanto.

D. MENDO

Falta-vos o amor... talvez.

VIOLANTE

(_Sorrindo com muito amor._) É desleal essa palavra, cavalleiro. Eu

conheci um pagem que só dizia o que pensava, com verdade, e sinceramente.

D. MENDO

O pagem, minha Violante, seria verdadeiro e sincero, seria: mas não

valia mais do que o cavalleiro, que d'elle herdou o maior amor, que do

mundo tem havido.

VIOLANTE

Que sustos tive, em quanto durou a guerra! Parecia-me que não vos

tornaria a vêr, e essa ideia fazia-me chorar horas esquecidas, fechada

no meu oratorio.

D. MENDO

Eu não podia morrer, porque vós me estaveis esperando.

VIOLANTE

Não vos lembrou a triste Violante, quando, o primeiro entre todos, vos

lançastes por meio das lanças dos inimigos?

D. MENDO

Lembrou, lembrou. Ia lá buscar esta espada... Não era eu que ia, não;

era a esperança de vir aqui ajoelhar-vos aos pés e dizer-vos: «Violante,

tenho um nome de cavalleiro, tenho um logar entre os ricos-homens de

Portugal, tenho esta mão que é leal e que está pura... offereço-vos,

tudo minha Violante!»

VIOLANTE

(_Apertando a mão de D. Mendo._) Acceito.

D. MENDO

A fr. Bermudo devo a ventura de ouvir a minha Violante dizer-me esta

divina palavra.

VIOLANTE

(_Com susto._) A fr. Bermudo! Como? Que tem esse astrologo agourento com

a nossa felicidade?

D. MENDO

Não quero ser eu só a bem dizer esse homem inexplicavel; por isso, aqui

mesmo no meio da nossa alegria, quero contar o que elle fez para me salvar.

VIOLANTE

Para vos salvar?

D. MENDO

Estava quasi ganha a batalha; na ala esquerda porém, ainda uma das

hostes dos almoravides resistia como um muro de ferro aos ataques

impetuosos dos cavalleiros christãos. Tive vergonha de vêr os nossos

recuarem deante dos inimigos, entre os quaes combatiam mais de trezentas

mulheres; e, com uma espada na mão precipitei-me sobre a phalange

sarracena; rompi a primeira e segunda linha, e quando me voltei para vêr

se os cavalleiros portugueses me haviam seguido, achei-me de todos os

lados cercado pelos infieis. A minha morte era certa: o braço já ía

cançando: e se não fôra a vossa imagem, que estava sempre presente ao

meu espirito, ter-me-hia deixado morrer. Subitamente, porém, quando já,

fechando os olhos, e pronunciando o vosso nome, me arremedava ás cegas

sobre os inimigos, ouvi por detraz de mim um pavoroso clamor, e vi logo

depois um soldado que derrubava tudo com o seu braço de Hercules. N'um

instante, vi abrir-se uma larga estrada juncada de cadaveres; e foi

assim que me salvei da morte.

VIOLANTE

E o soldado?

D. MENDO

Era fr. Bermudo. Violante, a fr. Bermudo devo esta felicidade, tão

grande, que nem eu a posso comprehender, nem a posso sentir toda, que

não tenho coração para tanto. É uma felicidade que mata!

VIOLANTE

Tem-me consumido a vida, mas amo-a.

D. MENDO

Oh! Que nunca julguei que tão cedo nos chegasse tamanha ventura!

(_Beija-lhe a mão--D. Bibas dá uma gargalhada aguda e estridente._)

VIOLANTE

Jesus!

D. MENDO

(_Levando a mão á espada._) Quem ousaria?!

D. BIBAS

(_Vae-se cantando com, voz lugubre._)

«Vivem loucos namorados

Vendo futuro formoso

Onde não ha mais que a dôr

De um mysterio tenebroso.»

VIOLANTE

Bobo.

