elle não estiver convencido, como eu, da sua innocencia, é melhor...
demorarmos o casamento.
JOZE
Assim se deita a perder o credito de um homem. É até onde póde chegar!
ANTONIO
A verdade anda sempre ao de cima d'agua, não lhe dê cuidado. Sabe que
mais, Joze Velhaco, admirou-me a generosidade com que deu dez tostões ao
pescador, a quem roubaram as filhas, e que tanto o defendeu na minha
presença. O pobre homem não cabia na pelle, e sempre lhe deu um
abraço... cuidei que o arrebentasse!
JOZE
Se não posso ver ninguem pobre, em o podendo remediar! Eu cá sou assim!
Enterneci-me; e o ardor com que elle me defendeu... fez-me ver, que
nesta gente é que ainda se encontram exemplos de virtude. Olhe sr.
Antonio Prudente, a virtude é o meu fraco! Santa palavra!
ANTONIO
(_Apertando-lhe a mão._) Gosto de o ouvir, Joze. Porque lhe terá o
Vigario tão má vontade?
JOZE
Promette não se zangar, se eu lhe disser a razão?
ANTONIO
Não me diga...
JOZE
Ouça, e não torve de repente. Sua filha está namorada do Luiz do
Campanario...
ANTONIO
Já sei, e não desgostei por isso que o rapaz fosse a Demerara... a ver
se ella o esquecia...
JOZE
Qual! Cada vez se lembra mais. O Vigario é quem os protege.
ANTONIO
Faz mal!... porque eu... Mas no fim de contas o que protege o
Vigario?... Um homem que morreu.
JOZE
Engana-se redondamente, sr. Antonio Prudente. O Luiz vive, e o Vigario
sabe que elle está...
ANTONIO
Aonde?
JOZE
Na Madeira. Chegou hontem, e já aqui esteve com Joanninha.
ANTONIO
Aqui?
JOZE
Trouxe-o o Vigario. Verá que elle casa a Joanninha com o Luiz, e leva a
sua por deante.
ANTONIO
Menos isso! Antonio Prudente não se mette assim debaixo dos pes. Pois se
o Luiz aqui esteve, e fallou a minha filha, o remedio é casal-a já com o
sr. Joze.
JOZE
Governe, sr. Antonio, governe o que é seu, e não se
arrependa. O Vigario é de familia de Morgados, dos fidalgos da ilha:
sabe que tenho meus vintens, e não gosta de que eu hombreie com os
seus... Dá licença que eu use de todos os meios para conseguir que sua
filha case comigo?
ANTONIO
Dou, permitto! (_Battendo o pé no chão._) Hade fazer-se o casamento.
(_Depois de pensar um pouco._) Mas quero levar o negocio de vagar, e com
prudencia. Amanhã, quando estiver mais socegado, fallaremos. Agora
deixe-me com a Joanninha; quero desabafar. Depois pensarei com mais
descanço.
JOZE
Pois fique-se com Deos.--Taes coisas farei, que ámanhã acabarão as suas
duvidas. Fie-se no que lhe digo. (_Indo para sair._) É preciso que um
homem saiba governar a sua caza, porque um homem é um homem. (_Sáe._)
SCENA IV
_Antonio Prudente e Joanninha_
ANTONIO
Ninguem hade governar aqui mais do que eu! (_Chamando.) Joanninha!_
JOANNINHA
Meu pae!
ANTONIO
Anda cá. Responde-me... e não mintas.
JOANNINHA
Eu nunca lhe menti, pae.
ANTONIO
Mas escondes-me a verdade, que é o mesmo. Não queres casar com o Joze
Velhaco?
JOANNINHA
Já lhe disse, pae, que não.
ANTONIO
Nem com elle, nem com outro?
JOANNINHA
Dezejo ficar na sua companhia.
ANTONIO
(_Colerico._) Mentes.
JOANNINHA
Eu? sou muito sua amiga!..
