Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verda

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EDIÇÕES

DO

ARCHIVO UNIVERSAL

THEATRO

DE

JOÃO D'ANDRADE CORVO

I

O ALLICIADOR--O ASTROLOGO

LISBOA

TYPOGRAPHIA UNIVERSAL

rua dos Calafates, 113

1859

O ALLICIADOR

DRAMA EM 3 ACTOS, REPRESENTADO NO THEATRO DE D. MARIA II

PERSONAGENS

José Velhaco 30 annos O sr. Theodorico

Luiz do Campanario 20 » » Tasso

Antonio Prudente 50 » » Epifanio

O Vigario 50 » » Domingos

Joaquim 40 » » J. Antonio

Joanninha 18 » A sr.ª Soller

Maria das Dores 60 » » C. Talassi

A scena passa-se na Madeira em 185...

ACTO PRIMEIRO

_Um campo de vinha. Á direita uma choupana aceiada e grande, cercada de

hortencias, bannaneiras, e moitas de flores._

SCENA I

_Luiz do Campanario e Antonio Prudente_

ANTONIO

(_Sahindo da choupana._) Boas tardes Luiz. Por aqui já a esta hora,

rapaz? Julgava que só á noite voltarias da cidade.

LUIZ

Agora mesmo cheguei de lá. Eu, só á noite é que contava voltar; mas a

pescaria depressa se vendeu. Os americanos compraram tudo para a

esquadra, que hontem chegou ao Funchal. Quando era pela volta do

meio-dia estavamos livres.

ANTONIO

Abençoados americanos! Navios e esmolas, tudo nos mandam, para nos

ajudar a viver. Que isto hoje nesta terra, Luiz, só se vive do que nos

dão por caridade.

LUIZ

Vocemecê tem razão, sr. Antonio Prudente. Vivemos de caridade... da dos

estrangeiros, que os lá de Portugal esqueceram-se de nós.

ANTONIO

Não se esqueceram, talvez. São pobres como nós, e ahi está. Eu, por mim,

não quero pensar mal do que sempre me ensinaram a respeitar. Olha, o

melhor é não fallar em coisas dessas: tenho medo de perder o respeito ao

senhor governo, o que seria contra os meus costumes antigos. Já estou

velho para novidades; e como, Deus louvado, tenho para ir passando, esta

casa, e esta fazenda, que eu fiz por minhas mãos, não quero

entristecer-me já agora. Tristezas acabam com a gente mais cedo.

LUIZ

É verdade; lá isso é, sr. Antonio.

ANTONIO

Tu tens coisa que te dê pena?

LUIZ

Não, não tenho. Não é nada.

ANTONIO

Tens. Disseste isso como quem sente um pezo sobre o coração.

LUIZ

Tenho a minha mãe velha e doente e eu pobre, e...

ANTONIO

E o que?

LUIZ

Esta pobreza tira-me até as forças para trabalhar, queria ter mais...

ANTONIO

Tens ambição, rapaz? ah! ah! Teu pae era bom homem! Teu pae trabalhou

toda a vida ali na Lombada, como caseiro do morgado Bittencourt: não

ganhou nunca senão para cada dia comer uma raiz de-ynhame, ou uma espiga

de milho, e eu não lhe ouvi fazer dessas queixas contra a pobreza.

LUIZ

Meu pae tinha mais animo do que eu. E depois, a fallar a verdade, tinha

coizas que o consolassem: tinha em minha mãe uma santa companheira, que

o ajudava no trabalho; em minha irmã uma boa filha. O morgado velho não

lhe queria mal, e ajudava-o. A terra então dava vinho; não era como

hoje, em que tudo parece amaldiçoado aqui na Madeira, em que até se

mirraram as uvas...

ANTONIO

La nisso tens rasão. Foi praga que cahio sobre nós. Mas para tudo, hade

Deus dar remedio. Tu tens meio de ganhar a vida, Luiz: não desanimes,

rapaz.

LUIZ

O que eu tenho é minha mãe abatida e triste, que faz chorar. E de meu,

tenho a metade das bemfeitorias que meu pae fez, em 20 annos de

trabalho, ali na fazendinha do morgado Bittencourt; a outra metade

pertence a minha irmã, que está casada, e cheia de filhos--pobre

mulher!--E as taes bemfeitorias são coisa tão pouca, que de nada me

servem, nem acho quem m'as compre. O que me vale é ter ahi logar entre a

companha de um barco de pesca, senão morriamos de fome, eu e minha mãe.

ANTONIO

Coitado do Luiz! Tens rasão, filho, tens. Eu é que, por ter esta fazenda

de meu--porque esta é minha, de véras; terra e bemfeitorias--por ter

esta fazenda, e uma filha que é a alegria e a benção desta casa, pensei

que todo o mundo era feliz. Deus me não castigue, Deus não faça cair

sobre Joanninha o castigo desta minha cegueira.

LUIZ

Deus a ampare, á nossa Joanninha.

ANTONIO

Bem o merece. Boa, e bem creada. Pode ser mulher ahi de qualquer

morgado, a minha filha, não lhe falta nada. Sabe ler, escrever, e até

bordar. Heide cazal-a com um homem que tenha de seu, para que ella não

saiba nunca o que é pobreza.

LUIZ

(_Com dor._) Faz... faz bem, sr. Antonio Prudente. Sua filha deve... ser

feliz com um homem que tenha de seu, que a traga como as meninas lá da

cidade... que a faça feliz. Mas... mas ainda não está escolhido noivo

para Joanninha? Vocemece ainda se não decidiu a cazal-a? É cedo...

Joanninha é muito moça.

ANTONIO

Tem 17 annos feitos. Mas pensar no casamento ainda não pensei. Custa-me

a separar della.

LUIZ

(_Com alegria._) Então por ora não se casará.

SCENA II

_Os mesmos e Joanninha_

JOANNINHA

(_Correndo para Antonio._) Não se casará por ora, nem casará em quanto

não tiver noivo do seu gosto.

LUIZ

Joanninha!

ANTONIO

Estavas ahi, filha?

JOANNINHA

Estive a dar de comer aos meus pombos, coitadinhos, e agora vinha para o

acompanhar, pae, lá abaixo á Fajã; para o ajudar no que for necessario.

ANTONIO

Ora aqui teem o que se chama uma boa rapariga.

JOANNINHA

Sou muito sua amiga, pae; e por isso me não quero casar, nem ir para

longe desta freguezia, onde nasci e me criei (_Olhando para Luiz._)

Tenho aqui todos, e tudo de que eu gosto.

ANTONIO

Esses amores hão de te passar. Outros os farão esquecer.

JOANNINHA

Não se diga que me heide esquecer do amor que tenho a meu pae... e

áquelles com quem vivi sempre. Não heide perdoar a quem o disser. (_Com

tristesa._) Se os outros se esquecerem, hei de lembrar-me eu.

LUIZ

Ninguem tem coração para se esquecer de ti, Joanninha.

JOANNINHA

Assim será. Mas meu pae diz, que pelos amores novos se esquecem os Antigos.

LUIZ

A mim parece-me que antes perderia a vida, antes poria a minha alma em

peccado mortal, do que perder da lembrança os dias em que brincámos ahi,

á sombra dos castanheiros.

ANTONIO

(_Com inquietação._) Está bom, está bom. Lá estão vocês a dizerem-se

finezas, que me parecem dois senhores da cidade.

