(_Batendo á porta._) Ólá, menina Joanninha!

JOZE

Não está cá a menina, saiu.

JOAQUIM

Ah! está ahi vmc. sr. Joze? Eu vinha procurar a Maria das Dores. Tambem

não está aqui?

JOZE

Esteve, mas foi-se. E que lhe queria você á Maria das Dores?

JOAQUIM

Trazia-lhe um recado de meu amo.

JOZE

Do sr. Vigario?

JOAQUIM

Sim senhor, lá do sr. Vigario é que o recado é: o sr. Vigario quer

fallar á velha.

JOZE

Para que?

JOAQUIM

Isso não sei eu. Para coiza grande é, porque me disse meu amo que viesse

correndo.

JOZE

(_Á parte._) Que será? O Vigario em tudo se mette.

(_Alto._) Então não sabe o que o nosso Vigario quer á Maria das Dores?

Em! Joaquim?

JOAQUIM

Olhe vmc.; eu, verdade, verdade, não sei o que elle tem que lhe dizer;

mas parece-me...

JOZE

O que?

JOAQUIM

A velha foi outro dia fallar com o sr. Vigario, e esteve mais de uma

hora só com elle.

JOZE

O que disseram?

JOAQUIM

Não sei. Pois se elles estiveram sós, como havia de saber o que

disseram? Minha mulher, que é curiosa deveras, lá descobrio que ella

quer entrar para o azylo dos pobres, no Funchal; e por isso meu amo lhe

fallou o outro dia á triste da velha, e agora lhe quer fallar outra vez.

JOZE

Hade ser, hade ser isso. (_Á parte._) Fico mais alliviado; já não

precizo gastar o dinheiro em metter a Maria das Dores no hospital, por

doida. (_Alto._) Ora, Sr. Joaquim, ja pensou n'aquelle negocio, em que

outro dia lhe fallei? Está disposto a ir fazer fortuna?

JOAQUIM

Estou velho para tentar fortuna, sr. Joze. Tenho 40 annos feitos.

JOZE

Parece um rapaz de 20, o nosso Joaquim! E depois tem um filho que d'aqui

a dois dias está um homemzinho, que o póde ajudar.

JOAQUIM

O rapaz não levo eu para Demerara. A mim posso-me arriscar, mas a elle...

JOZE

Olhe sr. Joaquim, que não ha perigo. Tenho vontade de o fazer feliz...

tenho confiança em você.... conheceu-me de pequeno, e tenho-lhe amizade.

Não sei se é homem de segredo, sr. Joaquim.

JOAQUIM

Pode fiar-se. Segredo, que oiço, é como se caisse ao mar, ninguem o

sabe. Para amigos sou um homem como se quer. Sim: lá nisso é

fallarem-me, e prompto; aqui está o Joaquim ás ordens.

JOZE

Se apparecesse agora um homem, que quizesse fazer-se rico em pouco

tempo, sem trabalho, havia occasião.

JOAQUIM

Eu quero; oh! se quero.

JOZE

Pois toque, Joaquim; mas jure guardar segredo sobre o que vou dizer.

JOAQUIM

Está promettido.

JOZE

O que vou dizer-lhe é de amigo. Preciza-se de um homem.... você é de

segredo? Em?

JOAQUIM

Oh! homem, não me conhece ainda?

JOZE

Veja la. Se este segredo se souber, só você o pode ter contado; e ha

gente de muitas posses, que o quer bem guardado. (_Com um gesto de

ameaça._) Sempre se póde fazer callar um homem.

JOAQUIM

Bem o intendo. Póde fallar sr. Joze. Não é o medo que me tapa a bocca.

JOZE

(_Assustado._) Então?...

JOAQUIM

(_Rindo._) É... é a amizade, que lhe tenho...

JOZE

Como ia dizendo: preciza-se de uma pessoa que vá a Demerara, homem de

bom nome, e de influencia por estas freguezias. Você está no caso.

