CAPITULO XL.

_Reflexões sobre as difficuldades de se organizar o exercito:

trabalhos sobre este objecto, e providencias, que se derão nas

provincias do norte, para se conseguirem os subsidios._

[Sidenote: Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

PORQUE razão, tendo nós visto trabalhar incessantemente, e com tanta

actividade por toda a extensão do reino, á excepção do que os Francezes

occupavão, que desde os principios de julho não era huma 3.^a parte,

e desde os de agosto nem hum 8.^o, não vemos ainda em campo hum

exercito Portuguez, que mereça este nome? Muitas causas concorrêrão,

huma geraes, e outras particulares, que he muito facil descubrirem-se

na situação geral do reino, e na direcção dos negocios públicos de

cada provincia. Hum exercito não se fórma com palavras: he necessario

ajuntarem-se primeiro as suas bases, que consistem em homens,

cavallos, dinheiro, armas, e munições; e he necessario depois disso

disciplinar-se e aguerrir-se.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Tudo se achava consumido por hum inimigo summamente destro em destruir,

e que sobre a destruição dos póvos pôde sómente lançar os alicerces do

seu poder violento, e odioso. Pela invasão os inimigos se apoderárão

do nosso erario, absorvêrão as rendas públicas, desorganizárão toda a

nossa força armada, enviando para França o melhor das nossas tropas,

dissolvendo as mais, e usurpando, ou consummindo immenso armamento;

pelas contribuições, e roubos devorárão a substancia dos particulares,

e introduzírão a desanimação geral, que, junta ao bloqueio dos nossos

portos, fez desapparecer o commercio, fechar as fabricas, e adormecer

a industria, e a propria agricultura, verdadeiras fontes da riqueza

das nações em geral, e dos individuos em particular. Occupavão

Lisboa, privando-nos dos immensos recursos desta capital; e quando as

provincias ião levantando a cabeça, não cessavão de paralyzar-lhes os

movimentos, por meio daquelles pezados golpes, com que tantos estragos

nos causárão, como aconteceo principalmente na Extremadura com a

expedição de Margaron a Leiria, e Thomar; na Beira baixa com a de

Loison, quando voltou de Almeida; e em todo o Além-Téjo com a do mesmo

General a Evora. Não só devastavão as desgraçadas terras, por onde

passavão, mas diffundião o terror a 10, e a 20 leguas de distancia,

pondo os póvos em consternação, e em fugida, e transtornado-lhes todas

as suas medidas de insurreição, e defeza.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Em taes circunstancias são tão grandes as difficuldades de se formar

hum exercito, que sómente póde fazer dellas huma idéa exacta quem

mette mãos á obra, e as encontra por experiencia. Homens he o que

apparecia mais facilmente, ainda que para se ajuntarem, e organizarem

era necessario tempo; dinheiro, por maiores que fossem os esforços do

patriotismo, já mais podia equilibrar as despezas: depois de todos os

donativos, emprestimos, e impostos, os lavradores, esta classe que

devia ser a mais privilegiada, forão os que o pagárão; porque sendo

necessario sustentar-se a tropa, e não havendo dinheiro, para se pagar

o preciso, ia se buscar-se onde o havia: he o que eu mesmo observei, e

oxalá que não tivesse visto derramar muitas lagrimas, que occasionou

este systema, que as circunstancias então fizerão inevitavel, com damno

irreparavel de muitas familias, e da agricultura em geral.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Pelo que pertence ao armamento, olhando em grosso para o que se