JOANNINHA

Então a verdade porque se não hade dizer, pae? Elle pensa aquillo que

diz, faz bem em o dizer. Fomos creados um com o outro, e a sr.ª Maria

das Dores, a mãe do Luiz, serviu-me de mãe a mim. É como se fossemos

irmãos.

LUIZ

Irmãos!... irmãos sim. (_Commovido._) E o que mais me custa, é

separar-me de ti...

JOANNINHA

(_Assustada._) Que separação é essa? Vaes deixar-nos?

LUIZ

Talvez... Parece-me que irei ahi, a bordo de um navio, fazer uma

viagem... Fallaram-me em ir marinheiro n'um navio que sae...

JOANNINHA

Para onde?

LUIZ

Para longe. Ainda não sei.

JOANNINHA

Não vás.

ANTONIO

Então porque não hade ir? É tentar fortuna. Uma viagem ao Brasil,

talvez. Ir e voltar. Faz muito bem o nosso Luiz.

JOANNINHA

E a tia Maria das Dores, a mãe de Luiz, coitada?... E todos nós?

LUIZ

Se eu me for... minha mãe fica em casa de minha irmã.

JOANNINHA

(_Com as lagrima nos olhos._) Não pode ser. Assim não vae isto bem. Tua

mãe está velha... e sem ti estalla de pena.

LUIZ

Esta vida de barqueiro, de pescador, é vida miseravel, e sem esperança.

Lutar com o mar, arriscar a vida nos temporaes, andando por entre essas

rochas quando o tempo está de lavadia, e não passar nunca de ser um

pobre, vivendo de mizeria; um desgraçado a quem os ricos fazem esmola,

quando lhe pagam o seu trabalho; passar a vida inteira neste penar, isso

é que o coração cá dentro não me soffre.

JOANNINHA

E queres?

LUIZ

Quero ir por esse mar fóra, por esse mundo de Christo a tentar fortuna.

JOANNINHA

E se morreres?...

LUIZ

Sempre hade haver agua no mar para de uma vez me mergulharem; ou uma

pouca de terra para me deitarem por cima.

JOANNINHA

Jesus! Misericordia! Que cousas dizes! Chego a tomar-te raiva quando te

ouço fallar assim, (_Chorando._) Não vês que me fazes pena quando dizes

dessas doidices?!

LUIZ

Não é para te fazer pena...

ANTONIO

É verdade. Elle faz o que deve. O homem pode morrer no mar ou em terra,

e em morrendo acabou-se. Tambem eu heide...

JOANNINHA

Se continua, pae, a fallar nessas cousas, vou-me, fujo, caso-me...

LUIZ

Não se torna mais a fallar em tristezas. Se for, heide voltar. Assim

como aqui o sr. Antonio fez, pelo seu trabalho, desta terra, que era um

mato maninho, uma fazenda que faz gosto aos olhos verem-n'a, tambem, eu

heide da minha barca fazer um navio bonito, como o «Galgo.» Que isto da

gente ter vontade, cá de dentro, de fazer uma cousa, é meio caminho

andado para a conseguir. E, se não, vejam o que succedeu ao José

Velhaco. Ha menos de um anno pobre como eu, e agora com grilhões de

oiro, e relogio, e dinheiro, que é um pasmar. Foi a Demerara, e voltou

rico. Fortunas!

ANTONIO

O José Velhaco foi a Demerara, e voltou rico. Fortunas, dizes bem.

Outros lá vão, e por lá ficam.

LUIZ

Morre-se por lá como por cá. Mas aquillo é terra para fazer fortuna. Não

foi só o José Velhaco que voltou rico. Ahi estão na Madeira

mais de meia duzia, a quem succedeu o mesmo.

ANTONIO

Não te deixes enganar com as apparencias. O sr. Vigario ainda outro dia

me disse, que esses que veem ricos de Demerara são isca para apanhar os

passaros.

LUIZ

Talvez. O que for soará.

ANTONIO

Toma os conselhos, que são de quem tem já cabellos brancos. Não te

deixes enganar com as apparencias.--Vamos, Joanninha, vamos até á Fajã,

antes que se faça mais tarde. (Sae.)

JOANNINHA

Adeus Luiz.

SCENA III

_Luiz e Joanninha._

LUIZ

(_Detendo-a._) Uma palavra, Joanninha.

JOANNINHA

Que me queres?

LUIZ

Tenho que te dizer.

JOANNINHA

Mas agora! Meu pae espera-me...

LUIZ

Diz-lhe que já vais ter com elle. Eu preciso fallar-te.

JOANNINHA

Virgem Maria! que susto me estás mettendo! (_Aos bastidores._) Ahi vou

já, pae, esqueceu-me uma coisa em casa: já vou lá ter, n'um

instante.

LUIZ

(_De dentro._) Pois eu cá vou andando.

JOANNINHA

(_A Luiz._) Diz agora o que queres de mim.

LUIZ

Ouve, Joanninha. Tu lembras-te que sempre vivemos juntos; que de

pequenos andámos sempre um com o outro por essas serras; que se não

passou até hoje uma semana em que nos não vissemos?

JOANNINHA

Lembro-me.

LUIZ

Não te esqueceu ainda aquella manhã, em que fomos juntos ao Paul da

serra, e levados, não sei por que alegria que vinha cá de dentro,

apanhando flores de urze, e brincando, chegámos até ao Rabaçal?

JOANNINHA

Não me esqueci dessa alegre manhã. No Rabaçal a agua saltava do alto da

serra, e depois espalhava-se em gotas de chuva, que brilhavam ao sol

como estrellas, e vinham cair até onde nós estavamos sentados: de baixo

daquelle grande til que nasce da rocha. Eu senti nesse dia o que não

tinha sentido nunca: não sei se alegria se tristeza.. O coração batia-me

como eu nunca o senti bater.

LUIZ

Tinhas então 15 annos, e eu 20. Foi ha 2 annos. Desde esse dia, nunca

mais andámos sós, um com o outro pela serra.

JOANNINHA

Mas, desde esse dia, quasi que se não tem passado um só sem nos

vermos.

LUIZ

Joanninha, de tudo te lembras. Agora já te posso fallar com menos susto.

JOANNINHA

Para que me lembras-te essas coisas todas? O que tem isso com a pergunta

que me querias fazer?

LUIZ

Olha, Joanninha, não é facil a gente dizer tudo quanto quer; porque,

emfim, o sentir não depende da vontade, e as palavras não chegam para

dizer tudo.

JOANNINHA

Mas... o que querias dizer-me?

LUIZ

Não te pões mal commigo, não é verdade?

JOANNINHA

Porque?

LUIZ

Talvez seja esta a ultima vez que te vejo. Esse tempo, em que nos

podiamos ver todos os dias, passou.

JOANNINHA

Então partes breve?

LUIZ

Hoje mesmo.

JOANNINHA

Deus me acuda! Hoje!

LUIZ

Hoje me vou.

JOANNINHA

Não pode ser. Não disseste nada a meu pae.

LUIZ

Nem lh'o digas tu. É segredo a minha partida, não quero que minha mãe

saiba. A ti tambem não queria dizer nada, mas faltou-me o

animo...

JOANNINHA

Ah! Luiz, em tu me faltando... ficam sem luz os meus olhos, e sem

alegria o coração.

LUIZ

Eu tambem me vou e bem triste, Joanninha. Mas que queres? Quem é pobre,

nasceu para padecer. É preciso fazer esta viagem para depois poder... se

tu me não disseres que não, Joanninha--para poder...

JOANNINHA

O que?

LUIZ

Pedir a teu pae, que sejas minha mulher. Se não disseres que não.