Caseiro do sr. Vigario, e bem quisto por elle.... é quanto basta.

JOAQUIM

O meu nome, o nome do Joaquim do Vigario, é bem conhecido, ninguem tem

que lhe dizer.

JOZE

Pois ahi está; é isso mesmo.

JOAQUIM

Então querem que vá a Demerara?

JOZE

Justo. Ir; estar lá um anno a comer e a beber á regalada, e voltar rico.

JOAQUIM

(_Rindo._) Ah! ah! ah! Rico! E como?

JOZE

Comendo, já lho disse. Comendo, dormindo e engordando.

JOAQUIM

Eh! eh! eh! Não me parece feia a historia! Está a mangar commigo sr.

Joze? Em!

JOZE

Mangar, com o meu amigo Joaquim?! Isso é que não.

JOAQUIM

Eu cá intendo que se dê de comer a um porco, para depois o matar, mas a

um homem.... Em Demerara comem gente?

JOZE

(_Rindo._) Está doido... Sr. Joaquim. Aquillo é a melhor terra deste mundo.

JOAQUIM

Que querem elles então?

JOZE

Que volte para a Madeira, com dinheiro e saude, e diga depois, como eu,

que Demerara é um céo aberto; que lá se enriquece á grande, e que um

homem váe, e volta rico sem lhe custar nada.

JOAQUIM

E isso é assim para todos?

JOZE

Não homem; para os felizes como nós. Pois este mundo fez-se para os

felizes? Santa palavra!

JOAQUIM

(_Rindo muito._) Agora... agora percebo--Ah! ah!.. É boa! É como quem

diz um chamariz; querem fazer de mim um chamariz?

JOZE

Ainda bem que nos intendemos. Vai então para Demerara?

JOAQUIM

Para quando a partida?

JOZE

No primeiro navio.

JOAQUIM

Pois amanhã lhe dou a resposta.

JOZE

Mas o segredo?...

JOAQUIM

Está dito.

JOZE

Quer dormir sobre o cazo para depois se decidir?

JOAQUIM

É como diz. Este costume ficou-me de pequeno, dormir sobre todos os

cazos, e em todos os cazos. Agora vou ao recado do sr. meu amo, vou

procurar a tia Maria das Dores.

JOZE

Vá, vá. E se poder saber o que o sr. vigario lhe quer, venha-mo contar.

JOAQUIM

Pois sim. Adeus, amigo Joze Velhaco.

JOZE

Adeus. (_Joaquim sáe._)

SCENA VIII

_Joze, depois Antonio Prudente_

JOZE

Este é dos nossos. Meu de certo é; porque me hade render bom par de

patacas. E digam que sou mau! Acabo de fazer a fortuna deste excellente

pai de familia!--Ahi vem Antonio Prudente. Vamos resolvel-o por uma vez

a governar a sua casa! (_A Antonio que entra._) Ora já sei, sr. Antonio,

que a sua Joanninha lhe não quer obedecer.

ANTONIO

Hade obedecer, que lho digo eu. Por tal vergonha não hade passar Antonio

Prudente.

JOZE

Encontrei-a com a velha, aqui. Disseram-me injurias, insultaram-me. A

Maria das Dores repetiu-me uma duzia de vezes--ouvi-lho com estes

ouvidos--repetiu-me, que Joanninha não casaria commigo; que o pae de

Joanninha era um tolo--perdão sr. Antonio, eu não faço senão

repetir--que era um tolo, um baboso, e que havia de fazer o que ellas

quizessem.

ANTONIO

Pois a velha disse isso?.. diante de minha filha? Bem razão tinha, Joze,

em me aconselhar que a puzesse na rua, á excommungada bruxa! Onde está a

Maria das Dores, onde está minha filha?

JOZE

Sairam ambas, depois de me carregarem de injurias.

ANTONIO

Um tolo, um baboso, eu! Ou a Joanninha deixa de ser minha filha, ou o

casamento hade fazer-se já. E para a rua a velha, que nem mais uma vez

me porá os pés em casa.

