_Ataque d’Evora, saque, mortandade horrorosa, e outras consequencias
deste successo desgraçado. Mudanças de Governo, e novas juntas,
assassinio do Corregedor._
[Sidenote: 1808 Julho.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
PELAS 7, ou 8 horas da manhã derão parte as nossas vedetas de que
se descobria o inimigo: tocou-se á generala, e as tropas tomárão os
postos, que os nossos chéfes lhes tinhão destinado, na fórma seguinte;
Apoiárão a direita no moinho de S. Bento em huma eminencia a hum quarto
de legua da cidade, e neste lugar estavão collocadas quatro peças do
calibre 4 com huma companhia de artilheiros a cavallo, que teria 80
homens, 300 infantes, e 50 cavallos. Apoiárão a esquerda no ponto
da quinta dos cucos com huma peça de 3, servida por 10 artilheiros
a pé, cousa de 200 paizanos de pé, e 60 homens montados em eguas.
No centro postárão 2 obuses, servidos por 10 artilheiros a cavallo
sobre o oiteiro de S. Caetano, e nas faldas se collocárão a legião de
voluntarios estrangeiros, e o batalhão de Estremoz. Na frente destes
corpos formavão a cortina os miqueletes de Villa-viçosa, e caçadores de
Evora; 200 cavallos Hespanhoes, e 60 Portuguezes á esquerda do mesmo
outeiro.
[Sidenote: 1808 Julho.]
As baterias erão commandadas pelo Coronel Vicente Antonio de Oliveira,
pelo Tenente-Coronel Domingos Franco, e pelo Tenente-Coronel Hespanhol
D. Luiz de Michelena. As milicias Hespanholas pelo Coronel Victoria;
o batalhão de Estremoz pelo Coronel Aniceto Simão Borges; o de
voluntarios estrangeiros pelo Sargento-mór D. Antonio Maria Gallego; a
cavalleria Hespanhola pelo Tenente-Coronel Ramos, e a Portugueza pelo
Tenente-Coronel Francisco Manoel Couceiro; os caçadores de Villa-viçosa
pelo Coronel Antonio Lobo. O General Leite postou-se na bateria do
centro; Moretti andou sempre volante correndo por toda a parte, onde
julgava mais necessaria a sua presença.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Começou o fogo ás 11 da manhã, e a nossa artilheria conteve o inimigo
por espaço de huma hora. Avançárão os Generaes Francezes, para
reconhecerem as nossas posições, e tendo até alli conduzido a sua tropa
em batalhão cerrado, a dividírão em tres colunas, com que atacárão,
deixando huma boa parte em reserva. A do centro dirigio-se contra o
nosso, as dos flancos contra a nossa direita, e esquerda, pertendendo
forçallas, ou volteallas. Percebendo-se alguma fraqueza na nossa
esquerda, foi esta reforçada com 40 homens, para sustentarem a peça,
que ahi se tinha collocado; e seguio-se hum combate obstinado, em que
os nossos fizerão mais do que se podia esperar, pois se defendêrão
por mais de 4 horas contra hum inimigo tão superior em número, e em
disciplina, sem lhe permittirem avançar terreno, e fazendo-lhe grande
matança. A cavalleria foi a que mostrou fraqueza, conservando-se sempre
na retaguarda, sem entrar em combate, a pezar das repetidas instancias
dos chéfes, e retirando-se em fim antes de tempo. Depois da sua
retirada, ainda a infanteria ficou firme, mas adiantando os Francezes a
sua reserva, e ameaçando envolvella, teve tambem de começar a retirada.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Biencardi refere, (he hum facto memoravel) que vendo hum artilheiro
nosso, que os Francezes nos ganhavão a posição da direita, raivoso,
e atrevido se arriscara a pegar o fogo a hum carro de polvora, para
demorallos, arriscando-se a ser envolvido nas ruinas, e que obrando
felizmente o fogo á vontade do temerario, arrebentára sobre os
inimigos, que retrocedêrão assombrados, em quanto os nossos, envolvidos
com o fumo, continuárão a retirar-se.