JOANNINHA

Não digo, não te digo que não.

LUIZ

E promettes esperar que eu volte... tendo bastante de meu, para que teu

pae consinta no casamento?

JOANNINHA

Se agora mesmo lhe pedisses, meu pae consentiria.

LUIZ

Não. Teu pae criou-te para seres rica, deu-te uma criação como a das

senhoras da cidade; e não quer que te cases com um pobre, como eu sou.

Ainda ha pouco elle m'o disse, aqui mesmo.

JOANNINHA

Só comtigo, Luiz, só comtigo me heide casar.

LUIZ

Já vou mais consolado: com mais animo para trabalhar, para me arriscar

aos perigos.

JOANNINHA

Não te arrisques. Lembra-te de tua mãe... de mim, que morro se tu morreres.

LUIZ

Não chores, minha querida Joanninha. A Senhora do Monte hade

proteger-me, e eu heide voltar.

JOANNINHA

Prometto uma novena á Senhora do Monte, e muitas flores no dia da sua

festa, se tu voltares cedo.

LUIZ

Agora... Joanninha... adeus... adeus!

JOANNINHA

Não te demores muito, Luiz. Volta, porque me deixas em cuidados...

ralada de saudades.

LUIZ

Um abraço de despedida. (_Caem nos braços um do outro._)

AMBOS

Adeus! Adeus! (_Joanninha sae._)

SCENA IV

LUIZ _só_.

Joanninha! Não sei como tive animo para a deixar ir... como tenho alma

para sair da minha terra, onde ella vive... onde me fica amando.--E

voltarei?... tantos lá teem ficado! Se uns morrem outros voltam ricos; e

eu, pobre como sou, nunca heide casar-me com Joanninha.--As orações

daquella santa rapariga ha de Deus ouvil-as, e basta.--Quem se não

arriscou não perdeu nem ganhou.

SCENA V

_Luiz e Jozé Velhaco_

JOZE

Santa palavra, Luiz, santa palavra que nem todos intendem, e que é

preciosa para os que a sabem. Eu, se não soubesse esse rifão de côr e

salteado, estava a esta hora com um sacho na mão a sachar milho na

fazenda d'um morgado, que, no fim de contas, me ficaria com metade do

producto da minha labutação. O morgado que nasceu rico--isto é um modo

de dizer--que nasceu dono de terras, e nem sabe nem tem prestimo para as

cultivar... Ah! ah! o morgado guardaria metade do meu milho, para dar

aos cavallos... e eu, com a minha metade, nem teria para enganar a fome.

Santa palavra, rapaz, santa palavra!

LUIZ

Os pobres cazeiros trabalham muito, e padecem muito, Jozé Velhaco. Nisso

tens tu rasão.

JOZE

Tenho, e não me heide cançar de prégar estas verdades. Os cazeiros, nós,

os villões, trabalhamos, e os morgados comem os nossos fructos e bebem o

nosso vinho. Estão sempre aqui a fallar em que nós, os que vamos a

Demerara procurar fortuna, largamos a nossa terra para irmos ser

escravos dos inglezes, para sermos escravos brancos! E aqui, nesta terra

dos morgados, o que somos nós senão escravos? Ao menos, lá por essas

terras dos inglezes, um homem activo, tendo cá fogo de dentro como eu, e

como tu, meu Luiz, faz fortuna, faz-se rico como um morgado... mais do

que um morgado, porque não deve nada a ninguem. Ah! ah! santa palavra!

LUIZ

Isso são sortes. Uns enriquecem, e outros por lá ficam, mortos ou escravos.

JOZE

Qual historia! Pois um homem vae d'aqui, e recebe logo trinta patacas...

como tu recebeste hontem. Em! Trinta patacas é uma boa conta.

LUIZ

É, é. Vinte ahi ficam para minha mãe; e as outras dez gastam-se na viagem.

JOZE

Que importa? Chegas lá, trabalhas um... um tempo para pagar a divida, e

a comida que te dão cada dia... e depois principias a ganhar por tua conta.

LUIZ

Mas esse tempo quanto dura?

JOZE

Conforme... sim, é conforme. Para uns dura mais, para outros menos. É

segundo as forças de cada um. Mas tu bem vês: aqui é que se não faz

nada. Trabalha-se a vida inteira, a arrancar mato da serra, e levantar

muros, a plantar arvores e vinha, a formar uma fazenda, e no fim fica a

gente sem ter nada; porque a terra é dos morgados, e as bemfeitorias

ficam agarradas á terra, donde se não podem arrancar.

LUIZ

Que de coisas tu sabes agora!

JOZE

É porque vivi lá por Demerara com muita gente de tino, e aprendi muito.

Aquillo é que é terra, homem! Campos que é um gosto vel-os.

Como estes aqui da Madeira, mas maiores. E na cidade? Ganha-se dinheiro

que é um louvar a Deus!

LUIZ

Mas as febres?

JOZE

Quaes febres! Ha por lá umas doencitas, que levam a gente ás vezes, mas

não é coisa que se veja: nada, nem se dá por tal. E, depois, se por lá

se morre de febre, por cá morre-se de mizeria, que ainda é peior. Tu

tens medo de morrer?

LUIZ

Eu!...

JOZE

Bem sei que não tens medo. Vaes á pesca em dias de temporal, quando os

outros pescadores se metem em caza. Em a gente sendo animoso nem as

doenças lhe chegam. Santa palavra! Olha para mim. Tu bem sabes que eu

sou animoso, valente...

LUIZ

Serás; talvez o sejas. Ganhaste isso em Demerara?

JOZE

Pois eu não sou?... Não fui sempre?...

LUIZ

Um armazem de pancadas, quando eras mais novo. Todos te davam; e tu não

fizeste nunca senão levar e calar.

JOZE

Hum! Bem vês que eu era... que tinha bom coração, e não queria fazer mal

ao proximo. E a prova é, que já me esqueci de tudo que os

rapazes aqui da freguezia me fizeram, e que tenho mandado um pár delles

para Demerara... a buscar fortuna. Pagar o mál com o bem, é de um homem

como se quer. Tu mesmo, Luiz, agora me lembro, tu mesmo deitaste-me um

dia na Ribeira Brava, dentro d'agua; porque eu te tinha tirado um pedaço

de ynhame cozido... e eu tinha fome. Agora vou-te fazer rico, para teres

fato fino, como este meu, relogio, cordão de oiro, e muito dinheiro...

para te tinirem as algibeiras, como a mim. Hem!

LUIZ

Serás, serás bom rapaz, agora, mas animoso... Deixemos isso, e vamos ao

que importa. Joze, eu vou para Demerara; foste quem me resolveu a ir.

Minha mãe, pobre velhinha, cá fica sem ter mais ninguem senão minha irmã

que é pobre, e pouco lhe pode valer. Acode-lhe tu, Joze. Que minha mãe

ao menos tenha um pedaço de pão para matar a fome.

JOZE

Conta comigo.

LUIZ

Outra coisa te queria eu pedir; mas essa...

JOZE

Dize, que eu sou um bom amigo.

LUIZ

Creio que és, sim. Mas tens sido sempre tão fallador, homem...

JOZE

Injustiça no cazo. Eu guardo um segredo como ninguem

LUIZ

Vé lá o que fazes: o que vou dizer é segredo. Gosto muito de

Joanninha...

JOZE

Ah! ah! Eu já desconfiava disso. Tens bom gosto, que a pequena é

bonita... e, de mais a mais, vem a ter de seu, em o pae morrendo.--Maganão!