ANTONIO
Se o fosses não me desobedecias. Sei tudo. Não te queres casar, porque
te namoraste de um desgraçado sem dinheiro.--Prometteste casar com o
Luiz do Campanario... e a mãe, a Maria das Dores, tem tido o cuidado de
não t'o deixar esquecer. Invencioneira!
JOANNINHA
Não seja injusto! Confesso que não posso gostar senão do Luiz do
Campanario. Com elle fui creada, e só com elle posso viver!..
ANTONIO
Contra minha vontade!
JOANNINHA
O coração póde mais.
ANTONIO
Creancices, filha! Isso hade passar!
JOANNINHA
Em eu morrendo!
ANTONIO
É a ultima vez que to digo, Joanna. (_Severo._) Has de casar com quem eu
mando! E nem lagrimas tuas, nem lamentos de Maria das Dores, nem
palavras do Vigario, me torcem desta resolução!
JOANNINHA
(_Chorando e com muita dôr._) Eu... não choro nem lhe desobedeço.
Deixo-me morrer.
ANTONIO
Historias! (_Olhando para a filha com muita dôr._) As raparigas não
morrem por tão pouco... não morrem... E tu... tu não me hasde morrer,
filha... (_Agarrando-a com muito amor._) Minha rica filha!
JOANNINHA
Meu pae! (_Deitando-se-lhe nos braços, e escondendo a cara._) Se eu não
posso viver sem elle...
ANTONIO
Viste-o hoje? Sei que chegou.
JOANNINHA
Vi-o; e ouvi os seus padecimentos. Tive tanto dó delle!
ANTONIO
Invenções... para te seduzir.
JOANNINHA
Não diga isso:..--Esteve em Demerara quazi como escravo: teve as febres,
e foi levado para um hospital, onde não havia nem quem o tratasse. Pobre
Luiz! Com elle fui creada, vivemos juntos... e... esta desgraça,
causou-me tal dó... fez-me crescer tanto a... amizade, que já lhe tinha...
ANTONIO
E eu a escutar-te... a chorar quasi! (_Limpando os olhos._)
JOANNINHA
Não se envergonhe pae. Só os maus é que não choram.
ANTONIO
(_Repellindo-a sem violencia._) Gosto muito de ti, filha;
mas as lagrimas e as festas não me fazem mudar. É para teu bem! Essas
calumnias que dizem do Joze Velhaco... que não é capaz...
JOANNINHA
Elle é capaz de tudo.
ANTONIO
Joanna, que eu não torne a ouvir-te dizer mal do homem que está para ser...
JOANNINHA
A minha desgraça. Pae se soubesse...
ANTONIO
(_Com muita colera._) Joanna!
JOANNINHA
Oiça; que é verdade. Escute!
ANTONIO
Diz... é mais uma calumnia, de que elle se defenderá.
JOANNINHA
Quando o Luiz foi para Demerara--enganado por elle, e levado pelo amor
que me tinha--entregou ao Joze Velhaco vinte patacas, para Maria das
Dores....
ANTONIO
E então?
JOANNINHA
Joze Velhaco roubou o pão da mizeria.
ANTONIO
É falso!
JOANNINHA
O Luiz e Maria das Dores não mentem.
ANTONIO
Se fosse assim, Joze Velhaco era um infame. Mas, dize me, Joanninha, se
provar que tudo são mentiras promettes casar com elle!
JOANNINHA
(_Com firmeza._) Prometto. Se elle provar que está innocente façam de
mim o que quizerem.
ANTONIO
Verás! Mas fica descançada. Não sou capaz de te casar com um homem
deshonrado.
JOANNINHA
(_Abraçando-o._) Meu querido pae!
ANTONIO
Bem! Não precisas lembrar-me de que sou teu pae! Amanhã fica tudo
destinado. Agora descançar, que são horas... O dia tem sido hoje
inquieto para ambos nós. (_Dando-lhe um beijo._) Adeos filha. Não
queiras mal a teu pae. (_Sae._)
SCENA V
_Joanninha, depois Luiz do Campanario_
JOANNINHA
Como lhe heide querer mal, se elle me estima tanto, o meu querido pae?
