Minha sr.ª D. Violante!.. Não quizestes deixar-me partir sem vir

lançar-me a força no coração.

D. VIOLANTE

Estaes agitado, sobre-saltado! Que vos dizia aquelle frade, Fr. Bermudo?

D. MENDO

Nada... não me dizia nada. Viestes, D. Violante, e na presença de um

anjo as palavras de um louco devem esquecer-se. Ai! Violante, quanto vos

agradeço o que fizestes por mim! Se partisse para a guerra, sem vos ter

fallado do meu amor, e sem ter ouvido dessa bocca uma palavra de

esperança, parece-me que me deixava morrer por lá. Este amor é a minha

vida!

D. VIOLANTE

(_Com embaraço._) Saí da pousada, saí... nem eu sei... que importa?

(_Com ternura._) Procurava o perfume das flôres, e vim para este lado...

parecia-me que tinha nascido aqui uma flôr, que eu só devia colhêr...

D. MENDO

A flôr da esperança?

D. VIOLANTE

(_Cobrindo a cára._) A do amor... Enganei-me, meu pagem?..

D. MENDO

Não. (_Apontando para o peito._) Essa vive aqui, sempre

bella, sempre doce, e perfumada. E é da minha querida Violante.

D. VIOLANTE

(_Seria._) Vinha para aqui, e vi Fr. Bermudo fallar comvosco... que vos

dizia elle?

D. MENDO

Loucuras, sonhos de uma cabeça cheia de illusões!

D. VIOLANTE

Leu nos astros o futuro dos nossos amores? Que lhe disseram os astros?

D. MENDO

O que nos importa a nós isso tudo? (_Levando-a para um assento de

pedra_) Vinde assentar-vos aqui; e eu vou pôr-me de joelhos, para vos

adorar como a um anjo, como a uma santa que sois... Amo... amo-te... ía

dizer uma blasfemia, Violante, ía fallar-te como só a Deus se deve

fallar; mas é porque no mundo não ha com que se compare este amor!

D. VIOLANTE

(_Brincando, mas com muita ternura._) Mas se esse amor mudar?... O

coração dos pagens é como as borboletas, foge sempre de flôr em flôr.

D. MENDO

Mas este meu!... Que thesouro possue elle agora! Vós bem sabeis que este

meu amor não mudará... não póde mudar.--E depois tudo em roda de nós

está alegre, tudo parece fallar-nos de felicidade.

D. VIOLANTE

Amanhã, d'aqui a horas, já não estaremos juntos. E os perigos da guerra...

D. MENDO

Vou deixar-vos, mas para voltar cavalleiro, para ter uma

espada, para ter um nome, que seja mais digno de vós, do que o do

obscuro pagem.

D. VIOLANTE

Mendo!

D. MENDO

Ó Violante, D. Violante não esqueçaes nunca esta hora de immensa

felicidade!

D. VIOLANTE

Nunca.

D. MENDO

Sereis minha? sempre minha?

D. VIOLANTE

Serei.

D. MENDO

Amaes-me?

D. VIOLANTE

Mais que tudo!

D. MENDO

(_Ficando triste._) Este amor será para nós uma benção do céo...

será.--É de certo.

D. VIOLANTE

Estaes outra vez triste. Lembram-vos as predicções de Fr. Bermudo? Que

disse elle?

D. MENDO

Que importa o que elle disse? O nosso amor vem de Deus, só Deus o póde

destruir.

D. VIOLANTE

Dizei a verdade Mendo... Não tenho medo, como vêdes... Dizei; que o

coração já advinhou tudo.

D. MENDO

Para que quereis?...

D. VIOLANTE

Dizei.

D. MENDO

Disse... que não seriamos nunca um do outro... Que o destino nos

separava para sempre.

D. VIOLANTE

(_Deixando-se cahir de joelhos ao lado de D. Mendo._) Virgem Nossa

Senhora, vallei-nos!

D. MENDO

Separar-nos!... Agora, que a tristeza nos cobriu de trevas, e que

começavamos a sentir os amargores da saudade... Separarmo-nos agora!

D. VIOLANTE

Deixar-te...

D. MENDO

Não chores... Minha Violante!

D. VIOLANTE

Esta guerra!... Esta auzencia!...

D. MENDO

O amor... O amor unirá as nossas almas, quando eu estiver longe, lá por

esses certões do Al-Gharb.