O General Leite retirou-se mesmo por fóra da cidade para Olivença,
com os seus officiaes d’ordens; os artilheiros sustentárão-se nos
seus postos até o fim da acção, e ainda levárão na retirada algumas
peças: o seu habil commandante Vicente Antonio de Oliveira mereceo
os maiores elogios. Ao mesmo tempo que elles entravão tambem na
cidade Moretti, e Lobo pela porta do Rocio, e achando-a totalmente
desamparada, Moretti encarregou a Lobo o prover á sua defeza, e correo
a avisar o Arcebispo, para que sem demora cuidasse em salvar a vida:
o Arcebispo respondeo-lhe com serenidade, que tratasse de conservar a
sua, para continuar a enobrecella, sem cuidar nos poucos, e inuteis
dias, que a elle Prelado podião restar. Lobo preencheo a sua commissão,
fazendo assestar á porta duas peças, e encarregando da sua direcção o
Tenente-Coronel Domingos Franco, o que servio de proteger a retirada
das nossas tropas, e officiaes, que se forão salvando, como pudérão;
mas foi causa de ficar prisioneiro Domingos Franco, e lhe ia custando a
vida.
[Sidenote: 1808 Julho.]
[Sidenote: 1808 Julho.]
A defeza da cidade estava incumbida ao Coronel Francisco Pereira da
Silva: de cinco portas, que ella tem, tres se tinhão tapado de pedra,
e barro, conservando-se sómente abertas as duas para o serviço, e
tinhão-se tambem tapado da mesma fórma algumas brechas, e buracos
das muralhas; mas além de serem estas muito velhas, e fracas, tinhão
sómente por defensores alguns clerigos, frades, e outras pessoas
semelhantes. Era pois impraticavel o repellir-se hum assalto em
momentos, em que a confusão reinava por todas as partes: ainda se
matou bastante gente aos Francezes do alto das muralhas; mas Evora foi
forçada por differentes pontos, para offerecer ao mundo hum espectaculo
dos mais horrorosos, que conta a Historia. No meio do reboliço geral
escapou quem pôde. As tropas Hespanholas, e o seu commandante Moretti
recolhêrão-se a Jurumenha; mas deve passar á posteridade o valor de D.
Antonio Maria Gallego, que com a legião de voluntarios estrangeiros
fez ainda hum fogo terrivel aos inimigos nas ruas da cidade, sem
querer nunca retirar-se, até que em fim ficou prisioneiro, depois de
huma grande perda da sua gente. O batalhão de Estremoz, os caçadores,
e a cavalleria d’Evora dispersárão-se, a companhia de Villa-viçosa
recolheo-se a esta villa.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Erão quatro horas da tarde quando se tocou a degola, e começou a
mortandade, e o saque. Villa-viçosa, Béja, Leiria, Guarda, Alpedrinha,
e Nazareth, onde temos visto praticadas tantas atrocidades, não
offerecem todas juntas hum espectaculo comparavel ao desta cidade rica,
e populosa, de que por desgraça ficou hum grande número dos habitantes,
sem poder escapar em tempo opportuno. As suas tropas, as suas baterias,
as suas velhas muralhas, o erro, em que estavão sobre o número de
inimigos, que os vinhão atacar, forão as causas da sua maior ruina.
Para maior desgraça tendo havido votos na junta, e passando mesmo pela
pluralidade, que se favorecesse a evasão dos que quizessem retirar-se,
esta resolução, ou foi revogada, ou ao menos ficou sem effeito. Nos
ultimos momentos da acção, quando todas as esperanças erão perdidas,
tudo queria precipitar-se das muralhas, mas era tarde. A cavalleria
Franceza formava o cerco á cidade, em quanto a infanteria penetrava
pelas ruas, e por isso a maior carniceria foi sobre os infelizes
fugitivos, que ião cahir naquella, quando fugião desta.
Muito povo se refugiou ás igrejas; mas as igrejas não lhe servírão de
asylo. Os Francezes embocárão duas peças ás portas da Cathedral, onde
o concurso era maior, e então o Arcebispo se animou a apresentar-se
a Loison, que lhe fallou com arrogancia, taxando de criminoso este
Prelado, que as cans, o porte, e as virtudes fazião venerando; mas com
effeito abrandou a cólera de Loison, que até prometteo fazer cessar
a execução das suas ordens sanguinarias; com tudo as atrocidades
continuárão. Que longa, e que horrorosa tarde a de 29 de julho de 1808
em todo o recincto de Evora, e seus suburbios!
[Sidenote: 1808 Julho.]
