CAPITULO XXXIX.

_Operações do General Leite, e do Conde de Castro-marim, depois da

desgraça de Evora. As tropas do Algarve sobem para o Além-Téjo: seus

movimentos, e das que já tinhão sobido anteriormente._

[Sidenote: 1808 Agost.]

[Sidenote: 1808 Agost.]

ENTRETANTO o General Leite reunia em Olivença alguns dispersos dos da

acção de Evora, mas em número pouco consideravel. Antonio Couceiro da

Costa foi-se-lhe incorporar com o principio de hum corpo de cavalleria,

que estava formando em Estremoz; outro porém de infanteria, que nesta

mesma villa estava organizando o Sargento mór Antonio Tavares Magessi,

dissolveo-se com as noticias de Evora. Dalli pedio tambem o General

novos soccorros a Badajoz; não só se lhe não concedêrão, não cabendo

provavelmente no possivel, mas até se lhe obstava indirectamente

á reunião dos soldados Portuguezes, convidando-os debaixo de capa,

para se alistarem na legião de voluntarios estrangeiros. Houve mesmo

principios de descontentamento entre Leite, e Galluzo, bem pouco

favoraveis ao progresso da causa geral d’ambas as nações.

[Sidenote: 1808 Agost.]

A Olivença mandou Leite recolher os dinheiros públicos da provincia

que pôde, encarregando esta commissão a Antonio Lobo; e desenganado

em fim do pouco, que alli podia fazer, partio nos fins d’agosto

para Campo-maior, como vimos, vencidos já os Francezes, e quasi

encurralados em Lisboa por Lord Wellington, e deo as suas disposições

para marchar com as tropas que havia, na direcção desta capital. O

Conde de Castro-marim, que estava em Evora, tomou a mesma resolução, e

nesta marcha se unírão todas as tropas Portuguezas do Além-Téjo, e do

Algarve, formando hum só exercito, debaixo do commando do mesmo Conde,

segundo as ordens do Governo do Porto, a que obedecêrão, tanto elle,

como o General Leite, e que forão o resultado de representações dos

emissarios de Campo-maior, fundadas na demora de Leite em Olivença. He

necessario continuarmos o fio dos successos do Algarve, para sabermos

como o Conde de Castro-marim se achava naquella posição com as suas

tropas.

[Sidenote: Julho.]

[Sidenote: 1808 Julho.]

Evacuado de inimigos todo o Algarve, e despedidos para Béja os

primeiros soccorros ás ordens de Lopes, e Mestre, (_tom. III.

cap. XXII._) o General, e o conselho continuárão com vigor na

reorganização das tropas, embaraçados sempre pela escassez dos

recursos, principalmente em dinheiro, e armamento: muito pouco

terião feito, a não serem os soccorros de armas, que os Hespanhoes

nos enviárão, objecto em que se deve muito ao Marquez de Carrion,

Presidente da junta de Ayamonte. Forão-se enviando mais alguns corpos

para o Além-Téjo, como huns 100 homens para a comarca de Ourique, e hum

segundo destacamento para Béja de 400 infantes do regimento n.^o 14.^o

com 4 peças, e 1 obuz. Mandavão-se tambem para Evora, a requisição do

General Leite, huns 60 cavallos, e 40 barris de polvora, que por não

poderem chegar a tempo, ficárão em Béja, assim como algum armamento, e

munições. Não sei o número de tropas, que pelos fins de julho se tinhão

organizado no Algarve: Couto, ou Cabreira debaixo deste nome, dá-nos 6

regimentos completos, e 800 eguas, a que alli chamavão cavalleria de

ordenança, certamente exaggera em mais de ametade.

[Sidenote: 1808 Julho.]

Chegadas as cousas a este ponto, resolveo-se, que o General entraria

com estas forças no Além-Téjo; mas primeiro quizerão expedir ao

Principe Regente huma participação circunstanciada do que se passava

nesta parte dos seus Estados, e foi escolhido para emissario della José

Joaquim da Horta Machado, que sahio do porto de Faro em hum hiate a 8

de agosto. Cousa de hum mez antes tinha sahido do mesmo porto, e com

igual destino hum fragil cahique, de que era mestre Manoel Martins

Garrocho, e piloto Manoel de Oliveira Nobre, homens na verdade de

profissão maritima, mas pouco instruidos, e inteiramente faltos de

prática nestas viagens de longo, curso. Sem levarem mais gente do que

a sa companha, se arrojárão temerariamente ao immenso lago, que separa

os dois mundos; na ilha da Madeira tomárão outro piloto mais prático,

e forão levar ao Soberano a noticia de que os seus fiéis vassallos do

antigo continente tinhão acclamado o seu nome com gloria, e se achavão

occupados com heroismo em despedaçar os ferros da tyrannia.