D. VIOLANTE

Cada noite procurarei na luz das estrellas um desses teus olhares de

amor, que são mais suaves para mim do que os clarões mais puros de um

céo sereno e bello.

D. MENDO

Cada tarde escutarei no silencio dos bosques o brando gorgear das aves,

para vêr se na voz de alguma dellas distingo um dos teus castos suspiros.

D. VIOLANTE

Ai! Se te eu perdesse...

D. MENDO

Quando voltar, seremos um do outro, para sempre!

D. VIOLANTE

Sinto gente! Adeus

D. MENDO

Violante!.. (_Cáem nos braços um do outro._)

D. VIOLANTE

Sou tua!.. Adeus.

D. MENDO

Adeus. (_D. Violante sáe._)

SCENA VII

_D. Mendo, D. Bibas e Bonamiz._

D. BIBAS

(_Cantando o que se segue._)

Porque choras

Pagem terno?

Teu inferno

Não melhoras.

Trá--lira.

(_Cantando e rindo._) Ah! Ah! Ah!

D. MENDO

Tu aqui?... aqui D. Bibas... Quem te trouxe aqui, bôbo?

D. BIBAS

(_Apontando para Bonamiz._) Foi elle.

D. MENDO

(_A Bonamiz._) Tu?

BONAMIZ

(_Apontando para D. Bibas._) Foi elle.

D. BIBAS

(_Cantando._) Uma bruxa nos guiou.

BONAMIZ

(_Cantando._) Um diabo nos mandou.

AMBOS

(_Cantando._)

Segredos do coração

Mui grandes segredos são.

BONAMIZ

Am!

D. BIBAS

Am!

BONAMIZ

Am!

D. MENDO

Que viste, D. Bibas?--Que ouviste Bonamiz?

D. BIBAS

Vi-te dar um abraço... e tive inveja.

BONAMIZ

Ouvi dizer á mais linda dama das Hespanhas, que te amava... e desejei

estar-te na pelle.

D. MENDO

Nada mais...

D. BIBAS

Ah!--Ouvi dizer, que os astros te tinham declarado a guerra; que a

morte...--Que importa isso, a quem ama?

D. MENDO

Que importa?...

D. BIBAS

O amor é sempre assim. Nunca viste as crianças brigarem por uma

borboleta, que morre e se desfaz apenas o vencedor lhe toca?

D. MENDO

Mas...

D. BIBAS

Pois as felicidades são como as borboletas; e os homens como as

crianças.--Mas de todas as felicidades, as do amor são as que menos

duram, e de todos os homens os mais ridiculos... são os amantes.

D. MENDO

Deixa agora essas chocarrices.--Escutae, ambos.--Se disserdes a alguem o

que acabaes de vêr e de ouvir, arrancar-vos-hei olhos e lingoa... a ambos.

D. BIBAS

Com a espada de cavalleiro, que ainda has-de ganhar?

D. MENDO

Juro...

D. BIBAS

Não jures, que não é precizo para nada. (_Serio._) Pagem namorado, somos

vossos amigos, e não podemos deixar, com a nossa magnanimidade real, de

vos dizer um segredo... que segredo!

D. MENDO

O que é?

D. BIBAS

Pois deveras quereis saber.

D. BIBAS

(_Cantando._)

Não has-de cazar

Não cazarás, não.

Has-de Dom Bulrão,

Solteiro ficar.

D. MENDO

Maldicto!

D. BIBAS

(_Cantando._) _De profundis clamavi ad te..._

D. MENDO

Bobo, bobo!

BONAMIZ

Assim cantam os padres, quando morre alguma cousa, que para nada

presta.--Não te encolerizes; cantamos sobre as tuas defuntas esperanças.

(_Cantando._) _De profundis clamavi..._

D. MENDO

(_Ameaçando-os._) Excomungados bobos!..

D. BIBAS

(_Rindo._) Ahi vem nosso tio, o infante.

AMBOS OS BOBOS

(_Fugindo._) Adeus! adeus!

