Mas não paravam aqui os vaticinios; os que os procuravam, até fóra de

Hespanha os encontravam. Um rei, dos mais enamorados que teem occupado

os thronos da Europa, o rei _galantuomo_, havia fallecido recentemente.

A Italia, o bello paiz da arte e do amor, chorava ainda a perda

d'aquelle esbelto homem, ao mesmo passo fragoeiro na rudeza das caçadas,

e galante no remanço das salas; a Italia, poisando a fronte melancolica

sobre a urna vitrea do Adriatico, parecia chorar. E quando a Italia

chora, o coração da Europa soluça.

Nas vastas paragens habitadas pelos povos slavos, a guerra estrondejava;

o echo longinquo da carnificina, da lucta tremenda em que dois grandes

imperios rivaes procuram despedaçar-se, rumorejava em todos os circulos

de conversação, nas noticias palpitantes de todos os jornaes.

Ás lagrimas da Italia juntava-se o sangue da Turquia.

Pio IX, o velho pastor do rebanho catholico, abençoára o casamento do

rei de Hespanha com a mão senil quasi fria. Hora a hora, a sua vida

atufava-se na grandeza da immortalidade, e os corações religiosos

assistiam commovidos ao lento declinar d'aquelle astro que parecia

luctar pela vida e pela Egreja já suspenso sobre o poente.

Havia, por toda a Europa, a tristeza d'um occaso, a concentração de

muitas incertesas: qual seria o desfecho da lucta no Oriente? como

deslisariam os dias da Italia sob o governo de um novo rei? por que

tempestades passaria o orbe catholico quando a velhice de Pio IX

exhalasse o derradeiro alento?

A Europa estava agitada, receiosa, e não era este o scenario mais de

geito para uma festa nupcial. Os representantes das poderosas côrtes

extrangeiras, que concorreram a Madrid, pareciam preoccupados:

agitavam-se-lhes na mente os problemas do futuro.

Influencia do estado geral do mundo europeu, ou tibieza de animos

apprehensivos, um facto occorrido em Madrid tomára um caracter presago

para algumas pessoas. Dos fidalgos que se apresentaram a lidar toiros,

um sahira mal-ferido da arena. Uma onda de sangue, jorrando do peito

d'esse fidalgo toireiro, quiz parecer ruim vaticinio.

Entretanto, o rei de Hespanha dava-se por indemnisado de quanto havia

soffrido em tão verdes annos. Mercedes era, finalmente, sua. Ao mesmo

passo julgava-se forte para soffrer no futuro. Tinha sobre o seu coração

um escudo de aço: era o amor da rainha.

Então lembrava-se dos seus amigos, dos seus condiscipulos de collegio:

quizera que todos elles presenciassem a sua felicidade. Estando na

familia, esquecia-se de que tambem estava no throno. Por isso escrevia

ao archiduque Frederico de Austria, que estava para desposar a princeza

Izabel de Croy: «Prohibo-te que me trates por magestade nas tuas cartas,

trata-me como no tempo do _Teresiano_. Quando te casares vem a Madrid

com tua mulher, a qual travará conhecimento e amisade com a minha,

porque Mercedes é muito boa e amavel. Recordaremos os antigos tempos.

Assim passarás uma lua de mel tão feliz como a que eu desfructei.»

N'estas poucas linhas está um hymno de felicidade; é a voz de um coração

francamente sincero e ditoso--d'um coração em flôr.

Que pena que elle não podesse ser completamente feliz!

* * * * *

NOIVANDO

X

NOIVANDO

No mais profundo da floresta architectam as avesinhas o seu palacio de

amor: afofam-n'o de plumas soltas, e de folhas verdes. Escondem-se assim

das vistas curiosas, e celebram na profundesa do bosque o idyllio da sua

felicidade.