(_Caindo de joelhos deante de uma imagem da Virgem, que está pendurada
na parede._) Senhora da Conceição, Protectora dos afflictos, ouvi-me.
Peço descanço para a minha alma, Virgem Santissima, peço-vos, que longe
de mim vá aquelle homem preverso! Soccorrei-o a elle... ao meu Luiz.
(_Durante esta oração Luiz entra pela janella, que estava cerrada e vem
ajoelhar junto de Joanninha._)
LUIZ
Soccorrei-o, Senhora, e á innocente que vos pede!
JOANNINHA
(_Levantando-se._) Luiz!...! Aqui?
LUIZ
Não me querias ver? Separados ha um anno... depois de tantas saudades?
JOANNINHA
E saudades taes! O susto de te perder, o temor de meu pae, e o horror
d'aquelle malvado, tudo que era contra nós, quebrava-me as forças. E as
lagrimas da tua triste mãe? Tudo... tudo me amofinava nesses dias
amargurados. Mas agora que estás aqui, e voltaste do desterro, agora,
parece que já me sinto outra.
LUIZ
Mas teu pae não consente!
JOANNINHA
Por ora. Já sabe do roubo, das vinte patacas furtadas a tua mãe. Ficou
em duvida... e disse que me não casava sem Joze Velhaco mostrar a sua
innocencia.
LUIZ
Não póde mostrar!
JOANNINHA
Meu pae hade deixar-se vencer das minhas lagrimas, e dos conselhos do
sr. Vigario!
LUIZ
Agora mesmo o larguei, e prometteu-me, o santo homem, que hoje mesmo...
havia de ficar tudo decidido. O Joze Velhaco perdido de todo, e nós
felizes.
JOANNINHA
Luiz, bem sabes se eu te amo, e se ha alegria e vida para mim longe de
ti; mas agora, assim de noite... não gosto de te ver... nesta casa.
Podia alguem descobrir-te quando entraste, póde meu pae estar acordado,
e sentir-te...
LUIZ
Tudo isso me occorreu... mas, o desejo de te ver... foi mais forte. O
Vigario mandou-me chamar ha pouco, e disse-me, «Luiz, esta noite fica
tudo deslindado; hoje acaba a tua desgraça... foi assim mesmo que me
disse! É preciso que passes a noite nas visinhanças da casa de Joanninha.»
JOANNINHA
Porque?
LUIZ
Foi o que perguntei... «Depois o saberás» me respondeu elle. Obedeci.
Estando perto, escondido, vi luz, olhei pela janella, e achando-te só, e
ouvindo-te resar, não pude resistir, e entrei para pedir, comtigo, a
Nossa Senhora que nos soccorra.
JOANNINHA
E que Deos nos ouça! Meu pae hade ceder por fim. Depois, que alegria!
Quando formos ambos á festa do Monte, e todos disserem: aquella é a
Joanninha, a filha de Antonio Prudente, que vai com seu marido.
LUIZ
Que é o mais feliz da Ilha, hão de acrescentar. Mulher como a delle não
ha outra na Madeira! Bonita, séria, galante!...
JOANNINHA
Luiz.
LUIZ
Joanninha!
JOANNINHA
E quando será?
LUIZ
Cedo, bem cedo! (_Esta scena deve ser representada com muita rapidez._)
SCENA VI
_Os mesmos Joze, Joaquim, e dois marinheiros_
JOZE
(_Apparecendo á janella, com uma pistola na mão._) Veremos.
JOANNINHA
Ah!
LUIZ
Joze! (_Correndo alguns passos para elle._) Agóra pagarás tudo...
malvado!...
JOZE
(_Apontando a pistolla para Joanninha, e em voz pouco elevada._) Nem
mais um passo!... nem mais um grito. Não acordemos o sr. Antonio Prudente.
LUIZ
(_Detendo-se._) O que fazes?