JOZE

Nada de violencias, sr. Antonio. Com geito é que as coisas se levam. Com

sua filha rigor, mas violencia, não. E com a velha nada de injurias... o

Vigario protege-a.

ANTONIO

E que me importa a mim o Vigario? Não preciso de ninguem.

JOZE

Isso faz-lhe honra, sr. Antonio, mas sempre é bom ser _prudente._

ANTONIO

Hade fallar-se de mim na freguezia. Os paes hão de aprender a castigar

as filhas desobedientes.

JOZE

Ahi vem ellas, sua filha e a Maria das Dores. Vou-me; porque, se aqui me

veem, não entram.

ANTONIO

Deixe-as commigo.

JOZE

Tenha moderação... paciencia!

ANTONIO

Deixe-as commigo, já lho disse. (_Joze sae._)

SCENA IX

_Antonio Prudente, Maria das Dores e Joanninha_

ANTONIO

Tolo e baboso! chamaram-me assim, minha filha, e a Maria das Dores, que

me deve tanto! Agora veremos se eu sou homem com quem se brinque. (_Ás

duas que entram._) Venham ambas que temos que fallar.

JOANNINHA

(_Assustada._) Que quer, pae?

ANTONIO

A ti? já o sabes. Domingo casas, sem falta.

JOANNINHA

Pae... antes morrer.

ANTONIO

Ou casas, ou ponho-te fóra, para nunca mais saber de ti.

Disseste mal de mim, chamaste nomes injuriosos a teu pai!.. És má filha,

e só te perdôo se me obedeceres.

JOANNINHA

Eu! nunca lhe faltei ao respeito, pai!

ANTONIO

E não chama ella faltar ao respeito desobedecer-me e chamar-me... tolo.

JOANNINHA

Eu... É falso, é uma falsidade infame.

ANTONIO

Calla-te.

MARIA

Não trate assim sua filha, Antonio. A pobre rapariga, se tem culpa, é de

chorar.

ANTONIO

Ainda se atreve, Maria das Dores, a entrar nesta casa, e a fallar-me de

Joanninha! Se ella é desobediente, e má filha, se diz mal de seu pae,

quem a ensinou foi você, mulher.

MARIA

Que diz, Antonio?

ANTONIO

Foi quem ensinou Joanninha a faltar aos seus deveres; porque dantes era

boa e docil. Mas isto hade acabar, e já. Nunca mais volte a minha casa,

nunca mais falle com minha filha...

MARIA

Põe-me fóra da sua casa? A mim, que lhe criei sua filha?..

ANTONIO

É indigna de vir aqui. Anda perdendo as raparigas com maus

conselhos.

MARIA

(_Chorando._) Perdôo-lhe essas injurias, porque sei quem lhas ensinou.

ANTONIO

Pois julga que Antonio Prudente?...

MARIA

Penso que é bom e justo, e que a preversidade de um malvado, que o

enganou, o traz assim mudado.

ANTONIO

Não quero que em minha casa se diga mal de quem hade ser meu genro.

Ponha-se fora mulher. Na rua já!

MARIA

Vou-me embora. Nossa Senhora guarde a pobre Joanninha, e abra os olhos a

este homem. (_Maria das Dores vai para sair, quando apparece á porta de

fundo o Vigario._)

SCENA X

_Os mesmos e o Vigario_

VIGARIO

(_Detendo Maria das Dores._) Antonio Prudente, que palavras são essas;

porque o vejo com tanta colera? Porque põe fóra de casa Maria das Dores?

ANTONIO

Anda desinquietando minha filha.

VIGARIO

Desinquietando sua filha!..

ANTONIO

Foi ella que desvairou Joanninha, que de pequena foi sempre temente a

Deos e obediente a seu pae, e lhe ensinou o atrevimento, e a

desobediencia!