SCENA VIII

D. MENDO, _só_

Tudo para mim é um agouro!... agouro máo! As palavras da meditação, as

gargalhadas do escarneo... tudo! Que segredo tenebroso será este, que me

envolve e me aterra? Minha mãe tambem sabe este segredo; é essa a causa

d'aquella tristeza, d'aquella dôr sem consolação, d'aquelle lucto em que

sempre vive. Tenho ouvido por vezes fallar em meu pae morto... nas

trevas de uma noite horrenda; n'uma vingança infame que veio um dia

manchar de sangue e de vergonha a nossa casa. Mas que historia pavoroza

é esta de que eu ainda não pude penetrar o mysterio? Quem foi o

assassino de meu pae? Qual é a família contra a qual a honra me ordena

de exercer uma implacavel vingança? Não sei, nada sei, porque minha mãe

só quando eu fôr cavalleiro me julga digno de saber este funebre

segredo. Fr. Bermudo, o frade solitario, o astrologo que vive na

isolação, tambem conhece os segredos da minha familia, que

eu ignoro ainda, e não m'os quer dizer.

SCENA IX

_O mesmo, o Infante, D. Gontrade, D. João Peculiar, D. Tello, D. Gonçalo

Mendes, D. Egas Moniz, D. Lourenço Viegas, D. Guilherme Ricardo, D.

Gonçalo de Sousa, Cavalleiros, Ricos Homens, Homens d'Armas, Frecheiros,

Besteiros etc. depois D. Pedro Framariz._

INFANTE

(_A D. Mendo._) Tu aqui, Mendo?

D. MENDO

Esperava por vós, meu sr. Infante...

INFANTE

Não vieste ouvir missa comnosco ao mosteiro de Mumadona? (_Mostrando D.

Gontrade._) Tua mãe foi tambem... para te vêr.

D. GONTRADE

E para pedir a Deus pela boa sorte das armas do reino de Portugal.

INFANTE

Que vosso marido D. Payo Ramires ajudou a criar, e fortaleceu com a sua

espada gloriosa.

D. BIBAS

Pois o filho, o nosso pagem D. Mendo estava agora a afiar a sua futura

espada de cavalleiro.

BONAMIZ

E a fazer brilhantes projectos sobre a maneira de usar della.

D. LOURENÇO VIEGAS

Callai-vos ahi, bobos.

D. BIBAS

(_Ao Infante._) Queremos e podemos fallar aqui, não é assim, tio?

INFANTE

(_Aos pagens._) Fazei callar esses bobos. (_Os pagens levam os bobos._)

D. MENDO

(_Beijando a mão de sua mãe._) Sr.ª mãe, minha senhora...

D. GONTRADE

Meu filho, não foste despedir-te de mim, vim eu.

D. MENDO

Não julguei que partiriamos tão depressa... (_Abraçando-a._) Minha mãe,

minha querida mãe perdoae.

INFANTE

De certo te perdoará... D. Gontrade ha de perdoar ao valente pagem, que

vae ganhar nas batalhas a sua espada de cavalleiro, e ajudar-nos a

accrescentar á terra, que seu pae defendeu e fez independente, novas

provincias, com as quaes o nome de Portugal se tornará temido em toda a

Hespanha.

D. GONTRADE

Meu filho! (_Ficam abraçados._)

INFANTE

(_Aos cavalleiros._) Só nos falta D. Pedro Framariz, para termos em roda

de nós todos os bons cavalleiros, que estão em Guimarães. Esperaremos

por elle aqui; depois partiremos para Coimbra onde está o restante de

nossos ricos homens... Estas lides, que vamos lidar, senhores, hão de

ser rijas; carecemos para ellas de toda a nossa força. É

esta uma correria, que ha de ficar de memoria aos moiros.

D. EGAS MONIZ

Nossa Senhora que sempre desde pequeno vos protegeu, e que vos prometteu

tantas victorias, não vos ha de desamparar nunca, meu sr. Infante.

INFANTE

Assim seja, meu leal Egas Moniz. Companheiro das victorias ganhas por o

conde D. Henrique, ensinar-me-has a ganhar batalhas como meu pae as

ganhava.

D. JOÃO PECULIAR

O ceu proteje as armas dos portuguezes.

D. GONÇALO MENDES

Conservae-nos pois essa protecção com as vossas orações, sr. D. João

Peculiar; que nós, Ricos-homens e cavalleiros, aproveitar-nos-hemos

d'ella para derribar com as nossas espadas o poder dos infieis--A vossa

força, srs. bispos e prelados, está toda no céu; a nossa está na terra,

appoia-se na fé, e nas armas.

INFANTE

Sois avisado, meu lidador. (_Aos prelados._) Vós, srs. oraé por nós. D.

