_Continuão-se os successos de Estremoz, e de Elvas. Entrada,
e comportamento de Loison nestas praças; sua retirada, e outros
acontecimentos do norte do Além-Téjo._
[Sidenote: 1808 Agost.]
TODA a provincia ficou assombrada com a desgraça de Evora, e
principalmente Estremoz, que pela sua proximidade, e pelos actos, que
alli acabavão de praticar-se, era a terra, que com mais razão tinha
a temer os primeiro encontros de hum inimigo victorioso, barbaro, e
irritado. Ás primeiras noticias do combate, o povo entrou em tremores;
ao primeiro rumor do máo successo, cahio em frenesi, e rompeo em
desatinos.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Esperava-se alli a tropa organizada do regimento de Castello de vide,
e não veio, o que causou grande descontentamento. Chegando nesse meio
tempo de Portalegre em commissão Jorge d’Aviles, official honrado,
de que brevemente tornarei a fallar, imputou-se-lhe o ter sido quem
suspendêra a marcha daquellas tropas, e consequentemente passou a ser
tratado como partidista Francez. Esta arguição tornava-se de manifesta
falsidade, pela incoherencia das circunstancias, com que a envolvião;
mas foi necessario a Jorge d’Aviles refugiar-se á casa, onde os membros
da junta se achavão congregados, e não pudérão estes prestar-lhe asylo,
senão subtrahindo-o, e conservando-o escondido grande parte do dia a
hum troço de gente, que o seguio, e o pertendeo assassinar, mesmo em
presença da junta, e já dentro da sala.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Chegou á junta huma carta, em que se lhe participava o exito infeliz
do combate, e todos os seus membros ficárão na maior consternação, sem
que algum delles se arriscasse a communicar estas noticias ao povo,
que rodeava as casas: quiz-se-lhe ler a carta de huma janella, mas os
chuços, e as espingardas mettêrão respeito; com tudo era necessario
dar providencias, ou de defeza, para a qual não havia meio algum, ou de
evacuação, ou qualquer outra, que salvasse a terra, e os momentos erão
preciosos. Deliberárão-se pois a sahirem, e promoverem a evacuação:
passando por entre o povo, bastou a sua marcha triste, e silenciosa,
para se confirmarem as idéas, que já havia, e elles mesmos as forão
communicando separadamente a algumas pessoas mais cordatas, para se
propagarem sem estrondo, e poder cada hum tomar as suas medidas. De
tres peças, que havia montadas, para defenderem as brechas da muralha,
huma se precipitou no fosso, e as outras se salvárão para Olivença:
o que se deveo principalmente aos cadetes Durão, e Manoel Ignacio de
Carvalho, que até com as suas mãos as forão puchando parte do caminho.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Entretanto soárão na populaça as vozes de traição, e foi procurado o
Juiz de fóra, para ser assassinado, tendo até este momento logrado os
maiores applausos, justamente devidos á sua actividade, e patriotismo:
felizmente foi advertido deste movimento tumultuario por hum aviso
opportuno, e pelas gritarias do proprio povo; o que lhe deo tempo a
refugiar-se em lugar occulto, saltando muros summamente difficeis.
O povo, reconduzido do seu delirio a idéas mais justas por pessoas
de juizo, já lhe renovava com públicas acclamações os testemunhos
da sua confiança; e elle, ouvindo o motim, ignorava ainda, se era
decretada a sua vida, ou a sua morte. Depois de o terem procurado
innutilmente por muito tempo, foi descoberto por hum amigo, e instruido
dos ultimos sentimento do povo, appareceo-lhe. Ajuntárão-se algumas
pessoas condecoradas, disse cada hum o seu parecer, e resolvêrão, como
unico meio de salvar a terra, mandarem huma deputação a Loison, a
comprimentallo, e pedir-lhe perdão.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Nomeárão-se os deputados, mas nenhum quiz acceitar a commissão, sem
que primeiro se enviasse hum emissario com huma carta a Loison,
communicando-lhe o projecto, e pedindo a sua approvação. O emissario
o alcançou ainda em Evora, e foi conduzido á sua presença com o
braço levantado, e huma toalha na mão, para ser respeitado como
parlamentario. Loison prometteo debaixo de palavra de honra, que
trataria bem os deputados, e só então he que houve deputação, e teve
os cortejos, que desejava; porque, a pezar da sua victoria, conhecia o
perigo de entrar em novos combates com póvos levantados, que á força de
repetições o irião debilitando, e podião em fim destruillo.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Entrou pois amigavelmente em Estremoz a 2 de agosto, e não só não
fez violencias, mas fez pagar tudo o que se gastou com a sua tropa,
e deo liberdade a alguns dos prisioneiros, que trazia de Evora:
os que reservou, e conduzio para Elvas, forão o Tenente-Coronel
Domingos Franco, o célebre D. Antonio Maria Gallego, 12 Suissos, e
alguns Hespanhoes. Mostrou-se admirado de se terem alli levantado tão
depressa tantas tropas, sabendo que Kellerman tinha mandado destruir o
armamento; e como conhecesse o mal, que se executára esta diligencia,
mandou continualla; mas apenas deo costas, não se trabalhou mais nella.