[Sidenote: 1808 Agost.]

He indizivel o alvoroço, com que os nossos navegantes forão recebidos

pela Familia Real, e por toda a corte. O Principe Regente os encheo

de graças, e lhes mandou dar hum navio melhorado, para voltarem ao

reino. Querendo das maior extensão ás suas graças, e perpetuar de hum

modo honroso a memoria dos importantes serviços do povo de Olhão,

erigio este lugar em villa, por Alvará com força de lei de 15 de

novembro de 1808, ordenando, que se denominasse _Villa de Olhão da

Restauração_, que gozasse de todos os privilegios, liberdades,

franquezas, honras, isenções, de que gozão as villas mais notaveis

do reino, e que os seus habitantes pudessem usar de huma medalha,

que tivesse gravada a letra--O--com a lenda: _Viva a Restauração,

e o Principe Regente Nosso Senhor._ O Conde de Castro-marim foi

contemplado com o titulo de Marquez de Olhão.

[Sidenote: 1808 Agost.]

A destruição de Evora produzio huma horrivel fermentação em Faro: o

povo amotinou-se em 7 de agosto com o pretexto de traições imaginarias,

não obedecendo ás Authoridades legitimas, nem mesmo ao General, que

debalde tentou socegallo, e ameaçando romper nos maiores excessos

contra os que soppunha infiéis, ao mesmo tempo que mostrava a maior

impaciencia por combater os inimigos. Custou muito a apasiguar o

tumulto; mas sendo prezos na noite seguinte os cabeças de motim, tudo

reentrou na ordem.

[Sidenote: 1808 Agost.]

Seguio-se immediatamente a marcha das tropas para o Além-Téjo, sahindo

em destacamentos dos diversos pontos, que occupavão, e formando-se em

duas colunas, de que huma, commandada por Antonio Hypolito, Coronel

do regimento d’infanteria n.^o 2.^o (de Lagos) tomou a estrada

de Almodovar, e a outra, commandada pelo General em pessoa, a de

Mertola. O General tendo encarregado o Bispo do Algarve da presidencia

do conselho, e do governo das armas, e provido á defeza do paiz,

entregando a inspecção do centro, e da esquerda ao Coronel Joaquim José

Ferreira, a da direita ao Capitão Balthazar de Azevedo Villas-boas,

sahio de Faro com o seu quartel-general a 10 de agosto, e foi sobindo

para Mertola ao longo do Guadiana. Tinha-se tomado Béja por ponto de

união, onde devião ajuntar-se todas as tropas do Algarve, e as mais que

alli houvesse, para cooperarem contra o inimigo. Se se realizasse este

plano, devião fazer huma força consideravel, porque além de hum corpo

de voluntarios de Béja, e do regimento de cavalleria n.^o 3.^o, que se

havião levantado nesta cidade, tinhão concorrido mais, a instancias

do Corregedor, varios corpos Hespanhoes, que fazião hum total de 1300

homens, commandados por D. Jaime Moreno, mas não se pôde realizar,

pelos seguintes acontecimentos.

[Sidenote: 1808 Agost.]

O receio, que houve em Béja, de que Loison, sahindo de Evora inclinasse

para alli a sua marcha, foi causa de se chamar de Alcacer do sal

Sebastião Martins Mestre com as tropas, que commandava, ficando as

margens do Sadão novamente expostas ás incursões dos Francezes de

Setubal, e Palmella. Mestre, recebendo a ordem a 30 de julho, partio

immediatamente; e não omittirei hum rasgo de patriotismo, e de

soffrimento das suas tropas, que deve excitar gratidão, e ternura.

Sahírão pela manhã, sem terem comido, nem podido apromptar pão,

caminhárão todo o dia a marchas forçadas, sem acharem viveres, e

chegárão pela noite á villa de Odivella tão contentes, como se nada

lhes tivesse faltado. Aqui tambem não havia rações: foi necessario,

que Mestre, e o seu Ajudante Antonio de Brito Villalobos pegassem em

huma alcofa, com que andarão pelas portas pedindo pão, que junto a hum

pouco, que apromptou o Capitão mór, fez huma porção sufficiente, para

se repartir a quarto de pão por cabeça, que lhes servio de almoço,

jantar, e cêa.

[Sidenote: 1808 Agost.]

Chegárão a Béja, e passou o perigo; porque Loison tomou differente

direcção; mas os Francezes de Setubal aproveitárão-se da occasião,

para invadirem Alcacer, que achárão deserta. A junta fugitiva desta

villa, e as de S. Thiago de Cassem, e Grandola recorrêrão á de Béja,

e ao General do Algarve. Tinha-se então ordenado em Béja huma nova

expedição, para ir soccorrer Evora, que se achava novamente ameaçada,

talvez ainda mais pelas oscillações politicas, do que pelos Francezes:

recordemo-nos de que foi em 14 de agosto, que por ordem da junta de

Béja se prendêrão em Evora as Authoridades estabelecidas por Loison.