Em deredor ouve-se ás vezes um cantico, uma nota perdida; é uma phrase,

uma estrophe do poema do noivado. Por esse som, que o vento vai levando

de arvore em arvore, comprehende-se a sublimidade do mysterio que se

occulta dentro de quatro musgos entretecidos em abobada.

Tambem o palacio dos reis de Hespanha se convertera em ninho de

amorosos segredos. Alli se escondia o par venturoso, alli vivia no

remanso da sua felicidade

De dia em pensamentos que voavam,

De noite em dôces sônhos que mentiam.

Á volta d'esse éden de alegrias nupciaes ondejava Madrid, a inquieta.

Rumorejavam os _cafés_, projectando sobre as ruas a sua viva claridade

provocante; estrondeava nos theatros, em explosões de enthusiasmo, a

ardente sensibilidade peninsular, agitada pelas fundas commoções

dramaticas, quando a alegre vivacidade hespanhola não se desatava nas

francas gargalhadas e nos ruidosos applausos de uma comedia, temperada

com o sal malicioso da Hespanha. Nos circulos politicos discutia-se,

apostrophava-se, e envolvia-se no fumo azulado de um bom havano uma

theoria administrativa ou uma questão financeira. No Prado rodavam as

carruagens da velha nobreza, corcoveteavam os finos cavallos andaluzes,

sob o acicate dos nobres cavalleiros. A _manola_ passava agitando o

mundo com a sua ventarola travessa, a mocidade com o seu olhar

magnetico. Canovas del Castillo discursava brilhantemente no parlamento;

Campoamor sonhava _doloras_ encantadoras; Peres Escrich projectava

romances tão desejados pelos editores como pelo publico; Echegaray

planeava talvez um bello drama: a Hespanha, especialmente Madrid,

respirava o seu ar subtil, como diz a canção, e espanejava-se sob o seu

formoso sol resplendente.

No paço real, os noivos gorgeiavam as suas dôces confidencias. A

primeira familia das Hespanhas vivia na concentração das familias

obscuras e ditosas. Na camara nupcial, o grupo de bronze, que se

osculava, lia no livro do amor, a cada hora que o relogio marcava,

aquella deliciosa phrase cheia de promessas: _Para sempre_. As flôres do

dia das nupcias estavam frescas, rescendentes, quasi orvalhadas: se esse

dia ainda estava a tão pequena distancia! De vez em quando, como um

reflexo d'esse sanctuario de luz, partia do palacio real um sorriso da

caridade, que enchia de reconhecidas lagrimas os olhos da pobreza.

Começára a primavera, que é em toda a parte alegria. A formosura das

noites augmenta a felicidade como um microscopio feito de luar. Por

noites embalsamadas e serenas, os mais receiosos do futuro devaneiam

sonhos de vaga, de incomprehensivel esperança; que fará quem já se sente

feliz, quem já está no alto, e póde, por isso, vêr melhor o céo!...

Se D. Affonso XII não fôra um rei, mas simplesmente um hespanhol,

divagaria ao luar pelas ruas de Madrid, Mercedes ao lado, os braços

enlaçados; procurariam as ruas mais solitarias do Prado, fallariam do

futuro, arrulhariam como dois pombos namorados. Madrid vel-os-hia, e

elles não veriam Madrid. O rumor da inquieta cidade, que parece accordar

á noite, não os incommodaria; porque o amor sabe fazer silencio á volta

de si para se ouvir melhor...

Mas, rodeiado das prisões da côrte, impedido, como todos os reis, de ser

completamente livre, fechára no seu palacio as suas alegrias. Não era

rei senão por amar a Hespanha, que era tudo o que ainda lhe fazia

lembrar do mundo. Mercedes, contemplava a sua corôa de larangeiras, e

não se lembrava da outra de rainha. Murillo, se resuscitasse, não

saberia copiar aquella felicidade tranquilla.