D. MENDO

D. Bibas que anda fazendo pelo castello a sua ronda de escarneo.--Louco!

FR. BERMUDO

(_Entrando._) D. Mendo, os loucos sabem mais ás vezes que os

avisados--Sr.ª D. Violante ide-vos, vosso pai procura por vós.

D. MENDO

Tudo nos separa...

D. VIOLANTE

Em breve nada nos poderá separar um do outro. Adeus, Mendo, adeus! (_Sae._)

SCENA III

_D. Mendo e Frei Bermudo._

D. MENDO

Para que vieste separar-nos, quando estavamos a matar as saudades d'esta

longa ausencia? Fr. Bermudo, és tu sempre quem separa Violante de mim.

FR. BERMUDO

Não sou eu; é o teu destino fatal.

D. MENDO

Mão me repitas outra vez os teus agoiros. Não queiras que eu te maldíga;

não queiras que eu tome odio a ti, e á vida...

FR. BERMUDO

Depois d'esse teu penar, virá a gloria. Assim o dizem os astros. (_Sáe._)

SCENA IV

D. MENDO _só_

Este homem, este frade é incomprehensivel. As suas palavras pezam sobre

mim; quando o vejo, não sei se a sympathia, ou o odio me fazem pular o

coração no peito. Devo-lhe a vida a este homem; e, comtudo, parece-me

que lhe não posso ser grato.--Sou cavalleiro já, e agora saberei o

segredo tremendo, que desde a infancia me involve, sem que o possa

conhecer. Minha mãe--quando ao chegar da guerra a fui vêr--recebeu-me

com assustadora solemnidade; deu-me apenas um beijo que me fez frio.

Está mais pallida agora; e ha nos seus olhos um clarão sinistro que me

faz medo. Sinto caminhar para mim o terrivel segredo, e tenho vontade de

fugir para o não ouvir. É covardia... é fraqueza, isto!

SCENA V

_D. Mendo e D. Gontrade_

D. GONTRADE

(_Entrando._) Meu filho...

D. MENDO

(_Estremecendo._) Minha mãe...

D. GONTRADE

Estás aqui, Mendo, longe das festas, triste e só? Tens razão, filho;

porque não pódes, não deves ter nem alegria nem descanço, em quanto não

tirares vingança do assassino de teu pai.

D. MENDO

Que dizeis, minha mãe? meu pai morreu assassinado, já vol-o ouvi dizer;

mas quem o matou é o que eu não sei ainda.

D. GONTRADE

Mendo, até ao dia em que ganhaste--gloriosamente, bem o sei--essa nobre

espada, não eras mais do que um pagem, uma criança. Esse tempo passou:

tens já um nome de cavalleiro que teu pai tornou illustre, e que tu

deves conservar puro e sem mancha. Mendo Paes, o teu nome está

deshonrado. A mão de um homem desleal manchou-lhe a pureza,

deslustrou-lhe a nobreza. D. Paio Ramires teu pai, foi assassinado,

covardemente assassinado; e o seu assassino vive ainda!..

Ficas assim calado?!... Não se te revolvem lá dentro os desejos da

vingança? Meu filho, enganar-me-hia a esperança? Não serás tu digno de

teu pai?

D. MENDO

(_Com terror._) Quero-vos muito, minha mãe. Esta vingança, porém, faz-me

susto. Não sei que pressentimento me diz que esta vingança me hade matar

a mim tambem.

D. GONTRADE

Susto! tens susto de vingar a morte de teu pai!? Não te creio, meu

filho, porque respeito, em ti, o chefe da nossa familia. É hoje o dia da

vingança, Mendo, uma vingança cruel, tremenda, publica para que todos a

saibam. A vingança é um acto horrendo e criminoso; mas a honra exige que

esse acto se cumpra.--Foi a ultima vontade de teu pai. É no meio do

banquete, entre os risos e os gritos do triumpho, que te espera a

victima. (_Tirando um punhal._) Foi esta a arma traidora que serviu ao

crime; sobre ella ha ainda o sangue de teu pai ennegrecido pelo tempo,

mas não limpo ainda da deshonra. Guardei-o sempre como uma reliquia

sagrada, para t'a confiar na hora do castigo...