VIGARIO

Isso é engano, de certo. Anda um crime nisto. Antonio, o seu nome foi

sempre respeitado; todos até hoje o têem estimado; porque é homem de

bem, caridozo e justo. Mas, em se sabendo que pôz fóra de casa a mulher

que criou sua filha, em se sabendo que maltractou uma triste viuva, uma

desgraçada, velha, doente, quebrada pela dor, e opprimida pela mizeria,

todos hão de pensar que era falso o conceito, que formavam a seu respeito.

ANTONIO

Sr. Vigario, essas palavras são injurias.

VIGARIO

Não faço injurias, digo verdades.

ANTONIO

Mas não sabe...

VIGARIO

Sei que Maria das Dores sempre foi verdadeira, e que tem soffrido a

desgraça com a paciencia de uma santa. Maria das Dores, diga-nos a

verdade, em consciencia fez a este homem a offensa de que elle se queixa?

MARIA

(_Suffocada pelas lagrimas._) Não. Pela vida de meu filho, se elle

vive... pela sua alma, se Deos o chamou, juro que não.

VIGARIO

Ouvio, Antonio? Um homem, a quem os annos fizeram brancos os cabellos, a

quem os trabalhos da vida ennobreceram o coração, acaba de se deshonrar,

pizando aos pés o que ha de mais sagrado no mundo: uma mãe

desventurada.

ANTONIO

Sr. eu... pensei... acreditei...

VIGARIO

Acreditou uma calumnia. Neste mundo não basta ser passivamente honrado,

Antonio; a virtude era facil assim. É preciso resistir tambem ás

seducções dos maus, ter força para fazer justiça a todos, e não obedecer

ás paixões, que sempre, em todas as idades, se levantam no coração, e

cegam o espirito.

ANTONIO

Mas minha filha recusa obedecer-me.

VIGARIO

Porque offendeste teu pae, Joanninha?

JOANNINHA

Eu em tudo estou prompta a obedecer a meu pae; mas...

VIGARIO

Mas o que?

JOANNINHA

Casar-me com o Joze Velhaco, isso não. Antes morrer.

ANTONIO

Bem vê, sr. Vigario...

VIGARIO

Vejo que Joanninha é boa filha, e que quer salvar seu pae da

deshonra.... Recuza casar-se, porque o casamento é impossivel. Uma santa

rapariga não póde unir-se a um homem depravado: n'uma familia honesta,

como a de Antonio Prudente, não póde entrar um mizeravel que todos

desprezam.

ANTONIO

O que diz?

VIGARIO

O que o coração lhe teria dito, se o desejo louco de juntar ás suas

fazendas mais um pedaço de terra o não cegasse!

JOANNINHA

Nossa Senhora o abençoe pelas verdades que está dizendo!

ANTONIO

(_Com hesitação._) Prometti minha filha ao Joze Velhaco, e a palavra de

Antonio Prudente é sagrada.

VIGARIO

Deve ser sagrada quando a der a um homem de bem, e quando cumpril-a não

for sacrificar sua filha.

Antonio, escute-me. Ha no Funchal um pobre pescador, com duas filhas que

sustenta, e são a sua alegria, a sua força, a benção da sua caza. Esse

homem saiu uma destas noites passadas, para ir pescar; e quando voltou

de madrugada achou as portas abertas, e tudo deserto.

JOANNINHA

O que aconteceu?

VIGARIO

Suas filhas tinham sido furtadas. Imagine, Antonio Prudente, a dôr

d'aquelle pae!

ANTONIO

(_Como arrastado por uma força invizivel._) Ai, se a mim me roubassem a

minha filha!... acabava de magoa: mas depois de matar com estas mãos

quem m'a tivesse roubado.

VIGARIO

É pae, Antonio, ainda é pae! Bem se vê.

ANTONIO

O que fez o pescador?

