NOTAS DE RODAPÉ:

[Footnote 9: _Leal Portug._ de 27 de junho de 1808.]

[Footnote 10: A primeira noticia official, que me consta chegasse a

Inglaterra do levantamento de Portugal, foi communicada pelo Almirante

Cotton em carta datada da náo Hybernia defronte do Téjo a 22 de junho

de 1808, remettendo outra, que havia recebido do commandante da

chalupa, ou brigue Eclipse diante do Porto. Huma, e outra, traduzidas,

são as seguintes.

Carta do Almirante.

_Senhor, inclusa remetto para instrucção dos Lords do Almirantado a

cópia de huma carta, que tenho recebido do Capitão Creyke da chalupa de

S. M. o Eclipse, referindo as circunstancias do estado dos negocios no

Porto. Tenho a honra de ser, &c._

Carta do commandante da chalupa.

_Chalupa de S. M. Elipse. Barra do Porto 20 de junho._

_Senhor. Depois da relação, que tive a honra de vos entregar a 10 de

junho, o Porto tem padecido duas revoluções, e estado successivamente

nas mãos dos Francezes, e dos vassallos do Principe Regente. Depois que

os Hespanhoes entregárão as fortalezas á guarda dos Portuguezes, e se

arvorárão as bandeiras nacionaes, os Francezes conseguírão restabelecer

a sua authoridade, em consequencia das fracas, e indeterminadas medidas

do Governador Luiz de Oliveira, que agora se acha prezo como traidor,

e a conservárão até o dia 16 que era o de Corpus Christi, em que ha

huma grande festividade nacional, e tem sido o costume dos Portuguezes

terem neste dia os seus regimentos em armas com as bandeiras da nação.

O Governador Oliveira, em consequencia das ordens de Junot, tentou

estabelecer na procissão a bandeira Franceza em lugar da Portugueza:

este violento ataque contra os costumes da nação excitou murmurações

na populaça, que chegou ao ponto de não querer acceitar huma especie

de accommodação, que o Governador lhe propunha, e a 18 pela tarde

que foi hum dia antes da minha chegada aqui, o povo se excitou a tal

gráo de furia, que apoiado pelos ecclesiasticos se levantou em massa,

arrombou os armazaens, munio-se com 25$ jogos de armamento, e junto

com as tropas regulares formou hum exercito summamente resoluto, e

enthusiasmado. Desde este momento cessou toda a authoridade Franceza,

e todo o homem, ou Francez, ou suspeito de apaixonado dos Francezes

foi prezo. O bispo do Porto foi eleito Governador, e já se mandou hum

exercito de 20$ homens contra os Francezes que se tinhão adiantado com

900 homens até 6 leguas distante do Porto. O enthusiasmo passou de

huns a outros, e as provincias Portuguezas de Tras-os-montes, Minho, e

parte septentrional da Beira, á imitação dos Hespanhoes, se tem posto

em armas, resolutos a extirpar do reino os Francezes. Segundo a mais

moderada conta, além do que ha no Porto, se podem estimar em mais de

100$ homens; todos os regulares, que forão dissolvidos pelos Francezes,

se estão outra vez formando com a maior presteza, e brevemente se

uniráõ aos outros. Eu fallei hoje com S. Excellencia o Governador, e

fui conduzido entre acclamações, e vivas do povo: á manhã tenho de

mandar huma partida de gente montar as peças de hum navio do Brasil,

cujo commando se deo a hum Inglez, e se destina para obrar como bateria

fluctuante para defender a ponte, em caso que os Francezes tenhão a

temeridade de se lhe aproximarem, posto que não ha por hora que temer

semelhante acontecimento. Se me for requerida alguma polvora, eu a

darei; porém elles tem presentemente abundancia de armas, munições,

e mantimentos. Os Portuguezes detestão os Francezes a tal ponto que

o Capitão Ihones, e eu, depois de termos pedido a vida do Intendente

da policia Francez, tivemos a maior difficuldade em o trazermos como

prisioneiro para o bote, e só o illimitado amor, e respeito, que ha

para com os Inglezes, pôde obstar a que o enraivecido povo o não

fizesse em pedaços. Tenho a honra de ser, &c._

Não falla em 50$ homens armados, no Porto; mas suppõe 25$ jogos

completos de armas só em huma tarde, 100$ homens pelo menos, além dos

do Porto, em armas; e hum exercito de 20$ que sahíra da cidade contra

os Francezes. Pessoa de inteiro credito, e que tem obrigação de não

ignorar estes factos, me asseverou, que na verdade havia no Porto 15$

armas; mas que quasi tudo fora destruido, ou extraviado pelo povo no

confuso armamento dos primeiros dias da revolução.]

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 23 / 42 题