Logo no dia 3 partio para Elvas, e fez acampar a sua gente no rocio
do calvario entre a horta do Paraiso, e a igreja de N. Senhora da boa
fé. Admira, que passando tão perto de Borba, e Villa-viçosa, nada
intentasse contra estas terras, o que se attribuio á brevidade, com que
quiz entrar em Elvas, antes que os Hespanhoes o embaraçassem.
[Sidenote: Julho.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
Temos deixado em silencio os successos de Elvas desde a retirada de
Kellerman, e a primeira praça de Portugal merece algumas considerações
sobre o que nella se passou, durante o periodo, de que vamos tratando.
Vimos, que aquelle General deixára o commando das tropas Portuguezas
existentes no serviço da França, e o das ordenanças ao General
Portuguez Miranda, o de toda a artilheria da praça, e fortes ao capitão
Francez Collet; accrescentarei agora, que o commando geral ficou ao
Coronel Miquel, homem avarento, suspeitoso, e violento, que por estas
qualidades tinha já d’antemão adquirido o odio do povo. A guarnição
Franceza, que Kellerman deixára na praça, e seus fortes, consistia no
seguinte: na praça 4 companhias de Suissos; no forte de la Lippe outras
4 de Suissos, e 3 do regimento 86.^o de infanteria de linha; no forte
de Santa Luzia 1 de Suissos, e outra do mesmo regimento n.^o 86.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Todas as mais tropas levou comsigo aquelle General; por cujo motivo
se vio Miquel na necessidade de fazer reentrar no serviço o regimento
Portuguez de artilheria n.^o 3.^o, que delle fora dispensado alguns
dias antes; o que deo causa a continuar a deserção dos nossos, que
aproveitando-se das occasiões de entrarem de guarda, se passavão para
Badajoz, e Jurumenha, sendo hum dos que desapparecêrão o proprio
Coronel, que era este mesmo Vicente Antonio, de que tenho fallado
tratando do ataque d’Evora. Depois que este se ausentou, o regimento se
debandou inteiramente, procurando, os officiaes, e soldados cada hum
o melhor meio de se escapar, e deixando pela maior parte as armas, e
munições, que Kellerman, de enfurecido, poz á pilhagem dos Francezes.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Vendo-se Miquel, por estes factos, e pelo progressivo levantamento dos
póvos, cada vez em maior aperto, cuidou tambem em fazer conduzir para
os fortes quantas armas, e munições lhe foi possivel, e em inutilizar
o resto. Fez destruir inteiramente os armazens de cordagens, pannos,
utensis, ferramentas, e gastar inutilmente nos exercicios muita
polvora, pois a havia de superabundancia á que podia conservar-se nos
fortes; e ultimamente na noite de 8 para 9 de julho forão encravadas as
bocas de fogo de grosso calibre, exceptuando as dos flancos das portas,
e as que se destinavão para serem conduzidas aos mesmos fortes. O
proprio Miquel, receoso de alguma conspiração contra a sua vida, tinha
feito preparar para si hum quartel no forte de la Lippe, e dormia humas
vezes nelle, e outras na praça.