VIGARIO

Lembrou-se de que se negocia na Madeira em escravatura branca;

lembrou-se, foi Deos que o inspirou! de que ha na terra homens infames

que enganam seus irmãos. Como o pescador sabia, que mais de uma vez os

que tem ido a bordo dos navios de emigrados, despedir-se dos parentes,

ficaram lá contra vontade, e foram para Demerara, occorreu-lhe que

miseraveis, que praticam horrores d'estes, eram tambem capazes de usar

de violencia, e de augmentarem assim o numero das suas victimas.

Lembrou-se de tudo isto, e foi ter com um desses homens.

ANTONIO

E matou-o?

VIGARIO

Não. Disse-lhe estas palavras. «Ou minhas filhas hãode hoje mesmo voltar

para casa, ou amanhã apparecerás assassinado.»

ANTONIO

E então?

VIGARIO

Horas depois o pobre pae apertava ao coração as duas filhas.

ANTONIO

E quem foi que as roubou?

VIGARIO

Dinheiro, espalhado com mãos largas pelos ricos traficantes de escravos

brancos, esconde o nome desse homem, mas falla-se...

ANTONIO

De quem?

VIGARIO

Do Joze Velhaco.

ANTONIO

Elle!

VIGARIO

Todos fallam. Já vê, Antonio Prudente, que não póde querer para marido

de sua filha um homem perdido de reputação.

ANTONIO

Não... sem elle se justificar.

VIGARIO

Sei que é o desejo de fazer sua filha rica e feliz o que o allucina;

mas, ainda assim, desconheço-o. N'outro tempo, a sua probidade não lhe

consentia pensar mais um instante em tal casamento, depois de saber o

que se diz por ahi do Joze Velhaco. Escute o seu coração, e a sua

consciencia, Antonio, e verá, como eu vejo, que o casamento é impossivel.

ANTONIO

Sr. Vigario... talvez tenha razão: mas, com perdão de v. s.ª sou pae, e

um pae sabe melhor do que ninguem o que convem a sua filha. Não posso

faltar á minha palavra, sem saber se o que se diz é mentira ou verdade.

VIGARIO

Nem mais um conselho lhe dou, Antonio, de hoje em diante. Faça o que

quizer. Sacrifique sua filha, e deshonre-se. (_Vae para sair._)

JOANNINHA

Pae, escute o sr. Vigario.

ANTONIO

(_Commovido._) Não me faça a offensa, sr. Vigario, de me tirar a sua

amizade. Era um desdoiro para a minha vida, uma dôr d'alma, e uma

deshonra para estes cabellos brancos. Pelo amor de Deos, perdoe-me!

VIGARIO

Não quero senão o seu bem; e peza-me que me não escute.

ANTONIO

Se permitte, não me dou ainda por desligado. Vou ter com o Joze Velhaco,

e se não se justificar, se não provar que está innocente, ficará o dito

por não dito, e não torna a entrar n'esta casa. Mas antes de o condemnar

é preciso ouvil-o.

VIGARIO

Mas tambem se devem escutar as queixas, e os prantos de uma filha, antes

de a condemnar por toda a vida. Emfim, Antonio, confio tudo da sua

probidade, e do muito amor que tem á nossa Joanninha. (_Com brandura._)

Bem sabe que a vi crescer, que lhe ensinei a ler e a escrever, que lhe

dei uma educação como no Funchal não se dá ás filhas dos morgados;

custava-me vel-a casada com um homem, incapaz de a fazer feliz.

ANTONIO

Vou já ter com elle, se o sr. Vigario dá licença.

VIGARIO

Vá depressa.

ANTONIO

V. S.ª perdoa-me alguma má palavra?...

VIGARIO

Não tenho que perdoar, e já esqueci tudo; excepto que Antonio Prudente é

homem honrado, e hade mostrar-se bom pae.

ANTONIO

(_Beijando a mão do Vigario._) Agradecido, agradecido. (_Sae._)

SCENA XI

_Os mesmos, menos Antonio Prudente_

VIGARIO

Joanninha, parece-me que pódes socegar. Este casamento não se faz.