Tello, dizei aos vossos monges de Santa Cruz que façam noite e dia

preces, para que o Senhor nos tenha da sua mão. (_Aos cavalleiros._) E

vós, cavalleiros, desenrollae os vossos balsões, reuni nas vossas hostes

todos os homens que tendes nas Honras, Prestamos e Senhorios que

ganhastes; cingi as vossas espadas mais duras, tende confiança na cruz

que é a nossa divisa, e atravessaremos, então, essas terras de Alem do

Téjo, e lançaremos sobre ellas o nosso dominio.

TODOS

Aos infieis! aos infieis!

D. EGAS MONIZ

(_Pegando na mão do Infante e beijando-a._) Meu senhor meu amo,

deixae-me beijar-vos as mãos, deixai o vosso aio Egas admirar-vos...

Sois um grande principe... Haveis de ser um grande rei!

TODOS

Viva D. Affonso! Viva o nosso príncipe!

ALGUNS

Viva o nosso rei!

D. GUILHERME

A minha espada, e a de todos os templarios é vossa. Infante de Portugal,

a guerra contra os infieis, aqui na nossa terra, é tão santa aos olhos

de Deus como a feita n'essas longes terras da Palestina.

D. LOURENÇO VIEGAS

A minha espada é tua, Infante de Portugal.

MUITOS CAVALLEIROS

E a nossa.

INFANTE

(_Alevantando os braços ao céu._) Senhor, a nossa fé é immensa! Senhor,

não enganeis a nossa confiança!

D. MENDO

(_Caíndo aos pés do Infante._) Dae-me uma espada, sr. Infante... Quero

combatter comvosco... Quero morrer, ou ser digno da minha patria! Digno

do nome que meu pae me legou!

INFANTE

Ganha a espada no campo da lide, que a has de amar ainda mais.

(_D. Pedro Framariz entra com os seus acostados, e pára ao fundo._)

ALGUNS CAVALLEIROS

D. Pedro Framariz!

D. GONTRADE

(_Pondo as mãos sobre a cabeça de seu filho._) Ganha a tua espada, e

então te confiarei o segredo da nossa familia, é uma terrível vingança.

D. PEDRO FRAMARIZ

Perdoae, sr.ª, que Deus tambem perdoa!

FIM DO 1.º ACTO

ACTO SEGUNDO

SCENA I

_O infante, em pé encostado á espada, D. Egas Moniz, o Lidador, D.

Mendo, D. João Peculiar e cavalleiros D. Gonçalo de Sousa, D. Tello_

D. JOÃO PECULIAR

É tentar a Deus, só por milagre poderiamos vencer tão grande multidão de

inimigos. Ismael tem em roda de si cinco wallis, e um poderoso exercito.

D. GONÇALO DE SOUZA

As hostes de cinco wallis! Mais de cem mouros para cada um de nós. Eu

tenho feito muitas correrias, tallado por muitas vezes os campos dos

infieis; mas esta batalha que se prepara, tenho-a por uma temeridade,

por uma loucura. Se perdermos a batalha, e com ella o nosso infante de

Portugal, quem ha de defender a nossa independencia?

D. TELLO

Os campos estão cobertos de soldados sarracenos, é um mar de lanças que

nos hade quebrar nas suas ondas.

D. GUILHERME

Morremos pela cruz.

JOÃO SIRITA

Sr. infante nasci no povo e padeci; fui homem d'armas e combatti, vivi

na solidão, orando a Deus, e mais de cem vezes lutei com as fera. O

Senhor fez por mim grandes milagres, e a minha fé é immensa

como o deserto:--morreria feliz se morresse por ella!--Porém agora o

combatter seria matar este reino, n'uma só lide, o que o conde D.

Henrique ganhou em tantas, e tão rijas pelejas.

JOÃO PECULIAR

João Sirita, o escolhido do céu, tem razão; combattemos pela cruz, para

lhe exaltar a gloria, e não para deixar a victoria aos seus inimigos.

(_Com solemnidade._) Eu D. João Peculiar, humilde servo de Deus, e bispo

por sua Divina Graça, em nome da religião te requeiro que não combattas

em lide tão desigual, porque n'ella nos perderias a todos.

GONÇALO DE SOUSA

Tratae tregoas com Ismael...

LIDADOR

Tregoas com Ismael... Seria accrescentar ao perigo a cobardia; o rei

mouro não guardaria a sua fé.

ALGUNS CAVALLEIROS

Não, não peleijemos.

D. TELLO

Salvae a cruz.

UM PRELADO

Salvae a cruz sr. infante.