Não erão mal fundados os seus receios, porque diariamente crescia
contra elle o odio público, que o seguinte facto levou ao mais alto
ponto. Na manhã do mesmo dia 8 foi encontrado, e prezo por suspeito hum
Alemão, que fallava Portuguez, e Hespanhol; achárão-lhe na algibeira
28 luizes duplos, e querendo Roque mór (official d’ordens de Miquel)
apropriar-se delles, não faltou a ministrar as provas, de que era
hum espia, que trazia papeletas de Badajoz, e as affixava em Elvas;
e administrou-se-lhe justiça com tal presteza, que na tarde desse
mesmo dia foi fuzilado entre a praça, e o forte de Santa Luzia. Este
processo, e o de Manoel José em Lisboa, fazem muita honra ao codigo
pennal dos Generaes Francezes!
[Sidenote: 1808 Julho.]
Mui breve recebeo Miquel a recompensa. Logo na noite immediata,
recolhendo-se da praça ao forte de la Lippe, acompanhado de hum
Engenheiro Francez, cahírão ambos em huma emboscada, que os esperava
nos olivaes junto á fonte do rio de Mello, tendo sahido para este fim
de Campo-maior, e entrando nella alguns dos Elvenses, que se tinhão
refugido áquella praça: deo-se-lhes huma descarga, de que resultou
matarem-lhe os cavallos, e ficar Miquel estendido com huma ferida, de
que veio morrer a Lisboa. Por occasião deste successo houve alarme nos
fortes; mas os Francezes estavão tão assustados, que sendo isto logo ao
anoitecer, deixárão ficar o seu Governador assim ferido sobre o campo
toda a noite, sem o virem soccorrer, nem conduzir.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Durante a molestia do Coronel Miquel, o substituio no governo o Capitão
Collet, e foi hum tempo de terror para o povo de Elvas; porque o
Capitão Miquel, filho do Coronel, e commandante do forte de la Lippe,
ameaçava, que faria fuzilar tudo, se seu pai morresse da ferida,
sendo especialmente observadas as familias dos medicos, e cirurgiões
Portuguezes, que erão obrigados a vigiar pela saude daquelle inimigo
implacavel, e tinhão a pensão de lhe assistirem por seu turno cada hum
24 horas. Crescião as ameaças, e os sustos, á proporção que o ferido
peiorava; e por medo chegárão a desertar de Elvas algumas familias, o
que Collet pertendeo evitar com mais politica, prohibindo a emigração,
e promettendo, que nada aconteceria do que promettia Miquel filho.
[Sidenote: Agost.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
Neste estado se achavão as cousas ao tempo da entrada de Loison em
Elvas, o qual, apenas chegou, fez publicar, que nessa mesma noite
marchava contra Badajoz, e na verdade poz em movimento algumas das suas
tropas, que chegárão quasi a meio caminho, e retrocedêrão com huma
violenta contra-marcha. Esperava talvez alguma deputação de Badajoz,
como a de Estremoz; mas se erão essas as suas vistas, enganou-se.
Pertendia levar tudo pelo terror, e com este fim exaggerava muito
o número das suas tropas: quando estas se achavão proximas a entrar
em Elvas, o commissario Francez Serres, tratando com o Juiz de fóra
sobre o artigo de se lhes apromptarem rações, lhe communicou, que erão
17$ para 18$ homens; e verificou-se depois, que no assento sómente se
apromptárão para 6$.
No dia seguinte ao da sua chegada fizerão huma feira dos trastes,
e preciosidades, que trazião do saque de Evora; e não deixarei em
esquecimento, que houverão pessoas de probidade, que andárão comprando
muitos vasos sagrados, e outros objectos do culto Divino, para os
restituirem ás igrejas, a que pertencião.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Procedeo Loison em Elvas _á obra pia_ de mandar fuzilar dois
Suissos dos que trouxera prisioneiros, commutou a pena de morte, pela
de galés por cinco annos, a quatro dos mesmos, e he necessario dizer
tudo, fez soltar os seis restantes. Os Hespanhoes ficárão por sua
ordem na mais horrivel prizão do forte de la Lippe, menos D. Antonio
Maria Gallego, que foi transferido para a cadea pública, d’onde alguns
patriotas o resgatárão depois, comprando o carcereiro, que tendo posto
primeiro a sua familia em Badajoz, abrio a porta a este, e aos mais
prezos, e com elles fugio tambem, salvando-se cada hum como pôde:
Gallego desceo por huma corda atada á boca de uma peça; o que sendo
presentido, foi causa de hum alarme geral entre os Francezes da praça,
e fortes, e de se fazer muito fogo para os fossos; diligencias, que
o escuro da noite fez infructuosas, e a que nos dias immediatos se
seguírão outras, igualmente innuteis, de terrores, e buscas exactas nas
casas dos particulares da cidade.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Loison tambem decretou a morte do Tenente-Coronel Franco, como rebelde,
e o mandou avisar, que se dispozesse para este acto: Nos cortejos
forçados, que lhe fizerão o Bispo, Cabido, Ministros, e outras
personagens destinctas, alguns se animárão a rogar-lhe por elle, mas
foi em vão. Protestou muito respeito ao Bispo, que aproveitando-se
desta aberta, reiterou as mesmas súpplicas, mas ainda debalde, até que
em fim, possuindo de hum zelo verdadeiramente apostolico, exclamou, que
pois lhe não concedia aquelle favor, passava a rogar-lhe hum outro, que
era o de dar-lhe a mesma sorte, que se preparava a Franco, pois que
aborrecia a vida, huma vez que lhe não podia servir para resgatar a de
hum infeliz seu subdito: dobrou-se então a inflexibilidade de Loison, e
Franco foi salvo.