Entretanto a aguia negra, que roçára a sua aza pelo tumulo de Prim,

trouxera-a de lá impregnada de uma poeira de morte, que sacudira sobre o

palacio real das Hespanhas. Essa poeira, como se fôra uma chuva de fogo,

crestára lentamente, invisivelmente as flôres do _boudoir_ de Mercedes.

Quem sabe se a pobre rainha, ao vêr languescer a primeira flôr do seu

noivado, não lêra nas pétalas desbotadas um vaticinio horrivel! Essa

flôr não podia ser por modo algum um symbolo do amor do rei; que esse

amor, tão profundo, tão ardente, tão raro, era indubitavelmente do amor

que fica quando as flôres emmurchecem. Mas, como sempre, essa pequenina

flôr era a imagem da morte: hontem sorrira ella no _bouquet_ nupcial de

Mercedes, hontem lançára sobre o vestido roçagante da rainha o reflexo

colorido da sua formosa corolla. Hoje derramára no ar a sua alma de

aroma, e passára. Porque não seria Mercedes como ella? Flor pela

formosura, tambem vivera hontem, hontem principalmente, no templo, ao

lado de Affonso, e aos pés de Deus. Essa grande commoção bem sentia a

rainha que devia ter consumido uma parte da sua alma; porque as

commoções são de fogo, queimam. Portanto, que lhe restava? Deixar-se

aniquilar como a flôr. Dar o seu ultimo olhar a Affonso, a sua

derradeira lagrima á Hespanha, a sua alma ao céo. Emquanto o amor e a

morte se digladiavam n'um duello terrivel, sangrento, talvez Mercedes

dissesse comsigo mesma: «Ha cinco mezes que ouvi nas ruas a um pobre

trovador popular que me saudava: Vai, rainha, tão bella como a flôr, sua

irmã pelas graças da formosura. Se é verdade o que elle disse, que Deus

receba a minha alma e proteja Affonso.» Depois, olhando por ventura

para o relogio da sua camara, pela primeira vez acharia uma significação

horrivel, atroz, n'aquella phrase outr'ora tão doce: _Para sempre!_

_Para sempre_, a eternidade, a separação completa, o cerrar dos olhos

nas trevas do sepulchro, o esfriar do coração para não mais aquecer.

De repente, os jornaes de Hespanha annunciáram que a rainha Maria de las

Mercedes havia enfermado gravemente.

* * * * *

AGONISANDO

XI

AGONISANDO

Era entrado o estio. Os grandes calores iam queimar as ultimas flôres

que estrellavam os campos. Uma febre terrível prostrára effectivamente a

formosa rainha de Hespanha. Nem as flôres do throno escapavam ao ardor

da sazão.

A Europa ficou dolorosamente surprehendida, alvoroçada com essa triste

noticia. Quando a vida de uma noiva corre perigo, parece que sente a

gente a oppressão de um dia de inverno em plena manhã de primavera. E

essa noiva era ao mesmo tempo uma rainha: tinha o triplice prestigio da

sua posição, da sua formosura e da sua virtude. Pertenciam-lhe tres

corôas: uma de ouro, porque era rainha; outra de larangeiras, porque

era noiva; a ultima de rosas, porque era bella. Profanar tres corôas de

uma só vez, affigurava-se uma impiedade, um crime. A enfermidade que

prostrou a rainha Mercedes pareceu desde logo um attentado da natureza

contra a natureza, um facto horrivelmente extraordinario.

No dia 24 de junho, porém, dia de festa para os povos da peninsula, a

rainha sentiu-se mais alliviada por noite dentro. Supposeram os medicos

vêr chegar um periodo de reacção favoravel. Pareceu que a natureza havia

comprehendido que não podiam os reis chorar nos dias assignalados ás

festas do povo.