INFANTE

Agradeço-vos, sr. o vosso amor por mim, e o desejo que tendes de que

estes condados se conservem livres e gloriosos.--Estamos cercados de

perigos, e só um conselho avisado nos póde salvar. Deixae-me meditar, e

resolver o que devemos fazer n'esta conjunctura difficil e grave.

Ide-vos: e que Deus vos tenha em sua santa guarda.

(_Saem todos excepto o lidador, D. Egas Moniz, D. Tello e D.

Mendo._)

SCENA II

_(O infante, D. Tello, Egas Moniz, o Lidador, D. Mendo)._

D. EGAS

Que quereis fazer Sr.? É, como dizeis, grave e difficil a situação em

que nos achamos. Eu fio tudo da vossa prudencia, que é muito já em tão

verdes annos; do vosso animo; e do amôr que tendes a Portugal. Deus vos

inspirará o melhor conselho.

LIDADOR

Que resolveis, sr. infante?

INFANTE

Combatter e vencer.

D. TELLO

O numero dos inimigos é sem conto.--Vencêr é impossivel.

INFANTE

Morreremos então, pela fé, pela religião de Christo, e pela patria. Mas

não morreremos, que m'o advinha o coração. Deus tem protegido até hoje

este pequeno canto das Hespanhas que de meu pae herdei. Quando todos os

reinos das hespanhas veneravam como sr. Affonso VII, combatiamos nós

entre Galliza contra o poderoso imperador, e ganhavamos em Cerneja uma

bella victoria. Se hoje a nossa independencia se acha compromettida,

pelo tractado que assignámos em Tuy: se estamos quasi como vassallos de

Affonso VII, esse estado acabará logo que ganharmos uma batalha sobre os

sarracenos. Chegou o momento de ganharmos essa batalha. Ámanhã;

pôr-nos-hemos independentes do imperador, e talvez accrescentaremos

mais uma provincia a Portugal.

D. TELLO

Cinco chefes inimigos...

INFANTE

Tantos quantas foram as chagas de Christo Senhor Nosso. N'esses

blasphemadores vingaremos a fé.

LIDADOR

Apressemos a hora do combate. Lidemos rijamente, que havemos de vencer.

INFANTE

Vae, meu lidador: manda reunir o exercito; que quero fallar a todos,

enchel-os de fé, accender-lhes nos corações uma sancta coragem. (_O

Lidador sáe._) (_A D. Mendo._) Meu pagem, dá-me o escudo e a lança: (_D.

Mendo dá-lh'os._) Manda-me ajaezar o meu cavallo de batalha. (_D. Mendo

sáe._) Deus seja comigo nesta hora, e me falle ao pensamento.

EGAS MONIZ

N'esta sangrenta batalha, achar-me-hei ao vosso lado, como sempre, meu

principe, para receber por vós os golpes do inimigo.

INFANTE

Meu Egas... meu amigo... Não tenho ninguem com quem possa desabaffar os

amargores d'esta existencia senão tu.

EGAS MONIZ

Tendes-nos a todos... Uma família immensa que vos ama.

INFANTE

(_Com exaltação._) Salvemol'a. Salvemos essa família com a nossa espada,

e a nossa fé.

D. MENDO

(_Entrando._) Está tudo prompto.--Esperam o sr. infante todos os

cavalleiros reunidos...

INFANTE

Ámanhã estarás entre elles; terás uma espada ganha por ti,

Mendo.--Vamos, senhores. (_Sáe com Egas Moniz, e D. Tello._)

SCENA III

_D. Mendo só_

D. MENDO

Serei cavalleiro!... terei uma espada, e com ella a minha Violante...

a gloria!... um nome egual ao de meu pae!--Ser admirado por ella;

ter um nome entre os nomes illustres... Combater por D. Affonso,

pelo meu infante... que gloria, que felicidade! Ai! Violante,

Violante!--(_Triste._) Violante... longe de ti! Violante não esqueças o

amor, que é a vida d'este coração. Quando penso na ventura de viver com

ella, de lhe chamar esposa, sinto subitamente o terror esfriar-me todo.

Aquellas palavras sinistras do Astrologo, de fr. Bermudo, e aquella

vingança de que minha mãe me fallou levantam-se diante de mim como

espectros medonhos, que me querem roubar a minha Violante! Qu'importam

as palavras desvairadas de um bobo... os vaticinios dos astros? Que

importa isso tudo? Deus não póde querer a desgraça de quem nunca

commetteu um grande crime, de quem nunca o offendeu! (_Pausa._) Ai!

perdel-a!... (_Fica pensando._) Morrer!... antes morrer!