LUIZ

Pobre a queria eu, para me poder já cazar com a minha Joanninha. Emfim,

se a sorte me ajudar, hei de tambem um dia ter alguma coisa de meu, e

então a pedirei ao pae.

JOZE

Bem pensado--Mas vamos ao cazo; o que me queres tu?

LUIZ

Quero que procures no correio as minhas cartas, e que as entregues a

Joanninha, em muito segredo, sem que o pae o saiba.

JOZE

Fia-te em mim. Um amigo vê-se nas occaziões. Santa palavra!

LUIZ

Obrigado, obrigado, Joze. Nunca te poderei pagar o muito que te devo.

Agora mais um favor.

JOZE

Venha lá mais esse...

LUIZ

É o ultimo, tem paciencia. Esta noite... d'aqui a uma hora talvez, vou

para bordo, e de lá já não volto, já não torno a fallar com minha mãe.

Aqui tens vinte patacas, que lhe deixo: tu mesmo lh'as entregarás em mão

propria.

JOZE

Ahi vem ella. D'ali, da banda da Igreja.

LUIZ

(_Dando-lhe dinheiro._) Pois vou-me, antes que ella chegue;

não tenho cá dentro força, para lhe fallar agora. Dize-lhe que fui no

bote fazer um frete até ao Funchal. Amanhã lhe contarás a verdade.

Adeus, Joze. Não te esqueças do promettido. (_Estendendo os braços para

o lado donde, vem Maria das Dores._) Mãe, mãe! A tua benção, mãe; para

que Nossa Senhora me não desampare! (_Sae._)

SCENA VI

_José Velhaco, só._

JOZE

Os diabos te levem, para que não voltes mais. Ah! Ah! e deixou-me vinte

patacas das trinta que recebeu! És tolo, meu Luiz do Campanario. Vinte

patacas que estão aqui na minha algibeira, com trinta que hei de receber

ámanhã do bom homem Carlos Bad, honrado negociante de carne branca,

fazem cincoenta patacas--É barato. Estou roubado. Um escravo preto custa

muito mais agora, depois que os inglezes se declararam protectores dos

pretos; e o Luiz vale bem dois negros de Angola--Viva... viva...--como

lhe chamam elles, os inglezes?--Viva a philan... a philantropia que em

vez de escravos negros, vae fazendo os brancos escravos. A cor pouco faz

ao caso; mas escravos ha de havel-os, em quanto houver homens com fome,

em quanto houver miseria no mundo. Santa palavra! O dinheiro é que é a

liberdade! Viva o dinheiro!... viva o rei dinheiro!... Irei ficando com

as vinte patacas do Luiz, em vez de as dar á velha que ahi vem. Só para

o enterro é que ella precisa de dinheiro, agora.

SCENA VII

_José Velhaco e Maria das Dores_

JOZE

Ora salve Deus a sr.ª Maria das Dores.

MARIA

Deus lhe dê muito boas tardes, sr. Joze. Não estava agora aqui o meu

Luiz?--Pareceu-me vel-o.

JOZE

Estava aqui, mas foi-se, sr.ª Maria. O rapaz anda com a cabeça

desarranjada, não lhe parece?

MARIA

O rapaz anda triste, porque lhe custa a levar a miseria. Eu bem lhe

tenho prégado, que é vontade de Deus que assim seja, e que elle se deve

ir conformando com a vontade de quem tudo póde. Bem velha estou eu, e

nunca tive na minha vida uma hora talvez, de que se possa diser

«bensa-te Deus:» pois olhe, assim mesmo com paciencia cá tenho ido

andando. Se Deus me conservar o meu Luiz, á hora da morte hei de louvar

a Deus, por me ter mandado a este valle de lagrimas.

JOZE

Aquella falta de humildade, com que o Luiz leva a sua cruz, é peccado,

diz bem sr.ª Maria.

MARIA

Eu não disse que o meu filho tinha peccado. Nem o disse, nem o

penso.--Hoje em dia, não sei porque, todos os rapazes querem ser mais do

que foram seus paes, e por isso tem ido acabando aquelle respeito que

n'outro tempo havia aos srs. morgados. Em tudo isto anda o dedo de Deus.

Ou o mundo está para acabar, ou, senão, vae levar tudo uma grande volta.

JOZE

Está muito intendida em politicas, sr.ª Maria das Dores! Tambem lê os

periodicos?

MARIA

Não leio, não me ensinaram a ler.

JOZE

Dizem por ahi que é bruxa; saberá isso por artes...

MARIA

Calle-se, Joze. Vae-te t'arrenego, hoje é sabbado. De quando em quando

oiço contar as coisas que se passam por esse mundo ao nosso vigario, e

fazem-me scismar. Acho rasão ao meu Luiz quando se queixa da sorte, mas

nunca lh'o digo. Quem trabalha deve ter, ao menos, tanto como quem não

trabalha mas nasceu morgado. Em quanto não for assim não vae o mundo ás

direitas.

JOZE

Pois as impaciencias do nosso Luiz hão de lhe dar na cabeça. Agora,

quando a viu, sr.ª Maria, fugiu; e talvez um dia fuja de todo.

MARIA

Jesus, Santo nome de Jesus! Se elle me deixasse morria. Olhe Joze,

tem-me morrido todos os meus, pae, mãe, irmãos, e o meu pobre marido, e

eu fui ficando--Deus sabe para que.--Mas agora, se me faltasse o meu

Luiz, a isso não resistia.

JOZE

Deve estar preparada para tudo.

MARIA

Porque?

JOZE

Eu não sei nada... ao certo: mas o Luiz tem uma alma independente como a

minha, senhora Maria--e pode ser que elle um dia faça como eu fiz, que

vá por esse mundo fóra em busca de fortuna. Ora como nem todos são

egualmente felizes...

MARIA

Talvez elle por lá fique! Nada, o meu Luiz não se vae, não me deixa.

JOZE

O desejo de ser rico, de se ver bem tratado por esses senhores morgados,

que lhe chamam agora o _villão_; o desejo de deixar de ser _um villão_

para ser o sr. Luiz do Campanario, estimado por ter dinheiro,

comprimentado pelos morgados por lhes poder emprestar algumas patacas;

este desejo de abater os outros e de se exaltar a si póde muito. O

dinheiro, sr.ª Maria, levanta os humildes, faz fidalgos os vilões. Ah!

ah! Santa palavra!

MARIA

Isso são maus sentimentos, que o meu Luiz não tem. Se lhe custa o ser

pobre é por me não poder fazer feliz a mim, e a todos os seus. O meu

Luiz é bom, foi sempre bom desde creança. Esses sentimentos de que

falla, Joze, só os pode ter um mau homem, um homem sem honra e sem

vergonha.

JOZE

É... será verdade. Um homem sem vergonha... Eu cá sim, eu nunca tive

sentimentos taes... porque sou...

MARIA

Joze, Joze, sempre teve--desde pequeno que o conheço--propensão para o

mal. Preguiçoso, e mau, foi-o sempre. Nunca pensei que pelo trabalho

honrado se fizesse rico; mas em fim assim aconteceu, e como aconteceu,

Deus o sabe. Sou velha, e hei de diser a verdade. Anda sempre desde que

veio de Demerara, a metter na cabeça a todos os rapazes, e ás raparigas

até, que emigrem da Madeira: e quando desapparecem seis ou sete apparece

o sr. Joze a comprar uma casa ou uma fazenda, ou com mais um cordão de

oiro ao pescoço. Murmura-se por ahi de tudo isto...

JOZE

Invejosos!