Deslisou tranquilla a noite, e sobre a manhã pôde a rainha ser

transportada, nos braços dos que mais amava, para outro leito. Rodeiavam

a doente o rei, os duques de Montpensier, a princeza das Asturias, a

infanta Christina, a marqueza de Santa Cruz. Parece que os doentes

querem fugir á morte mudando de leito. O rei comprehendeu o que se

passava n'aquella alma gentil. Luctando pela vida, a rainha pensava mais

nos outros do que em si. Queria salval-os, sabia quão fundo pungiria no

coração da familia real a dôr de a vêr morrer.

Quando o corpo da rainha pendeu alquebrado sobre os braços de Affonso

XII, quizera o rei ser mais forte do que nunca. Não pôde. As lagrimas

brotaram em torrente. A rainha viu-as, e disse: _Vamos, Alfonso, no

llores ó me enfadaré._ Singular coragem do amor! O fraco tornara-se forte.

A doença do corpo e do espirito sopitára a rainha, que adormeceu

serenamente. Sobre o seu bello corpo adormecido pairou o sorriso de uma

esperança. Então alguns dos seus nobres enfermeiros foram descançar;

ficaram outros, de atalaya ao leito, seguindo com a vista o menor

movimento da physionomia, a menor alteração do semblante. Eram o marido

e a mãe. Não podia haver no mundo mais dedicados enfermeiros.

Um correspondente de Madrid, dando noticia do doloroso alvoroço que ía

na camara da rainha, dizia: «Os aposentos contiguos pareciam um

acampamento: a princeza das Asturias descançava no quarto de _toilette_

da rainha, o duque de Montpensier no salão carmezim, o cardeal Moreno no

salão amarello, o patriarcha das Indias no gabinete azul; e as pessoas

do serviço da côrte descançavam por differentes salas em _fauteils_ e

_divans_.»

Verdadeiro acampamento assestado contra a invasão da morte. Ao menor

gemido, despertavam os defensores d'aquella vida preciosa. A batalha era

de lagrimas e orações. Combatia-se pedindo; luctava-se chorando.

Começou a declinar a tarde, e o estado da rainha pareceu tornar-se

grave. Correu no acampamento a voz de alarme. Acudiu cada soldado ao seu

posto. A gravidade dos symptomas denunciou que era aquella uma lucta a

todo o transe. A cada passo que a morte dava para o leito oppunha-se-lhe

uma barreira de lagrimas, uma muralha de orações.

Um raio de sol poente doirava a camara real, animava muito a furto o

perfil das estatuetas, e dos retratos. Affigurava-se que tudo tinha

olhos para vêr, mas com um olhar nublado, afogado em lagrimas. Uma

photographia de Mercedes, voltada para o leito, parecia chorar a sorte

d'aquella noiva desventurosa, tão outra, tão demudada, que se não

conhecia a si propria...

Era aquelle o dia de S. João, o dia das trovas, dos risos, dos

vaticinios amorosos. Esse raio de sol era, portanto, como que um

pensamento de amor que penetrava a medo na camara de uma noiva moribunda.

Como se a morte estivesse esperando pela noite para atacar melhor, o

estado da rainha peiorava á medida que as horas passavam. Vem,

combatente traiçoeiro, pela calada da noite, pé ante pé, imprime o teu

beijo de gelo na fronte de uma pobre mulher, que tu prostraste no leito.

Fere, mata, sê impiedosa á vontade, mas sabe que não entras

despercebida, ó morte. Ha muitos olhos a espionarem-te nas trevas,

muitos corações a adivinharem-te no silencio. O leão de Florença foi

mais clemente do que tu: mostraram-lhe uma creança, e deteve-se. Aqui

tens tambem uma creança, dezoito annos apenas, e não páras, e não te

movem orações, e não te entristecem as lagrimas!

Nos botiquins, cheios de gente até hora muito avançada da noite, porque

a anciedade era geral, a noticia de que o perigo augmentára, deixára

todos assombrados. Um povo essencialmente poeta, como o de Hespanha, não

póde vêr morrer uma noiva com olhos enxutos. Madrid chorava áquella hora.