[Sidenote: 1808 Agost.]
[Sidenote: 1808 Agost.]
Informado Loison de que ainda existia em Elvas a prata das igrejas da
comarca, e provedoria, depositada debaixo das ordens do Juiz de fóra,
(que ainda servia de Corregedor) poz em aperto este ministro, para que
a entregasse. Hum thesoureiro do exercito o foi procurar para este fim
da parte do General; e elle lhe respondeo com presença de espirito,
que a prata já não existia debaixo da sua inspecção, porque Kellerman
tinha disposto della. O thesoureiro insiste pela execução da ordem que
levava, e não obtendo do Juiz de fóra outra resposta, sahe, e torna
e entrar hum momento depois com huma escolta para o conduzir prezo.
Apertado lance! Valeo ao Juiz de fóra a firmeza, com que insistio, que
tanto dispozera Kellerman da prata, que della tinha mandado remetter
2500 marcos para o forte de la Lippe, e entregar os 500 restantes a
hum certo Antonio Banhasco, fornecedor de viveres, e que se indagasse
a verdade destes factos. Banhasco veio á falla, e perguntando-se-lhe
se tinha recebido por ordem de Kellerman aquelles 500 marcos de prata,
respondeo promptamente: _forão 800, e não 500_. Tinhão-se-lhe com
effeito entregado os 800 marcos, e remettido para o forte os 2500;
mas erão da prata de Villa-viçosa, que o mesmo Kellerman tinha feito
conduzir para Elvas, e nada tinha com essa a da comarca desta cidade:
a reticencia desta circunstancia, e a concordancia de Banhasco com o
Juiz de fóra, salvárão a prata, e o Ministro.
Na noite de 4 para 5 marchou de Elvas Loison com a sua divisão,
guardando respeito a Badajoz, onde com tudo reinava a consternação,
causada pelos successos de Evora. Publicou, que ia contra Campo-maior,
e com effeito mandou huma intimação a esta praça, para que se
rendesse, por hum criado de Guilherme Alexis, fabricante de chapéos em
Elvas, e sacrificou huma partida de 25 Francezes, que deixára na sua
recta-guarda com ordem de se lhe irem unir em Campo-maior. Forão prezos
o emissario, e os 25 Francezes, que todos se remettêrão para Badajoz,
quando Loison já ia tomando ao largo para Portalegre; e foi esta a
resposta, que os de Campo-maior derão á intimação.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Campo-maior era na verdade o unico ponto fortificado pelos nossos
ao norte da provincia, se exceptuamos Marvão, que a pezar de ser
huma pequena praça, e ter nesse tempo huma guarnição diminuta, he
fortissima por natureza: tudo o mais se achava aberto, e sem mais
tropas, que as dos corpos, que principiavão a reorganizar-se em
Castello de vide, e Portalegre.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Já em 30 de julho tinha havido hum grande reboliço por aquellas terras,
em consequencia de avisos communicados ao Juiz de fóra, e á junta de
Portalegre pelo Corregedor da comarca, e pelo Governador de Castello de
vide D. Vicente Peres, de que os inimigos tinhão entrado em Estremoz,
e se encaminhavão para aquella cidade. D. Vicente chegou a pôr-se
em campo a 31, e com elle marchárão tambem algumas tropas: armou-se
a paizanagem, conduzida pelos officiaes d’ordenanças; os frades, e
os clerigos formárão huma companhia separada, e todos marchavão com
semblante de não deixarem hum só inimigo com vida. Foi por então rebate
falso, e quando pouco depois se apurárão as noticias de Evora, e da
verdadeira marcha de Loison, tudo se deixou possuir de grande terror,
que na verdade não era panico. Os Hespanhoes abandonárão Portalegre,
e Castello de vide. Hum corpo de infanteria, que principiava a
levantar-se em Portalegre debaixo do commando de Jorge d’Aviles Zuzarte
de Sousa Tavares e Campos, cavalheiro rico, que o fardou á sua custa,
e fez a maior parte das outras despezas, (he hoje hum batalhão de
caçadores) e o regimento de infanteria n.^o 8.^o que se reorganizava em
Castello de vide pelo seu Tenente-Coronel commandante Manoel Pereira de
Campos, retirárão-se para Campo-maior a 3 de agosto, e se submettêrão á
junta.