JOANNINHA

Não me atrevo a ter esperança. Meu pae anda infeitiçado. E depois, nem

já sei senão chorar noite e dia, chorar até morrer.

VIGARIO

Deixa estar, Joanninha: as lagrimas dos innocentes quasi sempre a mão de

um amigo as enchuga. (_Brincando._) Eu sei, minha menina chorosa, que

essa mão benefica não hade tardar muito aqui.

JOANNINHA

Ninguem pode consolar-me.

VIGARIO

Ahi está Maria das Dores, que bem velha é, e que ainda assim não hade

ter sempre os olhos arrazados de lagrimas, como agora.

MARIA

Não, sr. Vigario, porque debaixo do chão não se chora.

VIGARIO

Nem tambem cá por cima, quando se é feliz.

MARIA

Feliz, eu?! Sem o meu filho?!

VIGARIO

Quem lhe disse isso, Maria das Dores?

MARIA

Quem? Joze Velhaco, o proprio malvado que o matou, o meu Luiz.

VIGARIO

Esse infame... Maria das Dores, tenha animo para ouvir o que vou dizer.

MARIA

Tenho animo... Bem vê que resisti quando me disseram... que era morto o

meu Luiz.

JOANNINHA

Ah! diga!

VIGARIO

Joze Velhaco mentio.

MARIA

(_Desfallecendo._) Nossa Senhora me leve nesta hora... para acabar na

alegria!

JOANNINHA

(_Pulando._) Vivo!... vivo... o Luiz! Onde está!

VIGARIO

Maria das Dores, o que é isso? A alegria custa menos a supportar do que

a dôr.

MARIA

Deixe-me perceber... Estas mudanças custam... o coração lucta com a

duvida. Elle não morreu?

VIGARIO

Não.

MARIA

Mas está ainda longe?

JOANNINHA

Em Demerara?

MARIA

Teve noticia?

JOANNINHA

Quando chega!

MARIA

Talvez a esta hora já não viva!

JOANNINHA

É preciso mandal-o buscar.

VIGARIO

(_Enternecido._) Soceguem. Já está em caminho.

MARIA

Ha quantos dias?

JOANNINHA

Virá d'aqui a tres?

MARIA

Amanhã?

VIGARIO

Mais breve.

AMBAS

Hoje!?

VIGARIO

Chegou. (_As duas mulheres abraçam-se._)

MARIA

Que alegria, filha!

JOANNINHA

Jesus!

MARIA

Eu... morro, porque não posso...

JOANNINHA

Onde está?

MARIA

O meu filho? (_Luiz entra precepitadamente._)

VIGARIO

Está aqui.

AMBAS

Luiz!

_Cae o panno._

FIM DO 2.º ACTO

ACTO TERCEIRO

_A caza de Antonio Prudente, como no segundo acto. É noite; um candieiro

de tres bicos alumia bem a caza_

SCENA I

_Joze Velhaco e Joaquim_

JOZE

É negocio concluido. (_Mostrando um papel que tem na mão._) Esta

obrigação que você assignou... é o principio da sua fortuna.

JOAQUIM

Deos queira! Sr. Joze, vm. não sabe como lhe heide pagar a boa vontade!

Esse papel é uma obrigação que lhe faço; por ella me sujeito a servil-o,

ou a quem vm. mandar, aqui ou em Demerara, até pagar a divida de

quarenta patacas, que recebi...

JOZE

A obrigação está em regra, e é justo. Trabalho em troca de dinheiro;

assim se faz em toda a parte.

JOAQUIM

Isso é o que vm. diz, sr. Joze, mas quem sabe o que será? E a fallar a

verdade, trabalhar por trabalhar, antes na terra, que eu conheço, do que

em outra que nem de portuguezes é.

JOZE

Pois eu falto ao que prometto, homem?