SCENA IV

_D. Mendo, e fr. Bermudo_

FR. BERMUDO

Ainda não. É ainda cedo para morreres.

D. MENDO

Bermudo!

FR. BERMUDO

Não quero que morras, não quero que percas o animo, por isso vim.

D. MENDO

Que pódes tu sobre a morte? Como pódes tu impedir que eu a vá buscar nas

lanças dos inimigos? Se eu accreditasse nas tuas prophecias sinistras

deixava-me matar na batalha de ámanhã.

FR. BERMUDO

Não irás buscar a morte porque amas a vida.

D. MENDO

Amo sim, porque amo Violante.

FR. BERMUDO

Não amas Violante só.

D. MENDO

Pois...

FR. BERMUDO

Amas a gloria.

D. MENDO

Para lh'a dar a ella.

FR. BERMUDO

E para ti, tambem queres a gloria, e tens razão Mendo. (_Compaixão._)

Para que o amor fosse a tua unica paixão, o teu unico pensamento, a

vida, o alento da tua alma; para que o amasses e vivesses só por elle,

era preciso que o teu coração houvesse padecido desde o

berço dôr e tormentos, tivesse sempre ficado nas trevas e na solidão e

que, quando tu o sentisses já quasi a morrer. Deus te mostrasse um anjo,

uma luz, uma esperança.--Para comprehender a luz é preciso ter estado na

escuridão; para apreciar a felicidade é preciso ter padecido. Os anjos

não podem intender as alegrias do céu, porque nunca supportaram os

tormentos do inferno...--(_Pausa._) Os corações novos, que nunca foram

provados pelo martyrio não podem amar como... como esses que se escondem

n'um claustro, ou n'um sepulchro, para que ninguem os veja, para que

ninguem saiba delles.

D. MENDO

Que querem dizer essas palavras?

FR. BERMUDO

Querem dizer que tenho penado mais, muito mais do que tu, e que não

quero, nem posso ainda morrer.

D. MENDO

A sciencia prende-te á vida.

FR. BERMUDO

A sciencia!... Antes de ser monge, fui homem: antes de dar todas as

horas a um estudo inutil, tive outros desejos e outras esperanças... A

flôr morreu em botão... acabou tudo, antes de eu saber se a felicidade é

mais do que uma palavra de escarneo, a alegria mais do que uma illusão

miseravel... E quero a vida, mesmo assim.

D. MENDO

Queres a vida?

FR. BERMUDO

Quero-a Mendo, esta alma é um abysmo, tão tenebroso, que nem

eu me atrevo a olhar para elle... tenho medo.

D. MENDO

Tens sofrido muito? Tens padecido?

FR. BERMUDO

Escuta e verás. Tinha um unico irmão, que amava muito; ficámos orphãos

ambos ainda infantes. Eu nunca tinha tido outro sentimento no coração,

senão essa amizade profunda, extrema que lhe consagrava a elle;

tinha-lhe salvo a vida nas batalhas á custa do meu sangue... Tudo que

via de bello no mundo desejáva-o para lh'o dar. Se havia a affrontar um

perigo ia eu por elle, se havia gloria a ganhar, deixava-o ir, e ficava

eu. A minha vida era d'elle só.--Um dia, voltava de uma correria contra

os mouros, não achei senão o seu cadaver! Meu irmão fôra assassinado.

D. MENDO

Vingaste a sua morte?

FR. BERMUDO

Procurei o assassino, para vingar a morte de meu irmão; tinha ido para

essas longes terras da Palestina. Fui tambem. Busquei-o por toda a

parte; atravessei o deserto soffocado pelos ardores do sol, devorado

pela sede, consummido pela fome. O meu cavallo morreu, e prosegui na

minha peregrinação a pé encostado ao bordão de peregrino. Padeci

martyrios crueis, mas não encontrei nunca esse homem que buscava.

Disseram-me que tinha morrido... Voltei para a patria.

D. MENDO

E então?

FR. BERMUDO

Não tinha nada que me prendesse á vida, não tinha nenhuma

esperança, nenhuma consolação. Fiz-me monge, e dei-me ao estudo, para

vêr se a cabeça matava as saudades do coração.

D. MENDO

E conseguiste?