No palacio real, emquanto o conselho de ministros reunia para deliberar

em tão grave conjunctura, o patriarcha das Indias ministrava a santa

uncção á moribunda, e, fallando-lhe de Deus, perguntava-lhe se lhe

custava morrer: _Si, por Alfonso e por mis queridos padres_, respondia a

rainha. E havia apenas cinco mezes que aquella mesma voz solemne saudava

a noiva, e na noiva a rainha, na grande bazilica da Atocha, cheia de

flôres, de canticos, de scintillações...

A hora extrema pareceu chegada. Os medicos desalentaram. D. Affonso

participava pelo telegrapho a seus pais que a vida da rainha se julgava

perdida; os duques de Montpensier faziam igual participação aos condes

de Paris.

A doente parecia querer luctar contra a escuridão que lhe obumbrava o

cerebro. Aproveitava os raros instantes de lucidez para achegar a si a

cabeça do rei, para lhe beijar a mão.

E todavia já não podia fallar.

* * * * *

MORTA!

XII

MORTA!

Foi demorada, longa, a agonia da rainha. Os laços que a prendiam ao

mundo eram tão recentes, que foi preciso um grande esforço da morte para

os fazer estalar. Alem do que, não se vence facilmente o combate travado

com um exercito de affectos. O amor defende-se até á ultima barricada. E

os duques de Montpensier, que eram paes, estavam alli, á beira do leito,

firmes como sentinellas vigilantes; e D. Affonso XII, que era esposo,

estava alli tambem, immobilisado na estupefacção das grandes dôres,

tendo a mão direita poisada sobre a fronte da moribunda. As irmãs do rei

e da rainha faziam das suas lagrimas uma como ultima defeza. Quadro

verdadeiramente grandiosa em sua melancolica e commovente sublimidade!

Alvoreceu no céo de Hespanha a manhã do dia 26 de junho. Estava escripto

no livro dos destinos humanos, que fosse aquelle o ultimo dia da rainha.

Poucas horas poderia viver ainda, segundo o prognostico dos medicos.

Então o amor teve de se confessar vencido perante a morte. A esperança

na sciencia fugiu; veio substituil-a a esperança na misericordia de Deus.

A familia real orava de joelhos, n'um recolhimento profundo, solemne. Só

o rei não podia orar: a dôr paralysara-lhe a intelligencia e

embargára-lhe a voz. Conservou-se de pé, pallido e firme como uma

estatua, junto ao leito da rainha. Não houve pedidos, instancias, que

conseguissem arrancal-o d'alli. Dir-se-hia que o rei desejava que a

morte, ao vibrar o golpe decisivo, se enganasse na victima, e o

prostrasse a elle...

Entretanto a manhã ia seguindo o seu curso, se bem que no interior do

palacio real a manhã d'aquelle dia não fosse mais do que a continuação

de uma noite de horrores.

No vestibulo e nas galerias, enxameava silenciosamente um enorme

concurso de pessoas, que desejavam informar-se do estado da rainha. E as

que alli faltavam, tinham sido attrahidas aos templos pela voz plangente

dos campanarios.

Aproximou-se o meio dia, e a vida da rainha declinava rapidamente. Mais

um quarto de hora passado, e a rainha expirou. Então o rei pareceu

acordar de subito, agitado por uma commoção horrivel. Poisou na fronte

pallida de Mercedes o derradeiro beijo, e tirou-lhe do dedo, com uma

verdadeira delicadeza de noivo, o annel nupcial, que para sempre o

ligará áquelle formoso cadaver.

Todas as pessoas da côrte o rodeiaram, e piedoramente o obrigaram a

sahir d'alli. O rei deixou-se ir, como um authomato. Entrando nos seus

aposentos, mandou chamar o presidente do conselho de ministros, com quem

se demorou conferenciando largamente.