Era commandada por Mestre, e compunha-se de 400 soldados de infanteria

do Algarve, duas peças de artilheria com a sua competente guarnição,

hum pequeno corpo de cavalleria, e 300 Hespanhoes pertencentes aos

regimentos de Siguença, Llerena, e Ayamonte.

[Sidenote: 1808 Agost.]

No mesmo dia 14, chegando a expedição a Aguas de peixe, foi avisado

Mestre da entrada dos Francezes em Alcacer, o que o obrigou a destacar

huma pequena força, para os ir reconhecer. Mandou adiante o seu

Capellão Fr. Manoel da Horta, homem de muita vigilancia, e actividade,

para espiar os seus movimentos, levando huma carta para o Juiz de

fóra, em que o commandante lhe recommendava, que fizesse apromptar

rações para 4$ homens, com que na noite seguinte alli ia entrar. Era

hum estratagema, de que usou Mestre, para intimidar os Francezes,

se a carta cahisse em seu poder, como effectivamente cahio logo nas

primeiras guardas, tendo Horta desempenhado muito bem o seu papel,

vestido de paizano com hum alforje ás costas.

[Sidenote: 1808 Agost.]

Mestre continuou a sua marcha, segundo as ordens que tinha, encontrando

as povoações desertas, os caminhos, e os bosques cheios de familias

errantes, carregadas com o seu precioso, pelo terror, que lhes

inspirava a proximidade dos Francezes. Em Aguiar recebeo novas ordens

da junta de Béja, e de Lopes, para que retrocedesse sobre Alcacer: o

mesmo Lopes se poz tambem em marcha com o resto das tropas Hespanholas,

e o General do Algarve expedio iguaes ordens á columna, que seguia a

estrada de Almodovar; de fórma que ao mesmo tempo caminhavão contra

os Francezes por tres pontos diversos forças, que lhes erão muito

superiores. Graindorge era o commandante Francez: não esperou os

nossos, retirando-se para Setubal, com tanta precipitação, que deixou

alguns viveres, e os proprios barcos, em que as suas tropas tinhão sido

conduzidas.

[Sidenote: 1808 Agost.]

A 17 de manhã entrou Mestre em Alcacer, que ainda achou com muito

pouca gente; a 18 entrou tambem Lopes; e a columna do Algarve ficou

desembaraçada, para seguir o seu primeiro destino. Os Francezes não

se derão então por seguros em Setubal, tendo os nossos tão proximos

pela parte da terra, e sendo observados da parte do mar pela fragata

Ingleza Comus, que pairava por aquellas aguas; e por isso tratárão

de abandonar este importantissimo ponto. Lopes recebeo entretanto

ordens, para que a 24 se achasse em Evora com as suas tropas, e estas,

percebendo-o, entrárão a clamar, que se achavão descalças, mas que

tinhão pés para caminharem para diante, e não para trás: manifestavão

hum ardor extraordinario por se arrostarem com os inimigos, e Lopes,

desejando aproveitallo, despedio Mestre para Béja, a pedir licença á

junta, e ao General (que já alli se achava) para ir occupar Setubal,

o que facilmente lhe foi concedido á vista das circunstancias, e da

importancia daquelle ponto.

A 26 entrou Lopes em Setubal, quando os Francezes acabavão de

retirar-se para Almada, sobre o Téjo em frente de Lisboa, deixando huma

guarnição de cousa de 300 homens no antigo castello de Palmella, que

podia incommodar muito os nossos pela sua posição; mas que foi logo

posta em bloqueio, pelas nossas grandes guardas.

[Sidenote: 1808 Agost.]

Tinha sido a 19, que o General entrou em Béja, onde se demorou até 29,

em que partio para Evora, á espera das bagagens, que tinhão ido pelo

Guadiana até Mertola, e ahi se demorárão, por falta de conducções:

aproveitou o tempo em estabelecer a sua correspondencia com o General

Leite, e fazer as suas combinações com este, e com os Governadores das

praças. As tropas Hespanholas retirárão-se para Badajoz no dia 22,

por ordem do Governo de Sevilha; e o General do Algarve deo a sua

entrada em Evora a 30, tendo deixado em Béja a major parte das tropas,

que o tinhão acompanhado. Nestas posições os deixaremos por agora,

porque ainda temos muito campo a discorrer, antes que tenhão lugar os

successos posteriores.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) · 第 21 / 42 题