praticava em todas as terras, que se ião levantando, sendo sempre

o primeiro passo o lançar-se mão de todas as armas, e munições, que

podião descobrir-se, parecia que em pouco tempo poderião armar-se

completamente 150$, ou 200$ homens. Sómente na cidade do Porto,

disserão os nossos peridiocos, e acreditou o público, que no primeiro

dia da revolução apparecêrão 50$ homens fornecidos de armas, e

munições: [9] isto mesmo soou em Inglaterra, [10] e os Francezes

andárão sempre assustados com os nosso exercitos das provincias do

norte; e com tudo que vimos nós? Foi necessario mendigarem-se armas

d’Hespanha, e da esquadra Ingleza, e que Lord Wellington na sua

chegada ás nossas costas desse ainda 4$ espingardas, para podermos

contar no fim de dois mezes com huma força armada disponivel de 15$,

ou 16$ homens entre tropas regulares, e milicias. Faço este calculo,

contando o exercito do General Bernardim Freire d’Andrada, que, quando

sahio de Coimbra em 10 de agosto, era de 7$618 praças, quasi 3$ com que

o General Leite sahio de Campo-maior no 1.^o de setembro, as tropas,

que conduzia o General do Algarve, e o pequeno corpo de observação (de

menos de 2$) formado em Tras-os-montes, e Beira alta, com que o General

Bacellar fazia os seus movimentos pela Beira baixa, e Extremadura,

combinado com a divisão Hespanhola do Marquez de Valadares, que seria

de huma força pouco maior. Havia mais alguns pequenos corpos, quasi

tudo milicias, que ficárão fazendo o bloqueio de Almeida ás ordens

do Marechal José Antonio Botelho, e não ficou outra alguma tropa nas

provincias, á excepção da indispensavel para as guarnições, que era

muito pouca; porque as ordenanças fazião quasi todo o serviço, e

no Porto, onde se precisava o maior número, o ficárão fazendo huns

400 homens de infanteria, que, a requisições do nosso Governo ao

de Galliza, tinhão alli proximamente entrado com hum esquadrão de

cavalleria, que se unio ao exercito de Bernardim.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

No meio da apparente abundancia de armas, o Governo do Porto conheceo

tanto a sua falta real, que, apenas organizado, as mandou pedir a

Inglaterra por intervenção do Ministro da nossa corte em Londres;

mas o Governo Britanico se achava então tão pouco disposto, por

motivos politicos, a deixar sahir armas para o continente, que, para

se obterem as que nos forão remettidas directamente, foi necessario

recorrer-se á causal do armamento da Leal Legião Lusitana, de que o

casco se formou em Inglaterra. O Bispo do Porto tambem sahio logo com

huma proclamação a pedir cavallos quasi pelo amor de Deos, e a mesma,

requisição fez depois a junta por hum edital de 11 de julho, e por

ordens expedidas para as differentes terras das tres provincias do

norte, de que a execução foi especialmente encarregada ás Authoridades

ecclesiasticas. Com tudo o exercito já estava a marchar de Coimbra,

e ainda a cavalleria estava muito mal armada, como mostra hum outro

edital da mesma junta do Porto, datado de 8 de agosto, que fez huma

nova requisição de espingardas, pistolas, e espadas capazes de servirem

para o uso, tanto da cavalleria, como da infanteria, _das quaes_,

accrescentava o edital, _ha presentemente a maior necessidade_,

e huma proclamação do General Bernardim da mesma data, que fazia

semelhantes pedidos em Coimbra.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Hum dos maiores embaraços, em que se vírão o Governo, e o General,

proveio de falta de officiaes. Procurárão-se, e escolhêrão-se os mais

habeis, e se encarregárão da organização das tropas, dando-se-lhes os

planos, e assignando-se-lhes os lugares para reorganizarem os antigos

regimentos, e os novos batalhões, de que a formatura tinha já sido

decretada pelo Principe Regente antes da trasladação da corte para

o Brasil, que porém se não tinha chegado a executar. Logo no dia 20

de junho ficárão destinados os differentes corpos, e assignados os

quarteis, onde se devião levantar, na fórma seguinte:

_Regimentos d’infanteria de linha._

N.^o 6 }

18 } Porto.

9 Viana.

21 Braga.

12 Chaves.

24 Bragança.

11 }

23 } Viseu.

_Regimentos de Cavalleria._

N.^o 6 Porto.

9 Braga.

11 Viseu.

12 Chaves.

_Batalhões de caçadores._

Do Minho Braga.

Do partido do Porto Porto.

De Tras-os-montes Villa-Real.

Da Beira Viseu.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Recolhidos ao Porto Bernardim Freire, e D. Miguel Pereira Forjaz,

forão estes os que se puzerão á testa dos negocios militares, e por

consequencia os que carregárão com estas disposições; mas sempre

debaixo das ordens do Bispo, e da junta. Os seus trabalhos, e os de

tantos subalternos, que se empregavão nesta obra erão contrariados a

cada passo por muitas outras difficuldades, principalmente no artigo

dinheiro, porque a despeza se augmentava progressivamente, á medida que

crescia o número das tropas, se adiantavão as operações de defeza, e

se preparavão as de ataque, sendo muito tenues os fundos públicos, que

o Governo tinha á sua disposição. Já vimos huma parte das medidas, que

se tomárão logo ao principio sobre este objecto: foi depois necessario

ampliarem-se humas, e recorrer-se a outras de novo, a pezar das

consideraveis sommas, que produzírão os donativos voluntarios. Sómente

no Porto avultárão elles desde 30 de junho até 29 de julho, segundo

as listas que se publicárão, e andão insertas no Leal Portuguez, o

seguinte.

Em dinheiro Rs. 32:776$286

Alqueires de milho 2$472

Lençoes 3

Arrobas de bacalháo 40

Peças de panno de lã 72

Peças de cré 9

Pares de meias 1$072

Varas de panno de linho 1$258-1/4

Ditas de estopa 17

Alqueires de centeio 1$128

Pares de çapatos 30

Arrobas de arroz 198, e arrates 18

Chapéos de Braga 60

Forão tambem muito consideraveis os donativos de Coimbra, Braga, Viana,

e de todas as mais cidades, villas, e lugares daquellas provincias;

porque até nas mais pequenas aldêas, e entre as ultimas classes do povo

produzírão o seu effeito as proclamações do Governo, e as dos Bispos, e

superiores ecclesiasticos, communicadas pelos ministros civís, e pelos

parocos.