JOAQUIM

Bem sei que vm. é... um amigo como se quer. (_Rindo-se._)

JOZE

Ri-se, Joaquim?

JOAQUIM

Estava-me lembrando do Luiz do Campanario, e dos outros que o sr. Joze

foi mandando para Demerara, e que ficaram por lá. Ah! ah! ah!

JOZE

(_Á parte._) O maldito Luiz não ficou! (_Alto._) Com esses não ajustei

senão, que haviam de achar trabalho em Demerara... e não lhe tem

faltado. Assegurei-lhe que lá se ganha dinheiro, o que é verdade, quando

se ganha.

JOAQUIM

(_Rindo muito._) Ora o sr. Joze tem graça! Mas de mim, de mim é que eu

não quero que ninguem se ria. Palavras leva-as o vento.

JOZE

Então o que quer, Joaquim?

JOAQUIM

O preto no branco, e nada mais. Uma obrigação, como a que lhe fiz, em

que vmc. se obrigue a dar me o officio... o officio de... ah! ah! ah!

JOZE

De _aliciador_! Diga homem, não se engasgue com palavras, que escorregam

bem.

JOAQUIM

Pois como fôr da vontade de vmc. A obrigação escripta pela sua mão é que

eu quero; e sem ella não vou da Madeira!

JOZE

Forte parvoice! A minha palavra vale-lhe de mais, em Demerara, do que um

papel escripto.

JOAQUIM

Cá a palavra do sr. Joze vale de muito; mas por isso é que eu a quero no

papel... para durar mais. Sem a obrigação não embarco!

JOZE

Isso agora não esperava eu. Então porque não me disse logo tudo? O

ajuste era outro.

JOAQUIM

Quero o papel porque, depois que esta manhã o larguei, peguei a scismar

que a gente não deve dar papel em troca de palavras; que ha viver e

morrer, e que o sr. Joze póde morrer...

JOZE

Mas se eu morrer de que serve o papel?

JOAQUIM

Os seus amigos não hão de deixar mal a sua palavra honrada.

JOZE

Mas...

JOAQUIM

Vmc. quer ou não quer? O dito, dito.

JOZE

(_Indo a uma mesa e escrevendo._) Pois vá lá. Escrevo a obrigação.

JOAQUIM

Assim é que é fallar.

JOZE

Alto! Espere! Faço-lhe isto, que não estava nos nossos ajustes, porque

sei que é meu amigo, Joaquim.

JOAQUIM

Pois não sou?

JOZE

E aos amigos velhos, faz-se-lhes as vontades.

JOAQUIM

E a obrigação?...

JOZE

Já vae; mas fallemos antes d'outro negocio...

JOAQUIM

O que é?

JOZE

Já tenho dado provas de que me fio de vm. Joaquim; e quero que se

capacite ainda mais. Conto com o segredo, e com a sua amizade... sim,

com a nossa amizade antiga... com o dezejo de sermos uteis um ao outro.

JOAQUIM

Então o que quer?

JOZE

Você sabe que eu estou para casar com a Joanninha... Boa rapariga, e que

mostra por mim sua simpathia!... Mas até agora... tem estado... tem

posto duvida...não deu ainda o _sim_... O pae dezeja muito o casamento,

e com brevidade...

JOAQUIM

Então se o pae quer, e a rapariga tem... isso que vm. diz... _sapathia_,

que mais dezeja o sr. Joze? Case! (_Com escarneo._)

JOZE

A Joanninha põe suas duvidas. Parece que esteve namorada, em outro tempo

de um rapaz, e fez-lhe promessa de fidelidade. Agora, apesar do coração

a puxar para mim, não quer que lhe chamem inconstante.

JOAQUIM

E que remedio posso eu dar a isso?

JOZE

E simples... mas só de um amigo se confia. Esta noite resolvi empregar

uma violencia... apparente, ja se vê. Antonio Prudente está por tudo.