[Sidenote: 1808 Agost.]
Nestas circunstancias pois o Bispo, e as pessoas, que mais figuravão em
Portalegre, tomárão o unico partido prudente, que se lhes offerecia,
qual o de abandonarem a cidade, onde com effeito entrárão os inimigos
a 6. Aqui se entregárão aos roubos, e violencias do costume além disso
impozerão á terra huma contribuição de 100$ cruzados, com ordem de
serem pagos logo. Cobrárão, e roubárão por conta della quanto pudérão,
sem que ninguem lhes pudesse tomar contas, e a final partírão, levando
comsigo seis pessoas das principaes, que achárão na terra, em refens
de 61$ cruzados, que dizião dever-se-lhe. No caminho conseguírão
dois delles o poderem voltar para Portalegre, com promessas de irem
solicitar a cobrança, os outros obtiverão a sua liberdade nos campos da
Rolissa, e do Vimieiro.
[Sidenote: 1808 Agost.]
De Portalegre inclinou Loison a sua marcha para o Téjo, e desceo junto
a elle por Abrantes, d’onde fez huma divergente para Thomar, seguindo
depois o destino, que adiante veremos. Corria apressado, porque para a
costa fronteira se ouvia já o estrondo das armas Britanicas, descendo
das margens do Mondego. Temendo que se levantassem os póvos, por onde
passava, vinha mandando adiante ordens, para se apromptarem rações
para hum grande exercito, e publicando, que já entravão por Bragança
20$ Francezes, que vinhão de reforço; o que deo motivo a huma galante
anecdota. Hum dos ministros territoreaes, que recebeo esta ordem de
Loison, e que a tinha (assim como todos os outros) de Lagarde, para
lhe participar todas as novidades, mandou-lhe com effeito esta dos 20$
Francezes; Lagarde, apenas a teve, correo levalla a Junot, ajuntárão-se
os Generaes, e outros funcionarios públicos, e loucos de prazer
combinárão o tal exercito com a batalha de Rio Secco, de que tinhão
algumas noticias confusas, e fizerão publicar nos quarteis, pelas
esquinas, e na gazeta a seguinte
[Sidenote: 1808 Agost.]
Ordem do dia.
_Quartel-general de Lisboa 14 de agosto de 1808. Soldados! Houve huma
grande batalha entre o exercito Francez, e o exercito Hespanhol reunido
nas provincias de Castella, e de Galliza entre Benavente, e o Douro:
o exercito Hespanhol foi completamente batido, e perdeo a maior parte
da artilheria. O general Francez prosegue nas suas vantagens, e 20$
homens do seu exercito entrárão em Portugal pela cidade de Bragança.
Esta forte divisão marcha para Lisboa, e em breve, valorosos soldados,
podereis abraçar os vossos camaradas. Como elles, haveis contentado a
Napoleão o grande: como elles sereis recompensados; o vosso General em
chéfe saberá fazer-vos ante S. M. a justiça, que mereceis. Rodeados de
inimigos, huma parte dos quaes na verdade se acha enganada, estejamos
sempre promptos a combater, e a perdoar._ Firmado o proprio Junot.
Nem hum homem entrou de reforço em Portugal, e eis-aqui o exercito que
marchava por Bragança: quanto á batalha, veremos o que foi.