No Porto foi incumbida a arrecadação dos donativos aos officiaes

da Meza da misericordia: para as provincias adoptou-se o methodo

de recebedorias particulares nas aldêas, debaixo da inspecção dos

Parocos, e Juizes das freguezias, d’onde devião passar a outras, tambem

particulares, nas cabeças dos termos, debaixo da inspecção das camaras,

destas ás geraes das cabeças das comarcas, e finalmente ao thesouro

público, creado no Porto em 7 de julho.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

Declarou-se extincta a contribuição dos 40 milhões de cruzados,

imposta pelo Governo Francez, mandando-se porém recolher ao thesouro,

a titulo de donativos, as quantias, que já estivessem cobradas nos

depositos respectivos. Lançou-se mão dos rendimentos das commendas das

ordens militares, comprehendida a de Malta, pertencentes a pessoas,

que existissem fóra das provincias, que tinhão reconhecido o Governo

legitimo, dos da Bulla da cruzada, e da Patriarcal, pois que Lisboa,

para onde aliás deverião remetter-se, estava ainda em poder do inimigo,

das sobras das sizas, dos liquidos das confrarias, e dos dinheiros

applicados para as obras públicas, nas quaes se mandou suspender,

durante a urgencia do Estado. Em data de 19 de julho se estabeleceo hum

regulamento, que deo fórma a todas estas arrecadações.

Na de 20 se ampliou o imposto de 4$800 rs. por cada pipa de vinho,

que se exportasse pelas barras de Aveiro, Figueira, e Viana, e se

estabeleceo de novo o de 9$$600 rs. por cada pipa de azeite, que

sahisse pela barra do Porto, e por qualquer outro dos portos das

provincias do norte. Na mesma data se mandou proceder a effectivo

sequestro em todos os bens, direitos, e acções, por qualquer modo

pertencentes a individuos da nação Franceza, que não estivessem

naturalizados em Portugal, levantando-se o que se havia feito por ordem

do Governo intruso, nas propriedades Inglezas.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

A 29 mandou-se abrir hum emprestimo de dois milhões de cruzados, com o

juro de 5 por cento, a que se hypothecou o rendimento do novo imposto

sobre o vinho, e azeite, com a promessa de que o capital se iria

amortizando, á proporção que as circunstancias o permitissem, e mesmo

pelos soccorros pecuniarios, que se esperavão da Gram-Bretanha; e que

aquelles, que quizessem entrar com quantias sem vencimento de juros,

serião os primeiros reembolsados, e se lhes attenderia este rasgo

de patriotismo, como hum particular, e grande serviço á nação, e ao

Soberano.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

A 8 de agosto se impoz a contribuição de 20$000 rs. metalicos pelo

consumo de cada pipa de aguardente, e pela exportação das que sahissem

pelas barras do Porto, Aveiro, Figueira, Villa de Conde, Viana, e

Caminha, e de 2$400 rs. tambem metalicos por cada pipa de vinagre, que

se exportasse pelos referidos portos. A 25 se expedírão ordens mais

precisas, para a cobrança dos atrazados da imposição respectiva ao

encanamento do rio Lima, cujo rendimento entrava na ordem dos outros

das obras públicas, applicados para as despezas da guerra. Tambem se

dispoz a favor do Estado das terças partes das fazendas confiscadas

pelos Francezes, pelo simples facto da origem Ingleza, que ainda

existião nas Alfandegas, sem serem resgatadas, com a declaração de

que ás duas partes dos lanificios Inglezes embargados se darião os

competentes despachos, e as terças pertencentes ao fisco poderião

ser substituidas por igual quantidade de covados de panno azul, e na

sua falta, de qualquer outra cor da qualidade daquelle, que serve

para o fardamento da tropa. Vierão em fim os soccorros pecuniarios de

Inglaterra, que chegárão a milhão e meio de cruzados.

[Sidenote: 1808 Junho. a Agost.]

A junta suprema, para facilitar a expedição dos negocios militares,

tinha feito suspender na dos forenses por edital de 26 de junho,

mandando sobrestar em todas as causas judiciaes, tanto na Relação, como

nos juizos, e auditorios subalternos, exceptuando as que respeitavão á

policia, inconfidencia, e segurança pública, e resalvando ás partes seu

direito: esta suspensão foi levantado por outro edital de 20 de julho,

menos para as pessoas empregadas no exercito, e a seu beneficio, quando

o requeressem.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 22 / 42 题