Resolvi acabar com as duvidas de Joanninha. Você, Joaquim, se me quizer

fazer esse favor... póde ajudar-me... e eu ajuntarei, da

minha algibeira, umas vinte patacas, para acudir á sua viagem... Se

quizer, póde servir-me de muito.

JOAQUIM

Mas como?

JOZE

Vindo esta noite comigo, quando tudo dormir nesta caza, e mais dois

marinheiros, gente fiel lá do navio em que hade partir para Demerara,

furtar... levar d'aqui a Joanninha.

JOAQUIM

Ora essa! Pois a gente hade tirar a filha ao sr. Antonio Prudente?

JOZE

Não se lhe tira a filha, apressa-se o casamento, como elle dezeja.

JOAQUIM

E se a pequena gritar?

JOZE

A janella costuma ficar cerrada de noite, e a porta do quarto de

Joanninha é aquella defronte. Entra-se devagarinho; tapa-se-lhe a boca,

quando estiver a dormir, e depois faz-se tudo como se quer. Ella depois

não tem remedio senão casar; Antonio Prudente faz o seu gosto, e eu o meu.

JOAQUIM

Vm. lá o lê, lá o intende.

JOZE

Então está prompto?

JOAQUIM

Estou, mas venha o papel.

JOZE

Você faz de mim quanto quer. (_Dá-lhe o papel._) Vá abaixo

ao Calháo, e espere por mim. Os dois marinheiros lá hãode estar.

JOAQUIM

Lá vou. Para servir o sr. Joze Velhaco está um homem sempre disposto.

JOZE

Bom rapaz. E caluda! As vinte patacas ficam a tinir.

JOAQUIM

O sr Joze sempre é uma grande cabeça. Até logo. (_Sae.)_

SCENA II

JOZE, _só_

Sou uma grande cabeça, isso sou! Tudo vae ás mil maravilhas, e n'um pulo

estou mais alto do que esses morgados rabugentos e impertigados da

Madeira. Viva o sr. Joze Velhaco, que hade ser ainda deputado,

commendador... barão... e quem sabe o que mais? Com esta cabeça, e com

este coração, heide chegar... até onde chegam os que são do meu feitio.

SCENA III

_Joze Velhaco e Antonio Prudente_

JOZE

Então meu rico Antonio Prudente o que mais soube contra mim?

ANTONIO

Nada. Fui a caza dos dois negociantes, que me indicou, e ambos fizeram

da sua pessoa muito boas ausencias. O Carlos Bad, sobretudo, que

passa por homem serio, disse-me que melhor do que sr. Joze Velhaco

não conhecia ninguem... a não ser elle proprio. E o velho riu-se tanto

com aquella cara de bom homem!...

JOZE

(_Á parte._) Que maroto! (_Alto._) Bom homem de certo, devo-lhe

bastantes obrigações. Aquellas desconfianças, que lhe metteu o padre

Vigario a meu respeito, já lhe vão passando, sr. Antonio? hein?

ANTONIO

Já. Mas o Vigario quer-lhe pouco bem, Joze.

JOZE

Desgraças! Quem póde evital-as?

ANTONIO

Vim agora por caza delle, para lhe contar o que me disse o pae das duas

crianças que tinham sido roubadas, e os elogios que fizeram de vm. os

dois negociantes... Quero que todos o reputem, Joze, por homem honrado

antes de lhe dar a minha filha.

JOZE

(_Com admiração._) Então já se não faz o casamento immediatamente? Os

contos do Vigario sempre pegaram!

ANTONIO

Eu desejo que se faça; mas é melhor que você se justifique primeiro. É

facil, e não leva muito tempo.

JOZE

A minha melhor justificação é ser seu genro, genro do honrado Antonio

Prudente.

ANTONIO

Isso depois: por em quanto esperaremos.

JOZE

(_Á parte._) Eu te direi logo se espero! (_Alto._) O que o fez mudar, sr

Antonio Prudente?

ANTONIO

Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo · 第 2 / 7 段