D. MENDO

O punhal é arma de traidôr; minha mãe, tenho esta espada...

D. GONTRADE

E se morresses?... se esse homem te matasse tambem?

D. MENDO

Morria como cavalleiro.

D. GONTRADE

Quem vingaria teu pai?--Não, Mendo; é com este ferro que o infame deve

ser punido... O assassino de teu pai é...

D. MENDO

Callai-vos... callai-vos...

D. GONTRADE

Que tens?

D. MENDO

Tenho medo!

D. GONTRADE

Medo?!...

D. MENDO

Se esse bomem fosse?...

D. GONTRADE

Quem?

D. MENDO

O pai da mulher que amo..

D. GONTRADE

Morreria... da tua mão receberia a morte.

D. MENDO

Minha mãi!

D. GONTRADE

É a hora da vingança, meu filho. Quando uma familia nobre, como a nossa,

se acha deshonrada, e offendida pela mão de um traidor, não deve n'ella

haver descanço, nem alegria, em quanto a offensa não fôr castigada, e a

sua honra purificada da nodoa de sangue que lhe apagou o brilho.--O

homem que matou teu pai, Mendo, vive junto de nós, é um dos ricos-homens

de D. Affonso Henriques, é D. Pedro Framariz.

D. MENDO

D. Pedro! Jesus, meu Deus!...--Elle!.. não minha mãi, isso não póde

ser.

D. GONTRADE

Hesitas?

D. MENDO

O pai de Violante? É um nobre cavalleiro, que tem um logar distincto

entre os cavalleiros mais leaes á patria, entre os mais ardentes

defensores da fé.

D. GONTRADE

O sangue de teu pai pede sangue, meu filho. D. Pedro matou covardemente

D. Payo Ramires; e tu não podes, não tens direito de trazer essa espada,

em quanto em Portugal poderem dizer de ti: «Aquelle homem desconhece os

principios da honra, porque não vingou ainda a morte de seu pai.»

D. MENDO

Mais tarde; ainda não...

D. GONTRADE

Hoje... agora.--Ha dez annos, a esta mesma hora vi eu cravar este punhal

no coração de teu pai... de meu marido.--Foi uma noite horrivel... uma

noite de sangue e infamia!

D. MENDO

Assassino!... eu!...--Minha mãe, a vingança é um crime covarde e

miseravel. Uma lança que se cruza com outra lança em repto leal, á luz

do dia, diante de todos, merece a sympathia de todos; um punhal que nas

trevas escorrega cautelosamente, e se crava frio e silencioso nas carnes

de um homem desarmado, só merece desprezo.

D. GONTRADE

A vingança não é crime, quando a exerce um filho sobre o assassino de

seu pai.

D. MENDO

E Violante?...

D. GONTRADE

Entre ti e ella ha um cadaver.

D. MENDO

Perdoai, minha mãi. Sou fraco de coração. Fallece-me o animo.

D. GONTRADE

Mendo, teu pai deixou a sua maldição em herança ao filho, se elle o não

vingasse; e a minha maldição juntar-se-ha á d'elle...

D. MENDO

Que Violante não veja... que não o saiba!

D. GONTRADE

Covarde! vês este punhal tincto ainda de sangue, e hezitas, e tremes...

D. MENDO

Não posso... Aquelle anjo!--Pois eu hei de ser odiado por Violante!