MARIA

Pode ser, talvez. Mas se o meu Luiz se for, é a você que eu ponho as

culpas.

JOZE

Porque? Pois não podem outros persuadil-o a que emigre?

MARIA

Podem. Mas eu tanto me hei de queixar, que se saberá a verdade. A voz da

velha Maria das Dores ha de ouvir-se por toda a Madeira, e chegar até

aos ouvidos de quem governa. Mas não... o meu filho não me deixa.

JOZE

Talvez que não. Adeus sr.ª Maria das Dores, veja se descança, faz-lhe

mal zangar-se--Ah! ah! ah! Está velha para se zangar assim.

SCENA VIII

_Maria das Dores_

MARIA

O meu Luiz não me deixa, não me desampara, eu morria se me visse sem

elle... Nossa Senhora me livre desta ultima dôr; esta era a ultima,

porque eu morria. Se tem de acontecer essa desgraça, Deus, me leve antes

para si (_Vae sentar-se sobre um pedaço de muro, de modo que fica quasi

escondida por detraz de uma moita_). Ave Maria cheia de graça, o senhor

é comvosco... (_Continua a murmurar orações._)

SCENA IX

_A mesma--Antonio Prudente--O Vigario--Joanninha_

VIGARIO

Tenho gosto em ver os bons resultados da sua labotação, sr. Antonio.

Fazendas bem amanhadas, as suas fructas excellentes; muita cana de

assucar, já para substituir o vinho que nos falta, e flores por toda a

parte para alindar tudo... As flores são aqui da nossa Joanninha, que as

sabe escolher bonitas como ella.

JOANNINHA

Ora! sr. Vigario.

VIGARIO

Não se envergonhe a menina Joanninha por ser bonita, e gostar de flores.

Se eu tivesse uma sobrinha, com estas duas qualidades a queria. Mas

aquelle desmasellado de meu irmão não me quiz dar senão dois sobrinhos,

paciencia! Elles são ambos bons rapazes; mas o segundo, o Fernando, o

mais novo, é mesmo uma joia, e eu quero-lhe devéras.

ANTONIO

E merece-o o menino, porque muito bom é.

VIGARIO

Merece muito, mas, como fez o crime de vir ao mundo mais tarde do que o

outro, ha de ser pobre toda a vida, e o irmão morgado e rico. Esta

instituição dos morgados foi feita por quem não tinha entranhas de pae,

nem consciencia de bom christão; e aqui na Madeira, sobre tudo, foi

estabelecida por quem não entendia nada de agricultura, e não tinha nem

amor á terra que dá os fructos, nem aos homens que a cultivam. Meu

irmão, o morgado Bittencourt, não quer escutar estas verdades: mas eu só

lhes recomendo, a elle, e aos outros morgados, que comparem as fazendas

livres com as que estão opprimidas pelos vinculos, e que digam, depois

de verem nas fazendas livres tudo alegre, verde, bem cultivado; e nas

vinculadas tudo miseravel e coberto de colonos famintos; que digam que

isto dos morgados não é um absurdo funesto, sustentado apenas por

vaidades fofas e impios preconceitos.--Este flagello dos vinculos ha de

acabar, e com elle o outro flagello tambem, a emigração dos madeirenses.

ANTONIO

E quando acabará ella sr. Vigario!?

VIGARIO

Quando a terra fôr de quem trabalha, e não de quem vive na ociosidade e

na ignorancia: quando uma organisação iniqua da propriedade não affastar

da inteira posse da terra os caseiros em nome dos vinculos, e os

morgados em nome das bemfeitorias; quando a justiça fôr a base das leis;

quando nesta ilha, que a natureza fez um paraizo, acabarem esses restos

de escravidão, que ainda hoje existem pezando sobre o homem

do povo e unidos ao nome de _villão_. Os grandes padecimentos do povo

hão de acabar, quando a instrucção esclarecer o espirito de todos;

quando no mundo civilisado--porque o mal não existe só aqui na ilha--se

não soffismar a verdade, e se não confundir a justiça com o interesse;

quando a religião, a virtude, a liberdade, estiverem acima de tudo.--Mas

esse tempo, se é que tem de chegar, ainda vem longe. Finje-se hoje

querer acabar com a escravidão no mundo; assignam-se tratados para

abolir o trafico dos negros barbaros; e deixa-se que a seducção e a

miseria arraste os brancos a captiveiro mais cruel.

ANTONIO

V. s.ª tem rasão de certo no que diz. Eu não percebo talvez todo o

sentido das suas palavras, sr. vigario, mas a consciencia diz-me que são

verdadeiras.

VIGARIO

O lidar com a natureza esclarece a rasão; e não ha nada que mais luz dê

ao espirito, do que a probidade e a honradez Antonio Prudente, eu bem

sei que entende o que lhe disse.

JOANNINHA

A verdade é para todos.

VIGARIO

Bravo! fallou bem a nossa Joanninha, a minha afilhada Joanninha. Fui eu

que lhe ensinei a ler, a doutrina e tudo, e não perdi o meu tempo.

ANTONIO

O sr. Vigario sempre foi bom para todos, mas para a minha filha...

deve-lhe tudo...

VIGARIO

Tomára eu tempo para poder ensinar a ler todas as creanças da freguezia.

Eu entendo que um dos mais santos deveres do padre é instruir e educar

as creanças. Como lhe ia dizendo ha pouco, Antonio, os males são muitos,

e a todos é preciso dar remedio prompto. Devéras, em quanto os homens de

bem cá das aldeias não ajudarem esses senhores politicos de Lisboa a

fazer as leis, nunca as ha de haver que prestem.

ANTONIO

É o que eu tenho pensado muitas vezes; salvo o respeito devido a quem

manda.

VIGARIO

Sobre estas emigrações algumas medidas se teem tomado. Expedientes,

meros expedientes! Prohibe-se aos pobres colonos o embarcarem sem

passaporte, põe-se um navio de guerra a guardar a ilha, ameaçam-se os

alliciadores, e no fim de tudo embarca quem quer sem passaporte, o navio

não guarda nem pode guardar nada, e os aliciadores vivem alegres e

enriquecem. Não é prohibindo, é concedendo, que se ha de acabar com a

emigração; não é fechando o povo dentro da ilha, como n'um carcere, é

dando a liberdade aos homens e á terra, que se ha de combater a febre

que agita neste momento a ilha. Os que fazem leis só pensam em castigar

e prohibir. Não basta. É preciso aconselhar e ajudar os pobres a viver;

é preciso que todos na ilha da Madeira saibam o que padecem os

desgraçados, que a esperança arrasta a essas terras dos inglezes, em que

os aguarda a escravidão, onde as febres lhes minam a saude, e a cubiça

de vis especuladores lhes arranca das mãos o pão, com que

elles procuram enganar a fome.

JOANNINHA

(_Com susto._) Pois tanto soffrem os que vão a Demerara?

VIGARIO

Muito mais do que se pensa.

ANTONIO

É preciso desenganar o povo; porque todos os dias desapparece d'entre

nós algum rapaz dos melhores, dos mais trabalhadores e dos mais queridos.

VIGARIO

Ás vezes são familias inteiras; outras, um chefe de familia deixa mulher

e filhos; e até ha filhos que desamparam seus paes, e isto quando estão

com os pés na sepultura.

ANTONIO

Agora mesmo tenho eu medo, que um dos bons rapazes da nossa freguezia

fuja para Demerara, deixando a mãe velha e pobre quasi ao desamparo.

JOANNINHA

E quem é, pae?