JOZE
(_Entrando._) Mato-a, se te moves... se dás um grito! (_Aos dois
marinheiros que entram cautelosamente atraz delle seguidos de Joaquim._)
Rapazes, segurem-me este heroe!
LUIZ
Maldito!
JOZE
Nada de resistencias, e de palavradas, senão temos desgosto na festa!
JOANNINHA
Jezus, acudi-me!
JOZE
(_Aos marinheiros._) Segurem-o!... e para bordo... Que vá para Demerara,
donde fugiu... o escravo!
LUIZ
(_Rezistindo apenas._) Este homem sahio do inferno... Marinheiros!...
Condoão-se de mim... e daquella desgraçada...
JOZE
(_Aproximando-se de Joaninha._) Joanninha, tudo isto faço pelo muito
amor, que te tenho!
JOANNINHA
E consente Deos isto?
JOZE
Vem commigo!
LUIZ
Não consintas, Joanninha!
JOANNINHA
Antes morrer.
JOZE
(_Colerico._) Não morrerás, e serás minha.
JOANNINHA
Só tua, Luiz!
JOZE
Ajuda-me, Joaquim!
JOANNINHA
(_Gritando._) Deixe-me, deixe-me.
JOZE
Se gritas... se dizes uma palavra. (_Aponta a pistolla a Luiz._)
LUIZ
Grita... brada... pede soccorro...
JOANNINHA
Soccorro!
JOZE
(_Cego de furia._) Morre, para não gritares! (_Dispara a pistolla sobre
Luiz, mas no momento de partir o tiro, Joaquim desvia-lhe o braço._)
Errei! (_A Joaquim_) Que fizeste?...
JOAQUIM
(_Tirando-lhe a pistolla, e segurando-o._) Chegou tambem a tua vez,
Joze! Pagarás tudo agora. (_Neste momento saltam pela janella, e entram
arrombando a porta alguns homens do povo, guiados pelo Vigario._)
SCENA VII
_Os mesmos, o Vigario, homens do povo, logo depois Antonio_
VIGARIO
Segura-o, Joaquim.
LUIZ
(_Armado com a faca de um dos marinheiros._) Tem firme, esse malvado:
vou-lhe arrancar o coração!
VIGARIO
(_Detendo-o._) Luiz! Luiz... diante de mim!..
LUIZ
É um preverso!
VIGARIO
A justiça o castigará.
ANTONIO
(_Entrando espavorido._) Que é isto... em minha caza?
JOZE
Querem-me assassinar. Acuda-me!
VIGARIO
Calla-te...
JOZE
Vi entrar pela janella, na sua caza, o Luiz do Campanario. Vinha seduzir
sua filha...
ANTONIO
Seduzir minha filha?...
JOZE
E para salvar a honra de Joanninha, da minha noiva... entrei atraz, com
risco de vida... Quando ia para o castigar...
VIGARIO
Quando ias para roubar a donzella a seu pai, e estavas para mandar
violentamente para Demerara esse homem, pela segunda vez, appareci eu, e
frustei os teus planos.
JOZE
É falso, é falso!...
VIGARIO
Escute, Antonio, e veja o marido, que ia dar a sua filha... Este homem
não te roubou o dinheiro, que deixaste para tua mãe?
LUIZ
Roubou.
VIGARIO
Não te convidou a ti, Joaquim, para aliciador de escravos brancos?
JOAQUIM
É assim sr. Vigario, e aqui está um papel asignado por elle... (_Da-o a
Antonio._)
VIGARIO
Para servir de prova.
JOZE
A obrigação que me pediste?!... Traidor!
VIGARIO
Não vinha elle aqui esta noite para furtar a filha do sr. Antonio Prudente!
JOAQUIM
Tal e qual; por signal, quiz que eu o acompanhasse.
VIGARIO
(_A um homem._) Não foi o Joze Velhaco quem roubou as tuas filhas?
O HOMEM
Foi, sr. Vigario!