A esse tempo, o canhão annunciava á capital das Hespanhas que a rainha

Maria de las Mercedes era um cadaver.

O telegrapho communicava para França, á avó e aos paes do rei, a triste

noticia: «Roga a Deus pela alma da minha Mercedes, que está no céo. Teu

afflictissimo, _Affonso_».

Depois de conferenciar com Canovas del Castillo, o rei quizera

ficar só; as pessoas que de perto o vigiavam ouviam-n'o dizer: «Pobre

Mercedes! que rapida felicidade foi a nossa!»

Era ainda um dialogo com a rainha atravez do invisivel; as duas almas

viam-se e fallavam-se, tão distantes uma da outra!

O cadaver da rainha permaneceu na mesma camara em que ella tinha

expirado: alli havia nascido o rei Affonso, vinte annos antes.

Amortalharam-n'a com o habito de Nossa Senhora das Mercês, como pedira.

Para o triste noivado da sepultura não quiz a rainha outras galas. As

damas de honor fizeram guarda ao cadaver, durante a tarde e a noite.

Eram as mesmas que a tinham acompanhado á bazilica da Atocha, no dia do

casamento. Dir-se-ia que o cortejo das nobres damas só tivera tempo de

mudar de vestido, e que n'um instante se haviam transmudado em lagrimas

de luto as rosas do noivado.

Como que obedecendo a uma horrivel sina de familia, a rainha Maria de

las Mercedes alli estava adormecida no somno eterno, ella, a formosa;

sua irmã, a infanta D. Amalia, morrera em 1870, de enfermidade analoga,

e seu irmão, o infante D. Fernando, baloiçado sobre o tumulo por

igual motivo, fallecera um anno depois. Um vendaval de morte parece

esperar que a vida dos principes da casa de Montpensier seja chegada á

efflorescencia da mocidade para os revessar impiedosamente ao mysterio

da sepultura.

Ás duas horas e meia da tarde d'esse mesmo dia, reuniu o congresso

hespanhol na sala das suas sessões, sob a presidencia do snr. Ayala,

que, depois de lida a communicação da morte da rainha, por um dos

secretários, historiou á camara, com as mais encantadoras tintas que a

saudade sabe temperar, e como testimunha presencial, os pungentes

episodios do passamento de Mercedes. O congresso escutou-o n'um silencio

profundo, religioso.

A dôr que essa narração produziu em todos os animos conseguiu adormecer

todas as paixões politicas. A identidade do sentimento irmanára os

partidos n'essa hora dolorosa. O congresso, nomeando uma commissão que

fosse apresentar á familia real a expressão da magua que essa perda

irreparavel lhe causára, e resolvendo suspender os seus trabalhos, não

fez mais do que interpretar a dôr profunda que salteára o coração da

Hespanha.

O senado, que reuniu pouco depois, tomára identicas resoluções.

Á beira do leito funerario d'aquelle cadaver illustre não havia

outros murmurios que não fossem os das orações ciciadas por todos os

labios. O gigante da eloquencia parlamentar inclinára a fronte em

lacrimosa mudez. A politica embainhára as armas de combate, e

principiára a tecer a capella de rosas brancas que costuma engrinaldar a

cabeça das noivas mortas. O throno de S. Fernando cobria-se de longos

crepes. E sobre essa montanha de lucto, que a Hespanha inteira

contemplava, elle, o moço rei, na solidão moral da sua dôr, seguia ainda

com a vista embaciada de lagrimas a via lactea da saudade que a rainha,

ao voar para regiões ignotas, deixára semeada de estrellas, como um

traço luminoso das suas azas. Dil-o-ieis um velho chorando sobre ruinas.

Ruinas do coração, que são as mais tristes de todas ellas.

* * * * *

O FUNERAL

XIII

O FUNERAL

O cadaver da rainha de Hespanha foi transportado, na manhã do dia 27,

para o salão das Columnas. Depositaram-n'o sobre uma cama imperial, do

tempo de Filippe V, ao meio do salão, e poseram-lhe entre as mãos um

crucifixo de ambar.