O Bispo do Maranhão, muitos religiosos, clerigos, personagens
respeitaveis, e muito centenares de pessoas de ambos os sexos, e
de todas as classes, forão sacrificados cruelmente pelo ferro dos
assassinos: o saque acompanhava as mais operações. Continuárão as
atrocidades toda a noite, e toda a manhã seguinte, com a circunstancia
de que tendo-se embriagado huma grande parte dos barbaros, ajuntárão os
desatinos, e as extravagancias de espiritos alienados ás barbaridades
de homens feridos. Pelas 11 horas do dia 30 he que appareceo a ordem
de Loison, que mandou pôr termo ao saque legal, (saque legal, que
expressão! chamo-lhe legal, porque entra nos principios, e nas leis
destes dignos successores dos Vandalos, dos Hunos, e de todos os
monstros, que o inferno tem vomitado, para affligirem a especie humana)
mas a soldadesca não esteve pela ordem, e sómente suspendeo o seu
furor, quando não houve mais o que roubar, e que destruir.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Forão profanados os templos, e isto já era do costume, despedaçadas
as santas imagens, roubados os vasos sagrados, em varias igrejas
insultadas, e espalhadas pelo chão as sagradas formas. Andava-se a caça
de clerigos, e de frades, como em huma monteria se procurão as feras;
as casas religiosas soffrêrão como as particulares. Quanto soffrerião
a decencia, e a honestidade até nos asylos consagrados á virtude,
percebe-se, sem que seja necessario dizer-se.
[Sidenote: 1808 Julho.]
Pareceráõ lugares communs, e declamações vagas tantas repetições de
semelhantes factos, applicados a differentes terras: são lugares
communs, he verdade, porque os factos são habituaes aos invasores,
de que refiro as acções: apparecêrão em Evora os mesmos, que tinhão
sido em Leiria, e Nazareth; o Loison das Caldas, da Guarda, e de
Alpedrinha he o mesmo, que assollou a capital do Além-Téjo. Vejão-se
os folhetos: _Evora no seu abatimento_, e _Evora lastimosa_
conhecer-se-ha, que eu não exaggero. Neste ultimo vem relações muito
circunstanciadas, escritas por varios Religiosos authorizados, que
attestão de vista as mortes, sacrilegios, attentados, que os Francezes
commettêrão nas igrejas, e conventos de Evora _extra muros_, e
horrorizão: o A. promette dar na 2.^a parte, que ainda se não publicou,
as dos conventos, e igrejas _intra muros_. E que largo campo
offereceráõ ellas á contemplação do homem sensivel!
Concluido o saque, e a mortandade, procurou Loison povoar de novo a
terra com os seus habitantes fugitivos. Deo-lhes hum Corregedor, e hum
Juiz de fóra, em lugar dos ministros ausentes, que occupavão estes
cargos; e estabeleceo huma junta, para ficar governando debaixo do nome
Francez, á qual deo por Presidente o Arcebispo.
[Sidenote: Agost.]
[Sidenote: 1808 Agost.]
Esta junta Franceza teve exercicio até 14 de agosto, em que os seus
membros, comprehendido o Arcebispo, forão conduzidos a Béja, por ordem
da junta desta cidade, e prezos em lugares proporcionados ás suas
qualidades; ficando por esta fórma novamente supprimido em Evora o
governo Francez. O Juiz dos orfãos, que era o unico ministro da terra,
que se achava presente, entrou a servir as varas da Correição, e
Provedoria em nome do Principe Regente, e passou a dos orfãos, e do
geral, em falta de vereadores, ao Bacharel Antonio Mexia Fouto Galvão
Pereira. Assim permanecêrão as cousas, até que em 26 de agosto, por
huma nova commissão da junta de Béja, se estabeleceo outra em Evora,
que governou tambem em nome do Principe Regente, até que pela total
expulsão dos Francezes se reorganizou em Lisboa o Governo legitimo do
reino, estabelecido por S. A. R.
[Sidenote: Julho.]
[Sidenote: 1808 Agost.]
O infeliz José Paulo de Carvalho, que deixámos fugindo de Evora, para
escapar á morte, foi encontralla, e de hum modo cruel ás mãos do povo
de Moura. Seguia o caminho d’Hespanha, mas alguns Portuguezes, e
Hespanhoes, que tambem fugião, forão clamando contra elle, que era
hum traidor, e que tinha entregado a cidade, o que amotinou os póvos.
Foi prezo no lugar da Povoa de Moura, e logo ahi o quizerão acabar:
tenho de boa parte, que o Prior da terra chegou a conseguir o applacar
o tumulto; mas que huma imprudencia de pessoa, que sem dúvida desejava
conservar a vida ao Corregedor d’Evora, fôra a que transtornou tudo, e
lhe apressou a morte; mas o Prior se acha em processo, como complice
deste assassinio, e não anteciparei a seu respeito o meu juizo. O
certo he, que José Paulo foi morto no sitio da Cubica em 31 de julho,
no meio de tormentos horrorosos. Tambem se imputou á junta de Serpa o
ter decretado esta morte, e o seu Deputado Miguel Francisco Palma foi
judicialmente accusado de dar esta voz; acha-se porém desvanecida a sua
culpa por sentença da Casa da Supplicação, que o julgou innocente.