VIGARIO
Não são testemunhas todos, de que tentou agora matar o Luiz do Campanario.
TODOS
Somos.
JOZE
É mentira.
VIGARIO
Levem-o d'aqui. Amanhã será entregue á justiça, no Funchal. (_Alguns
homens levam Joze, que vai gritando: É mentira! é mentira!_)
ANTONIO
Senhor Vigario salvou a minha honra... salvou... Perdoas-me filha?..
salvou a minha querida Joanninha. (_Abraça-a._)
VIGARIO
Pude salval-a... Mas fazel-a feliz, não depende de mim.
ANTONIO
O sr. Vigario manda nesta caza.
VIGARIO
Então mando que não haja ninguem triste. (_Pondo a mão de Joanninha na
mão de Luiz._)
ANTONIO
Mas, sr. Vigario...
VIGARIO
O Luiz, o marido que dou a tua filha, é o feitor de meu irmão, o morgado
Bittencourt.
LUIZ
(_Com fogo_) Viva o nosso Vigario!
TODOS
Viva!
ANTONIO
Deos proteja o nosso Vigario.
VIGARIO
Deus proteja a Ilha da Madeira.
_Cae o panno._
Fim do 3.º acto e do drama.
O ASTROLOGO
DRAMA EM 5 ACTOS
PERSONAGENS
Fr. Bermudo. D. Gonçalo de Sousa.
D. Mendo Paes. D. Soeiro Viegas.
O Infante D. Affonso. João Sirita, Ermitão.
D. Pedro Framariz. D. Bibas, bobo.
O Bispo D. João Peculiar. D. Bonamiz, bobo
D. Tello, Prior de Santa Cruz. Um Judeu.
D. Gonçalo Mendes. Um Templario.
D. Egas Moniz. D. Gontrade.
D. Lourenço Viegas. D. Violante.
D. Guilherme Ricardo
Ricos homens, templarios, cavalleiros, damas, homens de armas,
frecheiros e besteiros.
ACTO PRIMEIRO
_Um campo junto á pousada de D. Pedro Framariz, no Burgo de Guimarães._
SCENA I
_Entram Besteiros, e Homens d'armas de D. Pedro Framariz, trazendo um
Judeu prezo com uma corda_
1.º BESTEIRO
Anda perro judeu... anda; vamos, e depressa, que o teu
sangue, e a tua pelle hão de tornar-se hoje em bons e finos maravedis.
2.º BESTEIRO
Olá!--O nosso amo bem sabe os meios de lh'os fazer sahir do corpo.--Bons
meios, e que nunca falham. Uma tenaz de ferro em braza, uma boa corda de
esparto, e ás vezes um cajado de zambujeiro, bastam para fazer de um
judeu um sacco de oiro.
1.º BESTEIRO
E agora sobre tudo, que os maravedis são tão necessarios, o sr. D. Pedro
ha de empregar os bons meios para tirar prata e oiro do corpo deste
judeu. D'aqui a uma hora partimos, para andarmos por lá, Deus sabe
quanto tempo.
2.º BESTEIRO
Não nos ha de faltar nada. Nos recontros com os mouros sempre se ganha
alguma coisa. Uma fossada pelo Al-Gharb ha de dar para senhores e
vassallos. Até nós, pobres besteiros, havemos de apanhar algumas
migalhas do que der a conquista.
1.º BESTEIRO
E nesta correria então!... Dizem que são tão ricas essas terras d'Além
do Téjo!
2.º BESTEIRO
E que o não fossem! Para nós homens de armas de D. Pedro Framariz sempre
ha que apanhar.
1.º HOMEM D'ARMAS
Hei de trazer este meu lorigão forrado de oiro.
2.º BESTEIRO
E a alma de indulgencias.
1.º HOMEM D'ARMAS
Tambem, e porque não? Lá váe o nosso Infante para as ganhar...