Só a architectura da sala podia denunciar que estava alli a noiva do

rei, tão simples era a decoração d'esse quadro funebre.

Cerca das sete horas entrou no salão a familia real para assistir a uma

missa de corpo presente. Finda ella, abriram-se as portas de par em par,

e Madrid invadiu a capella ardente.

Os grupos paravam á beira do feretro, soluçantes e lacrimosos. Se a

rainha Mercedes podesse vêl-os e ouvil-os, morreria da alegria de vêr a

Hespanha identificada com o throno. Que tu, ó bella Hespanha das

tradições cavalheirescas, és como um grande oceano cujas ondas se

encapellam chocando-se. Luctas comtigo mesma, Hespanha, e a ti mesma te

dilaceras. És o pelicano das nações, o Saturno da Europa moderna. Se um

braço poderoso conseguisse, por entre sorrisos de brandura, imprimir um

movimento uniforme ás tuas correntes revoltas, tu serias completamente

feliz. E esse braço bem poderia ser o de Mercedes, que nos paizes

cavalleirosos como tu, faz mais o sorriso d'uma mulher do que a espada

de um conquistador. Mas essa bella hespanhola que te podera salvar, não

teve tempo siquer de principiar a sua grande obra de ternura. Eil-a

morta, amortalhada como uma pobre freira que baixasse ás catacumbas do

seu mosteiro.

Depois das sete horas da manhã do dia seguinte, o cortejo funebre

começou a desfilar pela praça do Oriente, _calle_ de Bailen, e demais

ruas de Madrid que conduzem á estação do caminho de ferro do norte.

O povo de capital das Hespanhas abria respeitosamente longas álas

para deixar passar esse prestito da morte. Um piquete de cavallaria, que

o precedia, encontrava passagem franca. Um respeito profundo continha as

impaciencias da multidão tão frequente n'estes lances.

Empós, uma banda marcial derramava sobre Madrid as notas plangentes de

uma marcha funebre. A musica, como quasi sempre acontece, traduzia em

todas as almas quanto ellas sentiam n'essa hora. E pela effusão das

lagrimas, que era geral, via-se que em todas as almas pungia a mesma dôr.

Seguiam-se os timbaleiros e cornetins das regias cavallariças, e os

respectivos criados, e empregados, de grandes fardas, e fumo no braço;

os cavallos de passeio da rainha, roçagando crepes; os cavallos de

estado; o estandarte da real irmandade; a cruz da capella real;

capellães, musicos e cantores; gentis-homens e officiaes-móres, oito

grandes de Hespanha, duques de Sexto e de Uceda, marquezes de Salamanca,

de Benemejis, de Malpica, de Valdegrana, de Monistrol, o conde de

Guaque; batedores, correios das cavallariças reaes, e, finalmente,

tirado por quatro parelhas de cavallos negros, o coche funebre, ladeado

pelo capitão-general de Madrid, Primo de Rivera, e seguido pelo

marquez de Santa Cruz, mordomo-mór da rainha, pelo notario-mór do reino

e ministro da justiça, Calderon Collantes, pelo patriarcha das Indias.

Este coche da morte, rodando vagarosamente, era recebido pelas lagrimas

da multidão, cuja commoção subia de ponto, quando os olhos cahiam

involuntariamente sobre o coche rico do rei, tirado por oito cavallos

brancos, o mesmo coche que cinco mezes antes conduzia no regresso da

Atocha o par enamorado atravez de uma chuva de flôres.

O corpo de alabardeiros, de uniformes resplendentes, a pittoresca guarda

real, de elmos scintillantes, e uma força de cavallaria fechavam o

derradeiro cortejo d'essa noiva mallograda.

O Romance da Rainha Mercedes · 第 2 / 3 段