ANTONIO

O Luiz do Campanario.

JOANNINHA

Isso não póde ser.

MARIA

(_Levantando-se e vindo á frente da scena._) Não pode ser. O meu Luiz

não me deixa aqui só: não me pode abandonar agora... quasi á hora da

morte.

ANTONIO

É uma desconfiança que tenho, e nada mais. Eu não sei...

VIGARIO

Amanhã... esta noite mesmo lhe fallarei; e se elle tem idéas de emigrar,

tirar-lhas-hei da cabeça.

ANTONIO

Deos o abençoe, sr. Vigario, pelo amor que tem aos pobres. Deos lh'o

pagará, meu senhor Vigario.

SCENA X

_Os mesmos e Joze Velhaco_

JOZE

Sr.ª Maria das Dores... Ah! (_tirando o chapeo._) Boas tardes, sr.

Vigario. Estou ao seu dispor.

VIGARIO

(_Com mau modo._) Bons tardes, sr. Joze.

JOZE

V. S.ª está zangado, ao que parece.

VIGARIO

Talvez.

JOZE

É que eu... eu trazia uma noticia aqui á tia Maria das Dores...

VIGARIO

Pois dê-lhe a noticia.

MARIA

Diga, homem.

JOZE

Não tenha pressa de saber.

JOANNINHA

Falle, sr. Joze.

JOZE

O Luiz, o seu Luiz, foi-se.

AMBOS

Para onde?

JOZE

Para Demerara.

MARIA

É mentira.

JOANNINHA

Jezus!

JOZE

Não viram hoje um navio a bordejar ao largo? Pois para elle foi, e nelle

estará a esta hora o nosso Luiz.

MARIA

Como soube...

JOZE

Disseram-mo agora mesmo uns barqueiros, que o viram partir para bordo.

VIGARIO

E não se tratará de acabar por uma vez com esta emigração, que faz horror?

JOZE

Ah! ah! O sr. governo está dormindo ha trinta annos. Quando accordar ha

de dar remedio a todos os males.

_Cahe o panno._

Fim do 1.º acto

ACTO SEGUNDO

_A casa de Antonio Prudente. Porta no fundo, outra porta á esquerda. Á

direita uma janella._

SCENA I

_Antonio Prudente e Joze Velhaco_

JOZE

Veja vmc. se a resolve, sr. Antonio. Eu tenho hoje bastantes terras,

umas casas na cidade, e andam-me emprestados e a vencer bons juros uns

poucos de centos de patacas. Para sua filha não me parece que eu seja um

mau casamento. Ainda sou moço... e com dinheiro, é o mais que uma

rapariga póde desejar.

ANTONIO

Não sei o que a Joanninha tem contra você, Joze, mas é certo que ella

fica mal comigo,--olhe que é verdade,--fica mal comigo em eu lhe

fallando neste casamento. A mim agrada-me, Você é um homem que sabe

fazer fortuna. Hontem por assim dizer pobre, e hoje rico.

JOZE

Pois ha um anno que ando a pertender este casamento, e elle sem se

fazer. Agora é tempo de acabar com isto. Está-me parecendo que Joanninha

não faz já tanta resistencia. Lembre-se que é pae, sr. Antonio, e que

pode mandar em vez de pedir. É para bem da sua Joanninha. Porque eu

conheço-me, e vmc. tambem me conhece, ein? conheço-me e sei que poucos

são capazes, como eu, de fazer feliz uma mulher. Santa palavra!

ANTONIO

Eu não duvido dos seus bons sentimentos, de que venha a ser menos mau

pae de familia. É certo... é certo--deixe-me dizer o que penso--que

todos na freguezia o vêem com maus olhos, desde que o Luiz do Campanario

foi para Demerara; e quando algum rapaz desapparece daqui, dizem

uns--foi o Joze Velhaco quem o enganou, o Joze Velhaco vendeu-se aos

inglezes--outros dizem--o Joze Velhaco é bom homem, dá dinheiro aos

pobres, empresta dinheiro aos morgados, e faz muitas festas a Nossa

Senhora...

JOZE

E vmc. o que diz?

ANTONIO

Eu acredito nos que dizem bem; mas minha filha so dá credito aos que

dizem mal.

JOZE

É a velha, a bruxa da Maria das Dores, quem lhe mette essas creancices

na cabeça. É preciso, sr. Antonio, pôr a excommungada da velha da sua

casa para fora.

ANTONIO

Isso não faço eu. Pôr fora da minha caza uma pobre velha, que é tão

desgraçada, uma mulher que serviu de mãe á minha Joanninha! Oh! sr.

Joze, que eu lhe não ouça dizer outra vez coisas dessas; que, sobre

tudo, o não saiba a minha filha. Estava desmanchado o casamento, se

Joanninha tal soubesse!

JOZE

Eu queria... sim, como sei que Joanninha é muito amiga da velha Maria

das Dores, queria ver... experimentar se vmc. era capaz de ir contra os

desejos da sua filha. Vmc. bem percebe? Eu não sou muito

amigo da Maria das Dores; a velha anda por ahi a desacreditar-me; diz

que fui eu que lhe seduzi o filho, que sou isto, que sou aquillo. Coisas

que nem eu sei. E quando a gente está innocente, ressente-se destes

falsos testemunhos.

ANTONIO

Quando se está innocente.

JOZE

Como eu, é verdade, ressente-se a gente. Não fallemos mais nisso, que é

uma coisa que me faz doer o coração. O que é preciso é que este

casamento se faça; porque a Joanninha é mesmo uma mulher propria para

mim: sabe ler, escrever, e é bem creada. Aqui em toda a freguezia não ha

uma rapariga, que se lhe possa comparar.

ANTONIO

A Joanninha é mesmo uma flor! Ah! ah!

JOZE

Mas, emfim, se vmc. não tem força para governar a sua casa, para fazer

com que sua filha lhe obedeça, irei a outra parte buscar mulher, com

quem me case. Não faltará quem me queira. No Funchal talvez ache até

algum morgado que me dê uma filha. Com dinheiro, nestes tempos, tudo se

pode alcançar: e eu, em sendo commendador, posso casar com quem eu

quizer, e ser até deputado, representante da Madeira. Ah! Ah! Ah!

ANTONIO

(_Rindo muito._) Que coisas que não hade dizer o sr. deputado Joze Velhaco!

JOZE

(_Em tom de discurso._) É preciso acabar com este odio á chamada

escravatura branca: este odio é uma vergonha para a Madeira,

uma deshonra para a Madeira, uma deshonra para os portuguezes. Esta

escravatura não é mais do que a liberdade, que todos devem ter de ir

procurar fortuna a qualquer parte do mundo. Eu mesmo fui enriquecer-me a

Demerara. E quando os calumniadores me accuzarem, de querer que dure a

emigração, para ganhar dinheiro com ella, heide gritar com furor. A

minha vida todos a conhecem, é simples e pura. Todos sabem que ganhei

honradamente o que tenho, e só almas damnadas me podem levantar falsos

testemunhos; porque... porque, a innocencia é a innocencia, e os homens

politicos sabem, melhor do que ninguem, o que é ser innocente, e o que é

fingir innocencia; porque a moralidade dos politicos...

ANTONIO

Viva! É eloquente, o meu genro, o sr. deputado. E da sua innocencia

falla muito, e falla bem.

JOZE

Então, decide-se o casamento?

ANTONIO

Está decidido, e hade ser já.

JOZE

Falle a Joanninha.

ANTONIO

Logo, em ella voltando para casa, hade decidir-se o negocio.