1.º BESTEIRO
E tem razão.--E elle dês que a mãe lhe morreu anda triste, e a scismar
sempre. A mãe, a sr.ª D. Thereza, era uma brava mulher. Vi-a muita vez,
nas guerras com os leonezes, ao lado do conde Fernando Perez, caminhar
para o inimigo como um homem.
1.º HOMEM D'ARMAS
(_Em voz baixa._) Foi o Infante D. Affonso Henriques quem a
matou.--Aquella prizão... e depois aquelle desterro...
2.º BESTEIRO
O sr. Infante não a matou. Cá a mim parece-me que elle fez o que devia.
Portugal ía-se pela agua abaixo se fica mais tempo nas mãos de uma mulher.
1.º BESTEIRO
Palavras inuteis... e perigosas!--Vamos levando este maldicto judeu para
a pousada do Burgo, e deixemos o resto que nos não importa.
1.º HOMEM D'ARMAS
Não tem pressa. Nosso amo está ainda com o Infante e outros cavalleiros
a ouvir a missa no mosteiro de Mumadona.
1.º BESTEIRO
Qual?! Está já de volta, de certo. D'aqui a pouco partimos.
2.º BESTEIRO
(_Puxando pelo judeu_) Vamos, vamos. (_Ao 1.º homem d'armas._) Garcia,
faz andar este excommungado. Para que te servem esses braços, senão é
para dar nos judeus e nos cães da moirama?
1.º HOMEM D'ARMAS
(_Dando no judeu._) Tem os ossos de ferro estes judeus, não quebram nem
pelo diabo!
JUDEU
Deixae-me... deixae-me. Tende dó de mim, srs. besteiros.
1.º HOMEM D'ARMAS
Dá-nos um pouco de teu oiro, judeu.
JUDEU
Sou pobre... um miseravel... não tenho nada.
1.º BESTEIRO
Vae dizer isso a D. Pedro, elle te fará mudar de opinião. Mette-te n'um
forno, vivo, para vêr se de lá sáes mudado em barra de oiro.
JUDEU
Deixae-me... que elle mata-me; mata-me de certo.
ALGUNS BESTEIROS
Uh! uh! maldito judeu.
1.º HOMEM D'ARMAS
Has de ser assado vivo.
JUDEU
Deus de Jacob, salvae-me!
1.º HOMEM D'ARMAS
Vamos, que alli vem fr. Bermudo.
1.º BESTEIRO
O feiticeiro... o magico.
JUDEU
(_A fr. Bermudo._) Salvae-me... salvae-me!
SCENA II
_Os mesmos, e Fr. Bermudo_
FR. BERMUDO
Esperae... onde ides? Onde levaes esse miseravel judeu?
1.º HOMEM D'ARMAS
Foi nosso amo, D. Pedro Framariz, que nos mandou que o levassemos...
FR. BERMUDO (_Colerico._)
Para o roubar, para o atormentar.--Deixae-o...
2.º BESTEIRO
Um judeu...
FR. BERMUDO
Um judeu tambem é homem.--Deixae-o.
1.º HOMEM D'ARMAS
Mas D. Pedro ha de querer saber porque nós lhe não obedecemos.
FR. BERMUDO
Dizei-lhe que fui eu.
1.º HOMEM D'ARMAS (_Com hesitação_)
Mas...
FR. BERMUDO
(_Com colera._) Já disse.
1.º BESTEIRO
(_Baixo aos outros._) O magico dá-nos máo olhado, se lhe resistirmos, e
ficamos perdidos... O melhor é deixar o judeu.
TODOS
Deixemol-o. (_Deixam o judeu._)
1.º HOMEM D'ARMAS
Vamo-nos... depressa.
1.º BESTEIRO
Deus tenha dó de nós. O que dirá D. Pedro Framariz?
2.º BESTEIRO
É hoje, talvez, o fim da nossa vida. (_Sáem._)
SCENA III
_O judeu e Fr. Bermudo_
JUDEU
(_Cahindo de joelhos._) Quero agradecer-vos de joelhos.