FR. BERMUDO

Esse homem não tinha morrido, voltou.

D. MENDO

Matastel-o?

FR. BERMUDO

Não.

D. MENDO

Perdoaste?

FR. BERMUDO

Também não (_Pausa._) O amor matou-me o odio. Fui fraco, covarde. Tive

medo da minha vingança; trahí meu irmão, deixei passar junto de mim o

seu assassino, e não tive força para levantar sobre elle o meu braço

vingador.

D. MENDO

Porque? O que te deteve o braço?

FR. BERMUDO

Amei a filha desse homem...

D. MENDO

Tu?

FR. BERMUDO

Eu?!... Não.--Sou monge, não posso ter amor. Um voto matou-me o coração.

D. MENDO

Desgraçado!...

FR. BERMUDO

Que importa o que passou... o que morreu! Todos julgaram que eu havia

morrido... E ha dez annos que enterrado n'um mosteiro estudo a alchimia;

tenho descoberto segredos, que poderiam fazer os homens

felizes, segredos que poderiam talvez tornar o mundo todo um paraizo. A

natureza é omnipotente em crear, omnipotente em destruir: ao lado de

cada força que géra ha uma força que mata... São tudo combates. O homem,

grão de pó no universo, segue a lei geral. A vida é um combate entre o

sêr, e o não sêr. O pensamento é uma lucta entre o bem e o mal.

(_Pausa._) Aqui tens, Mendo, uma essencia subtil. Esta essencia é a vida

para ti se fores ferido na lide.

D. MENDO

(_Repellindo o frasco._) Padre, tu fizeste-me perder o animo: mataste-me

as esperanças. Tenho agora medo de tudo, menos da morte: tudo para mim é

fatal. Essa peleja perder-se-ha. A vida servir-me-ha só para ser

escravo, e penar. (_Ouvem-se gritos do exercito ao longe._)

FR. BERMUDO

Ouves?... Esses homens, ha pouco tão sem animo, tão atemorisados, estão

agora incendiados pelo fogo do enthusiasmo... Oh! o enthusiasmo é um

poder sublime! Os seus effeitos são similhantes aos que a força

omnipotente de Deus produziria se baixasse á alma do homem... Uma

palavra de D. Affonso bastou para pôr em duvida a victoria... talvez

para a assegurar.

D. MENDO

Pois julgas...

FR. BERMUDO

Pela fé, e pelo enthusiasmo o homem multiplica-se, torna-se grande, e

vence... Desgraçado de mim, que já não sinto esse divino fogo animar-me

o coração. (_Dando o frasco a D. Mendo._) Mendo, toma essa essencia, é a

vida..--Ámanhã, no meio dos gritos da victoria, dar-te-hão

uma espada de cavalleiro, e saudar-te-hão entre os heroes. Vive para a

gloria. Vive para Portugal. (_Em voz baixa._) Vive para vingar teu pae,

se tens n'alma força para tanto.

D. MENDO

Acceito.

SCENA V

_Os mesmos, D. Bibas e Bonamiz_

D. BIBAS

Quero a vida.

BONAMIZ

Não a quero.

D. BIBAS

Pela morte.

BONAMIZ

Só espero.

Sem a minha doce amante,

Viver não quero um instante.

D. BIBAS

Mas a gloria?

BONAMIZ

E os amores?

D. BIBAS

Mas os cardos?

BONAMIZ

Mas as flores?

D. MENDO

(_Colerico._) Outra vez a escutar os meus segredos?

D. BIBAS

Vingativos frades;

BONAMIZ

E pagens contrictos,

D. BIBAS

Monges aguerridos,

BONAMIZ

Amantes afflictos

D. BIBAS

Só nos fazem rir.

BONAMIZ

Ai! fazem-nos rir...

FR. BERMUDO

(_Colerico._) Que ouvistes?

D. BIBAS

Coisas muito para rir!--Dizem que ha grandes sabedores, homens que valem

mais do que os outros, que são mais avisados. (_Dando uma gargalhada._)

Loucura!... Os homens são todos bobos: bobos que fazem rir, bobos que

fazem chorar, bobos que amam, bobos que odeiam, bobos que leem até dos

astros, bobos que não sabem ler nem mesmo um pergaminho... mas todos

bobos, todos jograes e chocarreiros.

FR. BERMUDO

Tens razão D. Bibas.

D. BIBAS

Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo · 第 4 / 7 段