JOZE

E ella é quem o hade decidir?

ANTONIO

Não, heide ser eu. Está decidido, e eu logo não faço senão mandar. (_Com

violencia._)

JOZE

Mandar, sem soffrer observações.

ANTONIO

Como um pai a uma filha desobediente.

JOZE

Bom, bom! Logo venho pelo resultado. (_Sae._)

SCENA II

ANTONIO PRUDENTE _só_

É preciso ser severo. Acabou-se; o que custa são as primeiras palavras,

depois as outras vêem por si. É para bem da minha Joanninha; que hade,

quando for velha, gostar de ser dona de uma boa propriedade, com terras

de pão, vinha e pomar. O Joze Velhaco é um rapaz de cabeça, como se

quer. Hade fazer-se commendador, e tudo mais que elle diz. Fallam por

ahi mal do Joze; mas não teem razão: elle tem-me provado que de tudo

está innocente. O padre Vigario tambem não é amigo delle... mas não tem

razão, não tem. Querem pôr ao pobre do meu genro as culpas, do que

succede nesta terra. (_Ouve-se a voz de Joanninha cantando_). Ahi vem

ella, a minha filha. Animo, Antonio Prudente. Vamos; deves-te fazer

respeitar e obedecer por tua filha.

SCENA III

_O mesmo e Joanninha_

ANTONIO

Vens muito alegre, Joanninha.

JOANNINHA

Eu, pae!

ANTONIO

Vinhas a trovar, como se estivesses na festa do Monte.

JOANNINHA

Á Senhora do Monte vinha trovando. Mas é a tristeza e não a alegria que

me faz cantar.

ANTONIO

(_Perdendo um pouco a severidade._) E diziam as trovas...

JOANNINHA

Senhora do Monte

Trazei-me o meu bem,

Com tristezas destas

Não pode ninguem.

Senhora do Monte

Trazei-mo depressa,

Fazei que o meu noivo

De mim não se esqueça.

Sem elle, alegria

E paz eu perdi,

Senhora do Monte

Trazei-m'o aqui.

ANTONIO

Pois fez-te a vontade a Senhora do Monte. Perto tens o teu noivo.

JOANNINHA

(_Com alegria._) Elle! Pois chegou?

ANTONIO

Ha muito que chegou, e ha muito que te deseja para mulher.

JOANNINHA

Ai! Pae, ainda me torna a fallar nesse Joze, que é a praga desta

freguezia?

ANTONIO

(_Colerico._) Torno a fallar-te no Joze, mas é pela ultima vez. Quero

que cases com elle; e não consinto que me digas que não. Hasde obedecer

a teu pae.

JOANNINHA

N'isso, não.

ANTONIO

Joanna, eu não quero ouvir dizer que não, quando eu mando.

JOANNINHA

Esse homem anda enganando gente, para a vender aos inglezes. Assim diz o

sr. padre Vigario, e todos...

ANTONIO

É mentira o que dizem delle. Em sendo teu marido, todos se callam logo.

O meu nome, o nome de Antonio Prudente, é um nome honrado; e ninguem é

capaz de pensar mal do homem, que fôr marido de minha filha.

JOANNINHA

Meu querido pae, escute-me. Nunca deixou de me fazer a vontade em tudo,

e agora...

ANTONIO

Muito mal fiz, e muito me arrependo. O mimo é que te perdeu.

JOANNINHA

Se eu tivesse mãe, a ella me havia de queixar...

ANTONIO

Tua mãe, Deos a tenha em gloria, nunca me desobedeceu. Sabia melhor o

que uma mulher deve a seu marido, do que tu sabes o que uma filha deve a

seu pae.

JOANNINHA

Antes morrer, antes deitar-me ahi ao mar, do que eu casar-me com tal homem.

ANTONIO

Joanna, não me obrigues a tratar-te como mereces. Eu bem sei quem te

anda mettendo essas doidices na cabeça, é a velha Maria das Dores. É

como me paga os beneficios que lhe tenho feito. Mas á velha ponho-a na

rua, e a ti levo-te á igreja por força para te casares. É demais, é

demais isto, Joanna.

JOANNINHA

Pae, pelo amor de Deos não me perca.... (_Cae de joelhos._)

ANTONIO

As raparigas não sabem o que querem. Eu para ti ganhei toda essa terra,

que ahi está ao pé da nossa casa; quero juntar-lhe tudo o que vai d'aqui

até ao paçal do Vigario. Isto só se póde conseguir casando tu com o Joze

Velhaco. Fica, um morgado, mesmo! Quero-te rica, Joanna; quando tiveres

filhos hasde abençoar-me por te ter obrigado a fazer este casamento.

Choras agora; depois hasde rir.

JOANNINHA

Pae, não me desgrace.

ANTONIO

O casamento hade fazer-se. Já dei a minha palavra, e basta. É callar e

obedecer. (_Sae commovido, e escondendo as lagrimas._)

SCENA IV

_Joanninha, depois Maria das Dores_

JOANNINHA

Pae!.. pae!.. Elle não me dá ouvidos, e eu morro aqui de

pura dor... que me trespassa o coração.. Santo nome de Jesus, valei-me.

MARIA

(_Entrando._) Joanninha, teu pae saiu agora mesmo daqui zangado, perdido

de cabeça. Nem sequer me viu! Que tem elle? Que succedeu, que te vejo

toda chorosa?

JOANNINHA

Estou perdida, tia Maria das Dores... Meu pae já me não parece o mesmo,

Aquelle Joze Velhaco embruxou-o.

MARIA

Tornou-te a fallar no casamento?

JOANNINHA

Quer meu pae, que o casamento se faça já, sem mais tardar. E nem as

minhas lagrimas lhe fizeram abalo. Ralhou comigo, e disse-me que elle

mandava e não queria ser desobedecido.

MARIA

Se não fosse com o Joze, dizia-te Joanninha que o remedio era callar, e

obedecer. És boa filha, e o Antonio é teu pae. Mas com semelhante homem,

com um homem mau, infame, não te podes casar.

JOANNINHA

Mas que se hade fazer?

MARIA

Não sei, não sei, mas irei fallar ao sr. Vigario... Elle desconfia do

Joze Velhaco, fallará a teu pai, e talvez o convença. Só o Antonio é

quem na freguezia anda illudido com tal homem: Deus lhe perdoe o mal que

me tem feito, e as lagrimas que me fez chorar. Ai, o meu Luiz, o meu

Luiz... se ainda será vivo?

JOANNINHA

E sem noticias delle!.. ha um anno que se foi!

MARIA

Nem carta, nem noticias! Se morreria o meu querido filho? Tenho ido umas

poucas de vezes ao correio do Funchal, e dizem-me sempre que não ha

cartas, isto quer dizer muito. Devemos estar preparadas para uma grande

dor, minha Joanninha.

JOANNINHA

Ai, não diga tal.

MARIA

Porque o não heide dizer, se o sinto, se o coração m'o diz... se parece

que me diz que elle morreu.

JOANNINHA

Se o Luiz morreu, que hei de eu fazer? Elle era o meu noivo; por elle

prometti esperar. Se elle não voltar, fico toda a vida solteira.

MARIA

Solteira... não pode ser, seria dar um grande desgosto a teu pae, e

condemnares-te a ti a uma triste solidão. Uma mulher sem filhos anda

como desamparada neste mundo, é como uma arvore sem fructos nem flores.