(_Com muita desesperação._)

D. GONTRADE

A honra do nosso nome, e a memoria de teu pai pedem vingança! (_Dando o

punhal a D. Mendo, que o recebe com terror_) Vinga a morte de teu pai,

ou sê maldicto! (_Sáe._)

SCENA VI

_D. Mendo, só_

D. MENDO

Meu pai, meu pai, levantae-vos do sepulchro e perdoai... que me

salvaes, que salvaes vosso filho! (_Olhando para o punhal._) Este sangue

ha de ser lavado com outro sangue?! Assim o exige a honra de

uma familia nobre!... Meu pai, se vos basta o sangue de um homem,

dar-vos-hei todo o meu! (_Chorando._) Se as lagrimas de um filho podem

lavar a nodoa tremenda d'este ferro, derramarei o meu pranto sobre elle

em quanto viver!... A vingança dura pois mais do que a vida?! O espirito

depois de separado da terra, não perdôa, não esquece tudo?! Pois n'esse

mundo mysterioso e todo espiritual, para aonde as almas vão depois da

morte, tambem ha estas ruins paixões, que teem feito da humanidade um

bando de feras? Essas paixões duram a eternidade? Onde está o descanço,

aonde está a paz? Onde existe o ceu?--Ai! Quem me livra deste martyrio?

Quem salva a minha honra? Quem dá força á minha alma, para que se não

perca... para que não renegue a Deus?!

SCENA VII

_D. Mendo e Fr. Bermudo_

FR. BERMUDO

Tira da fé a tua força, e não renegarás a Deus. A desgraça é difficil de

supportar; e quando pela primeira vez ella nos entra no coração,

parece-nos impossivel que o coração a possa conter, que o coração não

estale.

D. MENDO

Salva-me, salva-me... Fr. Bermudo, sei tudo. Violante é filha do

assassino de meu pai. Minha mãi confiou-me uma vingança... que eu não

tenho animo de executar.

FR. BERMUDO

Péza-te essa vingança? Dá-ma... que t'a acceito.--É o ultimo

sacrificio que faço ás malditas paixões humanas: faço-o com horror, mas

não quero que tu sejas odiado pela candida Violante. Esse odio

matal-a-hia a ella!

D. MENDO

Como te hei de confiar uma vingança que é só minha?

FR. BERMUDO

Eu tambem tenho direito de a tomar para mim.

D. MENDO

Porque?!

FR. BERMUDO

Não queiras penetrar o enigma da minha vida. Juro-te que não é deshonra

para ti ceder-me essa vingança.

D. MENDO

E Violante? Já não podemos ser um do outro. É impossível esta união.

FR. BERMUDO

Não te disse que Violante não podia ser tua?

D. MENDO

Que hei-de fazer?

FR. BERMUDO

Esquecel-a... se fôr possivel.

D. MENDO

Não, não... não posso... não é possivel.

FR. BERMUDO

Pobre de ti, que a amas tambem!

D. MENDO

E ella?... Se morrer, meu Deus!

FR. BERMUDO

A sua alma é pura... é um anjo, os anjos a esperam...--Que morra ao

menos com o seu amor: que morra, amando-te. Odiar-me-ha a mim... mas que

importa? Esse odio fará mais miseravel ainda quem do mundo

só conheceu os amargores. Que importa?

D. MENDO

(_Chorando._) Que padecimento!... Que martyrio!... Maldita a vida, em

que ha tanta dor, e tanta miseria!....--Oh! A minha felicidade, as

minhas esperanças eram um escarneo cruento!... A maldição de meu pai

caiu sobre mim, e tornou arido, e deserto o meu coração!... Deus criou o

homem por escarneo...

FR. BERMUDO

(_Pondo-lhe a mão na boca._) Calla-te, não blasfemes.

D. MENDO

(_Abatido._) Não... não devo blasfemar porque vou morrer.

FR. BERMUDO

Não percas assim o animo, homem.--A alma é infinita nas suas forças,

inexgotavel nas suas consolações: quando parece já extincta de todo,

acorda, toma alento, levanta-se, e fica forte como d'antes.

D. MENDO

A minha morreu de todo!

FR. BERMUDO

Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo · 第 5 / 7 段