FR. BERMUDO
Vae-te... salva-te.--Não pônhas em mim essas mãos.
JUDEU
Consenti que vos beije os pés, que me prostre diante de quem póde e sabe
escrever o destino dos homens...
FR. BERMUDO
Foje... vae-te, se não queres outra vez cair nas mãos d'aquelles homens
d'armas.
JUDEU
Sois o maior homem da terra! (_Sáe._)
SCENA IV
_Fr. Bermudo (só)_
FR. BERMUDO
(_Rindo._) O maior homem!... Sou o maior homem, sou, porque padeço mais
que os outros. A dôr moral é que distingue o homem da fera. (_Pauza._)
Lêr o futuro nos astros, lêr as paixões no coração; ter segredos que dão
vida, e segredos que matam...--Que tem?! O futuro é um martyrio que me
assusta; as paixões que escondo neste coração são crueis e negras. Se
esta vida durasse uma eternidade, sería uma vida maldicta... E depois da
vida a morte!... Morrer sem ter sido amado, sem ter recebido
um affago... sem ter a esperança de ouvir, mesmo quando já envolvido nas
profundas trevas do sepulchro, um grito de saudade que me acorde!.. De
que serve a sciencia?.. E o que é ella, essa sciencia que não póde
vencer o destino, nem sequer descobrir as leis eternas que o regem? De
que me serve o saber?... Tenho mais dores que os outros homens, e menos
fé...--Mendo... O meu Mendo, o meu amigo, o meu filho,--porque lhe quero
como se elle fôra meu filho,--como o hei de salvar?... E Violante, esse
anjo, que eu... cujo nome me faz alegria e terror...--como os hei de
separar, esses corações que o amor e a mocidade atraem um para o outro,
e que o destino separa por um abismo! (_Pausa--apontando para os
astros._) Está escripto... está tudo escripto nos astros...--É fatal!
(_Crusa os braços e fica meditando._)
SCENA V
_D. Mendo e Fr. Bermudo_
D. MENDO
(_Vendo Fr. Bermudo._) Aqui, fr. Bermudo!
FR. BERMUDO
Esperava por ti, D. Mendo.
D. MENDO
Por mim?... Neste sitio? Agora?
FR. BERMUDO
É aqui que te deves despedir da filha de D. Pedro Framariz.
D. MENDO
De Violante... Quem te disse?
FR. BERMUDO
Soube que vinhas, e vim. Não foste hontem pedir-me que
consultasse as estrellas, a conjuncção dos astros para saber o teu
futuro? Passei a noite a estudar o céo, e é o que n'elle li que eu te
venho dizer agora.
D. MENDO
Que te disseram os astros?... Hade ser minha?... Hade-me ter sempre
muito amôr?... Seremos felizes?..
FR. BERMUDO
A tua estrella tocou o zenith, quando o Feretro se alevantou sobre o
horisonte, acompanhado das tres Carpideiras; ao mesmo tempo que a
irradiação de Neyman se extinguia, a de Sehedir tornou-se mais brilhante...
D. MENDO
O que quer dizer tudo isso?
FR. BERMUDO
Não o queiras saber; deixa os astros guardarem os seus segredos
tenebrosos. Mas foge destes logares; vae buscar a gloria nos campos da
batalha... foge, foge do teu negro destino... se ao homem é possivel
fugir ao destino.
D. MENDO
Falla. Diz-me a verdade. Tenho animo para tudo. O que quer dizer essa
disposição dos astros?
FR. BERMUDO
Quer dizer que a vida ha de ser uma vida de padecimento; que a morte ha
de separar-te da que amas; que depois terás a gloria...
D. MENDO
Calla-te...--Sem ella... que m'importa o resto?
FR. BERMUDO
Abumachar Giafar não se enganou nunca ao lêr no livro do céo... e eu
leio pelo seu livro.
D. MENDO
Não póde ser... não. Se Violante morrer, morrerei com ella.
FR. BERMUDO
A tua estrella não se apagou.--Serás grande e forte.