Nós as mulheres viemos a este mundo para cuidar das criancinhas, para

depois, quando somos velhas, como eu sou, sermos cuidadas e queridas

pelos filhos que criámos. E eu já não tenho filho! Morreu o meu Luiz. E

Deos ainda me não chamou para si!

JOANNINHA

Agora, que nem me atrevo já a ter esperança de o tornar a ver, sinto que

mais lhe quero do que nunca. Para chorar por elle posso viver; mas para

mulher de outro não.

MARIA

Joanninha, escuta. Ninguem quer mais do que eu ao meu Luiz; sei que elle

te amava, e que em seres sua esposa estava toda a sua esperança, mas...

se morreu, de que serve desobedeceres a teu pae... Basta que eu

soffra... e tu, filha. Que não seja desassocegado no fim da vida o bom

Antonio Prudente, do qual não houve nunca rasão de queixa.

JOANNINHA

Então quer que eu case com o Joze Velhaco!

MARIA

Com esse não. Mas com outro...

JOANNINHA

E se Luiz não morreu?

MARIA

Que esperança podemos ter? Ha um anno que se foi.

JOANNINHA

Casar-me eu, tia Maria das Dores, e vel-o depois desembarcar ahi! Com

que cara lhe havia de apparecer?.. e que olhos havia de pôr em meu

marido! E depois, com o Joze Velhaco me quer meu pae casar; e com elle

só morta me levarão á igreja.

SCENA V

_As mesmas e Joze Velhaco._

JOZE

É essa a sua ultima resolução, menina Joanninha?--(_As duas mulheres dão

um grito de terror._) Não se assustem, não tenham medo, não sou nenhum

diabo.

MARIA

Bem o parece!

JOZE

Foi vmc. Maria das Dores, quem ensinou ésta rapariga a desobedecer a seu

pai? Um dia a justiça hade castigar as bruxas velhas, que andam nesta

ilha a perder as raparigas honestas.

MARIA

Cal-te... Deos me perdoe! Cal-te!..

JOZE

Pelos seus peccados a castigou Deos. O filho que tinha deixou-a, e lá

morreu por Demerara, sem se lembrar de sua mãe.

JOANNINHA

Morreu...

JOZE

Sei que morreu; mas pouco importa. Não se perdeu coisa boa.

MARIA

Dizer assim mal do meu Luiz... que elle matou! Se Deos me desse forças!...

JOZE

Matava-me!? Ah! ah! que santa alma a desta velha! E anda semelhante

mulher sempre a resmungar orações, de pela manhã até á noite! São pragas

que ella nos roga, a bruxa!

JOANNINHA

Sr. Joze o que se atreve a dizer? Não sabe que a tia Maria das Dores é a

minha segunda mãe?.. que todos cá na freguezia a respeitam?

JOZE

Sei que, por causa das calumnias, e dos falsos testemunhos que me

levantou, não me quer a menina Joanninha por marido, e paga com

ingratidões o grande amor que lhe eu tenho.

JOANNINHA

Amor que mette medo! É homem de ruim alma sr. Joze... de

ruim alma, e má consciencia!

JOZE

Joanninha! (_Querendo pegar-lhe na mão._) Não se deixe enganar pelas

mentiras que dizem por ahi de mim... Sempre fui bom rapaz... todos o

sabem. Se a minha riqueza mette inveja aos outros, que culpa tenho eu?

MARIA

Não faz inveja, faz horror, essa riqueza ganha a vender aos inglezes os

pobres da Madeira.

JOZE

Calle-se, mulher; senão!..

MARIA

Ameaças agora!

JOZE

Joanninha, não demos ouvidos a esta doida. Fallemos serio do que nos

importa. Seu pae, Joanninha, quer o nosso casamento; e tem por calumnias

quanto por ahi se diz de mim. Elle sabe que sou capaz de a fazer feliz.

JOANNINHA

Só atada de mãos e pés irei á igreja, mas lá heide dizer que não...

quando me deem por marido um homem que aborreço.

JOZE

Joanna, veja o que diz! Seu pae pode obrigal-a...

JOANNINHA

Matar-me é que elle pode.

JOZE

Prende-a uma promessa, bem sei, Joanninha. (_Brandamente._) Fica-lhe bem

a firmeza: comigo tambem a terá. Mas de que serve teimar nesse amor a um

homem, que já morreu?

JOANNINHA

Não, não morreu. Não vé que me afflige... que trespassa aquella pobre

mãe, dizendo isso?

MARIA

Não accredito no que elle diz, é mau homem... mente!

JOZE

Hade ter castigo tanto atrevimento! Insultar com injurias, desacreditar

com aleives, um cidadão honrado, que tem de seu, que vive com os

morgados maiores da Madeira!

MARIA

Todos te despresam!

JOZE

(_Levantando a mão com colera._) É de mais. Se te não callas...

JOANNINHA

Que faz Joze? Que se atreve a fazer?

JOZE

Nada... por agora.

JOANNINHA

(_Pegando nas mãos de Maria das Dores._) Venha, Maria das Dores, venha

minha boa, minha santa mãe!.. Vamo-nos desta casa, que não pode ser, que

não é a nossa, em quanto semelhante homem aqui estiver.

MARIA

Fizeste-me perder o meu filho; foste que m'o tiraste dos braços para o

mandar como escravo a Demerara! O meu Luiz morreu... perdi o meu filho,

e eu d'aqui a dias irei ter com elle. É de lá da cova, escuta bem Joze!

é da cova, que ambos te amaldiçoamos, para que a tua alma não tenha

socego, nem o teu corpo descanço, em quanto vivo fores; para que,

depois da morte, a justiça de Deos te lance nos infernos.

(_Sáem as duas._)

SCENA VI

_Joze, só_

JOZE

Está doida, doida varrida a velha. E eu que ia perdendo a cabeça; como

se um homem de juizo, e conhecedor do mundo, podesse perder a cabeça

nestas alturas! Santa palavra! Um homem sempre é um homem, e não faz

caso de rabugices de bruxas tontas. O que necessito, e vou fazer, é

gastar umas poucas de patacas, e mettel-a no hospital por doida. Logo vi

que da mão de Maria das Dores não vinha cousa boa! Tenho de gastar o

dinheiro que o filho me rendeu, para agora alojar a mãe no hospital, ou

na cadeia. Vamos fazer calar esta matraca, que me anda sempre a matinar

os ouvidos. O que importa, em tudo isto, é que a Joanninha consinta no

casamento. Gosto della, e gosto muito, e nunca pensei que tal podesse

acontecer-me!. (_Rindo._) Ah! ah! a não ser o bom pedaço de terra, que

tem o pae, não eras tu meu Joze Velhaco capaz de intender o desasocego,

em que anda o teu coração! A idéa de tirar do correio todas as cartas,

que o Luiz escreveu á mãe e á Joanninha, foi famosa! Estão crentes, que

elle morreu, e a esta hora talvez não estejam enganadas! Graças a Deus

morre-se depressa em Demerara, quando se trabalha no campo, ao sól, e

com o estomago vazio; e o Luiz não o havia de traser cheio. Ésta minha

cabeça é uma grande cabeça, e eu ainda heide de ser coiza

grande no mundo! Meu pae mandou-me aprender a lêr e a escrever;

aproveitarei a boa lembrança de quem já lá está na terra da verdade.

Joanninha hade ser minha, ou não heide chamar-me Joze... Velhaco. Santa

palavra!

SCENA VII.

_Joze Velhaco e Joaquim._

JOAQUIM

Theatro de João d'Andrade Corvo - I O Alliciador - O Astrologo · 第 1 / 7 段