D. MENDO
O destino não se póde oppôr a que eu busque a morte no meio das
fallanges serracenas.
FR. BERMUDO
Tudo póde o destino!
D. MENDO
Salva-me... Calla-te... Muda isso tudo...
FR. BERMUDO
O que os astros escrevem no seu mudo caminhar pelo céo, não o podem os
homens apagar.
D. MENDO
Fr. Bermudo, algum demonio falla pela tua bocca.
FR. BERMUDO
O teu sangue de pagem está ainda muito ardente.--Mendo, sou teu amigo,
sou, e deveras. Talvez o não devesse ser... mas sou-o... Mendo--Entre ti
e Violante ha um abysmo.
D. MENDO
Hei de transpôl-o.
FR. BERMUDO
Não, porque é vasto, immenso; porque no fundo ferve e ruge um pélago de
sangue.
D. MENDO
Enganou-te a sciencia... Não é, não póde ser verdade o que dizes.
FR. BERMUDO
Nem a mão de Deus, póde apagar o passado.
D. MENDO
Padre, conheces um tremendo segredo... É meu esse segredo; quero sabêl-o.
FR. BERMUDO
Sei... coisas que não posso dizer... tenho medo de as pensar... que me
accusam, que me condemnam.
D. MENDO
Mas...--Fr. Bermudo quero o meu segredo.
FR. BERMUDO
Deixa,... esquece esse amor. Não queiras, saber um segredo, que te
manchará o viço da alma; que te fará envelhecer o coração, caírem mortas
a esperança e a fé, mal elle tocar o teu pensamento, que desconhece
ainda até onde póde chegar a perfidia dos homens.
D. MENDO
Esquecer este amor?--Este amor é...--Não t'o posso dizer, não me
intenderias, padre.
FR. BERMUDO
Quem sabe!... Os mysterios do coração são de Deus?!... Póde ser que vão
com o corpo á cova, para lá ficarem fechados; por que Deus na sua
infinita misericordia talvez os queira extinguir, com tudo quanto ha de
impuro no homem.
D. MENDO
Ai! que dôr, que dôr esta minha!.. Sou o maior desventurado da terra!
FR. BERMUDO
Quem póde dizer que o é?--Tu, Mendo, na tua vida tão curta, já escutaste
o palpitar de um coração que batia por ti.--Tens uma esperança... Amanhã
serás cavalleiro, depois serás senhor de honras e castellos, depois
terás um nome, uma gloria. Tens um futuro, Mendo... e n'esse
futuro?.. Deus ha de compadecer-se de ti que és bom e puro.
D. MENDO
(_Cobrindo o rosto._) Sem Violante!... Jesus, meu Deus!
FR. BERMUDO
Ha homens a quem a fatalidade acompanha desde o berço, e em cuja alma
sempre em trevas, não caíu uma esperança... nem mesmo já nasce um desejo.
D. MENDO
Fr. Bermudo, não tens nem piedade, nem comiseração n'essa tua alma...
Nunca te fiz mal, para que assim me lances na desesperação.
FR. BERMUDO
Querias saber o futuro, li nos astros, e disse-t'o.
D. MENDO
Não te creio...--Mentem os astros...--Violante!... não a perderei,
não... nem este amor tambem, que é do céo; que nasceu entre os anjos!..
Ella não póde tardar.--Deixa-me... Quero ter esperança; estar
alegre.--Vae-te. Vae-te, que te não veja ella, feiticeiro agoirento e máo.
FR. BERMUDO
Deus tenha dó de nós... de todos nós! (_Sáe._)
SCENA VI
_D. Mendo e depois D. Violante_
D. MENDO
Virgem Maria, tirae-me d'alma estes dolorosos pensamentos, ponde-me o
sorrizo na bocca e a esperança no coração, para que um dos
vossos anjos não soffra.
D. VIOLANTE
(_Entrando agitada._) Mendo, que tendes? O que é isso que vos afflige.
D. Mendo?
D. MENDO